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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


LI 


BURRHUS FREDERIC SKINNER 


CONTINGÊNCIAS DO REFORCO 
(CAPÍTULOS | VE VIL VIII) 


JEAN PIAGET 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 


SABEDORIA E ILUSÕES 
DA FILOSOFIA 


PROBLEMAS DE 
PSICOLOGIA GENÉTICA 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Títulos originais: 
B.F. Skinner: Contingencies of Reinforcement. 
Jean Piaget: L'épistémologie génétique — Sagesse et illusions de 
la philosophie — Problêmes de psychologie génétique. 


1.º edição — janeiro 1975 


é Copyright desta edição, 1975, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Textos publicados com licença de: Prentice Hall. New Jersey (Contingencies 
of Reinforcement); Presses Universitaires de France, Paris, 
e Editora Vozes Ltda., Petrópolis (L'epistémologie génétique); Presses Universitaires 
de France, Paris, e Difusão Européia do Livro, São Paulo 
(Sagesse et illusions de la philosophie); Denoél, Paris, e Companhia Editora 
Forense, Rio de Janeiro (Problêmes de psychologie gênétique). 
Traduções publicadas com licença de: Editora Vozes Ltda., Petrópolis 
(A epistemologia genética); Companhia Editora Forense, Rio de Janeiro (Problemas 
de psicologia genética); Difusão Européia do Livro, São Paulo 
(Sabedoria e ilusões da filosofia). 
Direitos exclusivos sobre a tradução de Contingencies of Reinforcement, 1974, 
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 


Sumário 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO (CAP. I, VI, VII, VIII 


DRCT 1 RR SD RT E Re 7 
NC EPISTE MOLOOLAGENE DIC Es pad um De OE NR) E PR DR a AR OCR NNE 1.27 
SABEDORIA E ILUSOES DA FILOSOS LA A pe Ar AE SR RESET E 8 A Ra 191 
PROBLEMAS DE PEICOLOGIA GENETIC A is dear Ava AR as AS GA RS a 337 


BURRHUS FREDERIC SKINNER 


CONTINGÊNCIAS DO REFORCO 
(CAPÍTULOS |, VI, VII, VIII) 


Seleção e tradução de Rachel Moreno 


* Traduzido do original inglês Contingencies of Reinforcement, New Jersey, Prentice Hall, 1969. 


CAPÍTULO I 


O papel do meio ambiente 


Há tempos atrás, pensava-se o meio ambiente como o simples lugar onde 
animais e homens viviam e se comportavam. Poderiam se comportar de maneiras 
distintas, em lugares diversos, mas não seria porque os lugares fossem diferentes. 
O ambiente era cenário imprescindível. que talvez favorecesse ou dificultasse o 
comportamento. mas não era o que determinava a sua ocorrência ou à sua forma. 
Um papel mais ativo só foi sugerido no século XVII, quando Descartes antecipou 
a noção de reflexo, e não foi senão no século XIX que os reflexos foram isolados 
e estudados. Nessa época os fisiólogos começaram a denominar de stimulus, 
termo latino para “aguilhão”, a ação do meio ambiente. À medida que os reflexos 
foram sendo descobertos e estudados, o termo adquiriu outras conotações. e seu 
uso foi ampliado quando Pavlov demonstrou de que maneira novos estimulos po- 
diam ser condicionados. A descoberta dos tropismos veio apoiar. particularmente 
nos escritos de Jacques Loeb. o ponto de vista de que, de uma maneira ou de 
outra, O meio forçava o organismo a se comportar. 

Tais foram os antecedentes dos quais nasceu a psicologia do estimulo-res- 
posta. John B. Watson usou o princípio do reflexo condicionado reunido com a 
noção anterior de hábito. Sustentava que animais e homens adquiriam novos 
comportamentos através do condicionamento e continuavam a se comportar 
enquanto os estímulos apropriados estivessem agindo. Esta posição científica foi 
desenvolvida sistematicamente por Clark Hull.' E. B. Holt sumariou-a assim: 
“Somos, de fato, cutucados ou aguilhoados pela vida afora”.? Não era fácil, entre- 
tanto, demonstrar que isso se aplicava a todos os comportamentos. Nem identi- 
ficar para todas as respostas, estímulos correspondentes. Algumas condições 
ambientais relevantes, tais como falta de alimento, não agiam como se fossem 
estímulos. O conceito original foi sendo substituído por algo muito menos preciso, 
chamado “situação estimuladora global”. De outro lado, igualmente perturbador, 
era o fato de que vários estímulos pareciam não ter efeito, embora obviamente 
atingissem a superfície do organismo. Inventou-se, então, um novo tipo de estimu- 
lo, chamado “pista” ou “indício”, e que tinha a curiosa propriedade de ser eficaz, 
apenas quando o organismo necessitava dele. (Os etólogos resolvem um problema 


* Clark L. Hull, Principles of Behavior, Nova York, D. Appleton-Century, 1943. 
2 E. B. Holt, Animal Drive and the Learning Process, Nova York, Holt, 1931. 


10 SKINNER 


similar da mesma forma, quando atribuem o comportamento não aprendido a- 
mecanismos “gatilho”, estímulos que agem apenas quando o organismo está car- 
regando ou pronto para responder.) 

Essa psicologia ficou sendo uma colcha de retalhos, destinada a salvar a fór- 
mula estimulo-resposta, e teve o efeito de levar a determinação do comporta- 
mento de volta para o interior do organismo. Quando não se podia encontrar esti- 
mulos externos, havia que inventar estímulos internos. 

Se a falta de alimento, no ambiente, não pode ser considerada um estímulo, 
era o caso de imaginar que, ao menos, gerava um “impulso” que espicaçasse o 
organismo por dentro. (A descoberta dos espasmos de fome parecia confirmar 
esta visão, mas uma estimulação comparável pelas vesículas seminais dilatadas, 
que Watson pensou pudesse explicar o comportamento sexual, era menos plausi- 
vel.) Variáveis emocionais levaram à criação de outros estímulos internos: o 
medo, por exemplo, tornou-se um impulso adquirido. Até mesmo os instintos 
tornaram-se estímulos, ponto de vista defendido, o que é muito curioso, por 
Freud. 

Também tiveram que ser inventados processos e mecanismos interiores. Se 
um estímulo conspicuo parecesse não ter efeito, era porque um porteiro central — 
uma espécie de demônio do Maxwell — havia recusado deixá-lo entrar. Quando 
o organismo parecia comportar-se apropriadamente em relação a estimulos há 
muito desaparecidos, dizia-se que respondia a cópias desses estímulos que tinham 
ficado armazenados em sua memória. Muitas dessas atividades centrais eram ver- 
sões mal disfarçadas dos processos mentais que a psicologia de estímulo-resposta 
tinha prometido exorcizar. De fato, continuaram a ser chamadas mentais (ou, em 
mudando a moda, cognitivas), numa formulação similar, derivada da teoria de 
informação. Substitua-se estímulo por entrada, e resposta por saída, e certos pro- 
blemas dimensionais estarão simplificados. Isto promete, mas não prometeu o 
suficiente, porque processos centrais ainda são necessários. As saídas seguem-se 
às entradas só depois de a entrada ter sido “selecionada”, “transformada”, “arma- 
zenada”, “recuperada”, etc. 


Além do estímulo e resposta 


Toda formulação dos comportamentos em termos de estímulo e resposta, ou 
de entrada e saída, sofre uma séria omissão. Nenhuma descrição do intercâmbio 
entre organismo e meio ambiente estará completa enquanto não incluir a ação do 
ambiente sobre o organismo depois da emissão da resposta. Que o comporta- 
mento pode ter consegiiências importantes, é fato que não passou despercebido, é 
claro. A filosofia do hedonismo insistia em que os homens trabalham para conse- 
guir prazer e evitar a dor, e os utilitaristas tentavam justificar o comportamento 
em termos de seus efeitos úteis. A teoria da evolução indicou a adaptação resul- 
tante ou ajustamento do organismo ao meio. Todavia o significado pleno das 
consequências só foi reconhecido lentamente. Talvez houvesse alguma dificuldade 
em compreender causas finais (como poderia ter efeito sobre o comportamento 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 11 


algo que ocorre depois?), mas a maior estava nos fatos. Todas estas regras, ou 
leis, tinham embaraçosas exceções. Os homens, às vezes, se comportam de manei- 
ra a provocar dor e destruir o prazer, ou, segundo formas de duvidosa utilidade lií- 
quida, ou trabalham contra a sobrevivência das espécies. Recompensas e castigos 
nem sempre têm efeitos predizíveis. Mesmo sabendo o quanto ganha uma pessoa, 
não podemos dizer o quanto ela trabalha. Mesmo sabendo que os pais de uma 
criança tratam-na com afeição, e os de outra, com as medidas disciplinares de 
um sargento, não podemos antecipar qual a criança que vai se conformar e qual 
se rebelará. Mesmo que possamos saber que um determinado governo é tirânico e 
outro, benevolente, não poderemos predizer qual o povo que vai se submeter e 
qual se revoltará. Muitos esforços têm sido feitos para explicar falhas semelhantes 
— por exemplo, inventando outros tipos de prazeres e dores — mas nunca 
logrando preservar a confiança nos princípios básicos. 

Um estado de coisas menos contraditório começou a emergir, quando a rela- 
ção temporal entre o comportamento e suas consequências foi submetida a escru- 
tínio. No famoso experimento de Edward L. Thorndike, um gato faminto, confi- 
nado numa gaiola, podia suspender uma tranca e abrir a porta; depois, escapar da 
gaiola e alcançar a comida que estava do lado de fora. Muitos aspectos desse 
arranjo merecem consideração. Fuga de uma gaiola e acesso à comida são conse- 
quências mais claramente especificadas do que qualquer ganho líquido ou vanta- 
gem última, e seguem-se imediatamente ao comportamento de suspender a tranca. 
De fato, as consequências quase coincidem com a descrição da resposta, e neste 
caso a questão de causas finais pode ser evitada. 

O que Thorndike observou foi que o comportamento de suspender a tranca 
ficava, como ele mesmo dizia, “estampado”. À medida que o experimento ia 
sendo repetido, Thorndike pôde observar como o gato conseguia suspender a tran- 
ca cada vez mais depressa, e registrar uma curva de aprendizagem. Não precisou 
supor que a própria resposta ficasse fortalecida de alguma forma. Podia estar 
ocorrendo mais rapidamente, simplesmente porque outros comportamentos do 
gato, na gaiola, foram sendo “apagados”. Uma resposta bem sucedida podia estar 
sendo selecionada por suas consegiências, da mesma maneira que na teoria da 
evolução, as mutações teriam sido selecionadas por suas contribuições à sobrevi- 
vência da espécie em questão. (Esta interpretação do efeito seletivo das conse- 
quências continuou a ser mantida por Edwin R. Guthrie.) 

Uma simplificação do experimento torna o processo ainda mais claro. O uso 
de uma gaiola na qual um rato faminto possa abaixar uma alavanca e, com isso, 
imediatamente obter alimento, fica claramente dentro da tradição experimental de 
Thorndike. A resposta é mais simples, contudo, e a consequência é imediatamente 
contingente, pelo menos se um reforço condicionado, tal como o som do alimenta- 
dor, estiver presente. Mas há um aspecto mais importante: ao adaptar bem o rato 
à gaiola, antes da instalação de uma barra ou alavanca, a maior parte dos 
comportamentos concorrentes pode ser “apagada” antes que a resposta a ser 
aprendida seja emitida. No registro do comportamento do rato, a curva de apren- 
dizagem de Thorndike, mostrando o desaparecimento gradual dos comporta- 


po SKINNER 


mentos mal sucedidos, desaparece. Em seu lugar fica uma mudança conspícua, na 
ocorrência da própria resposta bem sucedida: um aumento imediato de frequên- 
cia, quase sempre bastante abrupto, quando descrito em uma curva traçada sobre 
intervalos de tempo.* 

Usar a frequência de resposta, como variável dependente, tornou possível 
observar mais adequadamente as interações entre um organismo e o seu ambiente. 
Os tipos de consegiiência, que aumentam a frequência ou o nível (“reforçadores”), 
podem ser positivos ou negativos, dependendo de serem reforçadores quando apa- 
recem, ou quando desaparecem. A classe de resposta, em relação às quais o refor- 
ço é contingente (cuja fregiência de emissão depende de reforços), chama-se ope- 
rante, para sugerir a ação sobre o ambiente, seguida de reforço. Construímos um 
operante ao tornarmos um reforço contingente a uma resposta, mas o fato impor- 
tante, quanto à unidade resultante, não é a sua topografia, mas a sua probabili- 
dade de ocorrência, observada como nível de emissões. Os estímulos anteriores 
não são irrelevantes. Qualquer estímulo presente, quando um operante for reforça- 
do, adquire o controle, no sentido de o nível de respostas ser superior na presença 
dele. Tal estímulo não age como aguilhão; não alicia a resposta, no sentido de for- 
çá-la a ocorrer. É simplesmente um aspecto essencial da ocasião em que uma res- 
posta, se for emitida, será reforçada. Para marcar a diferença, vamos chamá-lo 
estímulo discriminativo (ou S”). 

Uma formulação das interações entre um organismo e o seu meio ambiente 
para ser adequada, deve sempre especificar três coisas: (1) a ocasião na qual ocor- 
reu a resposta, (2) a própria resposta e (3) as consegiências reforçadoras. As rela- 
ções entre elas constituem as “contingências de reforço”. Este conceito caracte- 
riza as propriedades do ambiente que Tolmen e Brunswik deviam estar tentando 
identificar, quando falavam de “textura causal”.* As inter-relações são muito 
mais complexas do que as que ocorrem entre um estímulo e uma resposta, e são 
muito mais produtivas tanto nas análises teóricas, como nas experimentais. O 
comportamento gerado por um conjunto dado de contingências pode ser conside- 
rado cientificamente, sem que se tenha de apelar para estados ou processos inter- 
nos hipotéticos. Se um estímulo conspícuo não tiver efeito, não será porque o 
organismo não o notou, ou porque não foi isolado por algum porteiro central, mas 
porque o estímulo não teve um papel importante nas contingências que prevale- 
ceram no momento da resposta. º Os demais processos cognitivos invocados para 
salvar uma fórmula de entradas e saídas podem ser descartados da mesma forma. 

Em um laboratório para o estudo do comportamento operante, as contin- 
gências de reforço são deliberadamente arranjadas e seus efeitos, observados. O 
espaço experimental contém vários estímulos controláveis, equipamento para 


* B. FF. Skinner, The Behavior of Organisms, Nova York, Appleton-Century, 1938. 

* E.C. Tolman e E. Brunswik, “The organism and the casual texture of the environment”, Psychol, Rev., 42, 
1935, pp. 43-77. 

* Uma forma mais ativa de atenção é analisada como uma seqiiência de contingências; prestar atenção é o 
comportamento antecedente aceito, tendo o efeito de mudar os estimulos. Um pombo mudará a forma ou cor 
de um padrão visual se as contingências nas quais é reforçado forem melhoradas. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 13 


registro de respostas e um ou mais reforçadores. As inter-relações específicas 
entre essas coisas são mantidas por retransmissores, cronômetros, calculadoras, 
analisadores de frequência, etc. (O desenvolvimento deste equipamento, durante 
os últimos vinte e cinco anos, dá um bom testemunho da complexidade crescente 
das contingências que foram submetidas à análise.) O comportamento é, geral- 
mente, anotado poligraficamente, num registro cumulativo, onde tanto a 
frequência constante, como a mudança de fregiência, num intervalo de tempo 
substancial, podem ser percebidas num relance, mas os pormenores são esclare- 
cidos posteriormente, ao se analisar o tempo decorrido entre as respostas. Algu- 
mas contingências requerem processamento do comportamento por computadores 
em linha. Com o auxílio de tal equipamento, juntamente com as técnicas experi- 
mentais para o qual foi destinado, começamos a ver as contingências de reforço. 

É difícil vê-las com qualquer outro procedimento. Suponha que se peça a um 
observador que nada sabe da análise do comportamento, para que olhe para um 
espaço experimental típico, enquanto ocorre um experimento. Verá um pombo, 
digamos, ocasionalmente bicando um dentre vários discos coloridos numa parede, 
e poderá notar que o pombo bica os discos distintos, com frequências distintas. As 
cores dos discos mudam de tempos em tempos, a cada mudança será provavel- 
mente seguida de alterações visíveis na frequência. Um comedouro é acionado 
ocasionalmente, e o pombo come, e o nosso observador infere (possivelmente 
errando) que o pombo estava sem comer até há pouco. O comedouro é acionado 
geralmente logo após a emissão da resposta, mas não necessariamente após a res- 
posta a um disco de uma determinada cor, e de qualquer modo, apenas muito 
infrequentemente. 

Nosso observador sentirá dificuldade em achar algum sentido nesses fatos 
esparsos. Ele observou um organismo que se comporta a partir do que parece ser 
uma posição vantajosa, quase ideal. Durante um período substancial de tempo viu 
o aparecimento de vários estímulos, respostas e reforços. Permanece o fato de que 
a observação direta, não importando quão prolongada, diz-lhe muito pouco do 
que está ocorrendo. Ele estará bastante despreparado para a informação adicional 
encontrada num registro cumulativo simples, onde, pela primeira vez, poderá esti- 
mar acuradamente a frequência de respostas, comparar as diversas frequências, e 
acompanhar as acelerações que agora são óbvias. Ele não teve, claro, nenhuma 
das informações sobre a história recente do pombo, encontrável no diário do expe- 
rimento. Sobretudo, poderá apenas suspeitar vagamente das interdependências 
entre os estímulos, as respostas e os reforços, que poderá agora descobrir, exami- 
nando o equipamento de controle. 

Se nos lembrássemos do tempo que se levou para identificar-se a ação causal 
do ambiente no reflexo simples, talvez não ficássemos surpreendidos de termos le- 
vado mais tempo para descobrir as contingências de reforço. A tradicional visão 
antropocêntrica do comportamento humano não encoraja a olhar o ambiente sob 
esta luz, e os fatos em si estão longe de ser óbvios. E, agora, vamos pedir ao nosso 
observador que olhe o ambiente em redor, onde animais e homens vivem e se com- 
portam sob contingências muito mais complexas do que as que jamais foram sub- 


14 SKINNER 


metidas à análise experimental. Se ele não póde ver o que estava ocorrendo num 
espaço experimental relativamente simples, como podemos esperar que entenda o 
comportamênto que vê no mundo ao seu redor? E todo mundo esteve na mesma 
posição até muito recentemente. 

É apenas quando analisamos o comportamento sob contingências conheci- 
das de reforço que podemos começar a ver o que ocorre na vida cotidiana. Fatos 
que inicialmente desprezamos, começam a comandar a nossa atenção, e coisas 
que inicialmente nos chamavam a atenção, aprendemos a descontá-las ou ignorá- 
las. A topografia do comportamento, não importa o quão fascinante, fica em 
segundo lugar frente às evidências de probabilidade. Um estímulo não é mais um 
mero início ou término conspícuo de uma troca de energia, como na fisiologia do 
reflexo; é parte da ocasião na qual uma resposta é emitida e reforçada. Reforço é 
muito mais do que “ser recompensado”; a predominância da probabilidade de 
reforço, particularmente sob vários esquemas intermitentes. é que é a variável 
importante. Em outros termos, não mais encaramos o comportamento e o am- 
biente como coisas ou eventos separados, mas nos preocupamos com a sua inter- 
relação. Procuramos as contingências de reforço. Podemos então interpretar o 
comportamento com mais sucesso. 

Os princípios do hedonismo, utilitarismo e adaptação não estavam errados, 
simplesmente não tinham exatidão. É verdade que os homens trabalham por 
dinheiro e afeição, e para evitar a punição (chicote), e que buscam a felicidade e 
procuram o alívio da dor. Num nível comparável, é verdade que a água ferve 
quando aquecida, congela quando esfriada, corre colina abaixo e é absorvida por 
uma esponja. Todos estes são fatos observados. Têm seus usos práticos, e são 
importantes nos primórdios de uma ciência, mas a ciência avança rapidamente 
para uma análise mais precisa, e o mesmo deve ocorrer com uma tecnologia 
eficaz. 


A interpretação do comportamento 


O comportamento verbal é um campo no qual o conceito de contingências de 
reforço tem provado ser particularmente útil. Os fatos conspícuos neste campo 
são o comportamento de pessoas falando, ou melhor, o seu produto audível. A 
maioria dos linguistas aceita que isso seja objeto de seu estudo: uma língua é a 
totalidade das sentenças ditas nela. De uma maneira não comprometedora, diz-se 
que a fala é questão de “vocalizações”. 

Amostras para estudo podem ser obtidas de qualquer pessoa que fale a lín- 
gua. possivelmente o próprio lingiista. A topografia do comportamento pode ser 
analisada acusticamente, foneticamente e fonemicamente e nestas estruturas 
gramaticais e sintáticas maiores, chamadas sentenças. O ambiente não é ignora- 
do, é claro. Com efeito, fonemas e sentenças aceitáveis não podem ser definidos 
simplesmente como aspectos da topografia porque implicam efeitos sobre o 
ouvinte. O ambiente é aquilo a respeito de que as sentenças falam, mas a relação 
a que se alude não é analisada além do nível de significado ou referência. O signi- 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 15 


ficado de uma expressão é tanto qualquer característica da ocasião na qual foi 
expressa, como qualquer efeito que possa ter tido sobre o ouvinte. Uma das ver- 
sões mais simplificadas da fórmula de entrada e saída descreve a relação de ora- 
dor para ouvinte como aquela na qual o orador transmite informação ao ouvinte, 
ou comunica-se com ele, no sentido de tornar algo comum a ambos. 

Dadas essas restrições, não é surpreendente que os linguistas e psicolin- 
guistas não tenham conseguido explicar simplesmente por que os homens falam, 
por que dizem o que dizem, ou dizem-no de determinadas formas. Nem tampouco 
surpreende que se tenham voltado para os precursores mentalistas. Um orador usa 
determinada palavra porque tem a intenção de exprimir um significado. Compõe 
uma sentença (em parte, aplicando regras de sintaxe possivelmente inatas) para 
exprimir uma idéia ou proposição. A estrutura da linguagem refletiria a estrutura 
do pensamento. Este tipo de psicologismo foi sabiamente rejeitado pelos linguistas 
no princípio do século, mas os esforços para encontrar uma alternativa comporta- 
mental, particularmente por parte de Leonard Bloomfield, º fracassaram por causa 
das deficiências da psicologia de estimulo-e-resposta. O resultado foi um estrutu- 
ralismo puro, ou uma volta às explicações mentalistas tais como as dos gramá- 
ticos gerativos. 

O conceito de contingências de reforço leva a uma formulação muito mais 
útil. Uma língua não são as palavras ou sentenças “faladas nela”; trata-se da 
“ela” na qual são faladas — as práticas da comunidade verbal que modelam e 
mantêm o comportamento dos oradores. As contigências verbais têm a mesma 
posição que as contingências mantidas pelo equipamento de laboratório, mas 
envolvem o comportamento de um segundo organismo, o ouvinte, e o comporta- 
mento que elas assim geram tem muitas características incomuns. São as contin- 
gências que prevalecem numa determinada comunidade verbal o que “gera senten- 
ças”. Modelam e mantêm as propriedades fonêmicas e sintáticas do 
comportamento verbal e são responsáveis por uma ampla variedade de caracteris- 
ticas funcionais — da poesia à lógica. E assim o fazem sem o auxílio da mente do 
orador ou do ouvinte. ? Nenhuma análise da mera estrutura do discurso ou língua 
pode proceder assim, ainda que enriquecida com uma formulação de entrada e 
saída. 

A Jingiística estrutural é apenas um exemplo do movimento na etnologia, 
antropologia e sociologia, representadas mais claramente no trabalho de Claude 
Lévi-Strauss.º Refere-se às coisas conspicuas numa cultura: o que as pessoas nela 
fazem. Os homens sempre ficaram intrigados com costumes e hábitos, especial- 
mente das culturas que diferem grandemente da própria. Descrevem o modo de 
vida de outros povos — sua vida familiar, seus sistemas de laços sanguíneos, suas 
tecnologias, suas práticas sociais etc. Relatam os fatos simplesmente como tais, 
ou analisam sua estrutura, ou colecionam e comparam diferentes estruturas. 


8 L. Bloomfield. Language, Nova York, Holt. 1933. 
7 B.F. Skinner. Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 
8 C. Lévi-Strauss, Structural Anthropology, Nova York, Basic Books, 1967. 


16 SKINNER 


Sartre criticou o resultado como sendo “estático”, mas não é movimento que 
lhe falta, é função. Eventualmente podemos perguntar por que as pessoas se com- 
portam à sua maneira peculiar. Não é suficiente dizer que um costume é seguido, 
simplesmente porque é costumeiro segui-lo. Nem é suficiente dizer que as pessoas 
se comportam como o fazem por causa de sua maneira de pensar. Para entender 
o comportamento dos selvagens, devemos fazer algo mais do que entender “a 
mente selvagem”. 

Malinowski foi dos primeiros a argumentar que os costumes são seguidos 
por causa de suas consequências, e podemos agora formular esta posição funcio- 
nal de uma maneira mais compreensível. Uma cultura não é o comportamento das 
pessoas “vivendo nela”: é “aquilo” em que elas vivem — as contingências do 
reforço social que geram e mantêm o seu comportamento. (As contingências são 
mantidas por outros membros do grupo, cujo comportamento ao mantê-las é pro- 
duto das contingências anteriores, assim como o comportamento do ouvinte na 
modelagem e manutenção do comportamento do orador é o produto das contin- 
gências anteriores na comunidade verbal.) Registrar o que fazem as pessoas numa 
cultura é um passo importante — mas é apenas um primeiro passo — na desco- 
berta de por que o fazem. As regras que foram extraídas das contingências, e usa- 
das para mantê-las, são úteis para os que estudam uma cultura, mas geralmente 
representam apenas as contingências mais óbvias. Contingências mais sutis 
podem nem sequer ser suspeitadas por um longo tempo. São entretanto o assunto 
principal da antropologia e sociologia. 

Um movimento comparável na ciência política é o chamado “comportamen- 
talismo”. Representa também uma reação compreensível ao psicologismo prema- 
turo. O “comportamentalista” confina-se aos aspectos topográficos do comporta- 
mento político, que podem ser medidos com equipamentos e técnicas empíricas. 
Não é surpreendente que um simpósio sobre “os limites do comportamentalismo 
na ciência política” se queixe de negligência de experiências subjetivas, idéias, 
motivações, sentimentos, atitudes, etc. São de fato negligenciados, mas não decor- 
re daí que as ciências políticas devam se voltar para isto. É verdade que o compor- 
tamento político não pode ser compreendido simplesmente em termos de sua 
topografia, como o comportamentalismo parece implicar, mas o de que se precisa 
não é de uma explicação mentalista, mas de uma análise posterior das contin- 
gências políticas de reforço. 


A manipulação do comportamento 


Quando as variáveis descobertas numa análise experimental provam ser 
manipuláveis, podemos nos aventurar além da interpretação para o controle do 
comportamento. O controle prático já é lugar-comum no laboratório operante, 
onde o comportamento é frequentemente manufaturado segundo especificações e 


9 | C. Charlesworth, The Limits of Behaviorism in Political Science, Filadélfia, American Academy of Poli- 
tical and Social Sciences, 1962. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 1 


mudado praticamente à vontade. A topografia é modelada e mantida; a frequência 
de respostas, aumentada ou reduzida; os estímulos são postos sob controle; e 
constroem-se padrões complexos e sequências de respostas. Portanto, em estando 
interessados em visão, estabelecemos contingências que garantam que um deter- 
minado organismo olhará para o estímulo num momento dado. Se nos interes- 
sarmos pelas emoções, tiraremos uma linha de base padrão, em contraste com a 
qual os efeitos específicos serão perceptíveis. Em nos interessando por obesidade, 
disporemos contingências especiais sob as quais um organismo comerá demasia- 
do. Se nos interessarmos pelo sono, disporemos as contingências que mantenham 
um organismo desperto por longos períodos de tempo, ao fim dos quais ele 
imediatamente adormece. Se estivermos interessados no sistema nervoso, estabele- 
ceremos padrões de comportamento que são alterados por lesões ou estimulação 
central. Em nos interessando por novos compostos farmacêuticos, geraremos um 
comportamento que é afetado por drogas específicas, de maneiras especificas. 

Todas essas práticas têm uma relação com o controle do comportamento hu- 
mano no mundo, que, é claro, é muito mais importante. As técnicas tradicionais 
de controle sofrem das insuficiências das teorias em que se baseiam. Superenfa- 
tizam fatos conspícuos — a topografia do comportamento ao invés de sua proba- 
lidade e variáveis independentes que têm efeitos imediatos e óbvios. O conceito de 
contingências de reforço levou a uma tecnologia do comportamento muito mais 
eficaz, da qual podemos citar alguns exemplos. 

Educação. A topografia do comportamento de um aluno é a mais clara evi- 
dência de que ele sabe alguma coisa, e tem sido sempre superenfatizada. Na edu- 
cação clássica grega e chinesa, ensinavam-se os meninos a recitar trechos de gran- 
des obras literárias e, quando eles o conseguiam, não se duvidava da eficiência do 
professor. Atualmente, não mais exigimos muita recitação literal, mas a nossa 
preocupação pela resposta correta é do mesmo tipo. Já que o professor é reforça- 
do, quando o aluno responde corretamente, tentará lançar mão de técnicas que o 
induzam a fazê-lo, mas a probabilidade de que o aluno responda de forma similar 
no futuro (“vai usar o que sabe”) é negligenciada.'º 

Os professores têm tradicionalmente usado apenas as medidas ambientais 
mais conspícuas. A vergasta e o açoite marcam uma longa história de controle 
aversivo, que ainda não chegou ao fim. A maioria dos estudantes ainda estuda, re- 
cita e presta exames principalmente para evitar as conseglências do não fazê-lo. 
As conseglências podem ter sido moderadas, mas são entretanto suficientemente 
aversivas para ter efeitos colaterais perturbadores. A simples permissividade não 
constitui uma alternativa eficaz, e reforços positivos forçados, tais como boas 
notas, graus, diplomas e prêmios dificilmente podem ser tornados contingentes ao 
comportamento de maneira eficaz. 

Ensino é o arranjo das contingências de reforço que acelera a aprendizagem. 
Um aluno aprende sem que lhe ensinem, mas aprenderá mais eficientemente sob 
condições favoráveis. Os professores sempre dispuseram contingências eficazes 


'º B. F. Skinner, The Technology of Teaching, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1968. 


18 SKINNER 


toda vez que ensinaram com sucesso, mas estarão mais propensos a fazê-lo se 
entenderem o que estão fazendo. A instrução programada é uma técnica tomada 
diretamente do laboratório operante, e tem por fim maximizar o reforço associado 
ao controle bem sucedido do ambiente. Um programa é um conjunto de contin- 
gências que modelam a topografia da resposta e pôem o comportamento sob o 
controle de estimulos de maneira diligente. Um arranjo igualmente importante é o 
das contingências de reforço na sala de aula, que se encarrega da função 
“disciplinar”. 

Psicoterapia. O comportamento freglentemente bizarro do psicótico natural- 
mente chama a atenção. Quer seja considerado como distúrbio a ser tratado ou 
como sintoma de uma perturbação subjacente de outro tipo, buscam-se nele “sig- 
nificados”. Perscruta-se O significado na gesticulação do psicótico ou no compor- 
tamento autodestrutivo da criança autista. O importante num psicótico, entre- 
tanto, não é o que ele faz, mas o que ele não faz. O comportamento que apresenta 
é “anormal” simplesmente porque não é característico da situação. Poderia não 
ser absolutamente notado, caso o comportamento normal fosse mais forte. O pro- 
blema não consiste em achar na estrutura do comportamento observado algum 
indício de como fazê-lo desaparecer, mas, antes, em exigir o comportamento que 
está faltando. 

As medidas tradicionais têm sido talvez até mais aversivas do que as utiliza- 
das na educaão. Algumas das formas mais extremas partiram de teorias de pos- 
sessão demoníaca; outras eram simplesmente versões intensificadas das práticas 
cotidianas de supressão do comportamento indesejado. Os efeitos colaterais do 
controle aversivo têm causado problemas, tendo sido propostas muitas reformas. 
A permissividade simples é raramente possível, e reforços personalizados, tais 
como afeição genuína ou sintética, são dificilmente tornados contingentes ao 
comportamento desejado. 

Quando o psicótico mostra uma insensibilidade às contingências normais de 
reforço, deve-se construir um ambiente no qual ele seja passível de resposta. 
Odgen R. Lindsley chamou tal ambiente de “prostético”." 

Na “economia de cartões” utilizada na administração de enfermaria, por 
exemplo, os reforçadores especiais são contingências conspícuas condicionadas. 
Um cartão tem uma posição física bem definida, tornando-se um reforço condi- 
cionado poderoso, quando trocado por outros reforços, e pode ser contado como 
contingente ao comportamento desejado. 

Nem sempre a sensibilidade do psicótico às contingências é que se revela 
deficiente, mas as próprias contingências. Um experimento bem conhecido na 
administração de enfermaria, de Ayllon e Haughton!? mostra de que modo tais 
contingências podem ser melhoradas. Necessitava-se de muitos atendentes para 
levar trinta mulheres esquizofrênicas ao refeitório na hora das refeições, o que le- 


" O. R. Lindsley, “Direct measurement and a prosthesis of retarded behavior”, J. of Education, 147, 1964, 
pp. 62-81. 

'2 T. Ayllon e-E. Haughton, “Control of the behavior of schizophrenic patients by food”, J. Exp. Anal. 
Behav., 5, 1962, pp. 343-352. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 19 


vava trinta minutos para ser feito. Mudaram-se as contingências. Os atendentes 
não deviam fazer mais nenhum esforço para mover as pacientes. Qualquer 
paciente que entrasse no refeitório durante a meia hora consequente ao toque do 
sino podia comer, mas as demais continuavam sem comida, e não havia outro ali- 
mento disponível. Na primeira refeição, apenas poucas pacientes alcançaram a 
sala de jantar, mas eventualmente acabaram todas por fazê-lo. O tempo permitido 
foi então progressivamente encurtado, de meia hora a cinco minutos. Ao fim do 
experimento, todas as pacientes iam à sala de jantar em cinco minutos, sem o 
auxílio dos atendentes. 

O experimento ilustra muitos pontos importantes na interpretação e manipu- 
lação de contingências de reforço. Numa enfermaria desse tipo, a atenção pessoal 
de um atendente é geralmente um reforço forte, mas é frequentemente contingente 
apenas a uma confusão mediana. (Lida-se com a bagunça séria de outras manei- 
ras.) Durante a maior parte do dia, o atendente pode evitar reforçar os pacientes, 
quando estes fazem bagunça, ignorando-os, mas isso é impossível quando ele é 
responsável por levá-los à sala de jantar. De fato, o sino do jantar dava aos 
pacientes um poder especial; eles podiam agora evocar reações nos atendentes, 
recusando-se mover, movendo-se na direção errada, etc. Quando as contingências 
foram mudadas, estes comportamentos não eram mais reforçados, e um novo 
reforço pôde então entrar em cena. A comida institucional não é sempre reforça- 
dora, mas torna-se reforçadora quando o paciente está faminto. Os pacientes 
começaram a se dirigir à sala de jantar, não para evitar ou escapar da ação media- 
namente aversiva dos atendentes, mas porque eram positivamente reforçados pela 
comida. Uma vez estabelecido, o comportamento não necessitou de um nível espe- 
cial de privação. Tenderia mais a ser classificado como comportamento aceitável 
na cultura. O experimento não é, obviamente, uma solução a todos os problemas 
de administração de enfermaria, mas mostra de que modo uma mudança de 
contingências de reforço pode resolver alguns problemas e mesmo levar a um tipo 
de terapia. 

Economia. O comportamento de um empregado é importante para o empre- 
gador, que ganha quando o empregado trabalha deligente e cuidadosamente. De 
que maneira ele será induzido a fazê-lo? A resposta padrão já foi força física: os 
homens trabalhavam para evitar castigo ou morte. Os efeitos colaterais eram 
perturbadores apesar disso, e a economia foi talvez o primeiro campo no qual se 
fez uma mudança explícita para o reforço positivo. A maioria dos homens traba- 
lha, como dizemos, “por dinheiro”. Mas muitos problemas se mantêm, e têm seus 
paralelos no laboratório operante. 

O dinheiro não é um reforçador natural; deve ser condicionado como tal. O 
reforço retardado, tal como em pagamentos semanais, coloca um problema espe- 
cial. Ninguém trabalha na segunda de manhã por ser reforçado por um cheque na 
sexta-feira à tarde. O empregado, que é pago por semana, trabalha durante a se- 
mana para evitar perder o padrão de vida que depende de um pagamento semanal. 
Um supervisor que possa despedi-lo é parte essencial do sistema. A taxa de traba- 
lho é determinada pelo supervisor (com ou sem espaçamento de estímulos de uma 


20 SKINNER 


linha de produção), e contingências aversivas especiais mantêm a qualidade. O 
padrão é, portanto, ainda aversivo. Mostrou-se fregientemente que a atitude do 
trabalhador de linha de produção em relação a seu trabalho, difere conspicua- 
mente da do artesão, que é igualmente invejado pelos trabalhadores e pelos geren- 
tes de indústria. Uma explicação é a de que o artesão seria reforçado por mais do 
que consequências financeiras, mas outra diferença importante coloca-se quando 
um artesão gasta uma semana completando um objeto dado, do qual cada parte. 
produzida durante a semana, seria automaticamente reforçadora pelo lugar que 
ocupa no objeto completo. 

De alguma forma, melhores contingências de reforço estão presentes num 
esquema de reforço baseado em contadores em vez de relógios. Num esquema de 
pagamento por peça, o trabalhador é pago por cada item produzido. Este é o 
assim chamado esquema de razão fixa, e gera um alto nível de atividade. O refor- 
ço por peça é, de fato, tão poderoso, que tem frequentemente sido mal usado, e 
sofre a oposição dos que se preocupam com o bem-estar do trabalhador (e pelos 
próprios trabalhadores, quando, por exemplo, estabelecem quotas diárias). Um 
vendedor com salário fixo e comissão é um exemplo de uma forma de incentivo 
que é a combinação dos esquemas baseados nos relógios e contadores. Os paga- 
mentos de incentivos cafram em desgraça atualmente, possivelmente por terem 
sido também mal usados, mas necessitam ser investigados como alternativas 
promissoras ao controle aversivo. 

Um esquema particularmente eficaz é o central a todos os jogos de azar. 
Considere um quarto cheio de pessoas jogando bingo. Os jogadores sentam-se 
quietamente por muitas horas; ouvem com muito cuidado quando se cantam os 
números e letras; eles providenciam marcadores nas cartas rápida e acurada- 
mente; e respondem instantaneamente quando um padrão particular tiver sido 
completado. O que a indústria não daria por trabalhadores que se comportassem 
assim? E o que não dariam os trabalhadores por um trabalho que os absorvesse 
tão completamente? (O artesão, a propósito, estã sob forte controle de esquemas 
de razão.) 

Outras contingências econômicas induzem os homens a comprar e vender, 
alugar e assalariar, emprestar e tomar de empréstimo, fazer prospectos, inventar, 
promover, etc. A força da cultura depende substancialmente dos resultados, e não 
é acidental fazermos algumas perguntas básicas sobre as culturas em termos de 
suas contingências econômicas. Ainda que os padrões distintivos do capitalismo, 
socialismo, comunismo, e outros sistemas econômicos sejam mais frequentemente 
atribuíveis à geografia, recursos naturais, formas de governo, e teorias políticas do 
que a uma tecnologia baseada numa análise científica do comportamento econô- 
mico. A riqueza de uma cultura depende do comportamento produtivo de seus 
membros. É um recurso natural vergonhosamente negligenciado, porque uma ver- 
dadeira tecnologia econômica está ainda por ser imaginada. Os princípios básicos 
estão disponíveis numa análise experimental do comportamento. 

Governo. Os governos são especialmente ligados a práticas aversivas. Numa 
determinada época, o Estado podia ser definido como o poder de punir. A possibi- 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 21 


lidade de reforço positivo era ignorada. É verdade que Gulliver achou uma exce- 
ção em Lilliput, onde “quem quer que seja que possa trazer provas suficientes de 
ter estritamente observado as leis de seu país por setenta e três luas, tem direito a 
reivindicar certos privilégios, de acordo com sua qualidade e condição de vida, 
com uma quantia proporcional de dinheiro de um fundo apropriado para tal fim”, 
mas tratava-se de ficção — e ainda não se transformou em realidade. Os governos 
modernos manipulam amplas quantidades tanto de reforçadores positivos como 
negativos, mas negligenciam seriamente as contingências em ambos os casos. O 
comportamento a ser reforçado é raramente definido, quer em questões domésti- 
cas, quer internacionais. A maioria das decisões governamentais ainda é tomada 
com base em analogias históricas e experiências pessoais formuladas de maneira 
mentalista. As guerras, diz-nos a UNESCO, começam nas mentes dos homens. 
Uma guerra particularmente infeliz é dita ser resultado de “má percepção”.'3 A 
violência nas ruas é atribuída à “frustração”. Isto é psicologismo perigoso. É 
indubitavelmente difícil dispor contingências de reforço para resolver problemas 
dessa magnitude, porque as decisões devem ser frequentemente tomadas, aqui e 
em outros lugares, sem informação adequada, mas o pensamento não-científico 
não é a solução. A ação política é sempre uma questão de manipulação das 
contingências de reforço, e uma compreensão das contingências e seus efeitos tra- 
riam melhorias dramáticas. 

Vida cotidiana. As técnicas de educação, psicoterapia, economia, governo, 
são todas encontradas em miniatura na vida cotidiana. Os membros de um grupo 
ensinam uns aos outros, tornam o ambiente dos outros mais fácil de nele se viver, 
induzem um ao outro ao trabalho e troca de bens, e mantêm sanções éticas e mo- 
rais que têm o efeito de medidas governamentais. Fazem isso, é claro, através do 
arranjo de várias contingências de reforço. É um campo difícil, em parte porque 
as práticas são menos propensas à codificação do que em outras disciplinas, e em 
parte porque não há figura controladora — tal como o professor, terapeuta, 
patrão ou governante, cujo comportamento pudesse tornar as práticas não codifi- 
cadas visíveis. 

A vida cotidiana é às vezes explicitamente planejada, apesar de tudo. As 
comunidades religiosas na tradição judaico-cristã eram baseadas em séries de re- 
gras (por exemplo, as regras de Bento e Agostinho) especificando contingência de 
reforço social. Escolas e colégios são até certo ponto, nesse sentido, comunidades, 
e têm suas próprias regras. As instituições que cuidam dos psicóticos e retarda- 
dos, orfanatos, colônias de férias e instituições penais constituem outros exem- 
plos. As técnicas de controle, codificadas ou não codificadas, são frequentemente 
aversivas, mas os esforços têm sido feitos, recentemente, para planejar comuni- 
dades deste tipo, que usam contingências positivas. 

Um experimento na Escola Nacional de Treinamento para Meninos em 
Washington. D.C.. cujos estudantes são delinguentes juvenis, constitui um exem- 


13 R.A, White, “Misperception and the Vietnam War”, J. of Social Issues, 22, 1966. 8 3. 


2 SKINNER 


plo disso. A cultura dessa comunidade foi replanejada da seguinte maneira. ' * O 
controle aversivo foi minimizado; não se pedia a nenhum menino que fizesse 
nada. Um menino podia, se quisesse, “ficar em paz”; podia comer uma comida 
nutritiva se bem que desinteressante, dormir sobre um acolchoado num dormitó- 
rio, passar o dia sentado num banco. Ele podia, entretanto, melhorar muito a sua 
vida, ao ganhar pontos trocáveis por comida mais atraente, um quarto privativo, 
um aparelho de televisão, admissão ao quarto de brinquedos, uma viagem fora da 
instituição, etc. Os pontos podiam ser ganhos ao trabalhar na cozinha ou ao fazer 
serviço de zeladoria, porém mais prontamente ao estudar e aprender. Respostas 
corretas valiam pontos. 

Um resultado importante para a gerência foi o moral mais alto. Os meninos 
faziam serviços úteis e comportavam-se bem, com respeito um pelo outro, sem 
controle aversivo e, portanto, sem produtos colaterais indesejáveis. Um resultado 
mais importante relacionava-se ao propósito declarado da instituição. A maioria 
dos delinglentes juvenis tem sido fracassos conspícuos na escola. Eles têm sido 
persuadidos de que são bobos ou estúpidos. Sob as poderosas contingências 
educacionais proporcionadas na escola de treinamento, os meninos descobriram 
que podiam aprender e, em muitos casos, aprender rapidamente. Ao fazer isso, 
eles adquiriam um comportamento que provaria ser útil quando saíssem da escola 
e que, portanto, aumentaria as probabilidades de que eles se comportassem de 
maneira aceitável em vez de ilegal. 

Em comparação com a educação, psicoterapia, economia e governo, pen- 
sou-se muito pouco nos desígnios explícitos da vida cotidiana. A exceção consiste 
na assim chamada literatura utópica. Os escritores de utopias têm se preocupado 
com o ambiente social e com a possibilidade de replanejá-lo. Quer saibam ou não, 
têm se preocupado com as contingências de reforço sob as quais vivem os 
homens. Eles têm sido limitados pelas teorias da conduta humana com as quais 
estão familiarizados; mas à medida em que melhora a nossa compreensão, torna- 
se possível sugerir versões melhores. A ciência básica sempre leva, no final, a uma 
tecnologia melhorada, e uma ciência do comportamento não é exceção. Deveria 
fornecer uma tecnologia do comportamento apropriada ao último objetivo utópi- 
co: uma cultura eficaz. 


Nota 1.1 — Algumas contingências de reforço 


Algumas contingências que foram estudadas experimentalmente podem ser 
descritas, a grosso modo, como se segue. Um espaço experimental contém um ou 
mais operanda tais como uma alavanca que se projeta numa parede, e que pode 
ser pressionada por um rato, ou um disco translúcido na parede, que pode ser bi- 
cado por um pombo, várias fontes de estímulos tais como som e luzes, e libera- 
dores de reforço, tais como dispensadores de água ou alimento, ou uma fonte de 
estimulação aversiva, tal como luz forte ou grade eletrificada para dar choque. 


** Cohen, Harold, Filipczah, James e Bis, S. John, Caso 1. An Initial Study of Contingencies Applicable to 
Special Education, Educational Facility Press. IBR. 1967. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 23 


Qualquer estímulo vindo do espaço, o operandum, ou esquemas de estimulação 
especiais anteriores à resposta, é chamado S“. Uma resposta, como por exemplo 
apertar a alavanca ou pressionar o disco, será R. A comida apresentada a um 
organismo faminto é um reforçador positivo (S'), uma luz brilhante ou um cho- 
que, um reforçador negativo. As inter-relações entre S“, R e S”, compõem as 
contingências do reforço. Todos os três termos precisam ser especificados. 


1. Reforço operante — Um rato faminto pressiona a alavanca e recebe comi- 
da (a frequência da pressão à barra aumenta). Um pombo bica o disco e recebe 
comida (a frequência de bicadas aumenta). 

2. Fuga — O espaço experimental é iluminado fortemente. Um rato pres- 
siona a alavanca e reduz a intensidade da luz (a alavanca é então pressionada 
mais rapidamente quando a luz aparece, ou mais frequentemente com luz 
continua). 

3. Esquiva — Um rato leva um choque a cada 20 seg., a não ser que emita 
uma resposta à alavanca, adiando o próximo choque por 20 seg. (a frequência de 
resposta aumenta e muitos choques são evitados). 

4. Discriminação do estímulo — Um rato pressiona a alavanca e obtém co- 
mida quando a luz está ligada, mas nenhuma comida se segue à resposta quando 
a luz está apagada (a frequência de respostas é mais alta na presença da luz do 
que na sua ausência — S2 ). 

5. Diferenciação de resposta — A comida aparece somente quando a ala- 
vanca é pressionada com uma força acima de um dado valor (respostas mos- 
trando a força requerida aparecem mais frequentemente). 

6. “Superstição” — O recipiente de comida opera a cada 20 seg. indepen- 
dentemente do comportamento do rato (qualquer comportamento que ocorra 
imediatamente antes da apresentação da comida é reforçado, e coincidências simi- 
lares se tornam mais prováveis, quando o comportamento é fortalecido. O rato 
desenvolverá um ritual supersticioso). 

7. Encadeamento de operantes — Quando um disco verde é bicado, a cor 
muda para vermelho, e quando o disco vermelho é bicado, é seguido por comida 
(a frequência de ocorrência da cadeia de respostas aumenta). 

8. Observação — Estabelece-se uma discriminação sob a qual um pombo 
bica um disco vermelho, mas não um verde. A cor, entretanto, desbota vagarosa- 
mente, até que a discriminação se torne impossivel. Bicando outro disco, inverte- 
se o desbotamento das cores (o pombo bica o outro disco para produzir cor sufi- 
ciente para fazer uma discriminação). 

9. Equiparação com o padrão — Três discos são postos em fila. O disco cen- 
tral é verde ou vermelho, os outros dois, não iluminados. Uma resposta para o 
disco central ilumina os discos laterais — um vermelho e um verde. Uma resposta 
para o disco equiparável é reforçada com comida (respostas ao disco equiparável 
aumentam de frequência). 

10. Equiparação retardada — Como no item 9; mas o disco central é escure- 
cido antes que os discos laterais sejam iluminados (se os discos laterais são apre- 
sentados imediatamente, o pombo é capaz de equiparar. Uma pequena demora 


24 SKINNER 


torna a equiparação impossível. “O pombo não consegue lembrar-se da cor do 
disco central”). 

11. Equiparação retardada mediada — São cinco discos — um no centro e 
os outros dentro de fácil alcance nos quatro pontos do compasso. O central é ver- 
melho ou verde. Uma resposta o escurece e projeta luz branca no norte e no sul. 
Se o centro era vermelho, a resposta para o norte ilumina o leste e o oeste, um ver- 
melho e outro verde; a resposta para o disco equiparável será reforçada. Se o cen- 
tro era verde, a resposta para o sul ilumina o leste e o oeste, e a resposta equipa- 
rável será reforçada. Duas cadeias são então estabelecidas: (i) o pombo bica o 
centro vermelho, o norte branco, e vermelho no leste ou oeste; (ii) o pombo bica 
o centro verde, sul branco, e verde no leste ou oeste. O pombo equipara com 
sucesso, porque responde ao vermelho no leste ou oeste, quando acabou de res- 
ponder ao norte; e para o verde no leste ou no oeste quando acabou de responder 
ao sul. Respostas ao norte e ao sul podem então ser prolongadas — por exemplo, 
ao se requerer um número de respostas para iluminar leste e oeste. O número pode 
ser grandemente aumentado. Uma resposta equiparável longamente retardada 
para leste ou oeste é medida pelos estímulos errados ao responder para norte ou 
sul. 

12. Esquemas de reforço — Os reforços podem ser planejados de muitas 
maneiras. Cada esquema com os valores dados dos parâmetros gera um desempe- 
nho característico. 

a. Intervalo fixo — uma resposta é reforçada somente quando ocorre após a 
passagem de um período de tempo (por exemplo, cinco minutos). Outro período 
começa imediatamente após o reforço. 

b. Razão fixa — cada enésima resposta é reforçada. 

c. Intervalo variável ou razão variável — o intervalo ou número em a e b não 
precisa ser fixado mas pode variar acima de um determinado nível em torno de 
um valor médio. 

d. Esquemas múltiplos — um esquema prevalece na presença de um estímu- 
lo, um esquema diferente na presença de outro estímulo. Por exemplo, um inter- 
valo fixo prevalece quando o disco for vermelho, e um variável quando o disco for 
verde (obtém-se um desempenho característico sob cada estímulo). 

e. Reforço diferencial de nível de resposta — uma resposta é reforçada 
somente quando segue a resposta precedente após um intervalo de tempo especifi- 
cado (DRL) ou antes do término de um intervalo dado (DRH). Em DRL, o inter- 
valo pode ser, por exemplo, de 3 minutos; em DRH, de meio segundo. 

13. Privação múltipla — Bicar um disco é reforçado por comida, bicar outro 
disco será reforçado por água, bicar um terceiro disco será reforçado com comida 
e água, ao acaso. Sob condições distintas de fome e sede, a frequência de resposta 
ao terceiro disco será a média das frequências dos dois primeiros. Algumas 
contingências no campo do comportamento verbal são como se segue: 


. D q 4 

14. “Mando” — Na presença de um ouvinte (S “), a resposta “água” será 
reforçada quando o ouvinte der água ao orador. 

I5. Comportamento ecóico — Quando alguém diz “água”. o orador diz 


“água”, e o reforço é contingente na similaridade dos dois sons. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 25 


16. Comportamento textual — Quando ao olhar para a palavra “água”, 
impressa, o orador é reforçado se disser “água”. 

17. Comportamento intraverbal — Em se tratando de ler e ouvir a palavra 
“água”, o orador será reforçado se emitir uma resposta relacionada tematica- 
mente, assim como “gelo” ou “torneira”. 

18. “Tato” — Na presença de um copo de água, de um rio, chuva, etc., O 
orador será reforçado quando disser “água”. 


, 


Nota 1.2 — De “estímulo e resposta” a “contingência de reforço" 


Foi uma transição longa e dificil. As consequências do comportamento 
foram primeiramente tratadas simplesmente com estímulos eliciando outras res- 
postas. Atos complexos eram analisados como cadeias de reflexos. Cada elo era 
descrito à medida que ocorria, para dar alguma segurança da posição física do ato 
completo. Um estímulo era ligado à resposta que se seguia via sistema nervoso, e 
a resposta era ligada a um estímulo subsequente via meio ambiente. Além da 
pressuposição da ação reflexa, não havia implicação do efeito sobre a probabili- 
dade de ocorrência da resposta (exceto com Guthrie, que argumentava que o 
segundo estimulo encerrava a resposta, permitindo-lhe formar uma associação 
mais forte com o primeiro estímulo). 

Um efeito possível do estímulo sobre a resposta que o produziu foi identifi- 
cado na teoria do reflexo circular, definida por Warren * como “um reflexo no 
qual a resposta serve para renovar o estímulo original”. A função dessa “reaferi- 
ção” aproximava-se mais da direção do que do reforço, e a direção mais tarde 
devia assumir um papel mais importante na cibernética de Wiener. na qual esti- 
mulos produzidos por respostas aparecem como “realimentação”, um termo 
amplamente confundido como sinônimo de reforço operante. P. K. Anokhin ? 
recentemente tentou analisar os efeitos dos “resultados da ação” em termos de 
realimentação ou “aferição inversa”. 


* H.C€C. Warren. Dictionary of Psychology, Boston, Houghton-Mifflin, 1967. 

2 Pp. K. Anokhin. Advances in brain research. Nauka i chelovechestvo [Ciência e humanidade]. Znaniye, 
1965. pp. 35-47: reeditado em Soviet Psychology, 5,8 1. 

3 Seu trabalho é uma demonstração interessante do poder de influência de Pavlov na Rússia. Anokhin 
escreve: 

“Parece estranho que por tantos anos os resultados da ação nunca tenham sido assunto de uma análise 
fisiológica especial, uma vez que representam o elo vital de ligação entre os diferentes estágios do ato 
comportamental. É até mais estranho se pensarmos na verdadeira natureza do comportamento. De fato, os 
homens e os animais estão sempre interessados nos resultados da ação. É só por causa deles que fregiente- 
mente se entra em longas cadeias de atos comportamentais, porque apenas o fracasso na obtenção dos resul- 
tados desejados atua como estímulo para atos posteriores até que o resultado alcançado corresponda de algu- 
ma forma ao que se deseja. 

“No “arco reflexo” clássico não cabe a avaliação dos resultados. Esta é a falha mais saliente da teoria do 
reflexo, que mostrou o dualismo de seu criador, e distraiu os fisiologistas por um longo tempo da busca da 
solução materialista do problema de propósitos no comportamento humano e animal. De fato, a própria 
adaptação do “arco reflexo” como modelo central para explicação do comportamento excluiu, por muitos 
anos, todas as possibilidades de tratamento dos resultados como fator motivador na formação da variabili- 
dade de comportamento. Simplesmente não cabiam os resultados no modelo de reflexo, assim como seu cará- 
ter fisiológico ou, mais precisamente, seu papel decisivo na formação dos sistemas funcionais do organismo 
permaneciam fora do campo de visão dos fisiólogos.” 

O trecho é notável apenas pelo fato de ter sido publicado em 1965. 


26 SK INNER 


No arranjo experimental de Miller e Konorski, * uma conseguência foi expli- 
citamente adicionada a um reflexo. Um som foi tocado, a perna de um cão famin- 
to flexionou-se, reflexa ou passivamente, e foi apresentada comida. Finalmente, “o 
simples som eliciava o movimento”. Miller e Konorski oferecem a seguinte expli- 
cação. O tom, mais o complexo de estímulos condicionados compostos que eli- 
ciam a salivação. Nem o tom nem os estímulos muscular e tátil terão tal efeito 
quando apresentados separadamente, mas, dado o tom, o cão eventualmente 
flexionará a sua perna para completar o estimulo composto. O cão flexiona a sua 
perna em resposta ao tom “para formar o complexo condicionado completo” 
(pour former ainsi le complexe conditionnel total). 

A última flexão no experimento é indubitavelmente um operante, mas como 
se relaciona com a flexão condicionada? Konorski e Miller sugeriram um paralelo 
com um rato pressionando a barra e sendo reforçado com comida. Mas o que está 
em questão não é a natureza do comportamento, mas as contingências. Se a flexão 
estiver relacionada com um choque, como um reflexo, e se a comida foi mecanica- 
mente contingente à flexão, então a comida será também contingente ao choque. 
Um equipamento terá o efeito de Miller e Konorski se simplesmente administrar 
um choque e então operar um alimentador, um ou dois segundos mais tarde, 
independentemente do comportamento. (O tom é desnecessário, enquanto a flexão 
for sempre seguida pela apresentação da comida.) As contingências deste tipo são 
raras, se é que existem no mundo. O comportamento operante é observado apenas 
quando houver “respostas não relacionadas com estímulos observáveis”, 

Algo similar ao arranjo de Konorski e Miller sobrevive (e complica desneces- 
sariamente o experimento) quando se esfrega comida numa barra para induzir um 
rato a “pressioná-la” ou quando a mão de uma criança é movida pelo professor 
para que ela forme as letras adequadamente. Os estímulos imitativos e usados na 
instrução, utilizados para evocar respostas operantes de modo a que possam ser 
reforçadas, não caem na mesma classe pois não eliciam comportamento. Mesmo 
assim, o reforço é mais eficaz quando tais estímulos forem mínimos. 

Minha tese (O conceito do reflexo na descrição do comportamento)* estava 
obviamente próxima da fisiologia do reflexo, particularmente no trabalho de Sher- 
rington, Magnus e Pavlov. O estímulo era ainda uma variável proeminente. Entre- 
tanto, outras variáveis receberam um papel comparável na fórmula. 


R =fí(S,A). 


O exemplo em discussão era o “reflexo de fadiga”, onde a variável 4 repre- 
sentava, não um estado sináptico, como sustentava Sherrington, mas o tempo ou 
número de respostas eliciadas. Foram sugeridas formulações comparáveis de 


* S. Miller e J. Konorski, “Sur une forme particuliêre des réflexes conditionnels. Comptes rendus des séan- 
ces de la sociétê polonaise de biologie”, 1928, pp. 1155-1157. (Trad. inglesa, J. Exp. Anal. Behav., 12, 
1969, pp. 187-189.) 

5 B. F. Skinner, “The concept of the reflex in the description of behavior”, J. Gen. Psychol., 5. 1931, 
pp. 427-458; B. F. Skinner, Cumulative Record, edição revisada, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 
1961. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 27 


condicionamento, “emoção” e “impulso”, nas quais se invocava uma “terceira” 
variável — isto é, uma variável além de S e R . Minha resposta a Konorski e 
Miller º identificou a contingência entre uma resposta e sua conseguência como 
sendo a variável importante no condicionamento operante. 

À primeira vista, Edward Tolman parece ter chegado bem além da fórmula 
estímulo-resposta. Não se utilizou da eliciação de estímulos, descrevendo seus 
ratos como “dóceis”. Ele trocou a topografia da resposta pela sua direção em rela- 
ção ao objetivo, e usou aparelhos que acentuam o propósito (representados 
espacialmente). Mas ele colocou a “terceira” variável dentro do organismo, onde 
ela “intervinha” entre o estímulo e a resposta. Não havia razão para isto exceto a 
de manter alguma semelhança com o velho padrão de arco-reflexo. 

Suas variáveis intervenientes prontamente assumiram a função de processos 
mentais (como eram essencialmente designadas para), e não é surpreendente que 
tenham sido calorosamente retomadas pelos psicólogos cognitivistas. 

Clark Hull manteve-se estritamente fiel à fórmula estimulo-resposta. Em seu 
Princípios do Comportamento, " ele enfatizou as propriedades topográficas da res- 
posta como medida de sua força. Ele não só apelou para os processos centrais; 
tornou-os o objeto central da investigação. Dois processos não tinham outra fun- 
ção senão a de salvar a fórmula estimulo-resposta: a “interação neural aferente” 
convertia os estímulos físicos em formas que pareciam eficazes, e “oscilações 
comportamentais” como responsáveis pelas discrepâncias entre as respostas pre- 
ditas e observadas. Outros processos centrais eram ditos efeitos de outras variá- 
veis que não estímulos e respostas. O caráter neurológico de todos esses processos 
centrais foi crescentemente enfatizado. 


8 B. F. Skinner, “Two types of conditioned reflex: A reply to Konorski and Miller”, J. Gen. Psychol., 16, 
1937, pp. 272-279; B. F. Skinner, Cumulative Record, edição revisada, Nova York, Appleton-Century- 
Crofts, 1961. 

? Clark L. Hull, Principles of Behavior, Nova York, D. Appleton-Century, 1943. 


CaríTuULO VI 


Uma análise operante da resolução de problemas 


O comportamento observado quando um homem resolve um problema 
caracteriza-se pelo fato de mudar uma outra parte de seu comportamento e ser 
reforçado quando isto ocorre.! Identificamos facilmente dois estágios num pro- 
blema típico. Um homem faminto enfrenta um problema se não puder emitir qual- 
quer resposta anteriormente reforçada com comida; para resolvê-lo, ele precisará 
mudar a si mesmo ou a situação até que ocorra uma resposta. O comportamento 
responsável pela mudança é adequadamente denominado resolução de problema, 
e a resposta que ele promove, solução. Uma questão para a qual não há resposta 
até o momento constitui um problema. Pode ser resolvida, por exemplo, efetuan- 
do-se um cálculo, consultando-se um trabalho de referência, ou de qualquer 
maneira que ajude a lembrar uma resposta aprendida anteriormente. 

Já que provavelmente não há processo comportamental que não seja rele- 
vante para a solução de algum problema, uma análise exaustiva das técnicas coin- 
cidiria com uma análise do comportamento como um todo. Este capítulo limita-se 
ao status e função dos termos da formulação operante. 


Contingências de reforço 


Quando uma resposta ocorre e é reforçada, aumenta a probabilidade de sua 
nova ocorrência na presença de estímulos semelhantes. O processo não mais apre- 
senta grandes problemas, quer para o organismo, quer para o pesquisador, mas os 
problemas se colocam quando as contingências são complexas. Por exemplo, 
pode não haver resposta disponível que satisfaça a um dado conjunto de contin- 
gências; ou podem ser evocadas respostas concorrentes — entre elas, alterações 
emocionais que enfraquecem a própria resposta à qual o reforço é contingente, ou 
que destroem o poder de um reforço; ou as contingências podem ser satisfeitas 
apenas por uma sequência ou cadeia de respostas, cujos primeiros elos estão 
demasiado remotos para serem fortemente afetados por reforço terminal até que 
os reforçadores condicionados tenham se firmado. 


"” Para uma análise mais detalhada da resolução de problemas, ver B. F. Skinner, Science and Human Beha- 
vior, Nova York, The MacMillan Company, 1953, pp. 246-252 e The Technology of Teaching, Nova York, 
Appleton-Century-Crofts, 1968, cap. 6. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 29 


No experimento de Thorndike, a probabilidade de levantar a tranca era 
inicialmente bastante baixa. A caixa provocava o comportamento de fuga condi- 
cionada e incondicionada, em grande parte incompatível com o levantar a tranca, 
bem como respostas emocionais que provavelmente tornavam a comida menos 
reforçadora quando era alcançada. O desempenho terminal que satisfazia as 
contingências era uma cadeia de respostas: orientar-se em direção à tranca, e 
aproximar-se dela, tocar a tranca e levantá-la, orientar-se em direção à porta aber- 
ta, e passar por ela, aproximar-se do alimento e comê-lo. Alguns elos dessa cadeia 
podem ter sido reforçados pela comida, e outros, pela fuga da caixa, mas alguns 
podiam ser reforçados apenas depois do condicionamento de outros reforços. Por 
esta e outras razões, a caixa era um problema — tanto para o gato, quanto para 
Thorndike. 

Thorndike pensou ter resolvido o seu problema afirmando que o gato bem 
sucedido utilizou um processo de aprendizagem por ensaio-e-erro. A expressão é 
infeliz. “Ensaio” implica em que a resposta já tenha sido afetada por conse- 
quências relevantes. Um gato estará “tentando escapar” se se engajar num 
comportamento que tenha sido selecionado na evolução da espécie por resultar 
em escape de situações perigosas, ou que tenha sido reforçado pelo escape da esti- 
mulação aversiva em outras oportunidades da vida do gato. O termo “erro” não 
descreve o comportamento, mas sim, o julga. As curvas de aprendizagem por 
ensaio-e-erro projetadas por Thorndike e muitos outros não apresentam qualquer 
propriedade útil do comportamento — certamente não a de um processo singular 
denominado resolução de problema. As modificações que intervêm nesta curva 
incluem a adaptação e extinção de respostas emocionais, o condicionamento de 
reforçadores e a extinção de respostas não reforçadas. A contribuição do aumento 
da probabilidade de ocorrência de respostas reforçadas fica irremediavelmente 
obscurecida. 

Mesmo no equipamento relativamente tosco de Thorndike, deveria ser possi- 
vel isolar a modificação resultante do reforçamento. Poderíamos começar adap- 
tando 'o gato à caixa até que as respostas emocionais e não emocionais não mais 
fossem relevantes. Ao abrirmos a porta repetidamente (assegurando-nos de que 
este evento não seja consistentemente contingente a quaisquer respostas), pode- 
riamos converter os estímulos gerados pela porta em reforços condicionados que 
poderíamos então utilizar para modelar o comportamento de se deslocar para 
uma posição da qual seria possível levantar a tranca e quase certamente observa- 
riamos um aumento imediato da probabilidade de novos levantamentos da tranca. 

Este tipo de simplificação é comum na análise experimental do comporta- 
mento. Elimina o processo de ensaio-e-erro e, como notamos, dispõe dos dados 
que são projetados nas curvas de aprendizagem. Não deixa problema nem, é 
claro, a oportunidade de resolver um problema. Obviamente, não é o que deve ser 
feito se estivermos interessados em estudar ou ensinar a resolução de problemas. 
Porque a instrução programada elimina muitas resoluções de problemas, tem 
recebido algumas objeções. O programador resolve os problemas pelo aprendiz. 
De que modo ele faz isto? O que deve evitar fazer se quiser estudar ou ensinar a 
resolução de problemas? 


30 SKINNER 
Construindo estímulos discriminativos 


Considere um exemplo simples semelhante à caixa quebra-cabeça de Thorn- 
dike. Imagine que lhe pediram que apanhasse a mala de um amigo no bagageiro 
de um aeroporto. Você nunca viu a mala ou sequer ouviu sua descrição; você ape- 
nas tem um cartãozinho com um número que tem que ser confrontado com outro, 
dentre uma coleção de malas. Para simplificar o problema, digamos que você se 
encontra sozinho ante um porta-malas rotativo. Centenas de malas circulam à sua 
frente. Deslocam-se formando um círculo, mas demasiado rápido para você 
examiná-las ordenadamente. Você vai selecionar as malas essencialmente ao 
acaso, verificando um número por vez. Como vai achar a mala? 

Você pode, é claro, ir simplesmente amostrando. Certamente examinará a 
mesma mala mais de uma vez, mas, finalmente, o número certo irá aparecer. 
Entretanto, se as malas não forem idênticas, deverá ocorrer algum tipo de apren- 
dizagem; você começará a evitar os casos que você já sabe não terem o número 
correspondente. Uma mala muito incomum poderá ser verificada apenas uma vez; 
outras podem ser verificadas duas ou três vezes, mas as respostas a elas final- 
mente se extinguirão, e as malas serão eliminadas do conjunto. 

Uma estratégia muito mais eficaz seria marcar, por exemplo, com giz todas 
as malas examinadas. Assim, nenhuma mala será examinada duas vezes, e o nú- 
mero de malas que ainda resta por examinar será reduzido o mais prontamente 
possível. Por simples que pareça, este método de resolver o problema tem algumas 
características notáveis. A simples verificação ao acaso, até achar a mala certa, 
não apresenta interesse como processo de comportamento; o número de verifica- 
ções requerida para resolver o problema não é uma dimensão do comportamento. 
É verdade que a aprendizagem de não verificar as malas que já tenham sido mar- 
cadas, por não terem o número correspondente, implica processos comportamen- 
tais, mas o tempo requerido para achar a mala certa não lança nenhuma luz sobre 
o problema. Os matemáticos, demonstrando talvez um excesso de confiança nos 
psicólogos, frequentemente levam a sério este tipo de aprendizagem e constroem 
curvas de aprendizagem teóricas e projetam máquinas de aprender nas quais a 
probabilidade de resposta muda em função das consegiências, mas as alterações, 
ocorrendo realmente nos processos de extinção e discriminação, podem ser estu- 
dadas muito mais diretamente. (Num artigo recente, H. D. Bloch? argumenta que 
uma curva de aprendizagem “bastante típica daquelas que se encontram nos orga- 
nismos biológicos em geral” pode ser retraçada para um mecanismo “embaraço- 
samente simples” cuja explicação se torna “extremamente transparente”. A 
euphoria mathematica é mal justificada. Bloch simplesmente não analisa um pro- 
cesso comportamental.) 

É o uso do giz que introduz algo novo. Marcar cada mala, à medida que for 
verificada. é um tipo de comportamento precorrente que antecipa o reforço do 
comportamento subsegiente, ao reduzir o número de amostras necessárias para 


2 H.D. Bloch, “Learning in some simple nonbiological systems”, Amer. Scientist, 53, 1965, pp. 59-79. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 31 


encontrar a mala certa. Em termos técnicos, trata-se da construção de um esti- 
mulo discriminativo — um S2 . O efeito sobre o comportamento consequente é o 
únco ao qual se pode atribuir o fazer tal marca. E o efeito não deve ser subesti- 
mado, pois distingue as marcas de giz das marcas deixadas acidentalmente. 
Pode-se “aprender” o labirinto da Corte Hampton logo após ter nevado, simples- 
mente aprendendo a não entrar em qualquer caminho no qual haja pegadas sain- 
do;? chegamos ao presente caso apenas quando as pegadas tiverem provado ser 
úteis e, portanto, quando qualquer comportamento que as torna conspícuas for 
automaticamente reforçado. Um caminho bastante trilhado num terreno íngreme, 
ou através de uma floresta, representa uma série de estímulos discriminativos e, 
portanto, uma série de reforços. Reforça o ato de deixar marcas, e portanto, de 
marcar a pista. Marcar um caminho correto significa, em termos técnicos, cons- 
truirumS . 

É muito mais fácil construir estímulos discriminativos úteis na forma verbal. 
Facilmente lembrada e passível de ser executada em qualquer lugar, uma resposta 
verbal é um tipo especialmente útil de marca de giz. Muitos “enunciados de fato” 
simples exprimem relações entre os estímulos e as conseglências reforçadoras das 
respostas a eles. Na expressão as maçãs vermelhas são doces, por exemplo, a 
palavra vermelhas identifica uma propriedade de um estímulo discriminativo, e 
doces, uma propriedade de reforço correlato; as maçãs vermelhas são “denota- 
das” como doces. À resposta verbal facilita a discriminação entre maçãs doces e 
azedas, a retenção da discriminação durante um período de tempo e, especial- 
mente, quando registrado, o responder adequadamente quando a discriminação 
inicial tiver sido esquecida. (O descrever ou identificar de qualquer outro modo as 
propriedades contingentes, de modo a formar uma discriminação, não é a solução. 
Organismos inferiores discriminam sem responder verbalmente a propriedades 
essenciais, e é improvável que o homem tenha desistido da capacidade de fazer o 
mesmo. Ele simplesmente descobriu o valor adicional da construção de estímulos 
descritivos que melhoram suas probabilidades de sucesso.) 


Transmissão de estímulos construídos 


A construção de uma marca externa tem outra importante vantagem: afeta 
outras pessoas. Um estranho pode seguir um caminho bem trilhado quase tão bem 
quanto o homem que o marcou. Outra pessoa poderia continuar a busca da mala 
utilizando-se de nossas marcas — quer depois de lhe recomendarmos ignorar as 
malas marcadas com giz (ou seja, depois que a marca de giz tenha se tornado um 
estimulo discriminativo eficaz, através da instrução verbal), quer depois de ter ele 
aprendido a ignorar as malas marcadas — num processo que seria ainda mais rá- 
pido do que o ignorar algumas malas, estando todas não marcadas. Duas pessoas 
poderiam também procurar a mesma mala valendo-se das marcas um do outro. 


3 Mais precisamente, num labirinto sem saída (i.e., onde as entradas erradas são em cul-de-sac), o caminho 
correto é marcado após uma passagem bem sucedida através do labirinto por qualquer conjunto de marcas 
consecutivas. 


- 


Sa SKINNER 


Ocorre algo no gênero quando, por exemplo, se diz que vários cientistas estão 
“trabalhando num problema”. 

Os estímulos que um homem constrói ao resolver problemas podem ser úteis 
a outras pessoas precisamente porque as variáveis manipuladas no autocontrole 
são as que controlam o comportamento dos homens em geral. Ao construir esti- 
mulos externos para suplementar ou substituir mudanças privadas em seu 
comportamento, o homem automaticamente prepara a transmissão do que ele 
aprende. Suas construções verbais tornam-se de propriedade pública e suas discri- 
minações privadas não o poderiam. O que ele diz ao descrever o seu próprio 
comportamento bem sucedido (segurei a base firmemente em minha mão esquerda 
e gireio topo para a direita) pode ser transformada numa instrução útil (segure a 
base firmemente com a mão esquerda e gire o topo para a direita). As mesmas 
variáveis estarão sendo manipuladas e com alguns dos mesmos efeitos sobre o 
comportamento. 

A função de um produto público da resolução de problema, na acumulação 
e transmissão da sabedoria popular é exemplificada por uma fórmula usada anti- 
gamente por aprendizes de ferreiros. A operação característica dos foles numa 
forja foi presumivelmente condicionada inicialmente por seus efeitos sobre a ca- 
mada de carvão. Melhores resultados seguiam-se a movimentos completos, da 
abertura total ao fechamento completo do fole; sendo rápido o movimento da 
abertura e lento e firme o de fechamento. Tal comportamento é descrito nos 
versos: 


Para cima, alto; para baixo, fundo. 
Para cima, rápido; para baixo, devagar. 
E é assim que se sopra. * 


As duas primeiras linhas descrevem o comportamento, a terceira é essencial- 
mente um reforço social. Algum ferreiro deve ter composto o poema para seu uso 
próprio, para favorecer a eficácia de seu comportamento, ou, então, ao discutir o 
comportamento eficaz com outros ferreiros. Ao recitar ocasionalmente os versos, 
possivelmente em cadência com a ação, ele podia fortalecer as características rele- 
vantes de seu próprio comportamento. E poderia restabelecer um desempenho efi- 
caz ao relembrá-lo numa ocasião remota. Os versos também devem ter provado 
ser úteis ao ensinar um aprendiz a operar o fole. Podia até gerar o comportamento 
apropriado num aprendiz que não visse o efeito no fogo. 

Muito da sabedoria popular das diversas culturas tem função similar. Máxi- 
mas e provérbios descrevem ou sugerem um comportamento e suas conseguências 
reforçadoras. O reforço é positivo em Tostão poupado, tostão ganho, que pode ser 
parafraseado por Não gastar como ganhar, é reforçado por “tostões”. É negativo 
em Adiar é roubar tempo, onde se descreve uma conexão entre o adiar as coisas 
no momento e ficar desagradavelmente atarefado mais tarde. Muitas máximas 


* R.A.Salaman, “Tradesmen's tools”, em 4 History of Technology, vol. Il. Londres. Oxford Univ. Press, 
1957. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 33 


descrevem contingências sociais. As práticas reforçadoras de uma comunidade 
são frequentemente inconsistentes ou episódicas, mas as contingências, que per- 
manecem relativamente inalteradas durante algum tempo, podem ser descritas de 
maneira útil. É melhor dar do que receber especifica duas formas de comporta- 
mento e estabelece que o reforço advindo de um é maior do que o do outro. (A 
Regra de Ouro é um exemplo curioso. Não se explicita nenhuma resposta especi- 
fica, mas descreve-se um tipo de consequência em termos de seus efeitos sobre os 
que usam a regra. Na forma negativa, somos instruídos a não nos comportar de 
determinada maneira, caso as consequências nos forem adversas. Na forma posi- 
tiva, somos instados a nos comportar de uma determinada maneira caso as conse- 
quências nos forem reforçadoras. A regra pode ter sido descoberta por alguém 
particularmente sensível a seus efeitos sobre os outros, mas uma vez estabelecida, 
deve ter provado ser geralmente útil.) As máximas geralmente descrevem contin- 
gências de reforço mais sutis, que devem ter sido descobertas muito lentamente. 
As máximas devem ter sido tanto mais valiosas pelo fato de tornarem tais contin- 
gências eficazes em relação aos outros. 

A legislação formal de governos e instituições religiosas também especifica 
contingências de reforço descrevendo as ocasiões nas quais o comportamento 
ocorre, o comportamento em si e as consequências reforçadoras. As contingências 
certamente já vigoravam muito antes de terem sido formuladas. Qualquer pessoa 
que se apodere da propriedade de outrem, por exemplo, é frequentemente mal tra- 
tada. Finalmente, ao formulá-las, os homens aprenderam a se comportar mais 
eficientemente sob as contingências. A formulação pública deve ter vantagens 
adicionais; com este auxílio, as autoridades poderiam manter as contingências 
mais consistentemente e os membros do grupo poderiam comportar-se mais 
eficientemente com relação a eles — possivelmente sem exposição direta. A codi- 
ficação das práticas legais, justamente reconhecida como um grande avanço na 
história da civilização, é um exemplo extraordinário de construção de Sºs. 

A linguagem é um conjunto bem conhecido de contingências reforçadoras. 
Durante centenas de anos, os homens falaram sem o benefício das regras codifica- 
das. Algumas sequências de palavras eram mais eficazes, outras menos, ou 
simplesmente não o eram. A descoberta da gramática foi a descoberta das 
propriedades bastante estáveis das contingências mantidas por uma comunidade. 
A descoberta pode ter sido inicialmente alcançada como uma forma de solução de 
problema pessoal, mas a descrição das contingências na forma de regras gramati- 
cais permitiu aos homens falarem corretamente aplicando regras, ao invés de 
fazê-lo através de longa exposição às contingências. As mesmas regras tornaram- 
se úteis na instrução e na manutenção do comportamento verbal em conformidade 
com os usos da comunidade. 

As leis científicas também especificam ou sugerem as respostas e suas conse- 
quências. É claro que elas não são obedecidas pela natureza, mas pelos homens 
que lidam eficientemente com a natureza. A fórmula s = 1/2gt? não governa o 
comportamento dos corpos caindo, governa os que predizem corretamente a posi- 
ção dos corpos caindo em tempos determinados. 


34 SKINNER 


À medida que uma cultura produz máximas, leis, gramática e ciência, seus 
membros acham mais fácil comportar-se eficientemente sem contato direto ou 
prolongado com as contingências de reforço assim formuladas. (Preocupamo-nos 
aqui apenas com contingências estáveis. Quando as contingências mudam. e não 
as regras. estas poderão mais atrapalhar do que ajudar.) As culturas resolvem pro- 
blemas por seus membros, e o faz transmitindo estímulos discriminativos já cons- 
truídos para evocar soluções. A importância do processo, é claro, não explica a 
resolução do problema. Como chegam os homens às fórmulas que provam então 
ser úteis para si e para os outros? De que maneira aprendem a se comportar 
apropriadamente sob contingências de reforço para as quais não tenham sido 
preparados, especialmente contingências que forem tão específicas e efêmeras que 
qualquer preparo geral seria impossível? 


O comportamento solucionador de problemas 


A pergunta “Quem é que está atrás de você?” coloca um problema que, se o 
nome da pessoa for conhecido, é simplesmente resolvido ao se virar e olhar para 
trás. Virar-se e olhar são respostas precorrentes que geram um estímulo discrimi- 
nativo requerido para a emissão de um nome particular. Podemos também gerar 
estímulos auxiliares ao olhar mais acuradamente para um estímulo que não esteja 
ainda efetivamente evocando uma resposta, mesmo que já esteja no campo visual: 
e, por trás do “olhar mais acuradamente” há uma certa atividade na resolução 
de problema, na qual um estímulo vago ou complexo é descrito ou caracterizado 
tentativamente. Um estímulo será mais provavelmente visto de uma determinada 
maneira quando tiver sido descrito, podendo mesmo ser “visto em sua ausência”. 
Uma descrição grosseira pode contribuir para outra mais refinada; e uma carac- 
terização final, que fortalece uma resposta pouco ambígua, leva à resolução do 
problema. O resultado será útil para os outros, se, em forma pública. os levar 
a ver a mesma coisa da mesma maneira. À reação dos outros que estão refor- 
çando para os que descrevem situações vaga». pode modelar as descrições destes. 
exercendo frequentemente um controle não menos poderoso do que a própria 
situação. 

Um comportamento deste tipo é frequentemente considerado como uma es- 
pécie de comentário corrente sobre as contingências de reforço a que estamos 
expostos. Uma criança aprende a descrever tanto o mundo ao qual está reagindo, 
como as consequências de suas reações. As situações nas quais ela não pode 
fazê-lo tornam-se tão desagradáveis que delas escapa pedindo aos adultos que 
ensinem as palavras que lhe faltam. Descrições de seu próprio comportamento 
são especialmente importantes. A comunidade pergunta-lhe: O que você fez? O 
que vai fazer? E por quê? e suas respostas descrevem o seu comportamento e o 
relacionam a variáveis eficazes. As respostas finalmente provam ter valor para a 
própria criança. A expressão Eu o agarrei porque ele ia cair refere-se a uma res- 
posta (agarrar) e uma propriedade da ocasião (ele ia cair) implica num reforço 
(sua queda teria sido adversa para o orador ou outros). É particularmente útil des- 
crever o comportamento que falha em satisfazer as contingências, como em Eu 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 35 


desisto muito rápido ou eu bati forte demais. Mesmo descrições fragmentárias das 
contigências aceleram a aquisição de um comportamento terminal eficaz, ajudam 
a manter o comportamento por um período de tempo, e reinstalam-no quando 
esquecido. Além disso, geram comportamento similares em outrem, não sujeito às 
contingências que elas especificam. À medida que uma cultura evolui, ela enco- 
raja os comentários correntes deste tipo e assim prepara seus membros para resol- 
verem os problemas mais eficientemente. As culturas que deslocam a atenção dos 
eventos comportamentais para os mentais ditos responsáveis pelo comportamento 
dão notavelmente menos ajuda a seus membros. 


É possível construir estímulos discriminativos similares sem desempenhar o 
comportamento de discriminar. Uma peça de equipamento usado no estudo do 
comportamento operante é um bom exemplo de um sistema reforçador. Podemos 
chegar ao comportamento apropriado às contingências e mantido pelo sistema 
através de um responder continuado sob estas contingências e, ao fazê-lo, pode- 
mos formular máximas ou regras. Mas o próprio equipamento também pode ser 
examinado. Podemos olhar além da interface entre o organismo e o equipamento, 
e estabelecer direções para alguém se comportar apropriadamente em relação ao 
sistema ali descoberto. O ambiente é um destes sistemas reforçadores, e parte 
deles são frequentemente examinadas com tal finalidade. Ao analisar as amostras 
de espaço e as regras de jogo, por exemplo, compomos instruções que evocam 
comportamentos grosseiramente semelhantes ao que seria gerado com o respon- 
der continuado sob as contingências mantidas por eles. A ciência é, em grande 
parte, uma análise direta dos sistemas de reforço encontrados na natureza; preo- 
cupa-se com o facilitar o comportamento reforçado por tais sistemas. 


(Quando as prescrições para a ação, derivadas da análise de um sistema 
de reforço, diferem das prescrições derivadas da exposição às contingências man- 
tidas pelo sistema, geralmente prevalece a primeira. Há muitas razões para isto. 
Um sistema é geralmente mais fácil de se observar que uma história de reforça- 
mento. O comportamento sumariado num comentário concomitante pode ser o 
comportamento terminal que mais adequadamente satisfaz um dado conjunto de 
contingências. Um desempenho terminal pode ser marcado por características 


permanentes, se bem que desnecessárias, resultantes de coincidência de contin- 
gências encontradas en route. E assim por diante.) 


As contingências são, às vezes, estudadas construindo-se um modelo de am- 
biente reforçador. Pode-se reagir ao modelo de uma maneira mais simples (por 
exemplo, verbalmente) e adquirir o comportamento apropriado mais rapida- 
mente. Caso regras derivadas da exposição ao modelo provem ser úteis no am- 
biente, as contingências, entretanto, devem ser as mesmas, e um modelo será 
útil apenas se o sistema reforçador já tiver sido descrito. Ele é útil simplesmente 
ao facilitar a exposição às contingências e ao estudar as mudanças resultantes 
no comportamento. 

Muitos exemplos do comportamento na resolução de problemas seriam cha- 
mados indução. O termo se aplica. quer os estimulos que evocaram o comporta- 
mento apropriado a um conjunto de contingências sejam derivados de uma expo- 


e do E E O q POE 4 Si E RO avo 


36 SKINNER 


sição às contingências, quer derivados da inspeção direta do sistema reforçador. 
Neste sentido, a indução não é derivada de uma regra geral de casos específicos, 
mas é a construção de uma regra que gera o comportamento apropriado a um 
conjunto de contingências. Regra e contingência são duas coisas distintas; não 
são afirmações gerais e específicas de uma mesma coisa. 

A dedução é ainda outra maneira de se construir estímulos discriminativos. 
Máximas, regras e leis são objetos físicos e podem ser manipulados para produzir 
outras máximas, regras e leis. Derivam-se regras de segunda ordem para manipu- 
lar regras de primeira ordem, a partir da descoberta do sucesso de certas práticas 
ou de um exame dos sistemas mantenedores de contingências descritos pelas re- 
gras de primeira ordem. Em grande parte da teoria da probabilidade, regras de 
primeira ordem são derivadas de um estudo dos sistemas de reforço. Regras de 
segunda ordem são descobertas indutivamente quando se descobre que produzem 
novas regras eficazes, de primeira ordem ou dedutivamente (possivelmente de 
forma tautológica), a partir da análise das regras de primeira ordem ou das 


contingências que elas descrevem. 
Muitas regras que auxiliam na solução do problema de resolver problemas 


são familiares. “Pergunte-se “qual é a incógnita?” é um conselho útil que não 
leva à solução, mas a uma formulação modificada à qual se pode então aplicar 
uma regra de primeira ordem. A redução dos dados do problema a simbolo não 
resolve o problema, mas ao eliminar respostas possivelmente irrelevantes torna 
a solução do problema de primeira ordem mais eficaz. Regras de segunda ordem, 
“heurísticas”, são frequentemente imaginadas para especificar atividades mais 
criativas ou menos mecânicas do que as regras da solução de um problema de 
primeira ordem (possivelmente algorítmica), mas uma vez tendo sido formulada 
uma regra heurística, poderá ser seguida tão “mecanicamente” quanto uma regra 
de primeira ordem. * 

Resolver um problema é um evento comportamental. Os vários tipos de ati- 
vidades que promovem o aparecer de uma solução são formas de comporta- 
mento. O curso seguido no movimento para a solução entretanto não reflete 
necessariamente um processo comportamental importante. Da mesma forma que 
há quase tantas “curvas de aprendizagem” quantas coisas a serem aprendidas, há 
quase tantas “curvas de resolução de problemas” quanto problemas. A lógica, a 
matemática e a ciência são disciplinas que se preocupam com as maneiras de 
solucionar problemas, e a história destas disciplinas narra maneiras pelas quais 
determinados problemas foram resolvidos. Por mais fascinante que isso possa 
ser, não é uma fonte primária de dados sobre o comportamento. Estratégias e 
exemplos nos quais estratégias tenham realmente sido usadas dão a mesma 
importância, quer um problema seja resolvido por um indivíduo, por um grupo, 
ou uma máquina. Assim como não focalizamos o modo pelo qual uma máquina 
resolve um problema para descobrir os princípios elétrico, mecânico, ótico ou 
químico sob os quais foi construída, assim também não focalizamos o modo pelo 


* B.F.Skinner, The Technology of Teaching, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1968. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 37 


qual um homem ou um grupo resolve um problema para obtermos dados úteis no 
estudo do comportamento individual, comunicação, ou ação coordenada. Isto 
não quer dizer que não possamos estudar o comportamento do indivíduo, grupo, 
ou máquina para descobrirmos melhores formas de resolver problemas ou para 
revelar os limites das estratégias que tenham sido usadas ou os tipos de proble- 
mas que podem ser resolvidos. 


Comportamento modelado por contingências versus governado por regras. 


A resposta que satisfaz um conjunto completo de contingências, e assim 
resolve o problema, pode chegar aos resultados de modelagem direta através das 
contingências (possivelmente com o auxílio de programação deliberada ou 
acidental), ou pode ser evocada por estímulos relacionados à contingência, cons- 
truídos quer pelo próprio solucionador de problema, quer por outros. A diferença 
entre seguir regras e comportamento modelado por contingências é óbvia quando 
os exemplos pertencem claramente a um ou outro caso. O comportamento de 
um jogador de beisebol apanhando uma bola no ar tem certa semelhança com 
o do comandante de um navio tomando parte na recuperação de um satélite. 
Ambos se movem numa superficie, numa direção e velocidade designadas para 
colocá-los, se possível, sob um objeto cadente no momento em que este atingir 
a superfície. Ambos respondem a estimulação recente de posição, direção e velo- 
cidade do objeto, e ambos tomam em consideração os efeitos da gravidade e 
fricção. O comportamento do jogador de beisebol, entretanto, é quase inteira- 
mente modelado pelas contingências de reforço, enquanto o comandante está sim- 
plesmente obedecendo regras derivadas da informação disponível e de situações 
análogas. À medida que mais satélites forem recuperados, é concebível que um 
comandante experiente, sob a influência de operações de recuperação bem ou 
mal sucedidas, possa dispensar ou apartar algumas das regras assim derivadas. 
No momento, entretanto, carece da necessária história de reforçamento e os dois 
casos são bastante distintos. 

As respostas sob controle de estímulos discriminativos tendem a ser supe- 
renfatizadas às custas das respostas modeladas pelas contingências, possivel- 
mente porque eles (como exemplificados por máximas, regras e leis) são em geral 
mais facilmente observáveis do que as contingências que especificam. Um erro 
resultante é supor que o comportamento esteja sempre sob o controle de estimu- 
los anteriores. A aprendizagem é definida como “descobrir, armazenar e usar 
novamente regras corretas”,º e a simples modelagem do comportamento pelas 
contingências que nunca foram formuladas é negligenciada. O papel do cérebro 
na mediação de alterações do comportamento resultante de reforço não é levado 
em consideração, quando o cérebro é descrito como um “órgão para a manipula- 
ção de símbolos”. 


6 J. H. Clark, “ Adaptive machines in psychiatry”, em Nerve, Brain and Memory Models, editado por J. 
Wiener e J. P. Schadé, Amsterdam, 1963. 


38 SK INNER 


Uma vez estabelecido o padrão, é fácil defender outros tipos de entidades 
controladoras anteriores, tais como expectativa, mapas cognitivos, intenções e 
planos. Referimo-nos só ao comportamento modelado pelas contingências quan- 
do dizemos que um organismo se comporta de uma determinada forma com uma 
dada probabilidade porque o comportamento foi seguido por um determinado 
tipo de consequência no passado. Referimo-nos ao comportamento sob controle 
de estímulos especificadores de contingências anteriores quando dizemos que um 
organismo se comporta de uma forma determinada porque espera que uma conse- 
quência similar se siga no futuro. A “expectativa” é uma pressuposição gratuita 
e perigosa se nada além de uma história de reforço tiver sido observada. Qualquer 
formulação real da relação entre uma resposta e suas consequências (talvez 
simplesmente a observação “sempre que eu respondo desta maneira, tal e tal 
evento se seguem”) pode, é claro, funcionar com estímulo controlador anterior. 

Os estímulos especificadores de contingências construídos no decorrer da 
resolução de problemas nunca têm o mesmo efeito que as contingências que espe- 
cificam. Uma diferença é motivacional. As contingências não só modelam o 
comportamento, como alteram sua probabilidade; mas, estimulos especificadores 
de contingências, como tais, não o fazem. Se bem que a topografia de uma res- 
posta seja controlada por uma máxima, regra, lei, afirmação de intenção, a 
probabilidade de sua ocorrência permanece indeterminada. Afinal, por que um 
homem deveria obedecer uma lei, seguir um plano ou realizar uma intenção? Não 
será bastante dizer que os homens são constituídos de modo a seguirem regras 
automaticamente — como se diz, erradamente, que a natureza obedece às leis 
da natureza. Uma regra é simplesmente um objeto no ambiente. Por que deveria 
ser importante? Este é o tipo de questão que atormenta o dualista. Descartes 
não pôde explicar como um pensamento podia mover a glândula pineal e assim 
afetar o corpo material; Adrian reconhecia que não podia dizer de que maneira 
um impulso nervoso causava um pensamento.” De que maneira uma regra go- 
verna o comportamento? 

Como estímulo discriminativo, uma regra é eficaz como parte de um con- 
junto de contingências de reforço. Uma especificação completa deve incluir o 
reforço que modelou a topografia da resposta e colocou-a sob o controle do esti- 
mulo. Os reforços contingentes à estimulação anterior de máximas, regras ou leis, 
são às vezes as mesmas que as que modelam diretamente o comportamento. 
Quando este for o caso, a máxima, regra ou lei é uma forma de conselho.º Vá 
para o oeste, jovem, é um exemplo de conselho quando o comportamento que 
especifica for reforçado por certas consequências que não resultam da ação toma- 
da pelo conselheiro. Tendemos a seguir os conselhos porque o comportamento 
anterior em resposta a estímulos verbais similares tem sido reforçado. Vá para o 
oeste, jovem, será um mando. quando algumas consequências da ação especifi- 
cada são arranjadas pelo mandante — digamos, as consegiiências adversas arran- 


* E.D.Adrian, The Basis of Sensations; the Action of the Sense Organs, Nova York, W.W.Norton, 1928. 
8º B.F.Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 39 


jadas por um oficial encarregado de redistribuir os habitantes de uma região. 
Quando as máximas, regras e leis forem conselhos, o comportamento governado 
é reforçado por consequências que poderiam ter modelado o mesmo comporta- 
mento diretamente, na ausência de máximas, regras e leis. 

Quando forem mandos, serão eficazes apenas porque reforços especiais 
foram tornados contingentes a eles. Os governos, por exemplo, não confiam nas 
vantagens naturais de obedecer a lei para assegurar obediência. As regras grama- 
ticais são frequentemente seguidas, não tanto porque o comportamento será então 
particularmente eficaz, quanto porque punições sociais são contingentes ao 
comportamento avesso à gramática. 

O comportamento governado por regras seguidas por máquinas. Uma má- 
quina pode ser construída para mover um fole para cima, para baixo, para cima 
rápido, e para baixo devagar, ficando para sempre sob o controle das regras 
especificadoras. Só o projetista e construtor são afetados pelas condições resul- 
tantes do fogo. A mesma distinção se mantém quando máquinas seguem regras 
mais complexas. Um computador, como um fole mecânico, faz apenas o que foi 
construído e instruído a fazer. Mortimer Taubeº e Ulrich Neisser !º estão entre os 
que recentemente argumentaram que o pensamento de um computador é inferior 
ao humano, e é significativo que eles tenham enfatizado a falta de “propósitos”. 
Mas, falar dos propósitos de um ato é, como já vimos, simplesmente referir-se às 
suas consequências características. Um estabelecimento de propósitos pode fun- 
cionar como um estímulo discriminativo especificador de contingências. Os 
computadores meramente seguem as regras. O mesmo fazem os homens às vezes 
— por exemplo, o aprendiz de ferreiro que nunca vê o fogo ou o solucionador do 
problema de algoritmo que simplemente faz o que lhe ensinaram ou lhe disseram 
para fazer. As condições motivadoras (tanto para máquinas quanto para homens) 
são irrelevantes para o problema a ser resolvido. 

As regras são particularmente passíveis de serem deficientes na soberania 
necessitada para um governo bem sucedido quando são derivadas de análises 
estatísticas de contingências. É improvável que qualquer pessoa deixe de fumar 
simplesmente por causa da estimulação adversa associada ao câncer do pulmão, 
pelo menos não a tempo de fazer qualquer diferença, e é portanto, pouco provável 
que a desistência de fumar seja modelada por essas consequências. As contin- 
gências reais têm pouco efeito sobre o comportamento sob o controle de fatos ou 
regras especificadoras de contingências. Uma exposição formal de contingências 
Gumar cigarro dá câncer do pulmão) necessita do suporte de estímulos adversos 
cuidadosamente planejados envolvendo sanções possivelmemte não relacionadas 
às consequências do fumar. Por exemplo, fumar pode ser classificado como ver- 
gonhoso, ilegal, ou pecaminoso e ser punido por agências apropriadas. 

Algumas contingências não podem ser acuradamente descritas. O velho mé- 
dico de família foi frequentemente um diagnosticador hábil por causa das contin- 


º Mortimer Taube, Computers and Common Sense: The Myth of Thinking Machines, Nova York, Colum- 
bia UP, 1961. 
*º Ulric Neisser, “The imitation of man by machine”, Science, 139, 1963, pp. 193-197. 


40 SKINNER 


gências às quais foi exposto por muitos anos, mas ele não podia sempre descrever 
estas contingências, ou construir regras que evoquem comportamento comparável 
em médicos mais novos. Algumas das experiências da mística são inefáveis no 
sentido de que os três termos das contingências que governam o seu comporta- 
mento (o comportamento em si, as condições sob as quais ocorre, e suas conse- 
quências) escapam de especificação adequada. O comportamento emocional é 
particularmente difícil de ser posto sob o controle de regras. Como Pascal disse, 
“o coração tem razões que a própria razão desconhece”. É geralmente muito mais 
dificil descrever as habilidades não verbais do que as verbais. O comportamento 
verbal pode ser reportado de uma maneira única, modelando-o em citação dire- 
ta.!! O comportamento não verbal é modelado de maneira a poder ser imitado, 
mas não tão precisa ou exaustivamente. 

O comportamento governado por regras nunca é exatamente como o 
comportamento modelado pelas contingências. O jogador de golfe cujo balanço 
tenha sido modelado por seus efeitos sobre a bola é facilmente distinguível do 
jogador que está primariamente imitando um treinador, mesmo que seja muito 
mais dificil distinguir entre um homem que está fazendo uma observação original 
e outro que está dizendo algo porque lhe disseram que o fizesse; mas quando as 
topografias de resposta forem muito semelhantes, variáveis controladoras distin- 
tas estarão necessariamente envolvidas, e o comportamento terá propriedades 
diferentes. Quando experimentos operantes com sujeitos humanos são simplifi- 
cados ao se instruir os sujeitos na operação do equipamento, o comportamento 
resultante pode se assemelhar ao que se segue à exposição às contingências e pode 
ser estudado em seu lugar, para alguns propósitos, mas as variáveis controladoras 
são distintas, e os comportamentos não mudarão necessariamente no mesmo sen- 
tido em resposta a outras variáveis — por exemplo sob influência de uma droga. 

A diferença entre o comportamento seguidor de regras e o modelado por 
contingências pode ser observada quando se passa de um para o outro na “desco- 
berta da verdade” de uma regra. Um homem pode ter evitado durante anos adiar 
um trabalho necessário ou porque se lhe tenha ensinado que adiar é roubar tempo 
e, portanto, evita os adiamentos como evita ladrões, ou porque ele obedece submis- 
samente à injunção nunca deixe para amanhã o que você puder fazer hoje. Even- 
tualmente o seu comportamento pode vir sob influência direta das contingências 
relevantes — ao fazer algo hoje ele na realidade evita as conseguências adversas 
de ter que fazê-lo amanhã. Se bem que o seu comportamento possa não ser marca- 
damente diferente (ele continua a fazer o trabalho necessário assim que possível). 
agora se comporta por razões diferentes, que devem ser tomadas em consideração. 
Quando em algum momento futuro ele disser adiar é roubar tempo, sua resposta 
terá ao menos duas fontes de força: estará recitando um conceito memorizado e 
emitindo uma afirmação de fato especificadora de contingência. 

A possível ocorrência de um evento planejado perfaz uma mudança similar. 
Os planos para um simpósio são traçados e seguidos. Eventualmente, quase tão 


'* B.F.Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 41 


incidentalmente quanto possa parecer, o simpósio se realiza e certas conse- 
quências naturais se seguem. A natureza do empreendimento, como exemplo de 
comportamento humano, mudou; em particular, a probabilidade de que compor- 
tamento similar ocorra no futuro foi alterada. Da mesma forma, as expectativas 
meio formuladas, chamadas “premonições”. Repentinamente ganham importân- 
cia, quando o evento pressentido ocorre. Alteração semelhante ocorre quando um 
ator, iniciando com palavras decoradas e ações prescritas, passa à influências de 
reações simuladas ou reais de outros membros do elenco, sob cujo efeito modela- 
dor ele começa a “viver” o papel. 

A distinção clássica entre comportamento racional e irracional ou intuitivo 
é do mesmo tipo. As “razões” que governam o comportamento do homem racio- 
nal descrevem relações entre as ocasiões nas quais ele se comporta, seu compor- 
tamento, e suas consequências. Em geral, admiramos o homem intuitivo com seu 
comportamento modelado por contingências, mais do que o mero seguidor de 
regras. Por exemplo, admiramos o homem que é “naturalmente” bom, mais do 
que o meramente defensor das leis, o matemático intuitivo, mais do que o mero 
calculador. Platão discute a diferença no diálogo Cármides, mas confunde os 
assuntos ao supor que o que admiramos é a velocidade. É verdade que o compor- 
tamento modelado por contingências é disponível de imediato, enquanto toma 
tempo consultar regras e examinar razões; mas o comportamento irracional tem 
mais probabilidades de estar errado e temos portanto razões de admirar o homem 
deliberado e racional. Pedimos ao matemático intuitivo que se comporte como 
o que calcula — para construir uma prova que levará outros à mesma conclusão, 
mesmo que o próprio matemático intuitivo não necessitasse disso. Insistimos, 
com Freud, que as razões que os homens dão para explicar suas ações deveriam 
ser relatos acurados das contingências de reforço que foram responsáveis por 
seu comportamento. 


Outros tipos de problemas 


Definir um problema, etimologicamente, como algo que explicitamente pede 
uma solução (ou, mais tecnicamente, como um conjunto especifico de contin- 
gências de reforço para o qual se deve achar uma resposta de topografia adequa- 
da) é excluir instâncias nas quais as mesmas atividades precorrentes têm uma fun- 
ção útil. se bem que a topografia da resposta já seja conhecida. Requer-se ainda 
a distinção entre o comportamento modelado por contingências e o comporta- 
mento que segue regras. Algumas vezes, o problema não é o que fazer, mas se se 
deve fazê-lo. O comportamento de resolução de problema destina-se a fortalecer 
ou enfraquecer uma resposta já identificada. Consegliências conflitantes positivas 
e negativas, quer de natureza intelectual quer ética, são especialmente adequadas 
para colocar problemas deste tipo, por exemplo, quando uma resposta fortemente 
reforçada adiou consegliências aversivas, ou quando consegiiências aversivas e 
imediatas estão em conflito com reforços adiados. 


42 SKINNER 


Uma prática relevante de resolução de problemas consiste em emitir a res- 
posta questionável numa forma tentativa — por exemplo, como uma hipótese. 
Levantar uma hipótese difere de afirmar um fato na medida em que a evidência é 
mais escassa e a punição por estar errada mais provável de ocorrer. A resposta 
emitida é, entretanto, útil, particularmente se registrada, porque pode entrar em 
outras atividades de resoluções de problemas. Por razões bastante diferentes, agi- 
mos verbalmente antes de agir de outra maneira ao tomarmos uma resolução. É 
mais fácil resolver do que agir; mas a resolução torna a ação mais provável. (Uma 
promessa especifica uma resposta e cria contingências sociais que a fortalecem, e 
contingências de origem social são evocadas quando “prometemos a nós mes- 
mos” fazer alguma coisa ao tomar uma resolução.) Uma declaração de princípios 
é também uma descrição de ação a ser tomada. (Resoluções e declarações de prin- 
cípios são frequentemente feitas porque a ação em si é impossível no momento, 
mas são relevantes aqui apenas quando a ação que fortalecem ou enfraquecem 
não está sob constrição física.) Uma declaração conjunta e secreta de princípios 
é uma conspiração; descreve uma ação cooperativa a ser executada por um grupo. 

Assim como as regras e planos apropriados aos problemas nos quais a topo- 
grafia da solução não for conhecida, as hipóteses, declaração de princípios, etc., 
não devem ser inferidas em cada instância de comportamento. As pessoas agem 
sem tomar resoluções ou formular princípios. Pessoas ou grupos distintos de pes- 
soas (por exemplo, “capitalistas” segundo a teoria socialista) agem da mesma 
forma sob contingências de reforço semelhantes, mesmo cooperativamente, sem 
entrar em conspirações. A conclusão à qual um cientista chega ao fim de um 
experimento não existia necessariamente como hipótese antes ou durante o 
experimento. 

Às vezes, o problema consiste em chegar a uma probabilidade menos do que 
máxima, apropriada ao reforço intermitente. Uma probabilidade calculada, deri- 
vada quer por amostragem de um esquema de reforço quer pela inspeção direta do 
sistema mantenedor de tal esquema, controla uma força adequada de resposta. 
Mas, ainda uma vez, as pessoas não agem sempre sob o controle de tal cálculo, ou 
qualquer “suspeita” de probabilidade ou confiança, fé ou crença. 

Às vezes, o problema consiste em decidir que resposta emitir entre duas ou 
mais, sendo conhecida a topografia de todas. Os conceitos de escolha e tomada de 
decisão têm sido superenfatizados nas teorias psicológica e econômica. É difícil 
avaliar a probabilidade de ocorrência de uma única resposta, mas, quando são 
possíveis duas ou mais respostas mutuamente exclusivas, a que acaba sendo emiti- 
da parece pelo menos mais forte que as demais. Por isso, a pesquisa psicológica 
precoce enfatizou situações e esquemas nos quais se observava apenas uma força 
relativa (o rato virava para a direita ao invés de para a esquerda, ou pulava atra- 
vés de um círculo ao invés de um quadrado). Foram desencorajados os esforços 
para estimar as probabilidades separadas das respostas concorrentes. Respostas 
singulares foram tratadas meramente como decisões entre agir e não agir, dentro 
dos limites de tempo atribuídos a uma “tentativa”. A noção de força relativa 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 43 


praticamente perde então o sentido, e “escolha” significa simplesmente “ respos- 
ta”. A questão de se agir de uma ou de outra maneira difere do problema de agir 
ou não agir apenas porque uma das consequências adversas de agir de uma forma 
é uma perda de oportunidade de agir da outra. As atividades na mesma resolução 
de problema são relevantes. Uma decisão anunciada antes da ação é essencial- 
mente uma resolução ou uma declaração de princípios. A mera emissão de uma 
resposta ao invés de qualquer outra, entretanto, não significa que se tenha formu- 
lado uma decisão. 

A noção de um problema como algo colocado para solucionar é até mesmo 
menos apropriada quando nem a topografia do comportamento fortalecido por 
atividade precorrente, nem suas consequências são conhecidas até que o compor- 
tamento ocorra. Artistas, compositores e escritores, por exemplo, envolvem-se em 
várias atividades que promovem sua produção de arte, música e literatura. (Às 
vezes, eles são solicitados a produzir um trabalho com especificações bastante 
estreitas, e seu comportamento exemplifica então a resolução explícita de proble- 
ma, mas isso não é sempre o caso.) O artista ou compositor explora um meio ou 
um tema e chega a composições imprevistas, com efeitos imprevistos. Um escritor 
explora um assunto ou um estilo e chega a produzir um poema ou um livro que 
não poderia ser antecipadamente descrito e nem ter seus efeitos previstos com 
antecedência. Neste processo de se “descobrir o que se tem a dizer”, o comporta- 
mento precorrente relevante não pode ser derivado de qualquer especificação do 
comportamento a seguir ou das contingências que o comportamento irá satisfazer. 
O comportamento precorrente, todavia, funciona em virtude dos processos envol- 
vidos na resolução de problemas formuláveis. Por exemplo, um rascunho gros- 
seiro e hipóteses fornecem os estimulos que levam a outros rascunhos e hipóteses, 
em direção a uma solução final. Aqui novamente seria um erro assumir que o 
artista, compositor, ou escritor está necessariamente realizando uma concepção 
anterior do trabalho que produz. As condições sob as quais Renoir foi reforçado 
ao pintar “Festa a bordo” devem ter sido tão reais quanto aquelas sob as quais 
um matemático ou um cientista é reforçado pela resolução de um problema, em- 
bora sobre elas muito pouco se pudesse falar antecipadamente. 

Diz-se frequentemente que a resolução de problemas produz conhecimento. 
Uma formulação operante nos permitirá distinguir entre algumas da coisas a que 
o termo tem sido aplicado. 

O que é conhecimento, onde está e de que se trata? Michael Polanyi!'? e P. 
W. Bridgman'!? colocaram essas questões com respeito à aparente discrepância 
entre os fatos científicos, leis e teorias (conforme publicadas, por exemplo, em 
separatas, textos, tábuas de constantes e enciclopédias) e o conhecimento pessoal 
do cientista. O conhecimento objetivo transcende o individuo; é mais estável e 


'2 Michael Polanyi, “Control of behavior by presentation of an imprinted stimulus”, Science, 132, 1960, pp. 
1395-1396 e Personal Knowledge, Univ. of Chicago Press, 1960. 


'3 Pp W.Bridgman. The Nature of our Physical Concepts, Nova York. Philosophical Library. 1952 e The 
Wav Things are, Cambridge. Harvard UP, 1959. 


44 SKINNER 


durável do que a experiência privada, mas falta-lhe cor e envolvimento pessoal. A 
presença ou ausência de “consciência” dificilmente pode ser a diferença relevante. 
pois os cientistas são tão “cônscios” das leis quanto das coisas que a lei descreve. 
O contato sensorial com o mundo externo pode ser o início do conhecimento, mas 
contato não é suficiente. Não é sequer suficiente para a “experiência consciente”. 
uma vez que os estímulos são a única parte das contingências de reforço sob a 
qual um organismo distingue entre os aspectos e propriedades do ambiente em 
que vive. Respostas devem ser dadas e reforçadas antes que qualquer coisa possa 
ser vista. 

O mundo que estabelece contingências de reforço do tipo estudado numa 
análise operante é presumivelmente “aquilo de que trata o conhecimento”. Uma 
pessoa vem a conhecer este mundo e como se comportar nele no sentido em que 
adquire o comportamento que satisfaz as contingências que mantém. O comporta- 
mento exclusivamente modelado por tais contingências talvez seja o mais pró- 
ximo do “conhecimento pessoal” de Polanyi e Bridgman. É o comportamento 
dirigido, “proposital”, do ferreiro que manipula o seu fole por causa de seus efei- 
tos sobre o fogo. 

Mas há outro tipo de comportamento que poderia ser chamado de conheci- 
mento da mesma coisa — o comportamento controlado pelos estímulos especifi- 
cadores de contingências. Estes estímulos são tão objetivos quanto o mundo que 
eles especificam, e são úteis precisamente porque se tornam e permanecem parte 
do mundo externo. O comportamento sob seu controle é o comportamento do 
aprendiz que nunca vê o fogo mas age como foi instruído a fazê-lo, recitando o 
poema. No que se refere à topografia, pode assemelhar-se ao comportamento dire- 
tamente modelado pelas contingências, porém, permanece uma diferença muito 
importante no controle das variáveis. (Dizer que comportamentos têm “significa- 
dos” distintos é apenas outra maneira de dizer que são controlados por variáveis 
distintas.) ! * A distinção que Polanyi! º em particular parece estar tentando fazer 
é entre o comportamento modelado por contingências e o governado por regras, e 
não entre comportamentos marcados pela presença ou ausência de “experiência 
consciente”. A força de comportamentos modelado por contingências depende de 
consegiiências “genuínas”. É provável que seja não verbal c assim “confronte-se 
com a realidade”. É uma posse pessoal que morre com o dono. As regras que for- 
mam o corpo da ciência são públicas. Elas sobrevivem ao cientista que as estabe- 
leceu, assim como aos que são guiados por elas. O controle que exercem é prima- 
riamente verbal. c o comportamento resultante pode não variar em força, com 
consequências de significado pessoal. Estas são distinções básicas. que sobrevi- 
vem mesmo quando. como normalmente ocorre, o comportamento do cientista for 
devido tanto a reforçamento direto quanto ao controle exercido pelos estímulos 
especificadores de contingências que compõem fatos. leis e teorias. 


'* B.F.Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 
8 Michacl Polanyi, Personal Anowledge, Univ. of Chicago Press, 1960. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 45 


Nota 6.1 — Por que se formulam regras? 


Está muito bem dizer que extraimos regras das contingências de reforço, ou 
quando tenhamos sido expostos a elas ou quando tivermos tido a oportunidade de 
estudar os sistemas que as arranjam; e que lucramos ao fazer isto porque nós e os 
outros podemos então seguir as regras ao invés de nos submetermos ao processo, 
possivelmente tedioso, de termos o comportamento modelado pelas contingên- 
cias. Mas, “extrair uma regra” é um comportamento complexo e o reforço natural 
pode ser postergado. Por que e como chegamos a tal comportamento? 

Algumas regras fragmentárias emergem como consequência natural do 
comportamento modelado por contingências. Uma vez que um caminho tenha 
provado ser útil, não será difícil explicar qualquer comportamento que o acentue. 
Marcamos uma pista porque assim se intensificam estímulos discriminativos que, 
como tais, também são reforçadores. Retraçar os próprios passos é o uso mais 
simples de uma pista, e marcar uma pista de modo a que ela possa ser retraçada 
é um tema mitológico comum. Evidentemente, pegadas não teriam sido conspí- 
cuas no labirinto do minotauro, e Teseu foi, portanto, marcando o caminho ao 
desenrolar a bola de barbante de Ariadne assim que entrou. Hansel c Gretel 
encontraram-se em dificuldades quando sua pista de migalhas foi comida pelos 
pássaros. 

A explicação é bastante semelhante quanto a contingências que envolvem 
tempo. Para completar uma jornada antes do escurecer, há que se iniciar cedo, e 
qualquer estimulo correlacionado com o tempo torna-se então importante. Poderá 
ser a posição do sol. Por sua vez, ela poderá ser tornada mais eficaz como esti- 
mulo ao se medir a altitude — digamos, em distância do horizonte medida em 
palmos. Sombras projetadas pelo sol são mais fáceis de ler, e inventou-se um reló- 
gio de sol para projetá-las numa forma padrão. Ampulhetas e relógios de água 
produzem estímulos visuais que mudam com o tempo em velocidades usuais, mas 
não se trata de modificações de relógios naturais e o comportamento precorrente 
de invenção deve ter sido mais elaborado. O relógio de pêndulo, é claro, veio 
muito depois, quando os estímulos correlacionados com o tempo passaram ao uso 
comum e a arte mecânica estava bem adiantada. Um relógio é mais útil quando 
puder ser lido, e por isso acrescentam-se números aos relógios de sol, ampulhetas 
e relógios de água. 

Caminhos e relógios, mesmo quando descritos verbalmente, são regras 
incompletas, já que outras partes das contingências em que aparecem não são 
especificadas. Algo mais próximo de uma regra pode ter surgido na forma de res- 
postas reforçadas quando induzem os outros a se comportarem de formas dadas. 
Um comando ou pedido especifica o comportamento e implica as conseqliências, 
aversivas no comando, positivamente reforçadoras no pedido. Uma advertência 
ou conselho também especifica um comportamento e pelo menos implica em con- 
sequências. O mesmo ocorre com contratos e subornos. O trabalho de um estu- 
dante, a tarefa de um servo, a cota de um trabalhador, a tarefa de um soldado, 
o dever de um cidadão especificam algo a ser feito e as consequências aversivas 


46 SKINNER 


que são evitadas ao fazê-lo. Instruções e orientações geralmente são formas de 
conselho e advertência. 

O caráter imperativo de regras deste tipo é eventualmente suavizado. O 
“mando” puro! pode ser substituído por um “tato” descrevendo condições sob as 
quais um comportamento específico por parte do ouvinte será reforçado. Dê-me 
um drinque! leva a estou com sede. O artífice começa ordenando a seu aprendiz 
que se comporte de uma determinada maneira (ou, como já vimos, ensina-lhe um 
poema a recitar para dar ordens a si mesmo), mas ele pode chegar ao mesmo efei- 
to simplesmente descrevendo a relação entre o que o aprendiz faz e as conseqglên- 
cias. Uma lei científica não obriga ninguém a se comportar de uma determinada 
forma; ela simplesmente descreve as contingências sob as quais certos tipos de 
comportamento terão certos tipos de consequências. Leis éticas, religiosas e 
governamentais presumivelmente começam como injunções mas, como as leis 
científicas, eventualmente descrevem meras contingências, especificando o 
comportamento e suas conseqglências (geralmente punitivas). A diferença entre 
uma lei científica e uma governamental não é que uma é descoberta e a outra é 
feita, porque ambas são descobertas. Um governo geralmente “faz uma lei” ape- 
nas quando a cultura já está mantendo, ou está disposta a manter, as contin- 
gências que a lei descreve. A lei é a descrição de práticas éticas, religiosas ou 
governamentais prevalecentes. Ao codificar as práticas da cultura, ao elogiar e 
condenar, assim como ao estabelecer uma lei científica, estaremos descrevendo 
contingências de reforço. Não podemos dar crédito a ninguém pelas conse- 
quências de seu comportamento até que tenhamos identificado o comporta- 
mento, as consequências, e as relações entre ambos, e nem podemos condenar nin- 
guém com uma análise semelhante. Ambos os tipos de contingências existem e 
modelam o comportamento antes de serem analisadas ou formalizadas em regras. 

Devemos esperar que sejam muito raramente formuladas regras para pautar 
nosso próprio comportamento, se o forem. Se já agimos de acordo com um con- 
junto de contingências, por que se precisa de regras? Todavia, o cientista que exa- 
mina um conjunto de fenômenos e formula a lei que os “governa” pode estar 
fazendo isto porque ele próprio pode então reagir mais efetivamente agora ou 
mais tarde, quando o comportamento modelado por contingências se tenha enfra- 
quecido. As regras são formuladas mais precisamente por causa das contin- 
gências sociais designadas a induzir uma pessoa a relatar o que faz e por que o 
faz. A comunidade verbal gera “consciência”? quando ensina um indivíduo a des- 
crever seu comportamento passado e presente e o comportamento que ele prova- 
velmente irá exibir no futuro e a identificar as variáveis das quais os três são 
provavelmente função. A descrição assim gerada ainda não é uma regra, mas a 
pessoa pode usar os mesmos termos para ordenar seu próprio comportamento 
(como uma forma de autocontrole), para tomar decisões, formular planos, estabe- 
lecer propósitos, e assim construir regras. 


* B.F.Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 
2 B.F.Skinner, Science and Human Behavior, Nova York, The Macmillan Company, 1953, caps.17-18. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 47 


Nota 6.2 — A objetividade das regras 


Ao contrastar o comportamento modelado por contingências c o governado 
por regras devemos considerar quatro coisas: 

1) um sistema que estabelece certas contingências de reforço. tais como al- 
guma parte do ambiente natural. um pedaço de equipamento usado em pesquisa 
operante, ou uma comunidade verbal; 

2) o comportamento que é modelado ou mantido por estas contingências ou 
que as satisfaz no sentido de ser reforçado em sua presença; 

3) regras derivadas das contingências, sob a forma de injunções ou descri- 
ções que especificam ocasiões, respostas e consequências; 

4) o comportamento evocado pelas regras. 

A topografia de (4) provavelmente nunca é idêntica à de (2) porque as regras 
em (3) provavelmente jamais serão especificações completas das contingências em 
(1). Os comportamentos em (2) e (4) também estão geralmente sob o controle de 
diferentes estados de privação ou estimulação aversiva. 

Os itens (2) e (4) são exemplos de comportamento, e, como tal, efêmeros e 
insubstanciais. Observamos um organismo no ato do comportamento, mas estu- 
damos apenas os registros que sobrevivem. O comportamento é também subjetivo 
no sentido de ser característico de uma pessoa particular com uma história parti- 
cular. Em contraposição, (1) e (3) são objetivos e duráveis. O sistema de reforço 
em (1) existe antes de qualquer efeito que possa ter sobre um organismo e pode ser 
observado da mesma forma por duas ou mais pessoas. As regras de (3) são esti- 
mulos verbais mais ou menos permanentes. Não é surpreendente, portanto, que (2) 
e (4) frequentemente assumam o segundo lugar em relação a (1) e (3). Diz-se de (1) 
ser aquilo a respeito de que uma pessoa “adquire conhecimento” e (3) é chamado 
“conhecimento”. 


Mapas. Ao descobrir o caminho num terreno complexo, como já vimos, a 
relação entre o comportamento e suas consegliências reforçadoras pode ser repre- 
sentada espacialmente, e “proposital” acaba significando “dirigido para um obje- 
tivo”. Tem-se então um tipo especial de regra — um mapa. Uma cidade seria um 
exemplo do item (1). É um sistema de contingências de reforço: quando uma pes- 
soa segue por certas ruas e dá certas voltas, é reforçada por chegar a um determi- 
nado lugar. Ela aprende a andar na cidade quando seu comportamento (2) for 
modelado por estas contingências. Este é um dos sentidos de “ela adquire conheci- 
mento da cidade”, como dizemos. Sempre que o reforço associado com o chegar 
num determinado local for relevante a um estado corrente de privação, ela se com- 
porta de modo a chegar a este local. Um mapa com um caminho marcado é um 
exemplo de (3) e o comportamento de seguir o mapa é um exemplo de (4). Circu- 
lar pela cidade seguindo um mapa (4) pode parecer circular pela cidade como efei- 
to da exposição a contingências (2), mas as topografias serão provavelmente dife- 
rentes, além de haver comportamento colateral de consulta do mapa no primeiro 
caso. Uma vez que o mapa (3) parece ser um tipo de “conhecimento” objetivo da 


48 SK INNER 


cidade, é fácil inferir que o próprio (2) implica num mapa — o mapa cognitivo de 
Tolman, por exemplo. Já foi dito! que quase todas as figuras que descrevem o 
equipamento no Comportamento Proposital em Animais e Homens, de Tolman, 
são mapas. O terreno (1) não é só o que é aprendido, mas é o próprio objeto do 
conhecimento (3). Aprender parece ser a descoberta de mapas.? Mas um mapa é 
plausível como uma forma de regra apenas quando as contingências podem ser 
representadas espacialmente. É verdade que outros tipos de espaço psicológico 
foram colocados como hipótese (por exemplo, por Kurt Lewin) para explicar o 
comportamento que não é exemplo de movimento em direção a um objetivo ou 
afastamento de problemas, mas a noção de mapa e o conceito de espaço ficam 
então dilatados. 

A extensão na qual um comportamento é modelado por contingências ou 
governado por leis é frequentemente uma questão de conveniência. Quando um 
rastro é notado logo (como na Corte Hampton após uma nevada), não há necessi- 
dade de se aprender o labirinto; é muito mais conveniente aprender apenas a se- 
guir o rastro. Caso a superficie não retiver as marcas, o labirinto terá de ser 
conhecido. Se o rastro se desenvolver lentamente, o labirinto deve ser de início 
conhecido como se não houvesse pista e esta, encontrada eventualmente, pode 
nunca vir a ser usada. Se, entretanto, o labirinto for difícil — por exemplo, se ele 
tiver vários pontos muito semelhantes — ou se puder ser facilmente esquecido, 
um desenvolvimento lento da pista pode assumir o último controle. Neste caso, 
eventualmente, “descobriremos a verdade” numa pista, como se descobre a verda- 
de numa máxima. 

São as contingências, não as regras, que existem antes de serem formuladas 
as regras. O comportamento modelado pelas contingências não demonstra conhe- 
cimento das regras. Pode-se falar gramaticalmente correto sob as contingências 
mantidas por uma comunidade verbal sem, de qualquer outra maneira, “conhecer 
as regras gramaticais”, mas uma vez descobertas estas contingências e formula- 
das as regras gramaticais, ocasionalmente pode-se chegar a falar gramaticalmente 
certo, aplicando as regras. 

Alguns psicólogos chamam o condicionamento operante de “aprendizagem 
de probabilidade”. Às vezes, a referência diz respeito à probabilidade de um orga- 
nismo responder de uma dada forma (2) e às vezes, probabilidade de uma res- 
posta ser reforçada sob as contingências prevalecentes (1). “O que é aprendido” é 
o último; e diz-se que o organismo chega a “saber que comportamento terá deter- 
minados efeitos sob tais circunstâncias”. 


Conceitos. Os itens em nossa lista que parecem ser objetivos também ten- 
dem a ser enfatizados quando o reforço é contingente à presença de um estímulo 
que é membro de um conjunto definido por uma propriedade. Tal conjunto, que 


* B.F.Skinner, prefácio à edição em brochura de The Behavior of Organisms, Nova York, Appleton-Centu- 
ry-Crofts, 1966. 

2 O fato de que é muito mais fácil aprender a seguir uma pista traçada do que uma não traçada poderia suge- 
rir que a pista externa está sendo usada em lugar de pistas internas, que figuram tão relevantemente em neuro- 
fisiologia. Mas os dois tipos de pistas têm funções muito diferentes. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 49 


pode ser encontrado na natureza, ou ser explicitamente construído, é um exemplo 
de (1). O comportamento é modelado por estas contingências de tal modo que 
os estímulos possuidores da propriedade evocam respostas, o que não ocorre com 
os demais estímulos. A propriedade definidora é nomeada numa regra (3) ex- 
traída das contingências. (A regra estabelece que uma resposta será reforçada 
na presença de um estímulo com tal propriedade.) O comportamento (4) é evoca- 
do por estímulos possuidores da propriedade, possivelmente sem exposição às 
contingências. O “conceito” está “no estímulo” como propriedade definidora em 
(1) e é nomeado ou especificado de qualquer outra forma na regra de (3). Uma vez 
que a topografia de resposta emitida é geralmente arbitrária, é bastante provável 
que os comportamentos em (2) e (4) serão similares. e é então particularmente 
fácil supor que se responde a (1) porque se “conhece a regra” em (3). 


Nota 6.3 — Alguns tipos de regras 


Uma lei científica ou uma máxima impondo um comportamento prudente di- 
fere de uma resolução, plano ou estabelecimento de propósito na generalidade das 
contingências que suplementa ou substitui. Leis e máximas descrevem contin- 
gências duradouras, e, uma vez descobertas, podem ser transmitidas e usadas por 
outros. Uma resolução, plano, ou estabelecimento de propósito são construídos 
no ato. É muito mais provável que sejam uma descrição incompleta de contingên- 
cias, mas têm o mesmo efeito que uma máxima ou lei, na medida em que identi- 
ficam uma resposta e a ocasião na qual esta poderá ser reforçada. Podem também 
invocar reforçadores adicionais, positivos ou negativos. Uma pessoa obedece a 
uma lei e observa uma máxima, em parte para evitar censura, possivelmente 
autoimposta, se não conseguir fazê-lo. Ela toma uma resolução, leva adiante um 
plano e atém-se a um propósito, em parte por razões similares. 

Um modelo a ser imitado é uma regra fragmentária especificando a topogra- 
fia da resposta imitativa. Quando mostramos a alguém como fazer alguma coisa, 
estamos compondo um modelo imitativo. Este é um tipo de instrução ou orienta- 
ção. Quando fornecemos uma cópia ou padrão a ser desenhado ou reproduzido de 
qualquer outra forma (por exemplo, trabalho feito a agulha), também fornecemos 
uma regra. Há muitos exemplos verbais." O comportamento ecóico, o tomar um 
ditado, o copiar a mão, todos implicam em estímulos que podem ser interpretados 
como topografia especificadora do comportamento. Um texto seria um caso parti- 
cularmente interessante. É uma regra fragmentária que dirige o comportamento 
do leitor, ponto por ponto. 

Quase sempre restringimos a palavra “estudo” à aquisição de comporta- 
mento governado por regras. Se bem que possamos estudar uma peça de equipa- 
mento se quisermos fazer algo com ela, geralmente não dizemos que estamos estu- 
dando quando aprendemos a usá-la. Não dizemos que um estudante está 
estudando quando está na verdade dirigindo um carro, mas dizemos que estuda 
um manual sobre a maneira de dirigir. A distinção parece ser que, no caso do 
manual, o comportamento verbal que ele eventualmente adquire está especificado 


*B.F.Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 


50 SKINNER 


no texto. Não há representação anterior do comportamento de dirigir um carro. É 
modelado por contingências. É fácil ver que a representação anterior se diz ser 
aprendida, no sentido de armazenada pelo estudante. Recordamos uma regra, 
fragmentariamente ou de qualquer outra maneira. Recordamos partes de um ma- 
nual sobre como dirigir um carro à medida que recitamos ou parafraseamos o 
texto, mas não dizemos que estamos recordando como se dirige um carro 
enquanto o dirigimos. 

Num dos primeiros experimentos sobre discriminação, ? um rato pressionava 
a barra repetidamente e as respostas eram reforçadas enquanto uma luz estivesse 
acesa. Se a luz fosse diminuindo progressivamente até que não pudesse mais ser 
vista, o problema de “quando pressionar a barra” se tornaria insolúvel. As contin- 
gências seriam indistinguíveis das do reforço intermitente. Enquanto a luz esti- 
vesse disponível, um sujeito humano poderia ter descoberto maneiras especiais de 
torná-la um estímulo discriminativo importante. Poderia também ter formulado 
uma regra, para uso próprio e dos demais, quer como injunção (“Responda ape- 
nas quando a luz estiver acesa”) quer como descrição das contingências (“Uma 
resposta é seguida por comida apenas quando a luz está acesa”). A última seria 
uma lei científica num universo limitado. 

Quando não há luz visível, nenhuma regra pode ser formulada, mas os estíi- 
mulos acidentalmente presentes quando uma resposta for reforçada podem ganhar 
controle. Pombos mostram este tipo de comportamento supersticioso, o mesmo 
ocorrendo com jogadores. Um jogador conspicuamente bem sucedido numa oca- 
sião em que está usando uma determinada gravata, usa-la-á algumas vezes de 
novo “para dar sorte”. (Sorte é uma ficção explicativa interessante. Dona Sorte 
tem a mesma relação para um jogador que a Musa para um poeta. Uma série 
de sucessos é atribuída a um golpe de sorte, e é difícil que não haja, de fato, 
alguma causa externa.) 

Isto não quer dizer que não existam regras úteis referentes a esquemas impre- 
visíveis. “Não jogue a dinheiro” é uma delas. Um clube de jogo avisa a seus patro- 
nos: “quando você descobre um filão, pare enquanto está por cima”. Se o clube 
acredita em filões, pode dar este conselho para manter os jogadores de sorte longe 
de suas mesas, mas há uma razão melhor. É importante que alguns jogadores 
saiam quando estão ganhando, já que o clube não seria popular se todos os joga- 
dores parassem de jogar apenas quando não tivessem mais dinheiro. 

Melhor sistema é o conjunto de regras que governam o jogo. É útil, mesmo 
quando não dita, de fato, um jogo bem sucedido. Os homens são frequentemente 
punidos por responder nas circunstâncias erradas e condenados por negligenciar 
informações úteis. Responder sem nenhuma indicação de sucesso é adverso e 
pode-se escapar achando algum indicador aparente. Uma observação superficial, 
contendo o nome de um cavalo da corrida é o palpite no qual vale arriscar. Pode- 
se então criticar o palpite se a aposta não compensar. Um sistema de apostas tem 
o efeito de uma forquilha?. Custa dinheiro construir um poço, e o poço pode não 


2 B.F.Skinner, The Behavior of Organisms, Nova York, Appleton-Century, 1938. 
3 Ray Hyman e Elizabeth G. Gohen, “Water-witching in the United States”, Amer. Sociological Review, 22, 
1957, pp. 719-724. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 51 


dar água. O erro será punitivo, mas não se pode evitá-lo, não cavando. Chama-se 
então um descobridor de água; e se ele fracassar em descobrir a água, será culpa- 
do. Jogamos cara ou coroa ao tomarmos uma decisão difícil, e podemos então 
culpar a moeda pela escolha errada. O Departamento de Defesa, assim como 
grandes organizações comerciais, usam sistemas de tomada de decisão, mesmo 
quando são de valor questionável, sempre que não houver boas razões para deci- 
dir de uma maneira ou de outra. O sistema não dita boas decisões, mas também 
absolve todo mundo da culpa pelas más. 

Quando se pergunta a uma pessoa por que ela faz uma determinada coisa, ou 
por que a faz de determinada forma, sua resposta geralmente se referirá a contin- 
gências. Pode identificar corretamente as variáveis que controlam seu comporta- 
mento e, ao fazê-lo, avança em direção a uma regra que governaria um comporta- 
mento similar, caso as contingências originais estiverem incompletas ou ausentes. 
Pode, entretanto, estar errado; pode inventar um conjunto de variáveis. Estará 
particularmente inclinado a fazê-lo, caso as variáveis reais puderem acarretar 
punição. Isto é racionalização, no sentido freudiano. Quando o conjunto for defi- 
ciente, sua explicação terá a forma de uma crença. Assim, ele não explicará seu 
comportamento supersticioso, confessando que tenha sido afetado por contin- 
gências adventícias. Ao invés disso, dará “boas razões” para fazer o que faz. As 
superstições transmitidas por uma cultura são regras para as quais não há contin- 
gências correspondentes. O paranóico é um especialista em extrair regras de 
contingências deficientes. Quando um homem está resolvendo um problema, pode 
emitir uma solução eficaz antes de descrever seu lugar nas contingências. Por 
exemplo, pode formar um conceito no sentido de que começa a responder consis- 
tentemente a um conjunto de estímulos antes de poder nomear ou descrever a 
propriedade que define o conjunto. Geralmente dizemos que chega à idéia quando 
nomeia a propriedade, e assim identificamos o ter uma idéia como o fato de ser 
capaz de formular uma regra. Propomos idéias aos outros na forma de regras, e 
a cultura transmite o que é aprendido desta forma. 

Uma regra grosseira simplesmente não é uma regra. Agir seguindo regras 
grosseiras é ter o comportamento modelado por contingências. “Voar com as pró- 
prias asas” também parece referir-se a um comportamento modelado por contin- 
gências, como sendo distinto do comportamento de seguir instruções. Sugere que 
os estímulos gerados pela ação do plano sobre o corpo do voador são cruciais, 
mas voar também pode ser modelado por contingências nas quais a leitura de 
instrumentos pode ser importante. 


Nota 6.4 — Diferenças entre o comportamento governado por regras 
eo comportamento modelado por contingências 


Um cientista pode jogar bilhar intuitivamente, como resultado de longa expe- 
riência, ou pode determinar as massas, ângulos, distâncias, fricções, etc., e calcu- 
lar cada jogada. Provavelmente optará pela primeira alternativa, é claro, mas há 
circunstâncias análogas nas quais ele não pode se submeter às contingências de 


52 SKINNER 


maneira análoga, e deverá adotar a última opção. Ambos os tipos de comporta- 
mento são plausíveis, naturais e eficazes; ambos demonstram “conhecimento das 
contingências”, e (à parte dos cálculos precorrentes no segundo caso) podem ter 
topografias similares. Mas estão sob tipos distintos de controle de estímulo e são, 
portanto, operantes distintos. A diferença aparece quando o cientista examina seu 
comportamento. No primeiro caso, ele sente a correção de sua força e a direção 
na qual a bola é tacada; no segundo, ele sente a correção de seus cálculos, mas 
não a tacada em si. 

É o controle da natureza, no primeiro caso, com suas sensações decorrentes, 
que sugerem a Polanyi e Bridgman um tipo de envolvimento pessoal característico 
apenas da experiência direta e do conhecimento. O objetivo da ciência, entretanto, 
é analisar as contingências de reforço encontradas na natureza e formular regras 
ou leis que tornam desnecessário estar exposto a elas para se comportar apropria- 
damente. O que vemos ao nos observar seguindo as regras da ciência é, por conse- 
guinte, diferente do que vemos ao nos comportarmos de acordo com o que apren- 
demos sob as contingências que as regras descrevem. O erro está em supor que 
apenas um destes tipos de comportamento representa conhecimento. Polanyi 
argumenta que “o conhecimento tácito e... o princípio dominante de todo o 
conhecimento, e... sua rejeição, por conseguinte, implicariam na rejeição de 
qualquer conhecimento”. * É verdade que um aprendiz de ferreiro pode não saber 
por que está operando o fole como o faz — pode não ter “sensação” do efeito no 
fogo — mas a regra, juntamente com seu efeito sobre o comportamento, é ainda 
uma “forma de conhecimento”. 

Rogers * e Maslow * tentaram inverter a história da ciência psicológica para 
voltar a um tipo de conhecimento gerado por contingências pessoais de reforço. 
Presumivelmente não questionaram a eficácia das regras e prescrições que pos- 
sam ter sido feitas a partir de uma consideração das circunstâncias nas quais as 
pessoas se comportam ou podem ser induzidas a se comportar, mas dão prefe- 
rência ao conhecimento pessoal que tem a sensação de um comportamento mode- 
lado por contingências. Não é muito dificil fazer esta sensação parecer importante 
— tão importante quanto pareceu a Polanyi e Bridgman ao tentarem avaliar o 
que realmente sabemos do mundo como um todo. 

Rogers e Maslow sentem-se ameaçados pela objetividade do conhecimento 
científico e a possível ausência de envolvimento pessoal em sua produção; mas O 
comportamento pessoal e social modelado por contingências sociais tem sido, ex- 
ceto raros exemplos, tão frio, esquemático, ou brutal quanto o comportamento 
calculado de um Maquiavel. Não temos garantia de que o envolvimento pessoal 
traga simpatia, compaixão, ou entendimento, porque geralmente tem sido o 
contrário. A ação social baseada numa análise científica do comportamento hu- 
mano tem muito maior probabilidade de ser humana. Pode ser transmitida de pes- 


* Michael Polanyi, The Study of Man, Londres, Routledge, 1959. (Lindsay Memorial Lectures. 1958.) 

* Carl Rogers. On Becoming a Person; a Therapist's View of Psychotherapy, Boston, Houghton-Mifflin, 
1961. 

8 Abraham Maslow, Toward a Psychology of Being, Princeton, Nova Jersey, Van Nostram. 1962. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO s3 


soa a pessoa e de época para época, pode ser liberada de preferências pessoais e 
preconceitos, pode ser constantemente retestada contra os fatos, e pode aumentar 
prontamente a competência com a qual se resolvem os problemas humanos. Se 
necessário, pode inspirar em seus devotos uma sensação de justiça. O conheci- 
mento pessoal, quer modelado por contingências, quer governado por regras, não 
deve ser julgado a partir de como é sentido, mas sim, quanto ao auxílio que ofere- 
ce na construção de uma cultura mais eficaz. 

O comportamento evocado por uma regra é frequentemente mais simples do 
que o comportamento modelado pelas contingências das quais a regra foi deriva- 
da. A regra cobre apenas o essencial; pode omitir aspectos que dão ao comporta- 
mento modelado por contingências o seu caráter. As sanções que tornam uma 
regra eficaz também frequentemente tornam o comportamento “frio”. Alguns 
comportamentos governados por regras, entretanto, podem ser mais completos e 
eficazes que o comportamento modelado pelas contingências. Este é particular- 
mente o caso quando as contingências estão incompletas. As regras podem ser 
derivadas de um estudo de um sistema reforçador (tal como uma amostra de espa- 
ço) ou de grandes amostras de comportamento reforçado por tal sistema, e evoca- 
rão comportamento quando as consequências reforçadoras forem muito raras e, 
portanto, o comportamento modelado pelas contingências, pouco provável. Máxi- 
mas referindo-se à perseverança, por exemplo, provêem um suplemento necessário 
às contingências fracas neste sentido. As consequências que têm um efeito despre- 
zível na modelagem de comportamento podem produzir regras atuárias importan- 
tes. Poucas pessoas dirigem carro numa velocidade moderada e mantêm seus cin- 
tos de segurança amarrados por terem realmente evitado ou escapado de acidentes 
sérios ao fazê-lo. As regras derivadas de contingências que afetam grande número 
de pessoas tornam as consequências, descritas implicitamente nas regras, produti- 
vas para o indivíduo. As consegiências éticas e legais funcionam sinergicamente 
com as consequências naturais que, por si mesmas, são ineficazes. 

Consegiências muito adiadas, ineficazes na modelagem de comportamento, 
podem também levar a regras úteis. A utilidade última é raramente importante na 
modelagem do comportamento, mas pode ser maximizada se certas regras forem 
seguidas. Regras deste tipo são particularmente valiosas quando se opõem a 
contingências poderosas. É fácil consumir agora e sofrer privações depois, ou 
fumar agora e morrer de câncer mais tarde; mas regras derivadas de dados atuá- 
rios ou econômicos e fisiológicos podem capacitar as consequências a longo 
prazo a compensar as imediatas. 

O comportamento governado por regras é particularmente eficaz quando as 
contingências modelariam comportamento indesejável ou de desperdício. Uma 
espécie que desenvolveu a capacidade de aprender a partir de uma experiência — 
a mudar o seu comportamento como resultado de um único reforço — é vulne- 
rável ao reforço adventício. O reforço que segue uma resposta não precisa ser 
“produzido por ela”. Pode gerar comportamento supersticioso. Um estudo de 
muitas instâncias ou do sistema reforçador, pode levar a uma regra oposta aos 
efeitos das coincidências. Uma regra geral que mande uma pessoa não adquirir 


54 SKINNER 


uma resposta, quando adventiciamente reforçada, é improvável, porém um grande 
número de regras que descrevem conexões “genuínas” entre o comportamento e 
suas consequências pode enfatizar a singularidade e portanto a improbabilidade 
de um exemplo dado. Algumas regras especiais sobre causalidade espacial, tem- 
poral e física têm este efeito. Se sacudirmos o punho para um avião que passa, e 
o avião subitamente der meia-volta, talvez não mais sacudiremos nosso punho 
para provocar a volta do avião; mas é característico do comportamento supersti- 
cioso engrenarmo-nos nele mesmo que “saibamos através das regras” que ele não 
tem efeito. A cultura pode ridicularizar as respostas supersticiosas até o ponto no 
qual só nos envolvemos nelas como uma forma de humor, mas é improvável 
eliminá-las de todo. 

Muitas distinções clássicas podem ser reduzidas à distinção entre o compor- 
tamento governado por regras e o modelado por contingências. 
1) Deliberação vs. impulso — O comportamento deliberado ou racional é marca- 
do ou por um exame das regras possivelmente relevantes e a seleção de uma ou 
mais a serem obedecidas, ou pelo exame das contingências correntes e a derivação 
no ato de uma regra. O agir sob impulso não é precedido por comportamento 
deste tipo. 
2) Ganhos finais vs. próximos — As regras tendem a trazer à cena as consegiên- 
cias remotas; sem regras, apenas as consequências imediatas afetam o comporta- 
mento. 
3) Comportamento cultural vs. natural — As regras evoluem com a cultura e 
diferem conforme as culturas; o comportamento modelado por contingências não 
sociais é tão universal quanto as contingências. 
4) Superfície vs. profundidade — O comportamento governado por regras é 
imposto de cima aos homens. É a capa exterior da civilização. A psicologia pro- 
funda preocupa-se com as contingências “reais”. 
5) Elaborado vs. natural — As regras são frequentemente seguidas por razões 
não relacionadas com os reforços de cujas contingências são derivados. O com- 
portamento modelado por contingências varia com a privação ou estimulação 
adversa ligada a estes reforços. 
6) Intelecto vs. emoção — O comportamento governado por regras pode ser frio 
e estóico; o comportamento modelado por contingências é provavelmente quente 
e epicurista. A ética protestante vs. a hedonista. 
7) Argumentos lógicos vs. intuição— O comportamento modelado por contin- 
gências que surgem à medida que resolvemos um problema pode levar à solução 
“intuitivamente”. A solução aparece, o problema é resolvido, e ninguém sabe por 
quê. O matemático intuitivo, entretanto, receberá um pedido de provas, provavel- 
mente. Ser-lhe-ão pedidas regras que levem os outros da colocação do problema 
à solução. 
8) Ansiedade vs. alegria — As sanções éticas, legais e outras que reforçam as re- 
gras são geralmente adversas e as respostas emocionais associadas ao comporta- 
mento governado por regras (“ansiedade”) são então evocadas pelos estímulos 
pré-adversos. Os reforçadores positivos fortes que modelarão o comportamento 
diretamente têm mais probabilidade de ser associados com “alegria”. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 55 


9) Monotonia vs. variedade — O comportamento governado por regras é geral- 
mente designado a satisfazer contingências, não a duplicar outras caracteristicas 
do comportamento por elas modelado. O comportamento modelado por contin- 
gências é portanto passível de maior variedade ou riqueza. 

10) Consciente vs. inconsciente — Já que é frequentemente a função de uma 
regra identificar estímulos, respostas e suas conseguências, o comportamento 
racional é marcado por reflexão e consciência (vide capítulo 8). Freud atribui o 
comportamento modelado por contingências ao inconsciente. Presumivelmente, 
devemos estar conscientes de nosso próprio comportamento, quer para descobrir 
uma regra, quer para segui-la. 

11) Saber vs. saber como — O conhecimento que aparece objetivado em regras 
é possuído ou dominado pelos que conhecem as regras. O comportamento mode- 
lado por contingências, como simplesmente saber como fazer as coisas, é menos 
provável de sugerir uma forma anterior de posse. Na ciência experimental, a dis- 
tinção é colocada pelo racionalismo vs. empirismo e, na ciência teórica, por razão 
vs. intuição. 

12) Fórmula vs. arte — Como disse Francis Bacon, um pintor ou músico excede 
por “uma espécie de bem-aventurança e não por regra”, onde bem-aventurança 
parece significar as felizes consequências que guiam o artista ao invés das regras, 
na produção de arte. 

13) Razão vs. fé — Argumentos lógicos para a existência de Deus podem produ- 
zir regras para governar comportamento religioso, mas o comportamento do miís- 
tico é modelado por eventos que testemunham a presença imediata de Deus. (O 
místico não pode dividir sua experiência no sentido de formular regras que geram 
comportamento similar nos que não estão sujeitos a contingências místicas 
diretas.) 

14) Regras vs. feitos (ou palavras vs. feitos?) — Outra saída teológica: o homem 
bom pode ou não saber o que é certo, mas faz o que é certo, e fá-lo porque é natu- 
ralmente bom, não porque pode seguir regras boas. Pode, portanto, receber cré- 
dito por se comportar bem, não simplesmente por seguir bem as regras. Compa- 
re-se com o antinomismo do hippy — numa condição frequentemente atribuída à 
anomia. 

15) Verdade vs. crença — A distinção entre o comportamento governado por re- 
gras e o modelado por contingências resolve um problema colocado pela primeira 
vez em sua forma moderna por C. S. Peirce, William James e John Dewey: a dis- 
tinção entre a verdade e a crença. A verdade preocupa-se com regras e ordena a 
transformação para regras. Além disso, tem a objetividade associada com análises 
de contingências de reforço. A crença é questão de probabilidade de ação e a 
probabilidade é função das contingências — ou as contingências não analisadas 
encontradas no ambiente, ou as contingências inventadas por uma cultura ao ensi- 
nar a verdade. 

16) Razão vs. paixão (ou vs. instinto, ou vs. natureza). — “O maior filósofo do 
mundo”, disse Pascal, “em pé numa prancha mais larga do que necessário para 
suportá-lo, se colocado sobre um precipício, será controlado por sua imaginação 


56 SKINNER 


mesmo que sua razão o convença de que está seguro.” Não é sua imaginação, mas 
contingências anteriores que evocam o comportamento de estar temeroso (e algu- 
mas dessas contingências podem ser filogenéticas). A razão, por outro lado, refe- 
re-se à análise das contingências reais, que devem levar a uma regra tal como 
“você pode ficar em pé numa prancha, sem cair”. O conflito está entre contingên- 
cias; cada conjunto controla sua própria resposta, e as respostas são 
incompatíveis. 

“O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Pascal devia estar 
falando de razão e paixão, mas paixão não era apenas emoção. Contingências de 
reforço são “razões” para agir, e quando a análise dessas razões dá origem a re- 
gras que governam a ação eficaz, não é trocadilho igualar o resultado com a razão 
em geral. A distinção fisiológica entre a cabeça e o coração está, evidentemente, 
desatualizada, o mesmo ocorrendo presumivelmente com a diferença entre o siste- 
ma autônomo e o esquelético nervoso. Podemos dar a idéia de abandonar a razão 
quando “caímos numa raiva cega”, mas a cabeça está tão envolvida nisso quanto 
o coração, o esqueleto tanto quanto o sistema nervoso autônomo. E nem uma dis- 
tinção entre o comportamento instintivo e o aprendido será suficiente. Pascal pa- 
rece estar simplesmente dizendo que o comportamento governado por regras e o 
modelado por contingências são distintos e que o primeiro não pode simular intei- 
ramente o segundo. As contingências contêm razões que as regras jamais podem 
especificar. 


CAPÍTULO VII 


A filogênese e a ontogênese do comportamento 


Partes do comportamento de um organismo relacionadas com a economia 
interna, como na respiração ou na digestão, sempre foram tidas como “herda- 
das”, e não há razão para que algumas respostas ao meio ambiente externo tam- 
bém não viessem pré-fabricadas, no mesmo sentido. É crença muito difundida 
que muitos estudiosos do comportamento discordam disso. A citação clássica 
é tirada de John B. Watson:! 

Gostaria agora de dar um passo adiante e dizer: “Deêm-me uma dúzia de 
crianças saudáveis, bem formadas, e o mundo que eu especificar para criá-las e 
garanto poder tomar qualquer uma ao acaso e treiná-la para ser o especialista que 
se escolher — médico, advogado, artista, gerente comercial e até mesmo mendigo 
ou ladrão, independentemente de seus talentos, inclinações, tendências, habilida- 
des, vocações, e da raça de seus ancestrais”. Estou indo além dos fatos que possuo 
e o admito, mas também o fizeram muitos defensores da posição contrária, e por 
muitos milhares de anos. 


Watson não estava negando que uma parte substancial do comportamento 
fosse herdada. O desafio acima aparece no primeiro dos quatro capítulos em que 
Watson descreve “como o homem está equipado para se comportar no nascimen- 
to”. Como especialista e entusiasta da psicologia da aprendizagem, foi além dos 
fatos que possuía para enfatizar o que poderia ser feito, apesar das limitações 
genéticas. Foi, como disse Gray? “um dos primeiros e um dos mais cuidadosos 
pesquisadores na área da etologia animal”. Contudo, é ele, provavelmente, o 
responsável pelo mito persistente do que tem sido chamado de “dogma contrafa- 
tual do comportamentalismo”.º? E trata-se de um mito. Nenhum estudioso do 
comportamento animal de boa reputação, jamais defendeu “que o animal chega 
ao laboratório virtualmente como uma tabula rasa, ou que diferenças entre espé- 
cies são insignificantes, e que todas as respostas são igualmente condicionáveis a 
todos os estímulos. * 


1 J.B. Watson. Behaviorism, W. W. Norton, 1924, 

2 P. H. Gray. “The descriptive study of imprinting in birds from 1863 t0 1953. 4. Gen. Psychol., 68, 
1963, pp. 333.346. 

3 J. Hirsch. "Behavior genctics and individuality understood”. Science, 192. 1963. pp. 1436 1442. 

4 K.Breland e M.Breland. “The misbehavior of organisms”, Amer. Psychol., 16, 1961, p. 681. 


58 SKINNER 


Mas o que significa dizer que o comportamento é herdado? 

Lorenzº notou que os etólogos não estão de acordo quanto ao “conceito 
do que “antigamente chamávamos de inato” ”. Na medida em que o comporta- 
mento de um organismo é simplesmente a fisiologia de uma anatomia, o que 
se herda de comportamento é a herança de certas características do corpo, e 
não deveria haver nenhum problema quanto ao significado de “inato”, desde que 
a palavra não seja tomada no sentido do traço genético. Talvez precisemos adjeti- 
var a afirmação de que o homem herda o seu reflexo visual, mas precisaremos 
então também adjetivar a afirmação de que ele herda a cor dos olhos. 

Se as características anatômicas subjacentes ao comportamento fossem tão 
conspícuas quanto as asas da Drosófila, deveriamos descrevê-las diretamente, e 
tratar de sua herança da mesma maneira mas, no momento, devemos nos conten- 
tar com as assim chamadas manifestações comportamentais. Descrevemos o 
organismo que se comporta, nos termos de sua anatomia geral e, sem dúvida, 
quase da mesma forma descreveremos finalmente o comportamento de suas estru- 
turas mais finas. Mas, até lá, a análise será feita sem referências, às estruturas 
mais finas. E somos forçados a agir assim, mesmo quando temos vontade de fazer 
inferências a respeito. Que feições do comportamento finalmente resultarão de um 
relato genético satisfatório? Em conceitos tais como “memória racial” ou “ins- 
tinto de morte”, está implícita alguma espécie de herança, mas uma especificação 
mais exata se faz obviamente necessária. O comportamento observado em labirin- 
tos e aparatos semelhantes pode ser “objetivo”, mas não é descrito em dimensões 
que resultem num quadro genético significativo. Tropismos e imposições são de 
algum modo mais prontamente quantificados, mas nem todos os comportamentos 
podem assim ser formulados, e os organismos selecionados para criação, segundo 
desempenhos tropísticos e táxicos, podem diferir ainda de outras maneiras. º 

A probabilidade de um organismo se comportar de certa maneira, seria um 
dado mais promissor, mas muito pouco tem sido feito no sentido de estudar a 
genética correspondente. Modos de herança não são, no entanto, as únicas 
questões. 


A proveniência do comportamento 


Numa determinada ocasião, observamos que um animal exibe um determi- 
nado tipo de comportamento — aprendido ou não. Descrevemos sua topografia e 
avaliamos sua probabilidade. Descobrimos variáveis genéticas ou ambientais, das 
quais a probabilidade é função. Empreendemos, então, a predição ou o controle 
do comportamento. Tudo isso diz respeito a um estado normal do organismo. 
Temos ainda que perguntar de onde veio o comportamento (ou de onde vieram 
as estruturas que assim se comportam). O que podemos chamar de ontogênese 


9 K.Lorenz. Evolution and Modification of Behavior, Chicapo. Univ. of Chicago Press. 1965. 

ê E.Erlenmeyer-Kimling, J.Hirsch e J.M.Weiss, “Studies in experimental behavior genetis: IH — Selection 
and hybridization analyses of individual differences in the sign of geotaxis”, J. Comp. Physiol. Psychol., 55, 
1962, pp. 722-731. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 59 


do comportamento pode ser atribuído a contingências de reforço e, num trecho 
conhecido, Pascal sugeriu que a ontogênese e a filogênese têm algo em comum. 
“O hábito”, disse ele, “é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas o 
que é esta natureza? Por que razão o hábito não é natural? Tenho muito receio 
de que a natureza seja, ela mesma, apenas o primeiro hábito, assim como o hábito 
é uma segunda natureza”. 

A proveniência do “primeiro hábito” tem lugar de destaque nas teorias da 
evolução do comportamento. Uma determinada resposta é, num certo sentido, 
fortalecida por consequências que têm a ver com a sobrevivência do indivíduo e 
da espécie. Uma determinada forma de comportamento não leva ao reforço mas, 
sim, à procriação. (A simples atividade reprodutora nem sempre contribui, é 
claro, para a sobrevivência de uma espécie como nos lembram os problemas de 
superpopulação. Uns poucos bem alimentados procriadores gozam presumivel- 
mente de uma vantagem sobre uma população mais ampla, porém empobrecida. 
A vantagem também pode ser seletiva. Sugeriu-se ? recentemente que algumas for- 
mas de comportamento, tais como a de defesa do território, tivessem um efeito 
importante na restrição da procriação.) Muitos problemas práticos, levantados 
pelo que pode ser chamado de contingências de seleção, são notavelmente seme- 
lhantes a problemas que já foram abordados experimentalmente, referentes a 
contingências de esforço. 


Uma unidade identificável 


Um processo comportamental, tal como uma mudança na frequência de res- 
postas, só pode ser acompanhado nos casos em que for possível contar as respos- 
tas. A topografia de um operante não precisa ser completamente fixada, mas deve 
haver alguma propriedade definidora disponível para o observador poder identifi- 
ficar as ocorrências. A ênfase sobre a ocorrência de uma unidade que possa ser 
repetida distingue uma análise experimental do comportamento de relatos histó- 
ricos ou anedóticos. Um requisito análogo é reconhecido pela etologia. Como 
disse Julian Huxley: “Esse conceito (...) de liberadores de unidade, que agem 
como estímulos à chave especifica, liberando padrões de unidades de comporta- 
mento, geneticamente determinados, (...) é, provavelmente, a mais importante 


contribuição particular da etologia lorenziana à ciência do comportamento”.º 


A ação dos estímulos 


O reforço operante não apenas fortalece uma determinada resposta; coloca a 
resposta sob o controle de um estímulo. Mas o estímulo não elicia a resposta 
como num reflexo; simplesmente coloca a ocasião na qual é mais provável que a 
resposta ocorra. O “liberador” dos etólogos também coloca simplesmente uma 


7 W.C.Wynne-Edwards, “Self-regulating systems in populations of animals”, Science, 147. 1965. pp. 
[543 [545. 
8 J. Huxlay, “Psychometabolism”, Perspectives in Biology and Medicine, 7,8 4, 1964. 


60 SKINNER 


ocasião. Da mesma forma que o estímulo discriminativo aumenta a probabili- 
dade de ocorrência de uma unidade de comportamento, mas não a forçando. 
A diferença principal entre um reflexo e um instinto não está na complexidade 
da resposta mas, respectivamente, nas ações eliciadora e liberadora do estímulo. 


Origens das variações 


As contingências ontogenéticas continuam ineficazes até que ocorra uma 
resposta. O rato precisa pressionar a barra, pelo menos uma vez, “por outras 
razões”, antes de pressioná-la “pela comida”. Há uma limitação semelhante nas 
contingências filogenéticas. Um animal precisa emitir um grito, pelo menos uma 
vez, por outras razões, antes que o grito possa ser selecionado como um aviso, em 
função de sua vantagem para a espécie. Segue-se que todo repertório de um indiví- 
duo ou espécie precisa existir, ainda que em forma de unidades mínimas, antes 
que possa ocorrer a seleção ontogenética ou filogenética. Ambas as contingências, 
a ontogenética e a filogenética, “modelam” formas complexas de comportamento, 
a partir de material relativamente indiferenciado. Ambos os processos são favore- 
cidos, caso o organismo apresentar um repertório extenso e indiferenciado. 


Contingências programadas 


Em geral, não é prático condicionar um operante complexo, esperando que 
ele ocorra, para então reforçá-lo. O desempenho terminal deve ser atingido atra- 
vês de contingências intermediárias (instrução programada). Num experimento 
de demonstração, um rato puxava uma corrente para obter uma bolinha de gude 
de uma prateleira, pegava a bolinha com suas patas dianteiras, carregava-a para 
um tubo saliente duas polegadas acima do chão da gaiola, levantava-a até a boca 
do tubo, e deixava-a cair dentro dele. “Cada passo no processo teve que ser atin- 
gido através de uma série de aproximações, já que as respostas não estavam 
no repertório original do rato”.º O “programa” era como segue: o rato era refor- 
çado por qualquer movimento que fizesse a bolinha rolar para qualquer canto 
do chão da gaiola; depois, então, apenas para o canto de um lado da gaiola; 
então, apenas para uma pequena área do canto; depois, somente para aquela 
área ligeiramente levantada, e assim por diante. O canto levantado tornou-se um 
tubo de diâmetro gradualmente diminuído e de altura aumentada. O primeiro 
elo da cadeia, tirar a bolinha da prateleira, foi acrescentado posteriormente. Lan- 
çou-se mão de outros tipos de programação para estabelecer um controle de estí- 
mulos sutil e para manter o comportamento a despeito de reforços infrequentes, 
e assim por diante. !º 

Programação análoga de contingências filogenéticas complexas é familiar à 
teoria evolucionista. O ambiente pode mudar, exigindo, por uma determinada 


º* B.F. Skinner, The Behavior of Organisms, Nova York, Appleton-Century, 1938. 
'º B.F. Skinner, The Technology of Teaching, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1968. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 61 


razão, que o comportamento que contribui para a sobrevivência se torne mais 
complexo. Vantagens muito diferentes podem ser responsáveis por diferentes está- 
gios. Tomando um exemplo conhecido, o órgão elétrico da enguia poderia ter-se 
tornado útil para atordoar a presa, somente depois de desenvolver algo seme- 
lhante a seu poder atual. Devemos atribuir o órgão completo a uma mutação 
complexa, ou terão os estágios intermediários sido desenvolvidos graças a outras 
vantagens? Correntes mais fracas, por exemplo, podem ter permitido à enguia 
detetar a natureza dos objetos com os quais estivesse em contato. A mesma per- 
gunta pode ser colocada com relação ao comportamento. O “primeiro hábito” 
de Pascal deve ter sido muitas vezes produto da “instrução programada”. Muitas 
contingências filogenéticas complexas, que agora parecem manter o comporta- 
mento, devem ter sido alcançadas através de estágios intermediários, nos quais 
formas menos complexas tinham consequências menores, mas ainda eficazes. 

A necessidade de programação é um caso especial de um princípio mais 
geral. Não explicamos nenhum sistema de comportamento simplesmente demons- 
trando que funciona para a vantagem de, ou tem “completa utilidade” para o 
indivíduo ou espécie. É preciso mostrar que uma determinada vantagem é contin- 
gente ao comportamento, de modo a alterar a sua probabilidade de ocorrência. 


Contingências adventícias 


Não é verdade, como afirmou Lorenz, '" que a “adaptabilidade é sempre a 
prova irrefutável de que esse processo [de adaptação] ocorreu”. O comporta- 
mento pode ter vantagens que não desempenharam nenhuma função em sua sele- 
ção. O inverso também é válido. Os eventos que seguem o comportamento, mas 
não são necessariamente produzidos por ele, podem ter efeito seletivo. Quando 
um pombo faminto é colocado num espaço experimental, onde um alimentador 
funciona a cada vinte segundos independentemente do que o pombo estiver fazen- 
do, obtém-se uma resposta estereotipada que é modelada e sustentada por reforço 
inteiramente casual. O comportamento é frequentemente “ritualístico”; chama- 
mo-lo supersticioso. '? Existe presumivelmente um paralelo filogenético. Todas as 
características normais de um organismo não contribuem necessariamente para 
sua sobrevivência e procriação; todavia, são “selecionadas”. Estruturas inúteis, 
com funções associadas inúteis, são comportamentos tão inevitáveis quanto 
supersticiosos. Ambas se tornam mais prováveis à medida que os organismos se 
tornam mais sensíveis às contingências. Não causaria surpresa se o comporta- 
mento não se ajustasse perfeitamente nem às contingências filogenéticas nem às 
ontogenéticas. 


Contingências instáveis e intermitentes 


Tanto as contingências filogenéticas quanto as ontogenéticas são eficazes, 
mesmo que intermitentes. Diferentes esquemas de reforço geram padrões distintos 


1 K. Lorenz, Evolution and Modification of Behavior, Chicago, Univ. of Chicago Press, 1965. 
'2 B, F. Skinner, “ “Superstition” in the pigeon”, J. Exp. Psvchol., 38, 1948, p. 168. 


62 SKINNER 


de probabilidades de mudança. Se há um paralelo filogenético, o paralelo é obscu- 
ro. Uma forma de comportamento gerada por contingências seletivas intermi- 
tentes estará presumivelmente apta a sobreviver a um período prolongado, no qual 
as contingências não estejam vigorando, porque já se provou poderosa o sufi- 
ciente para sobreviver a períodos mais breves; mas isso é apenas grosseiramente 
paralelo à explicação da maior resistência à extinção dos operantes reforçados 
intermitentemente. 


Contingências mutáveis 


As contingências também mudam e os comportamentos pelos quais elas são 
responsáveis, então também mudam. Quando as contingências ontogenéticas 
especificando a topografia da resposta são relaxadas, a topografia normalmente se 
deteriora; e quando os reforços já não estão próximos, o operante sofre extinção. 
Darwin discutiu paralelos filogenéticos em The Expressions of Emotions in Man 
and Animals. Os “hábitos associados úteis” a que se refere eram aparentemente 
tanto aprendidos quanto não aprendidos, e ele parece aceitar que as contingências 
ontogenéticas contribuem para a herança do comportamento, ao menos gerando 
respostas, que podem então ter conseqiiências filogenéticas. O comportamento do 
cão doméstico, dando voltas antes de deitar-se sobre uma superfície plana, pode 
ter sido selecionado por contingências nas quais o comportamento produzia, na 
presença de grama ou mato, uma cama apropriada. Se os cães agora exibem esse 
comportamento menos frequentemente, isto é presumivelmente devido a uma 
espécie de extinção filogenética que se iniciou. O gato doméstico mostra uma res- 
posta complexa de enterrar as fezes, que deve ter tido alguma vez valor de sobrevi- 
vência, com respeito à predação ou enfermidades. O cão tem sido mais responsivo 
as contingências frouxas originadas da domesticação, ou de alguma outra modifi- 
cação na predação ou na enfermidade, e exibe comportamentos em forma de 
vestígio. 


Contingências múltiplas 


Um operante pode ser afetado por mais de um tipo de reforço, e uma deter- 
minada forma de comportamento pode ser correlacionada a mais de uma vanta- 
gem para o indivíduo ou para a espécie. Duas conseguências filogenéticas ou 
ontogenéticas podem atuar juntas ou se opor uma à outra no desenvolvimento de 
uma determinada resposta e presumivelmente apresentar “Somatória algébrica” 
quando opostas. 


Contingências sociais 
As contingências responsáveis pelo comportamento social colocam proble- 


mas especiais, tanto na filogênese quanto na ontogênese. No desenvolvimento de 
uma língua, o comportamento de um orador pode se tornar mais elaborado 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 63 


somente na medida em que os ouvintes sé tornam sensíveis a discursos elabora- 
dos. Devemos supor um desenvolvimento coordenado de forma semelhante na 
filogênese do comportamento social. A dança da abelha, de volta de uma incursão 
bem sucedida, pode ter efeitos vantajosos para a espécie apenas quando as demais 
abelhas se comportam de modo correspondente adequado, mas elas não podem 
desenvolver o comportamento até que a abelha que voltou dance. O sistema termi- 
nal deve ter requerido um tipo de programação sutil na qual os comportamentos, 
tanto do “orador” quanto do “ouvinte”, passaram por estágios crescentemente 
complexos. Uma abelha, de volta de uma incursão bem sucedida, pode compor- 
tar-se de forma especial porque está excitada ou fatigada, e pode mostrar respos- 
tas fototrópicas relacionadas com a estimulação recente. Se a força do comporta- 
mento variar com a quantidade ou qualidade do alimento que a abelha descobriu 
e com a distância e direção na qual tenha voado, então o comportamento poderá 
servir como um importante estímulo para as outras abelhas, mesmo que suas 
características não tenham sido afetadas por tais consequências. Se diferentes abe- 
lhas se comportassem de maneiras distintas, versões mais eficazes deveriam então 
ser selecionadas. Se o comportamento de uma abelha bem sucedida provocasse 
comportamento por parte dos ouvintes, o que é reforçador para a abelha emissora, 
então, o comportamento da emissora seria ontogeneticamente intensificado. O 
desenvolvimento filogenético do comportamento responsivo nas ouvintes contri- 
buiria para o sistema final, fornecendo o reforço imediato das formas conspicuas 
da dança. 

O comportamento da abelha emissora pode se tornar menos elaborado, caso 
as ouvintes continuarem a responder a formas menos elaboradas. Paramos 
alguém que se aproxima, colocando a palma da mão em seu peito, mas ele final- 
mente aprende a parar ao ver nossa mão espalmada em sua direção. A resposta 
prática torna-se um gesto. Nas contingências filogenéticas, um recurso semelhante 
pode explicar o que os etólogos chamam de “movimentos intencionais”. O 
comportamento pode ser intensificado ou elaborado sob reforço diferencial, 
envolvendo a estimulação, quer do organismo em comportamento quer de outros. 
Quanto mais conspícua for uma resposta supersticiosa, por exemplo, mais efetivas 
serão as contingências adventícias. O comportamento tenderá especialmente a se 
tornar mais conspícuo quando o reforço for contingente à resposta de um outro 
organismo. Alguns exemplos ontogenéticos, denominados “ritualização”, são 
facilmente demonstrados. Muitos rituais elaborados, de origem primitivamente 
filogenética, foram descritos por etólogos. 


Alguns problemas colocados por contingências filogenéticas 
Lorenz argumentou recentemente que “nossa absoluta ignorância dos meca- 


nismos fisiológicos subjacentes à aprendizagem faz com que o nosso conheci- 
mento da causação da adaptação filética. em comparação, pareça considerável. ' É 


13 K. Lorenz, Evolution and Modification of Behavior, Chicago, Univ. of Chicago Press, 1965. 


64 SKINNER 


Mas os processos genéticos e comportamentais são estudados e formulados 
de forma rigorosa sem referência à bioquímica subjacente. Quanto à proveniência 
do comportamento, sabemos muito mais sobre as contingências ontogenéticas 
do que sobre as filogenéticas. Além disso, as contingências filogenéticas colocam 
alguns problemas muito difíceis, que não parecem ter paralelos ontogenéticos. 

As contingências responsáveis pelo comportamento não-aprendido agiram 
há muito tempo. A seleção natural de uma determinada forma de comportamento, 
não importa quão plausivelmente argumentada, continua sendo uma inferência. 
Podemos reunir contingências filogenéticas sob as quais uma determinada 
propriedade do comportamento seleciona arbitrariamente indivíduos para pro- 
criar, e assim demonstrar formas de herança comportamental; mas o experimen- 
tador, ao fazer a seleção, estará desempenhando uma função do meio natural 
que também precisa ser estudada. Assim como os reforços dispostos numa aná- 
lise experimental devem provar ter correspondentes na “vida real”, para que os 
resultados da análise sejam significativos ou úteis, também as contingências que 
selecionam um determinado traço comportamental, num experimento genético, 
devem provar desempenhar um papel plausível na seleção natural. 

Embora as contingências ontogenéticas sejam facilmente submetidas a uma 
análise experimental, o mesmo não ocorre com as contingências filogenéticas. 
Quando o experimentador modelou uma resposta complexa, como fazer rolar 
uma bolinha num tubo, a proveniência do comportamento não coloca nenhum 
problema. O desempenho pode causar espanto a qualquer um que o esteja vendo 
pela primeira vez, mas é facilmente atribuído a eventos recentes e possivelmente 
documentados. Nada comparável pode ser mencionado ao se observar uma ara- 
nha tecendo uma teia. Não vemos as contingências filogenéticas em funciona- 
mento. Tudo quanto sabemos é que as aranhas de um determinado tipo tecem 
mais ou menos o mesmo tipo de teia. Nossa ignorância frequentemente acrescenta 
um toque de mistério. Somos propensos a encarar os comportamentos herdados 
com uma certa cautela, não inspirada pelos comportamentos adquiridos, de 
complexidade semelhante. 

O distanciamento das contingências filogenéticas afeta nossos métodos cien- 
tíficos, tanto experimentais quanto conceituais. Até identificarmos as variáveis 
das quais um evento é função, tendemos a inventar causas. O comportamento 
aprendido foi, certa vez, atribuido ao “hábito”, mas uma análise das contin- 
gências de reforço tornou o termo desnecessário. O “instinto”, como causa hipoté- 
tica do comportamento filogenético, perdurou mais longamente. Não mais pode- 
mos dizer que o nosso rato possui o hábito de fazer rolar bolinhas, mas ainda 
somos propensos a dizer que a nossa aranha tem o instinto de tecer teias. O con- 
ceito de instinto foi severamente criticado e é usado agora com cautela, quando 
não totalmente evitado, mas entidades, explanatórias com função semelhante, 
ainda vigoram nos trabalhos de muitos etólogos. 

Um “aparato mental”, por exemplo, não tem mais utilidade na análise expe- 
rimental do comportamento, mas sobrevive nas discussões sobre contingências 
filogenéticas. Aqui temos algumas frases dos trabalhos de etólogos proeminentes 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 65 


que se referem à consciência ou ciência: “Estampa-se na mente do gansinho... a 
imagem do primeiro objeto móvel que ele vê”;! 4 “a criança expressa, sorrindo, o 
estado interno de contentamento”;! * “as gaivotas mostram uma falta de insight 
quanto às finalidades de suas atividades”;! 8 “(os chimpanzés eram incapazes) de 
comunicar a outrem ag coisas não vistas em suas mentes”.!? 

Em algumas atividades mentais, a consciência pode não ser de importância 
crítica, mas outras atividades cognitivas costumam ser invocadas para descreve- 
las. Thorpe'!º fala de uma disposição “que leva o animal a prestar particular aten- 
ção a objetos de certo tipo”. O que se observa é simplesmente que objetos de certo 
tipo são estímulos especialmente eficazes. As contingências ontogenéticas, que 
geram o comportamento chamado “prestar atenção”, têm presumivelmente para- 
lelos filogenéticos. Outras atividades mentais, frequentemente mencionadas por 
etólogos, incluem “organizar experiências” e “descobrir relações”. Expressões de 
todos esses tipos demonstram que nós ainda não explicamos o comportamento em 
termos de contingências filogenéticas ou ontogenéticas. Incapazes de mostrar 
como o organismo pode se comportar sob circunstâncias complexas nós o dota- 
mos de uma habilidade cognitiva especial que lhe permite assim fazer. Outros 
conceitos substituídos por uma análise mais eficaz incluem “necessidade” ou “im- 
pulso” e “emoção”. No caso do comportamento ontogenético já não dizemos 
que um determinado conjunto de condições ambientais dá primeiramente origem 
a um estado interior que O organismo, então, expressa ou resolve, comportando-se 
de uma determinada maneira. Não mais representamos as relações entre variáveis 
emocionais e motivacionais como relações entre tais estados, como quando dize- 
mos que a fome sobrepuja o medo. Não mais usamos analogias dinâmicas ou 
metáforas, como ao explicar a ação repentina, como um transbordamento ou 
uma explosão de necessidades ou impulsos represados. Se estas práticas são co- 
muns em etologia, é evidentemente porque as relações funcionais, que elas procu- 
ram formular, não estão claramente compreendidas, Outro tipo de dom inato, 
particularmente aquele que encontramos em explicações do comportamento hu- 
mano, toma a forma de “traços” ou “capacidades”. Embora frequentemente me- 
didas quantitativamente, suas dimensões são significativas apenas na localização 
do indivíduo com relação a uma população. O comportamento medido é quase 
sempre obviamente aprendido. 

Dizer que a inteligência é herdada não é dizer que formas específicas de 
comportamento sejam herdadas. Contingências filogenéticas concebivelmente 
responsáveis pela “seleção da inteligência” não especificam respostas. O que foi 
selecionado parece ser uma suscetibilidade a contingências ontogenéticas, levando 
particularmente a uma maior rapidez do condicionamento e da capacidade de 
manter um repertório mais amplo sem confusão. 


14 W.H. Thorpe. “The learning abilities of birds”. parte I, !bis, 93, 1951, pp. 1-52. 

18 J. Huxley, “Psychometabolism”, Perspectives in Biology and Medicine, 7, 1964,3 4. 
16 N, Tinbergen, The Herring-gull's World, Londres, Collins. 1953. 

17 A. Kortladtte Z. Frankenberger, Current Anthropology, 6. 1965, p. 320. 

18 W.H. Thorpe, “The learning abilities of birds”, parte I, /bis, 93, 1951, pp. 1-52. 


66 SK INNER 


Diz-se, frequentemente, que uma análise do comportamento, em termos de 
contingências ontogenéticas, “deixa algo sem considerar”, e isso é verdade. Deixa 
de considerar hábitos, idéias, processos cognitivos, necessidades, impulsos, traços, 
etc. Mas não negligencia os fatos nos quais esses conceitos estão baseados. Busca 
uma formulação mais eficaz das próprias contingências para as quais aqueles que 
usam tais conceitos devem eventualmente voltar-se para explicar suas explicações. 

A estratégia foi altamente bem sucedida ao nível ontogenético, onde as 
contingências são relativamente claras. À medida que a natureza e a forma de 
operação das contingências filogenéticas venham a ser melhor compreendidas, 
uma estratégia semelhante deve produzir vantagens comparáveis. 


Identificando variáveis filogenéticas e ontogenéticas 


A importância das variáveis ontogenéticas pode ser avaliada mantendo-se as 
condições genéticas tão constantes quanto possível — por exemplo, estudando 
linhagens “puras” ou gêmeos idênticos. A técnica tem uma longa história. De 
acordo com Plutarco (De Puerorum Educatione), Licurgo, um espartano, demons- 
trou a importância do meio ambiente, criando dois câãezinhos da mesma ninhada, 
de tal forma que um se tornou um bom caçador e o outro preferiu a comida no 
prato. Por outro lado, variáveis genéticas podem ser avaliadas, quer estudando 
organismos sobre os quais o meio teve pouca oportunidade de agir (porque são 
recém-nascidos ou foram criados num ambiente controlado), quer comparando-se 
grupos submetidos a histórias ambientais extensas, mas, em média, provavelmente 
semelhantes. 

O comportamento exibido pela maioria dos membros de uma espécie é 
frequentemente aceito como herdado, mesmo quando é improvável que todos os 
membros possam ter sido expostos a contingências ontogenéticas relevantes. 

Quando as contingências não são óbvias, é talvez imprudente chamar qual- 
quer comportamento de herdado ou de adquirido. Observações de campo, em 
particular, frequentemente não permitirão uma distinção. Friedmann "º descreveu 
o comportamento do pássaro guia de mel, africano, da seguinte forma: 

“Quando o pássaro está pronto para começar a guiar, ele ou vem para uma 
pessoa e começa uma série repetitiva de notas vibrântes ou fica onde está e co- 
meça a chamar (...) 

Quando a pessoa chega a 15 ou 20 pés (...) o pássaro se afasta, num 
vôo inicial conspícuo, para baixo, e, então, voa para outra árvore, não necessaria- 
mente à vista de seu seguidor, na verdade, mais frequentemente fora dela. Então, 
espera ali, chilreando alto, até que seu seguidor se aproxima novamente, quando 
então a ação se repete. Isso continua até chegar às proximidades da colmeia. 
Nesse ponto, o pássaro pára de chamar repentinamente e se empoleira silenciosa- 
mente numa árvore próxima. Espera ali que o seguidor abra a colmeia e fica, 
geralmente, até que a pessoa vá embora com o favo de mel, quando então mergu- 


'º H. Friedmann, citado no artigo “African honey-guides”, Science, 123, 1956, p. 155. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 67 


lha em direção à colmeia saqueada e começa a alimentar-se dos restos despreza- 
dos de favo.” 


O autor é citado como tendo dito que o comportamento é “puramente instin- 
tivo”, mas é possível explicá-lo quase todo de outra forma. Se presumirmos que os 
pássaros-guias comem colmeias quebradas e não podem comer colmeias intatas, 
e que os homens (não contando babuiínos e ratéis) quebram colmeias, e que os 
pássaros descobrem mais facilmente colmeias intatas, então apenas uma outra 
suposição é necessária para explicar o comportamento, em termos ontogenéticos. 
Devemos presumir que a resposta que produz a nota vibrante é eliciada, ou (1) por 
qualquer estímulo, que fregientemente precede o recebimento do alimento 
(comportamento comparável é mostrado por um cão faminto que fica saltando em 
redor, quando a sua comida está sendo preparada), ou (2) quando o alimento, 
normalmente à disposição, está faltando (o cão pula em volta, quando o alimento 
não está sendo preparado para ele no horário). Um pássaro-guia, não condicio- 
nado, vê ocasionalmente, homens quebrando colmeias. Espera até que tenham ido 
embora, e, então, come os pedaços restantes. Mais tarde vê os homens perto das 
colmeias, mas sem as quebrar, ou porque não as encontraram ainda ou porque 
não conseguiram atingi-las. A visão de um homem perto de uma colmeia ou a 
visão de um homem, quando o zumbido das abelhas em volta de uma colmeia 
pode ser ouvido, começa a atuar em uma das formas já observadas, para eliciar a 
resposta vibrante. O primeiro passo na construção do padrão final é, assim, deter- 
minado pelo pássaro. O segundo é dado pelo homem (ou babuiíno, ou ratel, de 
acordo com o caso). O som vibrante torna-se um estímulo condicionado em cuja 
presença a busca das colmeias é frequentemente bem sucedida. O zumbido das 
abelhas teria o mesmo efeito, se o homem pudesse ouvi-lo. 

A mudança seguinte ocorre no pássaro. Quando um homem se aproxima de 
uma colmeia e a quebra, seu comportamento começa a funcionar como um refor- 
çador condicionado que, junto com os fragmentos que ele deixa atrás de si, refor- 
ça o chilreio que, então, se torna mais provável nas circunstâncias e surge, prima- 
riamente, mais como uma resposta operante do que emocional. Quando isso 
aconteceu, as combinações geográficas se desenvolveram, naturalmente. Os ho- 
mens aprendem a mover-se em direção ao chilreio e quebram as colmeias mais 
frequentemente depois de caminhar na direção delas do que caminhando em ou- 
tras direções. 

O pássaro-guia é, portanto, reforçado diferencialmente, quando toma uma 
posição que induz os homens a caminhar em direção à colmeia. As contingências 
são sutis, mas lembraríamos que a topografia final está muitas vezes longe de ser 
perfeita. 

Como vimos, as contingências, que envolvem dois ou mais organismos, 
levantam problemas especiais. O chilreio do pássaro-guia é inútil até que os ho- 
mens respondam a ele, mas estes não responderão, numa forma apropriada, até 
que o chilreio seja relacionado com a localização das colmeias. As condições que 
acabamos de descrever compõem um tipo de programa que poderia levar ao 


68 SKINNER 


desempenho terminal. Pode ser que as condições não surjam frequentemente, mas, 
rapidamente, ocorre uma outra característica das contingências sociais. Quando 
um pássaro-guia e um homem entraram nesse processo simbiótico, condições 
prevalecem, sob as quais outros pássaros-guias serão mais rapidamente condicio- 
nados. Um segundo homem aprenderá mais rapidamente a ir na direção do chil- 
reio, porque o som já está espacialmente relacionado com colmeia. Um segundo 
pássaro-guia aprenderá mais prontamente a chilrear nos lugares certos, porque os 
homens respondem de uma forma que reforça aquele comportamento. Quando um 
grande número de pássaros tiver aprendido a guiar e quando um grande número 
de homens tiver aprendido a ser guiado, as condições serão altamente favoráveis 
para manter o sistema. (Diz-se que onde os homens não mais se ocupam em que- 
brar colmeias, eles não mais compreendem que são uma ocasião para chilreios e 
o pássaro-guia se volta para o babuíno ou ratel. A mudança nas contingências 
ocorreu demasiado rapidamente para penetrar na seleção natural. Possivelmente 
uma resposta instintiva ainda não foi aprendida, e o efeito será mais plausivel- 
mente interpretado como a extinção de um operante.) 

Estampar é outro fenômeno que mostra quão difícil é detetar a natureza e O 
efeito de contingências filogenéticas. Na Utopia de Thomas More os ovos eram 
incubados. Os pintinhos “mal saem da casca e estão aptos a se movimentarem, 
mas parecem considerar quem os alimenta como suas mães e seguem-nos, como 
outros frangos o fazem em relação à galinha que os chocou”. Relatos posteriores 
de estampagem foram revistos por Gray.?º Vários fatos sugerem origens filogené- 
ticas: a resposta de seguir um objeto estampado surge numa certa idade; se não 
puder surgir, então, não deverá surgir mais; e assim por diante. Alguns experi- 
mentos feitos por Peterson,?! entretanto, sugerem que o que é herdado não é o 
comportamento de seguir, mas uma suscetibilidade ao reforço, pela proximidade 
da mãe ou do substituto. Um piado de angústia reduz a distância entre mãe e 
filhote, quando esta responde apropriadamente, e andar na direção da mãe tem o 
mesmo efeito. Ambos os comportamentos podem, portanto, ser reforçados,??2 mas 
aparecem antes que essas contingências ontogenéticas entrem em ação e são, por 
conseguinte, pelo menos em parte, filogenéticas. No laboratório, entretanto, ou- 
tros comportamentos, que as contingências filogenéticas não devem ter provavel- 
mente, fortalecidos podem tornar-se mais eficazes. Um pintinho pode ser condi- 
cionado a bicar uma chave, por exemplo, movendo-se um objeto estampado na 
direção dele, quando bica, ou a afastar-se do objeto, se, através de um dispositivo 
mecânico, esse comportamento aproxima realmente o objeto. Na medida em que 
os filhotes seguem um objeto estampado, simplesmente porque eles assim trazem 
o objeto para mais perto deles ou evitam que fique mais distante, o comporta- 
mento pode ser considerado “específico da espécie”, no sentido pouco comum 


20 Pp. H. Gray, “The descriptive study of imprinting in birds” from 1863 to 1953, J. Gen. Psychol., 68, 1963, 
pp. 333-346. 

21 N. Peterson, “Control of behavior by presentation of an imprinted stimulus”, Science, 132, 1960, pp. 
1395-1396. 

22 H. S. Hoffman, D. Schiff, J. Adams e J. L. Serle, “Enhanced distress vocallization through selective 
reinforcement”, Science, 151, 1966, pp. 352-354. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 69 


de que é o produto das contingências ontogenéticas que prevalecem para todos 
os membros da espécie. 


Comportamentos ontogenéticos e filogenéticos não são distinguidos por 
qualquer essência ou característica. A forma da resposta raramente ou nunca 
leva a classificações úteis. A resposta verbal “Fogo !” pode ser uma ordem para 
o corpo de bombeiros, um pedido de socorro, ou uma resposta à pergunta “O 
que você está vendo?”. A topografia nos diz pouco, mas as variáveis controlado- 
ras nos permitem distinguir três operantes verbais muito diferentes. 23 As puras 
formas de comportamentos instintivos e aprendidos também pouco nos dizem. 
Os animais cortejam-se, acasalam-se, lutam, caçam, e criam seus filhotes, e utili- 
zam de forma muito semelhante os mesmos efetores em todos os tipos de compor- 
tamento aprendido. Comportamento é comportamento, quer seja aprendido quer 
não; são apenas as variáveis controladoras que fazem uma diferença. A diferença 
nem sempre é importante. Podemos mostrar que um pássaro-guia é controlado 
mais pelo zumbido das abelhas do que pela visão de uma colmeia, por exemplo, 
sem prejuízo para a questão de saber se o comportamento é inato ou adquirido. 

Não obstante, a distinção é importante se temos que tentar predizer ou con- 
trolar o comportamento. Implicaçoês para casos humanos têm muitas vezes afe- 
tado o propósito da investigação e as conclusões tiradas. Um exemplo clássico 
é concernente à prática da exogamia. Popper?* escreve: 


“Mill e sua escola psicologista de sociologia (...) tentaria explicar [regras 
de exogamia] como um apelo à “natureza humana”, por exemplo, a algum tipo de 
aversão instintiva ao incesto (desenvolvida, talvez, através de seleção natural 
(...)); e algo como isso seria também a explicação ingênua ou popular. Do ponto 
de vista (de Marx) (...) entretanto, poder-se-ia perguntar se não é a outra forma 
a correta, isto é, se o instinto aparente não é mais um produto da educação, mais 
um efeito do que causa das convenções sociais e tradições que exigem a exogamia 
e proíbem o incesto. É claro que estas duas abordagens correspondem exatamente 
ao problema muito antigo de saber “se as leis sociais são “naturais” ou 'conven- 


ções! “(...) 


Muito antes, em seu Suplement to the Voyage of Bougainville, Diderot? * 
considerou a questão da existência ou não de uma base natural para o recato se- 
xual ou vergonha (pudeur). Embora escrevendo cerca de um século antes de 
Darwin, apontou uma possível base para a seleção natural. “Os prazeres do amor 
são seguidos por uma fraqueza que nos coloca à mercê de nossos inimigos. Esta 
é a única coisa natural sobre recato; o resto é convenção.” Aqueles que estão 
preocupados com o sexo estão expostos ao ataque (em verdade, o ataque pode 
ser estimulante); por isso, aqueles que se entregam ao comportamento sexual, 
num abrigo, estão mais provavelmente sujeitos a procriar com sucesso. Aqui es- 
tão contingências filogenéticas que ou tornam o comportamento sexual num 


23 B. F. Skinner. Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 
24 K.R. Popper, The Open Society and its Enemies, Londres, Routeledge e Kegan Paul, 1957. 
25 D. Diderot. Supplement au Voyage de Bougainville, escrito em 1774, publicado em 1796. 


70 SKINNER 


abrigo mais forte que ao ar livre ou reforçam a ocupação de abrigo, quando o 
comportamento sexual é forte. Contingências ontogenéticas, através das quais os 
organismos procuram abrigar-se para evitar distúrbios durante a atividade sexual, 
são também plausíveis. O resultado tem pouco a ver com o caráter do comporta- 
mento incestuoso ou sexual, ou com a maneira como as pessoas “se sentem” a 
esse respeito. A distinção básica está entre as proveniências. E a proveniência é 
importante porque nos diz algo sobre o modo como o comportamento pode ser 
mantido ou mudado. A maioria das controvérsias em relação à hereditariedade e 
o ambiente surgiu em conexão com o controle prático do comportamento, através 
da manipulação de variáveis relevantes. 


Inter-relações entre variáveis filogenéticas e ontogenéticas 


As maneiras pelas quais os animais se comportam compõem uma espécie de 
taxonomia do comportamento, comparável a outras partes taxonômicas da biolo- 
gia. Todavia, apenas uma pequenina percentagem de espécies existentes foi inves- 
tigada. (Uma taxonomia do comportamento pode, de fato, estar perdendo terreno, 
quando novas espécies são descobertas.) Além do mais, apenas uma pequena 
parte do repertório de algumas espécies foi estudada (vide Nota 7.3). É duvidoso 
que seja possível obter algo que se aproxime de uma boa amostra do comporta- 
mento específico da espécie. 

Especialistas em contingências filogenéticas frequentemente se queixam de 
que aqueles que estudam o comportamento aprendido negligenciam as limitações 
genéticas de seus sujeitos, como o anatomista comparativo pode fazer objeções a 
conclusões tiradas do estudo intensivo de uma única espécie. Beach, por exemplo, 
escreveu:? º “Muitos (...) parecem acreditar que, estudando o rato, estão estu- 
dando tudo ou quase tudo que é importante no comportamento (...). De que 
outro modo podemos interpretar (...) (uma) obra de 457 páginas que é baseada 
exclusivamente na atuação de ratos, em situações de pressão à alavanca, mas é 
intitulado simplesmente O Comportamento dos Organismos? Hã muitos prece- 
dentes de concentração em uma espécie (ou, no máximo, em muito poucas espé- 
cies), na investigação biológica. Mendel descobriu na ervilha da horta as leis bási- 
cas da genética. Morgan obteve a teoria do gen — para a mosca-das-frutas. 
Sherrington investigou no cão e no gato a ação integradora do sistema nervoso. 
Pavlov estudou no cão a atividade fisiológica do córtex cerebral. 

Na análise experimental do comportamento, muitas diferenças de espécie são 
minimizadas. Estímulos são escolhidos aos quais a espécie em investigação pode 
responder e que não eliciam ou liberam respostas discutíveis: estímulos visuais 
não são usados se o organismo é cego, ou luzes muito brilhantes, se provocam 
ação evasiva. É escolhida uma resposta que pode ser emitida numa alta frequên- 
cia, sem fadiga, e que operará equipamento de controle e registro; não reforçamos 
um macaco, quando ele pressiona o nariz num disco, ou um pombo, quando ele 


28 F. A. Beach, “The snark was a boojum”, Amer. Psychol., 5, 1950, pp. 115-124. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 71 


apanha um graveto, embora possamos fazê-lo se assim quisermos. São escolhidos 
reforços que são de fato reforçadores ou positivamente ou negativamente. Dessa 
forma as diferenças das espécies, quanto a equipamento sensorial, sistemas efeto- 
res, suscetibilidade ao reforço, e repertórios possivelmente disruptivos, são mini- 
mizadas. Os dados, então mostram uma extraordinária uniformidade, dentre uma 
grande quantidade de espécies. Por exemplo, os processos de extinção, discrimi- 
nação € generalização, e os desempenhos gerados por vários esquemas de reforço 
são tranquilizadoramente similares. (Aqueles que estão interessados em estrutura 
fina podem interpretar essas práticas como minimizando a importância das áreas 
sensoriais e motoras do córtex, e áreas motivacionais e emocionais na base do 
cérebro, deixando para estudo os processos associados com o tecido nervoso 
como tal, mais que com a anatomia geral.) Embora as diferenças entre espécies 
existam e devam ser estudadas, uma análise exaustiva do comportamento de uma 
única espécie é tão facilmente justificada quanto o estudo da química ou microa- 
natomia do tecido nervoso, em uma espécie. 

Uma objeção um pouco semelhante tem sido colocada contra a ampla utili- 
zação de animais domesticados em investigações de laboratório.? ? Animais 
domesticados oferecem muitas vantagens. São mais facilmente manipulados, cres- 
cem e procriam no cativeiro, são resistentes às infecções encontradas em associa- 
ção com os homens, etc. Além disso, estamos primordialmente interessados no 
mais domesticado de todos os animais — o homem. Animais selvagens são, é 
claro, diferentes — possivelmente tão diferentes das variedades domesticadas 
quanto algumas espécies das outras, mas ambos os tipos de diferenças podem ser 
tratados da mesma forma no estudo de processos básicos. 

O taxonomista comportamental pode também argumentar que o ambiente 
artificial do laboratório é deficiente, já que não provoca comportamento filogené- 
tico característico. Um pombo, num pequeno espaço fechado, bicando um disco 
que opera um alimentador mecânico, está se comportando muito diversamente 
dos pombos em liberdade. Mas, em que sentido esse comportamento é “não natu- 
ral”? Se há um ambiente filogenético natural, deve ser aquele no qual um determi- 
nado tipo de comportamento se desenvolveu. Mas as contingências filogenéticas 
responsáveis pelo comportamento corrente repousam num passado distante. Em 
poucos milhares de anos — um tempo demasiadamente curto para mudanças 
genéticas de grande magnitude — todas as espécies existentes foram submetidas 
a drásticas mudanças quanto a clima, predação, abastecimento de comida, abrigo, 
etc. Certamente, nenhum mamífero terrestre está agora vivendo no ambiente que 
selecionou suas principais características genéticas, comportamentais e outras. Os 
ambientes existentes são quase tão pouco naturais quanto um laboratório. Em 
todo caso, o comportamento num habitat natural não teria exigências especiais de 
autenticidade. O que um organismo faz é um fato sobre ele mesmo, indiferente- 


27 J. L. Kavanau, “Behavior: confinement, adaptation and compulsory regimes in laboratory studies”, 
Science, 143, 1964, p. 490. 


Ee SKINNER 


mente das condições em que o faz. Um processo comportamental não deixa, con- 
tudo, de ser real quando exibido numa situação arbitrária. 

A importância relativa das contingências filogenéticas e ontogenéticas não 
pode ser defendida com casos em que o comportamento aprendido ou não apren- 
dido aparece ou domina. Breland e Breland?º utilizaram condicionamento ope- 
rante e programação para treinar o desempenho de animais. Condicionaram um 
porco a depositar grandes moedas de madeira num “banco suíno”. “As moedas 
eram colocadas a vários pés de distância do banco, tendo o porco que carregá-las 
até ele e depositá-las (. . .). No início, ele apanhava a moeda avidamente, carrega- 
va-a para o banco, corria de volta, apanhava outra, carregava-a, pronta e hábil- 
mente, e daí para a frente(...). Dali em diante, por um período de semanas, o 
comportamento se tornava cada vez mais lento. Ele corria, avidamente, para cada 
moeda, mas no caminho de volta, ao invés de carregá-la e depositá-la pura e 
simplesmente, deixava-a cair repetidamente, fuçava-a, deixava-a cair de novo, 
fuçava-a, ao longo do caminho, apanhava-a, lançava-a no ar, deixava-a cair, fuça- 
va-a mais um pouco, etc. Condicionaram também uma galinha a entregar cápsu- 
las de plástico contendo brinquedinhos, empurrando-as com o bico para o com- 
prador com um ou dois empurrões decididos. As galinhas começaram a se 
apoderar das cápsulas e a “sacudi-las para cima e para baixo batendo-as no chão 
da gaiola”, talvez como se estivessem extraindo sementes de vagem ou quebrando 
bocados de comida demasiado grandes para serem engolidos. Uma vez que não 
foram usados reforços, não podemos estar certos de que estas formas filogenéticas 
do comportamento de catar comida apareçam, porque os objetos foram manipu- 
lados ante reforço alimentar. A conclusão é, entretanto, plausível e não perturba- 
dora. Uma mudança nas variáveis controladoras é frequentemente observada. Sob 
reforçamento, num assim chamado “esquema de intervalo fixo”, emerge um 
comportamento competitivo, em pontos predizíveis.?º O comportamento introdu- 
zido pode ser aprendido ou não. Poderá interromper o desempenho ou, como mos- 
trou Kelleher,*º poderá não fazê-lo. Os fatos não mostram um poder inerente- 
mente maior das contingências filogenéticas em geral. De fato, as intromissões 
podem ocorrer na outra direção. Um pombo faminto, que estava sendo treinado 
para guiar mísseis,º" foi reforçado com comida num esquema que gerou uma alta 
frequência de bicadas num alvo projetado num disco plástico. Ele começou a 
bicar a comida tão rapidamente quanto o alvo. A freglência era demasiado alta 
para lhe permitir apanhar grãos no bico e ele começou a definhar. Um produto 
das contingências ontogenéticas suprimiu uma das atividades filogenéticas mais 
poderosas. O comportamento de homens civilizados mostra a extensão na qual as 
variáveis ambientais podem mascarar um dote herdado. 


28 K. Brelande M. Breland, “The misbehavior of organisms”, Amer. Psychol., 16, 1961, p. 681. 

29 W.H. Morse e B. F. Skinner, J. Comp. Physiol. Psychol., 50, 1957, p. 279. 

30º R.T. Kelleher, “Variables and behavior”, Amer. Psychol., 17, 1962, pp. 659-660. 

3 B.F. Skinner. “Pigeons in a pelican”. Amer. Psychol., 15 1960, pp. 28-37. Incluído também em Cumula- 
tive Record, edição revista, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1961. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 73 


Semelhanças enganadoras 


Já que contingências filogenéticas e ontogenéticas agem de forma e em tem- 
pos diferentes e mantêm o comportamento de maneiras distintas, é perigoso tentar 
dispor os seus produtos numa única série continua ou descrevê-los com um único 
conjunto de termos. 

Temos uma semelhança aparente no que diz respeito à intenção ou ao 
propósito. O comportamento que é influenciado por suas consequências parece 
dirigir-se para o futuro. Dizemos que as aranhas tecem teias para pegar moscas € 
que os homens põem a rede para pegar peixes. A “ordem” é temporal. Nenhuma 
explicação de ambas as formas de comportamento estaria completa se não fizesse 
alguma referência a seus efeitos. Mas as moscas ou os peixes que ainda não foram 
apanhados não podem afetar o comportamento. Apenas os efeitos passados são 
relevantes. As aranhas que construíram teias mais eficazes têm tido maiores 
probabilidades de deixar prole, e a colocação de uma rede de maneira a pegar 
peixe tem sido reforçada. Ambas as formas de comportamento são, por conse- 
guinte, mais prováveis de ocorrer novamente, mas por razões muito distintas. 

O conceito de propósito tem tido um lugar importante na teoria da evolução. 
É ainda, às vezes, dito ser necessário para explicar as variações sobre as quais 
opera a seleção natural. No comportamento humano uma “intenção sentida” ou 
“senso de propósito”, precedendo à ação, é algumas vezes proposta como substi- 
tuto corrente para eventos futuros. Os homens que colocam a rede “sabem por 
que o fazem”, e algo semelhante pode ter produzido o comportamento de tecer da 
aranha, que então fica sujeito à seleção natural. Mas os homens se comportam de- 
vido ao reforço operante, ainda que não possam “estabelecer seus propósitos”; e, 
quando o podem, devem estar simplesmente descrevendo seu comportamento e as 
contingências responsáveis por sua força. O autoconhecimento é, quando muito, 
um subproduto de contingências; não é causa do comportamento gerado por elas. 
Mesmo que pudéssemos descobrir uma intenção sentida ou um sentido de propó- 
sito de uma aranha, não poderíamos dá-la como uma causa do comportamento. 

Ambas as contingências, filogenéticas e ontogenéticas, podem parecer “cons- 
truir propósito num” organismo. Tem-se dito que uma das realizações da ciberné- 
tica foi demonstrar que as máquinas podem mostrar propósitos. Mas devemos 
olhar para a construção da máquina, da mesma forma que olhamos para a filogê- 
nese e a ontogênese do comportamento, para atentar para o fato de que um siste- 
ma progressivo age como se tivesse um propósito. 

Uma outra característica aparente em comum é a “adaptação”. Ambos os 
tipos de contingências modificam o organismo de forma que ele se ajusta ao seu 
ambiente no sentido de se comportar nele mais eficazmente. Quanto às contin- 
gências filogenéticas, isto é o que se entende por seleção natural. Quanto à ontogê- 
nese, isto é o que se entende por condicionamento operante. Respostas bem suce- 
didas são selecionadas em ambos os casos e o resultado é a adaptação. Mas os 
processos de seleção são muito diferentes e não podemos dizer, pelo simples fato 
de o comportamento ser adaptativo, que tipo de processo foi responsável por ele. 


14 SK INNER 


Características mais específicas do comportamento parecem ser produtos co- 
muns de contingências filogenéticas e ontogenéticas. A imitação seria um exem- 
plo. Se definirmos a imitação como comportamento que se assemelha ao obser- 
vado em outro organismo, o termo compreenderá a descrição de ambos os 
comportamentos, filogenético e ontogenético. Mas distinções importantes preci- 
sam ser feitas. As contingências filogenéticas são presumivelmente responsáveis 
por respostas bem definidas, liberadas por comportamento semelhante (ou seus 
produtos), por parte de outras. Um grito de alerta é recebido e passado adiante 
por outros; um pássaro num bando desaparece, e os outros desaparecem; uma rês 
de um rebanho começa a correr e as demais começam a correr. Um estímulo agin- 
do sobre apenas um elemento de um grupo, assim, prontamente afeta outros ele- 
mentos com vantagens filogenéticas plausíveis. O papagaio desempenha um tipo 
diferente de comportamento imitativo. Seu repertório vocal não é composto de 
respostas herdadas, cada uma das quais, como um grito de alerta, sendo liberada 
pelo som de uma resposta similar em outrem. Ele adquire o seu comportamento 
imitativo ontogeneticamente, mas apenas através de uma capacidade aparente- 
mente herdada, a ser reforçada ouvindo-se a si mesmo produzir sons familiares. 
Suas respostas não precisam ser liberadas por um estímulo imediatamente ante- 
rior (o papagaio fala quando não lhe falaram); mas, um estímulo ecóico é muitas 
vezes eficaz e a resposta é então um tipo de imitação. 

Um terceiro tipo de contingência imitativa não pressupõe uma tendência her- 
dada a ser reforçada em se comportando como os outros. Quando outros organis- 
mos estão se comportando de uma determinada forma, comportamento similar 
será provavelmente reforçado, uma vez que não estariam se comportando assim 
se não tivessem sido reforçados. Muito longe de qualquer instinto de imitação, 
aprendemos a fazer o que os outros estão fazendo, porque possivelmente recebe- 
mos o reforço que estão recebendo. Não precisamos verificar distinções dessa 
espécie se formos usar a imitação ou lidar com ela numa tecnologia do 
comportamento. 

A agressão é um outro termo que oculta diferenças na proveniência. Repertó- 
rios herdados de respostas agressivas são eliciados ou liberados por estímulos 
especificos. Azrin, por exemplo, estudou o comportamento estereotipado, mutua- 
mente agressivo, provocado quando dois organismos recebem pequenos choques 
elétricos. Mas ele e seus colaboradores também demonstraram que a oportuni- 
dade de se envolver em tal comportamento funciona como reforço e, como tal, 
pode ser usada para modelar um número indefinido de operantes “agressivos” de 
topografias arbitrárias.?? A evidência de danos aos outros pode ser reforçadora, 
por razões filogenéticas, por estar associada à sobrevivência competitiva. A 
competição no meio corrente pode torná-la reforçadora por razões ontogenéticas. 
Para lidar com sucesso com qualquer ato agressivo especifico devemos ter em 
conta a sua proveniência. (Respostas emocionais, mudanças corporais que senti- 


32 N. H. Azrin, R. R. Hutchinson e R. McLaughlin, “The oppotunity for aggression as an operant reinfor- 
cer during aversive stimulation”, J. Exp. Anal. Behav., 8, 1965, p. 171. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 75 


mos, quando estamos agressivos, como recato sexual ou aversão ao incesto, po- 
dem ser concebivelmente as mesmas, quer de origem filogenética, quer ontogené- 
tica; a importância da distinção não é, com isso reduzida.) O recente livro de 
Konrad Lorenz, On Aggression,** poderia ser seriamente enganador, se des- 
viasse nossa atenção das variáveis manipuláveis relevantes no meio ambiente nor- 
mal para contingências filogenéticas que, à simples distância, encorajam uma ati- 
tude de irremediabilidade. 

O conceito de territorialidade, também, muitas vezes encobre diferenças bá- 
sicas. O comportamento relativamente estereotipado apresentado na defesa de um 
território, como um caso especial de agressão filogenética, tem sido presumivel- 
mente gerado por contingências que envolvem fornecimento de alimento, procria- 
ção, densidade populacional, etc. Mas os territórios liberados, associados a essas 
e outras vantagens, tornam-se reforçadores condicionados e, dessa forma, geram 
comportamento muito mais especificamente adaptado para liberar um determi- 
nado território. O comportamento territorial pode também ser primariamente 
ontogenético. Quer o território defendido seja tão pequeno quanto um lugar numa 
praia abarrotada ou tão grande quanto uma esfera de influência em política inter- 
nacional, não iremos longe analisando o comportamento, se não reconhecermos 
nada além de “uma paixão primária por um lugar que nos pertence”? * ou insisti- 
mos em que “o comportamento animal fornece protótipos da cobiça pelo poder 
político”. * 

Muitos outros conceitos envolvendo estrutura social também negligenciam 
distinções importantes. Uma hierarquia de bicadas é inevitável, se os membros de 
um grupo diferirem em qualquer das formas já mencionadas quanto ao comporta- 
mento agressivo. Há, portanto, muitos tipos de hierarquias de bicadas, diferindo 
em suas origens. Alguns comportamentos dominantes e submissos são presumi- 
velmente estereótipos filogenéticos; o desprivilegiado dobra sua espinha para 
escapar a um ataque posterior, mas não decorre daí que o vassalo que se prostra 
diante do rei ou do sacerdote esteja se comportando assim pelas mesmas razões. 
As contingências ontogenéticas que modelam a organização de uma grande com- 
panhia ou administração governamental têm pouco em comum com as contin- 
gências filogenéticas responsáveis pela hierarquia no espaço do viveiro. Algumas 
formas de sociedade humana podem parecer formigueiros ou colmeias, mas não 
porque exemplifiquem os mesmos processos comportamentais. * 

As diferenças básicas entre contingências filogenéticas e ontogenéticas são 
particularmente negligenciadas nas teorias da comunicação. Nos sistemas de si- 
nais herdados, de animais, o comportamento de um “orador” favorece a sobrevi- 
vência das espécies, quando afeta um “ouvinte”. O piado de angústia de um pinti- 
nho provoca comportamento adequado na galinha; os apelos ao acasalamento e 
exibições provocam respostas apropriadas no sexo oposto, e assim por diante. De 


33 K. Lorenz, On Aggression, Nova York, Harcourt, Brace & World, 1966, edição alemã. 1963. 
34 R. Ardrey, African Genesis, Nova York, Atheneum, 1961. 

38 R. Dubos, “Humanistic biology”, Amer Scientist, 53, 1965, pp. 4-19. 

36 W.C. Alles. Cooperation Among Animals, Nova York, Abelard-Schuman, 1938. 


16 SKINNER 


Laguna?” sugeriu que os chamados animais poderiam ser classificados como 


declarações, ordens, predições, etc., e Sebeok ºº tentou recentemente uma síntese 
semelhante em termos linguísticos modernos, argumentando em favor da impor- 
tância de uma ciência da zoo-semiótica. 


As contingências filogenéticas e ontogenéticas que levam, respectivamente, a 
sistemas de sinais instintivos e ao comportamento verbal são muito distantes. 
Uma não é a versão da outra. Gritos, demonstrações, e outras formas de comuni- 
cação originadas a partir de contingências filogenéticas são particularmente insen- 
síveis ao reforço operante. Como repertórios filogenéticos em geral, são restritos 
a situações que os eliciam ou liberam e, como resultado, carecem da variedade e 
da flexibilidade que favorecem o condicionamento operante. Já foram condicio- 
nadas respostas vocais que, pelo menos aproximadamente, se parecem com gritos 
instintivos, mas com muito menor facilidade do que respostas que utilizam outras 
partes do sistema nervoso esquelético. As respostas vocais na criança, que são tão 
facilmente modeladas por reforço operante, não são controladas por liberadores 
específicos. Foi o desenvolvimento de um repertório vocal indiferenciado que 
trouxe um novo e importante sistema de comportamento ao nível do reforço ope- 
rante através da mediação de outros organismos. *º 


Muitos esforços têm sido feitos para representar os produtos de ambos os 
conjuntos de contingências numa única formulação. Uma elocução, gesto ou exi- 
bição, filogenéticos ou ontogenéticos, são apontados como tendo um referente que 
é o seu significado, sendo o referente ou significado inferido por um ouvinte. A 
teoria da informação oferece uma versão mais elaborada; o organismo comuni- 
cador seleciona uma mensagem do ambiente, faz a leitura da informação rele- 
vante retirada da armazenagem, codifica a mensagem e a emite; o organismo 
receptor decodifica a mensagem, relaciona-a com outra informação armazenada e 
age sobre ela eficientemente. Todas essas atividades, junto com a armazenagem de 
material, podem ser filogenéticas ou ontogenéticas. Os termos principais em tais 
análises (entrada, saída, sinal, referente, etc.) são suficientemente objetivos, mas 
não descrevem adequadamente o comportamento real do orador ou o comporta- 
mento do ouvinte, quando responde ao orador. As importantes diferenças entre 
contingências filogenéticas e ontogenéticas devem ser consideradas numa análise 
adequada. Não é verdade, como defende Sebeok, que “qualquer hipótese viável 
sobre a origem ou natureza da linguagem terá que ser incorporada às descobertas 
da zoo-semiótica”. Já que podemos analisar e ensinar comportamento imitativo, 
sem analisar as contingências filogenéticas responsáveis pela mímica animal, ou 
estudar e construir sistemas sociais humanos, sem analisar as contingências 
filogenéticas que levam à vida social dos insetos, então podemos analisar o 
comportamento verbal do homem, sem levar em conta o sistema de sinais de ou- 
tras espécies. 


37 G. de Laguna, Speech: its Function and Development, N. Haven, Yale UP, 1927. 
*8 T.A. Scbeok, “Animal communication”, Science, 147, 1965, pp. 1006-1014. 
*º B.F. Skinner, Verbal Behavior, Nova York. Appleton-Century-Crofts. 1957. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO mt 


Propósito, adaptação, imitação, agressão, territorialidade, estrutura social e 
comunicação — conceitos desse tipo têm, à primeira vista, uma generalidade 
convidativa. Parecem ser úteis na descrição dos comportamentos, tanto filogenê- 
ticos quanto ontogenéticos, e para identificar propriedades comuns importantes. 
Entretanto, sua generalidade absoluta limita a sua utilidade. É necessária uma 
análise mais específica se formos lidar efetivamente com os dois tipos de contin- 
gências e seus produtos. 


Nota 7.1 — Natureza ou educação? 


A questão básica não é saber se o comportamento é instintivo ou aprendido, 
como se esses adjetivos descrevessem essências, mas saber se identificamos corre- 
tamente as variáveis responsáveis pela proveniência do comportamento tanto 
quanto aquelas corretamente sob controle. Os primeiros comportamentalistas, 
impressionados pela importância das variáveis ambientais recentemente abertas, 
acharam particularmente reforçador explicar o que parecia ser um instinto, mos- 
trando que ele poderia ter sido aprendido, assim como os etólogos acharam refor- 
çador mostrar que o comportamento atribuído ao meio ambiente é ainda exibido, 
quando as variáveis ambientais são excluídas. A questão importante é empírica: 
quais são as variáveis relevantes? 

Discutir se é plausível ou não extrapolar de uma espécie a outra é também 
uma questão sobre os variáveis controladoras. O etólogo provavelmente irá enfa- 
tizar as diferenças entre espécies e objetar à argumentação dos pombos aos 
homens, mas o ambientalista pode objetar da mesma forma às generalizações cru- 
zadas dos etólogos entre espécies distintas. Se os pombos não são pessoas, tam- 
pouco são patos selvagens ou macacos. Dando como exemplo, um problema cor- 
rente importante: a população do mundo pode presumivelmente ser mantida 
dentro dos limites, sem fome, peste ou guerra, apenas se as práticas culturais asso- 
ciadas com a procriação puderem ser mudadas com o auxílio da educação, medi- 
cina e legislação. É possível também que o homem mostre ou venha a mostrar, 
quando o mundo estiver seriamente superpovoado, um instinto limitador de popu- 
lação, como parecem fazer certas outras espécies. A questão não é saber se o 
comportamento procriador humano é primariamente instintivo ou aprendido ou 
se o comportamento de outras espécies é relevante, mas se pode ser controlado 
através de variáveis acessíveis. 

A extrapolação de uma espécie para outra é muitas vezes sentida como 
sendo menos arriscada, quando as espécies estão intimamente relacionadas, mas 
contingências de sobrevivência não dizem sempre respeito a classificações taxo- 
nômicas. Um recente trabalho de Harlow e outros sobre o comportamento de 
filhotes de macaco é considerado particularmente significativo para o comporta- 
mento humano, porque os macacos são primatas; mas, no que concerne a um 
repertório comportamental, a criança está mais próxima de um filhote de cão ou 
de gato, do que do de um macaco que vive em árvores. O parentesco não está na 
linha de descendência, mas nas contingências da sobrevivência. Os macacos 
sobreviverão mais provavelmente se os filhotes agarrarem-se às suas mães, grita- 


18 SKINNER 


rem e correrem se deixados sós e correrem para suas mães, quando amedrontados. 
O bebê humano não pode fazer muito disso e, se pudesse, o comportamento não 
teria grande valor de sobrevivência numa espécie na qual a mãe deixa o filhote, 
quando procura comida, pois o comportamento altamente excitável na criança 
poderia atrair os predadores. A atividade moderada estando com fome ou com 
dor física, e o agarramento e o ato de sugar, quando faminto, são sem dúvida 
importantes para o bebê humano, mas falta-lhes os extremos das respostas do 
filhote de macaco. 

Uma ênfase na forma ou estrutura obscurece a diferença entre comporta- 
mento herdado e adquirido, porque significa um negligenciar das variáveis contro- 
ladoras em cujos termos pode ser feita uma distinção. Definir a imitação simples- 
mente como comportar-se da mesma forma que outra pessoa seria mencionar os 
estímulos e respostas, mas negligenciar as conseglências, e as consequências é 
que são filogenéticas ou ontogenéticas. Definir a agressão como o comportamento 
que prejudica outros é falhar em fazer a distinção pelas mesmas razões. 

Nosso crescente conhecimento de variáveis controladoras, tanto filogené- 
ticas quanto ontogenéticas, já resolveu algumas questões tradicionais. Há não 
muito tempo poderia ter sido possível debater se o pombo, de uma forma ou outra, 
aprende a construir seu ninho, mas agora que examinamos o comportamento dos 
pombos sob uma larga escala de contingências, podemos estar certos de que não. 
Um programa que modelasse o comportamento de construir um ninho, sem 
contribuição, seja qual for, de herança genética, não pode quase que certamente 
ser conseguido. Se o pombo tivesse uma capacidade herdada a ser reforçada por 
vários estágios na construção de um ninho a afirmação seria menos difícil, mas 
ainda hesitante. Está completamente fora de questão supor que as contingências 
ambientais necessárias surgem por acidente, sempre que um pombo constrói um 
ninho. Ao mesmo tempo, crescentes informações sobre como os pombos cons- 
troem ninhos, esclarecem o relato filogenético. 

O comportamento que não é característico de todos os membros de uma 
espécie mas se repete num padrão mais ou menos igual em alguns, provavelmente 
se dirá que mostra uma característica subjacente da natureza da espécie. Assim, 
diz-se que o Marquês de Sade mostrou que “os verdadeiros instintos dos homens 
são roubar, estuprar e assassinar”, embora apenas uma pequena percentagem de 
homens possa fazer essas coisas, pelo menos na cultura de Sade. Sem uma cultu- 
ra, ou sob uma provocação extrema, todo homem pode ser capaz de fazer isso, 
mas os extremos dos exemplos fornecidos por Sade sugerem circunstâncias 
ambientais extremas. Como vimos, um esquema de reforço sexual pode ser natu- 
ralmente “esticado” como o tanto de comportamento requerido, pois o reforço 
cresce com a saciação e, numa escala de tempo diferente, com a idade. 


Nota 7.2 — Comportamento específico da espécie 


Um completo inventário da herança comportamental de uma determinada 
espécie cobriria todos os aspectos de seu comportamento, em todos os meios 
ambientes possíveis, incluindo: 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 79 


l. reflexos esqueléticos e autonômicos para todos os estímulos eliciadores 
possíveis, incluindo respostas emocionais sob a mais extrema provocação; 

2. todas as respostas instintivas provocadas por liberadores identificáveis 
em todas as situações possíveis, estando todos os materiais necessários disponí- 
veis; 

3. todos os comportamentos que podem ser modelados e mantidos por vá- 
rias contingências de reforço, já que uma espécie é caracterizada em parte pelos 
reforçadores positivos e negativos, aos quais ela é sensível, e os tipos de topogra- 
fia que estejam ao alcance. Por exemplo, é mais difícil ter um pombo sob controle 
adverso que um rato, macaco ou homem. É difícil ensinar um rato a soltar um 
objeto, reforçando quando o faz. É difícil modelar comportamento vocal na maio- 
ria das espécies abaixo do homem, mesmo quando respostas inatas são comuns 
e repertórios imitativos surgem facilmente. A velocidade, ordem e direção em 
relação às quais um repertório pode ser modificado sob condicionamento ope- 
rante é também presumivelmente uma característica de uma espécie; 


(Um exemplo interessante da disponibilidade de uma resposta incomum num 
golfinho surgiu quando se fez um esforço para demonstrar o condicionamento 
operante para platéias! diárias. Uma fêmea desse tipo de mamífero era reforçada 
por uma nova resposta a cada dia, e todas as respostas previamente condicio- 
nadas podiam continuar sem reforço. Respostas-padrão como “golfinhar”, “vir à 
margem”, “bater o rabo” surgiram e foram reforçadas uma em cada exibição. O 
repertório-padrão foi logo esgotado, entretanto, e o golfinho começou então a exe- 
cutar respostas que treinadores experimentados nunca tinham visto antes e acha- 
ram difícil denominar ou descrever. Surgiram certas respostas bem definidas que 
tinham sido anteriormente observadas apenas em outros tipos de golfinhos. Essas 
respostas não teriam sido incluídas num inventário do tipo em observação não 
fossem as contingências incomuns que tornaram altamente provável que todo 
comportamento disponível aparecesse.) 

4. comportamento exibido sob conjuntos de contingências incomuns ou 
conflitantes, particularmente aquelas que envolvem punição. (Uma disposição ao 
comportamento neurótico ou psicótico e as formas tomadas por aquele compor- 
tamento variam presumivelmente entre as espécies.) 

5. Comportamento característico de todos os níveis de privação — fome 
extrema ou sede, assim como a mais completa saciação. 


O conceito de um “meio ambiente natural” é sedutor em parte porque nos 
permite negligenciar o comportamento em outros ambientes, como se não fosse 
característico das espécies. Etologistas tendem a não se interessar, por exemplo, 
pelo comportamento sob condições de laboratório ou depois da domesticação. 
Todavia, tudo é produto de processos naturais. Fazemos uma distinção útil entre 
animais e homens embora saibamos que os homens são animais, distinguimos as 
ciências naturais das sociais, embora saibamos que a sociedade é natural, e distin- 
guimos fibras naturais e sintéticas, embora saibamos que o comportamento do 


* Pryor, Karen. Comunicação pessoal. 


80 SKINNER 


químico é tão natural quanto o de um bicho-da-seda. Não há nada que seja essen- 
cialmente humano, social, ou sintético. 

No geral, o ambiente “natural” no qual o comportamento de uma espécie é 
estudado pelos etólogos, é apenas um dos ambientes nos quais as espécies estão 
agora vivendo. É significativo que ambientes naturais diferentes frequentemente 
geram comportamentos diferentes. Diz-se que Kortlandt e seus colaboradores? 
descobriram que os chimpanzés que vivem numa floresta chuvosa diferem enor- 
memente (são menos “avançados” ou “humanizados”) dos chimpanzés que vivem 
em planícies abertas. Mas, qual é o ambiente natural? Um chimpanzé, apren- 
dendo matemática binária num laboratório, ? estará mostrando comportamento de 
chimpanzé ou humano? Os chimpanzés, que tripulam os primeiros satélites, eram 
condicionados sob contingências complexas de reforço e seu comportamento foi 
imediatamente descrito como “quase humano”, mas as contingências é que eram 
quase humanas. 


Nota 7.3 — Inter-relações entre variáveis filogenéticas e ontogenéticas 


A evolução não fica apropriadamente descrita como sendo um processo por 
ensaio e erro. Uma mutação será um ensaio apenas para aqueles que insistem em 
que a evolução tem direção ou propósito e em que mutações mal sucedidas e letais 
não desaparecem porque são erros. Estes termos costumam vir à baila em discus- 
sões sobre evolução do comportamento (de preferência a, digamos, aspectos 
anatômicos) devido à atualidade das teorias da aprendizagem por ensaio e erro. 
Mas, o condicionamento operante não é tampouco um caso de ensaio e erro. 

Uma mutação comportamental não é simplesmente uma nova forma de res- 
posta; a probabilidade de que seja emitida é tão importante quanto sua topografia. 
Uma determinada topografia do comportamento sexual pode ser relevante para a 
sobrevivência, mas também o é a probabilidade de que seja exibida. Qualquer 
suscetibilidade ao reforço, positiva ou negativa, evoluiu, presumivelmente, mais 
por etapas gradativas do que por mudanças em saltos. Se o comportamento, refor- 
çado por contato sexual, tem valor de sobrevivência, um aumento no poder do 
reforçador deveria ter valor de sobrevivência. 

O processo de condicionamento operante emergiu, presumivelmente, devido 
às suas consequências filogenéticas que devem ter também favorecido qualquer 
crescimento em sua velocidade. A medida na qual um determinado tipo de 
comportamento é suscetível de reforço operante deve ter também sido importante. 
A espécie humana deu um grande passo à frente, quando sua musculatura vocal, 
anteriormente relacionada com a produção de respostas, de significado filogené- 
tico. passou a estar sob controle operante, porque as contingências sociais, 
responsáveis pelo comportamento verbal, podiam então começar a atuar. 

O comportamento originado de contingências ontogenéticas pode tornar as 
contingências filogenéticas mais ou menos eficazes. O comportamento ontogené- 


Kortlandt. Relatado em Time, 21 de abril de 1967. 


2 A 
* €C. B. Ferster, “Arithmetic behavior in chimpanzees”, Scientific American, maio, 1964. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 81 


tico pode permitir a uma espécie manter-se num determinado ambiente por um 
longo tempo e, assim, tornar possível a atuação das contingências filogenéticas. 
Há, entretanto, uma contribuição mais direta. Se, através da seleção evolucio- 
nária, uma resposta determinada se torna cada vez mais fácil de ser condicionada 
como um operante, então, algum comportamento filogenético pode ter tido uma 
origem ontogenética. Um dos “hábitos associados úteis” de Darwin servirá como 
exemplo. Suponhamos que um cão não possua tendência instintiva para dar vol- 
tas em torno de si mesmo, quando se deita, mas que deitar-se dessa forma é refor- 
çado como um operante pela produção de uma cama mais confortável. Se não há 
vantagens filogenéticas, presumivelmente a prontidão. com a qual a resposta é 
aprendida, não será modificada por seleção. Mas, pode-se imaginar vantagens 
filogenéticas: tal cama pode ser mais livre de bichos, oferecer melhor visibilidade 
com relação aos predadores ou às presas, permitir rápido movimento numa emer- 
gência, e etc. Cães nos quais a resposta foi condicionada mais prontamente, 
devem ter sido mais aptos a sobreviver e procriar. (Essas e outras vantagens 
aumentariam a suscetibilidade do cão ao reforço operante em geral, mas estamos 
aqui considerando a possibilidade de que uma resposta particular torne-se mais 
provável de ser condicionada.) Dar voltas em torno de si, ao deitar-se, deve ter-se 
tornado tão prontamente disponível quanto um operante que apareceu finalmente 
sem reforço. Era, então, “instintivo”. As contingências ontogenéticas foram 
responsáveis pela topografia de uma resposta herdada. O argumento é bem seme- 
lhante à sugestão de Waddington ! de que calosidades úteis no peito de um aves- 
truz, de origem presumivelmente ontogenética, surgem antes que o ovo seja choca- 
do, devido a uma tendência de formar calos ter-se desenvolvido ao ponto em que 
a variável ambiental (fricção) não é mais necessária. 

Propriedades temporais e intensivas do comportamento podem também ser 
retraçadas, tanto para fontes filogenéticas, quanto ontogenéticas. Por exemplo, as 
contingências de sobrevivência e reforço têm, ambas, efeitos sobre a velocidade 
com a qual um organismo se move para apanhar a presa ou escapar dos predado- 
res. Um gato doméstico, como seus parentes não-domesticados, move-se de forma 
sorrateira, vagarosamente, em direção à sua presa e, então, salta sobre ela. As 
contingências relevantes são, tanto filogenéticas quanto ontogenéticas: movendo- 
se vagarosamente, o gato chéga à distância de pular e pode, então, assaltar com 
mais sucesso. O padrão de caça é eficaz devido ao comportamento característico 
da presa. Se uma espécie entra muito repentinamente em contato com uma presa, 
que é perturbada por movimentos rápidos, o padrão de caça surgiria, primeiro, no 
nível ontogenético; mas, sob tais condições, os membros da espécie, mais suscetií- 
veis de reforço diferencial de resposta lenta, sobreviveriam e procriariam. O 
padrão de caça deveria, então, aparecer, cada vez mais rapidamente, e, final- 
mente, na ausência de contingências ontogenêticas. 

O comportamento, que não é suscetível de reforço operante, não poderia ter- 
se desenvolvido dessa forma. Se a resposta pilomotora de um gato enraivecido 


* C. H. Waddington, “The evolution of adaptations”, Endeavor, julho 1953, pp. 134 a 139. 


82 SKINNER 


afugenta seus inimigos, o desaparecimento do inimigo pode ser reforçador (pode- 
ria ser usado, por exemplo, para modelar o comportamento de pressionar uma 
barra), mas é muito improvável que a consegiência tenha qualquer efeito reforça- 
dor na resposta pilomotora. É portanto improvável que o comportamento instin- 
tivo tenha uma origem ontogenética. 

Há outros tipos de interações entre os dois tipos de contingências. A filogê- 
nese vem antes e a prioridade é muitas vezes enfatizada pelos etologistas, algumas 
vezes com a implicação de que problemas filogenéticos devem ser resolvidos antes 
que as contingências ontogenéticas possam ser estudadas. Mudanças ontogené- 
ticas no comportamento afetam as contingências filogenéticas. Uma determinada 
espécie não escolhe, como se diz muitas vezes, entre instinto e inteligência. Tão 
logo uma espécie se torna sujeita a contingências ontogenéticas, as filogenéticas se 
tornam menos convincentes, pois a espécie pode sobreviver com um repertório 
filogenético menos adequado. O homem não “preferiu a inteligência ao instinto”; 
simplesmente desenvolveu uma sensibilidade às contingências ontogenéticas que 
tornaram menos importantes as filogenéticas e seus produtos. As contingências 
filogenéticas ainda existem, mas aplicam-se menos num efeito. A mudança pode 
ter sérias consegliências. Tem sido muito observado, por exemplo, que as práticas 
culturais ontogenéticas da medicina e da higiene têm anulado as contingências 
filogenéticas que normalmente manteriam ou melhorariam a saúde da espécie. A 
espécie pode sofrer, quando a cultura não mais mantém práticas médicas e sanitá- 
rias ou quando novos males surgem, contra os quais somente uma resistência 
natural é uma defesa. 

Algumas contingências filogenéticas devem ser eficazes, antes que as contin- 
gências ontogenéticas possam atuar. O comportamento relativamente indiferen- 
ciado, do qual os operantes são selecionados, é presumivelmente um produto 
filogenético; um amplo repertório indiferenciado pode ter sido selecionado, por- 
que tornou eficazes as contingências ontogenéticas. O poder dos reforços deve ter 
surgido por razões idênticas. É tentador dizer que o alimento é reforçador porque 
reduz a fome, mas o alimento na boca é reforçador quando não engolido ou inge- 
rido, e o homem e outras espécies comem, quando não famintos. A capacidade de 
ser reforçado por alimento deve ser atribuída à seleção natural. O comportamento 
reforçado por alimento tem valor de sobrevivência, principalmente quando um 
organismo está faminto, e os organismos que desenvolveram a capacidade de ser 
ativos na obtenção de alimento, apenas quando privados dele, têm uma vantagem 
de ser menos frequentemente ativos, quando sem necessidade. Uma variação 
semelhante na força do comportamento sexual (na maioria dos mamíferos, embo- 
ra não no homem) é mais, obviamente, de origem filogenética. Em muitas espécies 
o macho é sexualmente ativo apenas quando o comportamento pode levar à 
procriação. A cadela no cio emite odores que fortalecem grandemente o compor- 
tamento sexual no macho e ela, então, coopera na cópula. Pode-se argumentar que 
isso mostra um propósito contemporâneo, como o implicado em teorias de 
redução-de-impulso: o comportamento sexual é forte porque leva à fertilização. 
Uma conexão plausível, entretanto, será encontrada nas contingências filogené- 
ticas: sob contingências normais de sobrevivência um comportamento sexual 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 83 


constantemente ativo, quando a ovulação não é freqgiente, deslocaria comporta- 
mento importante para a sobrevivência, de outros modos. O homem parece ser 
uma dentre poucas espécies, que pode ser capaz de comportamento sexual não 
relacionado com a ovulação. 

A distinção entre a herança de comportamento de topografia especificada e 
a herança da capacidade de ser reforçado por determinadas consequências é rele- 
vante, não apenas para a estampagem, mas para o tipo de fatos oferecidos em 
apoio ao conceito de um inconsciente racial. 

Se padrões arquetípicos de comportamento parecem repetir-se sem transmis- 
são via ambiente, pode ser porque são modelados, independentemente, por contin- 
gências repetidas, para as quais as sensibilidades raciais ao reforço são relevan- 
tes. O adolescente que descobre a masturbação por si mesmo pode parecer estar 
lembrando uma topografia rítmica, exibida por seus ancestrais (contribuindo tal- 
vez para a topografia da música e da dança); mas a topografia pode ser modelada 
simplesmente pelos efeitos reforçadores de certos contatos e movimentos, sendo 
a capacidade de ser assim reforçado, possivelmente, tudo o que é herdado. 


Sentimentos comuns. O comportamento herdado pode diferir do aprendido 
na forma como nos sentimos com relação a ele. O que sentimos são eventos em 
nosso corpo ou estados seus. Quando nos comportamos principalmente para evi- 
tar a punição, podemos sentir respostas condicionadas por estímulos punitivos. 
Sentimo-los como vergonha, culpa ou pecado, dependendo da fonte da punição. 
Se uma cultura pune o comportamento incestuoso, então qualquer movimento 
feito no sentido do contato sexual com um parente próximo gerará, presumivel- 
mente, respostas condicionadas que são sentidas como ansiedade. As contin- 
gências filogenéticas podem induzir um homem a se afastar de contatos inces- 
tuosos ou fornecendo uma topografia inata, da qual tais contatos estão ausentes, 
ou através da divulgação da aptidão a serem automaticamente punidos por eles 
(quando dão origem a uma “aversão instintiva”). Se os contatos incestuosos são 
automaticamente punitivos, por razões filogenéticas, podemos procurar uma dife- 
rença nos sentimentos associados com a esquiva dos estímulos adversos condicio- 
nados e incondicionados. Se os sentimentos diferem, deveríamos estar aptos a 
decidir se o incesto é um tabu resultante de uma aversão instintiva, ou uma aver- 
são resultante de um tabu. 

Muitas questões clássicas que têm a ver com variáveis controladores são 
frequentemente colocadas em termos de sentimentos. Quando contingências 
filogenéticas geraram não apenas comportamento, tendo uma topografia especi- 
fica, mas a capacidade de ser reforçado pelas consequências naturais daquele 
comportamento, a redundância óbvia pode funcionar como um dispositivo de 
segurança. Pode ser bem verdade que mães “instintivamente” amamentem seus 
bebês e sejam ao mesmo tempo reforçadas, quando o fazem, através de uma sensi- 
bilidade herdada. A relevância das “sensações prazerosas”, no que tange ao 
comportamento instintivo, é um velho tema. Cabanis? argumentava em favor da 


2P.J. G. Cabanis, Rapports du Physique et du Moral de "Homme, Paris, Crapart, Caille e Ravier, 1802. 


84 SKINNER 


importância do reforço. Ele também relatou uma curiosa prática na qual um fran- 
go de abate foi depenado na barriga, esfregado com urtiga e vinagre, e colocado 
sobre ovos. Os ovos, se dizia, aliviavam a irritação de forma que o frango conti- 
nuou colocado sobre eles e os chocou. Criando-se um estímulo adverso forte, do 
qual o frango poderia escapar, colocando-se sobre os ovos, os fazendeiros que 
recorreram a essa prática criaram galinhas sintéticas. Cabanis diz que o frango 
continuou a cuidar dos pintinhos chocados, embora o comportamento dificil- 
mente pudesse ter sido modelado ou mantido através do controle adverso. Talvez 
todos os frangos domésticos, machos e fêmeas, possuam o comportamento com 
alguma força (comparar com o exemplo do golfinho acima). 

O fato de que um operante, modelado em virtude de uma suscetibilidade her- 
dada ao reforço, possa duplicar um instinto originado das mesmas contingências 
filogenéticas, figurava proeminentemente nas discussões darwinianas de propó- 
sito. Parecia haver uma vantagem em substituir contingências de sobrevivência, 
remotas e quase inescrutáveis, por contingências ontogenéticas, onde o propósito 
era atribuído a consequências acessíveis e identificáveis. Samuel Buther* argu- 
mentava que uma galinha sentia alívio depois de pôr um ovo e insistia que um 
poeta sentia o mesmo tipo de alívio depois de escrever um poema. Diremos ainda, 
provavelmente, que um homem come para sentir alívio do tormento da fome, 
e a língua inglesa tem a expressão idiomática “aliviar-se” para referir-se à defeca- 
ção e ao ato de urinar. O argumento se aproxima de uma teoria em que o reforço 
opera como redução de impulso. A confusão se origina do fato de que a comida 
é tão reforçadora quanto saciadora. A conexão é filogenética: uma substância 
nutritiva torna-se um reforçador, de forma que qualquer comportamento que leve 
à sua ingestão é provavelmente reforçado. 

As respostas de sucção de um recém-nascido são provavelmente, o compor- 
tamento instintivo mais bem documentado no homem. Que os estímulos tácteis 
e gustativos, inevitavelmente associados à sucção, sejam também reforçadores 
é mais um fato suplementar do que uma explicação. As contingências filogenéti- 
cas geraram mecanismos redundantes. 


Nota 7.4 — Agressão 


A agressão é algumas vezes definida como comportamento que expressa 
sentimentos de hostilidade ou ódio, satisfaz uma necessidade de ferir, pretende ou 
procura ferir, ou pode ser atribuído a instintos ou hábitos agressivos. Essas defini- 
ções permanecem incompletas até que tenhamos definido sentimentos, necessida- 
des, significados, intenções, instintos e hábitos. Pode o comportamento agressivo 
ser definido de melhor forma? ; 

O comportamento não é agressivo simplesmente por causa de sua topografia. 
Algumas formas de resposta, como cerrar os dentes ou morder, são, frequente- 
mente, consideradas agressivas (como definido abaixo), mas isso não é sempre 
verdade. Variáveis controladoras devem ser especificadas, entre elas as variáveis 
às quais levam termos como significado, necessidade e instinto. Uma variável — 


* Samuel Butler, Notebooks, Nova York, Dutton, 1917. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 85 


o efeito do comportamento — é importante na utilização tradicional: o comporta- 
mento é agressivo se fizer mal aos outros (ou ameaçar fazê-lo). Uma distinção útil 
pode ser feita entre efeitos filogenéticos e ontogenéticos. 


Agressão filogenética. A competição garras-e-dentes foi outrora o padrão 
arquetípico da seleção natural. O que evoluiu não foram apenas dentes e garras 
eficientes, mas os reflexos e comportamentos liberados, nos quais tomavam parte. 
Exemplos clássicos, com óbvio valor de sobrevivência, incluem a agressão dos 
carnívoros em relação às suas presas, competição sexual entre macho e macho (a 
agressão do macho contra a fêmea — no estupro — é apontada como limitada à 
espécie humana), a defesa dos filhotes por sua mãe e a proteção de uma provisão 
de alimentos (o cão, em geral amigável, morde quem quer que tente levar seu 
osso). Essas contingências específicas de sobrevivência podem ter dado origem a 
uma relação controladora mais geral. Estímulos dolorosos são associados com a 
luta independentemente das contingências específicas nas quais se trava a luta 
pela sobrevivência, e chegaram a liberar comportamento agressivo numa grande 
variedade de ocasiões.! Restrições físicas e ausência de reforço característico 
(“frustração”) são também eficazes, presumivelmente, por razões similares. 


O comportamento agressivo, de origem filogenética, é acompanhado por res- 
postas autonômicas que contribuem para a sobrevivência, pelo menos na medi- 
da em que suportam atividades vigorosas. Essas respostas são a maior parte do 
que é sentido na agressão. Distinções entre ciúmes, raivas, fúria, ódio, etc., suge- 
rem contingências filogenéticas específicas. Se estes são padrões autônomos dife- 
rentes, ou se o que é sentido inclui mais que comportamento autonômico, não pre- 
cisa ser decidido aqui. (A relação do predador com a presa é geralmente vista 
como um caso especial. Pode não dar origem a “sentimentos de agressão”, embo- 
ra outras variáveis filogenéticas possam funcionar na perseguição e morte da 
presa.) Muitas das propriedades dinâmicas da agressão filogenética estão por ser 
analisadas: estímulos eliciadores ou liberadores tornam-se mais eficazes, quer 
despertando o comportamento, quer estimulando sentimentos, quando repetidos 
ou quando combinados com outros estímulos que têm o mesmo efeito; um período 
de agressão ativa pode ser seguido por um período de mansidão, numa espécie de 
saciação que não é simplesmente fadiga; e assim por diante. 


Agressão ontogenética. “Dano aos outros” pode agir como um reforçador, 
dando origem a uma espécie de comportamento agressivo sob o controle de variá- 
veis ontogenéticas. Quando ferimos alguém, insultando-o, zombando, ou dando- 
lhe más notícias, a topografia do nosso comportamento é determinada por contin- 
gências ordenadas por uma comunidade verbal. As contingências não 
prevaleceram por um tempo suficiente para permitir qualquer seleção natural 
extensiva do comportamento. Quando ferimos alguém, usando armas recente- 


VN. H. Azrin, R. R. Hutchinson e R. McLaughilin. “The opportunity for aggression as an operant reinforcer 
during aversive stimulation” J. Exp. Anal. Behav. 8, 1965, p. 171. 


86 SKINNER 


mente inventadas, nosso comportamento é, também, obviamente mais adquirido 
do que herdado. 

Não basta definir o comportamento agressivo ontogenético, dizendo simples- 
mente que ele prejudica os outros. Quais são as dimensões do “prejuízo”? Presu- 
mivelmente, os estímulos reais, que reforçam a ação agressiva, serão encontrados 
no comportamento do recipiente quando grita, chora, se humilha, foge ou dá ou- 
tros sinais de que foi ferido. (A contra-agressão pode estar entre esses comporta- 
mentos; uma pessoa agressiva é reforçada por “ganhar a parada” de seu oponen- 
te.) O comportamento agressivo que mostra uma ampla variedade de topografias 
pode ser reforçado por essas consequências. 

Sinais de dano também reforçam o comportamento que não é, em si mesmo, 
danoso. Assim, eles reforçam o espectador numa briga, numa luta de boxe ou jogo 
de futebol profissional, e ele paga a entrada e assiste à luta ou ao jogo por causa 
deles. (Eles são reforçadores mesmo que ele não “se identifique” com os partici- 
pantes; mas a identificação em tal caso é também uma forma de comportamento 
agressivo, grandemente imitativo em sua natureza. *? 

Provocar danos aos outros pode ser reforçador por muitas razões. Pode fun- 
cionar como um reforço condicionado porque sinais de dano precederam ou coin- 
cidiram com reforços que, de outro modo, nada têm a ver com agressão. O dano 
eficaz ao competidor sexual torna-se reforçador (se não tiver sido causado por 
contingências filogenéticas), quando é seguido por reforço sexual não disputado. 
O dano infligido ao ladrão torna-se reforçador, quando é seguido pela retenção ou 
devolução dos bens. 

Temos que considerar, também, a possibilidade de que uma capacidade de 
ser reforçado por sinais de dano pode ter evoluído sob as contingências filogené- 
ticas que levam à agressão filogenética. Os indivíduos deveriam ter sido seleciona- 
dos, quando se comportaram não apenas de maneira a afugentar predadores ou 
competidores sexuais, mas de maneira a produzir estímulos que comumente pre- 
cedem esses efeitos, tais como os sinais de dano associados com o combate bem 
sucedido. De fato, a topografia do comportamento combativo seria mais rapida- 
mente modelada e mantida por sinais imediatos de dano do que pelo sucesso final, 
como os detalhes do estilo de um boxeador são mais eficazmente modelados pelas 
conseguências imediatas de golpes particulares do que pelo nocaute final. 

Entre os reforços que modelam a agressão ontogenética encontram-se algu- 
mas condições que oferecem a oportunidade de agir agressivamente, quer filoge- 
neticamente, quer ontogeneticamente. Se definimos a agressão em termos de suas 
consegliências, teremos que incluir o comportamento de um pombo que bica uma 
chave, quando o reforço é o acesso a um outro pombo que pode ser atacado. O 
efeito reforçador varia com o incitamento filogenético ou ontogenético. A proba- 
bilidade de que o pombo bicará a chave varia com a probabilidade de que atacará 
um outro pombo, quando um pombo já está presente. 

Os sentimentos associados com a agressão ontogenética dependerão, princi- 
palmente, do comportamento autonômico eliciado pelas mesmas contingências. 


2 B. F. Skinner, Science and Human Behavior, Nova York, The MacMillan Company, 1953. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 87 


Se o dano aos outros é reforçador simplesmente porque foi comumente seguido 
por um reforçador como a comida, a agressão à qual ele dá origem pode ser tão 
“fria” como outras formas de comportamento de obtenção de alimento. Uma 
capacidade inata de ser reforçado por dano aos outros, atribuível a contingências 
filogenéticas, pode dar origem ao padrão autonômico associado com a agressão 
filogenética. Dizer que somos agressivos porque “temos prazer em ferir” nada 
mais acrescenta à análise do que dizer que comemos porque temos prazer em 
comer. Ambas as expressões indicam simplesmente tipos de reforços. 


Interações e comparações. Um exemplo determinado de agressão pode ge- 
ralmente ser atribuído a contingências tanto filogenéticas quanto ontogenéticas, 
já que ambos os tipos de variáveis são, geralmente, operantes numa determinada 
ocasião. O fato de que contingências filogenéticas contribuíram para a capaci- 
dade de ser reforçado por evidências ontogenéticas de dano torna particularmente 
desconcertante a inter-relação. Vale ainda a pena procurar as variáveis eficazes, 
particularmente quando um esforço é feito ou para fortalecer ou para enfraquecer 
o comportamento agressivo. 

A intensidade de comportamento agressivo instintivo varia presumivelmente, 
grosso modo, como o incitamento, pelo menos em conformidade com as contin- 
gências originalmente envolvidas em sua seleção. Se a defesa dos bebês por sua 
mãe, em algum ambiente moderno, parecer exagerada, devemos nos voltar para as 
contingências filogenéticas originais, para uma explicação. A frequência e a ener- 
gia de agressão ontogenética pode variar mais amplamente. Um esquema de refor- 
ço intermitente pode construir uma alta probabilidade de comportamento agressi- 
vo, mesmo que o dano seja pequeno. Há sistemas naturais de programação que 
têm esse efeito. Um homem pode gastar muito de seu tempo na leve agressão cha- 
mada queixa ou aborrecimento. embora só raramente provoque sinais de dano. 
como uma explosão de ira. Pode ser programado numa tal condição, enquanto o 
comportamento de seu ouvinte, lentamente se adapta ou se extingue. Outros 
esquemas de reforço diferencial constroem violentas formas de agressão. Sistemas 
pessoais de ataque e contra-ataque crescem tão prontamente quanto os interna- 
cionais se, cada vez mais se necessitar de comportamento violento para causar 
dano (para compensar defesas melhoradas ou para realizar um dano, inteiramente 
positivo, que ultrapasse o dano feito por outros). Um conjunto de contingências 
sociais, no qual o comportamento agressivo aumenta, foi descrito em outra 
parte, * quando duas ou mais pessoas estão trocando golpes agressivos, a estimu- 
lação adversa de um golpe recebido pode provocar um golpe mais forte em troca. 

Comportamento agressivo, que não parece proporcional às suas conseguên- 
cias, é muitas vezes misterioso. Matar é considerado “sem sentido”, quando variá- 
veis relevantes não podem ser identificadas. Mas a agressão nunca é sem sentido 
em termos de não causada; nós simplesmente não tomamos conhecimento ou de 
uma variável presente ou de uma história de reforço. 

A agressão pode ser definida como comportamento que afeta outros organis- 


* B.F. Skinner, Science and Human Behavior, Nova York, The MacMillan Company, 1953. 


88 SKINNER 


mos, ou filogeneticamente como ameaça à sua sobrevivência, ou ontogeneti- 
camente como um reforço negativo. Ambos os efeitos têm opostos; o comporta- 
mento pode promover a sobrevivência de outros e reforçá-los positivamente. 
Parece não haver antônimos para a agressão que englobem o comportamento, 
tanto de origem filogenética quanto de ontogenética. O “afeto” está próximo 
disso; mas refere-se mais a sentimentos que a comportamento ou suas consequên- 
cias, como o ódio refere-se aos acompanhamentos emocionais da agressão. O 
oposto filogenético da agressão tem valor de sobrevivência com respeito a um ob- 
jeto diferente; a sobrevivência é promovida pela agressão aos competidores e pela 
afeição pelos membros da mesma espécie. O cuidado maternal, procurando e pro- 
tegendo um companheiro ou companheiros, e o comportamento sexual são exem- 
plos dessa última. As consegiências são reforçadoras, ou por causg de uma capa- 
cidade inata de ser reforçado, cuidando de outros, ou porque o comportamento 
que reforça outros, positivamente, é seguido por outros tipos de reforço positivo. 
Tanto a agressão quanto a afeição mostram uma espécie de reciprocidade. Tende- 
mos a agir agressivamente com aqueles que agem agressivamente conosco, e a nos 
afeiçoarmos aqueles que nos demonstram afeição. 

Um surpreendente número de antônimos de agressão tem conotações adver- 
sas. “Cuidado”, “solicitude” e “afeição” sugerem ansiedade, pelo receio de que os 
objetos de afeição sejam prejudicados, possivelmente acompanhado pelo medo de 
que não mais irão demonstrar afeição. Tem sido muitas vezes ressaltado que o 
amor está próximo do ódio e que o afeto e a agressão parecem estar combinados, 
em certas formas de comportamento sádico. Isso nada tem a ver com a essência 
do amor ou do ódio ou com coisa alguma de comum com sentimentos afins. As 
conseguências é que estão próximas uma da outra, e só então porque ambos os 
tipos de efeitos podem ser experienciados por uma mesma pessoa. O comporta- 
mento afetuoso, particularmente quando construído por reforço intermitente, pode 
ter fortes consequências adversas, que por sua vez provocam comportamento 
agressivo em relação ao objeto de afeição. 

Uma tendência para matar membros da mesma espécie poderia promover a 
sobrevivência da espécie. Deve haver vantagens em limitar a população, selecio- 
nando ou treinando lutadores especialmente bons que se tornem valiosos para a 
espécie, quando enfrentam seus inimigos, e mesmo no canibalismo, numa emer- 
gência extrema, como uma forma de preservar pelo menos uns poucos membros. 
Em geral, entretanto, a agressão dentro da própria espécie é rara: 


O tigre não devora os filhotes do tigre; 
Apenas o homem é o inimigo comum do homem. * 


Isto é explicado, algumas vezes, dizendo-se que a agressão com relação aos 
membros da espécie à qual se pertence sofre oposição de uma inibição instintiva, 
exceto entre os homens. O conceito de inibição não é necessário. Não dizemos que 
um carnívoro abstém-se de comer vegetais devido a uma inibição; seu comporta- 


* W, Godwin, “Motto on title page of Caleb Williams”, Citado por Arnold Kettle em An Introduction to the 
English Knowledge, Hutchinson, 1951. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 89 


mento de ingerir é provocado apenas por certos tipos de estímulos. Mesmo se 
fosse verdade que os tigres matam todos os animais menos os tigres não precisa- 
riamos fazer a hipótese de que o matar tigres é inibido por um mecanismo espe- 
cial. As contingências de sobrevivência explicarão uma discriminação entre tipos 
de presas. 

A agressão ontogenética dentro da própria espécie também ameaça a espé- 
cie. Práticas culturais que minimizam a agressão contra outros membros de um 
grupo, tais como os tabus contra matar membros da própria família, tribo ou 
nação (notar a definição de assassinato), obviamente fortalece o grupo. As san- 
ções culturais são geralmente aversivas: a agressão dentro do próprio grupo é 
suprimida pela punição, ou pela ameaça de punição. Isso é inibição no sentido 
original da palavra: a agressão é proibida ou interditada. Se nós não matamos 
membros de nosso próprio grupo, não é devido a algumas inibições internas, mas 
por causa de variáveis identificáveis em nossa cultura. 


Suicídio. É dificil ver como a ação agressiva contra si mesmo possa ter 
valor de sobrevivência, particularmente na forma suprema do suicídio. Se o 
comportamento suicida surgiu como uma mutação, teria se eliminado rapida- 
mente. As contingências filogenéticas nas quais a morte de um indivíduo beneficia 
a espécie, favoreceriam provavelmente a seleção de comportamento, no qual ou- 
tros membros efetuam a matança. (Se a matança dentro da própria espécie amea- 
ça a sobrevivência da espécie, há uma chance remota de que o suicídio teria valor 
de sobrevivência, tornando tal comportamento menos provável.) Algumas formas 
de comportamento instintivo podem ser prejudiciais, e possivelmente levar à 
morte dos que as exibem, quando o prejuízo é associado com consequências que 
têm forte valor de sobrevivência. Uma migração difícil, mas necessária, pode for- 
necer as condições necessárias. Da mesma forma o pode uma mudança de 
ambiente, caso o comportamento que alguma vez teve valor de sobrevivência se 
torne prejudicial ou letal num meio novo. 

Contingências ontogenéticas têm mais probabilidade de gerar comporta- 
mento que prejudique aquele que se comporta. O comportamento que prejudica os 
outros é frequentemente prejudicial a quem assim se comporta, no sentido de que 
o expõe ao dano, ou o leva a aceitar o dano, sem luta. Podemos chegar a subme- 
ter-nos a consequências prejudiciais devido ao reforço positivo final. Mergu- 
lhamos em água fria, por causa do calor tonificante que se segue, submetemo-nos 
ao perigo porque somos reforçados por fuga subsequente, e nos ferimos para que 
outros sintam pena de nós e nos dêem atenção. Submetemo-nos a estímulos adver- 
sos para fugir de estímulos que são até mais adversos. Vamos ao dentista e nos 
sujeitamos à sua broca para escapar de uma dor de dente. O penitente religioso se 
chicoteia para escapar de estimulação adversa condicionada que ele sente, como 
culpa e senso do pecado. Os animais podem ser induzidos a tomar um choque se, 
assim o fazendo, são então reforçados, positivamente ou negativamente, e com 
cuidadosa programação eles continuarão a fazê-lo, mesmo quando o choque se 
torne intenso. 

O grupo ético dispõe contingências nesse padrão se tem algo a ganhar quan- 
do um indivíduo inflige danos a si mesmo. Assim, um grupo pode apoiar um cos- 


90 SKINNER 


tume de suicídio por parte do velho e do enfermo. Uma cultura que dá impor- 
tância à honra pessoal pode apoiar a prática do haraquiri, ou induzir os heróis a 
se exporem a circunstâncias necessariamente fatais. Contingências dispostas por 
sistemas religiosos aprovam a mortificação e a maceração, tanto quanto o martí- 
rio. Uma filosofia de “aceitação da vida” recomenda submissão as condições 
adversas e potencialmente prejudiciais. 

Consequências prejudiciais acidentais não definem, presumivelmente, a 
agressão. Embora a matança acidental fosse uma vez punida com a morte, reco- 
nhece-se agora que tais medidas não têm efeito dissuasor. Nem é considerada 
agressão a morte acidental de alguém. O homem que acelera o motor para manter 
quente o seu carro estacionado ou fuma muitos cigarros ou os cidadãos que per- 
mitem que o ar de uma cidade seja fortemente poluído não estão, rigorosamente 
falando, cometendo o suicídio. Nem é o caso da cultura, cujas práticas se manifes- 
tem fatais quando o ambiente se modifica. A higiene e a medicina surgiram de 
contingências ontogenéticas que têm a ver com a esquiva da doença e da morte, 
mas é concebível que um grupo que maximiza a higiene e a medicina possa ser 
mais vulnerável a um novo virus, tal como aquele que poderia surgir de uma 
mutação ou vir de alguma outra parte do universo. Práticas que até hoje tiveram 
valor em termos de sobrevivência, embora de origem ontogenética, provariam 
então terem sido letais. O aumento do poderio militar sob condições ontogené- 
ticas que parecem favorecer a sobrevivência têm frequentemente levado à destrui- 
ção de civilizações na era do poder nuclear, pode levar à destruição da vida na 
terra. 


Instinto de morte. O fato de que tanto comportamento humano leve à morte, 
sugeriu que o homem possui um instinto de morte. Há muitos tipos diferentes de 
contingências filogenéticas e ontogenéticas que têm esse efeito e que, entretanto, 
não entenderemos ou a respeito das quais pouco poderemos fazer, caso nossa 
atenção esteja desviada de variáveis eficazes para uma causa fictícia. Os homens 
se comportam de maneiras que são muitas vezes prejudiciais e mesmo fatais para 
si próprios e para os outros, mas um instinto de morte implica em contingências 
filogenéticas, nas quais isso poderia ter valor de sobrevivência. As contingências 
ontogenéticas são muito mais plausíveis e conspícuas, e mesmo aí, as contin- 
gências envolvem mais que danos ou morte. 


A solução ambiental. As quatro soluções para o problema da agressão discu- 
tidas no capítulo 3 merecem comentário. A solução sibarítica é planejar formas 
relativamente inofensivas nas quais as pessoas possam ser agressivas: um homem 
bate outro no tênis ou no xadrez de preferência a utilizar uma vara; ele lê litera- 
tura sádica, vê filmes sádicos e assiste a esportes sádicos. Essas práticas provavel- 
mente reforçam mais a agressão do que “a esgotam”, a menos que a preocupação 
com formas inofensivas não deixe tempo para as prejudiciais. Suprimir a agressão 
com punição na solução “puritana” é simplesmente mudar o papel do agressor. 
Uma solução química, como observamos, pode exisitir na forma de tranquili- 
zante. 

A solução ambiental torna-se mais plausível, quanto mais sabemos acerca 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 91 


das contingências. A agressão filogenética pode ser minimizada em se minimi- 
zando os estímulos eliciadores e liberadores. O comportamento adquirido devido 
a uma tendência herdada, reforçado pelo prejuízo aos outros, pode ser minimi- 
zado em se esclarecendo as contingências — criando um mundo no qual muito 
poucos comportamentos causem os tipos de danos que são reforçadores. Podemos 
evitar que o causar danos aos outros se torne um reforço condicionado, assegu- 
rando-nos de que outros reforços não sejam contingentes ao comportamento que 
prejudica. (Para colocá-lo a grosso modo, as pessoas que obtêm o que querem sem 
ferir os outros são menos suscetíveis de serem reforçadas ao ferir os outros.) Em 
resumo, podemos resolver o problema da agressão construindo um mundo no 
qual o dano aos outros não tenha valor de sobrevivência e, por esta ou outras 
razões, nunca funcione como um reforço. Será necessariamente um mundo onde 
comportamentos não agressivos são abundantemente reforçados em esquemas efi- 
cazes alternativos. 


Nota 7.5 — Um exemplo possível de contingências filogenéticas programadas 


A hipótese da tendência continental, que recentemente recebeu surpreendente 
confirmação, pode explicar certos casos de comportamento migratório complexo 
que são, por outro lado, muito surpreendentes. As avestruzes americanas e euro- 
péias, por exemplo, quando prontas para procriar, deixam seu ambiente de água 
doce e atravessam o mar profundo à procura de terras de procriação no meio- 
Atlântico. Os adultos morrem lá, mas os filhotes retornam para continentes apro- 
priados. É difícil imaginar que esse padrão extremamente complexo no comporta- 
mento tanto dos pais como dos recém-nascidos poderia ter surgido em sua forma 
atual através de mutações ao acaso, selecionadas pela sobrevivência de indivíduos 
que possuem o comportamento adequado. Se supusermos, no entanto, que a Euro- 
pa e a América do Norte foram uma vez contíguas e que se desligaram só muito 
vagarosamente, as primeiras viagens das avestruzes, ou daquelas formas primiti- 
vas que evoluíram como avestruzes, poderiam ter sido bem curtas. O presente 
comportamento extremo teria sido gradualmente “modelado” através da sobrevi- 
vência quando as contingências filogenéticas se modificaram. Cada ano, apenas 
uma pequena extensão do comportamento seria exigida — possivelmente uma 
questão de polegadas somente — e as novas contingências poderiam ser atendidas 
pela maioria dos membros da espécie. Assim como um animal com pouca ou 
nenhuma tendência ao lar pode ser treinado soltando-o em distâncias progressi- 
vas, assim as primeiras espécies de avestruzes foram “treinadas por contingências 
filogenéticas à medida que as distâncias a percorrer foram estendidas por 
desmembramento dos continentes. Isso ajudaria a explicar o fato de as terras de 
procriação das avestruzes americanas e européias estarem muito próximas. O 
comportamento do salmão no Atlântico Norte pode ser o resultado de um pro- 
grama semelhante de contingências filogenéticas.' 


* Dr. C. W. McCutchen chamou minha atenção para o fato de o Dr. Ronald Fraser em The Habitable 
Earth, publicado em 1964, ressaltar que a tartaruga verde que agora migra entre o Brasil e a ilha Ascenção, 
uma jornada anual de 1 400 milhas cada percurso, pôde originalmente ter chegado, quando muito, a 100 
milhas. O Dr. Fraser não discute a importância desse fato para a programação filogenética. 


e 


CAPÍTULO VIHI 


' Cinquentenário do comportamentalismo 


O comportamentalismo, com acentuação no “ismo”, não é o estudo cientií- 
fico do comportamento mas, uma filosofia da ciência preocupada com o tema e 
métodos da psicologia. Se psicologia for uma ciência da vida mental — da mente, 
da experiência consciente —, deve então desenvolver e defender uma metodologia 
especial, o que ainda não foi feito com sucesso. Se for, por outro lado, uma ciência 
do comportamento dos organismos, humanos ou não, será então parte da biolo- 
gia, uma ciência natural para a qual existem métodos testados e altamente bem 
sucedidos. A questão básica não é a natureza da substância da qual o mundo é 
feito, ou se é composto de uma substância ou duas, mas sim, as dimensões do ob- 
jeto de estudo da psicologia e os métodos a elas adequados. 

As explicações mentalistas ou psíquicas do comportamento humano quase 
certamente se originaram num animismo primitivo. Quando um homem sonha 
que esteve num local distante apesar da evidência incontrovertida de que ficou na 
sua cama, é fácil concluir que uma parte dele realmente saiu de seu corpo. Uma 
memória particularmente vívida ou uma alucinação poderiam ser explicadas da 
mesma forma. A teoria de um eu (self) invisível, destacável, eventualmente mos- 
trou-se útil a outros propósitos. Parecia explicar episódios inesperados ou anor- 
mais, mesmo para a pessoa que se comportava de maneira excepcional, porque es- 
tava assim “possessa”. Também serviu para explicar o inexplicável. Organismos 
complexos, como o homem, frequentemente parecem comportar-se caprichosa- 
mente. É tentador atribuir o comportamento visível a um outro organismo interno 
— a um homenzinho ou homúnculo. Os desejos do homenzinho tornam-se os atos 
do homem observado por seus próximos. A idéia interna é posta em palavras exte- 
riores. Os sentimentos internos encontram expressão exterior. A explicação tem 
sucesso, é claro, apenas enquanto o comportamento do homúnculo puder ser 
desprezado. 

As origens primitivas não devem necessariamente ser apresentadas contra 
um princípio explanatório, mas o homenzinho ainda está entre nós numa forma 
relativamente primitiva. Foi recentemente o herói de um programa de televisão 
chamado “Portais para a Mente”, um de uma série de filmes educativos patroci- 
nados pela Bell Telephone Laboratories e escrito com o auxílio de um eminente 
painel de cientistas. O telespectador aprendeu, a partir de desenhos animados, que 
quando o dedo de um homem é picado, impulsos elétricos, assemelhando-se a cla- 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 93 


rões de relâmpagos, correm nervos aferentes acima e aparecem numa tela de tele- 
visão no cérebro. O homenzinho acorda, vê a tela relampejante, alcança e puxa 
uma alavanca. Mais clarões de relâmpagos descem pelos nervos até os músculos, 
que então se contraem, enquanto o dedo se retrai do estímulo ameaçador. O 
comportamento do homúnculo não foi explicado, é claro. Uma explicação presu- 
mivelmente requereria um outro filme. E ele, por sua vez, mais outro. 

O mesmo padrão de explicação é invocado quando nos dizem que o compor- 
tamento de um delinquente é resultado de uma perturbação de personalidade ou 
que os caprichos de um homem sob análise são devidos a conflitos entre seu supe- 
rego, ego e id. Nem podemos escapar das características primitivas ao quebrar o 
homenzinho em pedaços e descobrir seus desejos, cognições, motivos, etc., pedaço 
por pedaço. A objeção não é de que essas coisas são mentais, mas que não ofere- 
cem explicação real e ficam no caminho de uma análise mais eficaz. 

Já há cerca de cinguenta anos que a objeção comportamental a esta prática 
foi claramente colocada, e há cerca de trinta anos que tem sido muito discutida. 
Uma geração inteira de psicólogos cresceu sem realmente entrar em contato com 
a questão. Quase todos os livros de textos correntes fazem compromisso: ao invés 
de arriscar-se a uma perda de adoção, definem a psicologia como a ciência do 
comportamento e da vida mental. Enquanto isso, a velha visão continuou a rece- 
ber um forte apoio de áreas nas quais não tem havido tentativas comparáveis de 
reforma metodológica. Durante este período, entretanto, emergiu uma eficiente 
ciência experimental do comportamento. Muito do que, ou o que se descobriu tem 
relação com a questão básica. Uma reformulação do comportamentalismo radical 
parecia portanto estar na ordem do dia. 

Não é difícil traçar um esboço da idéia. Uma frase ocasional nos escritos 
clássicos gregos que pareceu pressagiar o ponto de vista não precisa ser levada a 
sério. Podemos também passar por cima da bravata de La Mattrie que chocou a 
burguesia filosófica afirmando que o homem era apenas uma máquina. Nem eram 
estes que simplesmente preferiram, por razões práticas, lidar com o comporta- 
mento ao invés de lidar com atividades mentais menos acessíveis, mas ainda 
assim reconhecidas, próximas do que hoje se compreende por comportamenta- 
lismo.' 

A cunha penetrante parece ter sido a preocupação de Darwin com a conti- 
nuidade das espécies. Ao apoiar a teoria da evolução, era importante mostrar que 
o homem não era essencialmente diferente dos animais inferiores — que todas as 
características humanas, incluindo a consciência e os poderes de raciocínio, po- 
diam ser encontrados nas outras espécies. Naturalistas como Romanes começa- 
ram a colecionar histórias que pareciam demonstrar que cães, gatos, elefantes, e 
muitas outras espécies, eram conscientes e mostravam sinais de raciocínio. Foi 
Lloyd Morgan, é claro, que questionou esta evidência com seu Cânone de Parci- 
mônia. Não haveria outras maneiras de explicar o que pareciam sinais de cons- 


* A doutrina do paralelismo pode ter preparado o campo com seus conhecimentos de que os aspectos físicos 
do comportamento do homem deveriam ser justificados sem se referir a aspectos mentais. 


94 SKINNER 


ciência ou poderes racionais? Os experimentos de Thorndike no fim do século 
dezenove era deste veio. Ele mostrou que o comportamento de um gato ao fugir de 
uma gaiola-problema parecia mostrar raciocínio, mas podia ser explicado, ao 
contrário, como resultado de processos mais simples. Thorndike continuou 
mentalista, mas ele avançou muito o estudo objetivo do comportamento que tinha 
sido atribuido a processos mentais. 

O passo seguinte era inevitável: se a evidência da consciência e razão podia 
ser explicada de outra forma nos animais, por que não também nos homens? E, se 
fosse o caso, O que aconteceu com a psicologia como ciência da vida mental? 
Coube a John Watson fazer a primeira proposta clara, se bem que ruidosa, de que 
a psicologia deveria ser considerada simplesmente como uma ciência do compor- 
tamento. Ele não estava em boa posição para defender isto. Dispunha de pouco 
material científico para ser usado em sua reconstrução. Foi forçado a preencher o 
seu livro de textos com discussões acerca da fisiologia dos sistemas receptores e 
músculos e com teorias fisiológicas que não eram, na época, mais suscetíveis de 
prova do que as teorias mentalistas que pretendiam substituir. A necessidade de 
“mediadores” do comportamento que pudessem servir como alternativas objetivas 
para o processo do pensamento, levaram-no a enfatizar o discurso sub-audível. A 
noção era estranha, porque podemos geralmente nos observar pensando assim, 
mas não era absolutamente uma explicação adequada ou completa. Ele confun- 
diu-se com os psicólogos introspectivos ao negar a existência de imagens. Pode ter 
agido de boa fé, porque se dizia que ele mesmo não tinha imagens visuais; mas 
seus argumentos causaram agitação desnecessária. A importância relativa do dote 
genético na explicação do comportamento provou ser outra digressão perturba- 
dora. 

Tudo isso tornou fácil perder de vista o argumento central — que o compor- 
tamento que parecia ser o produto de atividade mental podia ser explicado de ou- 
tras formas. De mais a mais, os introspeccionistas estavam preparados para 
contestá-lo. Em 1883, Francis Galton pôde escrever: “Muitas pessoas, especial- 
mente mulheres e crianças inteligentes, têm prazer na introspecção, e desempe- 
nham seus melhores esforços para explicar seus processos mentais”.? Mas a 
introspecção já era levada a sério. O conceito de uma ciência da mente na qual os 
eventos mentais obedecem a leis mentais levou ao desenvolvimento de métodos 
psicofísicos e à acumulação de fatos que pareciam excluir a extensão do princípio 
de parcimônia. O que era tido como verdadeiro para os animais não o era para os 
homens, porque os homens podiam ver os seus processos mentais. 

Bastante curiosamente, parte da resposta foi fornecida pelos psicanalistas, 
que insistiam'em que, se bem que um homem fosse capaz de ver parte de sua vida 
mental, não podia vê-la toda. O tipo de pensamentos que Freud chamou de 
“inconscientes” ocorria sem o conhecimento do pensador. A partir de uma asso- 
ciação, falha verbal ou sonho, podia-se mostrar que uma pessoa devia ter respon- 


2 F. Galton, Inguiries into Human Faculty and its Development, Londres, J. M. Dent and Company, 
1883. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 95 


dido a um estímulo de passagem, se bem que ela não pudesse dizer que o tivesse 
feito. Processos de pensamento mais complexos, incluindo resolução de proble- 
mas e jogos verbais, podiam também ocorrer sem o conhecimento do pensador. 
Freud idealizou um dos aparatos mentais mais elaborados de todos os tempos, e 
nunca abandonou sua fé nele. Entretanto, ele contribuiu para os argumentos 
comportamentais ao mostrar que a atividade mental pelo menos não requeria 
consciência. Suas provas de que o pensamento ocorria sem o reconhecimento 
introspectivo estava, de fato, claramente no espírito de Lloyd Morgan. Havia aná- 
lises operacionais da vida mental — mesmo que para Freud houvesse apenas a 
sua parte inconsciente. Logo começou a se acumular evidência experimental na 
mesma direção. 

Mas esta não era toda a resposta. E quanto à parte da vida mental, que é que 
o homem pode ver? É uma questão difícil, independentemente do ponto de vista, 
em parte porque coloca a questão do significado de ver, e em parte porque os 
eventos vistos são privados. O fato de privacidade não pode, é claro, ser questio- 
nado. Cada pessoa está em contato especial com uma pequena parte do universo 
incluída nos limites de sua própria pele. Para tomarmos um exemplo incontro- 
verso, ele está unicamente sujeito a certos tipos de estimulação proprioceptiva e 
interoceptiva. Se bem que se possa dizer que duas pessoas vêem a mesma luz ou 
ouvem o mesmo som, elas não podem sentir a mesma distensão do ducto biliar ou 
a mesma contusão muscular. (Quando a privacidade é invadida por instrumentos 
científicos, a forma de estimulação fica alterada; as escalas lidas pelo cientista 
não são os eventos em si). 

Os psicólogos mentalistas insistem em que há outros tipos de eventos que são 
unicamente acessíveis ao dono da pele sob a qual ocorrem, mas aos quais faltam 
as dimensões físicas dos estímulos proprioceptivos ou interoceptivos. São tão dife- 
rentes dos eventos físicos, quanto as cores dos comprimentos de onda da luz. Há 
entretanto razões melhores pelas quais duas pessoas não podem sofrer a dor de 
dente um do outro. lembrar-se das memórias do outro, ou partilhar a felicidade do 
outro. À importância atribuída a este tipo de mundo varia. Para alguns, é o único 
mundo que existe. Para outros, é a única parte do mundo que pode ser conhecida 
diretamente. Para outros ainda, é uma parte especial do que pode ser conhecido. 
Em qualquer caso, deve ser encarado o problema de como conhecer o mundo sub- 
jetivo do outro. Afora a questão do que significa “conhecer”, o problema é de 
acesso. 


Eventos públicos e privados 


Uma solução, frequentemente considerada comportamental, é garantir a dis- 
tinção entre eventos públicos e privados e descartar os últimos da consideração 
científica. Esta é uma solução satisfatória para aqueles para quem a verdade cien- 
tífica é questão de convenção ou concordância entre observadores. É essencial- 
mente a linha adotada pelo positivismo lógico e operacionismo físico. Hogben * 


3 L. Hogben, Statistical Theory, Londres, George Allen e Unwin Ltd., 1957. 


96 SKINNER 


recentemente redefiniu “comportamental” neste espírito. O subtítulo de sua Teo- 
ria Estatística é “um exame das crises contemporâneas na teoria estatística de um 
ponto de vista comportamental”, e isto é ampliado da seguinte maneira: 


“O (psicólogo) comportamental, como eu aqui uso o termo, não nega a conve- 
niência da classificação dos processos como mentais ou materiais. Ele reconhece 
a distinção entre personalidade e cadáver: mas ele ainda não teve o privilégio de 
assistir a uma perda de identidade na qual as mentes humanas sem corpo são por 
reconhecimento comum distinguidas dos corpos humanos vivos e sem mentes. Até 
então, ele se satisfaz com discutir probabilidade no vocabulário de eventos, 
incluindo afirmações audíveis ou visivelmente registradas dos seres humanos 
como tais...” 


A posição comportamental, assim definida, é simplesmente a do publicista e 
“não se preocupa com estrutura e mecanismo”. 

O ponto de vista é frequentemente chamado operacional, e é significativo que 
o operacionalismo físico de P. W. Bridgman não pudesse se salvar de um solip- 
sismo extremo mesmo na própria ciência física. Se bem que tivesse insistido em 
que não é um solipsista, ele nunca foi capaz de reconciliar o conhecimento físico 
aparentemente público com o mundo privado do cientista. * Aplicado a proble- 
mas psicológicos, o operacionalismo não tem sido mais bem sucedido. Pode-se 
reconhecer as restrições impostas pelas operações através das quais podemos 
saber da existência de propriedades ou eventos subjetivos, mas elas não podem ser 
identificadas com os eventos em si. S. S. Stevens aplicou o princípio de Bridgman 
à psicologia, não para decidir se os eventos subjetivos existem, mas para determi- 
nar a extensão dentro da qual se pode tratá-los cientificamente. º 

Os (psicólogos) comportamentais têm, de tempos em tempos, examinado o 
problema de privacidade, e alguns deles excluíram as assim chamadas sensações, 
imagens, processos de pensamento, etc., de suas deliberações. Quando assim fize- 
ram, não porque tais coisas não existam, mas porque estão além do alcance de 
seus métodos, justifica-se a acusação de que tenham negligenciado os fatos da 
consciência. Entretanto, a estratégia é bastante pouco sábia. É particularmente 
importante que uma ciência do comportamento enfrente o problema de privaci- 
dade. Pode assim fazer sem abandonar a posição básica do comportamentalismo. 
A ciência frequentemente fala de coisas que não pode ver ou medir. Quando um 
homem joga uma moeda no ar, supõe-se que ele afunda a terra sob seus pés. Fica 
fora de questão ver ou medir o efeito sobre a terra, mas o efeito pode ser presu- 
mido a bem de um relato consistente. Uma ciência adequada do comportamento 
deve considerar os eventos que ocorrem por sob a pele do organismo, não como 
mediadores fisiológicos do comportamento, mas como parte do comportamento 
em si. Pode lidar com estes eventos sem presumir que tenham uma natureza espe- 
cial ou que devam ser conhecidos de uma maneira especial qualquer. A pele não 


* P. W. Bridgman. The Nature of some of our Physical Concepts, Nova York. Philosophical Library, 1952; 
The Way Things Are, Cambridge, Harvard University Press, 1959. 
* S.8. Stevens. “The operational basis of psychology”, Amer. J. of Psychol., 47, 1935, pp. 323-330. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 97 


é tão importante como limite. Eventos privados e públicos têm o mesmo tipo de 
dimensões físicas. 

Nos cinquenta anos posteriores ao estabelecimento de uma filosofia compor- 
tamental, fatos e princípios, sustentados pelas suas colocações básicas, têm-se 
acumulado firmemente. Em primeiro lugar, uma análise científica do comporta- 
mento produziu uma espécie de epistemologia empírica. O objeto de estudo de 
uma ciência do comportamento inclui o comportamento de cientistas e outros sá- 
bios. As técnicas disponíveis para tal ciência dão a uma teoria empírica do conhe- 
cimento certas vantagens em relação às teorias derivadas da filosofia e da lógica. 
O problema de privacidade pode ser abordado numa nova direção ao se iniciar 
com o comportamento ao invés de partir da experiência imediata. A estratégia 
não será certamente mais circular ou arbitrária do que as práticas anteriores, e 
tem resultados surpreendentes. Ao invés de concluir que o homem pode conhecer 
apenas suas experiências subjetivas — que está sendo atado para sempre a seu 
mundo privado e que o mundo externo é apenas um constructo — uma teoria 
comportamental do conhecimento sugere que é o mundo privado que, se não for 
inteiramente incognoscível, pelo menos tem poucas probabilidades de ser bem 
conhecido. As relações entre o organismo e o ambiente, envolvidas no conheci- 
mento, são de tal sorte que a privacidade do mundo dentro dos limites da pele 
impõe limitações mais sérias ao conhecimento pessoal do que ao acesso deste 
mundo pelo cientista. 

Um organismo aprende a reagir discriminativamente ao mundo ao redor sob 
certas contigências de reforço. Assim, uma criança aprende a nomear correta- 
mente uma cor, quando uma dada resposta for reforçada na presença da cor extin- 
ta em sua ausência. A comunidade verbal pode tornar o reforçamento de um 
repertório extenso de respostas contingentes a propriedades sutis de estímulos 
coloridos. Temos razões para crer que as crianças não discriminarão entre as 
cores — que não verão duas cores como distintas — até que sejam expostas a tais 
contingências. Até onde se sabe, requer-se o mesmo processo de reforçamento 
diferencial para que uma criança distinga entre os eventos que ocorrem dentro dos 
limites de sua pele. 

Muitas contingências que envolvem estímulos privados não precisam ser 
proporcionadas por uma comunidade verbal, pois decorrem de relações mecâni- 
cas simples entre estímulos, respostas, e conseglências reforçadoras. As moções 
variadas que compreendem o rodar uma manivela por exemplo, estão sob o con- 
trole de estímulos externos e internos e sujeitos a conseguências reforçadoras 
externas e internas. Mas o executante não está necessariamente “cônscio” dos 
estímulos que controlam seu comportamento, não importando quão apropriado e 
habilidoso possa ser. “Saber” ou “ser cônscio” do que acontece ao rodar uma 
manivela implica em respostas discriminativas, tais como nomear ou descrever, 
que provêm de contingências necessariamente arranjadas pelo ambiente verbal. 
Tais ambientes são comuns. A comunidade está geralmemte interessada no que 
um homem faz. fez ou está planejando fazer e por que, e proporciona as contin- 
gências que geram respostas verbais que nomeiam e descrevem os estímulos exter- 


98 SKINNER 


nos € internos associados a esses eventos. Desafia o seu comportamento pergun- 
tando “como você sabe?” e o orador responde, se o fizer, descrevendo algumas 
das variáveis das quais seu comportamento verbal foi função. A consciência resul- 
tante disso tudo é um produto social. 

Ao tentar iniciar tal repertório, entretanto, a comunidade verbal trabalha sob 
uma série de obstáculos. Não pode sempre dispor das contingências requeridas 
para discriminações sutis. Não pode ensinar uma criança e denominar um padrão 
de estímulos privados de “timidez”, e outro, de “embaraço”, tão eficientemente 
como lhe ensina a chamar um estímulo de “vermelho” e o outro de “laranja”, pois 
não pode estar segura da presença ou ausência dos padrões privados de estímulos 
apropriados ao reforço ou falta de reforço. A privacidade causa portanto proble- 
mas, em primeiro lugar, para a comunidade verbal. O indivíduo sofre em conse- 
quência. Porque a comunidade não pode reforçar conscientemente as respostas 
autodescritivas, as pessoas não podem descrever ou “conhecer” de outra maneira 
qualquer, os eventos que ocorrem por sob sua própria pele tão sutil e precisamente 
quanto ele conhece os eventos do mundo. * 

É claro, há diferenças entre estímulos externos e internos que não são meras 
diferenças de local. Os estímulos proprioceptivos e interoceptivos têm uma certa 
intimidade. São passíveis de ser especialmente familiares. Estão muito conosco; 
não podemos escapar de uma dor de dente e tão facilmente como de um barulho 
ensurdecedor. Podem muito bem ser de um tipo especial; os estímulos que senti- 
mos no orgulho e na tristeza não podem se assemelhar muito dos que sentimos 
com lixa ou cetim. Mas isto não quer dizer que difiram em status físico. Em parti- 
cular, não quer dizer que possam ser conhecidos mais fácil ou diretamente. O que 
é particularmente claro e familiar para o conhecedor potencial pode ser estranho 
e distante para a comunidade verbal responsável pelo seu conhecimento. 


Conteúdo consciente 


O que são os eventos privados aos quais, pelo menos de uma forma limitada, 
um homem vem a responder através de formas que chamamos “perceber” ou 
“saber”? Comecemos com o tipo mais antigo, e de muitas maneiras o mais difícil 
representado pelo “fato obstinado da consciência”. O que ocorre quando uma pes- 
soa observa o conteúdo consciente de sua mente, quando “olha para suas sensa- 
ções ou imagens”? A filosofia e a ciência ocidental têm sido prejudicadas ao res- 
ponder a essas questões por uma metáfora infeliz. Os gregos não podiam explicar 
como um homem podia ter conhecimento de algo com o qual não estivesse em 
contato imediato. Como podia conhecer um objeto do outro lado do quarto, por 
exemplo? Será que estendia uma espécie de sonda invisível até tocá-lo? Ou nunca 
chegava a realmente entrar em contato com o objeto, mas apenas com uma cópia 


8 Cf. B. F. Skinner, “The operational analysis of psychological terms”, Psych. Rev., 1945, para uma análise 
das maneiras através das quais a comunidade verbal pode resolver parcialmente seus problemas. Se bem que 
o mundo privado seja definido anatomicamente como “por baixo da pele”, as fronteiras são os limites além 
dos quais a comunidade reforçadora não pode manter contingências eficazes. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 99 


dele dentro de seu corpo? Platão defendeu a teoria da cópia com sua metáfora da 
caverna. Talvez um homem jamais visse o mundo real, mas simplesmente som- 
bras dele na parede de uma caverna na qual está aprisionado. Cópias do mundo 
real projetadas dentro do corpo compunham a experiência diretamente conhecida 
pelo homem. Uma teoria similar podia também explicar de que maneira vemos 
objetos que “não estão realmente ali”, como alucinações, pós-imagem, e lembran- 
ças. Nenhuma das explicações, é claro, é satisfatória. De que maneira uma cópia 
pode surgir à distância é pelo menos tão intrigante quanto o modo pelo qual um 
homem pode conhecer um objeto à distância. Ver coisas que não estão realmente 
ali não é mais difícil de explicar do que a ocorrência de cópias de objetos que não 
estão lá para serem copiados. 

A procura das cópias do mundo dentro do corpo, particularmente no sistema 
nervoso, ainda continua, mas com resultados desencorajadores. Se a retina pudes- 
se subitamente ser revelada, como uma chapa fotográfica, daria uma foto pobre. 
Os impulsos nervosos na região ótica devem ter uma semelhança ainda mais tênue 
com “o que é visto”. Os padrões de vibração que atingem nosso ouvido, quando 
ouvimos música, são rapidamente perdidos na transmissão. As reações corporais 
a substâncias degustadas, cheiradas, e tocadas, dificilmente se qualificariam como 
reproduções fidedignas. Estes fatos são desencorajadores para os que procuram 
cópias do mundo dentro do corpo, mas são felizes para a psicofisiologia como um 
todo. Em algum ponto, o organismo deve fazer mais do que criar duplicatas. Deve 
ver, ouvir, cheirar, etc., como formas de ação ao invés de reprodução. Deve fazer 
algumas das coisas cuja realização é diferencialmente reforçado quando aprende 
a responder discriminativamente. Quando antes o padrão do mundo externo desa- 
parecer após impingir-se ao organismo, mais cedo o organismo poderá prosseguir 
com estas outras funções. 

A necessidade de algo além de cópias e bastante diferente delas não é muito 
entendida. Suponha que alguém devesse cobrir os lóbulos occipitais do cérebro 
com uma emulsão fotográfica especial que, quando revelada, produzisse uma 
cópia razoável do estimulo visual corrente. Em muitos lugares, isso seria conside- 
rado um triunfo na fisiologia da visão. Nada poderia ser mais desastroso, porque 
deveriamos começar tudo de novo e perguntar de que modo um organismo vê uma 
imagem em seu córtex occipital, e teriamos agora muito menos cérebro disponível 
no qual procurar uma resposta. Não acrescenta nada a uma explicação sobre 
como reage um organismo a um estímulo para traçar o padrão do estímulo dentro 
do organismo. É mais conveniente, tanto para o organismo quanto para os psico- 
fisiólogos, se o mundo externo jamais for copiado — se o mundo que conhecemos 
for simplesmente o mundo ao nosso redor. Pode-se dizer o mesmo das teorias 
segundo as quais o cérebro interpreta sinais enviados para ele e de alguma forma 
reconstrói os estímulos externos. Se o mundo real for, de fato, recebido em trans- 
missão, mas posteriormente reconstruído no cérebro, devemos então começar 
tudo de novo e explicar de que maneira o organismo vê a reconstrução. 

Um tratamento adequado deste ponto requereria uma análise escrupulosa do 
comportamento de ver (continuando com a visão como modalidade conveniente). 


100 SKINNER 


Não seria sábio exagerar nosso sucesso até agora. O comportamento de discrimi- 
nação visual resulta das contingências que implicam em estímulos externos e res- 
postas manifestas, mas possíveis acompanhamentos privados não devem ser igno- 
rados. Algumas das consegiências de tais contingências parecem bem 
estabelecidas. É-nos geralmente mais fácil ver um amigo quando o estivermos 
procurando porque os estímulos visuais similares aos presentes, quando o 
comportamento foi adquirido, exercem controle máximo sobre a resposta. Porém 
mera estimulação visual não é suficiente; mesmo depois de termos sido submeti- 
dos ao reforço necessário. podemos não ver um amigo presente, a não ser que 
tenhamos razões para tanto. Por outro lado, se as razões não forem suficiente- 
mente fortes, podemos vê-lo em alguém com uma semelhança superficial ou 
mesmo quando não houver ninguém parecido com ele. Se as condições favore- 
cerem ver algo mais, poderemos nos comportar de acordo. Se, numa caçada, é 
importante ver o veado, podemos olhar de relance o nosso amigo à distância, 
confundi-lo com o veado, e atirar. 

Entretanto, não é o fato de ver nosso amigo que coloca a questão de con- 
teúdo consciente, mas “ver que o estamos vendo”. Não há contingências naturais 
para tal comportamento. Aprendemos a ver o que vemos somente porque uma 
comunidade verbal dispõe as coisas para que assim façamos. Geralmente adquiri- 
mos o comportamento quando estamos sob estimulação visual apropriada, mas 
não se conclui daí que a coisa vista deva estar presente quando vemos o que 
vemos. As contingências dispostas pelo ambiente verbal podem estabelecer res- 
postas auto-descritivas, descrevendo o comportamento de ver mesmo quando a 
coisa vista não está presente. 

Se ver não requer a presença das coisas vistas, não precisamos nos preocupar 
com certos processos mentais que se dizem envolvidos na construção de tais coi- 
sas — imagens, lembranças, e sonhos, por exemplo. Podemos considerar um 
sonho, não como uma exposição de coisas vistas pelo sonhador, mas simples- 
mente como o comportamento de ver. Em momento nenhum durante o sonho de 
olhos abertos, por exemplo, podemos esperar encontrar no organismo qualquer 
coisa que corresponda aos estimulos externos presentes, quando o sonhador 
inicialmente adquiriu o comportamento no qual está agora envolvido. Na lem- 
brança simples, não necessitamos supor que vagueamos por algum depósito de 
memórias até que encontremos um objeto que então contemplamos. Ao invês de 
presumir que começamos com uma tendência a reconhecer tal objeto uma vez 
encontrado, é mais simples presumir que começamos com uma tendência a vé-lo. 
Técnicas de autocontrole que facilitam o recordar — por exemplo, o uso de 
dispositivos mnemônicos — podem ser formuladas como maneiras de fortalecer o 
comportamento e não de criar objetos a serem vistos. Freud dramatizou o resul- 
tado referente ao sonhar adormecido em seu conceito de trabalho de sonho — 
uma atividade na qual alguma parte do sonhador desempenha o papel de produtor 
teatral enquanto outra parte senta-se na platéia. Se um sonho for, de fato, algo 
visto, devemos então supor que seja forjado como tal; mas se for simplesmente o 
comportamento de ver, o trabalho de sonho pode ser retirado da análise. Levou 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 101 


longo tempo até que o homem entendesse que, quando sonhava com um lobo, o 
lobo não estava realmente lá. Tomou-lhe muito mais tempo entender que ali não 
havia sequer uma representação do lobo. 

Os movimentos oculares que parecem estar associados com o sonhar estão 
de acordo com esta interpretação, uma vez que não é provável que o sonhador es- 
teja realmente assistindo a um sonho por sob suas pálpebras. Quando as lembran- 
ças surgem através de estimulação elétrica do cérebro, como no trabalho de Wil- 
der Penfield, é também mais simples presumir que seja o comportamento de ver, 
ouvir, etc., que surge, ao invés de alguma cópia de eventos ambientais primitivos 
que o sujeito então olha ou ouve. Deve-se pressupor comportamento similar às 
respostas aos eventos originais em ambos os casos — o sujeito vê ou ouve — mas 
a reprodução dos eventos vistos ou ouvidos são complicações desnecessárias. O 
processo familiar de encadeamento de respostas está à mão para justificar o cará- 
ter de série do comportamento de lembrar, mas a ligação serial das experiências 
armazenadas (sugerindo engramas na forma de filmes sonoros) exige um novo 
mecanismo. 

O cerne da posição comportamental sobre a experiência consciente pode ser 
resumido desta maneira: ver não implica em algo visto. Adquirimos o comporta- 
mento de ver sob estimulação de objetos reais, mas pode ocorrer na ausência des- 
ses objetos, sob o controle de outras variáveis. (Enquanto nos referimos ao mundo 
interior à pele, sempre ocorre na ausência de tais objetos.) Também adquirimos o 
comportamento de ver-o-que-estamos-vendo quando vemos objetos reais, mas 
pode ocorrer também em sua ausência. 

Questionar a realidade ou a natureza das coisas vistas na experiência cons- 
ciente não é questionar o valor da psicologia introspectiva ou seus métodos. Os 
problemas correntes da sensação referem-se principalmente à função fisiológica 
dos receptores e mecanismos neurais associados. Os problemas da percepção são, 
no momento, menos intimamente relacionados com mecanismos especificos, mas 
a tendência parece ser na mesma direção. No que se refere ao comportamento, 
tanto sensação como percepção podem ser analisadas como formas de controle de 
estímulo. O sujeito não precisa ser considerado como observando ou avaliando 
experiências conscientes. Anomalias aparentes de controle de estímulo, que são 
agora explicadas, apelando-se para a relação psicofísica ou para as leis da percep- 
ção, podem ser estudadas de direito. Não há, afinal, solução real para atribuí-las 
ao deslize inerente ao converter um estímulo físico numa experiência subjetiva. 

A análise experimental do comportamento tem um pouco mais a dizer a este 
respeito. Suas técnicas têm recentemente sido estendidas ao que deveria ser cha- 
mado a psicofísica dos organismos inferiores. A adaptação de Blough da técnica 
de Békésy — por exemplo, ao determinar o espectro de sensibilidade dos pombos 
e macacos — fornece dados sensoriais comparáveis aos relatórios de observa- 
dores treinados.” Herrnstein e van Sommers recentemente desenvolveram um 


7 D.S. Blough, “Dark adaptation in the pigeon”, J. of Comp. and Physiol. Psychol., 49, 1956, pp. 425-430; 
D. S. Blough e A. M. Schirer, “Scotopic spectral sensitivity in the monkey”, Science, 139, 1963, pp. 
493-494. 


102 SKINNER 


procedimento no qual os pombos “bissectam intervalos sensoriais”.º É tentador 
descrever estes procedimentos dizendo que investigadores acharam maneiras de 
fazer orgnismos não-verbais descreverem suas sensações. O fato é que uma forma 
de controle foi investigada sem usar um repertório de auto-observação ou, antes, 
construindo um repertório especial, cuja natureza e origem são claramente enten- 
didas. Ao invés de descrever tais experimentos com a terminologia da introspec- 
ção, podemos formulá-los em seu lugar próprio numa análise experimental. O 
comportamento do observador no experimento psicofísico tradicional pode então 
ser reinterpretado de acordo. 


Entrepostos mentais 


Tudo já foi dito a respeito de “conteúdo consciente”, problema clássico nas 
filosofias mentalistas. Há outros estados ou processos mentais a serem considera- 
dos. Disposições, cognições e expectativas, por exemplo, são também examinadas 
introspectivamente, e em formulações psicológicas são usadas descrições. As con- 
dições nas quais se estabelecem repertórios descritivos são controladas com muito 
menos sucesso. Termos que descrevem sensações e imagens são apresentados 
através da manipulação dos estímulos discriminativos — uma classe de variáveis 
relativamente tratável. Os eventos mentais restantes ligam-se a operações tais 
como privação e saciação, estimulação emocional, e vários esquemas de reforça- 
mento. As dificuldades que apresentam à comunidade verbal são sugeridas pelo 
fato de não haver psicofísica deste tipo de estados mentais. Tal fato não inibiu o 
uso de tais estados nos sistemas explanatórios. 


Numa análise experimental, a relação entre a propriedade do comporta- 
mento e uma operação efetuada sobre o organismo é diretamente estudada. As 
formulações mentalistas tradicionais, entretanto, enfatizam certos entrepostos. 
Onde uma análise experimental deveria examinar o efeito da punição no compor- 
tamento, uma psicologia mentalista preocupar-se-á primeiro com o efeito da puni- 
ção no gerar sentimentos de ansiedade, e depois com o efeito da ansiedade sobre 
o comportamento. O estado mental parece fazer as vezes de ponte entre as variá- 
veis dependente e independente e é particularmente atraente quando estas estão 
separadas por longos períodos de tempo — quando, por exemplo, a punição ocor- 
re na infância e o efeito aparece no comportamento do adulto. 


A prática é generalizada. Num experimento de demonstração, um pombo 
faminto foi condicionado a dar voltas na direção horária. Modelou-se um padrão 
de comportamento final, suavemente executado, reforçando-se aproximações 
sucessivas com alimento. Pediu-se aos estudantes que assistiram à demonstração 
que escrevessem um relato do que tinham visto. Suas respostas incluíam o seguin- 
te: (1) o pombo foi condicionado a esperar reforço para o comportamento certo; 


º R.J. Herrnstein e P. van Sommers, “Method for sensory scaling with animals”, Science, 135, 1962, pp. 
40-41. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 103 


(2) o pombo andava por aí, esperando que algo lhe trouxesse de volta a comida; 
(3) o pombo observou que um certo comportamento parecia produzir um resul- 
tado particular; (4) o pombo sentiu que o alimento lhe seria dado por causa de sua 
ação; e (5) o pombo veio a associar sua ação com o clic do alimentador. Os fatos 
observados poderiam ser situados respectivamente como segue: (1) o pombo era 
reforçado quando emitia um dado tipo de comportamento; (2) o pombo dava vol- 
tas até que o alimentador novamente aparecesse; (3) um certo comportamento 
produziu um resultado particular; (4) o alimento era dado ao pombo quando agia 
de uma forma determinada; e (5) o clic do alimentador estava relacionado tempo- 
ralmente com a ação do pombo. Estes depoimentos descrevem as contingências de 
reforço. As expressões “antecipa”, “espera”, “observa”, “sente” e “associa” as 
transcendem para identificar efeitos no pombo. O efeito realmente observado foi 
bastante claro: o pombo girava mais habilidosamente e mais frequentemente, mas 
este não foi o efeito reportado pelos estudantes. (Se pressionados, certamente te- 
riam dito que o pombo girava mais habilidosamente e mais frequentemente por- 
que ele antecipava. esperava, e sentia que. se assim fizesse, apareceria comida.) 

Os eventos reportados pelos estudantes, se foram observados, foram-no em 
seu próprio comportamento. Eles estavam descrevendo o que teriam antecipado, 
sentido, e esperado em circunstâncias semelhantes. Mas foram capazes de fazê-lo 
apenas porque uma comunidade verbal colocou termos relevantes sob o controle 
de certos estímulos, e isto se fez quando a comunidade tinha acesso apenas ao tipo 
de informação pública disponível para os estudantes na demonstração. Qualquer 
coisa que os estudantes soubessem de si mesmos que lhes permitisse inferir even- 
tos comparáveis no pombo deve ter sido aprendido de uma comunidade verbal 
que não viu mais de seu comportamento do que eles tinham visto do pombo. Estií- 
mulos privados podem ter interferido no controle de seus repertórios autodes- 
critivos, mas a prontidão com que o aplicaram ao pombo indica que os estímulos 
externos continuaram importantes. A força extraordinária de uma interpretação 
mentalista é realmente uma espécie de prova de que, ao descrever um entreposto 
privado, estaremos, numa extensão considerável, fazendo uso de informação pú- 
blica. (A rapidez e facilidade com que se relata a vida mental de um pombo ou 
pessoa são suspeitas. Nada mais fácil do que dizer que alguém faz alguma coisa 
“porque gosta” ou que faz uma coisa ao invés de outra “porque fez uma escolha”. 
Mas temos nós o conhecimento de sua vida privada que este tipo de afirmações 
implica, ou pelo menos devia implicar? É muito mais provável estarmos empre- 
gando um conjunto padrão de explicações que não tem mais validade — e a longo 
prazo não mais são úteis — do que um conjunto padrão de metáforas.) 

Entretanto, o entreposto mental é frequentemente aceito como dado terminal. 
Quando um homem deve ser treinado para discriminar entre diferentes aviões, 
navios, etc., é tentador parar no ponto no qual se pode dizer que identifica tais 
objetos. Fica implícito que, se ele pode identificar um objeto, será capaz de 
nomeá-lo, rotulá-lo, descrevê-lo, ou se comportar apropriadamente de alguma 
outra forma. No processo de treinamento, ele sempre se comporta de alguma des- 
sas maneiras; nenhum entreposto, chamado “identificação”, aparece na prática ou 


104 SKINNER 


precisa aparecer na teoria. (Qualquer discussão do comportamento discriminativo 
gerado pelo ambiente verbal para permitir à pessoa examinar seu conteúdo cons- 
ciente deve ser qualificado de acordo.) 

As teorias cognitivas param nos entrepostos nos quais a ação mental é geral- 
mente algo mais complexa do que identificação. Por exemplo, um sujeito é dito 
saber quem ele é e onde está, o que ocorre, ou ocorreu ou vai ocorrer — indepen- 
dentemente das formas de comportamento através das quais seu conhecimento foi 
estabelecido ou que possam agora testemunhar sua existência. Da mesma forma, 
ao considerar o comportamento verbal, um ouvinte ou leitor é dito compreender 
o significado de um trecho, apesar de as modificações reais acarretadas por ouvir 
ou ler o trecho não serem especificadas. Da mesma forma, esquemas de reforço 
são às vezes estudados simplesmente por seus efeitos sobre as expectativas do 
organismo exposto a eles, sem se discutir a relação implícita entre expectativa e 
ação. Lembrança, inferência e raciocínio podem ser formulados apenas até onde 
uma experiência é lembrada ou a conclusão alcançada, ignorando-se as manifes- 
tações comportamentais. Na prática, o investigador sempre leva alguma resposta 
a cabo, mesmo que apenas uma resposta de autodescrição. 

Por outro lado, os estados mentais são frequentemente estudados como cau- 
sas da ação. Um orador pensa em algo para dizer antes de dizê-lo, e isto explica 
o que ele diz, se bem que as fontes de seu pensamento não sejam examinadas. Um 
ato pouco comum é chamado “impulsivo”, sem maiores investigações quanto às 
origens do impulso incomum. Um desajuste comportamental demonstra ansieda- 
de, a fonte da qual se negligencia. Salivamos ao ver um limão porque nos lembra 
um sabor ácido, mas por que isso acontece não fica especificado. A formulação 
leva diretamente a uma tecnologia baseada na manipulação dos estados mentais. 
Para mudar o comportamento de votar de um homem, mudamos suas opiniões; 
para induzi-lo a agir, fortalecemos suas crenças; para fazê-lo comer, fazemo-lo 
sentir fome; para prevenir guerras, reduzimos as tensões bélicas nas mentes dos 
homens; para efetuar psicoterapia, alteramos os estados mentais perturbadores. 
Na prática, todas essas formas de mudar a mente do homem reduzem-se à mani- 
pulação de seu ambiente, de forma verbal ou de outra forma. 

Em muitos casos podemos reconstruir uma cadeia causal completa identifi- 
cando o estado mental que é feito de uma variável ambiental com o estado mental 
que é a causa da ação. Mas isto nem sempre basta. Nas filosofias mentalistas 
tradicionais, várias coisas acontecem nos entrepostos que alteram a relação entre 
os eventos terminais. As funções psicofísicas e as leis perceptuais que distorcem o 
estímulo físico, antes que ele alcance o entreposto, já foram mencionadas. Uma 
vez alcançado o entreposto, outros efeitos podem ocorrer. Os estados mentais 
alteram-se uns aos outros. Uma lembrança dolorosa pode nunca afetar o compor- 
tamento, ou pode afetá-lo de uma maneira distinta, caso outro estado mental con- 
siga reprimi-la. Variáveis conflitantes podem ser reconciliadas antes de atingir o 
comportamento caso o sujeito se envolva numa ação mental denominada “tomar 
uma decisão”. Cognições dissonantes, geradas por condições conflitantes de 
reforço não se refletirão no comportamento se o sujeito puder “persuadir-se” de 


MS. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 105 


que uma condição era realmente de magnitude ou tipo diferente. Essas perturba- 
ções nas ligações causais simples entre o ambiente e o comportamento podem ser 
formuladas e estudadas experimentalmente, como interações entre variáveis; mas 
a possibilidade não foi plenamente explorada, e os efeitos ainda fornecem uma 
fortaleza formidável para as teorias mentalistas concebidas para fazer a ligação 
entre as variáveis dependentes e independentes na análise do comportamento. 


Objeções metodológicas 


O argumento comportamental é contudo ainda válido. Podemos objetar pri- 
meiro, à predileção por sequências causais incompletas. Uma perturbação do 
comportamento não é explicada ao relacioná-la à ansiedade sentida até que a 
ansiedade tenha por sua vez sido explicada. Uma ação não fica explicada ao atri- 
buí-la às expectativas, até que elas tenham, por sua vez, sido justificadas. Sequên- 
cias causais completas poderiam, naturalmente, incluir referências a entrepostos, 
mas o fato é que estes geralmente interrompem a descrição numa direção ou em 
outra. Por exemplo, deve haver centenas de exemplos na literatura psicanalítica 
nos quais é dito que um pensamento ou lembrança foram relegados ao incons- 
ciente por serem dolorosos ou intoleráveis, mas a percentagem deles que oferece 
a sugestão, ainda que a mais causal, do por que foi doloroso ou intolerável, deve 
ser muito pequena. Talvez as explicações pudessem ter sido fornecidas, mas a prá- 
tica desencorajou o acabamento da seglência causal. 

Uma segunda objeção é que uma preocupação com entrepostos mentais 
sobrecarrega uma ciência do comportamento com todos os problemas colocados 
pelas limitações e incorreções dos repertórios autodescritivos. Não precisamos 
tomar a posição extrema de que os eventos mediadores ou quaisquer dados acerca 
deles, obtidos através da introspecção, devam ser postos fora de cogitação, mas 
devemos certamente dar as boas-vindas a outras maneiras de tratar os dados mais 
satisfatoriamente. Variáveis independentes mudam o organismo em comporta- 
mento, frequentemente de maneira que sobrevivem por muitos anos, e tais mudan- 
ças afetam o comportamento subsequente. O sujeito pode estar apto a descrever 
alguns destes estados intervenientes de modo útil, quer antes ou depois de terem 
afetado o comportamento. Por outro lado, o comportamento pode ser extensa- 
mente modificado por variáveis das quais e de cujo efeito o sujeito nunca tem 
conhecimento. Pelo que sabemos, as respostas autodescritivas não alteram rela- 
ções controladoras. Se uma punição severa é menos eficaz do que uma suave, não 
é porque ela não pode ser “mantida em mente”. (Certos comportamentos envolvi- 
dos na autogerência, tais como rever uma história de punição, podem alterar o 
comportamento; mas fazem-no introduzindo outras variáveis ao invés de mudar 
uma dada relação.) 

Talvez a objeção mais séria refira-se à ordem dos eventos. A observação de 
nosso comportamento necessariamente segue-se ao comportamento. Respostas 
que parecem descrever estados intervenientes isolados podem abranger efeitos 
comportamentais. “Estou faminto” pode descrever, em parte, a força do compor- 


106 SK INNER 


tamento de ingestão em andamento do orador. “Eu estava com mais fome do que 
pensava” parece particularmente descrever o comportamento, mais do que um es- 
tado interveniente, possivelmente causal. Exemplos mais sérios de uma ordem 
possivelmente errada podem ser encontrados nas teorias de psicoterapia. Antes de 
afirmar que a libertação de um desejo reprimido tem efeito terapêutico sobre o 
comportamento, ou que, quando soubermos por que ele está neuroticamente doen- 
tio, ele se recuperará, deveriamos considerar a alternativa plausível de que uma 
mudança de comportamento, resultante da terapia, possibilitou ao sujeito lembrar 
um desejo reprimido ou entender sua doença. 


Nota 8.1 — Estímulos privados 


Para o filósofo mentalista, a vida mental é a “única coisa certa que ele 
conhece nele mesmo, se não nos outros”. Deste ponto de vista, o (psicólogo) 
comportamental parece ou estar dizendo que não vê imagens, não sente dores, etc. 
(assim expondo-se a uma acusação de má fé) ou estar recusando eventos observa- 
dos com evidência. O que ele recusa aceitar são as dimensões tradicionalmente 
atribuídas ao que ele observa. Alguns dos objetos de introspecção são respostas 
privadas (encobertas). Watson estava particularmente intrigado com esta possibi- 
lidade. Pelo que sabemos, as respostas são executadas com os mesmos órgãos que 
as respostas observáveis, mas numa escala menor. Os estímulos que geram são 
fracos, mas todavia do mesmo tipo que os gerados pelas respostas manifestas. 
Seria um erro recusar-se a considerá-los como dados, simplesmente porque um 
segundo observador não pode senti-los ou vê-los, pelo menos sem auxílio de 
instrumentos. 

Outros objetos comuns de introspecção são estímulos proprioceptivos e 
interoceptivos e (particularmente importante no caso das sensações) respostas do 
sistema nervoso autônomo. Seria absurdo negar a existência de eventos deste tipo 
ou a possibilidade de que uma pessoa possa responder a eles e aprender a descre- 
vê-los. É igualmente absurdo argumentar que, porque ocorrem dentro dos limites 
da pele, eles têm dimensões não-físicas. A questão é particularmente crucial 
quando o comportamento é discriminativo. Podemos aprender a ver as coisas com 
facilidade, mas é difícil aprender a ver o que vemos nelas, quer na sua presença ou 
na sua ausência. É uma possibilidade interessante que o conceito de experiência, 
como distinto da realidade, nunca teria surgido, não tivessem certas exigências no 
ambiente social induzido os homens a observar que estão respondendo a 
estímulos. 

A dor é comumente oferecida como exemplo de experiência imediata. Os 
estímulos dolorosos ficam dentro do corpo e são frequentemente muito fortes, e 
não precisam ser copiados. Todavia, pode-se argumentar que não são a mesma 
coisa que a “experiência da dor”. “A experiência da dor...” diz Brand Blans- 
hard, ' “é auto-evidentemente não a mesma coisa do que um movimento físico de 


* Brand Blanshard e B. F. Skinner, “The problem of consciousness — a debate”, Philosophy and Phenome- 
nological Research, 27, 1967, pp. 317-337. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 107 


qualquer tipo.” O movimento físico não é, por exemplo, “leve” ou “excruciante”. 
É todavia verdade que muitos adjetivos usados para descrever a dor foram primei- 
ramente aplicados às coisas que causavam dor. Uma dor leve é causada por um 
objeto leve e uma dor aguda, por um objeto agudo. “Excruciante” é tomado da 
prática da crucificação. Mesmo estes estímulos internos íntimos são portanto des- 
critos como coisas. 

A experiência de ter uma idéia ou impulso de se engajar em processos cogni- 
tivos não é absolutamente auto-evidente. Em nossa própria cultura os graus de 
preocupação com a experiência são indicados de um lado pelo extrovertido radi- 
cal e, de outro, pelo psicólogo introspectivo. Se vemos ou não esses “eventos men- 
tais”, depende da nossa história de reforço. Descartes não podia começar, como 
pensou que pudesse, dizendo “Cogito ergo sum”. Ele tinha que começar como um 
bebê) — um bebê cujo ambiente verbal subsequente eventualmente gerou nele (se 
bem que não em milhões de seus contemporâneos) certas respostas dentre as quais 
o “cogito” era um exemplo. Os estímulos que controlam esta resposta (os eventos 
aos quais se refere) são quase inacessíveis à comunidade verbal que constrói 
repertórios descritivos, e assim são raramente descritos ou observados por duas 
pessoas da mesma forma. Reagimos a estes eventos por causa das contingências 


de reforço que são talvez tão complexas quanto muitas das que geraram os cons- 
tructos da ciência 


Nota 8.2 — Consciência de... 


Quando você observa que está vendo algo, de modo que você pode dizer 
“sim”, quando perguntado “vê isto?” estará você vendo a coisa de novo numa 
espécie de “dupla porção”? Por que ver algo duas vezes estaria ligado a mais 
consciência dela do que vê-la apenas uma vez”? Evidentemente, você está obser- 
vando a si mesmo no ato de vê-la, e este ato é distinto da coisa vista. O ato pode 
ocorrer quando a coisa vista não estiver presente, e você pode então dizer “sim” 
à pergunta “você pode vê-la em sua imaginação?” A teoria de dupla porção pare- 
ce requerer que você evoque uma cópia da coisa (ou a resgate do depósito de 
memórias), olhe-a, e então olhe-a de novo. Mas é possível que observar que você 
vê algo em memória é simplesmente observar o comportamento evocado uma vez. 
quando você viu a coisa em si. 


Estamos conscientes do que estamos fazendo, quando descrevemos a topo- 
grafia de nosso comportamento. Estamos conscientes de por que o fazemos, quan- 
do descrevemos variáveis relevantes, tais como aspectos importantes da ocasião 
ou o reforço. A comunidade verbal gera o comportamento auto-descritivo, 
perguntando “o que você está fazendo?” ou “por que você faz isto?” e reforçando 
nossas respostas apropriadamente. O comportamento com que respondemos não 
deve ser confundido com o comportamento gerado pelas contingências originais. 
Não é necessariamente “linguístico”, mas é verbal, no sentido em que não tería- 
mos razões para nos envolvermos nele, não fosse pelas contingências proporcio- 
nadas por uma comunidade verbal. Tais contingências podem respeitar aspectos 
distintos de nosso comportamento — por exemplo, podem ser responsáveis pelo 


108 SKINNER 


fato de “sabermos o que fizemos” no sentido de sermos capazes de descrever 
nossa resposta, mas não “por que o fizemos”, no sentido de sermos capazes de 
identificar variáveis relevantes. 

A consciência pode ser necessária na construção de regras que gerem 
comportamento apropriado a dadas contingências (capítulo 6). Quando cons- 
truímos regras sem sermos sujeitos às contingências (por exemplo, quando extraí- 
mos regras a partir de uma análise de um sistema reforçador tal como um espaço 
de amostra), nada há em nosso comportamento de que devamos estar conscientes; 
mas, quando construímos uma regra a partir de observações de nosso comporta- 
mento sob exposição das contingências (sem saber delas em qualquer outro senti- 
do), devemos estar conscientes do comportamento e das variáveis das quais é fun- 
ção. Uma comunidade verbal avançada gera um alto nível de tal consciência. Seus 
membros não só se comportam apropriadamente quanto às contingências que 
encontram em sua vida cotidiana, como examinam essas contingências e cons- 
troem regras — regras-ato-contínuo para uso pessoal ou regras gerais que provem 
ser valiosas tanto para si mesmos como para a comunidade como um todo. 

Uma ciência do comportamento não ignora a consciência-de, como se diz. 
Pelo contrário, vai muito além das psicologias mentalistas na análise do compor- 
tamento auto descritivo. Sugeriu maneiras melhores de ensino do auto conhe- 
cimento e do autocontrole que depende do auto conhecimento. Também enfatiza 
a importância do estar consciente no momento certo. Consciência prolongada 
pode ser uma desvantagem; não há razão pela qual deveriamos escrutinar todas 
as respostas que emitimos ou examinar cada ocasião em que respondemos. 

A descoberta de regras e a consciência de que a descoberta requer são parti- 
cularmente importantes na aprendizagem e solução de problemas. De fato, são 
tão importantes que muitos psicólogos têm, como vimos, definido a aprendizagem 
e resolução de problemas como a extração de regras. Mas organismos não verbais 
resolvem problemas sem formular regras e sem estar conscientes do que fazem, e 
seria surpreendente que o homem tivesse perdido esta habilidade. Experimentos de 
laboratório frequentemente parecem mostrar que um sujeito pode descrever um 
conjunto de contingências assim que seu comportamento mostrar algum efeito, 
mas os sujeitos vêm de uma cultura que tornou o escrutínio de contingências 
quase inevitável, particularmente ao participar de um experimento de laboratório 
sobre aprendizagem ou resolução de problemas. 

Um sujeito pode aprender a responder sem saber que respondeu. caso a res- 
posta reforçada seja tão sutil que ele não possa percebê-la.? Se seu comporta- 
mento pode ou não ser controlado por estímulos que ele não pode perceber sob as 
contingências que geram consciência é o resultado levantado pelos “estímulos 
subliminares”. O termo não é uma contradição. Um homem pode ser capaz de 
identificar ou descrever um estímulo sob contingências dispostas pela comunidade 
verbal, ainda que não responda a elas sob contingências não-verbais. Por exem- 


2 R. F. Hefferline, B. Keenan e R. A. Harford, “Escape and avoidance conditioning in human subjects 
without their observation of the response”. Science, 130, 1959, pp. 1338-1339. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 109 


plo, somente quando lhe dizem que a solução de um problema consiste na forma- 
ção de conceito, é que responde corretamente. Os estímulos são certamente efica- 
zes nas contingências que o sujeito não tem motivos para analisar. A questão não 
é se necessariamente vemos contingências como tais, quando elas fazem efeito, 
mas o que ocorre quando uma comunidade verbal nos induz a vê-las. Aprendi- 
zagem sem consciência é simplesmente um caso especial de comportamento sem 
consciência, e este último é comum. Não estamos de jeito nenhum sempre cons- 
cientes do que fazemos ou do por quê. Somos talvez mais propensos a ser cons- 
cientes quando aprendemos algo novo, porque é nessas ocasiões que o comporta- 
mento auto-descritivo é de mais uso. O (psicólogo) comportamental ouve 
frequentemente “E o inconsciente?” como se lhe apresentasse um problema espe- 
cialmente dificil, mas o único problema é a consciência. Todo comportamento é 
basicamente inconsciente no sentido em que é modelado e mantido por contin- 
gências que são eficazes, mesmo quando não são observadas ou analisadas de 
outra forma. Em algumas culturas, incluindo a nossa, práticas bem estabelecidas 
de autodescrição geram consciência no presente sentido. Não só nos comporta- 
mos, como observamos que estamos nos comportando, e observamos as condi- 
ções sob as quais nos comportamos. 

O inconsciente de Freud não era, entretanto, simplesmente o comportamento 
do qual uma pessoa não se tinha tornado consciente. Ele enfatizou razões espe- 
ciais pelas quais o comportamento auto descritivo pudesse faltar. Algumas das 
contingências mais poderosas, dispostas pela comunidade para gerar consciência, 
envolvem punição. Censurar alguém é atribuir consequências aversivas a seu 
comportamento. A afirmação “você fez isto!” assevera uma ligação entre o 
comportamento (o que a pessoa fez) e consegliências indesejáveis (isto). Ordena-se 
ao acusado que observe a ligação causal. Como resultado, um comportamento 
similar ou tendo consequências similares poderá gerar estímulos condicionados 
aversivos, sentidos possivelmente como culpa ou vergonha. Freud argumentou 
que são as consequências punitivas que reprimem a auto-descrição ou conscién- 
cia. As contingências continuam eficazes, mas não são notadas. Dizer que leva- 
mos alegremente más notícias porque somos reforçados ao magoar outras pessoas 
é dizer que nosso comportamento ao levar notícias é punível como forma de ma- 
goar alguém, ao invés de admirável como forma de transmitir informação. É-nos 
mais fácil notar que levamos más notícias para fornecer a um amigo informações 
importantes do que notar que nos comportamos exatamente da mesma maneira 
para magoá-lo. 


Nota 8.3 — Mente e matéria" 
Nota 8.4 — 4 teoria da cópia 


O argumento dualista coloca algo no gênero. Não conhecemos o mundo 
como ele é, mas apenas como parece ser. Não podemos conhecer o mundo real 


1 Refere-se a “Mind and Matter”, jogo de palavras intraduzível em português. (N. do E.) 


110 SKINNER 


porque ele está fora de nossos corpos, a maior parte dele a distância. Conhecemos 
apenas cópias dele dentro de nossos corpos. Conhecemo-las no sentido de estar- 
mos em contacto com elas, de estarmos informados ! a respeito delas. Compreen- 
demo-las ou apreendemo-las, como apreendemos um criminoso. Conhecemo-las 
quase no sentido bíblico de possuí-las sexualmente. (Polanyi? recentemente defen- 
deu a idéia de uma intimidade comparável fora do corpo. O conhecedor invade o 
conhecido ao invés do contrário: “podemos considerar o ato de compreender 
como um todo, como uma interiorização de suas partes, por virtude da qual che- 
gamos a habitar essas partes; esta habitação sendo logicamente semelhante à 
maneira como moramos no nosso corpo”. É certamente “lógico”, pois que tem 
tradicionalmente sido argumentado que o homúnculo pode deixar o corpo e inva- 
dir outras partes do universo.) 

A cópia nos vem do mundo externo. Pode ser interceptada ao fecharmos os 
olhos, mas por um ato mental especial pode ser restabelecida ou recordada 
enquanto nossos olhos ainda estiverem fechados ou abertos sobre uma parte dis- 
tinta do mundo. O restabelecimento é possível muito depois da cópia ter sido feita, 
se bem que a exatidão deteriora. Por este motivo, mesmo cópias no ato não são 
verdadeiras para a vida. Quando o mundo da experiência estiver relacionado com 
o mundo real de uma maneira bastante ordenada (Fechner pensou que a relação 
era logarítmica), diz-se ser composto de sensações. Quando a discrepância for 
maior (uma linha reta parece curva, um ponto fixo parece se mover), diz-se ser 
composto de percepções ou ilusões. Quando absolutamente não houver relação, 
diz-se ser composto de fantasias, sonhos, ilusões e alucinações. 

As demonstrações de Ames são exemplos particularmente dramáticos das 
discrepâncias entre o mundo como ele realmente é e como parece ser. Eles tornam 
claro que a experiência pode triunfar sobre a realidade. Mas de que modo conhe- 
cemos o mundo como ele realmente é? Numa das demonstrações de Ames, o 
observador olha para um quarto através de uma janela e o vê como um quarto 
normal retangular e então olha através de uma janela ao lado e o vê como trape- 
zóide. Mas certamente uma janela não revelou o quarto como ele parecia ser, e a 
outra, como ele realmente era. Ambas as janelas mostram-no apenas como parece 
ser. O fato de o quarto ser “realmente” trapezóide é uma inferência, semelhante às 
inferências científicas que levam à proposição de que os materiais de que o quarto 
é composto são principalmente espaço vazio. As inferências nunca nos afastam da 
natureza experiencial dos dados originais, conforme Polanyi e Bridgman insisti- 
ram recentemente, seguindo a pista do bispo Berkeley (vide capítulo 6). Se aceitar- 
mos a posição grega de que podemos conhecer apenas nossas sensações e percep- 
ções, há apenas um mundo e este é o mundo da mente. 

É um pouco simples demais parafrasear a alternativa comportamental, 
dizendo que há de fato um mundo e este é o mundo da matéria, porque a palavra 


1 A palavra informado (acquainted), em ingiês, vem da mesma raiz que cognição. (N. do T.) 

? Michael Polanyi, “Science and man in the universe”. Em Science as a Cultural Force de Harry Woolf, Bal- 
timore, John Hopkins Press, 1964. Citado por C. G. Anstutz, Main Currents in Modern Thought, 24, 8 4, 
1968. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO HI 


“matéria” não é mais útil. Qualquer que seja o material de que o mundo seja feito, 
ele contém organismos (dos quais somos um exemplo) que respondem a outras 
partes dele e portanto ''conhecem”-no num sentido não distante do “contato”. 
Onde os dualistas têm que justificar discrepâncias entre o mundo real e o mundo 
da experiência, e os idealistas Berkeleyanos entre experiências diferentes, os 
comportamentalistas investigam discrepâncias entre respostas distintas. 

Não faz parte de tal investigação tentar traçar o mundo real no organismo e 
vê-lo se tornar uma cópia. Um artigo recente sobre Visão e Tato? começa como 
se segue: 


“Uma percepção visual não é simplesmente uma cópia da imagem na retina. 
A imagem tem duas dimensões, e o objeto percebido, três. A imagem está de cabe- 
ça para baixo, mas o objeto é visto de cabeça para cima. Uma imagem de um 
dado tamanho pode ser projetada sobre a retina quer de um pequeno objeto por 
perto, quer de um objeto grande a distância, e ainda se percebe o tamanho real do 
objeto bastante acuradamente. A imagem é recebida por milhões de células sepa- 


radas sensíveis à luz na retina, mas vemos um objeto unificado com uma forma 
definida.” 


Os autores assumem portanto três coisas: (1) um objeto, (2) uma imagem 
ótica sobre a retina (e outras transformações desta imagem no sistema nervoso), 
e (3) uma “percepção visual”. Os dois primeiros são físicos, o terceiro, presumi- 
velmente outra coisa. Preocupam-se com as discrepâncias: a imagem na retina 
não é uma boa cópia do objeto. Do presente ponto de vista, o objeto é o que é real- 
mente visto. Não está dentro do perceptor e portanto não pode ser intimamente 
abraçado, mas é que o perceptor percebe. Justificamos seu comportamento em ter- 
mos do objeto visto, mais uma possivelmente longa história de exposição a obje- 
tos semelhantes. É apenas a crença curiosa de que há uma cópia dentro do corpo 
que leva os psicólogos a se preocuparem com supostas transformações. 

A sequência de eventos físicos e fisiológicos que estão envolvidos quando um 
organismo percebe um objeto é, claro, um assunto legitimo para estudo. O pri- 
meiro estágio, entre o objeto e a superfície do perceptor, é parte da física. A segun- 
da, a ótica do olho, é a física de uma estrutura anatômica. A terceira é psicoló- 
gica. Tem sido quase irremediavelmente deturpada em teorias dualistas, que 
levaram os fisiólogos à busca de estruturas internas, visíveis. O sistema nervoso 
não está envolvido em fazer cópias dos estimulos; desempenha, entretanto, um 
papel importante ao reagir a eles de outras formas. 

Um curioso efeito colateral do dualismo é a crença de que os fenômenos 
apontados como mostrando percepção extra-sensorial são parapsicológicos ao 
invés de parafísicos. Suponha que ensinemos um pombo a combinar as cartas 
Rhine. As cinco cartas aparecem numa fila de janelas transparentes dentre as 
quais o pombo pode bicar qualquer uma. Acima da fila há uma carta de amostra 


3 Irwin Rock e Charles S. Harris, “Vision and touch”, Scientific American, 216, 1967,8 5, pp. 96-104. 


[12 SKINNER 


que pode ser qualquer uma das cinco cartas escolhida ao acaso. O pombo é refor- 
çado por bicar a carta que parear * com a amostra. Tanto o pombo quanto o 
experimentador que dispõe as contingências têm acesso sensorial normal a todas 
as cartas, e o pombo bastante rapidamente começa a parear os padrões com 
sucesso. Suponha, agora, que a carta de amostra seja fechada numa caixa onde 
pode ser vista pelo experimentador mas não pelo pombo, e suponhamos que o 
pombo ainda pareie as cartas, pelo menos melhor do que se fosse ao acaso. Do 
ponto de vista de uma ciência do comportamento, o pombo ainda está respon- 
dendo apropriadamente sob contingências de reforço físicas inespecificadas. O 
experimentador realmente não acompanhou a segiência dos eventos físicos, 
levando da carta exposta ao olho do pombo, e, como psicólogo, não tem razões 
para investigar a seglência a partir da carta oculta. Os físicos, entretanto, fica- 
riam grandemente perturbados. É só porque o psicólogo acreditou que o pombo 
deveria adjurar uma cópia da carta exposta em sua mente que ele chama o fenó- 
meno de parapsicológico. 


O mundo visual dominou o campo da percepção. Seria dificil “visualizar” 
um estímulo auditivo e não temos termo comparável para a feitura de cópia 
auditiva. 

Gostos e cheiros seriam particularmente difíceis de copiar, mas podem ser 
considerados como estímulos de contato e portanto suscetíveis de serem conheci- 
dos sem cópias. O toque é o modo óbvio através do qual conhecemos, no sentido 
de estabelecer contato com. Somos íntimos com as coisas que tocamos e não pre- 
cisamos copiá-las. Vista de fora, a pele é parte do mundo físico; vista de dentro, 
é parte do mundo da experiência. Mas, ai! mesmo aqui a cópia tem defeito. O sen- 
tido do toque deveria mostrar uma correspondência isomórfica aguda entre as coi- 
sas como elas são e como parecem ser, mas a “retina” da pele deve formar uma 
imagem ainda mais insatisfatória do que a do olho. “Olhamos” um ponto tocado 
através da rede sobreposta dos nervos. O limiar de dois pontos foi um dos primei- 
ros sinais da dificuldade. 


A psicologia das sensações, começando com o Empirismo Inglês, como o es- 
tudo de como podemos conhecer o mundo real, no devido tempo tornou-se a fiísio- 
logia dos órgãos terminais. Mas a operação de órgãos terminais não podia expli- 
car todos os fatos da experiência; dai uma psicologia da percepção. Quando o 
sistema nervoso era invocado, a percepção deslocava-se para a fisiologia cerebral. 
(Kôhler, por exemplo, explicou os fatos da percepção visual com os campos cere- 
brais de gestalt.) Mas o problema neurológico é mal entendido, como veremos no 
capítulo 9, como a busca de cópias internas. 

Os problemas da percepção têm a ver com o controle de estímulo do 
comportamento. Estímulos distintos às vezes parecem ter o mesmo efeito, e o 
mesmo estimulo às vezes parece ter efeitos distintos. Podemos explicar isto, não 
traçando o mundo real dentro do organismo e vendo como é alterado, mas sim, ao 


* Parear: um termo técnico que significa formar um par constituido por dois estímulos idênticos, sendo o 
primeiro dado. (N. do T.) É 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 113 


analisarmos as contingências de reforço. Não é realmente muito difícil explicar o 
fato de que os organismos reagem de maneiras distintas em momentos distintos. 
As olhadas através das duas janelas no quarto trapezóide não são interessantes 
por serem discrepâncias em resposta ao “que deve ser o mesmo objeto físico”, 
mas porque uma longa história de reforçamento com respeito a quartos retangu- 
lares — o tipo de coisa que ocorre neles e sua aparência de aspectos distintos — 
gerou respostas surpreendentemente diferentes. O efeito curioso do trapezóide 
rotativo não é qualquer capricho da cópia interna de um estímulo no campo cere- 
bral, mas o produto de uma longa história de reforçamento referente a retângulos 
vistos de aspectos distintos. Os “constructos” da ciência diferem da “experiência 
imediata” de muitas formas (faltando, por exemplo, o calor, cor, e intimidade de 
experiência direta) porque são produtos de contingências de reforço particular- 
mente complexas, possivelmente envolvendo longas sequências de respostas. 


Nota 8.5 — O comportamento de ver 


O editor de um manual de psicologia fez objeções ao uso por um dos autores 
do termo “discriminar” como sinônimo de “ver”. Reclamava que Ele discrimina 
um gato na cerca de trás não era idiomático. Mas o Etyimological Dictionary of 
the English Language de Skeat define discriminar como discernir ou distinguir, 
ambos os quais teriam sido aceitáveis. Ele distingue ou discerne um gato na cerca 
de trás é idiomático. Há um uso coloquial de sacar que é próximo de: dá para 
você sacar? Você pode sacar o que é? Sacar, sozinho, é suficiente em Sacou? 
Todos estes são sinônimos de ver como um tipo de comportamento diferencial- 
mente reforçado com respeito a um estímulo. 

O comportamento não deve ser confundido com respostas precorrentes que 
possibilitem ver ou ver melhor. Olhar uma foto é diferente de vê-la. Pode-se olhar 
sem ver € ouvir sem escutar, ou pelo menos antes de ver e escutar. O comporta- 
mento precorrente é óbvio quando olhamos em direção a uma foto ou escutamos 
com a mão formando uma concha acústica, mas há presumivelmente comporta- 
mentos comparáveis de menor magnitude. São reforçados indiretamente pelo que 
é visto ou ouvido. São muito mais facilmente identificados e descritos do que o ver 
ou ouvir. 

O verbo “discriminar” tem uma vantagem sobre ver, discernir ou descobrir, 
porque nos lembra as contingências apropriadas. A dificuldade é que as contin- 
gências acentuam o estímulo controlador mas não exigem uma forma específica 
de resposta ou um reforço específico. Ao estudar a discriminação, o estímulo é 
cuidadosamente manipulado, mas a resposta e o reforço podem ser bastante arbi- 
trários. A pergunta “vê isto?” não especifica a topografia do comportamento, se 
bem que detalhes posteriores sejam especificados em ordens tais como “Diga-me 
o que é isto” ou “Aponte-o”. A expressão “vendo algo” refere-se a uma grande 
amplitude de comportamentos gerados por uma grande amplitude de contin- 
gências tendo em comum um estímulo particular. Talvez seja isso tudo quanto 
relatamos, quando relatamos que vemos algo. O relato é grosseiramente equiva- 
lente à afirmação: “especifique o resto das contingências e se eu então não respon- 
der. não será por nenhum defeito no estimulo”. 


114 SK INNER 


Entre ver uma coisa que ali está agora e lembrar-se dela quando não mais 
estiver, há um importante campo médio em que a coisa não está. O apreciador de 
cães é automaticamente reforçado quando vê cães.! O comportamento de ver cães 
é portanto forte. É mais facilmente evocado por cães reais, mas está também ao 
alcance de uma série de estímulos de verossimilhança decrescente: modelos de 
cera de museus, pinturas de dimensões naturais ou fotografias coloridas, escultu- 
ras não pintadas, pintura em preto e branco ou fotografias, e esboço a lápis. O que 
é visto pode ser simplesmente o estímulo, mas é provável que seja mais do que 
realmente há lá. É certamente verdade quando alguém vê um cão num borrão de 
tinta ou numa nuvem. O passo final é ver um cão, em não havendo nenhum esti- 
mulo relevante — sonhar de dia com cães antes de lembrar-se deles. O verdadeiro 
amante se distingue pelo fato de não necessitar de estímulos para ver seu amado. 
É possível que as religiões tenham proscrito a idolatria por esta razão. O uso de 
um ídolo para ver deus é sinal de fraqueza. Pinturas seculares ou estátuas podem 
ser proscritas pela mesma razão: “Este olhar as coisas para pensar numa pessoa 
é a própria base da idolatria”, disse George Borrow,? falando de estátuas de 
Shakespeare assim como de Moisês e de imagens de sepulturas. 

Quando falamos em ver, falamos de uma parte comum a muitas respostas. 
Em qualquer caso específico as contingências respeitam a topografia da resposta 
e o reforço contingente tanto ao estímulo quanto à resposta. Se estivermos interes- 
sados em controle de estimulo, podemos adotar respostas e reforços arbitrários 
(como se faz com psicofísica, por exemplo) ou lidar com características de 
comportamento comuns a muitos casos nos quais as respostas e reforços variam. 
As estações intermediárias de sensação ou percepção parecem seccionar a 
sequência causal no ponto no qual um estímulo agiu mas a resposta ainda não foi 
emitida. Os perigos de tal formulação já foram notados. 

Mesmo se houvesse cópias privadas do mundo externo, ainda teriamos que 
responder à pergunta “o que é ver?” Ponha a cópia vista onde você quiser — na 
superfície do organismo, nas profundidades do sistema nervoso, ou na mente — 
e você ainda terá que explicar o que ocorre quando ela é vista. O comportamen- 
talista não necessita apoiar a noção de experiência como forma de contato ou 
posse e pode portanto deixar o ambiente onde está. O organismo como um todo 
fica então disponível para analisar o comportamento de ver. 


Nota 8.6 — Estações intermediárias 


Ao retraçar o comportamento através de uma seguência causal, Freud parou 
nas estações intermediárias de seu aparato mental que representava experiências 
precoces. A evidência da experiência era raramente verificada independentemente. 
Argumentava-se que O que o paciente lembrava era mais importante do que o que 
realmente aconteceu, se é que qualquer coisa tinha realmente acontecido. Precur- 


1 


B. F. Skinner, Science and Human Behavior, Nova York, The MacMillan Company, 1953, p. 271. 
? George Borrow, The Romany Rye, Londres, John Murrey, 1857. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 115 


sores mentais foram assim inferidos de algumas partes do comportamento do 
paciente, e utilizados para explicar outras partes. Faz-se algo semelhante quando 
o comportamento exibido, ao fazer um teste mental, é dito explicar o comporta- 
mento exibido em outro lugar. 

A sequência causal é às vezes transeccionada ao nível do conhecimento. 
Assim como a percepção, o conhecimento pode funcionar como o produto final 
da estimulação ou como o início da ação. O comportamento verbal que descreve 
a realidade (que tem a forma de “tato” definida em ! ) tem papel similar. Uma res- 
posta de uma dada topografia é reforçada pela comunidade verbal, quando “cor- 
responde” a um estímulo de maneiras convencionais. A importância do controle 
de estímulo traz o tato muito próximo da noção clássica de percepção passiva ou 
conhecimento contemplativo. É um dos grandes feitos da comunidade verbal que 
gera comportamento verbal desta forma. Assim faz porque a relação próxima 
entre a topografia do comportamento e o estímulo tocado é-lhe útil. Um tato é, 
num sentido, um posto intermediário entre o estímulo que afeta o orador e a ação 
tomada pelo ouvinte. Tem a posição independente reivindicada para o conheci- 
mento meramente contemplativo, e pode ter sugerido a possibilidade de conheci- 
mento privado que tem a mesma função. Contingências não-verbais não geram 
conhecimento objetivo no mesmo sentido. 

Frequentemente se argumenta que a ciência preocupa-se não apenas com 
predição e controle mas com a compreensão ou mesmo com a simples contempla- 
ção, porém o conhecimento científico não é uma percepção elaborada do mundo 
externo na mente do cientista mas, antes, o que os cientistas fazem a respeito do 
mundo. Quando eles constroem regras (incluindo leis, teorias, modelos, mapas), 
as regras são às vezes consideradas como formas melhoradas, estáveis e manipu- 
láveis de conhecimento. As regras parecem substituir imagens na mente do cien- 
tista e estão portanto próximas do entendimento simples ou contemplação, mas 
não são encontráveis na mente de ninguém. 


Nota 8.7 — Sensações 


Usamos “sentir” para denotar o apreender passivo dos estímulos que alcan- 
çam o corpo a distância. Sentimos objetos com os quais estamos em contato, 
como vemos objetos a distância. Cada modo de estimulação tem seus próprios ór- 
gãos dos sentidos. Usamos “sentir” num sentido mais ativo, para denotar O 
comportamento precorrente que intensifica ou clarifica estímulos. Tateamos uma 
superfície para descobrir a sua textura, assim como olhamos para algo para des- 
cobrir com que se parece, ou ouvimos algo para descobrir como soa. Entretanto, 
não sentimos estados ou eventos que estejam no fundo de nosso corpo — como 
dores, mágoas, movimento, ou posturas — no sentido ativo. Parece não haver 
comportamento comparável a correr a mão sobre uma superfície que esclareça 


tais estímulos. 
As coisas com as quais estamos em contato não colocam o problema de 


* B. FF. Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 


116 SKINNER 


conhecimento das coisas à distância. Conhecemo-las sem construir cópias. A sen- 
sação passiva de vidro molhado não é o vidro molhado, nem é uma cópia de vidro 
molhado no sentido em que uma sensação visual ou percepção é dita ser cópia da 
coisa vista. A dor de dente sentida não é simplesmente o nervo inflamado. mas 
tampouco é uma cópia da inflamação. Possivelmente porque não parecemos cons- 
truir cópias de coisas sentidas, não se argumenta que relembremos sensações evo- 
cando cópias antigas. Num sentido, uma sensação parece ser tanto a coisa sentida 
quanto o ato de senti-la. As coisas com as quais uma pessoa está em contato na 
superfície de seu corpo são estímulos públicos, acessíveis à comunidade verbal, e 
a comunidade pode portanto ensinar palavras tais como suave, áspero, oleoso ou 
pegajoso sem dificuldade. Mas as coisas dentro do corpo não são prontamente 
acessíveis, e as respostas verbais, descrevendo-as, são provavelmente imprecisas e 
não fidedignas. 

Entre as coisas dentro do corpo que são sentidas, estão os estímulos proprio- 
ceptivos e interoceptivos. Sentimos dores de gases, músculos fracos, tontura, 
contrações de fome, bexiga cheia. Também sentimos o comportamento, incluindo 
comportamento muito fraco e condições que precedem ou são associadas ao 
comportar-se. Respostas autonômicas reflexas a estímulos condicionados estão 
entre as emoções sentidas — por exemplo, “a ansiedade” evocada por um esti- 
mulo pré-aversivo. “Sentir vontade de vomitar” é sentir estímulos que ou tenham 
precedido ou acompanhado vômitos, ou sentir respostas reais de pequena escala. 
Também sentimos o comportamento operante a um nível comparável. Quando 
dizemos “estou a fim de ir-me”, podemos estar reportando respostas incipientes de 
ir-se ou condições que precedem ou acompanharam o ir-se. Quando dizemos “não 
estou a fim de jogar xadrez” em resposta a uma sugestão, podemos estar relatando 
a ausência de qualquer comportamento em resposta à sugestão ou condições que 
normalmente acompanham o jogar xadrez. 

Muitos adjetivos descrevendo “estados” de comportamento presumivelmente 
se referem a combinações de tais estímulos. “Sinto fome” é presumivelmente um 
relato de estimulação interoceptiva tal como contrações de fome, ou respostas 
operantes de pequena escala que tenham sido reforçadas por comida, ou possivel- 
mente outras condições associadas com a probabilidade de conseguir comida ou 
comer. “Sinto raiva” pode se referir tanto ao comportamento reflexo quanto ope- 
rante característico da emoção da raiva. Quando um reforço característico não 
tem sido próximo, podemos relatar “sinto-me desencorajado” e assim descrever 
uma baixa probabilidade de resposta e alguns dos efeitos emocionais do 
não-reforçamento. 

O argumento tradicional é que quando um homem fica sem comer, ele pri- 
meiro tem fome, e essa sensação de fome então coloca-se de prontidão para 
comer. Observamos simplesmente que a probabilidade de que ele coma aumenta 
como função da extensão do tempo sem comida. Ele poderá sentir certas condi- 
ções corporais associadas quer à probabilidade de comer, quer à escassez de 
comida, e poderá se referir a elas quando nos disser que se sente faminto, já que 
a comunidade verbal ensinou-o a fazê-lo. Estados internos são os “referentes” de 
sua descrição de suas sensações, e, como tais, estão entre as variáveis indepen- 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 117 


dentes que controlam seu comportamento verbal. O que ele sente é certamente 
relevante para uma sequência causal, mas não se segue que o ato de sentir seja 
parte essencial desta sequência. Segundo Butterfield, ' Aristóteles sustentou que os 
corpos caindo aceleravam porque ficavam mais jubilosos à medida que se viam 
mais perto de casa, assim como um cavalo acelera ao se aproximar de casa na 
volta de uma jornada. Não mais tomamos a sério as sensações de um corpo cain- 
do. Por que o fazemos com relação ao cavalo? É verdade que uma pessoa que 
ficou sem comida por algum tempo não só comerá como sente fome. Uma pessoa 
que foi atacada não só responde agressivamente mas sente raiva. Uma pessoa que 
não é mais reforçada, quando responde de uma determinada forma, não só res- 
ponde menos prontamente mas sente-se desencorajada ou frustrada. Pode-se mos- 
trar uma relação ainda mais próxima: quanto mais tempo tiver passado sem comi- 
da, mais faminto se sentirá e mais vorazmente comerá; quanto mais violentamente 
for atacado, mais raiva sentirá e mais agressivamente irá responder; quanto mais 
tempo tiver ficado sem reforço, mais desencorajado ou frustrado se sente e menos 
passível de resposta. Mas as sensações são no máximo acompanhamentos do 
comportamento, não causas. 

Às vezes comemos porque estamos famintos e às vezes para evitar ferir os 
sentimentos do cozinheiro. Podemos comer da mesma forma nos dois casos, mas 
podemos “sentir” diferentemente. Argumenta-se às vezes que devemos mencionar 
as sensações para darmos uma descrição adequada do comportamento, mas o que 
devemos mencionar são as variáveis controladoras — que também justificam as 
sensações. Faz-se geralmente uma distinção entre o matar animais para comer e 
matar um rival ou predador. Pode bem haver diferença nas sensações, mas nova- 
mente a diferença principal está nas variáveis controladoras, que justificam tanto 
o comportamento como as condições corporais sentidas. 

Blanshard? argumentou contra a posição comportamentalista com base em 
que se segue “estrita e literalmente” que “o ódio de Hitler pelos Judeus não contri- 
buiu em nada quanto às suas ordens de exterminá-los” ou que as idéias de Newton 
sobre a gravitação jamais afetaram “no menor grau, o que ele disse ou documen- 
tou”. A implicação é que essas afirmações são absurdas. Mas serão mesmo? Infe- 
rimos o ódio de Hitler a partir de uma longa série de atos verbais e físicos. O pró- 
prio Hitler sem dúvida tinha outras informações, pois deve ter-se sentido odiado 
na forma de atos encobertos do mesmo tipo, assim como de respostas fortes de 
seu sistema nervoso autônomo. Mas nenhuma parte deste complexo foi a causa de 
qualquer outra parte — a não ser, de fato, segundo o famoso ditado de James, que 
pudéssemos dizer que parte da ação causou os sentimentos. Uma visão mais sim- 
ples é a de que tanto a perseguição pública dos judeus como as respostas emocio- 
nais privadas eram resultado da história ambiental de Hitler. É demasiado tarde 
para descobrir o bastante desta história para apresentar um caso convincente (so- 
mente os historiadores € os psicanalistas tentam explicar o comportamento indivi- 
dual sobre tais testemunhos), mas é importante não ignorar sua relevância prová- 


* H. Butterfield, The Origins of Modern Science, Colher Books ed., 1962. 
2 Brand Blanshard e B. F. Skinner, “The problem of consciousness — a debate”, Philosophy and Phenome- 
nological Research, 27. 1967. pp. 317-337. 


1I8 SK INNER 


vel. Se quisermos fazer qualquer coisa quanto a genocídio, é para o ambiente que 
devemos nos voltar. Não podemos fazer os homens parar de se matar uns aos ou- 
tros mudando seus sentimentos; devemos mudar o ambiente. Em assim fazendo, 
bem poderemos reduzir as “tensões mentais” que acompanham, e são erronea- 
mente ditas fomentar atos bélicos. 

O mesmo se aplica a Newton. Inferimos as idéias de Newton a partir das coi- 
sas que disse e escreveu. O próprio Newton sabia coisas que quase disse ou escre- 
veu, assim como coisas que disse ou escreveu e revogou, mas as idéias que ele não 
chegou a expressar não eram a causa das idéias que expressou. Respostas enco- 
bertas não são a causa das manifestas, ambas são produtos de variáveis comuns. 
É importante lembrar-se disso quando tentamos induzir os jovens a terem idéias. 
Por mais de duzentos anos, professores têm tentado estimular as mentes, exercitar 
poderes racionais, e implantar ou ridicularizar idéias, e têm muito pouco para 
mostrar como resultado. Programa muito mais promissor é construir um 
ambiente educacional, verbal e não-verbal, no qual certos tipos de coisas, algumas 
das quais originais, sejam ditas e escritas. 

Terá Shakespeare realmente representado Otelo como movido para a ação 
por sentimentos de ciúme? Deveríiamos nos queixar justamente de que ele não 
motivou seu caráter se assim fez. Ele pinta um retrato detalhado do comporta- 
mento ciumento terminando na sufocação da inocente Desdêmona. A maior parte 
deste comportamento, como convém a uma peça, é verbal, Otelo conta-nos suas 
ações passadas, presentes e futuras (estas últimas, como suas “intenções”) e suas 
respostas emocionais, tanto públicas como privadas. Estas são todas partes de seu 
comportamento ciumento e nenhuma parte é causa de outra. Se tivesse tido 
tempo, poderia ter descrito a ferida que se infligiu com sua adaga, mas ele sentiu 
que a dor não teria sido mais responsável por sua morte do que seus sentimentos 
de ciúmes eram responsáveis por seus atos de ciúmes. 

Podemos também perguntar se as sensações são ou não causas com respeito 
às variáveis externas. Será a massagem reforçadora porque a sensação é gostosa? 
Será uma criança reforçada quando está girando porque sente tontura? Tomar 
heroína será reforçador pela sensação de euforia? Será um choque aversivo por- 
que dá uma sensação desagradável? Coçamos um comichão para nos sentir 
melhor? Certamente um reforçador — positivo ou negativo — deve ser sentido na 
maneira simples com que uma foto deve ser vista ou uma música ouvida, se for 
para agir como reforço. Intensificamos o efeito através da sensação ativa, quando 
ouvimos música ou olhamos fotografias, mas é ainda possível distinguir o ser 
reforçado pela sensação ativa ou passiva do reforçador. 

Frequentemente perguntamos a uma pessoa como ela se sente, e fazemo-lo 
para obter informação útil. Sua resposta a “você está zangado comigo?” pode nos 
auxiliar a resolver um problema pessoal. Sua resposta a “você está a fim de ir ao 
cinema?” pode afetar nossa decisão de convidá-lo a ir. Ao nos dizer seus senti- 
mentos, ele relata informações úteis para nós mas até agora disponíveis apenas 


3 B. F. Skinner, Technology of Teaching, Nova York, Appleton-Century-Crofis, 1968. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 119 


para ele. Todavia, não são suas sensações que são importantes mas as condições 
que ele sente. Nos primeiros dias das pesquisas sobre LSD, argumentava-se seria- 
mente que todos os psiquiatras deviam tomar a droga para experimentar a sensa- 
ção de ser psicótico. Não pedimos ao dentista que provoque sua própria dor de 
dente, entretanto, nem escolhemos um cardiologista somente entre os que sofrem 
distúrbios cardíacos. Reconhecemos que o que deve ser tratado é a condição senti- 
da e não a sensação. A visão tradicional de que as sensações são causas torna difi- 
cil tomar o mesmo ponto de vista de um psiquiatra. O psiquiatra é frequentemente 
considerado como engajado em mudar sensações. Seu objetivo é fazer um 
paciente adulto sentir-se menos ansioso, ou uma criança sentir-se segura. Mesmo 
assim, ele muda o que é sentido. 

Diz-se que os jovens se metem em encrencas quando não se “sentem queri- 
dos”, mas não é a falta de uma sensação, mas a ausência de contingências que as 
gerariam que causa problema. Pessoas que nos “querem” são pessoas sobre as 
quais temos certos tipos de efeitos. Desenvolvemos um repertório extenso de 
comportamento apropriado com relação a elas. O repertório esmorece se romper- 
mos o contato. A pessoa indesejada não tem oportunidade de adquirir tal repertó- 
rio, e poderá afetar as pessoas apenas de outras maneiras. Poderá recorrer a extre- 
mos, possivelmente medidas violentas, para “chegar até” às pessoas que “não o 
querem”. 

Podemos mudar seu comportamento reforçando-o de diversas maneiras, 
assegurando-nos de que ele obtém uma resposta com significados aceitáveis. Ao 
fazer isso, fazemo-lo “sentir-se querido”, mas este é um resultado colateral. 

O psiquiatra não ignorará o paciente, é claro, quando ele disser que tem von- 
tade de se matar ou, depois de tomar amido de sódio, disser que se sente sonolen- 
to. Não se segue que ele se matará porque se sente suicida ou irá dormir porque 
sente sono. Nem se segue que o terapeuta reduzirá a probabilidade de suicídio ou 
sono através de medidas que ajam diretamente sobre os sentimentos. Após a tera- 
pia ou cafeína, o paciente não mais poderá dizer que se sente suicida ou sonolento, 
porque ocorreu uma mudança no que é sentido. 


Os sentimentos dos outros. Não admitimos que os sentimentos são reais 
quando damos importância aos sentimentos dos outros? Evitamos magoar as pes- 
soas porque não queremos que elas sofram como sofreríamos ao sermos tratados 
de maneira similar. Gostamos de fazer as pessoas se “sentirem bem”, e comparti- 
lhamos de seu prazer. Neste ato de mostrar simpatia e compaixão, exibimos uma 
das características mais admiráveis de nossa natureza e cultura. Mas aqui nova- 
mente o que fazemos ou evitamos fazer refere-se aos estímulos sentidos. Evitamos 
estimular os outros aversivamente e somos reforçados quando os reforçamos. Não 
precisamos pressupor que existam maneiras de sentir seus sentimentos, ou, alterar 
diretamente seus sentimentos. 

Mas por que alterariamos as condições que são sentidas nos outros? E por 
que isto envolve nossos sentimentos? De que maneira somos reforçados em troca, 
quando reforçamos os outros? Algumas respostas podem parecer cínicas. Pode 


120 SKINNER 


ser que alimentemos o faminto não por compaixão, o que quer que isto signifique, 
mas porque mostram sua gratidão reforçando-nos positivamente ou 
deixando de agir de maneira aversiva. Independentemente dessas razões serem ou 
não admiráveis, pode-se argumentar que não são poderosas; mas a resposta a isto 
é que poucas pessoas mostram de fato simpatia ou compaixão. Muito poucas pe- 
soas fazem bem aos outros ou evitam ser cruéis. Muitas culturas primitivas, e cul- 
turas correntes que não adotaram esta linha, parecem demonstrar que a crueldade 
e indiferença estão na “natureza humana”. A psicanálise clama ter descoberto isto 
nas profundidades da mente humana. As respostas a um parceiro sexual foram 
provavelmente importantes apenas para uma pequena percentagem de pessoas. O 
coração mole é atípico. Os sentimentos dos animais são geralmente tomados em 
consideração muito tarde no desenvolvimento de uma cultura; a maioria das pes- 
soas evita machucar apenas os animais que podem machucá-las. 

Todavia, em algumas culturas, é comum as pessoas se regozijarem do prazer 
dos outros e sofrer quando os outros sofrem. Para entender isto, devemos observar 
as técnicas com as quais a cultura estabelece este tipo de comportamento compas- 
sivo. Os homens são punidos não só por aqueles que punem mas pela sociedade 
em geral, em sua preocupação pela redução geral dos estímulos aversivos. À retri- 
buição pessoal devemos acrescentar contingências proporcionadas pelo grupo, 
similares às contingências que sustentam as práticas éticas. O grupo também nos 
reforça quando reforçamos os outros; e estas conseguências, somadas às da grati- 
dão e retribuição, não só mantêm o comportamento compassivo mas geram algu- 
mas das condições que são sentidas, como compaixão. 

Isto não explicará o fato de que o que é sentido parece se assemelhar ao que 
é sentido pelos outros nas mesmas circunstâncias, mas uma técnica cultural adi- 
cional fornece mais informações. A cultura pode punir o comportamento flagran- 
temente agressivo e recompensar o flagrantemente reforçador, possivelmente em 
termos só de topografia; mas casos mais sutis chamam a atenção para variáveis 
independentes. À medida que uma cultura se desenvolve, torna-se cada vez mais 
difícil especificar o bem feito e o mal feito provocando contingências éticas. Uma 
solução útil ao problema é formulada como a Regra de Ouro. Se um homem deve 
evitar magoar os outros, poderá aprender que o que ele faz magoa, aplicando a 
Regra de Ouro em sua forma negativa. Deverá examinar o resultado sobre si 
mesmo; não deverá fazer aos outros o que seria adverso se os outros lhe fizessem. 

É talvez significativo que a forma negativa tenha surgido antes, mas a posi- 
tiva é logo alcançada. Um homem que se comporta de maneiras que reforçam os 
outros é reforçado de volta pelo grupo tanto quanto pelos demais. Poderá desco- 
brir modos que terão estas conseqgliências ao se perguntar se será reforçado. As 
contingências éticas que mantêm o fazer o bem levam então a um exame de como 
nos sentiríamos se tratados como nos propomos a tratar outrem. Quando dizemos 
que numa dada cultura um homem deixa de magoar alguém porque “sabe como 
é sentir-se magoado”, estamos definindo uma classe de comportamentos suprimi- 
dos pela cultura. Quando dizemos que ele alimenta os famintos porque sabe 
“quão gostosa a comida parece quando se está faminto”, referimo-nos a uma clas- 
se de comportamentos aprovados. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 121 


William James colocou a questão perguntando se faríamos amor com uma 
pessoa insensível, e poderiamos perguntar se um sádico seria cruel para com tal 
pessoa. A resposta, na realidade, é “Sim”: os homens ocasionalmente fazem amor 
com pessoas sem sentimentos, como atacam objetos e pessoas da mesma forma. 
Mas quando os receptores se comportam de maneira a demonstrar sentimento, um 
reforço adicional acaba envolvido. O torturador restaura a vítima que desmaiou 
antes de prosseguir com sua tortura, e o colegial que está apanhando, priva o pro- 
fessor de parte de seu reforço, quando se recusa a demonstrar que está machuca- 
do. Se por fazer amor entendemos estimular uma pessoa de uma forma determi- 
nada, não deveriamos fazer amor com uma pessoa insensível mais do que 
deveríamos tocar música para um surdo ou mostrar lindas fotos a um cego — 
mesmo que, sendo entusiastas da música ou fotos, possamos estar conscientes de 
uma tendência generalizada a fazê-lo. 


Nota 8.8 —4 invasão da privacidade 


Algumas técnicas fisiológicas recentemente desenvolvidas parecem atestar a 
realidade de experiências privadas. Parecem fornecer evidência independente 
daquilo a respeito de que os psicólogos introspectivos têm falado. A experiência 
subjetiva tornou-se, por assim dizer, um fato objetivo. Mas a evidência é impor- 
tante por uma razão diferente. Se eventos até agora classificados como privados 
podem agora ser diretamente observados pela comunidade verbal, a comunidade 
pode dispor de contingências melhores ao ensinar seus membros a falarem a res- 
peito. Se um indicador independente do que é sentido como ansiedade, por exem- 
plo, estivesse disponível, poderíamos ensinar uma pessoa a relatar a sua presença 
ou ausência e a compará-lo com outras coisas sentidas. A nova evidência simples- 
mente aponta o fato de que o que é experienciado introspectivamente é uma condi- 
ção física do corpo, conforme sempre sustentou a teoria comportamental do 
conhecimento. 


Nota 8.9 -— Comportamento e desempenho 


Santayana, diz David Bakan, põe Watson na posição de um espectador 
numa peça. “Os processos psicológicos internos dos atores são, de fato, inexisten- 
tes”.! Mas que processos são existentes, tanto no ator como no espectador? 

Fantoches e marionetes são autômatos eficientes mesmo quando o especta- 
dor sabe que há um operador escondido. O ator é um fantoche e um operador 
numa só pele. Ele usa seu corpo para simular o comportamento de outra pessoa, 
movendo-o diretamente, ao invés de fazê-lo puxando barbantes. Assim faz isso de 
determinada forma porque, como o operador de marionetes, está sob o controle de 
contingências especiais de reforço que modelam e mantêm o seu comportamento. 
Seu discurso é comportamento intraverbal simples, dito em deixas, e seu tempo e 


! David Bakan, “Behaviorism and american urbanization”, J. History of Behav. Sciences, 2, 1966, pp. 
5-28. 


122 SKINNER 


expressão são controlados por contingências dispostas pelo diretor. Tudo isto é 
sabido do espectador experiente, que mesmo assim aprecia o espetáculo. 

Tendemos a esquecer quão mais admirável deve ter sido recitar passagens de 
memória. Os sacerdotes brâmanes, recitando um dos Vedas, devem ter parecido 
falar pelo autor, ou ser o autor. Ler em voz alta deve ter tido efeitos semelhantes. 
Mesmo que um texto fosse visível para o ouvinte, a leitura era ainda, em grande 
parte, um mistério; o leitor falava as mesmas palavras, como o escritor que trans- 
creveu as palavras que ele estava lendo. Não importava ao ouvinte que ele não 
estivesse proferindo sentenças sob o controle de variáveis mais importantes. Ouvi- 
mos um poeta recitar ou ler um poema de sua autoria mesmo que tenha deixado 
há muito de ser o homem que o escreveu e possa de fato estar meramente proferin- 
do-o como comportamento intraverbal, da mesma forma que ouvimos os que lêem 
os poemas dos outros. 

Não ficamos entretidos ou impressionados por marionetes, fantoches, atores, 
ou leitores, simplesmente por causa da topografia de seu comportamento. Dize- 
mos que o comportamento deve ter um sentido ou um significado, e queremos 
dizer que variáveis independentes devem estar operando em nosso comporta- 
mento. A criança gosta de ver Punch surrar Judy, quando algo que Judy tenha 
dito ou feito, a predispõe a fazer tal ação. Se as partes posteriores de um poema 
não forem até certo ponto controladas pelas partes anteriores, o poema não nos 
diz nada que estejamos inclinados a dizer, e paramos de ouvir ou ler. Não assisti- 
mos a representações teatrais de formas puramente abstratas comportando-se 
uma em relação à outra de maneira que nada se assemelhe à conduta humana, 
nem ouvimos por muito tempo discursos em língua desconhecida. 

A maioria das variáveis independentes, que nos induzem a ouvir e ver um lei- 
tor, ou mímico, ou ator, já desempenhavam uma parte em nossa própria história. 
Quando estas variáveis estão operando, o psicanalista fala de projeção e identifi- 
cação. Entendemos um poema até onde tendemos a dizê-lo com o poeta.? O 
comportamento simulado de um ator nos é interessante, quer porque nos tenha- 
mos comportado da mesma forma, ou porque estaríamos curiosos, ou surpresos, 
ou assustados, quando alguém se comporta desta forma, quando nós não o faria- 
mos. O ator em si não está além do alcance das variáveis deste gênero. Ele pode 
entrar em seu papel e responder a outros caracteres e cenários, por razões outras 
que as estabelecidas pelo dramaturgo ou diretor. 

Uma recitação, leitura, ou apresentação teatral simula o comportamento 
humano, o qual nós, como ouvintes, leitores, ou espectadores tendemos a imitar. 
Fornece variáveis independentes, dando-nos outras razões de nos comportarmos 
da mesma maneira, e é particularmente apreciável quando assim faz. (Nós mes- 
mos lemos livros em condições similares, é claro.) A topografia simulada sozinha 
não nos reforça quando vemos ou ouvimos. É portanto bastante incorreto dizer 
que Watson, ou qualquer outro cientista comportamental, considere “o funciona- 
mento humano como consideramos uma produção teatral”, se isto quer dizer que 


2 B.F. Skinner, Verbal Behavior, Nova York, Appleton-Century-Crofts, 1957. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 123 


apenas a topografia está em questão. É igualmente não verdadeiro se quisermos 
dizer que apenas as variáveis independentes operantes no ator ou espectador en- 
tram numa análise científica do comportamento. Como vimos, não é boa prática 
científica explicar o comportamento apelando para variáveis independentes que 
foram inferidas do comportamento assim explicado, se bem que isso seja comu- 
mente feito, particularmente pelos psicanalistas, teóricos cognitivistas e analistas 
de fatores. Nem é boa prática científica ler na topografia das respostas as variá- 
veis que podem ter incitado um comportamento similar de nossa parte. Isto tam- 
bém é característico de quase todos os ramos da psicologia exceto o 
comportamentalismo. 

A estimulação mecânica do comportamento coloca as mesmas questões 
numa forma mais clara, como veremos no próximo capítulo. Uma simulação 
incomumente realista foi conseguida numa feira mundial, quando as figuras eram 
controladas por um computador que tinha sido programado por dispositivos sen- 
soriais ligados aos corpos dos atores. (Os estruturalistas, a propósito, deveriam 
estar particularmente interessados nesta demonstração.) Suponha-se que uma fi- 
gura represente de forma convincente o “estar atemorizado””. A menos que esteja- 
mos alertas para a falácia formalística, poderíamos concluir facilmente que 
“medo” deverá ser achado em algum lugar do programa. Há uma boa analogia 
em linguística. Segundo algumas definições do campo, uma coleção de gravações 
deveria conter não apenas uma língua, mas tudo quanto for necessário para expli- 
cá-la. Uma gravação é, em si, bastante pouco significativa — exceto para os que 
falam a língua — assim como a figura simulada não parecerá assustada exceto 
para os que tenham visto comportamento similar (talvez neles mesmos) sob tipos 
especiais de circunstâncias. 

Santayana provavelmente quis dizer que Watson não estava considerando os 
sentimentos dos atores. Os atores diferem das pessoas reais nas variáveis que con- 
trolam seu comportamento, e, na extensão em que sentem o que fazem e por que 
o estão fazendo, têm sentimentos distintos. Um cientista comportamental presu- 
mivelmente “considera uma produção teatral” de uma forma que depende de sua 
análise do comportamento do ator. Quando analisa a vida real, chega a diferentes 
variáveis independentes. Ele então “considera o funcionamento humano” de uma 
maneira muito distinta do modo como considerou a produção teatral. 


Nota 8.104 geografia da mente 


Uma das coisas mais absurdas do mundo da mente é o espaço que ocupa. É 
um mundo interno e portanto observado por introspecção, mas olha-se para os 
próprios pensamentos com um órgão ainda não identificado. Os nervos proprio- 
ceptivos e interoceptivos respondem a estímulos privados, mas não parecem apro- 
priados aos eventos visuais, auditivos, gustativos, e outros tipos de eventos men- 
tais, nem tampouco parecem estar nos lugares certos. 

Alguns pensamentos são “superficiais”; saem do topo da cabeça. Outros 
estão na ponta da lingua. Uma idéia pode ficar no fundo de nossa mente mas ou- 


124 SKINNER É 


tras emergem na consciência, flutuando na superfície. William James observou 
idéias passando por sua cabeça num fluxo constante. Os pensamentos incons- 
cientes ficam fora da vista, mas podem chegar ao campo da visão, possivelmente 
à maneira de estimulação, quando alcança o nível consciente. Há efetores men- 
tais, assim como receptores, e eles operam no mesmo espaço. O psicólogo cogniti- 
vista move-se neste mundo mental e manipula as coisas nele. Ele revista seu depó- 
sito de memórias em busca de uma palavra ou rosto esquecidos, e compara-o a 
uma palavra ou rosto recém-recebidos do mundo exterior. Coloca as idéias de 
lado, por enquanto, ou dispensa-as de sua mente. Puxa algumas delas para baixo, 
no seu inconsciente, onde elas não mais o perturbarão. 

Um psicólogo mentalista deverá responder que a geografia da mente é mera- 
mente uma metáfora útil. Mas por que é útil? Quais são os fatos que precisam ser 
assim metaforicamente representados? O mundo da mente foi inventado na maior 
parte pelos gregos, para levar as pessoas próximas das coisas que vêem de manei- 
ra a poder conhecê-las. A teoria funcionou bastante bem ao explicar o conheci- 
mento humano do mundo exterior enquanto as cópias internas pudessem ser 
defendidas. Levou à ciência mental de Wundt a Titchner que exploraram os cami- 
nhos nos quais eram produzidas as cópias internas da realidade. Era a metodo- 
logia rigorosa da psicologia introspectiva que explorava os limites da utilidade de 
tais cópias. Os psicólogos gestaltistas e outros interessados na percepção ao invés 
de sensação, construíram sobre os fracassos da psicologia introspectiva — fracas- 
sos que estavam realmente em seu crédito desde que testemunharam do rigor dos 
métodos introspectivos. O fim da história é o longo reconhecimento já vencido de 
que o que é percebido é, afinal de contas, o mundo externo. 

Foi o uso do mundo da mente, para representar atividades que não eram có- 
pias do mundo externo, que colocou um problema especial. Os processos cogniti- 
vos e outros, que William James declarou observar, não eram cópias de atividades 
externas e portanto sua posição não podia ser explorada em termos de sua exati- 
dão de representação. Os processos comportamentais atualmente em questão 
encontram-se tão dentro do organismo quanto qualquer vida mental, mas apren- 
demos a falar deles de maneiras muito mais tortuosa do que aquelas com que 
aprendemos a falar sobre o ambiente estimulante. Não é surpreendente, entre- 
tanto, que a geografia da mente deva ser tomada de empréstimo da geografia do 
mundo ou que devêssemos dizer nos comportarmos mentalmente em alguma terra 
estranha. 


Nota 8.1 — O fim do comportamentalismo 


As obséquias de Sigmund Koch! mostram uma pressa indecorosa. O 
comportamentalismo, como conhecemos, eventualmente morrerá — não por ser 
um fracasso, mas porque é um sucesso. Como filosofia crítica da ciência, irá 
necessariamente mudar à medida que a ciência do comportamento mudar e as 
questões correntes que definem o comportamentalismo forem inteiramente resol- 


* Sigmund Koch, “Psychology and emerging conceptions of knowledge as unitary”. T. W. Wann (ed), em 
seu Behaviorism and Phenomenology, Univ. of Chicago Press, 1964. 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO 125 


vidas. A questão básica é a da utilidade dos conceitos mentalistas. Esforços têm 
sido feitos para responder a elas, de tempos em tempos, simplesmente por decreto: 
não estudaremos a natureza da alma, mas suas manifestações, não a essência da 
mente, mas as ações dos homens, como Juan Luis Vives? colocou há mais de 
quatrocentos anos, e como os comportamentalistas metodológicos e psicológicos 
operacionais colocam hoje. O comportamento é portanto definido como um 
campo que pode ser analisado com sucesso, separado do mundo da mente, mas a 
existência de um outro mundo é admitida, com ou sem a implicação do que pode- 
mos saber a respeito de alguma outra forma. 

O comportamentalismo radical nega a existência de um mundo mental, não 
porque seja contencioso ou ciumento de um rival, mas porque os que declaram 
estar estudando o outro mundo necessariamente falam do mundo do comporta- 
mento de uma maneira que conflitua com uma análise experimental. Nenhuma 
ciência da vida mental limita-se ao mundo da mente. Os mentalistas não ficam de 
seu lado da cerca, e, porque têm o peso de uma longa tradição por trás deles, são 
ouvidos por não-especialistas. 

Um comportamentalismo radical ataca as explicações dualistas do compor- 
tamento, em primeiro lugar, para classificar suas próprias práticas científicas, e 
deve fazer assim eventualmente para dar a sua contribuição aos assuntos huma- 
nos. À medida que aumenta o seu poder, tanto como ciência básica quanto como 
fonte de uma tecnologia, uma análise do comportamnto reduz o alcance 
das explicações dualistas e deveria eventualmente dispensá-las de vez. O compor- 
tamentalismo, como -ismo, terá então sido absorvido por uma ciência do compor- 
tamento. Há sempre lugar para uma lógica da ciência peculiar a tal ciência, mas 
não lidará com as questões que definem o comportamentalismo hoje. 

As formulações científicas não mudam a natureza das coisas formuladas, e 
uma ciência do comportamento nem ignora nem destrói o fenômeno associado à 
introspecção ou qualquer outra forma de auto-observação. Simplesmente as repre- 
senta de outras maneiras. J. D. Keehnº negou que o comportamentalismo esti- 
vesse morto, particularmente ao responder a Burt, º* argumentando que há uma 
variedade de comportamentalismos “que não negam que os homens sejam 
conscientes”. Ele iguala consciência com “experiências privadas”, não como estí- 
mulos privados no presente sentido, mas presumivelmente como respostas priva- 
das a estímulos privados. Esta talvez fosse uma tradução de alguma validade de 
“consciência”, mas o termo é ainda perigoso a não ser que outras associações 
tradicionais possam ser evitadas. Podemos de fato examinar a extensão dentro da 
qual uma comunidade verbal induz o indivíduo a responder a eventos com os 
quais a comunidade não está em contato, e nossa formulação clarificará muitos 
problemas tradicionais no assim chamado estudo da mente, mas seu mérito prin- 
cipal do presente ponto de vista é o de que permite uma análise do que tem sido 
tradicionalmente considerado como um tipo de material muito diferente. 


2 Juan Luis Vives (1492-1540), De Anima et Vita. Ver F. F. Watson, Vives on Education, Cambridge, Uary 
Press, 1913. 

3 J. D. Kcehn, “Consciousness and Bchaviorism”, Brit. J. Psychol., 55, 1964, pp. 89-91. 

* €C. Burt, “The concept of consciousness”, Brit. J. Psychol., 53, 1962, pp. 229-242. 


JEAN PIAGET 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 


Tradução de Nathanael C. Caixeiro 


* Traduzido do original francês L épistémologie génétique, Paris, Presses Universitaires de France, 1970. 


Introdução 


Aproveitei, com prazer, a oportunidade de escrever este pequeno livro sobre 
Epistemologia Genética, de modo a poder insistir na noção bem pouco admitida 
correntemente, mas que parece confirmada por nossos trabalhos coletivos neste 
domínio: o conhecimento não poderia ser concebido como algo predeterminado 
nas estruturas internas do indivíduo, pois que estas resultam de uma construção 
efetiva e contínua, nem nos caracteres preexistentes do objeto, pois que estes só 
são conhecidos graças à mediação necessária dessas estruturas; e estas estruturas 
os enriquecem e enquadram (pelo menos situando-os no conjunto dos possíveis). 
Em outras palavras, todo conhecimento comporta um aspecto de elaboração 
nova, e o grande problema da epistemologia é o de conciliar esta criação de novi- 
dades com o duplo fato de que, no terreno formal, elas se acompanham de necessi- 
dade tão logo elaboradas e de que, no plano do real, elas permitem (e são mesmo 
as únicas a permitir) a conquista da objetividade. 

Este problema da construção de estruturas não pré-formadas é, de fato, já 
antigo, embora a maioria dos epistemologistas permaneçam amarrados a hipóte- 
ses, sejam aprioristas (até mesmo com certos recuos ao inatismo), sejam empiris- 
tas, que subordinam o conhecimento a formas situadas de antemão no individuo 
ou no objeto. Todas as correntes dialéticas insistem na idéia de novidades e procu- 
ram o segredo delas em “ultrapassagens” que transcenderiam incessantemente o 
jogo das teses e das antíteses. No domínio da história do pensamento científico, o 
problema das mudanças de perspectiva e mesmo das “revoluções” nos “paradig- 
mas” (Kuhn) se impõe necessariamente, e L. Brunschvicg extraiu dele uma episte- 
mologia do vir-a-ser radical da razão. Adstrito às fronteiras mais especificamente 
psicológicas, J. M. Baldwim forneceu, sob o nome de “lógica genética”, pareceres 
penetrantes sobre a elaboração das estruturas cognitivas. Poderiam ser citadas 
ainda diversas outras tentativas. 

Mas, se a epistemologia genética voltou de novo à questão, é com o duplo 
intuito de constituir um método capaz de oferecer os controles e, sobretudo, de 
retornar às fontes, portanto à gênese mesma dos conhecimentos de que a episte- 
mologia tradicional apenas conhece os estados superiores, isto é, certas resultan- 
tes. O que se propõe a epistemologia genética é pois pôr a descoberto as raízes das 
diversas variedades de conhecimento, desde as suas formas mais elementares, e se- 
guir sua evolução até os níveis seguintes, até, inclusive, o pensamento científico. 


130 PIAGET 


Mas, se esse gênero de análise comporta uma parte essencial de experimentação 
psicológica, de modo algum significa, por essa razão, um esforço de pura psicolo- 
gia. Os próprios psicólogos não se enganaram a esse respeito, e numa citação que 
a American Psychological Association teve a gentileza de enviar ao autor destas 
linhas depara-se com esta passagem significativa: “Ele enfocou questões até 
então exclusivamente filosóficas de um modo decididamente empírico, e consti- 
tuiu a epistemologia como uma ciência separada da filosofia mas ligada a todas 
as ciências humanas”, sem esquecer. naturalmente, a biologia. Em outros termos, 
a grande sociedade americana admitiu de bom grado que nossos trabalhos reves- 
tiam-se de uma dimensão psicológica, mas a título de byproduct, como o escla- 
rece ainda a citação, e reconhecendo que a intenção, no caso, era essencialmente 
epistemológica. 

Quanto à necessidade de recuar à gênese, como o indica o próprio termo 
“epistemologia genética”, convém dissipar desde logo um possível equívoco, que 
seria de certa gravidade se importasse em opor a gênese às outras fases da elabo- 
ração contínua dos conhecimentos. A grande lição contida no estudo da gênese ou 
das gêneses é, pelo contrário, mostrar que não existem jamais conhecimentos 
absolutos. Isto significa dizer, em outras palavras, seja que tudo é gênese, inclu- 
sive a elaboração de uma teoria nova no estado atual das ciências, seja que a gê- 
nese recua indefinidamente, porque as fases psicogenéticas mais elementares são, 
elas mesmas, precedidas de fases de algum modo organogenéticas, etc. Afirmar a 
necessidade de recuar à gênese não significa de modo algum conceder um privi- 
légio a tal ou qual fase considerada primeira, absolutamente falando: é, pelo 
contrário, lembrar a existência de uma construção indefinida e, sobretudo, insistir 
no fato de que, para compreender suas razões e seu mecanismo, é preciso conhe- 
cer todas as suas fases, ou, pelo menos, o máximo possível. Se fomos levados a 
insistir muito na questão dos começos do conhecimento, nos domínios da psicolo- 
gia da criança e da biologia, tal não se deve a que atribuamos a eles uma significa- 
ção quase exclusiva: deve-se simplesmente a que se trata de perspectivas em geral 
quase totalmente negligenciadas pelos epistemologistas. 

Todas as demais fontes científicas de informação permanecem pois necessã- 
rias, € o segundo aspecto da epistemologia genética sobre o qual gostariamos de 
insistir é sua natureza decididamente interdisciplinar. O problema específico da 
epistemologia, expresso sob sua forma geral, é, com efeito, o do aumento dos 
conhecimentos, isto é, da passagem de um conhecimento inferior ou mais pobre a 
um saber mais rico (em compreensão e em extensão). Ora, como toda ciência está 
em permanente transformação e não considera jamais seu estado como definitivo 
(com exceção de certas ilusões históricas, como as do aristotelismo dos adversá- 
rios de Galileu ou da física newtoniana para seus continuadores), este problema 
genético, no sentido amplo, engloba também o do progresso de todo conheci- 
mento científico e apresenta duas dimensões: uma, respeitante às questões de fato 
(estado dos conhecimentos em um nível determinado e passagem de um nível ao 
seguinte), e outra, acerca das questões de validade (avaliação dos conhecimentos 
em termos de aprimoramento ou de regressão, estrutura formal dos conhecimen- 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 131 


tos). É, portanto, evidente que, seja qual for a pesquisa em epistemologia genética, 
seja que se trate da evolução de tal setor do conhecimento na criança ( número, 
velocidade, causalidade física, etc.) ou de tal transformação num dos ramos 
correspondentes do pensamento científico, tal pesquisa pressupõe a colaboração 
de especialistas em epistemologia da ciência considerada, psicólogos, historia- 
dores das ciências, lógicos, matemáticos, cultores da cibernética, lingiúística, etc. 
Este tem sido sempre o método de nosso Centro Internacional de Epistemologia 
Genética em Genebra, cuja atividade integral tem consistido sempre de um traba- 
lho de equipe. A obra que se segue é, portanto, sob muitos aspectos, coletiva! 

O objetivo deste opúsculo não é, todavia, contar a história desse Centro, nem 
mesmo resumir os Estudos de Epistemologia Genética que surgiram graças a ele.” 
Nesses Estudos se encontram os trabalhos realizados, bem como o sumário das 
discussões que tiveram lugar por ocasião de cada Simpósio anual e que trataram 
das pesquisas em curso. O que nos propomos aqui é simplesmente pôr em desta- 
que as tendências gerais da epistemologia genética e expor os principais fatos que 
as justificam. O plano de trabalho é portanto muito simples: análise dos dados 
psicogenéticos, em seguida de seus antecedentes biológicos e, finalmente, retorno 
aos problemas epistemológicos clássicos. Convém no entanto comentar este 
plano, pois os dois primeiros capítulos poderiam parecer inúteis. 

No que diz respeito em particular à psicogênese dos conhecimentos (cap. D, 
muitas vezes a descrevemos à maneira dos psicólogos. Mas os epistemologistas 
lêem apenas uns poucos trabalhos psicológicos, o que é concebível, desde que não 
se destinam explicitamente a corresponder às suas preocupações. Procuramos 
pois centrar nossa exposição unicamente nos fatos que se revestem de uma signifi- 
cação epistemológica, e insistindo nesta última: trata-se, em conseqgliência, de 
uma tentativa nova, em parte, tanto mais que ela toma em consideração um gran- 
de número de pesquisas ainda não publicadas sobre a causalidade. Quanto às raí- 
zes biológicas do conhecimento (cap. Il), não modificamos muito nosso ponto de 
vista desde a publicação de Biologia e Conhecimento (Gallimard, 1967), mas, 
como pudemos substituir essas 430 páginas por menos de uma vintena, estamos 
certos de ser perdoados por este novo apelo às fontes orgânicas, que era indispen- 
sável para justificar a interpretação proposta pela epistemologia genética das rela- 
ções entre o sujeito e os objetos. 

Em poucas palavras se encontrará nestas páginas a exposição de uma episte- 
mologia que é naturalista sem ser positivista, que põe em evidência a atividade do 
sujeito sem ser idealista, que se apóia também no objeto sem deixar de considerá- 
lo como um limite (existente, portanto, independentemente de nós, mas jamais 
completamente atingido) e que, sobretudo, vê no conhecimento uma elaboração 
contínua: é este último aspecto da epistemologia genética que suscita mais proble- 
mas e são estes que se pretende equacionar bem assim como discutir 
exaustivamente. 


* Esta obra será citada sob o título geral Études com o número do volume em questão. (N. do A.) 


CAPÍTULO I 


A Formação dos Conhecimentos 


(Psicogênese) 


A vantagem que um estudo da evolução dos conhecimentos desde suas raízes 
apresenta (embora, no momento, sem referências aos antecedentes biológicos) é 
oferecer uma resposta à questão mal solucionada do sentido das tentativas cogni- 
tivas iniciais. A se restringir às posições clássicas do problema, não se pode, com 
efeito, senão indagar se toda informação cognitiva emana dos objetos e vem de 
fora informar o sujeito, como o supunha o empirismo tradicional, ou, se, pelo 
contrário, o sujeito está desde o início munido de estruturas endógenas que ele 
imporia aos objetos, conforme as diversas variedades de apriorismo ou de inatis- 
mo. Não obstante, mesmo a multiplicar os matizes entre as posições extremas (e 
a história das idéias mostrou o número dessas combinações possíveis), o postu- 
lado comum das epistemologias conhecidas é supor que existem em todos os ni- 
veis um sujeito conhecedor de seus poderes em graus diversos (mesmo que eles se 
reduzam à mera percepção dos objetos), objetos existentes como tais aos olhos do 
sujeito (mesmo que eles se reduzam a “fenômenos”), e, sobretudo, instrumentos de 
modificação ou de conquista (percepções ou conceitos), determinantes do trajeto 
que conduz do sujeito aos objetos ou o inverso.. 


Ora, as primeiras lições da análise psicogenética parecem contradizer essas 
pressuposições. De uma parte, o conhecimento não procede, em suas origens, nem 
de um sujeito consciente de si mesmo nem de objetos já constituídos (do ponto de 
vista do sujeito) que a ele se imporiam. O conhecimento resultaria de interações 
que se produzem a meio caminho entre os dois, dependendo, portanto, dos dois ao 
mesmo tempo, mas em decorrência de uma indiferenciação completa e não de 
intercâmbio entre formas distintas. De outro lado, e, por conseguinte, se não há, 
no início, nem sujeito, no sentido epistemológico do termo, nem objetos concebi- 
dos como tais, nem, sobretudo, instrumentos invariantes de troca, o problema ini- 
cial do conhecimento será pois o de elaborar tais mediadores. A partir da zona de 
contato entre o corpo próprio e as coisas eles se empenharão então sempre mais 
adiante nas duas direções complementares do exterior e do interior, e é desta 
dupla construção progressiva que depende a elaboração solidária do sujeito e dos 
objetos. 

Com efeito, o instrumento de troca inicial não é a percepção, como os racio- 
nalistas demasiado facilmente admitiram do empirismo, mas, antes, a própria 
ação em sua plasticidade muito maior. Sem dúvida, as percepções desempenham 


e a ge 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 133 


um papel essencial, mas elas dependem em parte da ação em seu conjunto, e cer- 
tos mecanismos perceptivos que se poderiam acreditar inatos ou muito primitivos 
(como o “efeito túnel” de Michotte) só se constituem a certo nível da construção 
dos objetos. De modo geral, toda percepção chega a conferir significações relati- 
vas à ação aos elementos percebidos (J. Bruner fala, nesse sentido, de “identifica- 
ções”, cf. Estudos, vol. VI, cap. I) e é pois da ação que convém partir. Distingui- 
remos a este respeito dois períodos sucessivos: o das ações sensório-motoras 
anteriores a qualquer linguagem ou a toda conceptualização representativa, e o 
das ações completadas por estas novas propriedades, a propósito dos quais se co- 
loca então o problema da tomada de consciência dos resultados, intenções e 
mecanismos dos atos, isto é, de sua tradução em termos de pensamento 
conceptualizado. 


T. Os níveis sensório-motores 


No que diz respeito às ações sensório-motrizes, J. M. Baldwin mostrou, há 
muito. que o lactente não manifesta qualquer índice de uma consciência de seu eu, 
nem de uma fronteira estável entre dados do mundo interior e do universo externo, 
“adualismo” este que dura até o momento em que a construção desse eu se torna 
possível em correspondência e em oposição com o dos outros. De nossa parte, 
fizemos notar que o universo primitivo não comportaria objetos permanentes até 
uma época coincidente com o interesse pela pessoa dos outros, sendo os primeiros 
objetos dotados de permanência constituídos precisamente dessas personagens 
(resultados verificados com minúcia por Th. Gouin-Décarie, em um estudo sobre 
a permanência dos objetos materiais e sobre seu sincronismo com as “relações 
objetais”, neste sentido freudiano do interesse por outrem). Em uma estrutura de 
realidade que não comporte nem sujeitos nem objetos, evidentemente o único 
liame possível entre o que se tornará mais tarde um sujeito e objetos é constituído 
por ações, mas ações de um tipo peculiar, cuja significação epistemológica parece 
esclarecedora. Com efeito, tanto no terreno do espaço como no dos diversos feixes 
perceptivos em construção, o lactente tudo relaciona a seu corpo como se ele fosse 
o centro do mundo, mas um centro que a si mesmo ignora. Em outras palavras, a 
ação primitiva exibe simultaneamente uma indiferenciação completa entre o sub- 
Jetivo e o objetivo e uma centração fundamental, embora radicalmente incons- 
ciente, em razão de achar-se ligada a esta indiferenciação. 

Qual poderia ser, no entanto, o laço entre esses dois aspectos? Se existe uma 
indiferenciação entre o sujeito e o objeto ao ponto que o primeiro não se conhece 
nem mesmo comb fonte de suas ações, por que seriam elas centradas no corpo 
próprio ao passo que a atenção estaria fixada no exterior? O termo “egocentrismo 
radical” de que nos valemos para designar esta centração pode, ao invés (mal- 
grado nossas precauções), parecer evocar um eu consciente (e é ainda mais o caso 
do “narcisismo” freudiano ao passo que se trata de um narcisismo sem Narciso). 
De fato, a indiferenciação e a centração das ações primitivas importam ambas em 
um terceiro aspecto que lhes é geral: elas ainda não estão coordenadas entre si, e 


134 PIAGET 


constituem, cada uma, um pequeno todo isolável que liga diretamente o corpo 
próprio ao objeto (sugar, olhar, segurar, etc.). Daí decorre uma falta de diferencia- 
ção, pois o sujeito não se afirmará em seguida a não ser coordenando livremente 
suas ações, e o objeto não se constituirá a não ser se sujeitando ou resistindo às 
coordenações dos movimentos ou posições em um sistema coerente. Por outro 
lado, como cada ação forma ainda um todo isolável, sua única referência comum 
e constante só pode ser o corpo próprio, donde uma centração automática sobre 
ele, embora não desejada nem consciente. 

Para verificar esta conexão entre a falta de coordenação das ações, a indife- 
renciação do sujeito e dos objetos e a centração sobre o corpo próprio, basta lem- 
brar o que se passa entre esse estado inicial e o nível dos 18 aos 24 meses, início 
da função semiótica e da inteligência representativa. Neste intervalo de um a dois 
anos realiza-se, de fato, mas ainda apenas no plano dos atos materiais, uma espé- 
cie de revolução copêrniciana que consiste em descentralizar as ações em relação 
ao corpo próprio, em considerar este como objeto entre os demais num espa- 
ço que a todos contém e em associar as ações dos objetos sob o efeito das coorde- 
nações de um sujeito que começa a se conhecer como fonte ou mesmo senhor de 
seus movimentos. Com efeito (e é esta terceira novidade que acarreta as duas 
outras), presencia-se, em primeiro lugar, nos níveis sucessivos do período sensó- 
rio-motor, uma coordenação gradual das ações. Em lugar de continuar cada uma 
a formar um pequeno todo encerrado em si mesmo, elas chegam, mais ou menos 
rapidamente, pelo jogo fundamental das assimilações recíprocas, a se coordenar 
entre si até constituir esta conexão entre meios e fins que caracteriza os atos da 
inteligência propriamente dita. É nesta ocasião que se constitui o sujeito na medi- 
da em que fonte de ações e pois de conhecimentos, por isso que a coordenação de 
duas dessas ações supõe uma iniciativa que ultrapassa a interdependência ime- 
diata a que se restringiam as condutas primitivas entre uma coisa exterior e o 
corpo próprio. Mas coordenar ações quer dizer deslocar objetos, e, na medida em 
que esses deslocamentos são submetidos a coordenações, o “grupo de desloca- 
mentos” que se elabora progressivamente a partir desse fato permite, em segundo 
lugar, atribuir aos objetos posições sucessivas, também estas determinadas. O ob- 
jeto adquire, por conseguinte, certa permanência espaço-temporal donde a 
espacialização e objetivação das próprias relações causais. Tal diferenciação do 
sujeito e dos objetos que acarreta a substanciação progressiva destes explica em 
definitivo esta inversão total das perspectivas, inversão esta que leva o sujeito a 
considerar seu próprio corpo como um objeto no seio dos demais, em um universo 
espaço-temporal e causal do qual ele vem a tornar-se parte integrante na medida 
em que aprende a atuar eficazmente sobre ele. 

Em resumo, a coordenação das ações do sujeito, inseparável das coordena- 
ções espaço-temporais e causais que ele atribui ao real, é ao mesmo tempo fonte 
das diferenciações entre este sujeito e os objetos, e desta descentralização no 
plano dos atos materiais que vai tornar possível com o concurso da função semió- 
tica a ocorrência da representação ou do pensamento. Mas essa coordenação 
mesma acarreta um problema epistemológico, embora ainda limitada a esse plano 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 135 


de ação, e a assimilação recíproca invocada para esse fim é um primeiro exemplo 
dessas novidades, a um tempo não predeterminadas e vindo a ser. entretanto, 
“necessárias”, e que caracterizam o desenvolvimento dos conhecimentos. Importa 
pois insistir nisto um pouco mais a partir do início. 

A noção fundamental peculiar à psicologia de inspiração empirista é a da 
associação que, assinalada já por Hume, permanece muito em voga nos meios 
considerados comportamentistas ou reflexológicos. Contudo, esse conceito de 
associação refere-se tão-somente a um liame exterior entre os elementos associa- 
dos, ao passo que a noção de assimilação (Etudes, vol. v, cap. HT) implica a de 
integração dos dados a uma estrutura anterior ou mesmo a constituição de nova 
estrutura sob a forma elementar de um esquema. No que se refere a ações primiti- 
vas, não coordenadas entre si, dois casos são possíveis: no primeiro a estrutura 
preexiste por ser hereditária (por exemplo, os reflexos de sucção) e a assimilação 
consiste apenas em incorporar-lhe novos objetos não previstos na programação 
orgânica. No segundo caso, a situação é imprevista: por exemplo, o lactente pro- 
cura apreender um objeto pendurado, mas, no decorrer de uma tentativa frustra- 
da, limita-se a tocá-lo e se segue então um balançar que lhe interessa como espetá- 
culo inédito. Então ele tentará consegui-lo novamente, donde o que se poderia 
chamar uma assimilação reprodutora (fazer novamente o mesmo gesto) e a forma- 
ção de um início de esquema. Em presença de outro objeto pendurado ele o assi- 
milará a esse mesmo esquema, donde uma assimilação recognitiva, e à medida que 
repita a ação nesta nova situação, uma assimilação generalizadora, e esses três 
aspectos: repetição, reconhecimento e generalização poderem repetir-se de ime- 
diato. Uma vez admitido isto, a coordenação das ações por assimilação recíproca 
que se tratava de apreender representa ao mesmo tempo uma novidade em relação - 
ao que precede e um desenvolvimento do mesmo mecanismo. Pode-se reconhecer 
aí duas fases, a primeira das quais é, sobretudo, um desenvolvimento: ela consiste 
em assimilar um mesmo objeto a dois esquemas ao mesmo tempo, o que repre- 
senta um começo de assimilação recíproca. Por exemplo, se o objeto balançado 
ou sacudido produz um som, pode tornar-se alternada ou simultaneamente uma 
coisa a contemplar ou algo a escutar, donde uma assimilação recíproca que con- 
duz entre outras coisas a agitar seja que brinquedo for para se dar conta de ruidos 
que possa emitir. Num caso como este o propósito e os meios permanecem relati- 
vamente indiferenciados, mas numa segunda fase em que ressalta a novidade, a 
criança atribuirá um objetivo ao seu gesto antes de poder atingi-lo e utilizará 
diferentes esquemas de assimilação a título de meios para o conseguir: abalar por 
meio de sacudidelas, etc., etc.; o teto do berço para fazer balançar os brinquedos 
sonoros que ali se penduram e que continuam inacessíveis à mão, etc. 

Por modestos que sejam esses começos, pode-se ver neles um processo em 
curso que se desenvolverá cada vez mais depois: a elaboração de combinações 
novas por meio de uma conjunção de abstrações obtidas a partir dos próprios 
objetos ou, e isto é fundamental, dos esquemas de ação que se exercem sobre eles. 
É desse modo que o fato de reconhecer em um objeto pendurado uma coisa a 
balançar comporta antes de mais nada uma abstração a partir dos objetos. Por 


136 PIAGET: 


outro lado, coordenar meios e fins respeitando a ordem de sucessão dos movimen- 
tos a realizar constitui uma novidade em relação aos atos globais no seio dos 
quais meios e fins permanecem indiferenciados, mas esta novidade é adquirida de 
modo natural a partir de tais atos por um processo que consiste em extrair deles 
as relações de ordem, ajustamento, etc., necessárias a esta coordenação. Nesse 
caso a abstração jã não é mais do mesmo tipo e se orienta na direção daquilo que 
chamaremos abstração refletidora. 

Vê-se desse modo que a partir do nível sensório-motor a diferenciação nas- 
cente do sujeito e do objeto se assinala ao mesmo tempo pela formação de coorde- 
nações e pela distinção entre duas espécies entre elas: de uma parte, as que reli- 
gam entre si as ações do sujeito e, de outra as que dizem respeito às ações dos 
objetos uns sobre os outros. As primeiras consistem em reunir ou dissociar certas 
ações do sujeito ou seus esquemas, as ajustar ou ordenar, pô-las em correspon- 
dência umas com as outras, etc., em outras palavras: elas constituem as primeiras 
formas dessas coordenações gerais que estão na base das estruturas lógico-mate- 
máticas cujo desenvolvimento ulterior será tão considerável. As segundas vêm a 
conferir aos objetos uma organização espaço-temporal, cinemática ou dinâmica 
análoga à das ações, e seu conjunto fica no ponto de partida dessas estruturas 
causais cujas manifestações sensório-motoras são já evidentes e cuja evolução 
subsequente é tão importante como a dos primeiros tipos. Quanto às ações parti- 
culares do sujeito sobre os objetos, em oposição às coordenações gerais de que 
acabamos de tratar, elas participam da causalidade na medida em que nodificam 
materialmente esses objetos ou a disposição deles (as condutas instrumentais, por 
exemplo) e do esquematismo pré-lógico na medida em que elas dependem das 
coordenações gerais de caráter formal (ordem, etc.). Desde antes da formação da 
linguagem, da qual certas escolas, como o positivismo lógico, exageraram a 
importância quanto à estruturação dos conhecimentos, vê-se pois que estes se 
constituem no plano da própria ação com suas bipolaridades lógico-matemática e 
física, logo que, graças às coordenações nascentes entre as ações, O sujeito e os 
objetos começam a se diferenciar ao afinar seus instrumentos de intercâmbio. Mas 
estes permanecem ainda de natureza material, porque constituídos de ações, e 
uma longa evolução será necessária até sua subjetivação em operações. 


II. O primeiro nível do pensamento pré-operatório 


Desde as ações elementares iniciais, não coordenadas entre si e não sufi- 
cientes para assegurar uma diferenciação estável entre sujeito e objetos, às coorde- 
nações com diferenciações, realizou-se um grande progresso que basta para 
garantir a existência dos primeiros instrumentos de interação cognitiva. Mas estes 
estão situados ainda num único e mesmo plano: o da ação efetiva e atual, isto é, 
não refletida num sistema conceptualizado. Os esquemas de inteligência sensó- 
rio-motora não são, com efeito, ainda conceitos, pelo fato de que não podem ser 
manipulados por um pensamento e que só entram em jogo no momento de sua 
utilização prática e material, sem qualquer conhecimento de sua existência 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 137 


enquanto esquemas, à falta de aparelhos semióticos para os designar e permitir 
sua tomada de consciência. Com a linguagem, o jogo simbólico, a imagem men- 
tal, etc., a situação muda, por outro lado, de modo notável: às ações simples que 
garantem as interdependências diretas entre o sujeito e os objetos se superpõe em 
certos casos um novo tipo de ações, que é interiorizado e mais precisamente 
conceptualizado: por exemplo, com mais capacidade de se deslocar de A para B, 
o sujeito adquire o poder de representar a si mesmo esse movimento AB e de 
evocar pelo pensamento outros deslocamentos. 

Todavia, percebem-se à primeira vista as dificuldades de tal interiorização 
das ações. Em primeiro lugar, a tomada de consciência da ação é sempre parcial: 
o sujeito representará a si mesmo mais ou menos facilmente o trajeto AB assim 
como, muito por alto, os movimentos executados, mas o pormenor lhe escapa e 
mesmo na idade adulta terá muita dificuldade de traduzir em noções e de 
compreender com alguma precisão as flexões e extensões dos membros no decor- 
rer desta marcha. A tomada de consciência procede pois por escolha e esquemati- 
zação representativa, o que implica já uma conceptualização. Em segundo lugar, 
a coordenação dos movimentos AB, BC, CD, etc., pode atingir, no nível sensó- 
rio-motor, a estrutura de um grupo de deslocamentos na medida em que a passa- 
gem de cada trajeto parcial ao seguinte é orientado pelo reconhecimento de índi- 
ces perceptivos cuja sucessão assegura as ligações; ao passo que, a querer se 
representar conceptualmente um tal sistema, tratar-se-á de traduzir o sucessivo 
numa representação de conjunto de elementos quase simultâneos. Tanto as esque- 
matizações da tomada de consciência como esta condensação de ações sucessivas 
em uma totalidade representativa abrangem num único ato as sucessões temporais 
que conduzem então a suscitar o problema das coordenações em termos novos, 
tais que os esquemas imanentes às ações sejam transformados em conceitos mó- 
veis suscetíveis de ultrapassar a estes em os representando. 

De fato, seria muito mais simples admitir que a interiorização das ações 
em representações ou pensamento consiste apenas em refazer o seu curso ou ima- 
giná-las por meio de símbolos ou de signos (imagens mentais ou linguagem) sem 
as modificar ou as enriquecer com isso. Em realidade esta interiorização é uma 
conceptualização com tudo o que esta comporta de transformação dos esquemas 
em noções propriamente ditas, por mais rudimentares que elas sejam (não falare- 
mos a este respeito senão em “pré-conceitos”). Ora, uma vez que o esquema 
não se constitui objeto de pensamento, mas reduz-se à estrutura interna das ações, 
ao passo que o conceito é manipulado pela representação e pela linguagem, se- 
gue-se que a interiorização das ações pressupõe sua reconstrução num plano su- 
perior e, em consegtiência, a elaboração de uma série de novidades irredutíveis 
aos instrumentos do plano inferior. Basta para que se convença disso constatar 
que aquilo que é adquirido no nível da inteligênvia ou da ação sensório-motora 
não proporciona de modo algum à primeira vista uma representação adequada 
no plano do pensamento: por exemplo, crianças de 4 a 5 anos examinadas por 
A. Szeminska sabiam perfeitamente seguir sozinhas o caminho que as conduzia 
de suas casas à escola e O inverso, mas sem ser capazes de representar esse cami- 


138 PIAGET 


nho por meio de um material que figurasse os principais pontos de referência 
citados (edifícios, etc.). De modo geral nossos trabalhos sobre as imagens mentais 
com B. Inhelder (4 Imagem Mental na Criança) mostraram o quanto elas perma- 
neciam sujeitas ao nível dos conceitos correspondentes em lugar de figurar livre- 
mente o que pode ser percebido de maneira imediata em matéria de transforma- 
ções ou mesmo de simples movimentos. 

A razão essencial dessa defasagem entre as ações sensório-motoras e a ação 
interiorizada ou conceptualizada é que as primeiras constituem mesmo no nível 
em que há coordenação entre vários esquemas, uma segiiência de mediadores 
sucessivos entre o sujeito e os objetos mas de que cada um permanece puramente 
atual; ela se acompanha já, é verdade, de uma diferenciação entre esse sujeito e 
esses objetos, mas nem aquele nem estes são pensados na medida em que revesti- 
dos de outros caracteres que os do momento presente. No nível da ação concep- 
tualizada, pelo contrário, o sujeito da ação (trate-se do eu ou de um objeto qual- 
quer) é pensado com seus caracteres duráveis (predicados ou relações), os objetos 
da ação igualmente, e a própria ação é conceptualizada na medida em que trans- 
formação particular entre muitos outros representáveis entre os termos dados ou 
entre termos análogos. Ela está, portanto, graças ao pensamento, situada num 
contexto espaço-temporal bem mais amplo, o que lhe confere uma situação nova 
como instrumento de troca entre o sujeito e os objetos: de fato, à medida que pro- 
gridem as representações, as distâncias aumentam entre elas e seu objeto, no 
tempo como no espaço, isto é, a série das ações materiais sucessivas, mas cada 
qual momentânea, é completada por conjuntos representativos suscetíveis de evo- 
car num todo quase simultâneo ações ou acontecimentos passados ou futuros 
assim como presentes e especialmente distanciados assim como próximos. 

Disso resulta, de uma parte, que desde os começos deste período do conheci- 
mento representativo pré-operatório assinalam-se progressos consideráveis no 
duplo sentido das coordenações internas do sujeito, logo, das futuras estruturas 
operatórias ou lógico-matemáticas, e coordenações externas entre objetos, logo, 
causalidade no sentido amplo com suas estruturações espaciais e cinemáticas. Em 
primeiro lugar, com efeito, o sujeito torna-se rapidamente capaz de inferências 
elementares, de classificações em configurações espaciais, de correspondências, 
etc. Em segundo lugar, a partir do aparecimento precoce dos “por quê?” assiste-se 
a um início de explicações causais. Há pois aí um conjunto de novidades essen- 
ciais em relação ao período sensório-motor e não se poderiam tornar responsáveis 
por elas apenas as transmissões verbais, porque os surdos-mudos, embora em 
retarde em relação aos normais à falta de incitações coletivas suficientes, delas 
não apresentam menos estruturações cognitivas análogas às dos normais: trata-se 
pois de função semiótica em geral, proveniente do progresso da imitação (conduta 
sensório-motora mais próxima da representação, mas em atos), e não à linguagem 
apenas se deve atribuir este giro fundamental na elaboração dos instrumentos de 
conhecimento. Em outros termos, a passagem das condutas sensório-motoras às 
ações conceptualizadas não se deve apenas à vida social, mas também ao pro- 
gresso da inteligência pré-verbal em seu conjunto e à interiorização da imitação 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 139 


em representações. Sem esses fatores prévios em parte endógenos, nem a aquisi- 
ção da linguagem nem as transmissões e interações sociais seriam possíveis, pois 
que constituem delas uma das condições necessárias. 

Mas, por outra parte, importa insistir também na questão dos limites dessas 
inovações nascentes porque seus aspectos negativos são de algum modo tão 
instrutivos do ponto de vista da epistemologia quanto os positivos, ao nos mostra- 
rem as dificuldades bem mais duráveis do que parece em dissociar os objetos do 
sujeito ou em elaborar operações lógico-matemáticas independentes da causali- 
dade e suscetíveis de fecundar as explicações causais em consegiência desta 
diferenciação mesma. Por que, com efeito, o período de 2-3 a 7-8 anos permanece 
pré-operatório e por que, antes de um subperíodo de 5-6 anos em que o sujeito 
chega a uma semilógica (no sentido próprio que analisaremos em breve), é preciso 
até falar de um primeiro subperíodo em que as primeiras “funções constituintes” 
não estão ainda elaboradas? É que a passagem da ação ao pensamento ou do 
esquema sensório-motor ao conceito não se realiza sob a forma de uma revolução 
brusca, mas, pelo contrário, de uma diferenciação lenta e laboriosa, que se rela- 
ciona às transformações da assimilação. 

A assimilação própria dos conceitos em seu estado de acabamento recai 
essencialmente sobre os objetos compreendidos por eles e sobre seus caracteres. 
Sem falar ainda da reversibilidade nem da transitividade operatórias, ela virá por 
exemplo a reunir todos os A numa mesma classe porque eles são assimiláveis por 
seu caráter a a; ou a afirmar que todos os A são também B porque além do cará- 
ter a possuem todos o caráter b; pelo contrário, nem todos os B são A, mas ape- 
nas alguns, porque nem todos apresentam o caráter a, etc. Assim, esta assimilação 
dos objetos entre si que constitui o fundamento de uma classificação acarreta uma 
primeira propriedade fundamental do conceito: a norma do “todos” e do “al- 
guns”. Por outro lado, na medida em que um caráter x é suscetível de mais e de 
menos (ou mesmo se ele exprime apenas uma co-propriedade e determina a co- 
pertença a uma mesma classe), a assimilação inerente à comparação dos objetos 
lhe atribuirá uma natureza relativa e o peculiar desta assimilação conceptual é 
igualmente constituir tais relações ao ultrapassar os falsos absolutos inerentes às 
atribuições puramente predicativas. Em contrapartida, a assimilação peculiar dos 
esquemas sensório-motores comporta duas diferenças essenciais com o que prece- 
de. A primeira é que, à falta de pensamento ou representação, o sujeito nada 
conhece da “extensão” de tais esquemas, não podendo evocar as situações não 
percebidas atualmente nem julgar situações presentes a não ser em “compreen- 
são”, isto é, por analogia direta com as propriedades das situações anteriores. Em 
segundo lugar, esta analogia também não vem evocar estas, mas apenas reconhe- 
cer perceptivamente certos caracteres que desencadeiam então as mesmas ações 
que essas situações anteriores. Em outros termos, a assimilação por esquemas 
envolve certas propriedades dos objetos, mas exclusivamente no momento em que 
eles são percebidos e de modo indissociado em relação às ações do sujeito aos 
quais correspondem (salvo em certas situações causais em que as ações previstas 
são as dos próprios objetos por uma espécie de atribuição de ações análogas às do 


140 PIAGET 


sujeito). A grande distinção epistemológica entre as duas formas de assimilação 
por esquemas sensório-motores e por conceitos é pois que a primeira diferencia 
ainda mal os caracteres do objeto dos caracteres das ações do sujeito relativas a 
esses objetos, ao passo que a segunda recai sobre os objetos só, porém ausentes do 
mesmo modo que presentes, e de uma só vez liberta o sujeito de suas ligações com 
a situação atual dando-lhe então o poder de classificar, seriar, pôr em correspon- 
dência, etc., com muito mais mobilidade e liberdade. 

Ora, o ensino que o primeiro subestágio do pensamento pré-operatório (de 2 
a 4 anos) nos oferece é que, de uma parte, os únicos mediadores entre o sujeito e 
os objetos são apenas pré-conceitos e pré-relações (sem norma para o “todos” e o 
“alguns” para os primeiros nem a relatividade das noções para os segundos) e 
que, de outra parte e reciprocamente, a única causalidade atribuída aos objetos se 
conserva psicomórfica, pela indiferenciação completa com as ações do sujeito. 

No que diz respeito ao primeiro ponto pode-se, por exemplo, apresentar aos 
sujeitos algumas fichas vermelhas e redondas e algumas fichas azuis, das quais 
umas são redondas e outras quadradas: nesse caso a criança responderá facil- 
mente que todas as redondas são vermelhas, mas recusará admitir que todas as 
quadradas são azuis “pois há também as azuis que são redondas”. De maneira 
geral ela identifica facilmente duas classes de mesma extensão, mas não com- 
preende ainda a relação de subclasse da classe, por falta de uma norma para o 
“todos” e “alguns”. Ainda mais, em numerosas situações da vida corrente ela terá 
dificuldade em distinguir diante de um objeto ou pessoa x se se trata de um mesmo 
termo individual x que permanece idêntico a si mesmo ou dum representante qual- 
quer de x ou x'da mesma classe X: o objeto permanece assim a meio caminho do 
indivíduo e da classe por uma espécie de participação ou de exemplaridade. Por 
exemplo, uma meninazinha, Jaquelina, ao ver uma fotografia sua quando era 
menor, dirá que “é Jaquelina quando ela era Luciana (= sua irmã caçula)”, ou 
então uma sombra ou uma corrente de ar produzidas sobre a mesa de experiência 
podem ser também “a sombra de debaixo das árvores” ou “o vento” de fora como 
efeito individual decorrente da mesma classe. Assim também, em nossos estudos 
sobre a identidade (vol. XXIV dos Etudes), isto procede, no presente nível, por 
assimilações semigenéricas às ações possíveis mais que em se fundando sobre os 
caracteres dos objetos: as pérolas dispersas dum colar desfeito são “o mesmo 
colar” porque se pode refazê-lo, etc. 

Quanto às pré-relações, podem ser observadas em profusão nesse nível. Por 
exemplo, o sujeito À tem um irmão B, mas contesta que este irmão B tenha um 
irmão, pois são apenas “dois na família”. Um objeto A está à esquerda de B, mas 
não pode estar à direita de outra coisa, porque, se está à esquerda, trata-se de um 
atributo absoluto incompatível com qualquer posição à direita. Se numa seriação 
tem-se A<B<C, o termo B não pode ser senão “meio” porque uma qualificação 
“menor que” exclui a de “maior que”, etc. 

Em uma palavra, esses pré-conceitos e pré-relações permanecem a meio 
caminho do esquema de ação e do conceito, à falta de dominar com bastante dis- 
tância a situação imediata e presente, cómo deveria ser o caso da representação 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA I41 


em oposição à ação. Este apego durável à ação, com o que ela comporta de cone- 
xões em parte indiferenciadas entre o sujeito e os objetos, acha-se então na causa- 
lidade deste nível, que permanece fundamentalmente psicomórfico: os objetos são 
espécies de seres vivos, dotados de certos poderes parecidos com os da própria 
ação, tais como empurrar, puxar, atrair, etc., tanto a distância como por contato, 
seja qual for a direção das forças ou com uma direção exclusiva que é a do agente 
independentemente dos pontos de impacto sobre os objetos passivos. 


HIT. O segundo nível pré-operatório 


Este segundo subestágio (5 a 6 anos) é assinalado por um início de descentra- 
ção que permite o descobrimento de certas ligações objetivas graças a isto que 
chamaremos “funções constituintes”. De um modo geral é muito surpreendente 
encontrar entre esta segunda fase da inteligência representativa pré-operatória e a 
primeira as mesmas relações que entre a segunda e a primeira das fases da inteli- 
gência sensório-motora descritas na seção I: a passagem de um egocentrismo bas- 
tante radical a uma descentração relativa por objetivação e espacialização. A dife- 
rença é que, no nível sensório-motor, a centração inicial se liga ao corpo próprio 
(sem que o sujeito tenha consciência disso), ao passo que com a conceptualização 
do nível de 2 a 4 anos há (sem também que o sujeito suspeite do fato) simples assi- 
milação dos objetos e de seus poderes com caracteres subjetivos da ação própria: 
no plano superior que é o dos pré-conceitos e pré-relações, reproduz-se assim uma 
centração inicial e análoga, pois que se trata de reconstruir neste novo plano o que 
já fora adquirido no nível sensório-motor. Após o que se encontra uma descentra- 
ção do mesmo modo análoga, mas entre conceitos ou ações conceptualizadas e 
não mais apenas entre movimentos, e devida também ela às coordenações 
progressivas que, no caso particular, assumirão a forma de funções (Etudes, vol. 
XXIII). 

Por exemplo, uma criança de 5 a 6 anos sabe em geral que se se empurra 
com um lápis uma plaqueta retangular em seu meio ela avança “em linha reta”; 
mas se é puxada de lado “ela roda”. Ou então em presença de um fio disposto em 
ângulo reto (7), ela saberá prever que puxando uma de suas extremidades um dos 
seus segmentos aumenta e o outro diminui de comprimento, etc. Em outras pala- 
vras, em tais casos as pré-relações tornam-se verdadeiras relações, e isto sob o 
efeito de suas coordenações porque uma das variáveis se modifica sob a depen- 
dência funcional da outra. 

Esta estrutura de função, na medida em que dependência entre as variações 
de dois termos que são propriedades relacionais de objetos, é de grande fecundi- 
dade e não é sem motivos que os neokantianos procuravam nela uma das caracte- 
rísticas da razão. No caso particular deste nível, falaremos de funções consti- 
tuintes e não ainda constituídas, porque estas últimas, que se formarão no estágio 
das operações concretas, comportam uma quantificação efetiva, ao passo que as 
primeiras permanecem qualitativas ou ordinais. Mas estas não deixam também de 
apresentar as características fundamentais da função que são o ser uma aplicação 


142 PIAGET 


unívoca “à direita” (isto é, na direção desta aplicação). Apenas, por importante 
que seja esta estrututa nova (em sua novidade não contida de antemão nos pré- 
conceitos e pré-relações do nível precedente por isso que devida às próprias 
coordenações), não comporta menos limitações essenciais, que fazem dela um 
termo de passagem entre as ações e as operações e não absolutamente ainda um 
instrumento de conquista imediata destas últimas. 

Com efeito, a função constituinte não é reversível como tal, mas é orientada 
e como carente de reversibilidade não comporta portanto ainda conservações 
necessárias. No exemplo do fio disposto em ângulo reto, o sujeito sabe bem que 
puxando um dos segmentos, digamos A, o outro (B) diminui, mas à falta de 
quantificação ele não suporá a igualdade A A = A B: o segmento puxado é em 
geral considerado como se alongando mais do que o outro se encolhendo; e sobre- 
tudo o sujeito não admitirá a conservação do comprimento total A + B. Verifi- 
ca-se portanto apenas uma semilógica, à falta de operações inversas, e não ainda 
uma estrutura operatória. Ora, este aspecto orientado e não intrinsecamente rever- 
sível da função constituinte apresenta uma significação epistemológica interes- 
sante que é mostrar suas ligações ainda duráveis com os esquemas de ação: com 
efeito, a ação por si só (isto é, não promovida ainda à categoria de operação) é 
sempre orientada no sentido de um objetivo, donde o papel totalmente fecundante 
da noção de ordem neste nível; por exemplo, um trajeto é “mais longo” se chega 
“mais longe” (independentemente dos pontos de partida), etc. Em suma, a função 
constituinte, na medida em que orientada, representa a estrutura semilógica mais 
apta a traduzir as dependências reveladas pela ação e seus esquemas, mas sem que 
elas atinjam ainda a reversibilidade e a conservação que caracterizarão as 
operações. 

Por outro lado, na medida em que ela exprime as dependências interiores à 
ação enquanto mediadora entre o sujeito e os objetos, a função participa, também 
como ação, de uma dúplice natureza, dirigida ao mesmo tempo no sentido da lógi- 
ca (uma vez que suscita coordenações gerais entre os atos) e no sentido da causali- 
dade (visto que exprime dependências materiais). Resta-nos pois lembrar os gran- 
des traços da pré-lógica e da causalidade próprias a este nível de 5 a 6 anos 
imediatamente anterior ao das operações concretas. 

No que concerne à lógica, o primeiro progresso devido às coordenações entre 
as ações conceptualizadas é a diferenciação constante do indivíduo e da classe, o 
que se assinala em particular quanto à natureza das classificações. No nível prece- 
dente, essas consistem ainda em “coleções figurais”, isto é, os conjuntos de ele- 
mentos individuais são construidos com apoio não somente em semelhanças e 
diferenças, mas em convergências de diversas naturezas (uma mesa e o que se põe 
sobre ela, etc.) e sobretudo com a necessidade de atribuir ao conjunto uma confi- 
guração espacial (ordenadas, quadradas, etc.) como se a coleção só existisse 
qualificando-se a si mesma por meio de propriedades individuais à falta de disso- 
ciar a extensão da compreensão. Esta última indiferenciação vai tão longe que, 
por exemplo, cinco elementos tomados a uma coleção de dez no mais das vezes 
deverão dar menos de cinco elementos iguais tirados de uma coleção de trinta ou 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 143 


cinquenta. No presente nível, pelo contrário, os progressos da assimilação coorde- 
nadora dissociam o indivíduo da classe e as coleções já não são figurais, mas con- 
sistem em pequenas reuniões sem configuração espacial. Somente a norma do 
“todos” e do “alguns” está ainda longe de estar acabada, porque para 
compreender que A é maior que B torna-se necessária a reversibilidade A = B — 
A" e a conservação do todo B uma vez dissociada a parte A de seu A” 
complementar. 

À falta de reversibilidade e na ausência desses instrumentos aliás muito 
elementares de quantificação, não há ainda por essa época conservações de con- 
juntos ou de quantidades de matéria, etc. Numerosas experiências feitas em vários 
países com base na nossa sobre esta questão confirmaram a não-existência dessas 
não-conservações próprias aos níveis pré-operatórios. Por outro lado, a identi- 
dade qualitativa dos elementos em jogo não constitui problema: por exemplo, 
quando do transvasamento de um líquido o sujeito reconhecerá que é “a mesma 
água”, ao mesmo tempo pensando que sua quantidade aumentou ou diminuiu, 
visto que o nível se alterou (avaliação ordinal de acordo com a altura apenas). 
J. Bruner vê nesta identificação o ponto de partida da conservação e ela lhe é 
necessária, com efeito, a titulo de condição prévia. Mas não basta de modo al- 
gum, porque a identidade vem tão-somente dissociar entre as qualidades observá- 
veis aquelas que permanecem inalteráveis e as que são modificadas; a conserva- 
ção quantitativa supõe. pelo contrário, a elaboração de relações novas, e. entre 
outras. a compensação das variações de sentidos diferentes (altura e largura da 
coluna de água, etc.), portanto a reversibilidade operatória e os instrumentos de 
quantificação que ela acarreta. 

Quanto às formas fundamentais de composições inferenciais, tais como a 
transitividade A(R)C, se A(R)B e B(R)C, também não são dominadas nesse 
nível. Por exemplo, se o sujeito vê ao mesmo tempo duas varetas A maior que B, 
depois o par B maior que C, não conclui que A é maior que € desde que não os 
perceba simultaneamente. Ou ainda, se lhe são mostrados três vidros de formas 
diferentes, A contendo um líquido vermelho, C um líquido azul, e B vazio e 
depois. se por trás de uma tela se entorna A em C e reciprocamente por inter- 
médio de B, ao ver o resultado o sujeito supõe então que ao mesmo tempo se 
entornou A diretamente em C e C em A sem passar por B e tenta até efetuar esse 
cruzamento antes de constatar sua impossibilidade. Esta falta de transitividade se 
encontra, por outro lado, no domínio da causalidade no que respeita aos proces- 
sos de transmissão mediata. No caso de uma fileira de esferas imóveis na qual se 
movimenta a primeira por uma outra de modo que a última se destaque sozinha, 
pelo impacto, os sujeitos nesse nível não compreendem, como será o caso no está- 
gio seguinte. que uma parte do impulso atravessou as esferas intermediárias: 
supõem, pelo contrário, uma sucessão de transmissões imediatas como se cada 
uma impulsionasse a seguinte por um movimento, à maneira de esferas separadas 
no espaço. Quanto às transmissões imediatas de caráter corrente, como no caso 
do choque de uma bola contra uma outra ou contra uma caixa, etc., a transmissão 
como tal é naturalmente compreendida, mas as direções seguidas pelos objetos 
móveis passivo e ativo após o impacto dificilmente são previstas e explicadas. 


I44 PIAGET 
IV. O primeiro nível do estágio das operações “concretas ” 


A idade de 7 a 8 anos em média assinala um fato decisivo na elaboração dos 
instrumentos de conhecimento: as ações interiorizadas ou conceptualizadas com 
as quais o sujeito tinha até aqui de se contentar adquirem o lugar de operações 
enquanto transformações reversíveis que modificam certas variáveis e conservam 
as outras a título de invariantes. Esta novidade fundamental é devida uma vez 
mais ao progresso das coordenações, vindo as operações se constituir em sistemas 
de conjunto ou “estruturas”, suscetíveis de se fecharem e por este fato assegu- 
rando a necessidade das composições que elas comportam, graças ao jogo das 
transformações diretas e inversas. 

O problema que se apresenta é então o de explicar esta novidade que, ao 
mesmo tempo que apresenta uma alteração qualitativa essencial, portanto uma 
diferença de natureza em relação ao que precede, não pode constituir um começo 
absoluto e deve resultar, aliás, de transformações mais ou menos contínuas. Não 
se observam, com efeito, nunca, começos absolutos no curso do desenvolvimento 
e o que é novo procede ou de diferenciações progressivas, ou de coordenações gra- 
duais, ou ambas ao mesmo tempo, como nos foi dado observar até aqui. Quanto 
às diferenças de natureza que separam as condutas de um estágio das que prece- 
dem, não se as pode então conceber senão como uma passagem limitrofe cujos 
caracteres se torna necessário interpretar em cada caso. Viu-se um exemplo disso 
na passagem do sucessivo ao simultâneo que torna possível a representação ao en- 
sejo dos começos da função semiótica. No caso do conhecimento das operações 
encontramo-nos diante de um processo temporal análogo, mas que envolve a 
fusão em um único ato das antecipações e retroações, o que constitui a reversibi- 
lidade operatória. 

O exemplo da seriação é particularmente claro nesse sentido. Quando se 
trata de ordenar uma dezena de varetas pouco diferentes entre si (de maneira a 
necessitar comparações de duas a duas), os sujeitos do primeiro nível pré-opera- 
tório procedem por pares (uma pequena e uma grande, etc.) ou por trios (uma 
pequena, uma média e uma grande, etc.) mas sem poder em seguida coordená-las 
numa série única. Os sujeitos do segundo nível chegam a uma série correta, mas 
através de apalpadelas e correção de erros. No presente nível, pelo contrário, utili- 
zam não raro um método exaustivo que consiste em procurar em primeiro lugar 
o elemento menor, em seguida o menor dos que restam, etc. Ora, vê-se que este 
método significa admitir de antemão que um elemento qualquer E será ao mesmo 
tempo maior que os bastóezinhos já colocados, seja E menor que D, C, B, A, 
e menor que aqueles que ainda não estão, isto é, E maior que F, G, H, etc. 
À novidade consiste pois em utilizar as relações “menor que” e “maior que”, 
não com a exclusão de uma pela outra, ou por alternâncias não sistemáticas 
no curso dos tateios, mas simultaneamente. Com efeito, até aí o sujeito orienta 
suas manipulações num único sentido de percurso (“menor que” ou “maior que”) 
e se acha embaraçado a partir do momento em que surjam questões relativas 
ao outro sentido possível. Dai por diante, pelo contrário, sua própria elaboração 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 145 


leva em conta dois sentidos ao mesmo tempo (porque o elemento procurado E 
é concebido como sendo ao mesmo tempo “menor que D” e “maior que F”) 
e ela passa sem dificuldade de um a outro: é pois lícito dizer-se que neste caso 
a antecipação (orientada em um dos sentidos) e a retroação tornam-se solidárias, 
o que assegura a reversibilidade do sistema: 

De modo geral, (e, se este fato e bem visível no caso da seriação, pode-se 
dizer a mesma coisa no caso das classificações), a passagem no limiar que carac- 
teriza o aparecimento das operações em oposição com as regulações simples pró- 
prias dos níveis anteriores é que, em lugar de proceder por correção com o passar 
do tempo, isto é, depois que a ação tenha sido executada materialmente, as opera- 
ções consistem em uma pré-correção dos erros, graças ao dúplice concurso das 
operações diretas e inversas, em outras palavras, como acabamos de ver, de ante- 
cipações e retroações combinadas, ou mais precisamente de uma antecipação pos- 
sivel das retroações mesmas. Neste particular, a operação constitui o que se 
chama às vezes em cibernética uma regulação “perfeita”. 

Outra passagem limítrofe, de resto solidária com a precedente, é a que cons- 
titui o fechamento dos sistemas. Antes da seriação operatória o sujeito chegava a 
seriações empíricas obtidas através de apalpadelas; antes das classificações 
operatórias com quantificação da inclusão (A maior que B) o sujeito chegava a 
elaborar coleções figurais ou mesmo não figurais; antes da síntese do número ele 
sabe já contar até certos digitos mas sem conservação do todo quando de modifi- 
cações figurais, etc. Neste sentido a estrutura operatória final aparece como o 
resultado de um processo construtivo contínuo, mas a fusão das antecipações e 
das retroações, que acabamos de discutir, acarreta então um fechamento do siste- 
ma sobre si mesmo, o que se traduz por uma novidade essencial: suas ligações 
internas tornam-se por isso mesmo necessárias e já não consistem mais em rela- 
ções elaboradas sucessivamente sem conexão com as precedentes. Esta necessi- 
dade é proveniente assim duma real passagem limítrofe, porque um fechamento 
pode ser mais ou menos completo e é apenas no momento em que ele é total que 
produz essa particularidade de interdependências necessárias. Estas se manifes- 
tam então sob a forma de duas propriedades solidárias, de ora em diante gerais 
em todas as estruturas operatórias deste nível: a transitividade e as conservações. 

Desnecessário dizer por evidente que a transitividade dos encaixamentos ou 
das relações (A< C se À <Be B <C) esteja ligada ao fechamento dos sistemas: 
enquanto a elaboração destes últimos procede às apalpadelas, à maneira de seria- 
ções em que relações parciais são primeiramente estabelecidas antes de serem 
coordenadas em um todo, a transitividade não poderia ser prevista como neces- 
sária e não se torna evidente a não ser pela percepção simultânea dos elementos 
A < B < C; na medida, pelo contrário, em que haja antecipação dos dois senti- 
dos de percurso “menor que” e “maior que”, a transitividade se impõe como lei do 
sistema e precisamente porque há sistema, isto é, fechamento visto que a posição 
de cada elemento é determinada de antemão pelo próprio método utilizado na 
elaboração . | 

No que concerne às conservações, que constituem o melhor índice da forma- 


146 PIAGET 


ção de estruturas operatórias, elas estão estreitamente ligadas ao mesmo tempo à 
transitividade ec ao fechamento das estruturas. Na transitividade isto é claro, pois, 
sesetem A =C porque À = Be B =C, é que algum caráter se conserva de A 
a C,e, de outro lado, se o sujeito admite como necessárias as conservações A = 
Be B = C, deduzirá delas A = € em virtude dos mesmos raciocínios. Quanto a 
estes argumentos, que se encontram na justificação de todas as conservações, 
todos os três dão provas de composições peculiares a uma estrutura fechada em si 
mesma, isto é, cujas transformações internas não ultrapassam as fronteiras do sis- 
tema e não recorrem, para serem efetuadas, a qualquer elemento exterior a ela. 
Quando, no argumento mais frequente, o sujeito diz simplesmente que o mesmo 
conjunto ou um mesmo objeto conserva sua quantidade ao passar dos estados A 
a B, porque “nada se subtraiu nem ajuntou”, ou simplesmente “porque é o 
mesmo”, não se trata mais, com efeito, da identidade qualitativa própria do nível 
precedente, visto que precisamente esta última não acarretava a igualdade ou a 
conservação quantitativas: trata-se pois daquilo que se chamou em linguagem de 
“orupos” a “operação idêntica” + 0 e esta operação só tem sentido no interior de 
um sistema. Quando (segundo argumento) o sujeito diz que há conservação de A 
a B visto que se pode ir do estado B ao estado A (reversibilidade por inversão), 
trata-se de novo de uma operação inerente a um sistema, porque o retorno empi- 
rico possível de Ba A era também fregientemente admitido no nível precedente, 
mas igualmente sem acarretar com isto a conservação. Em terceiro lugar, quando 
o sujeito diz que a quantidade se conserva porque o objeto se alongou, porém ao 
mesmo tempo reduziu-se (ou que a coleção ocupa um espaço maior porém torna- 
se menos densa) e que uma das duas modificações compensa a outra (reversibi- 
lidade por reciprocidade das relações) é ainda mais claro que hã sistema de con- 
Junto e fechado sobre si mesmo: com efeito, o sujeito não faz qualquer 
mensuração para avaliar as variações e não avalia sua compensação a não ser q 
priori e de maneira puramente dedutiva, o que implica o postulado prévio de uma 
invariância do sistema total. 

Tais são os progressos bastante consideráveis que assinalam o início do está- 
gio das operações concretas no que diz respeito a seu aspecto lógico. Observa-se 
que as passagens limítrofes de que acabamos de falar e que separam este nível do 
precedente são de fato complexas e comportam em realidade três momentos soli- 
dários. O primeiro é o de uma abstração refletidora que extrai das estruturas infe- 
riores aquilo com que elaborar as superiores: por exemplo, a ordenação que cons- 
titui a seriação é obtida das ordenações parciais que intervêm já na elaboração de 
pares, trios ou séries empíricas; as reuniões que caracterizam as classificações 
operatórias são obtidas de reuniões parciais em ação a partir das coleções figurais 
e a formação dos conceitos pré-operatórios, etc. O segundo momento é o de uma 
coordenação que visa a abarcar a totalidade do sistema e tende deste modo ao seu 
fechamento, ligando entre si estas diversas ordenações ou reuniões parciais, etc. 
O terceiro momento é então o da auto-regulação de tal processo coordenador, 
conducente a equilibrar as conexões segundo os dois sentidos direto e inverso 
da construção, de sorte que a chegada ao equilíbrio caracteriza esta passagem 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 147 


limítrofe que engendra as novidades peculiares a estes sistemas em relação aos 
precedentes, e sobretudo sua reversibilidade operatória. 


Essas diversas fases se encontram em particular na sintese do número inteiro 
a partir das inclusões de classes e das relações de ordem. O peculiar de um con- 
Junto numérico ou enumerável, para não dizer numerável, em oposição a coleções 
simplesmente classificáveis ou seriáveis, é em primeiro lugar fazer abstração das 
qualidades dos termos individuais de tal modo que eles se tornem todos equivalen- 
tes. Feito isto poder-se-ia, entretanto, distribuí-los em classes encaixadas (|) < (| 
+ b<(l+|+ |) <,ete., porém sob condição de se poder distingui-las, do con- 
trário certo elemento seria contado duas vezes e um outro esquecido. Ora, uma 
vez eliminadas as qualidades diferenciais dos indivíduos |, , , etc., eles são indis- 
cerníveis e, a limitar-se às operações da lógica das classes qualitativas, não pode- 


riam ensejar a não ser a tautologia A+A = A e não a iteração | + | = ||. 
A única distinção possível que subsiste então, na ausência de qualidade, é aquela 
que resulta da ordem | — | — | => ... (posições no espaço ou no tempo, 
ou ordem de enumeração), embora se trate aí de uma ordem precária (que seria 
a mesma permutando-se os termos). O número aparece. pois. como uma fusão 
operatória da inclusãc das classes e da ordem serial, síntese que se torna necessá- 
ria logo que é feita abstração das qualidades diferenciais sobre as quais se ba- 
seiam classificações e seriações. De fato, é exatamente assim que a elaboração 
dos inteiros parece efetuar-se, em sincronização com a formação destas duas ou- 
tras estruturas (cf. Etudes, vols. XI, XII e XVII). 


Ora, acham-se nessa novidade os três momentos essenciais de toda elabora- 
ção operatória, tais como vimos de indicar: uma abstração refletidora que fornece 
as ligações de encaixamento e de ordem, uma coordenação nova que as reúne num 
todo ([(|) — (DI — (|))..., etc., e uma auto-regulação ou equilibração que per- 
mite percorrer o sistema nos dois sentidos (reversibilidade de adição e de subtra- 
ção) garantindo a conservação de cada conjunto ou subconjunto. Isto não quer 
dizer aliás que esta sintese do número se efetue depois que sejam terminadas as 
estruturas de classificação e de seriação, porque acham-se desde os níveis pré-ope- 
ratórios números figurais sem conservação do todo, e a elaboração do número 
pode favorecer a das inclusões de classes tanto quanto ou às vezes mais que o 
inverso: parece pois que, a partir das estruturas iniciais, possa haver abstração 
refletidora das ligações de encaixamento e ordem para fins múltiplos com inter- 
câmbios colaterais variáveis entre as três estruturas fundamentais de classes, rela- 
ções e números. 


Quanto às operações espaciais (Etudes, vols. XVIII e XIX), elas se consti- 
tuem em paralelismo estreito com as precedentes, menos o fato de que os encaixa- 
mentos não repousam mais sobre as semelhanças e diferenças qualitativas, como 
é o caso das classes de objetos discretos, mas sobre proximidades e distancia- 
mentos. Neste caso, o todo não é mais uma coleção de termos descontínuos, mas 
um objeto total e contínuo cujas partes são reunidas e encaixadas, ou dissociadas, 
segundo o princípio das proximidades: as operações elementares de parcelamento 


148 PIAGET 


ou de colocação e deslocamentos são então isomorfas em relação as de inclusão 
ou de seriação, tanto mais que no nível pré-operatório inicial dá-se indiferen- 
ciação relativa entre os objetos espaciais e as coleções pré-lógicas (cf. as coleções 
figurais em arranjo espacial ou os números figurais avaliados conforme sua confi- 
guração ou extensão do enfileiramento). Quando por volta de 7 a 8 anos a diferen- 
ciação torna-se clara entre essas duas espécies de estruturas, pode-se então falar 
de operações lógico-aritméticas quanto aquelas que repousam sobre o descon- 
tinuo e as semelhanças ou diferenças (equivalências de diversos graus) e de opera- 
ções infralógicas quanto àquelas que decorrem do contínuo e das proximidades, 
pois, uma vez que são isomorfas, são “tipos” diferentes e não transitivas entre si: 
as primeiras partem dos objetos para os reunir ou seriar, etc., ao passo que as 
segundas decompõem um objeto de um único teor; quanto à transitividade, se Só- 
crates é ateniense e, em consegliência, grego, europeu, etc., em contrapartida, o 
nariz de Sócrates, pelo fato de fazer parte dele, nem por isso é ateniense, grego ou 
europeu. 

O isomorfismo dessas operações lógico-aritméticas e infralógicas ou espa- 
ciais é particularmente significativo no caso da elaboração da medida, que se efe- 
tua de maneira muito análoga à do número, mas com uma pequena defasagem no 
tempo pelo fato de que a unidade não é sugerida pelo caráter descontínuo dos ele- 
mentos, mas deve ser constituída por parcelamento do contínuo e antecipada 
como podendo ser referida de novo às demais partes do objeto. A medida aparece 
então (e pode-se seguir passo a passo nas condutas sucessivas as etapas laboriosas 
dessa elaboração) como uma síntese do parcelamento e dos deslocamentos orde- 
nados, em estreito paralelo com a síntese do encaixamento e das relações de 
ordem na elaboração do número. Apenas ao termo dessa nova síntese é que a me- 
dida pode ser simplificada sob a forma de uma aplicação direta do número ao 
contínuo espacial, mas (salvo naturalmente se se oferecem unidades inteiramente 
feitas ao sujeito) é preciso passar pelo atalho infralógico necessário para se chegar 
lá. ; 

A essas multiplas conquistas que assinalam o primeiro nível do estágio das 
operações concretas torna-se necessário acrescentar as que dizem respeito à 
causalidade. Do mesmo modo como nos níveis pré-operatórios esta última consis- 
tia em primeiro lugar em atribuir aos objetos os esquemas de ação própria (sob 
uma forma primeiramente psicomórfica, e depois decompondo esses esquemas em 
funções objetiváveis), também a causalidade consiste a partir dos 7 a 8 anos em 
uma espécie de atribuição das operações em si mesmas a objetos assim promovi- 
dos à posição de operadores cujas ações tornam-se componíveis de maneira mais 
ou menos racional. É assim que nas questões de transmissão do movimento a 
transitividade operatória se traduz pela formação de um conceito de transmissão 
mediata “semi-interna”: na medida em que admite, por exemplo, que o móvel 
ativo pôe em movimento o último dos passivos, porque os móveis intermediários 
se deslocaram ligeiramente para impulsionarem uns aos outros, o sujeito suporá 
entretanto que um “impulso”, uma “corrente”, etc., atravessou esses mediadores. 
Nos problemas de equilíbrio entre pesos, o sujeito invocará compensações e 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 149 


equivalências atribuindo aos objetos composições ao mesmo tempo aditivas e 
reversíveis. Em resumo, pode-se falar de um início de causalidade operatória, sem 
que isto signifique, de resto, que as operações precedentemente descritas se consti- 
tuam completamente autônomas para serem em seguida apenas atribuídas ao real: 
é, frequentes vezes pelo contrário, por ocasião de uma busca de explicação causal 
que se efetuam simultaneamente a síntese operatória e sua atribuição aos objetos, 
por interações variadas entre as formas operatórias devidas à abstração refleti- 
dora e conteúdos obtidos da experiência física por abstração simples e que podem 
favorecer (ou inibir) as estruturações lógicas e espaciais. 

Esta última observação leva a insistir agora sobre a questão dos limites pecu- 
liares a este nível ou que caracterizam as operações concretas em geral. Contra- 
riamente, com efeito, às operações que chamaremos de formais ao nível dos Il a 12 
anos, e que se caracterizam pela possibilidade de raciocinar sobre hipóteses distin- 
guindo a necessidade das conexões devidas à forma e à verdade dos conteúdos, as 
operações “concretas” recaem diretamente sobre os objetos: isto equivale, pois, 
ainda a agir sobre eles, como nos níveis pré-operatórios, mas conferindo a essas 
ações (ou àquelas que lhes são atribuídas quando são consideradas como opera- 
ções causais) uma estrutura operatória, isto é, componível de maneira transitiva e 
reversível. Sendo assim, é portanto claro que certos objetos se prestarão mais ou 
menos facilmente a esta estruturação, ao passo que outros oferecerão resistência 
a ela, o que significa que a forma não poderia ser dissociada dos conteúdos, e que 
as mesmas operações concretas não se aplicariam a não ser com decalagens 
cronológicas a conteúdos diferentes: é assim que a conservação das quantidades, 
a seriação, etc., e mesmo a transitividade das equivalências só vêm a ser domina- 
das no caso do peso por volta dos 9 a 10 anos e não aos 7 a 8 anos como para os 
conteúdos simples, porque o peso é uma força e seu dinamismo causal cria obstá- 
culos a essas estruturações operatórias; e, no entanto, uma vez efetuadas estas, 
com os mesmos métodos e os mesmos argumentos com que se dão as conserva- 
ções, seriações ou transitividade de 7 a 8 anos. 

Uma outra limitação fundamental das estruturas de operações concretas é 
que suas composições procedem por aproximação sucessiva e não conforme 
combinações de qualquer tipo. Este é o aspecto essencial das estruturas de “gru- 
pamentos”, dos quais um exemplo singelo é o da classificação. Se A, B,C, etc., 


são classes encaixadas e A”, B'e C” seus complementares sob a classe seguinte 
tem-se: 


DA+A' =B;B+B' =Csetc 
DB—-A'=A;C—B = B'etc. 
3) A+O=A 


49 A+A = A, donde À + B = B;etc. 
I(A+rAD+AHB =A+4(A + B) 
porém:(A+A)-AXZA+(A-—A) 
porque: A —-A=0€A+TO=A. 


Neste caso uma composição não contígua tal como A + Fº não dá uma classe 
simples, mas chega a(G — E — D' — Cº — Bº* — A9. E ainda o caso no “grupa- 


150 PIAGET 


mento” de uma classificação zoológica em que “a ostra + o camelo” não pode 
compor-se de outro modo. Ora, uma das particularidades deste primeiro nível das 
operações concretas é que até a síntese do número que parece dever escapar a 
essas limitações (pois que os inteiros formam um grupo com o zero e os negativos 
e não um grupamento), só procede por aproximação. P. Gréco demonstrou, de 
fato, que a elaboração dos números naturais só se efetua segundo o que se poderia 
chamar de uma aritmetização progressiva cujas fases seriam mais ou menos 
caracterizadas pelos números 1 a 7;8 a 15; 16 a 30 e assim por diante. Além des- 
sas fronteiras cujo deslocamento é muito lento, os números não comportariam 
ainda senão aspectos inclusivos (classes) ou seriais, antes que se conclua a sintese 
desses dois caracteres (Etudes, vol. XIIN). 


V. O segundo nível das operações concretas 


Neste subestágio (cerca de 9 a 10 anos) atinge-se o equilíbrio geral das ope- 
rações “concretas” além das formas parciais já equilibradas desde o primeiro 
nível. De resto, é o degrau onde as lacunas próprias à natureza mesma das opera- 
ções concretas começam a fazer sentir em certos setores, sobretudo no setor da 
causalidade, e onde estes novos desequilíbrios preparam de algum modo o ree- 
quilíbrio do conjunto que caracterizará o estágio seguinte e do qual se apercebem 
às vezes alguns esboços intuitivos. 

A novidade deste subestágio se assinala em particular no domínio das opera- 
ções intralógicas ou espaciais. É assim que a partir dos 7 a 8 anos se vêem consti- 
tuir certas operações relativas às perspectivas e às mudanças de ponto de vista no 
que respeita a um mesmo objeto do qual se modifica a posição em relação ao 
sujeito. Em contrapartida, será apenas próximo aos 9 entre 10 anos que se poderá 
falar de uma coordenação dos pontos de vista em relação a um conjunto de obje- 
tos, por exemplo, três montanhas ou edificios que serão observados em diferentes 
situações. Analogamente, neste nível as medidas espaciais de uma, duas ou três 
dimensões engendram a construção de coordenadas naturais que as englobam 
num sistema total: é igualmente apenas cerca de 9 e 10 anos que serão previstas 
a horizontalidade do nível da água num recipiente que se inclina, ou a verticali- 
dade de um fio de prumo, próximo a uma parede oblíqua. De modo geral trata-se 
em todos esses casos da construção de ligações interfigurais além das conexões 
intrafigurais que intervinham sós no primeiro subestágio, ou, se se preferir, da 
elaboração de um espaço por oposição às simples figuras. 

Do ponto de vista das operações lógicas, pode-se notar o seguinte: a partir 
dos 7 a 8 anos o sujeito é capaz de elaborar estruturas multiplicativas tão bem 
quanto aditivas, a saber, tabelas com registros duplos (matrizes) comportando 
classificações segundo dois critérios ao mesmo tempo, correspondências seriais 
ou seriações duplas (por exemplo, folhas de árvore seriadas na vertical conforme 
seu tamanho e na horizontal conforme seus matizes mais ou menos escuros). Con- 
tudo, trata-se no caso mais de sucesso em relação à questão proposta (“dispor as 
figuras o melhor possível”, sem sugestão sobre a disposição a encontrar) do que 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 151 


de uma utilização espontânea da estrutura. Ao nível dos 9 a 10 anos, por outro 
lado, quando se tratar de separar as dependências funcionais num problema de 
indução (por exemplo entre os ângulos de reflexão e de incidência), observa-se 
uma capacidade geral de destacar covariações quantitativas, sem ainda dissociar 
os fatores como será o caso no estágio seguinte, mas pondo em correspondência 
relações seriadas ou classes. O método dá conta de uma estruturação operatória 
eficaz, por mais global que possa ficar o procedimento enquanto as variáveis per- 
maneçam insuficientemente distintas. Analogamente, assiste-se a um progresso lí- 
quido na compreensão das interseções: ao passo que o produto cartesiano repre- 
sentado por matrizes de registro duplo é facilmente apreendivel desde o nível de 7 
a 8 anos, na medida em que estrutura multiplicativa completa (e isto quase ao 
mesmo tempo que o manejo de classes disjuntas em um grupamento aditivo), a 
interseção de duas ou muitas classes não disjuntas só é dominada no presente 
nível assim como em muitos casos ainda a quantificação da inclusão AB maior 
que B. 

No domínio causal, por outro lado, este nível de 9 a 10 anos apresenta uma 
mistura bastante curiosa de progressos notáveis e de lacunas não menos significa- 
tivas que se apresentam não raro até como espécies de regressões aparentes. 

À começar pelos progressos, as considerações dinâmicas e a cinemática fica- 
riam até então indiferenciadas, pelo fato de que o próprio movimento com sua 
velocidade era considerado como uma espécie de força, muitas vezes chamada 
“impulso”: no nível de 9 a 10 anos, porém, assiste-se a uma dissociação e a uma 
coordenação tais que os movimentos e sobretudo suas alterações de velocidade 
exigem a intervenção de uma causa exterior, o que se pode simbolizar como segue 
em termos de ação, isto é, da força / se exercendo durante um tempo £ e por uma 
distância e (isto é: fte): fte = dp no sentido de fte — dp, em que dp = d(mv) e não 
m dv, ao passo que no nível precedente tem-se simplesmente fe = dp ou mesmo 
fte = p. Só no estágio seguinte intervirá a aceleração (cf. f = ma). Por outro lado, 
a diferenciação da força e do movimento conduz a certos progressos, direcionais 
ou pré-vetoriais, dando conta ao mesmo tempo do sentido das impulsões ou tra- 
ções do móvel ativo e da resistência dos móveis passivos (concebida como uma 
freada sem ainda noções de reações). No caso do peso este progresso é bem paten- 
te. Por exemplo, uma haste em posição oblíqua deverá por essa razão cair no sen- 
tido da sua inclinação, ao passo que no presente nível ela cai verticalmente. É pre- 
ciso doravante mais força para fazer um vagão subir num plano inclinado do que 
para o manter parado, ao passo que no nível precedente era o contrário porque, 
retido, o vagão tem tendência a descer ao passo que se se faz com que suba ele 
não desce mais! E sobretudo a horizontalidade da superficie da água é de ora em 
diante explicada pelo peso do líquido (até então considerado leve devido a ser 
móvel) e por sua tendência a descer, o que exclui as desigualdades de altura: vê-se 
neste último caso a interdependência estreita das construções espaciais interfigu- 
rais (coordenadas naturais) e do progresso causal que faz intervir forças e direções 
que não dependem mais como até então das interações apenas entre a água e seu 
recipiente. 


152 PIAGET 


Mas o preço dessa evolução da causalidade é que o sujeito levanta uma série 
de novos problemas dinâmicos sem os poder dominar, donde, às vezes, uma apa- 
rência de regressão. Por exemplo, pelo fato de que o peso cai doravante vertical- 
mente, o sujeito admitirá de bom grado que ele pesa mais embaixo de um fio do 
que no alto (quando não é o inverso em vista de sua queda próxima. ..). Ou, 
ainda, pensará que o peso de um corpo aumenta com sua impulsão e diminui com 
sua velocidade, como se, de p = mv, se tirasse m = p.v, etc. Torna-se evidente 
então que tais suposições causam obstáculo às composições aditivas, etc., donde 
reações parecerem regressivas. O sujeito sai-se airosamente ao distinguir dois 
aspectos ou domínios. De uma parte ele considera o peso enquanto propriedade 
invariante dos corpos: com efeito, a conservação do peso por ocasião das mudan- 
ças de forma do objeto começa precisamente neste nível, assim como as seriações, 
transitividade e outras composições operatórias aplicadas a esta noção. Mas, por 
outro lado, julga suas ações variáveis, ao sustentar simplesmente que em certos 
casos o peso “dá” ou “pesa” (ou “puxa”, etc.) mais que em outros, o que não é 
falso, mas continua incompleto e arbitrário, pois que não haverá, como no estágio 
seguinte, composição do peso com as grandezas espaciais (comprimentos, superfi- 
cies ou volumes com as noções de momento, de pressão, densidade ou peso relati- 
vo, e sobretudo de trabalho). 

No todo, o segundo nível do estágio das operações concretas apresenta uma 
situação paradoxal. Até aqui assistimos, partindo de um nível inicial de indiferen- 
ciação entre sujeito e objeto, a progressos complementares e relativamente equiva- 
lentes nas duas direções da coordenação interna das ações depois das operações 
do sujeito, e a coordenação externa das ações primeiramente psicomórficas depois 
operatórias atribuídas aos objetos. Em outros termos, observamos, nível por nível, 
duas espécies de evolução estreitamente solidárias: a das operações lógico-mate- 
máticas e a da causalidade, com influência constante das primeiras sobre a segun- 
da do ponto de vista das abribuições de uma forma a um conteúdo e influência 
recíproca do ponto de vista das facilidades ou resistências que o conteúdo oferece 
ou opõe à forma. Quanto ao espaço, participa desses dois movimentos ou nature- 
zas, suscitando ao mesmo tempo operações geométricas ou infralógicas do sujeito 
e propriedades estáticas, cinemáticas e mesmo dinâmicas do objeto, donde seu 
papel constante de órgão de ligação. Ora, neste segundo subestágio do estágio das 
operações concretas encontramo-nos diante de uma situação que, ao mesmo 
tempo prolongando as precedentes, comporta a novidade que vem a seguir. De 
uma parte, as operações lógico-matemáticas, inclusive as espaciais, chegam por 
suas generalizações e seu equilíbrio a um estado de extensão e utilização máxi- 
mas, porém sob sua forma muito limitada de operações concretas com tudo o que 
comporta de restrições as estruturas de “grupamentos” (quanto às classes e às 
relações), escassamente ultrapassadas pelos inícios da aritmetização e da geome- 
trização métrica. Por outro lado, o desenvolvimento das pesquisas e mesmo expli- 
cações causais, em patente progresso sobre as do primeiro estágio (de 7 a 8 anos), 
conduz o sujeito a levantar um conjunto de problemas de cinemática e dinâmica 
que ainda não está em condições de resolver com os meios operatórios de que dis- 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 153 


põe. Segue-se então, e eis o que é novo, uma série de desequilíbrios fecundos, sem 
dúvida análogos funcionalmente àqueles que intervêm desde os inícios do desen- 
volvimento, mas cujo alcance é bem maior para as estruturações ulteriores: eles 
conduzirão, com efeito, a completar estruturas operatórias já construídas e pela 
primeira vez estáveis, construindo sobre sua base “concreta” essas “operações 
sobre operações” ou operações elevadas à segunda potência que constituirão as 
operações proposicionais ou formais, com sua propriedade combinatória, seus 
grupos de quaternalidade, suas proporcionalidades e distributividades e tudo o 
mais que estas novidades tornam possível no terreno da causalidade. 


VI. As operações formais 


Com as estruturas operatórias “formais” que começam a se constituir por 
volta dos 11 a 12 anos, chegamos à terceira grande fase do processo que leva as 
operações a se libertarem da duração, isto é, do contexto psicológico das ações do 
sujeito com aquelas que comportam dimensões causais além de suas propriedades 
implicadoras ou lógicas, para atingir finalmente esse aspecto extemporâneo que é 
peculiar das ligações lógico-matemáticas depuradas. A primeira fase era a da fun- 
ção semiótica (cerca de | 1/2 a 2 anos) que, com a subjetivização da imitação em 
imagens e a aquisição da linguagem, permite a condensação das ações sucessivas 
em representações simultâneas. A segunda grande fase é a do início das operações 
concretas que, ao coordenar as antecipações e as retroações, chegam a uma rever- 
sibilidade suscetível de traçar retrospectivamente o curso do tempo e garantir a 
conservação dos pontos de partida. Mas se se pode, neste particular, falar já de 
uma mobilidade conquistada sobre a duração, ela permanece ligada a ações e 
manipulações que em si são sucessivas, pois que se trata de fato de operações que 
continuam “concretas”, isto é, que recaem sobre os objetos e as transformações 
reais. As operações “formais” assinalam, por outro lado, uma terceira etapa em 
que o conhecimento ultrapassa o próprio real para inserir-se no possível e para 
relacionar diretamente o possível ao necessário sem a mediação indispensável do 
concreto: ora, o possível cognitivo, tal como, por exemplo, a segiência infinita de 
números inteiros, a potência do contínuo ou simplesmente as dezesseis operações 
resultantes das combinações de duas proposições p e q e de suas negações, é 
essencialmente extemporâneo, em oposição ao virtual físico cujas realizações se 
deslocam no tempo. 

Com efeito, a primeira característica das operações formais é a de poder re- 
cair sobre hipóteses e não mais apenas sobre os objetos: é esta novidade funda- 
mental da qual todos os estudiosos do assunto notaram o aparecimento perto dos 
11 anos. Ela porém implica uma segunda, não menos essencial: como as hipóteses 
não são objetos, são proposições, e seu conteúdo consiste em operações intrapro- 
posicionais de classes, relações, etc., do que se poderia oferecer a verificação dire- 
ta; o mesmo se pode dizer das consequências tiradas delas pela via inferencial; 
por outro lado, a operação dedutiva que leva das hipóteses às suas conclusões não 
é mais do mesmo tipo, mas é interproposicional e consiste pois em uma operação 


154 PIAGET 


efetuada sobre operações, isto é, uma operação elevada à segunda potência. Ora, 
esta é uma característica muito geral das operações que devem atingir este último 
nível para se constituir, desde que se trate de utilizar as implicações, etc., a lógica 
das proposições ou de elaborar relações entre relações (proporções, distributi- 
vidade, etc.), de coordenar dois sistemas de referência, etc. 

É este poder de formar operações sobre operações que permite ao conheci- 
mento ultrapassar o real e que lhe abre a via indefinida dos possíveis por meio da 
combinatória, libertando-se então das elaborações por aproximação às quais per- 
manecem submetidas as operações concretas. Com efeito, as combinações n a n 
constituem de fato uma classificação de todas as classificações possíveis, e as ope- 
rações de permutação vêm a ser uma seriação de todas as seriações possíveis, etc. 
Uma das novidades essenciais das operações formais consiste assim em enrique- 
cer os conjuntos de partida, elaborando “conjuntos de partes” ou simplexos? que 
repousam sobre uma combinatória. Sabe-se em particular que as operações 
proposicionais comportam esta estrutura, assim como a lógica das classes em 
geral quando ela se liberta dos limites peculiares aos “grupamentos” iniciais, 
donde a construção de “redes”. Vê-se portanto a unidade profunda de algumas 
novidades indicadas até este ponto. 

Existe porém uma outra que é também fundamental e que a análise dos fatos 
psicológicos nos permitiu pôr em evidência nos anos 1948-1949 antes que os estu- 
diosos da lógica por sua parte se interessassem por esta estrutura: é a união 
em um único “grupo quaternário” (grupo de Klein) das inversões e reciprocidades 
no seio das combinações proposicionais (ou de um “conjunto de partes” em ge- 
ral). No seio das operações concretas existem duas formas de reversibilidade: 
a inversão ou negação que chega a anular um termo, por exemplo, FTA — A 
= 0),e a reciprocidade (A = Be B = A, etc.) que chega a equivalências, portanto 
a uma supressão de diferenças. Mas, se a inversão caracteriza os grupamentos 
de classe e a reciprocidade caracteriza os grupamentos de relações, não existe 
absolutamente ainda no nível das operações concretas sistema de conjunto 
unindo essas transformações em um único todo. Por outro lado, no nível da com- 
binação proposicional, toda operação como p -—) q comporta uma inversa N, 
a saber p. q e uma recíproca R,isto é, DP ) q = q — p, assim como uma 
correlativa C (isto é, D.q por permutação das disjunções e conjunções na sua 
forma normal) que é o inverso de sua recíproca. Tem-se então um grupo comuta- 
tivo, NR = C; CR = N; CN = Re NRC = I, cujas transformações são opera- 
ções à terceira potência pois as operações que elas reúnem desse modo são já 
de segunda potência. Este grupo, do qual o sujeito não tem naturalmente cons- 
ciência alguma enquanto estrutura, exprime todavia aquilo que ele vem a ser 
capaz de fazer todas as vezes que distingue uma inversão e uma reciprocidade 
para as compor entre si. Por exemplo, quando se trata de coordenar dois sistemas 
de referência, no caso de um móvel A se deslocando sobre um suporte B, o objeto 
A pode ficar no mesmo ponto em referência com o exterior seja por inversão 


2 Neologismo cuja significação se depreende do presente contexto. (N. do T.) 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 155 


de seu movimento, seja por compensação entre seus deslocamentos e os do su- 
porte: ora, tais composições não são antecipadas senão no presente nível e impli- 
cam o grupo INRC. Igualmente os problemas de proporcionalidade, etc.. par- 
tindo de proporções lógicas inerentes a este grupo (I: N:: C: R; etc.). 

O conjunto dessas novidades, que permitem enfim falar-se de operações 
lógico-matemáticas autônomas e bem diferenciadas das ações matemáticas com 
sua dimensão causal, acompanha-se de um conjunto correlativo também fértil no 
domínio da própria causalidade, pois, na medida mesma desta diferenciação se 
estabelecem relações de coordenação e mesmo de apoio mútuo sobre dois degraus 
pelo menos e de um modo que se aproxima cada vez mais dos procedimentos do 
próprio pensamento científico. 

O primeiro desses degraus é o da própria observação dos dados da expe- 
riência física (no sentido amplo), pois (voltaremos a isto no capítulo III) não exis- 
te experiência pura no sentido do empirismo e os fatos só são acessíveis quando 
assimilados pelo sujeito, o que pressupõe a intervenção de instrumentos lógico- 
matemáticos de assimilação construtora das relações que enquadram ou estrutu- 
ram esses fatos e do mesmo modo os enriquecem. Neste sentido, é evidente que os 
instrumentos operatórios elaborados pelo pensamento formal permitem a observa- 
ção de um grande número de novidades dadas pela experiência. quando não, pelo 
menos permitindo coordenar dois sistemas de referência. Mas não há, neste caso, 
processo em sentido único, pois, se uma forma operatória é sempre necessária 
para estruturar os conteúdos, estes por sua vez podem não raro favorecer a elabo- 
ração de novas estruturas adequadas. É em particular o caso no domínio das leis 
de forma proporcional, ou da distributividade, etc. 

Se esse primeiro degrau é pois o das operações aplicadas ao objeto e garante 
entre outras coisas a indução das leis físicas elementares, o segundo degrau será 
o da própria explicação causal, isto é, das operações atribuídas aos objetos. Neste 
sentido observa-se no presente nível o mesmo progresso maciço no domínio da 
causalidade que no das operações lógico-matemáticas. Ao papel geral do possível 
neste último terreno corresponde no plano físico o do virtual, permitindo 
compreender que as forças continuam a intervir num estado imóvel, ou que em 
um sistema de diversas forças cada uma conserve sua ação, ao mesmo tempo a 
compondo com a das demais; a esses conceitos que ultrapassam as fronteiras do 
observável se liga até a noção de transmissões puramente “internas” sem desloca- 
mento molar dos intermediários. À elaboração de operações sobre operações ou 
de relações de relações correspondem entre outras as relações novas, do segundo 
grau, entre um peso ou uma força e grandezas espaciais: a densidade em geral e 
as relações entre peso e volume na flutuação, a pressão quanto a superfícies, ou o 
momento e sobretudo o trabalho quanto ao que respeita a extensão ou distâncias 
percorridas. Aos esquemas combinatórios e à estrutura operatória do conjunto 
das partes corresponde, de uma parte, a noção espacial dum contínuo que ocupa 
o interior das superfícies (até então sobretudo concebidas em função de seu peri- 
metro) e dos volumes: donde a importância neste estágio da consideração dos 
volumes (sua conservação ao ensejo das alterações de forma só começa neste 


156 PIAGET 


nível), de suas relações com o peso e modelos corpusculares que permitam equi- 
pá-lo de elementos inobserváveis mais ou menos “apertados”. Por outro lado, a 
esses esquemas correspondem os inícios da composição vetorial das direções, ao 
passo que a compreensão das intensidades é garantida pelas transformações da 
noção de força tornadas possíveis, como acabamos de ver, pela intervenção do 
virtual. 

Ao grupo INRC corresponde finalmente a compreensão de um conjunto de 
estruturas físicas, entre as quais as de ação e reação: por exemplo, o sujeito 
compreenderá, em uma prensa hidráulica, que o aumento de densidade do líquido 
escolhido se opõe à descida do pistão, em lugar de a facilitar como ele pensava até 
então; ou então se o experimentador e ele mesmo comprimem cada um uma 
moeda dos dois lados de um pedaço de massa poderá prever que as profundezas 
serão iguais porque a pressões não iguais entre si se opõem resistências sempre 
equivalentes. Neste caso, tanto a previsão dos sentidos opostos (difícil no que diz 
respeito ao líquido) como a estimativa das forças supõem a diferenciação e a 
coordenação das reciprocidades e das inversões, portanto um grupo isomorfo ao 
INRC. 

Em geral, este último nível apresenta um aspecto marcante em continuidade 
aliás com o que nos ensina toda a psicogênese dos conhecimentos a partir das 
indiferenciações iniciais (descritas no $ 1): é na medida em que se interiorizam as 
operações lógico-matemáticas do sujeito graças as abstrações refletidoras que ela- 
boram operações sobre outras operações e na medida em que é finalmente atin- 
gida esta extemporaneidade que caracteriza os conjuntos de transformações possi- 
veis e não mais apenas reais que o mundo físico e seu dinamismo espaço- 
temporal, englobando o sujeito como uma parte ínfima entre as demais, começa a 
tornar-se acessível a uma observação objetiva de certas de suas leis e sobretudo a 
explicações causais que forçam o espírito a uma constante descentração na sua 
conquista dos objetos. Em outros termos, o dúplice movimento de interiorização 
e de exteriorização que começa desde o nascimento vem a garantir este acordo 
paradoxal de um pensamento que se liberta enfim da ação material e de um uni- 
verso que engloba esta última mas a ultrapassa de todas as partes. Não há dúvida 
de que a ciência nos colocou há muito diante dessas convergências surpreendentes 
entre a dedução matemática e a experiência, mas é impressionante constatar que 
em níveis bem inferiores do das técnicas formalizantes e experimentais uma inteli- 
gência ainda muito qualitativa e mal aberta ao cálculo chegue a correspondências 
análogas entre essas tentativas de abstração e seus esforços de observação embora 
pouco metódicos. É sobretudo instrutivo constatar que este acordo é fruto de lon- 
gas séries correlativas de construções novas e não predeterminadas, partindo de 
um estado de confusão indiferenciada de onde aos poucos se destacam as opera- 
ções do sujeito e a causalidade do objeto. 


CAPÍTULO II 


As Condições Orgânicas Prévias 


Biogênese dos Conhecimentos 


Se nos restringimos às explicações “genéticas” sem recorrer ao transcen- 
dental, a situação que vimos de descrever parece não poder comportar senão três 
interpretações. A primeira consistiria em admitir que, malgrado a oposição apa- 
rente das direções seguidas pela evolução das operações lógico-matemáticas, em 
sua interiorização progressiva, e pela da experiência e da causalidade físicas, em 
sua exteriorização, seu acordo cada vez mais estreito proviria todavia dos dados 
ecógenos fornecidos pela coerções do real e do “meio”. A segunda equivaleria a 
atribuir esta convergência gradual a uma fonte comum que seria hereditária, e a 
procurar desse modo a solução no sentido de um compromisso entre o apriorismo 
e a genética biológica, à maneira de K. Lorenz, e considerando então como ilusó- 
rios os aparecimentos de novidades incessantemente elaboradas que o construti- 
vismo adotado no capítulo precedente sugere. A terceira aceitaria também a idéia 


de uma fonte comum, considerando a dúplice construção dos conhecimentos 
lógico-matemáticos e físicos dos quais se trata de dar conta, e sobretudo a necessi- 
dade intrínseca atingida pelas primeiras, como relacionadas igualmente a meca- 
nismos biológicos prévios à psicogênese, mas suscitando auto-regulações mais ge- 
rais e mais fundamentais que as próprias transmissões hereditárias, pois estas são 
sempre especializadas e sua significação para os processos cognitivos se atenua 
com a evolução dos organismos “superiores” em lugar de se reforçar. 

Nos três casos, o problema epistemológico deve pois ser colocado agora em 
termos biológicos, o que é indispensável na perspectiva de uma epistemologia 
genética, visto que a psicogênese permanece incompreensível a menos que se 
recue às suas raízes orgânicas. 


Ff. O empirismo lamarckiano 


A primeira das três soluções precedentes apresenta uma significação bioló- 
gica evidente. Sem dúvida os psicólogos (comportamentistas e outros) que atri- 
buem todos os conhecimentos a aprendizagens em função da experiência, e os 
epistemologistas (positivismo lógico) que não vêem nas operações lógico-mate- 
máticas mais que simples linguagem destinada a traduzir os dados da experiência 
sob uma forma em si mesma tautológica, não se preocupam com as incidências 
biológicas que suas posições comportam. Mas a primeira das questões que nos é 


158 PIAGET 


necessário colocar é precisamente a de saber se eles estão certos. Esta seria inata- 
cável se o postulado que eles admitem implicitamente fosse fundamentado: que o 
conhecimento, sendo de natureza “fenotípica”, isto é, relacionado ao desenvolvi- 
mento somático dos indivíduos, não suscita mecanismos biogenéticos, os quais di- 
riam respeito apenas ao genômio e às transmissões hereditárias. Mas sabe-se hoje 
que tal distinção nada tem de absoluto, e isto por inúmeras razões das quais 
damos duas principais. À primeira é que o fenótipo é o produto de uma interação 
contínua entre a atividade sintética do genômio no curso do crescimento e as 
influências exteriores. A segunda é que, para cada influência do meio suscetível de 
ser diferenciada e mensurada, pode-se determinar em um genótipo dado sua 
“norma de reação” que fornece a amplitude e a distribuição das variações indivi- 
duais possíveis: ora, as aprendizagens cognitivas são, também elas, submetidas a 
tais condições e D. Bovet o provou com ratos por uma dupla análise de certas 
linhagens genéticas e das possibilidades bem diferentes de aquisições sensório-mo- 
trizes correspondendo respectivamente a essas diversas hereditariedades. 

Isto posto, a hipótese que unificaria todo conhecimento a apenas os efeitos 
da experiência corresponderia biologicamente a uma doutrina abandonada há 
muito tempo neste terreno, não porque fosse falsa no que afirmava, mas porque 
desprezava o que veio a revelar-se essencial à compreensão das relações entre o 
organismo e o meio: trata-se da doutrina lamarckiana da variação e da evolução. 
Pouco depois que Hume procurou a explicação dos fatos mentais nos mecanismos 
do hábito e da associação, Lamarck via igualmente nos hábitos contraídos sob a 
influência do meio ambiente o fator explicativo fundamental das variações morfo- 
genéticas do organismo e da formação dos órgãos. Sem dúvida falava ele também 
de um fator de organização, mas no sentido de um poder de associação e não de 
composição e o essencial das aquisições atinha-se para ele à maneira pela qual os 
seres vivos recebiam, ao modificar seus hábitos, as marcas do meio exterior. 

É certo que essas teses não eram erradas, e, no que respeita às influências do 
meio, a moderna “genética das populações” não fez em definitivo senão substituir 
uma ação causal direta dos fatores externos sobre as unidades genéticas indivi- 
duais (hereditariedade do adquirido no sentido lamarckiano) pela noção de ações 
probabilistas (seleção) de um conjunto de fatores externos sobre sistemas de 
pluriunidades (coeficiente de sobrevivência de reprodução, etc., da unidade gené- 
tica ou dos genótipos diferenciados) dos quais esses fatores modificam as propor- 
ções. Mas o que faltava essencialmente a Lamarck eram as noções de um poder 
endógeno de mutação e de recombinação e sobretudo de um poder ativo de auto- 
regulação. Resulta disto que quando Waddington ou Dobzhansky e outros nos 
apresentam hoje o fenótipo como uma “resposta” do genômio as incitações do 
meio, esta resposta não significa que o organismo tenha simplesmente sofrido a 
marca de uma ação externa, mas que tenha havido interação no sentido pleno do 
termo, isto é, que, em consegliência de uma tensão ou de um desequilíbrio provo- 
cados por uma alteração do meio, o organismo inventou por combinações uma 
solução original conducente a um novo equilíbrio. 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 159 


Ora. a comparar esta noção de “resposta” aquela de que por muito tempo 
se serviu o comportamentismo em seu famoso esquema estímulo-reposta (SR), 
verifica-se com surpresa que os psicólogos dessa escola conservaram um espírito 
estritamente lamarckiano e desdenharam a revolução biológica contemporânea. 
Resulta disto que as noções de estimulo e de resposta devem, mesmo se se con- 
serva esta linguagem que é cômoda, sofrer profundíssimas reorganizações que 
modificam totalmente sua interpretação. Com efeito, para que o estímulo desenca- 
deie certa resposta, é necessário que o sujeito e seu organismo sejam capazes de 
a fornecer, dai a questão prévia ser quanto a esta capacidade, que corresponde ao 
que Waddington chamou “competência” no terreno da embriogênese (em que esta 
“competência se define pela sensibilidade aos “indutores”). No princípio não está 
pois o estimulo, mas a sensibilidade ao estimulo e este depende naturalmente da 
capacidade de dar uma resposta?. O esquema deve portanto ser escrito não S >R 
mas S “= R ou mais rigorosamente S (A) R em que A representa a assimilação 
do estímulo a certo esquema de reação que é fonte da resposta. Esta modificação 
do esquema S—R não decorre absolutamente de simples questão de rigor ou 
de conceptualização teórica; ela advém do que nos parece ser o problema central 
da evolução cognitiva. Na perspectiva exclusivamente lamarckiana do comporta- 
mentismo, a resposta não passa de uma espécie de “cópia funcional” (Hull) das 
sequências peculiares aos estímulos, portanto simples réplica do estimulo. A con- 
sequência disto é que o processo fundamental de aquisição é a aprendizagem 
concebida sobre o modo empirista de registro dos dados externos. Se isto é certo, 
seguir-se-ia então que o desenvolvimento em seu conjunto deveria ser concebido 
como a resultante de uma seglência ininterrupta de aprendizagens assim interpre- 
tadas. Se, pelo contrário, o fato fundamental de partida é a capacidade de fornecer 
certas respostas, portanto a “competência”, resultaria inversamente que a apren- 
dizagem não seria a mesma nos diferentes níveis do desenvolvimento (o que pro- 
vam já as experiências de B. Inhelder, H. Sinclair e M. Bovet) e que ele dependeria 
essencialmente da evolução das “competências”. O verdadeiro problema seria 
então o de explicar este desenvolvimento, e a aprendizagem no sentido clássico do 
termo não bastaria para isso, assim como o lamarckismo não conseguiu dar conta 
da evolução (cf. os vols. VII a X dos Etudes). 


“Jr. O inatismo 


Se a hipótese das aprendizagens exógenas dominou amplamente os trabalhos 
das gerações precedentes, assiste-se hoje não raro a uma inversão das perspecti- 
vas, como se a rejeição do empirismo de forma (lamarckiana ou o que os autores 
americanos chamam o “ambientalismo”) conduzisse necessariamente ao inatismo 


3 Mencionemos que K. H. Pribram pôs em evidência a existência de um controle cortical (regiões associati- 
vas) dos inputs que “dispõem previamente o mecanismo receptor de tal sorte que certos inputs tornam-se esti- 
mulos e que outros possam ser desprezados” (Congresso Inter. Psicol, Moscou. vol. XVHI.p. 184). O próprio 
pretenso “arco” reflexo não mais é considerado um arco S -»R mas constitui um servomecanismo. um “anel 
homeostático de feedback “ (N. do A) 


160 PIAGET 


(ou ao “maturacionismo”), o que redunda em esquecer que entre os dois podem 
subsistir interpretações à base de interações e de auto-regulações.* 

Assim é que o grande lingúista N. Chomsky prestou o serviço à psicologia de 
fornecer uma critica decisiva das interpretações de Skinner e de mostrar a impos- 
sibilidade de um- aprendizado da linguagem por modelos comportamentistas e 
associacionistas. No entanto, concluiu ele que sob as transformações de suas 
“gramáticas geradoras” descobria-se finalmente um “núcleo fixo inato” que com- 
preende certas estruturas necessárias tais como a relação do sujeito com o predi- 
cado. Ora, se isto suscita desde já um problema, do ponto de vista biológico, de 
explicar a formação de centros cerebrais que tornam simplesmente possível a 
aquisição da linguagem, a tarefa torna-se ainda bem mais árdua se se trata de cen- 
tros que contenham de antemão as formas essenciais da língua e da razão. Do 
ponto de vista psicológico, por outro lado, a hipótese é inútil, pois, se Chomsky 
está certo em apoiar a linguagem sobre a inteligência e não o inverso, basta nesse 
sentido recorrer à inteligência sensório-motora cujas estruturações, anteriores à 
palavra, supõem sem dúvida um amadurecimento do sistema nervoso, porém bem 
mais ainda uma sequência de equilíbrios decorrentes de coordenações progres- 
sivas e auto-regulações (capítulo I, 8 1). 

Com o célebre etologista K. Lorenz, o inatismo das estruturas de conheci- 
mento é generalizado segundo um estilo que ele pretendia explicitamente kantia- 
no: as “categorias” do saber seriam biologicamente pré-formadas a título de con- 
dições preliminares a toda experiência, à maneira como as patas do cavalo e as 
nadadeiras dos peixes se desenvolvem na embriogênese em virtude de uma progra- 
mação hereditária e bem antes que o indivíduo (ou o fenótipo) possa fazer uso 
delas. Mas, como a hereditariedade varia de uma espécie a outra, é evidente que, 
se esses a priori conservam a noção kantiana de “condições prévias”, sacrificam 
o essencial que é a necessidade intrínseca de tais estruturas assim como sua uni- 
dade, e Lorenz o reconhece honestamente, pois as reduz à categoria de simples 
“hipóteses de trabalho inatas”. Vê-se assim a oposição completa entre esta inter- 
pretação e a que sustentamos. segundo a qual as estruturas de conhecimento tor- 
nam-se necessárias, porem ao cabo de seu desenvolvimento, sem o ser desde o 
início, e não comportam programação prévia. 

Ora, se a hipótese de Lorenz estã em completo acordo com o neodarwinismo 
ortodoxo, ela fornece um argumento a mais em favor da condenação desta biolo- 
gia demasiado estreita. Esta é, com efeito, amplamente ultrapassada pelas concep- 
ções atuais de Ch. Waddington sobre o “sistema epigenético” ou aquilo que Mayr 
chamou depois de “epigenótico”. As noções atuais sobre o fenótipo no-lo apresen- 
tam de fato como o produto de uma interação indissociável, desde a embriogê- 


* Talvez seja sugestivo observar que um discípulo bem conhecido de Hull, Berlyne, tenha-me considerado 
“neocomportamentista” (cf. Psych et Epist. génétiques, thémes piagétiens, Dunod, 1966, pp. 223-234), ao 
passo que outro autor, H. Beilin. rejeitando esta inclusão. me considera então como “maturacionista” co jus- 
tifica por meus apelos a construções endógenas. Ora. não sou uma coisa nem outra. Meu problema central 
é o da formação continua de estruturas novas que não seriam pré-formadas nem no meio nem no interior do 
próprio sujeito. no transcurso dos estágios anteriores de seu desenvolvimento (cf. vol. XII dos Etudes). (N. do 
A.) 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 161 


nese, entre os fatores hereditários e a influência do meio, de tal sorte que é impos- 
sível traçar uma fronteira fixa (e ainda menos no plano dos comportamentos 
cognitivos) entre o que é inato e o que é adquirido, visto que entre os dois se acha 
a zona essencial das auto-regulações peculiares ao desenvolvimento. 

De fato, no terreno dos esquemas cognitivos inclusive sensório-motores 
(porém com exceção do instinto, sobre o que voltaremos a falar), a heredita- 
riedade e a maturação se limitam a determinar as zonas das impossibilidades ou 
das possibilidades de aquisição. Mas esta exige então em acréscimo uma atualiza- 
ção que em si mesma comporta contribuições externas devidas a experiências, 
portanto ao meio, e uma organização progressiva € interna suscitando auto-regu- 
lação. De modo geral, se é necessário, para dar conta dos comportamentos cogni- 
tivos (como aliás de toda modificação do organismo), apelar para fatores endóge- 
nos, que o empirismo despreza, não se poderia concluir disso que tudo o que é 
endógeno decorre de uma programação hereditária, restam portanto a considerar 
os fatores de auto-regulações, que são igualmente endógenos, mas cujos efeitos 
não são inatos. 

Há, porém, muito mais ainda. Em realidade, as auto-regulações apresentam 
esses três caracteres reunidos de constituir a condição prévia das transmissões 
hereditárias, de serem mais gerais que o conteúdo destas últimas e de chegar a 
uma necessidade de forma superior. Convém observar, com efeito, que acham 
regulações (com seus feedbacks, etc.) em todos os níveis orgânicos e desde o genô- 
mio, que compreende os genes reguladores como operantes, e que opera, como o 
disse Dobzhansky, à maneira de uma orquestra e não como um conjunto de solis- 
tas (cf. a poligenia e o pleiotropismo, isto é, as correspondências de muitos a 
um ou um a muitos entre os genes e esses caracteres transmitidos). Igualmente 
o “pool genético” das populações obedece a leis de equilíbrio como nos é de- 
monstrado por uma experiência clássica de Dobzhansky e Spassky. É, portanto, 
claro que certas regulações condicionam já a transmissão hereditária e isto sem 
se transmitirem elas mesmas no sentido estrito pois que continuam a agir. Ora, 
ao passo que os caracteres tranmitidos variam de espécie a espécie, quando não 
de indivíduo a indivíduo, as regulações apresentam uma forma bem mais geral. 
Finalmente, ainda que um caráter se transmita ou não por via hereditária, o que 
decorre do determinismo e não de uma necessidade suscetível de chegar a uma 
forma normativa, as regulações comportam desde o início a distinção do normal 
e do anormal com tendência a fazer preponderar aquela, e elas chegam no plano 
do comportamento à própria necessidade normativa na medida em que as opera- 
ções constituem o caso-limite das regulações (veja-se capítulo I, SIV). 


HI. Dos instintos à inteligência 


No entanto, se o papel das transmissões hereditárias parece assim demasiado 
limitado no desenvolvimento das funções cognitivas, é preciso destacar esta varie- 
dade particular de conhecimento prático (de “saber fazer”) que constituem os ins- 
tintos. Estes comportam com efeito uma programação hereditária do próprio con- 


162 PIAGET 


teúdo das condutas em jogo, além de sua forma. Quanto à forma, ela é análoga à 
dos esquemas sensório-motores. exceto quanto à diferença de que são herdados 
assim com seus indícios determinantes (os IRM ou “indícios significativos ina- 
tos”). Encontramo-nos, pois, diante de estruturas análogas às de inteligência pré- 
verbal, mas fixadas em seu inatismo, e de modo algum modificáveis ao sabor das 
elaborações fenotípicas: Tinbergen pôde mesmo falar de uma “lógica dos instin- 
tos” e de fato ela consiste em uma lógica dos órgãos, isto é, que utiliza instru- 
mentos inerentes ao organismo como tal e não fabricados por uma inteligência 
que tornou móvel. 

Trata-se, agora, de compreender a questão da passagem do instinto à inteli- 
gência ou, em outras palavras, se assim quiserem, o processo de manifestação dos 
instintos. A este respeito, o lamarckismo pretendeu ver nos instintos uma inteli- 
gência que se teria estabilizado hereditariamente (por hereditariedade do adquiri- 
do), ao passo que outros autores, seguidos pela maioria dos neodarwinistas, insis- 
tiram nas oposições consideradas de natureza entre o caráter rígido e cego, mas 
infalível, do primeiro e as propriedades de intencionalidade consciente, de plastici- 
dade, mas também de falibilidade, da segunda. Em realidade, raciocinou-se sobre 
um modelo demasiado esquemático do instinto e importa distinguir com cautela 
três planos hierarquizados em toda conduta instintiva. 1º) Há, em primeiro lugar, 
o que se poderia chamar as coordenações gerais que intervêm em cada uma delas: 
a ordem de encadeamento das ações, os encaixamentos dos esquemas, suas 
correspondências (por exemplo, entre os comportamentos dos machos e das fê- 
meas), os sucedâneos (por exemplo, as estigmergias de Grassé ou ordem variável 
no arranjo dos elementos de um ninho de térmites), etc. 2º) Há, em segundo lugar, 
a programação hereditária do conteúdo das condutas. 3º) Finalmente, há os ajus- 
tamentos individuais às circunstâncias múltiplas e eles se orientam no sentido de 
uma acomodação ao meio ou à experiência. Ora, o que desaparece ou se atenua 
por ocasião da passagem do instinto à inteligência é exclusivamente o segundo de- 
grau 2º), portanto, a programação hereditária dos conteúdos. Pelo contrário, as 
formas gerais, 1º), uma vez liberadas de seu conteúdo fixo dão lugar a múltiplas 
elaborações novas por abstração refletidora e as adaptações individuais, 3º), se 


desenvolvem a seu lado. 
Em resumo, a manifestação do instinto dá ensejo a dois movimentos correla- 


tivos, embora de direções distintas: um de interiorização (correspondente a 1) diri- 
gido no sentido lógico-matemático (e. se já falamos da lógica do instinto, sua geo- 
metria é não raro notável). o outro de exteriorização. no sentido das 
aprendizagens e das condutas orientadas no sentido da experiência Esse duplo 
processo, não obstante marcadamente anterior ao que se observa na psicogênese 
dos conhecimentos, lembra, entretanto, seus inícios (capitulo 1, $ 1), o que é 
natural após o que vimos sobre reelaborações convergentes de degrau em degrau. 
Quanto aos níveis filogenéticos nos quais se produzem essas transformações, tor- 
na-se necessário, sem dúvida, colocá-los em relação com o desenvolvimento das 


“vias associativas” do cérebro (= que não são aferentes nem eferentes) e é conve- 
niente nesse sentido lembrar que Rosenzweig e Krech demonstraram com 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 163 


seus colaboradores um crescimento efetivo do córtex (em sujeitos individuais) 
resultante da acumulação de conhecimentos adquiridos. 

No entanto, se os instintos constituem assim uma espécie de pré-inteligência 
orgânica e hereditariadade programada, resta lembrar que o recurso à heredita- 
riedade apenas recua os problemas de gênese e não esclarece em coisa alguma, 
desde que as questões sobre variação e evolução não tenham sido suficientemente 
resolvidas pela biologia Acontece que nos encontramos ainda em plena crise a 
esse respeito. Ao passo que Lamarck acreditava na hereditariedade do adquirido 
e enxergava, pois, na ação do meio a origem dos caracteres inatos, o neodarwi- 
nismo dos inícios deste século (ainda bem vivo entre grande número de autores e 
até mesmo no seio da teoria atual chamada “sintética” considerava as variações 
hereditárias como se produzindo sem qualquer relação com o meio. Este só inter- 
viria com o tempo na seleção dos mais favoráveis para a sobrevivência. Hoje, pelo 
contrário, esse esquema de simples acasos e seleções aparece cada vez mais como 
insuficiente e tende a ser substituído por esquemas circulares. De um lado, como 
já disse, o fenótipo aparece como uma “resposta” do genômio às ações do meio e 
L. L. Whyte vai até o ponto de atribuir à célula um poder de regulação das muta- 
ções. De outro lado, a seleção só recai sobre os fenótipos e emana de um meio em 
parte escolhido e modificado por eles. Existiria, portanto, um conjunto de circui- 
tos entre as variações internas (em particular as recombinações) e o meio. o que 
permite a Waddington invocar uma “assimilação genética” e falar novamente de 
“hereditariedade do adquirido” sob essa forma não lamarckiana mas que ultra- 
passa de resto os esquemas simplistas do neodarwinismo. Percebe-se, assim, que, 
no domínio da biogênese das estruturas cognitivas, recurso à hereditariedade 
importa em primeiro lugar em deslocar os problemas de gênese quanto às contri- 
buições respectivas da organização interna e do meio, mas parece de novo nos 
orientar no sentido das soluçoês de interação. 


IV. As auto-regulações 


De um modo geral, as raízes biológicas dessas estruturas e a explicação do 
fato de que elas se tornam necessárias não deveriam ser procuradas nem no senti- 
do de uma ação exclusiva do meio, nem de uma pré-formação à base de puro ina- 
tismo, mas das auto-regulações com seu funcionamento em circuitos e sua tendên- 
cia intrínseca ao equilíbrio (cf. vols. XXI e II dos Etudes). 

A primeira razão positiva que justifica esta solução sem mencionar mais difi- 
culdades inerentes às duas outras, é que os sistemas reguladores são encontrados 
em todos os degraus do funcionamento do organismo, desde genômio e até o 
comportamento, e parecem, pois, relacionar-se aos caracteres mais gerais da orga- 
nização vital A auto-regulação parece constituir ao mesmo tempo um dos carac- 
teres mais universais da vida e o mecanismo mais geral comum às reações orgâni- 
cas e cognitivas mesmo que se trate, com efeito, do que no plano do genômio 
Lerner (1955), depois de Dobzhansky e Wallace (1953), chama uma “homeos- 
tasia genética”, regulações estruturais da blástula, deste equilíbrio dinâmico pró- 


164 PIAGET 


prio das embriogêneses denominada “homeoreses” por Waddington, mu:uplas 
homeostasias fisiológicas que regulam o meio interior, não menos numerosas 
regulações do sistema nervoso (inclusive, como já mencionado, os feedbacks do 


próprio reflexo) e finalmente regulações e equilíbrios observáveis em todos os ni- 
veis de comportamentos cognitivos. 


Em segundo lugar, a fecundidade particular das interpretações fundadas na 
auto-regulação é que se trata de um funcionamento constitutivo de estuturas e não 
de estruturas já feitas no seio das quais bastaria procurar aquelas que conteriam 
de antemão no estado pré-formado tal ou qual categoria de conhecimento. Se, 
como K. Lorenz, quiséssemos justificar pela hereditariedade o caráter prévio das 
formas gerais da razão, isto equivaleria, por exemplo, a dizer que o número é uma 
“idéia nata”. Mas então em que nos deter? Teríamos de admitir que os protozoá- 
rios ou Os espongiários contenham já o número em seu patrimônio genético? E, se 
eles possuem o número, será que são números “naturais” ou devemos pensar 
que “em potência” haja neles o germe das correspondências transfinitas, com 
os “alfas” e todos os “ômegas” de Cantor? Explicar a formação das operações 
lógico-matemáticas recuando até as auto-regulações orgânicas não equivale, pelo 
contrário, senão a procurar como se puderam formar os instrumentos elementares 
de elaboração que permitiram a constituição das primeiras fases da inteligência 
sensório-motora, e como esses instrumentos puderam modificar-se por novas re- 
gulações até levar a etapas ulteriores, etc. Ora, as regulações nos oferecem já 
a imagem de reelaborações indefinidas, de degrau em degrau, sem que as formas 
superiores estejam contidas de antemão nas inferiores, e sua ligação consistindo 
num funcionamento análogo que tornou possíveis novas elaborações. Em outras 
palavras, a multiplicidade das formas de regulações juntamente com a existência 
de certos funcionamentos comuns constituem como uma prefiguração do que se 
observa no plano do comportamento onde se encontra esta sucessão de estruturas 
animadas por um funcionamento auto-regulador contínuo. A passagem final das 
regulações no decorrer do tempo às operações com suas regulações antecipadas 
ou “perfeitas” vem a ser assim apenas um elo na cadeia ininterrupta de circuitos, 
que seria arbitrário fazer começar com reflexo ou qualquer ponto de partida das 
condutas elementares, pois que se encontram outros elos em todas as fases do 
organismo. 

A tomar este processo seguindo-se a ordem inversa, parece, com efeito, 
incontestável que as operações lógico-matemáticas são preparadas pelas tentati- 
vas e suas regulações do nível da representação pré-operatória. Prosseguindo-se a 
análise regressiva parece evidente que o ponto de partida dessas elaborações, no 
plano do comportamento, não é a linguagem, mas que nos níveis sensório-motores 
encontram-se as raizes delas nas coordenações gerais das ações (ordem, encaixa- 
mentos, correspondências, etc.). É claro, porém, que essas coordenações não 
constituem um começo absoluto e que elas pressupõem as coordenações nervo- 
sas. Nesse plano, as célebres análises de McCulloch e Pitts puseram, aliás, em 
evidência, um isomorfismo entre as transformações inerentes às conexões sinápti- 
cas e os operadores lógicos. sem que naturalmente esta “lógica dos neurônios” 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 165 


contenha previamente a das proposições no plano do pensamento, visto que é 
necessário de onze a doze anos de elaborações por abstrações refletidoras para 
atingir esse degrau. Quanto às coordenações nervosas cabe à biologia mostrar 
suas relações com as regulações orgânicas de todos os niveis. 

Resta o problema das relações entre o sujeito e os objetos, assim como do 
acordo surpreendente das operações lógico-matemáticas e da experiência depois 
da causalidade física. Neste sentido a solidariedade da psicogênese e da biogênese 
dos instrumentos cognitivos parece fornecer uma solução quase que forçosa: se 
o organismo constitui o ponto de partida do sujeito com suas operações elaborati- 
vas, nem por isso deixa de ser um objeto fisico-químico entre os demais, e obe- 
diente às suas leis mesmo se acrescenta a elas novas leis. É, portanto, pelo interior 
mesmo do organismo e não (ou apenas) pelo canal das experiências externas 
que se faz a junção entre as estruturas do sujeito e as da realidade material. 
Isto não significa, de modo algum, que o sujeito tenha consciência disso nem 
que ele compreenda a física quando age manualmente, quando come, respira, 
vê ou escuta; mas isto equivale a dizer que seus instrumentos operatórios nascem, 
graças à ação, no seio de um sistema material que determinou suas formas ele- 
mentares. Também não significa que estes instrumentos sejam limitados previa- 
mente e submetidos à matéria, visto que abrindo-se sobre o mundo intemporal 
dos possíveis e do inobservável eles a ultrapassam de todos os lados. Mas isto 
traduz o fato de que lá onde o apriorismo era obrigado a recorrer a uma harmo- 
nia “preestabelecida” entre o universo e o pensamento (esta afirmação encon- 
tra-se até em Hilbert), trata-se em realidade de uma harmonia “estabelecida” e 
até muito progressivamente por um processo que tem início desde as raízes orgã- 
nicas e se prolonga indefinidamente. 


CAPÍTULO III 


Retorno aos Problemas Epistemológicos Clássicos 


Após termos passado em revista a gênese dos conhecimentos, trata-se de 
investigar se os resultados dessa análise comportam aplicação á solução das gran- 
des questões da epistemologia geral, tal como o ambiciona a epistemologia 
genética 


I. Epistemologia da lógica 


Ficando entendido de uma vez por todas que a lógica procede por axiomati- 
zação e deve assim evitar todo “psicologismo” ou passagem do fato à norma 
(como foi o caso de diversas lógicas não formalizadas e que Cavaillês depois Beth 
ainda censuraram na fenomenologia), restam ainda três problemas fundamentais 
que incumbe ao estudo genético esclarecer: quais são as relações entre os procedi- 
mentos mesmo da formalização e os do pensamento “natural”? Que é que a lógica 
vem a formalizar? Por que depara a lógica com limites, no sentido em que foi 
demonstrado por Gódel? 

A) O matemático Pasch sustentou que os empenhos no sentido da formaliza- 
ção se orientam em direção contrária às tendências espontâneas do pensamento 
natural. Se nos limitamos a caracterizar este pensamento pelo conteúdo da cons- 
ciência dos sujeitos, é evidente que ele tem razão, visto que o pensamento comum 
tende a seguir para a frente, ao passo que a formalização consiste num esforço 
retroativo para determinar as condições necessárias e suficientes de todas as 
assertivas e para destacar explicitamente todos os intermediários e todas as conse- 
quências. Por outro lado, se nos colocarmos do ponto de vista do desenvolvi- 
mento e da elaboração progressiva das estruturas, independentemente da cons- 
ciência que o sujeito tome delas, parece que esta elaboração consiste precisamente 
em dissociar as formas dos conteúdos e em elaborar novas formas por abstração 
refletidora a partir daquelas de nível inferior: neste particular, a formalização do 
lógico aparece antes como prolongamento superior desse movimento de conjunto 
que como orientado em sentido oposto; mas com uma novidade essencial a mais. 

Com efeito, se a axiomatização repousa em certos processos de abstração 
refletidora, ela acrescenta uma liberdade cada vez maior de manejo. A abstração 
em questão é evidente quando o lógico tira de seu próprio pensamento certos prin- 
cípios elementares, como os de identidade, de não-contradição e do terço excluí- 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 167 


do. Mas ele não se atém a isto, e a própria história da axiomatização mostra que, 
a partir do nível em que como em Euclides. os axiomas deviam ainda permanecer 
intuitivos e evidentes (e consistir pois em simples empréstimos ao pensamento 
natura), a abstração retroativa se promoveu à categoria de atividade diferenciada 
que, tendo-se tornado consciente de seus objetivos e os generalizando, adquiriu 
cada vez menos intuitivas (as geometrias não-euclidianas assinalaram um passo 
essencial neste sentido). Assim especializada de par com suas próprias funções a 
formalização veio então a conquistar o direito de escolher seus axiomas com toda 
hberdade, de acordo com suas necessidades, sem se ater aos elementos fornecidos 
pelo pensamento natural apenas. Mais precisamente, se distinguimos no seio da 
abstração refletidora a “reflexão” no sentido quase geométrico da projeção de cer- 
tas ligações anteriores sobre um novo plano de pensamento e a “reflexão” no sen- 
tido noético de uma reorganização necessitada pela reconstrução dessas ligações 
neste novo plano, este segundo aspecto a transporta cada vez mais ao primeiro e 
as reconstruções procedem então por recombinações cada vez mais móveis e por 
combinações cada vez mais livres: donde, por exemplo, o direito de construir lógi- 
cas trivalentes distintas, mas ainda próximas do pensamento comum. ou a uma 
infinidade de valores que se distanciam consideravelmente das intuições do terço 
excluído. 

Em uma palavra, a formalização constitui bem, do ponto de vista genético. 
um prolongamento das abstrações refletidoras já atuantes no desenvolvimento do 
pensamento, porém um prolongamento que, pelas especializações e generaliza- 
ções de que se torna senhor, adquire uma liberdade e uma fecundidade combina- 
tória que ultrapassa amplamente e em todos os sentidos os limites do pensamento 
natural, segundo um processo análogo aqueles (cap. I, fim do $ VI) segundo os 
quais os possíveis vêm a fazer com que o real se revele. 

B) Daí nosso segundo problema: qual é o objeto de axiomatização da lógic: 
formal? Na história das matemáticas, uma teoria formalizada constitui quase 
sempre a formalização de uma teoria intuitiva ou “ingênua” anterior. Em lógica. 
entretanto, não se poderia dizer o mesmo e portanto mal se pode entrever como 
um sistema axiomatizado poderia comportar um começo absoluto, visto que as 
proposições indemonstráveis escolhidas como axiomas e as noções indefiníveis 
que servem para definir os conceitos subsegtentes englobam. umas e outras, todo 
um universo de ligações implicitas. Por outro lado. desde a posição dos clementos 
como “o conjunto das partes” formada das dezesseis combinações possíveis entre 
as proposições p e q (ou sua tabela de verdades), intervêm operações anteriores 
ao sistema, aqui uma combinatória, que permite conferir a este uma estrutura 
algébrica de conjunto. tal como a álgebra de Boole ou sua rede distributiva com- 
plementada. 

Uma primeira solução consistiria em supor que a lógica é uma axiomatização 
do conhecimento dos objetos. no sentido desta “física do objeto qualquer” admi- 
tida por Spencer (abstração a partir das formas ou das relações entre os objetos 
“independentemente dos termos”, portanto, de suas propriedades quantitativas 
ou físicas particulares) e em parte por Gonseth. Mas o objeto físico está 


168 PIAGET 


situado no tempo e se transforma incessantemente, de tal modo que quando o 
segundo autor fala de sua identidade (A = A), de sua não-contradição (A não 
poder ser ao mesmo tempo e não ser A) ou do terço excluído (A ou não-A), não 
se trata precisamente mais de objetos materiais que estão sempre em mudança e 
escapam desse modo parcialmente a essas regras, mas de ações efetuadas sobre 
objetos quaisquer, o que não é a mesma coisa, dado que essas ações prefiguram as 
operações do sujeito. 

Se procuramos então do lado do sujeito, poder-se-ia primeiramente fazer da 
lógica uma linguagem e a relacionar, com o positivismo atual, a uma sintaxe e a 
uma semântica gerais: neste caso, a lógica não constituiria mais um conhecimento 
propriamente dito, mas uma pura forma cuja axiomatização se limitaria a desta- 
car as propriedades analíticas ou tautológicas. O exame genético, porém, apoiado 
pelos resultados da linguística de Chomsky, mostra que a inteligência precede a 
linguagem e que esta inteligência pré-verbal comporta já uma lógica, mas de coor- 
denação dos esquemas de ações (reuniões, encaixamentos, ordem, correspon- 
dências, etc.) Em segundo lugar, um dos estudos do nosso Centro (cf. Etudes, 
vol. IV) pôde confirmar geneticamente o fundamento das críticas de W. Quine 
aquilo que ele chamava um dos “dogmas” do empirismo lógico: a distinção radi- 
cal dos juízos analíticos e sintéticos. Em realidade. acham-se todos os intermediá- 
rios entre ambos e todas as ligações começam por ser sintéticas para se tornarem 
em certos casos analíticas de acordo com as “compreensões” (intenções atribuí- 
das pelo sujeito aos conceitos ou operações que ele utiliza, por exemplo, o + 
em 2 + 3 = 3 + 2). Com efeito, todo conhecimento começa nos níveis elementa- 
res por uma experiência, mas pode-se distinguir desde o início as experiências 
físicas das abstrações feitas do objeto e as experiências lógico-matemáticas das 
abstrações refletidoras obtidas das coordenações entre as ações do sujeito (tais 
como impor uma ordem aos objetos ou a modificar para verificar que 2 + 3 
= 3 + 2). Segue-se disso, quanto à pretendida “tautologia” que caracteriza a 
lógica. que ela é sem dúvida fundamentada se se trata apenas de especificar a 
propriedade “sempre verdadeira” de certas operações, mas o “sempre verda- 
deiro” não se reduz de modo algum à identidade, visto que pode resultar de uma 
combinatória que é um processo de diversificação tanto quanto de identificação. 
Além do mais, todo sistema formalizado repousa sobre axiomas cujas três condi- 
ções de escolha devem ser suficientes, compatíveis entre si e todas distintas, isto 
é, não tautológicas uma em relação à outra. 

Se a lógica é pois bem mais que axiomatização de uma linguagem, deve-se 
então concluir sem mais que ela formaliza o “pensamento” natural? Sim e não: 
não é de modo algum rigoroso se por este termo se designa o pensamento cons- 
ciente do sujeito, com suas intuições e seus sentimentos de evidência, porque estes 
variam no curso da história (Bernays) e da evolução, e estão longe de bastar para 
“fundamentar” uma lógica. Por outro lado, se se ultrapassam os observáveis e se 
se procuram reconstituir as estruturas, não pelo que o sujeito pode dizer ou pensar 
conscientemente, mas pelo que pode “fazer” por meio de suas operações ao ensejo 
da solução dos problemas novos que se lhe apresentam, então encontramo-nos 
diante de estruturas logicizáveis, tal como o grupo INRC, que nos foi permitido 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 169 


descobrir em 1949, pela observação das condutas (cf. cap. I, $ VI). Neste sentido 
particular e limitado das estruturas naturais nada impede então de considerar que 
a lógica consistiu em as formalizar, ao mesmo tempo as ultrapassando livremente, 
como a aritmética científica que partiu dos “números naturais” vindo a comple- 
tá-los de maneira cada vez mais fecunda. A lógica de Aristóteles oferece, de resto, 
um exemplo dessas passagens entre as estruturas naturais e a reelaboração forma- 
lizante, e uma passagem muito instrutiva, visto que mostra que o estagirita não es- 
teve cônscio de tudo o que podiam oferecer-lhe essas estruturas de partida (ele não 
percebeu a existência da lógica das relações nem das estruturas de conjunto): a 
abstração refletidora necessária à formalização, e mesmo a esta semiformalização 
intuitiva que era a silogística, procede pois por reelaborações com decalagens e 
portanto degrau por degrau, o que permite (por isso mesmo, mas depois) todos os 
ultrapassamentos. Dizer que a lógica é uma formalização das estruturas operató- 
rias naturais não exclui pois em nada que esta axiomatização engendre, como se 
viu no parágrafo 4 uma forma de pensamento especializado que adquire liber- 
dade e fecundidade próprias (vejam-se quanto a esses problemas A e B os vols. 
XIV a XVI dos Etudes). 

C) Ora, o que é altamente instrutivo quanto às relações entre a formalização 
e o desenvolvimento psicogenético das estruras naturais é que a primeira, livre e 
conquistadora que seja, deparou em determinado momento com seus próprios 
limites (Gôdel, Tarski, Turing, Church, Kleene, Lôwenstein-Skolem e outros). 
Embora sejam sucedâneas e recuem pois durante as elaborações, elas não deixam 
de ser sempre nesse sentido senão uma teoria formal bastante fecunda que não 
poderia garantir por seus próprios meios sua própria não-contradição, nem o 
caráter decisório de todos os seus teoremas, e tem necessidade para conseguir isso 
de se apoiar num sistema mais “forte”. Ora, como a elaboração desta estrutura 
mais forte não pode senão seguir a precedente (por exemplo, a aritmética transfi- 
nita em relação à aritmética elementar) e que a mais simples da escala mostra-se 
a mais fraca (aqui a lógica dos Principia em relação a aritmética elementar) acha- 
mo-nos em presença de dois fatos fundamentais cujo parentesco com as perspec- 
tivas genéticas parece verossímil: a existência de uma hierarquia na “força” das 
estruturas e a necessidade de um construtivismo, visto que o sistema das estrutu- 
ras não é mais comparável a uma pirâmide estática repousando sobre a base, mas 
o é a uma espiral que se amplia infinitamente em altura. 


Isto posto, como explicar essas fronteiras vicariantes da formalização? A 
analogia que acabamos de sugerir com a construção genética insinua uma solu- 
ção: é que as noções de forma e de contéudo são essencialmente relativas e uma 
forma ou uma estrutura formal não poderia adquirir autonomia completa. No 
domínio da evolução isto é evidente: as estruturas sensório-motoras são formas 
em relação aos movimentos simples que elas coordenam, mas conteúdos em rela- 
ção às ações subjetivadas e conceptualizadas do nível seguinte; as operações 
“concretas” são formas em relação a estas últimas ações, mas conteúdos em rela- 
ção às operações já formais do nível 11 a 15 anos; estas não passam de conteúdos 
em relação às operações que sobre elas recaem nos níveis ulteriores. Igualmente, 
no exemplo escolhido por Góôdel, a aritmética elementar é uma forma que subsiste 


170 PIAGET 


a título de conteúdo da lógica das classes e das relações (o número considerado 
como sintese de inclusão e de ordem: cap. 1,3 V) e constitui em si mesma um 
conteúdo (na medida em que potência do inumerável) na aritmética transfinita. 

Ora. nesses termos compreende-se que uma forma permanece necessaria- 
mente limitada, isto é, não podendo garantir sua própria consistência sem ser inte- 
grada em uma forma mais ampla, visto que sua existência mesma permanece 
subordinada ao conjunto da construção da qual ela constitui um momento parti- 
cular. Para tomar um exemplo menos técnico que o do número, podem-se desta- 
car no nível das operações concretas certas relações implícitas entre classificação 
e a seriação: a sequência das inclusões das classes primárias (em oposição a A”, 
B'. C', etc.) de uma classificação A + A'= B,B+B' = C,etc., é uma seriação 
(A< B< C...)e reciprocamente podem-se grupar desta maneira os termos de 
uma série (0 primeiro é incluído na classe dos dois primeiros, que estão na classe 
dos três primeiros. etc.). Todavia. enquanto não esteja elaborado o grupo INCR 
não se poderia reunir em um sistema formal único que coordene as inversões e 
reciprocidades dessas duas espécies de grupamentos de classes e de relações: sua 
formalização não poderia assim permanecer senão incompleta enquanto não se 
tenha efetuado sua integração em uma estrutura mais “forte”. 

Em resumo, essas poucas observações bastam sem dúvida para demonstrar 
que a discussão dos grandes problemas da epistemologia da lógica (distinguindo-a 
cuidadosamente da técnica mesma do lógico na demonstração dos teoremas, em 
que a psicogênese nada tem evidentemente a ver) não poderia perder e pode even- 
tualmente ganhar em constituir uma parte das considerações genéticas. 


IH. Epistemologia das matemáticas 


Quando Kronecker chamava os “números naturais” uma dádiva de Deus, 
tudo o mais tendo sido fabricado pelos homens, reservava de chofre esta parte à 
gênese pré-científica, mas sem se aperceber suficientemente de que esta, analisável 
nas sociedades “primitivas”, na criança e outros representantes do Senhor (não 
esqueçamos os periquitos de Otto Kohler), era de natureza bastante análoga ao 
trabalho ulterior dos matemáticos: as correspondências biunivocas introduzidas 
por Cantor para fundamentar a teoria dos conjuntos são conhecidas desde uma 
época imemorável na troca (câmbio um a um) e sua formação pode ser seguida de 
perto na criança e mesmo em certos vertebrados superiores. As três “estruturas- 
madres” de Bourbaki são observadas sob formas elementares, porém distintas, 
desde o estágio das operações concretas da criança (vol. XIV dos Etudes); e 
pode-se falar das “categorias” de McLane e Eilenberg desde o nível das “funções 
constituintes” (cap. 1, 3 III) em um sentido trivial mas que mostra a generalidade 
desta estrutura fundamental (uma classe de objetos com as funções que eles com- 
portam c suas composições limitadas: veja-se o vol. XXIII dos Etudes). 

Isto posto, os três problemas principais e clássicos da epistemologia das 
matemáticas mostram com toda clareza por que são indefinidamente fecundos ao 
partirem de conceitos ou axiomas pouco numerosos e relativamente pobres; por 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 171 


que se impõem de maneira necessária e permanecem pois constantemente rigoro- 
sos, malgrado seu caráter construtivo que poderia ser fonte de irracionalidade; e 
por que entram em acordo com a experiência ou a realidade físicas, não obstante 
sua natureza totalmente dedutiva. 

A) Consideramos a fecundidade das matemáticas como aceita, tendo já 
afastado a interpretação tautológica no domínio lógico. De resto, a concepção 
tautológica das matemáticas não passa de uma hipótese meramente verbal, pois, 
se fosse admitida, restaria a explicar por que há vinte e cinco séculos se podem 
dizer as mesmas coisas sob formas indefinidamente novas e sempre imprevistas. 
Há pois no caso um problema que é ao mesmo tempo genético e histórico-crítico, 
porque as novidades incessantes engendradas pelo trabalho das matemáticas não 
são nem descobrimentos, visto que se trata de realidades não dadas de antemão, 
nem de invenções, visto que uma invenção comporta uma margem apreciável de 
liberdade, ao passo que cada nova relação ou estrutura matemática se caracteriza 
por sua necessidade tão logo é construída: esta “construção necessária” suscita 
pois a questão de seu mecanismo constitutivo. Ora, o interesse da dimensão gené- 
tica é de mostrar nesta questão certa convergência entre o que dela dizem os mate- 
máticos e o que a análise dos estágios elementares revela, donde as hipóteses pos- 
síveis sobre as raízes psicológicas e mesmo biológicas de tais construções. 

A resposta dos matemáticos equivale de modo geral a atribuir as novidades 
a possibilidade de introduzir indefinidamente operações sobre operações. Tão 
logo construídos dois conjuntos E e F (o que equivale já a reunir operatoriamente 
objetos) pode-se “aplicar” um x em E sobre um (e apenas um) y em F, donde 
uma operação funcional que pode ser biunívoca (no caso de um único x ) ou não 
(vários x para um y). Pode-se constituir o produto E X F desses dois conjuntos, 
ou pelo contrário seu conjunto-quociente, por uma parcelação fundada em uma 
relação de equivalência (por exemplo, o conjunto dos homens pela relação “conci- 
dadãos” que dá o conjunto das nações). Pode-se do mesmo modo obter combina- 
toriamente de cada conjunto seu “conjunto de partes”, ou repetindo as operações, 
obter uma escala de conjuntos de base E, F. Pode-se, sobretudo, independen- 
temente da natureza dos conjuntosos de base construir “estruturas” separando-se 
propriedades comuns graças às operações efetuadas sobre esses conjuntos, e essas 
estruturas podem então ser comparadas entre si por meio de teorias que serão 
univalentes se houver isomorfismo (tais como a geometria euclidiana e a teoria 
dos números reais), ou então multivalentes (grupos e topologia). º 

As matemáticas completas podem pois traduzir-se em termos de construção 
de estruturas e essa construção permanece indefinidamente aberta. O sinal mais 
eloquente desta espécie de degelo que assinalou a expansão extraordinária das 
matemáticas recentes é o novo sentido que tomou o termo “seres” matemáticos: 
deixando de constituir espécies de objetos ideais existentes de uma vez por todas 
em nós ou dados de fora, deixando pois de apresentar um sentido ontológico, eles 
mudam sem cessar de função ao mudarem de nível; uma operação que recaia 


5 Cf. A. Lichnerowicz, in Lógica e Conhecimento Científico (Enc. Pléiade, p. 477). (N. do A.) 


172 PIAGET 


sobre esses “seres” se torna por sua vez objeto da teoria, e assim por diante até as 
estruturas alternativamente estruturantes ou estruturadas por estruturas mais for- 
tes; tudo pode portanto tornar-se um “ser”, conforme o estágio, e suscita desse 


modo aquela relatividade das formas e conteúdos já indicados no 8 I (em C). 
Ora, não obstante a irreverência que possa haver em comparar-se um mate- 


mático e uma criança, é dificil negar-se que exista algum parentesco entre esta 
continua construção intencional e refletida de operações sobre operações e as pri- 
meiras sínteses ou coordenações inconscientes que permitem a construção dos nú- 
meros ou das medidas, das adições ou multiplicações, porporções, etc. O próprio 
número inteiro, na medida em que síntese da inclusão das classes e da ordem se- 
rial pode já ser considerado como o resultado de uma dessas operações efetuadas 
sobre outras; o mesmo se dá com a medida (parcelamento e deslocamento). A 
multiplicação é uma adição de adições, as proporções são equivalências aplicadas 
a duas relações multiplicativas, a distributividade não passa de uma sequência de 
proporções, etc. Mas mesmo antes da constituição dos primeiros seres matemáti- 
cos, o processo de abstração refletidora, do qual os exemplos precedentes repre- 
sentam já formas evoluídas está constantemente em ação na própria formação das 
noções e operações de partida: ora, ela consiste sempre em introduzir novas coor- 
denações sobre o que é sacado das formas anteriores, o que é já um modo de ope- 
rações sobre operações. Por exemplo, a reunião de classes distintas em vista de 
uma classificação é ao mesmo tempo preparada pela reunião dos indivíduos em 
classes e acrescentada a esta enquanto operação nova que integra as precedentes 
enriquecendo-as. O mesmo acontece com a transitividade, etc. 

B) No que concerne agora ao rigor ou à necessidade das estruturas progressi- 
vamente construídas, E. Meyerson, que pretendia reduzir o trabalho da razão ape- 
nas ao processo de identificação, teve a “coragem filosófica” de sustentar que, na 
medida mesmo em que as matemáticas engendram o novo, é que elas o tomam ao 
real e tornam-se por esse fato parcialmente irracionais. De fato, segundo esse 
autor só a identidade atinge a evidência, ao passo que o “diferente” ultrapassa a 
razão: as próprias operações deveriam já ser concebidas como sendo em parte 
obtidas do real, visto que prolongando as ações, ao mesmo tempo que introduzem 
por isto um irracional que só se pode acrescentar com a multiplicação das 
construções. 

O interesse dessas teses é que elas implicam uma espécie de porporção inver- 
sa entre a fecundidade e o rigor, mas num sentido diferente do que lhe atribui o 
positivismo lógico, para o qual as tautologias que caracterizam todas as matemá- 
ticas comportam ao mesmo tempo o máximo de rigor e o mínimo de novidade. 
Meyerson é, além do mais, mais consequente que Goblot, para quem as constru- 
ções operatórias que explicam a fecundidade não são regidas senão pelas “propo- 
sições anteriormente admitidas”: ora, ou estas contêm de antemão o produto das 
construções, e não há novidades, ou bem elas não o implicam e então como as 
regem, pois não basta uma não-contradição entre as estruturas anteriores e novas 
para que essas últimas se imponham com necessidade? 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 173 


Em realidade, o fato notável e quase paradoxal que se trata de esclarecer é 
que fecundidade e necessidade seguem sempre juntas: ninguém poderia negar que 
o empenho espantoso dos matemáticos chamados “modernos” é assinalado pelos 
dois progressos correlativos de uma construtividade reforçada e de um rigor apu- 
rado. É pois no próprio interior da elaboração das estruturas que é preciso buscar 
o segredo desta “necessidade intrínseca” (segundo a expressão outrora empregada 
por P. Boutroux). Ademais, parece legítimo distinguir dois degraus de necessi- 
dade, distinguindo-se, segundo a profunda observação de Cournot, as demonstra- 
ções simplesmente lógicas e aquelas que fornecem a “razão” das consequências a 
demonstrar: as primeiras não consistem, com efeito, senão em fazer perceber 
como as conclusões decorrem das premissas porque já contidas em sua reunião, 
ao passo que as segundas destacam uma espécie de lei de composição conducente 
às conclusões, o que equivale de novo a conciliar a construtividade com o rigor. 

Exemplo particularmente evidente é o dos raciocínios por recorrência, que 
apóiam a demonstração sobre a sequência completa dos números, o que equivale 
a dar conta de uma propriedade particular, no interior de uma estrutura, pelas leis 
de totalidade e auto-regulação desta estruzura. Assinalamos a este respeito uma 
analogia genética bastante contundente (Etudes, vol. XVII): ao passo que a sin- 
tese da inclusão e da ordem que constitui o número e não garante a conservação 
dos conjuntos numéricos a não ser por volta dos 7 a 8 anos, acham-se desde os 
5 1/2 anos sujeitos que, ao porem com a mão direita uma pérola num vaso visível 
e com a outra mão uma pérola num recipiente camuflado por uma tela, prevêem 
a igualdade indefinida dessas duas coleções; “quando se sabe uma vez, sabe-se 
para sempre” dizia assim uma criança de 5 anos fracassando nas questões de 
conservação em outras provas (porque o fato de ajuntar cada vez uma pérola 
equivale a uma seguência de encaixamentos e a sucessão dos gestos comporta 
em si mesma uma ordem, donde uma síntese local e momentânea da inclusão 
e da ordem). 


Em resumo, se a multiplicação das estrutras atesta a fecundidade, suas leis 
de composição internas (por exemplo, a reversibilidade P. P”! = 0. tonte de não- 


contradição) ou externas (morfismos interestruturais) garantem sua necessidade 
pelo simples fato dos fechamentos provenientes de sua auto-regulação (veja-se do 
ponto de vista genético o exemplo da transitividade, cap. I, $ IV). Mas convém, 
sem dúvida, distinguir neste particular graus na estruturação. Pode-se assim cha- 
mar “classes fracamente estruturadas” aquelas nas quais não existe lei de compo- 
sição que permita passar dos caracteres do todo aos de uma parte (por exemplo, 
dos invertebrados aos moluscos) ou dos caracteres de uma parte aos de outra (dos 
moluscos aos celenterados), e “classes fortemente estruturadas” as que compor- 
tam tais tansformações bem reguladas (por exemplo, um grupo e seus subgrupos). 
Esta distinção já válida no plano genético se aparenta provavelmente à noção da 
mais ou menos grande “força” das estruturas, que se impõe desde os trabalhos de 
Gódel. Nem mesmo se exclui que se possa neste sentido distinguir graus na 
contradição: parece-nos, por exemplo, mais contraditório admitir n — n * O que 


174 PIAGET 


declarar para uma classe qualitativa pouco estruturada A — A * Q. Em todo 
caso, demonstra-se em aritmética a identidade de todas as classes nulas, ao passo 
que uma ausência de batatas não equivale à de espinafres. * 

C) Quanto às relações entre as matemáticas e a realidade, destacamos em 
primeiro lugar que nesta tudo parece ser matematizável, no sentido senão sempre 
da medida, pelo menos dos isomorfismos e das estruturações. Sem dúvida, isto é 
apenas um postulado, mas cujo êxito tem sido até aqui crescente, mesmo ainda 
nos domínios ainda resistentes como o dos fenômenos vitais. Ainda mais, tem-se 
frequentemente insistido nas previsões surpreendentes segundo as quais estruturas 
operatórias elaboradas dedutivamente sem qualquer preocupação de aplicação 
prática tenham vindo a servir com o tempo de instrumentos explicativos para 
fenômenos físicos descobertos bem mais tarde: a teoria da relatividade e a física 
nuclear disso fornecem inúmeros exemplos. 

A solução que as pesquisas genéticas sugerem a este respeito é que, como já 
visto, se as estruturas elementares provêm das coordenações gerais da ação e estas 
das coordenações nervosas, é até as coordenações orgânicas e biofísicas que é pre- 
ciso recuar para atingir suas fontes, a junção entre as operações do sujeito e as 
estruturas do objeto devendo ser procurada no interior do próprio organismo, 
antes de poder ser confirmada pelos confrontos entre a dedução e a experiência 
externa. Uma vez que, de modo geral “a vida é criadora de formas” como o dizia 
Brachet (e em certo sentido o próprio Aristóteles), a convergência das formas 
materiais do mundo físico de que faz parte o organismo e das formas intemporais 
elaboradas pelo sujeito parece em princípio compreensível. 

O que é menos compreensível é que a continuidade das filiações não se tenha 
extraviado, visto que, entre as estruturas orgânicas de partida e as das operações 
formais do espírito, intercala-se uma série extremamente longa e complexa de 
reconstruções com convergências de um degrau a outro no plano do organismo e 
de abstrações refletidoras com novas reorganizações no plano do comportamento. 
Contrariamente, porém, às aprendizagens exógenas e às teorias fundadas na expe- 
riência, o peculiar das estruturas lógico-matemáticas é nunca discutir aquelas que 
lhes precederam, mas as ultrapassar integrando-as a título de subestruturas, aten- 
do-se as imperfeições iniciais apenas a fronteiras muito estreitas das formas de 
partida. É um fenômeno do mesmo tipo que assegura a continuidade das formas 
gerais de coordenação. 

Por outro lado, subsiste o problema de compreender em que consistem, 
quando o sujeito se torna capaz ao mesmo tempo de raciocínios e de experiências, 
os intercâmbios entre as matemáticas orientando-se apenas no sentido da dedução 
e o pormenor dos dados da experiência. De fato, os primeiros passos matemáticos 
podem parecer empíricos: reunir ou dissociar os elementos de um instrumento 
para ensinar as crianças a contar, verificar a comutatividade pela permutação de 
subcoleções, etc. Contrariamente, porém, à experiência física, em que os dados 


* É conhecida a história do chefe de restaurante um pouco rigoroso em lógica que recusava servir um “bife 
sem batatas” porque justamente naquele dia não as tinha, mas oferecia, como consolo a seu cliente, um “bife 
sem espinafres” porque na verdade dispunha de espinafres na ocasião. (N. do A.) 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA Jus 


são obtidos dos caracteres pertencentes à natureza do objeto, a leitura dessas 
“experiências lógico-matemáticas” recai apenas sobre as propriedades introdu- 
zidas pela ação no objeto (reuniões, ordem, etc.): e é então natural que essas 
ações, uma vez interiorizadas em operações, possam ser executadas simbolica- 
mente e portanto dedutivamente, e que, à medida que as múltiplas estruturas 
operatórias se elaboram a partir dessas formas elementares, seu acordo com os 
“objetos quaisquer” fica assegurado com isto que nenhuma experiência física 
poderia desmentir, visto que se referem às propriedades das ações ou operações e 
não dos objetos. Lembremos que uma menção especial deve ser feita neste sentido 
sobre as operações espaciais, que suscitam ao mesmo tempo estruturas do sujeito 
com abstrações refletidoras e a experiência ou abstração física, visto que os pró- 
prios objetos comportam uma geometria. 

Resta contudo considerar os casos, e a história da física é abundante deles, 
em que certos conteúdos experimentais resistem às operações conhecidas e exigem 
novas elaborações. É o que se observa já desde a gênese aos níveis em que a elabo- 
ração das leis e sobretudo a explicação causal ensejam estruturações aparente- 
mente impostas de fora. Ora, é notável encontrar-se nessas situações modestas um 
processo algo comparável às relações que, em níveis superiores do pensamento 
científico, existem entre a física experimental depois teórica (estando esta ainda 
submetida à experiência) e a física matemática que reconstrói por via puramente 
dedutiva o que as disciplinas precedentes estabeleceram. Observam-se, com efeito, 
por volta dos 10 a 11 anos, primeiro tentativas de relacionamentos que ficam par- 
ciais, tais como as referências espaciais acarretando dois sistemas distintos mas 
não coordenados, ou correpondências quantitativas a respeito das desigualdades 
em jogo, mas sem ultrapassar os procedimentos aditivos; em seguida, numa 
segunda fase, as previsões tornam-se possíveis uma vez coordenados os dois siste- 
mas de referência e uma vez elaboradas as relações multiplicativas próprias às 
proporções. Em tais casos, porém, a experiência não basta para assegurar a for- 
mação de operações novas, à falta de instrumentos de inspeção adequados, e é a 
atividade operatória do sujeito que chega à construção desses instrumentos, bem 
como (terceira fase) à da estrutura explicativa. Mais precisamente, o papel da 
experiência não consiste, em uma primeira fase, senão em desmentir as previsões 
muito simples fundadas em operações de que dispunha o sujeito em o forçar a 
procurar previsões mais adequadas. Por exemplo, em uma pesquisa sobre distri- 
butividade no esticamento de um elástico, o sujeito começa por raciocinar em ter- 
mos aditivos como se o alongamento se assinalasse na extremidade somente (de- 
pois ao termo de cada um dos segmentos desiguais mas com adições iguais): a 
experiência o desengana então, mas à falta de estruturas multiplicativas e de 
proporções, ele se contentará com relações parciais e admitirá que um segmento 
grande aumenta um pouco mais que um pequeno sem saber como. A segunda 
fase começa com a compreensão da propcrcionalidade. mas é fundamental obser- 
var que esta não resulta sem mais das experiências: ela constitui o instrumento de 
assimilação necessário à observação destas últimas, e se elas provocaram sua 
construção foi necessário, para efetuá-la, a atividade lógico-matemática do sujei- 


176 PIAGET 


to. Vem então a terceira fase, que pode aliás prolongar imediatamente a segunda: 
a explicação do esticamento por uma transmissão distributiva e pois homogênea, 
da força. Ora, do ponto de vista da matemática, o interesse desta interpretação 
causal é que, se se trata evidentemente de uma “atribuição” das operações ao pró- 
prio objeto, como veremos no parágrafo seguinte, a elaboração deste modelo não 
foi possível senão partindo do instrumento de assimilação, tendo daí por diante 
permitido a observação da lei, portanto, a partir de uma elaboração lógico-mate- 
mática “aplicada” aos objetos antes que as operações assim elaboradas lhes sejam 
“atribuídas” a título causal. 

Verifica-se então uma convergência relativa desses fatos genéticos com os 
processos segundo os quais a própria física matemática se dedica a elaborações 
autônomas provocadas, mas não ditadas, pela experiência. A recuar mais alto que 
a psicogênese, poder-se-ia ir até a ver uma analogia entre essas relações cognitivas 
da dedução (endógena) com a experiência, e as relações biológicas do genômio 
com o meio, quando o primeiro elabora de modo autônomo uma “fenocópia” que 
não resulta mais de modo algum da ação do fenótipo, mas lhe corresponde por 
uma espécie de moldagem ativa. 


III. Epistemologia da física 


Declaramos, a propósito do campo matemático, que certas noções apareci- 
das tardiamente no trabalho da ciência se revelam pelo contrário bastante primiti- 
vas na psicogênese, como se a tomada de consciência partisse das resultantes 
antes de recuar às origens: é o caso da correspondência biunívoca, assim como 
das estruturas topológicas (que na criança parecem preceder de muito as constru- 
ções euclidianas e projetivas). No domínio da física um fenômeno análogo se 
apresenta da maneira seguinte. Quando das revoluções científicas, das quais as 
ciências mais evoluídas da natureza não cessam de nos dar o espetáculo, a maio- 
ria das noções clássicas são abaladas e devem submeter-se a reestruturações: o 
tempo, o espaço físico, as conservações da massa e da energia, etc., com a teoria 
da relatividade; o contínuo, as relações entre os corpúsculos e as ondas, o próprio 
determinismo, etc., com a microfísica. Em contrapartida, certos conceitos pare- 
cem resistir mais que outros: a velocidade assume assim no universo relativista a 
significação de uma espécie de absoluto, mesmo que ela se escreva sob a forma de 
uma relação, e a grandeza física “ação” desempenha um papel análogo na micro- 
fisica. Ora, na perspectiva segundo a qual o organismo vivo assegura a ligação 
entre o mundo físico, do qual faz parte, e os comportamentos ou mesmo o pensa- 
mento do sujeito, do qual ele é a fonte, pode-se-ia então ser levado a supor que 
essas noções que são as mais resistentes são igualmente as mais profundamente 
enraizadas do ponto de vista psicogenético e mesmo talvez biogenético. 


A) No que concerne às relações cinemáticas (vol. XX e XXI dos Études), é, 
com efeito, contundente verificar-se que no domínio das percepções animais here- 
ditárias (as pesquisas foram efetuadas sobre batráquios e insetos) existe uma per- 
cepção diferencial da velocidade, como das formas de distância, e pode-se mesmo 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 177 


descobrir entre as rãs, células especializadas para esse fim, ao passo que nada 
disso existe para a duração. Na criança, observa-se uma intuição precoce da velo- 
cidade independente da duração e fundada sobre a noção puramente ordinal do 
ultrapassamento (ordens de sucessão no espaço e no tempo mas sem referência 
aos espaços percorridos nem às durações), ao passo que as intuições temporais 
parecem sempre ligadas a relações de velocidade, em particular a simultaneidade. 
É assim que o sujeito jovem admitirá sem dificuldade a simultaneidade das parti- 
das e das chegadas para dois movimentos de mesma velocidade, paralelos e oriun- 
dos de origens vizinhas, mas contestará a das chegadas se um dos dois móveis 
chega mais longe. Quando chega a reconhecer essas simultaneidades de partidas 
e depois de paradas, continuará todavia por muito tempo a pensar que o percurso 
mais longo levou mais tempo. No adulto ainda, de dois movimentos de velocidade 
diferentes apresentados em durações breves, o mais rápido parece perceptiva- 
mente cessar antes do outro enquanto que as paradas são objetivamente simultã- 
neas. Do mesmo modo a percepção das durações será influenciada pela das 
velocidades. 


De maneira geral, desde que se trate de um único movimento, o sujeito sabe- 
rá dizer logo que um percurso AB leva mais tempo que os percursos parciais AB 
ou BC e que em um tempo AC o percurso será mais longo do que em durações 
parciais AB ou BC. Ou quando se trata das fregiências de apresentação de um 
som ou de um raio luminoso, ele saberá igualmente encontrar sem problemas as 
relações entre essas frequências e as durações. Mas desde que intervenham dois 
“movimentos diferentes ou duas frequências distintas, as dificuldades surgem pelo 
fato de que é então necessário coordenar dois tempos locais e dois espaços (ou 
frequências) locais para deles obter as relações espácio-temporais comuns aos 
dois movimentos ou alterações, e até perto, dos 9 anos essas coordenações perma- 
necerão essencialmente ordinais (confusão de mais longo e mais distante ou mais 
tempo, etc.). Não é portanto exagero pensar que nas velocidades e distâncias de 
escala superior as coordenações nas quais a mecânica relativista teve de se empe- 
nhar, quando os fatos (experiência de Michelson e Morley, etc.) mostraram a 
insuficiência do tempo homogêneo universal e extrapolações fundadas no nosso 
espaço euclidiano, em escala próxima, participam de um processo geral de coor- 
denação entre as velocidades, durações e distâncias, cuja primeira etapa consistiu 
em coordenar simplesmente as relações inerentes a cada um dos dois movimentos 
distintos para chegar a este tempo e este espaço euclidiano homogêneos. As anti- 
gas (porém sempre atuais) reflexões de Poincaré sobre as condições da simulta- 
neidade na experiência imediata o mostravam já claramente e é interessante verifi- 
car-se que os fatos observáveis no curso da psicogênese das noções cinemáticas 
apresentam dificuldades bem mais consideráveis ainda. Em tal perspectiva, ao 
mesmo tempo genética e histórica, o primado geral da noção da velocidade (velo- 
cidade movimento ou velocidade frequência) adquire assim uma significação 
espistemológica notável. 

B) Quanto à grandeza física “ação” e de modo geral à explicação causal, os 
fatos psicogenéticos parecem mostrar à evidência que a causalidade nasceu da 


178 PIAGET 


própria ação, desde o nível sensório-motor aos inícios da inteligência representa- 
tiva: mas nós estamos ainda longe da ação no sentido físico, pois, se ela intervém 
já, muito cedo, e sobretudo desde as ações instrumentais, intuições de impulsos, 
de resistência e de transmissão imediata do movimento, a ela se acrescentam 
todas as espécies de “poderes” variados e não analisados em que se misturam a 
ilusão subjetiva e as relações efetivas. E sobretudo as relações causais entre obje- 
tos resultam de uma atribuição dessas ações e poderes próprios segundo um 
psicomorfismo ainda geral. A partir do segundo nível pré-opcratório se elaboram 
por outro lado as “funções constituintes” que assinalam um início de descentra- 
ção do sujeito, depois, desde o primeiro nível do estágio das “operações concre- 
tas”, a causalidade dá provas de uma atribuição das próprias operações aos obje- 
tos, donde a formação das transmissões “mediatas”, etc. (veja-se cap. I, 8 IV). 
Neste nível a “ação” começa então a adquirir uma significação fisica: por exem- 
plo. para impulsos num plano horizontal, o sujeito admitirá a equivalência de um 
impacto do móvel ativo projetando o móvel passivo de A em B e de um desloca- 
mento continuo no curso do qual o móvel ativo acompanha o móvel passivo que 
ele impulsiona assim mais lentamente de A a B. Neste caso, pode-se já falar de 
“ações” no sentido de fte, sendo compensado o tempo curto do lançamento por 
um impacto mais forte e o tempo longo de deslocamento por um impulso mais 
fraco. Ademais, o impulso p tem ao mesmo tempo a ver com os pesos e velocida- 
des, donde p = mv, embora, como já vimos, a força não seja ainda diferenciada 
do próprio movimento (donde fte = dp). No segundo nível das operações concre- 
tas efetua-se a diferenciação e a partir das operações formais o papel da acelera- 
ção se impõe (donde f = ma). 

Nesta evolução das noções de ação e de força, como nas bem numerosas 
situações causais já estudadas (transmissões, composições de forças ações e rea- 
ções, etc.) descobre-se incessantemente o papel das operações do sujeito, como já 
assinalado no parágrafo precedente, mas acompanhado desta “atribuição” das 
estruturas operatórias aos próprios objetos, o que nos interessa agora, pois há no 
caso uma nova convergência, e de ordem muito geral, entre a gênese e o desenvol- 
vimento do próprio pensamento científico. 


C) Neste último campo, sabe-se bastante o alcance epistemológico do pro- 
blema das relações entre a validade e causalidade, visto que a primeira pertence 
ao domínio dos observáveis, ao passo que a causalidade é sempre inobservável e 
apenas deduzida, donde a desconfiança tradicional do empirismo e depois do 
positivismo a seu respeito. Até mesmo no que concerne à “percepção da causali- 
dade” no sentido de Michotte, percebe-se, efetivamente, quando da ação de um 
móvel sobre outro, que alguma coisa “passou”, mas nada se vê “passar”: já neste 
plano elementar a causalidade constitui pois a resultante de uma composição 
(aqui entre regulações perceptivas), mas não um dos observáveis, e, a nos atermos 
a isto, Hume poderia continuar a falar de simples sucessões regulares, portanto de 
“conjunções” sem “conexões”. 

Sem dúvida, por mais observáveis que sejam, os fatos gerais e as relações que 
se repetem e que constituem o caráter de lei têm já necessidade de operações para 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 179 


serem registrados e isto desde a verificação da experiência como lembrado no 
parágrafo precedente. Duhem insistia outrora sobre o número de pressuposições 
teóricas que a afirmação “a corrente se estabelece” implica, quando o observador 
vê apenas uma agulha se deslocar ligeiramente no mostrador de um aparelho elé- 
trico. Operações são também necessárias à criança, para julgar sobre uma simples 
aceleração ou para reconhecer que o jato que sai lateralmente de um tubo cilín- 
drico vertical no qual há um furo depende da coluna de água situada em cima dele 
e não de um movimento ascendente. Por mais que os puros observáveis consistam 
em apenas deslocamentos ou mudanças de estado, estão já estruturados por múlti- 
plas relações desde a observação e mais ainda quando de sua generalização em 
leis, o que supõe uma continuada atividade operatória do sujeito. Em suma, o fato 
físico só é acessível pela mediação de uma esquema lógico-matemático desde a 
constatação e a fortiori no curso do trabalho de indução. Mas as operações de que 
se trata neste caso não são ainda senão “aplicadas” aos objetos, isto é, fornecem 
formas a esses conteúdos físicos como o poderiam fazer para quaisquer conteúdos 
suscetíveis de as aceitar em suas numerosas variedades. Das formas operatórias 
elementares, cuja gênese mostra que são necessárias para constatar e generalizar 
os fatos, às equações funcionais mais refinadas que os matemáticos oferecem aos 
físicos para estruturar suas leis, este processo de “aplicação” é o mesmo e basta 
no que respeita ao caráter de lei. 

Totalmente diferente é o processo de explicação causal, que comporta um 
conjunto de intercâmbios supreendentes entre as operações lógico-matemáticas e 
as ações dos objetos. Explicar as leis, isto é, fornecer a razão delas em lugar de se 
limitar à descrição, por mais analítica que seja ela, significa em primeiro lugar 
deduzir delas certas leis a partir de outras até constituir sistemas. Esta dedução, 
porém, não produz o caráter de lei, na medida em que ela se limita a inserir leis 
particulares em leis mais gerais para concluir delas em seguida por via do silogis- 
mo. A dedução só vem a ser explicativa a partir do momento em que ela assume 
uma forma construtiva, isto é, no momento em que ela tende a destacar uma “es- 
trutura” cujas transformações pemitiriam então descobrir leis tanto gerais como 
particulares, mas a título de consequências necessárias da estrutura e não mais a 
título de generalidade das diversas ordens simplesmente encaixadas. Uma estru- 
tura desse tipo, obtida, evidentemente, do acervo das estruturas matemáticas pos- 
síveis (tais quais ou reelaboradas para se adaptar aos problemas considerados), 
equivale então a introduzir no plano físico o que se chama “modelo”. 

Mas esta não esgota o assunto, e o modelo não desempenha seu papel expli- 
cativo a não ser na exata medida em que as transformações da estrutura não per- 
mitam simplesmente ao sujeito físico de se encontrar nela o dédalo das relações 
ou das leis, mas em que elas correspondam efetiva e materialmente às transforma- 
ções objetivas e reais (logo, por assim dizer “ônticas”) que se produzem nas coi- 
sas. É então nessa época que se assinalam as duas diferenças fundamentais entre 
o caráter de lei e a causalidade. A primeira é que se a legalidade pode permanecer 
no plano dos “fenômenos” sem ter que concordar com a realidade ou no plano da 
inutilidade de suportes possíveis, a causalidade por sua vez exige que “o objeto 
exista”: daí a pesquisa permanente de objetos em todas as escalas, cujos começos 


180 PIAGET 


históricos recuam à época em que, sem ainda qualquer experiência em apoio nem 
mesmo hipótese do método experimental, os gregos chegaram à hipótese pioneira 
de um mundo de átomos cujas composições davam conta da diversidade qualita- 
tiva do real. A segunda diferença entre a legalidade e a causalidade decorre da 
precedente: ao passo que as operações em jogo na constituição das leis só se apli- 
cam aos objetos, aquelas que intervêm na estrutura ou modelo emprestados aos 
objetos lhes são então “atribuídas” no sentido em que esses próprios objetos, visto 
que existem, tornam-se os operadores que efetuam as transformações do sistema. 
E como essas operações atribuídas são em princípio as mesmas que aquelas de 
que se vale a legalidade, exceto a diferença de que elas são coordenadas em 
“estruturas”, e como essas estruturas são análogas à das construções lógico-mate- 
máticas (exceto as diferenças devidas a sua inserção na duração e na matéria), as 
atribuições causais dão ao espírito a possibilidade de “compreender”, em razão 
desta convergência entre o que fazem materialmente os operadores objetivos e o 
que o próprio sujeito pode fazer em suas deduções. 

A partir das múltiplas atribuições de estruturas concretas e sobretudo for- 
mais de que demos alguns exemplos no capítulo I (transitividade e transmissões, 
composições multiplicativas, grupo INRC, etc.) até as estruturas de grupos que 
utilizam diferentes mecânicas e aos operadores interdependentes descritos pela 
microfísica, o processo de explicação causal se apresenta de modo muito geral sob 
essas formas funcionalmente análogas. 


D) Entretanto, ao passo que essas convergências entre as operações lógico- 
matemáticas e os operadores causais suscitam do ponto de vista daquelas o pro- 
blema geral do porquê de tal adequação (discutida em II, C), elas conduzem 
reciprocamente a se colocar, do ponto de vista da física, certas questões 
perturbadoras. 

Se o empirismo lógico estava certo, a objetividade do sujeito deveria ser ime- 
diata e geral em razão dos contatos perceptivos possíveis com os objetos e, unica- 
mente a extensão crescente das escalas de pesquisa explicariam as dificulddades 
encontradas, progressivamente superadas; nesta perspectiva fisicalista as opera- 
ções lógico-matemáticas se reduziriam a uma simples linguagem em si mesma 
tautológica, mas prestando-se a dar conta da observação fornecida; enfim as ope- 
rações propriamente físicas consistiriam apenas naquelas descritas por Bridgman, 
que permitem ao observador encontrar ou descobrir as relações, em particular mé- 
tricas, que as diferenças de escala vedam à observação imediata (cf. os métodos 
que servem para avaliar distâncias entre duas cidades ou entre duas estrelas). O 
problema é então de compreender por que um quadro tão simples é historicamente 
insuficiente, o que equivale a indagar por que a física (tanto a experimental como 
a matemática) veio a se constituir com atraso tão considerável em relação às ciên- 
cias puramente dedutivas, enquanto que, se as interpretações do positivismo lógi- 
co fossem verdadeiras, ela as teria podido preceder ou se desenvolver ao lado 
delas. 

A objetividade, antes de tudo (vol. V e VI dos Etudes), é um processo e não 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 181 


um estado, e representa mesmo uma conquista difícil, por aproximações indefini- 
das, porque deve satisfazer as duas condições seguintes: a primeira é que o sujeito, 
só conhecendo o real através de suas ações (e não apenas por suas percepções). 
para que atinja a objetividade passará por uma descentração. Ora, esta é tão difi- 
cil de se caracterizar como a passagem da infância à idade adulta: toda a história 
da astronomia é a de centrações sucessivas das quais foi preciso que se libertasse 
desde a época em que os corpos celestes seguiam os homens (a estrela dos reis 
magos, etc.) até Copérnico e Newton, que acreditavam ainda universais nossos 
relógios e nossos metros. E este é um exemplo apenas. Ora, o sujeito não chega a 
se descentrar senão ao coordenar em primeiro lugar suas ações sob as espécies de 
estruturas operatórias cada vez mais compreensivas. Somente o objeto, que não é 
em primeiro lugar conhecido senão por meio das ações do sujeito, deve ser recons- 
tituído e torna-se por isto um limite do qual se procura aproximar indefinida- 
mente, mas sem jamais o atingir: a segunda condição da objetividade é portanto 
a da reconstituição por aproximações, donde uma série de novas coordenações, 
entre os estados sucessivos de um mesmo objeto assim como entre os objetos, o 
que equivale à elaboração de princípios de conservação e de sistemas causais. No 
entanto, como se trata das mesmas coordenações operatórias, poder-se-ia então 
sustentar que a descentração do sujeito e a reconstituição do objeto são os dois 
aspectos de uma mesma atividade de conjunto. Isto é verdade, mas sob esta reser- 
va essencial, que a coordenação das operações do sujeito pode-se efetuar deduti- 
vamente, ao passo que a construção do real supõe em acréscimo um apelo cons- 
tante à experiência: ora, a observação como a interpretação desta requerem em si 
a coordenação precedente. A complexidade de tal situação é sem dúvida o que 
explica o atraso histórico da física em relação às matemáticas. Ela mostra em 
todo caso por que é ilusório considerar com o empirismo a objetividade como 
uma gestão espontânea para não dizer automática das funções cognitivas. 

Se as operações lógico-matemáticas desempenham assim um papel neces- 
sário na descentração do sujeito e na reconstituição do objeto, considerá-las como 
uma linguagem descritiva equivale a dizer que a feitura dos instrumentos da des- 
crição deve preceder a utilização desta. Ora, isto não tem sentido a menos que 
esta descrição seja de fato constitutiva, portanto se ela é bem mais que uma 
descrição. Entretanto, do ponto de vista da epistemologia da física, o problema é 
então o seguinte: as estruturas lógico-matemáticas (que se considerem lingua- 
gem, mas indispensáveis à compreensão, ou como instrumentos de estruturação, 
pouco importa agora) dizem respeito ao conjunto extemporâneo dos possíveis, ao 
passo que sua inserção no real, primeiro a título de aplicações para o estabeleci- 
mento de leis objetivas e sobretudo a título de atribuições para conseguir a expli- 
cação causal, equivale a encarná-las no temporal, no finito, e pois em um setor 
essencialmente limitado em relação às dimensões dessas estruturas abstratas. 


Ora. o surpreendente é que o real não é efetivamente atingido, não apenas em 
sua objcuvidade, mas ainda e sobretudo em sua inteligibilidade, a não ser que 
assim inserido entre o possível e o necessário, isto é, desde que intercalado entre 
os possíveis reunidos entre si por laços dedutivamente necessários. 


182 PIAGET 


Nos pormenores das teorias físicas este processo é corrente, mesmo nos ní- 
veis mais elementares. Explicar um estado de equilíbrio pela compensação de 
todos os trabalhos virtuais significa oferecer um quadro de todas as possibilidades 
compatíveis com as constrições do sistema e as compor segundo um liame neces- 
sário: daí a inteligibilidade do estado de fato, na ocorrência apenas real. Calcular 
uma composição de forças é raciocinar como se cada uma constituísse um vetor 
independente dos outros e ao mesmo tempo os reunir por uma adição vetorial que 
subordina todas a um conjunto de intensidade e de direção únicas atualmente 
reais: operação cuja significação matemática é trivial mas cujo sentido físico é 
epistemologicamente tão estranho que Descartes se embaraçou em suas nove leis 
do choque e que os casos mais simples de composição das trações pelo peso não 
são compreendidos pela criança senão no nível das operações formais. Nos casos 
mais complexos, como as integrais de Fermat ou de Lagrange que intervêm nos 
cálculos do extremum, esta inserção do real entre o possível e o necessário torna- 
se tão evidente que Max Planck pretendeu ver nela uma subordinação do mundo 
fisico a um princípio de finalidade que lhe parecia tão objetivo como o de causa 
eficiente, e os objetos se tornavam assim “seres de razão” adaptando-se a um 
plano de conjunto. Mas se esta razão permanece a do físico, o problema se reduz 
ao das relações entre o possível e o real e, como se sabe, é nestes termos que se 
colocam finalmente todas as questões da probabilidade 

Em geral, as operações de que necessita a física, trate-se das referentes ao 
sujeito físico ou dos operadores em jogo nas ações dos objetos, ultrapassam de 
longe o quadro do operacionalismo de Bridgman, porque se trata de parte e de 
outra de operações estruturantes e não apenas de procedimentos utilitários desti- 
nados a descobrir nelas em estruturas dadas previamente, Sem dúvida, o objeto 
existe e as estruturas existem em si mesmas antes que se os descubram. Mas não 
se os descobrem ao cabo de uma viagem operacional (no sentido de Bridgman) à 
maneira pela qual Colombo descobriu a América no curso da sua. Só se os desco- 
brem reconstruindo-os, isto é, aproximando-se deles cada vez mais, mas sem cer- 
teza de um dia simplesmente tangenciá-los. Nesta perspectiva o sujeito também 
existe e mesmo que os instrumentos procedam em sua origem do próprio mundo 
físico, por intermédio da biogênese, eles o ultrapassam incessantemente cons- 
truindo um universo extemporâneo de possíveis e de laços necessários, que é bem 
mais fértil que um “universo de palavras” pois que se trata de sistemas de transfo- 
mações que enriquecem os objetos para melhor os alcançar. 

Se tais propósitos podem parecer estranhos, é sem dúvida porque a fisica está 
longe de estar concluída, à falta de não ter podido ainda se integrar à biologia e 
a fortiori às ciências do comportamento. Resulta disso que nós raciocinamos 
atualmente sobre domínios esparsos e artificialmente simplificados. A física tem 
sido até aqui apenas a ciência dos objetos não-vivos nem conscientes. No dia em 
que ela se tornar mais “geral” (segundo a forte expressão de Charles-Eugen Guye) 
e atingir o que se passa na matéria de um corpo vivo ou mesmo capaz de utilizar 
a razão, o enriquecimento epistemológico do objeto pelo sujeito, do que formula- 
mos aqui a hipótese, parecerá talvez como uma simples lei relativista de perspec- 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 183 


tiva ou de coordenação dos referenciais, mostrando ao mesmo tempo que, para o 
sujeito, o objeto não poderia ser outro que aquilo que lhe parece, mas também que 
do ponto de vista dos objetos o sujeito não poderia ser diferente. 


IV. O construtivismo e a criação de novidades 


Em conclusão deste pequeno livro devo discutir um pouco mais minuciosa- 
mente o problema central da construção dos conhecimentos novos, de que nos 
temos ocupado incessantemente, e procurar o que a perspectiva genética pode ofe- 
recer a respeito. 

A) Partindo da observação precedente (fim do $ III), deve-se primeiro cons- 
tatar que, se a física não está concluída, o que é evidente, também o nosso próprio 
universo não está concluído, o que a epistemologia não raro esquece. O Universo 
se degrada em parte, o que não nos interessa aqui, mas é igualmente sede de cria- 
ções múltiplas como parece demonstrar a cosmologia contemporânea. Do mesmo 
modo, a traçar retrospectivamente a evolução das espécies ao curso do quaterná- 
rio, produziu-se um conjunto considerável de novidades, a começar pela homini- 
zação de alguns primatas, e uma série de raças imprevistas continua a se formar 
em numerosas espécies animais e vegetais. Quanto às modificações fenotípicas 
novas, cuja natureza é essencial no que concerne aos conhecimentos, podem 
produzir-se quase à vontade sob nossos olhos enquanto interações não ainda reali- 
zadas entre um organismo relativamente maleável e um meio modificado. 

Mas a partir desta referência às transformações biológicas, surge o problema 
da alternativa entre a novidade real e a predeterminação. As combinações possi- 
veis das sequências do ADN ” são incontáveis, daí ser fácil sustentar que toda 
variação hereditária não passa de uma atualização de uma combinação pré-for- 
mada. Hipótese irrefutável, mas inútil, disse Dobzhansky; entretanto, resta anali- 
sar O que significam os termos “possivel” e “atualização”. Ora, em tal domínio, o 
possível não é reconhecido de modo autêntico a não ser retroativamente uma vez 
realizado, e esta atualização comporta uma interação necessária com as circuns- 
tâncias contingentes do meio: a pré-formação de um genótipo novo não significa. 
pois, de fato, senão a existência de certa continuidade com aqueles de que é prove- 
niente, mas não abrange o conjunto das condições necessárias e suficientes para a 
sua formação. A fortiori, a formação de um fenótipo novo, portanto a modifica- 
ção de uma “norma” de reação, comporta, bem entendido, certa continuidade 
com os estados anteriores deste, mas supõe, ademais, certo número de interações 
com o meio que não eram previsíveis em pormenor. 

Apenas, diferentemente das construções cognitivas que supomos serem ao 
mesmo tempo novas e necessárias, as novidades precedentes são mais fáceis de ser 
reconhecidas como tais, enquanto contingentes. A aproximar-se do conhecimento 
surge a questão da criatividade das ações humanas, e em particular das técnicas 
que se aparentam de perto com o saber científico. Ora, as técnicas parecem cons- 


7 Ácido desoxirribonucléico. (N. do T.) 


184 PIAGET 


tituir as novidades mais evidentes, a transformar todo dia nosso universo. Como 
qualificá-las então de “novas” e em que podem elas por sua vez serem conside- 
radas predeterminadas? O primeiro lançamento de um satélite artificial foi sem 
dúvida uma das atividades técnicas mais minuciosamente preparadas e apoian- 
do-se em consequência no maior número de conhecimentos prévios em relação 
com a tentativa feita. Poder-se-ia portanto dizer que se trata de uma combinação 
calculável da qual todos os elementos eram dados. Sim, mas outra coisa é conce- 
ber uma combinação que se realiza fatalmente entre múltiplos fatores pertencentes 
a um número considerável de séries heterogêneas (desde os dados astronômicos 
até a natureza do combustível) e outra coisa é ter tido a idéia de procurar esta 
combinação. No primeiro caso, a probabilidade é ainda bem mais fraca do que 
aquela de que o biólogo Bleuler calculou para analisar o que seria a formação de 
um olho por mutações conjugadas (chegou a um processo cuja duração teria 
ultrapassado a idade da terra): é então de pouca importância falar de uma prede- 
terminação da combinação. No segundo caso, a idéia diretriz constitui sem dúvi- 
da a conclusão de uma série de projetos anteriores, mas a combinação realizada 
resulta de opções e relacionamentos deliberados não contidos neles: ela é nova 
portanto como combinação devida à inteligência de um ou vários sujeitos e ela 
nos enriquece de objetos que não eram nem conhecidos nem mesmo dedutíveis 
antes de certas aproximações ativamente pesquisadas. 

Neste plano da ação, que não é ainda o das construções necessárias, coloca- 
se já o problema que domina, ao que parece, o das novidades ou pré-formações: 
se se considera como predeterminada toda produção nova pelo simples fato de 
que ela era possivel a vista dos resultados obtidos, a questão passa a ser então de 
estabelecer se, em relação ao real e as suas mudanças incessantes, o possível é por 
natureza estável porque já totalmente equipado e de modo intemporal, ou se ele 
mesmo está sujeito a transformações, no sentido em que a atualização de certos 
setores seus constituem uma abertura para “novos” possíveis. Ora, das variações 
biológicas até as construções características das atividades humanas e das técni- 
cas, parece evidente que toda inovação franqueia precisamente a via a novas 
possibilidades. Mas acontecerá o mesmo com a sucessão das estruturas operató- 
rias, visto que cada uma delas, uma vez construída, aparece como necessária e 
dedutível a partir dos antecedentes? 


B) Vimos como, no curso da gênese, o conhecimento procede no início de 
ações materiais para atingir no fim de contas ao intemporal e a uma abertura 
sobre o conjunto dos possíveis. Verificamos, por outro lado, em que a inserção 
dos fatos físicos nos quadros lógico-matemáticos e em que a atribuição das opera- 
ções aos próprios objetos conduzia a uma inserção do real entre o possível e o 
necessário, como se o universo dos possíveis fosse o único a poder tornar inteligi- 
veis as transformações temporais. Daí ao platonismo parece não haver mais que 
um passo e no passado G. Juvet deu esse passo com convicção em nome da “Es- 
trutura das novas teorias físicas”. Mas entre ambos vieram o construtivismo no 
sentido estrito de Brouwer, os trabalhos sobre os limites da formalização, as 
novas pesquisas sobre o transfinito e a surpreendente liberdade na elaboração dos 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 185 


“morfismos”, tantos índices muito significativos de uma parentesco eventual entre 
a gênese temporal que é um dos objetos de nossos estudos e esta espécie de gênese 
ou de filiação intemporais, mas não menos efetivas, de que parece dar provas o 
desenvolvimento das estruturas lógico-matemáticas (veja-se, sobre a questão, o 
vol. XV dos Études). 


O problema é então o seguinte: quando o matemático faz uma invenção que 
abre uma série de novas possibilidades, significará isto simplesmente um episódio 
subjetivo ou histórico-genético que apenas se restringe ao trabalho humano e tem- 
poral das gerações sucessivas de pesquisadores, ou se trata de uma articulação 
que reúne o conjunto dos possíveis de um nível determinado a um conjunto hierar- 
quicamente distinto de possibilidades não contidas nos antecedentes e, em conse- 
quência, operatoriamente novas? 


Os trabalhos de Feferman e Schutte (precedidos pelos artigos de Kleene, 
Ackermann e Wermus sobre as formalizações “construtivas” do transfinito) ofere- 
cem a esta questão uma resposta que parece decisiva no campo desses números 
transfinitos. Esses autores chegaram primeiramente a definir um número “kappa 
0” (Ko) que constitui um limite para a predicatividade. Em outros termos, até o 
K, exclusive, pode-se avançar por meio de uma construtividade “efetiva” (portan- 
to, por meio de uma combinatória que torna toda construção decidível) ao passo 
que já para definir K, e a fortiori para além dele é-se forçado a abandonar esse 
método. Por outro lado, ultrapassado o limite, novas possibilidades são abertas 
segundo o que se pode chamar uma recursividade e uma decidibilidade ““relati- 
vas”. Admitamos pois uma classe S, em que tudo é decidível, mais uma proposi- 
ção ND, não decidível: na hipótese em que ND, pode ser considerada como ver- 
dadeira (ou falsa) em virtude de suposições particulares exteriores ao sistema, o 
conjunto S, (= Sy + ND ,) torna-se “relativamente decidível” em relação a ND ,; 
se se junta a S, uma nova proposição ND, não decidível e que por hipótese possa 
ser verificada por razões igualmente extrínsecas, ter-se-á o conjunto S, (= S, + 
ND») “relativamente decidível””; e assim por diante por reorganizações sucessivas 
e repetição transfinita. 


Esses “graus de solucionabilidade” correspondem então a estruturas por 
camadas hierarquizadas (mas sem linearidade completa) fazendo intervir proble- 
mas não solucionáveis de peso cada vez maior, mas esta hierarquia de sistemas é 
impossível de circunscrever-se por uma fórmula ou método de cálculo efetivos: 
é-se reduzido a recorrer a uma série de invenções sucessivas (que tratam dos ND), 
em que cada estágio é irredutível ao precedente de maneira cada vez mais forte. 
Percebe-se o duplo interesse desses resultados: de uma parte, torna-se difícil falar 
de noções predeterminadas, visto que, além do limite K,, sai-se do domínio da 
combinatória, e o argumento clássico (embora duvidoso) segundo o qual a inven- 
ção nova estava previamente incluída no conjunto das combinações possíveis 
perde assim seu valor; de outra parte, cada passagem de um degrau ao seguinte 
abre novas possibilidades, o que leva a admitir que em matemáticas, como de 
resto, o universo dos possíveis não está concluído de uma vez por todas, conforme 
uma programação que se poderia verificar de antemão. De fato. esta verifi- 


186 PIAGET 


cação equivaleria já a uma construção por atualizações sucessivas e percebe-se 
ademais que além da construtividade “efetiva” outras lhe sucedem de um modo 
imprevisível. 


C) De maneira geral, o problema colocado pela epistemologia genética é 
de decidir se a gênese das estruturas cognitivas não constitui senão o conjunto das 
condições de acesso aos conhecimentos ou se ela atinge suas condições constitu- 
tivas. A alternativa é então a seguinte: corresponderá a gênese a uma hierarquia 
ou mesmo a uma filiação naturais das estruturas, ou descreve ela apenas o pro- 
cesso temporal segundo o qual o sujeito as descobre a título de realidades preexis- 
tentes? Neste último caso isto equivaleria a dizer que essas estruturas eram pré- 
formadas, seja nos objetos da realidade física, seja no próprio sujeito, como a 
priori, seja ainda no mundo ideal dos possíveis num sentido platônico. 

Ora, o escopo da epistemologia genética era de mostrar, pela análise da pró- 
pria gênese, a insuficiência dessas três hipóteses. Daí a necessidade de ver na 
construção genética no sentido amplo uma construção efetivamente constitutiva. 
Vejamos agora se esta ambição tinha fundamento: 

A) A começar pela interpretação platônica, ela traduz certo senso comum 
dos matemáticos pelo qual os “seres” matemáticos existem desde sempre, 
independentemente de sua elaboração. Ora, o duplo ensino da história e da psico- 
gênese parece ser o de mostrar, de uma parte, que a hipótese de tal existência per- 
manente (ou “subsistência”, essência, etc.) nada acrescenta ao conhecimento 
lógico-matemático em si e não o modifica em coisa alguma, e, de outra parte, que 
o sujeito não dispõe de qualquer processo cognitivo específico que permita atingir 
tais “seres”, a admitir que eles existam, sendo os únicos instrumentos conhecidos 
dos conhecimentos lógico-matemáticos aqueles que intervêm em sua elaboração e 
se bastam portanto a si mesmos. 

No que respeita ao primeiro desses dois tópicos, a diferença é flagrante entre 
os papéis que desempenham respectivamente as hipóteses da “existência” no caso 
dos objetos físicos e no caso dos “seres” matemáticos. Dizer que sob os fenôme- 
nos atingidos como observáveis pela pesquisa da legitimidade em fisica existem 
objetos reais, significa modificar profundamente a interpretação da causalidade, 
visto que esta perde sua significação se se atém aos observáveis e se impõe, ao 
contrário, se se crê nos “objetos”. Por outro lado, supor que o cálculo infinite- 
simal existia antes que Leibniz e Newton os descobrissem em nada altera suas 
propriedades. Evidentemente, uma diferença notável opõe o construtivismo de 
Brouwer. com suas restrições a respeito do princípio do terço excluído, às mate- 
máticas clássicas cujas construções dedutivas fazem uso sem precaução dos 
raciocínios por absurdo. Mas em nossa linguagem trata-se de apenas dois tipos 
distintos de construções ou de utilização de operações, e este debate não basta 
para resolver a questão do platonismo, embora o operacionalismo de Brouwer 
comporte uma epistemologia nitidamente antiplatônica. 

O único exemplo que descobrimos em que a referência ao platonismo parece 
modificar o aspecto técnico de um conhecimento é esta afirmação de Juvet: não é, 
como o dizia Poincaré, porque não é contraditório que um ser matemático existe; 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 187 


é, pelo contrário, porque ele existe (no sentido platônico) que é isento de contradi- 
ção. Mas se esta expressão é significativa como busca de uma utilização concreta 
das crenças platônicas ou platonizantes, nem por isso deixou de ser totalmente 
desmentida pelo teorema de Gódel, visto que a demonstração da não-contradição 
de um sistema supõe a construção de um outro sistema mais “forte” e que a consi- 
deração de sua existência no sentido platônico nada acrescenta à questão. 

Quanto à segunda questão, conhece-se bem a evolução de Bertrand Russell. 
Assim como a “percepção” nos fornece o conhecimento dos objetos materiais, 
dizia ele quando da fase platônica de sua grande carreira, do mesmo modo uma 
faculdade particular, que ele chamava “concepção”, nos daria acesso às idéias 
eternas que “subsistem” independentemente de nós. Mas que dizer então dessas 
idéias falsas, infelizmente mais frequentes que as verdadeiras? Ora bem, respon- 
deu Russell, elas “subsistem” também, ao lado das verdadeiras, “do mesmo modo 
como existem rosas vermelhas e rosas brancas”. Indagaríamos ainda, por nossa 
vez, a partir de que momento pode-se estar seguro da pertença dos conceitos a 
esse mundo eterno das idéias verdadeiras e falsas: os “pré-conceitos” dos níveis 
anteriores às operações lógico-matemáticas terão acaso direito a ele? E os esque- 
mas sensório-motores? Se Bertrand Russel] rapidamente renunciou a seu plato- 
nismo inicial, não foi sem razão: é que ele nada acrescentava, a não ser complica- 
ções, à sua tentativa de reduzir as matemáticas à lógica. 

Concluiremos analogamente quanto às relações entre o platonismo e a cons- 
trução genética ou histórica das estruturas. Sem dúvida a hipótese platônica é irre- 
futável no sentido em que uma construção, uma vez efetuada, pode sempre ser 
considerada, por isso mesmo, ter sido eternamente predeterminada no mundo dos 
possíveis considerando-se este como um todo estático e acabado. Mas como esta 
construção constituía o único meio de acesso a tal universo de Idéias, ela se basta 
a si mesma sem que haja necessidade de hipostasiar seu resultado. 


B) Quanto a considerar as estruturas de conhecimentos como pré-formadas 
seja nos objetos físicos, seja nos a priori do sujeito, a dificuldade reside em que se 
trata de dois termos limites, cujas propriedades se modificam à medida que se 
acredita que se as atinge, as primeiras ao se enriquecerem, e as segundas ao se 
empobrecerem. 

Não há dúvida de que os objetos existem e comportam estruturas que exis- 
tem também independentemente de nós. Apenas, os objetos e suas leis não podem 
ser conhecidos a não ser graças aquelas de nossas operações que lhes são aplica- 
das para esse fim, e constituem o quadro do instrumento de assimilação que as 
permite atingir. Assim é que só nos acercamos deles por aproximações sucessivas, 
o que equivale a dizer que eles representam um limite jamais atingido. Por outro 
lado, toda explicação causal supõe ademais uma atribuição de nossas operações 
aos objetos, o que consegue e atesta, em consequência, a existência de uma analo- 
gia entre suas estruturas e as nossas; mas isto torna tanto mais difícil nosso juízo 
sobre a natureza dessas estruturas objetivas independentemente das nossas, 
tornando-se esta natureza independente, por sua vez, um limite jamais atingido, 
embora sejamos obrigados a crer nela. 


188 PIAGET 


Não é pois sem alguma razão que Ph. Franck não chegou a se decidir entre 
as duas concepções possíveis da causalidade: uma lei da natureza ou uma exigên- 
cia da razão. Esta disjunção nos parece ao mesmo tempo não-exclusiva e redutível 
a uma conjunção lógica. 

Apenas, se enriquecemos deste modo as estruturas objetivas com nossa 
contribuição dedutiva, isto significa que nossas estruturas lógico-matemáticas não 
poderiam ser consideradas como derivando-se de estruturas materiais ou causais 
dos objetos: seu ponto de contato deve ser procurado, como já vimos no capítulo 
I, no próprio organismo vivo, porque é a partir desta fonte que os sistemas 
lógico-matemáticos se elaboram, passando pelo comportamento, graças a uma 
sequência ininterrupta de abstrações refletidoras e de construções auto-regula- 
doras constantemente novas. 

No que se refere agora à hipótese a priorista, que situaria a predeterminação 
no sujeito e não mais nos objetos, achamo-nos igualmente diante de uma espécie 
de limite, mas em um sentido oposto. Parece geneticamente evidente que toda 
construção elaborada pelo sujeito supõe condições internas prévias, e neste senti- 
do Kant tinha razão. Apenas, suas formas a priori eram demasiado ricas: ele acre- 
ditava, por exemplo, ser o espaço euclidiano necessário, ao passo que as geome- 
trias não-euclidianas o reduziram à categoria de caso particular. Poincaré 
concluiu disso que a estrutura de grupo era a única necessária, mas a análise gené- 
tica mostra que ela também só se elabora progressivamente, etc. Resulta disso que 
a se querer atingir um a priori autêntico deve-se reduzir cada vez mais a “com- 
preensão” das estruturas de saída e que, no limite, o que subsiste como necessi- 
dade prévia se reduz apenas ao funcionamento: é, com efeito, o que constitui a ori- 
gem das estruturações, mas no sentido em que Lamarck dizia que a função cria o 
órgão (o que permanece verdadeiro no plano fenotípico). É então claro que este 
apriorismo funcional não exclui em nada, mas implica uma construção continua 
de novidades. 


C) Se as estruturas novas, cuja gênese e história mostram a elaboração 
sucessiva, não são pré-formadas nem no mundo ideal dos possíveis, nem nos obje- 
tos, nem nos sujeitos, é pois que sua construção histórico-genética é autentica- 
mente constitutiva e não se reduz portanto a um conjunto de condições de acessi- 
bilidade. Mas tal afirmação não poderia ser justificada exclusivamente pelo exame 
dos fatos, sobre os quais insistiram os capítulos I e II deste pequeno livro: existe 
ademais uma questão de.direito ou de validade, visto que a novidade de uma 
estrutura não decorre tão-somente da constatação, mas ainda também da 
demonstração. 

A nossa demonstração será apenas intuitiva, mas poderia ser formalizada no 
estilo inaugurado por Gôdel e os numerosos trabalhos desses dois ou três últimos 
anos sobre os conjuntos transfinitos. Ela se restringirá mesmo a algumas observa- 
ções simples, para não dizer triviais: aquelas de que se costuma utilizar para refu- 
tar em qualquer época os excessos do reducionismo. 

Em todos os domínios do saber, com efeito, tem-se assistido, periodicamente, 
diante de dois degraus, um dos quais é mais complexo do que o outro (e pode ser 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 189 


chamado “'superior” a ele), seja a uma tendência a reduzir o superior ao inferior, 
seja a uma tendência contrária em reação ao excesso da primeira. No campo da 
física, por exemplo, consideraram-se por muito tempo os fenômenos mecânicos 
como um esquema elementar e mesmo único inteligível, ao qual tudo se devia 
reduzir: daí os esforços desesperados para traduzir o eletromagnetismo em lingua- 
gem de mecânica. No campo biológico pretenderam-se reduzir os fenômenos vi- 
tais aos fenômenos fisico-químicos conhecidos (esquecendo-se as transformações 
possíveis de uma disciplina que efetivamente se modifica sem cessar): daí a reação 
de um anti-reducionismo vitalista cujo mérito inteiramente negativo consistiu ape- 
nas em denunciar as ilusões das reduções prematuras. Em psicologia pretendeu-se 
“reduzir” tudo ao esquema estímulo-resposta, às associações, etc. 

Se as hipóteses reducionistas fossem fundamentadas, evidentemente elas 
excluiriam todo construtivismo no sentido lembrado há pouco, e o mesmo aconte- 
ceria com as subordinações do inferior ao superior (vitalismo, etc.): nestes dois 
casos, toda estrutura “nova” deveria ser considerada como pré-formada no seio 
seja do mais simples seja do complexo e a novidade não consistiria senão numa 
explicação obtida de liames preexistentes. Reciprocamente, a refutação do redu- 
cionismo acarreta um recurso ao construtivismo. 

Com efeito, por toda parte em que o problema pôde ter sido resolvido, che- 
gou-se a uma situação em acordo notável com as hipóteses construtivistas: entre 
duas estruturas de níveis diferentes, não há redução no sentido único, mas uma 
assimilação recíproca de tal modo que a superior pode ser derivada da inferior por 
via de transformações, mas também de tal modo que a primeira enriquece esta úl- 
tima nela se integrando. Foi assim que o eletromagnetismo fecundou a mecânica 
clássica dando ensejo ao nascimento de novas mecânicas, ou que a gravitação foi 
reduzida a uma espécie de geometria, mas cujas curvaturas são determinadas 
pelas massas. 

Pode-se também esperar que do mesmo modo que reduzindo a vida à físico- 
química se enriquecerá esta de propriedades novas. Nos domínios da lógica e das 
matemáticas, a redução das segundas à primeira sonhada por Whitehead e Rus- 
sell chegou a uma espécie de assimilação de duplo sentido: a lógica era integrada 
à álgebra geral, servindo ao mesmo tempo de instrumento na axiomatização desta 
ou de qualquer outra teoria (sem mencionar as relações complexas existentes entre 
o número e as estruturas de classes e relações). Etc. 

É então visível que essas assimilações recíprocas procedem à maneira de 
abstrações refletidoras que, ao garantirem a passagem entre dois degraus hierár- 
quicos, engendram, por isso mesmo, novas reorganizações. Em uma palavra, a 
construção de estruturas novas parece caracterizar um processo geral cujo poder 
seria constitutivo e não se reduziria a um método de acessibilidade: dos fracassos 
do reducionismo causal, no terreno das ciências do real, aos do reducionismo 
dedutivo quanto aos limites da formalização e às relações das estruturas superio- 
res com as da lógica, assiste-se por toda parte a uma falência do ideal de dedução 
integral que implica a pré-formação, e isto graças a um construtivismo que apare- 
ce cada vez mais. 


190 PIAGET 


Ora, ao analisar os estágios mais elementares, a epistemologia genética pode 
demonstrar que as formas iniciais do conhecimento eram muito mais diferentes 
das formas superiores do que se acreditava e que, em consequência, a construção 
destas tinha de percorrer um caminho bem mais longo, bem mais difícil e sobre- 
tudo bem mais imprevisível do que se podia imaginar. 

O emprego do método genético enriqueceu pois de tal modo as concepções 
construtivistas e, por esta razão, por mais parciais que sejam nossos resultados, 
temos confiança em seu futuro, não obstante a imensidade do domínio que resta 
a explorar. 


JEAN PIAGET 


SABEDORIA E ILUSÕES 
DA FILOSOFIA 


Tradução de Zildá Abujamra Daeir 


* Traduzido do original francês Sagesse et illusions de la philosophie, Paris, Presses Universitaires de Francc. 
1969. 


De 


Introdução 


Dizer que esta obra se me impôs como um dever seria pretensioso, mas o foi, 
pelo menos, em virtude de uma exigência cada vez mais constrangedora. Sua tese 
é simples e, em certos meios, banal: a de que filosofia, de acordo com o grande 
nome que recebeu, constitui uma “sabedoria” indispensável aos seres racionais 
para coordenar as diversas atividades do homem, mas que não atinge um saber 
propriamente dito, provido das garantias e dos modos de controle que caracte- 
rizam o que se denomina “conhecimento”. Mas se vivi confortavelmente com tal 
crença, como todos os que permanecem à margem da filosofia, mesmo sendo 
seduzidos por ela, pareceu-me que se tornava necessário justificar explicitamente 
e mesmo proclamar essa tese, em vista dos abusos cotidianos aos quais seu não 
reconhecimento conduz. No término de uma carreira de psicólogo e de epistemo- 
logista, durante a qual mantive as melhores relações com os filósofos que me hon- 
raram muitas vezes com uma amizade e confiança cujo alto preço bem conheço, ' 
vivi quase dia após dia os conflitos que retardam o desenvolvimento de disciplinas 
que pretendem ser científicas. Cheguei à convicção de que, sob o conjunto extre- 
mamente complexo de fatores individuais ou coletivos, universitários ou ideológi- 
cos, epistemológicos ou morais, históricos ou atuais, etc., que intervêm em cada 
um desses conflitos, se reencontra em definitivo sempre o mesmo problema e 
sob formas que me parecem decorrer da simples honestidade intelectual: em que 
condições se tem o direito de falar de conhecimento e como salvaguardá-lo contra 
os perigos interiores e exteriores que não cessam de ameaçá-lo? Ora. quer se 
trate de tentações interiores ou de coações sociais de toda espécie, esses perigos 
perfilam-se todos em torno de uma mesma fronteira. surpreendentemente móvel 
ao longo das idades e das gerações. mas não menos essencial para o futuro do 
saber: aquela que separa a verificação da especulação. 

Para quem encontra sem cessar esse problema no decorrer das suas ativida- 
des profissionais, o estatuto de “sabedoria”, ou ao contrário, de “conhecimento”, 
próprio à filosofia não corresponde mais a um problema de luxo ou de simples 
teoria: é uma questão vital porque condiciona os fracassos ou os êxitos do esforço 
de milhares de pesquisadores. Dos jovens filósofos, de início, pelo fato de que 


* Alguns lizcram-me eleger membro do Instituto Internacional de Filosofia. sem que eu tivesse apresentado 


minha candidatura. 


PE 


194 PIAGET 


desde o seu acesso às faculdades são especializados em uma disciplina que os 
maiores autores da história da filosofia só abordaram após anos de pesquisas 
científicas, se os incitam a crer que podem penetrar plenamente nas regiões supre- 
mas do saber, quando na realidade nem eles e às vezes nem seus próprios mestres 
têm a menor experiência do que seja a conquista e a verificação de um conheci- 
mento particular. De todos aqueles que, em continuação a esse processo, cultivam 
disciplinas concernentes, de perto ou de longe, ao espírito do homem e cuja car- 
reira será sempre condicionada pelas questões de independência ou de depen- 
dência em relação à filosofia. 

É verdade que se poderia contentar-se com o tratar nosso problema no abs- 
trato. Existe ou não um modo específico de conhecimento próprio à filosofia, que 
seria diferente do conhecimento científico, que comportasse ao mesmo tempo nor- 
mas e uma metodologia dignas do grande nome de “conhecimento”? Quais são, 
na hipótese de uma resposta afirmativa, essas normas e esses critérios, e quais os 
procedimentos de verificação aos quais conduzem? São tais procedimentos de 
fato eficazes, conseguiram alguma vez concluir um debate pela rejeição de uma 
teoria então revogada aos olhos de todos os contemporâneos, e por uma justifica- 
ção suficiente para obter a unanimidade em favor da teoria vitoriosa? Tal seria o 
gênero de problemas dos quais teremos, por certo, de tratar e em relação ao qual 
se poderia limitar-se a fornecer uma discussão geral e puramente epistemológica. 

Mas a questão é muito mais ampla e grave, porque de natureza sociológica 
e psicológica tanto quanto epistemológica e pelo fato de que vai às raízes de nos- 
sas ideologias, tanto quanto e mais ainda que às condições de nossa atividade 
racional. 

Na verdade, não é só de “a filosofia” que se trata mas sim de um conjunto 
extraordinariamente poderoso e complicado de influências históricas e sociais, 
que fazem dessa filosofia uma instituição escolar e universitária, com tudo o que 
isso comporta de tradição, autoridade, canalização dos espíritos e sobretudo de 
determinação das carreiras. Mais ainda, a filosofia tornou-se em muitos países 
uma espécie de exercício espiritual, revestido de uma auréola não exatamente 
sagrada, mas que garante um prestígio tal que qualquer discussão parece ipso 
facto testemunhar um positivismo estreito ou uma incompreensão congênita. 

No entanto, a filosofia tem sua razão de ser e deve-se mesmo reconhecer que 
todo homem que não passou por ela é incuravelmente incompleto. Mas isso não 
autoriza em nada seu estatuto de verdade. Ora, acontece que, para pôr em discus- 
são seu alcance e apresentar o problema de saber se ela atinge ou não um conheci- 
mento no pleno sentido da palavra, é preciso, no estado atual das instituições e 
das opiniões, uma “coragem filosófica” que corre o risco de ir de encontro as 
influências mais tenazes e às mais arraigadas da consciência coletiva, assim como 
a todas as consciências individuais para as quais o pensamento filosófico tornou- 
se ou um sucedâneo ou um suporte necessário da religião. 

Ora, se assim for e se a crença no “conhecimento” filosófico é geralmente 
associada a um complexo conjunto de motivações individuais e sociais, é natural 
que um autor, pondo em dúvida esse caráter de conhecimento e convencido do 

: 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 195 


fato de que o pensamento metafísico reduz-se a uma sabedoria ou a uma fé racio- 
cinada é necessariamente também ele, influenciado por múltiplas motivações. Em 
tal debate, onde cada um está implicado de maneira mais ou menos profunda, é 
impossível colocar-se “acima da confusão” e a objetividade aqui, ainda mais que 
alhures, permanece um ideal obrigatório mas dificilmente acessível. Parece-me, 
pois, indispensável fornecer ao leitor os elementos de apreciação necessários para 
Julgar com toda liberdade o ponto de vista do autor e, para fazê-lo, consagrar um 
primeiro capítulo, senão a uma confissão, pelo menos a um relato detalhado da 
desconversão que conduziu um antigo futuro filósofo a tornar-se um psicólogo e 
um epistemologista do pensamento no seu desenvolvimento. Sei bem que o eu é 
odiável (e que por cúmulo cada um pensa com Gide: “... não o meu, eu o teria 
amado num outro”), mas é somente perfazendo sua gênese que se estará em condi- 
ções de poder compreender as razões de suas posições, o que pode ajudar a julgar 
em que medida elas são válidas ou não válidas. 

Mas, após essa análise de uma experiência pessoal, o capítulo II procurará 
precisar as relações entre as ciências e a filosofia. Procurará lembrar, por uma 
parte (o que é banal mas muitas vezes esquecido), que os maiores sistemas da his- 
tória da filosofia nasceram todos de uma reflexão sobre as ciências ou de projetos 
que tornam possíveis novas ciências. De onde, por outra parte, um movimento 
geral da história das idéias filosóficas, que, nascidas em um estado de indiferen- 
ciação entre as ciências e a metafísica, tendem pouco a pouco a dissociar-se desta 
última para gerar ciências particulares e autônomas assim como a lógica, a psico- 
logia, a sociologia e a epistemologia como tal, que é cada vez mais a obra dos pró- 
prios sábios. Mas em reação a essa diferenciação inevitável da filosofia em uma 
metafísica (que não é senão uma “sabedoria” ou uma fé raciocinada e não um 
conhecimento) e em disciplinas votadas ao conhecimento mas tornando-se 
independentes, toda uma corrente de idéias nascida no século XIX apenas, e da 
qual Husserl é o mais ilustre representante contemporâneo, tende a restituir à filo- 
sofia um modo de conhecimento específico e de natureza que se poderá chamar, 
segundo as posições de cada um, supracientífico ou paracientífico. O capítulo II 
tratará de examinar o valor de uma tal orientação e em particular a validade desse 
modo proposto de conhecimento que constitui a “intuição” sob suas formas, aliás 
contraditórias entre si, bergsoniana ou fenomenológica. 

Ora, o problema da possibilidade de um conhecimento especificamente filo- 
sófico e paracientífico pode ser aprofundado de mais perto sobre um exemplo 
particular e particularmente instrutivo: o da psicologia dita filosófica, não a dos 
grandes filósofos da história, anterior à constituição de uma psicologia científica, 
mas aquela que quis constituir-se explicitamente à margem, como complemento e 
em substituição desta última. O capítulo IV examinará a questão do valor e da 
legitimidade dessa série de ensaios, nascidos com Maine de Biran (que se opunha, 
aliás, ao empirismo de Hume e não a uma psicologia experimental ainda não fun- 
dada) e chegando até os de Sartre e de Merleau-Ponty. 

Enfim, o capítulo V abordará uma questão que pode parecer secundária mas 
que continua central para o nosso propósito: a do direito de abordar os proble- 
mas de fatos por uma discussão puramente reflexiva. 


196 PIAGET 


Este pequeno livro tem, pois, por objetivo, essencialmente, lançar um grito de 
alarma e defender uma posição. Que não se procure nele, portanto, erudição nas 
alusões históricas nem profundidade no detalhe das discussões. Não é mais que o 
testemunho de um homem que foi tentado pela especulação e que cedeu a consa- 
grar-se a ela, mas que, tendo compreendido por sua vez seus perigos, suas ilusões 
e seus múltiplos abusos, quer comunicar sua experiência e justificar suas convic- 
ções laboriosamente adquiridas. 


CAPÍTULO | 


Narração e Análise de uma Desconversão 


Parece fora de dúvida que a filosofia teve por mira, constantemente. um 
duplo alvo cujos diferentes sistemas procuraram de diferentes maneiras a unifica- 
ção mais ou menos completa: um alvo de conhecimento e outro de coordenação 
dos valores. Uma primeira maneira é pré-crítica: a filosofia atinge um conheci- 
mento integral e coordena assim diretamente os valores morais, etc., aos conheci- 
mentos particulares ou científicos. Uma segunda maneira caracteriza a crítica 
kantiana: o conhecimento filosófico propriamente consiste, por uma parte, em 
determinar os limites de todo conhecimento e por outra parte em fornecer uma 
teoria do conhecimento científico, o estabelecimento de tais limites deixando o 
campo livre à coordenação dos valores. Um terceiro grupo de soluções (sem pro- 
curar, no momento, ser exaustivo) apresenta duas tendências: de um lado, uma 
dissociação de certos ramos da filosofia promovidos à categoria de disciplinas 
autônomas (a psicologia, a sociologia, a lógica, e cada vez mais a epistemologia 
tornando-se interna às ciências); do outro, uma coordenação dos valores fundada 
em uma reflexão organizadora que procede (e aí são inúmeras as variedades) 
pelo exame crítico da ciência e pela pesquisa de um modo específico de conheci- 
mento, seja imanente a essa crítica. seja resolutamente situado à margem ou 
acima do conhecimento científico. 

A) — Quando um adolescente aborda a filosofia, ele está em geral motivado 
de forma dominante pela necessidade de coordenação dos valores: conciliar a fé 
e a ciência ou a razão, etc. Quanto ao conhecimento científico, deste ele conhece 
apenas certos resultados sumários, devidos ao ensino, mas não tem ainda nenhu- 
ma idéia sobre a pesquisa como tal nem sobre as complexas condições do estabe- 
lecimento de uma verdade, porque estas são realidade que só a experiência pessoal 
e vivida permite entrever. Pelo fato de que todo o ensino é quase só baseado, infe- 
lizmente, na transmissão verbal e na reflexão, o adolescente acha então perfeita- 
mente natural que haja um modo de conhecimento filosófico fundado apenas 
nesta reflexão e ele só pode entusiarmar-se ao descobrir, assim simultaneamente. 
uma via de acesso a verdades superiores, bem mais centrais que as pequenas ver- 
dades fornecidas pclo ensino cotidiano e uma resposta às questões vitais que ele se 
propõe sobre os valores supremos nos quais acredita. Então decide-se: ou consa- 
gra-se à filosofia, ou guardará dela a marca permanente. pronto a se formular 
novos problemas se ele se entrega, a seguir, a pesquisas em regiões vizinhas. 


198 PIAGET 


Quanto a mim, decidi consagrar-me à filosofia assim que a conheci. Mas por 
um acaso que desempenhou um grande papel nas minhas reações a essa iniciação, 
eu tinha já nessa época interesses particulares e bastante absorventes para se tor- 
narem duráveis. Preocupado, como muitas crianças, com a história natural, aos 
onze anos tive a sorte de vir a ser o famulus, como ele dizia, de um velho zoolo- 
gista, Paul Godet, que dirigia o Museu de Neuchâtel sem a menor ajuda material. 
Em troca dos meus pequenos serviços ele me iniciava na malacologia e me dava 
uma quantidade de conchas de moluscos terrestres e de água doce para eu fazer 
em casa uma coleção em regra. Quando morreu, em 1911, pus-me aos quinze 
anos, a publicar diferentes notas em suplemento ao seu Catalogue des Mollusques 
Neuchátelois ou sobre moluscos alpinos que me interessavam vivamente na sua 
variabilidade de adaptação à altitude. 

Foi nesse contexto que descobri a filosofia. Meu pai, que era historiador mas 
não acreditava na objetividade do conhecimento histórico, estava encantado por 
eu não seguir seus passos (belo exemplo de abnegação). Mas meu padrinho, um 
homem de letras, sem filhos, que se interessava por mim, estava espantado com 
essa especialização exclusiva e convidou-me, num verão, a ir às margens do lago 
de Annecy para me fazer ler e explicar-me A Evolução Criadora. Foi um verda- 
deiro impacto e por duas razões igualmente fortes que convergiam com os interes- 
ses permanentes, que impelem os adolescentes para a filosofia. A primeira, de 
natureza cognitiva, era de achar a resposta aos grandes problemas reencontrados 
no decorrer da minha nascente formação. Apaixonado pela biologia, mas nada 
entendendo de matemáticas, de física, nem dos raciocínios lógicos que elas 
supõem escolarmente, achava fascinante o dualismo entre o impulso vital e a 
matéria recaindo sobre si mesma, ou entre a intuição da duração e da inteligência 
inapta para compreender a vida porque orientada em suas estruturas lógicas e 
matemáticas no sentido dessa matéria inerte. Em resumo, eu descobria uma filo- 
sofia respondendo exatamente à minha estrutura intelectual de então. 

Por outro lado, educado no protestantismo por uma mãe crente e filho de um 
pai descrente, sentia já assaz vivamente o conflito entre a ciência e religião. A 
leitura de L'Évolution des Dogmes, de Auguste Sabatier, encontrado na biblio- 
teca do meu pai, havia me convencido do caráter simbólico das expressões dog- 
máticas, mas eu acreditava sempre, sem encontrar fórmula satisfatória, só no 
relativismo histórico apenas. A leitura de Bergson ainda foi uma revelação sob 
esse segundo ponto de vista: em um momento de entusiasmo vizinho da alegria 
estática, apoderou-se de mim a certeza de que Deus era a Vida, sob a forma 
desse impulso vital do qual meus interesses biológicos me forneciam simultanea- 
mente um pequeno setor de estudos. A unidade interior estava assim encontrada 
na direção de um imanentismo que por muito tempo me satisfez, sob outras for- 
mas aliás cada vez mais racionais. Mas não antecipemos. 

De volta à vida escolar, havia tomado minha decisão: consagraria minha 
vida à filosofia, tendo como alvo central conciliar a ciência e os valores religiosos. 
Mas encontrei um mestre que me influenciou fortemente, se bem que em dois sen- 
tidos inversos: de um lado fazendo-me compreender os valores racionais, e do 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 199 


outro, ulteriormente, fazendo-me duvidar pouco a pouco da eficácia da profissão 
de filósofo. Foi o lógico Arnold Reymond, que começava sua carreira em 
Neuchâtel. Sua aula inaugural na Universidade, à qual assisti antes de ser seu 
aluno no ginásio, foi uma crítica à obra de Bergson, o que me deu a princípio von- 
tade de resistir à sua orientação essencialmente matemática. 

Uma observação de Bergson me impressionara muito e me parecia fornecer 
um fio condutor para o início de meus trabalhos filosófico-biológicos: trata-se de 
seu espanto diante da desaparição do problema dos “gêneros” na filosofia moder- 
na, em proveito do problema das leis. O regime do ginásio de Neuchâtel era nessa 
época tão liberal, sob a conduta de um diretor excepcionalmente inteligente, que 
se encontrava tempo para trabalhar, se posso falar assim. Ao mesmo tempo que 
continuava meus artigos de malacologia (entre outros sobre o lago de Annecy), 
pus-me também a escrever “minha” filosofia. Após uma leitura de James, esbocei 
um Esquisse d'un Néopragmatisme que, levando em consideração a crítica racio- 
nalista de Reymond, mas permanecendo sob a influência bergsoniana, tendia a 
mostrar que existe uma lógica da ação distinta da lógica matemática. Depois, 
enfrentando o problema dos “gêneros”, escrevi um trabalho mais volumoso (feliz- 
mente sem projeto de publicação imediata) sobre Realisme et Nominalisme dans 
les Sciences de la Vie, que era uma espécie de holicismo ou de filosofia das totali- 
dades: realidade das espécies, dos gêneros, etc., e, bem entendido, do indivíduo 
enquanto sistema organizado. A intenção inicial era nem mais nem menos criar 
uma espécie de ciência dos gêneros, distinta da ciência das leis e que justificaria 
assim o dualismo bergsoniano do vital e do matemático, no qual eu continuava 
acreditando. Mas, por ocasião das primeiras comunicações que sobre o assunto 
fiz ao meu mestre Reymond sobre meu trabalho (que acompanhava meus ensaios 
juvenis com uma paciência e benevolência admiráveis), tive a surpresa um tanto 
ingênua de descobrir que meu problema não estava longe do problema das clas- 
ses, em lógica, e que minha lógica da vida se inseria facilmente na do grande Aris- 
tóteles, cuja noção de “forma” era precisamente concebida como regendo o pensa- 
mento que correspondia exatamente às estruturas do organismo! Estava desta 
forma terminada a oposição bergsoniana do vital e do lógico-matemático e eu es- 
tava pronto para seguir Reymond nas suas iniciações à lógica e à filosofia mate- 
mática. Comecei mesmo a compreender as matemáticas através dessa filosofia e 
lendo a teoria dos conjuntos de La Vallée-Poussin. Em seguida, algumas pesqui- 
sas de biometria sobre a variabilidade dos meus moluscos alpinos acabaram de 
convencer-me. 

B) — Arnold Reymond era um filósofo de vocação e permaneceu para mim 
o exemplo mais completo e admirável de um pensador que não abordava nenhu- 
ma questão, intelectual é claro, mas mesmo prática, econômica ou que se queira, 
sem elevar-se imediatamente a considerações tão extraordinariamente gerais, que 
elas se encontravam ligadas às grandes opções metafísicas. Antigo teólogo que 
tinha renunciado ao pastorado por razões de consciência, continuava centrado 
nos problemas das relações entre a ciência e a fé, mas o grande esforço que ela 
havia dispensado em filosofia matemática tornara-o também uma autoridade em 


f 


E 


200 PIAGET 


matéria epistemológica. Enfim, seus trabalhos sobre a ciência grega testemu- 
nhavam um emprego profundo e judicioso do método histórico-crítico. Foi, pois, 
com a maior confiança nele que me deixava encorajar a prosseguir uma carreira 
essencialmente filosófica e a especializar-me em filosofia biológica. Ficara enten- 
dido, quando entrei na Universidade, que eu faria minha licença e meu doutorado 
em biologia. seguindo ao mesmo tempo o curso de letras de Reymond, e que faria 
em seguida uma tese com ele após exames complementares de filosofia. 

Encontrando filosofia por toda parte, Reymond não tinha escrúpulos em 
preencher o pesado programa que tinha a seu cargo: história da filosofia, filosofia 
geral, filosofia das ciências, psicologia e sociologia (não havia então em Neuchã- 
tel cadeiras especializasas para essas duas disciplinas). Quanto a mim, os progres- 
sos que fazia em epistemologia, graças a ele, levavam-me a considerar (o que aliás 
constava no meu projeto anterior), após um estudo sobre a epistemologia da bio- 
logia como ciência, um trabalho de mais fôlego sobre a teoria do conhecimento 
em geral, mas encarada sob o ângulo biológico: em outras palavras, uma tentativa 
do tipo Spencer, porém desligada de sua perspectiva empirista, e localizada a par- 
tir de nossos conhecimentos atuais de epistemologia e biologia. Mas para fazer 
isto eu tinha necessidade de psicologia e foi sobre este ponto que ligeiras nuances 
começaram a acentuar divergências entre meu mestre Reymond e eu. 

Eu tinha chegado a duas idéias, centrais segundo meu ponto de vista, que 
aliás nunca mais abandonei depois. A primeira é que, todo organismo possuindo 
uma estrutura permanente, que se pode modificar sob as influências do meio mas 
não se destrói jamais enquanto estrutura de conjunto, todo conhecimento é sem- 
pre assimilação de um dado exterior a estruturas do sujeito (em oposição a Le 
Dantec que, fazendo inteiramente da assimilação biológica no amplo sentido o 
pivô da sua doutrina, via no conhecimento uma “imitação” orgânica dos objetos). 
A segunda é que os fatores normativos do pensamento correspondem biologica- 
mente a uma necessidade de equilíbrio por auto-regulação: assim a lógica poderia 
corresponder no sujeito a um processo de equilibração. 

Mas para mim, zoologista que fazia pesquisa de campo ou em laboratório, 
eu começava (demasiado devagar, infelizmente) a sentir que uma idéia é apenas 
uma idéia e que um fato é apenas um fato. Vendo meu bom mestre manipular 
todas as idéias como se se tratasse sempre de metafísica, eu sentia um certo mal- 
estar e em virtude disso ficava reduzido à sensação de que para analisar as rela- 
ções entre o conhecimento e a vida orgânica seria talvez útil fazer um pouco de 
psicologia experimental. A isso Reymond respondia que excelentes espíritos como 
seus amigos Claparêde ou Larguier des Bancels deixaram-se seduzir por essa 
idéia, mas pagaram o preço de perder cada vez mais tempo com problemas cada 
vez mais restritos, enquanto que uma reflexão bem conduzida... Só que me aconte- 
cia constatar que essa reflexão bem conduzida podia levar a algumas imprudên- 
cias. Reymond tinha sido muito contrariado, por exemplo, pela teoria da relativi- 
dade que contradizia sua necessidade de absoluto, em particular no domínio do 
tempo. Havia pois refletido longamente sobre o problema e projetava uma refuta- 
ção em regra às idéias de Einstein sobre o tempo relativo à velocidade, embora 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 201 


seus alunos e amigos se tenham esforçado por moderar seu impulso (em particular 
G. Juvet que, após uma fase de ceticismo, tinha se tornado relativista convicto). 
Quando Bergson publicou mais tarde Durée et simultanéité, ele ficou desolado por 
não ter tomado a iniciativa. . ., depois muito consolado por ter seguido os conse- 
lhos de prudência, quando viu a acolhida que esse pequeno livro recebia junto aos 
especialistas. Outro exemplo menor: entre todos os assuntos que Reymond acei- 
tava abordar, havia pronunciado e publicado uma conferência sobre L Instinct 
d'Imitation, alias encantadora, mas na qual o autor tinha esquecido de informar- 
se a respeito dos processos de aprendizagem que caracterizam essa função que 
nada tem de um instinto. Um detalhe, é verdade, mas onde está a fronteira entre 
o que a reflexão permite atingir com segurança e o que os fatos obrigam a 
retificar? 

Uma interrupção do trabalho e alguns meses passados na montanha obriga- 
ram-me a tomar decisões. Ainda não se tratava no meu espírito de optar entre a 
filosofia e a psicologia, mas somente de escolher se, para um estudo de epistemo- 
logia séria, me seria ou não necessário dedicar-me durante alguns semestres à 
psicologia. Esses meses de lazer forçado reconduziram-me, naturalmente, à minha 
tentação de escrever: esbocei um estudo sobre o equilíbrio entre o todo e as partes 
em uma estrutura organizada (embora ignorando ainda inteiramente a teoria da 
Gestalt) e sobre a correspondência entre a obrigação normativa e a equilibração. 
Mas por um escrúpulo do qual guardo uma clara recordação, não quis apresen- 
tá-lo como um texto “sério” e o inseri numa espécie de romance filosófico... 
(do qual A. Reymond publicou uma severa crítica !). 

Após meu doutorado, passei alguns meses em Zurique para aprender psico- 
logia com G. E. Lipps e Wreschner e um pouco de psiquiatria com Bleuler, mas 
sem encontrar meu caminho. Depois fui para Paris, decidido a combinar pesqui- 
sas em psicologia com os ensinamentos de Brunschvicg e Lalande. Tive a sorte 
extraordinária de poder trabalhar quase sozinho no laboratório de Binet, numa es- 
cola completamente à minha disposição e de me ver confiar um trabalho que visa- 
va em princípio à realização de testes de inteligência, mas que permitia, de fato, 
uma análise dos diferentes níveis da lógica das classes e das relações na criança. 
Meu mestre Lalande fez questão de ler e aprovar esses resultados antes da publi- 
cação e eu tive, enfim, o sentimento de ter encontrado um caminho conciliando a 
pesquisa epistemológica com o respeito dos fatos, e um terreno de estudos inter- 
mediário entre o domínio do desenvolvimento psicobiológico e os problemas de 
estruturas normativas. 

Mas eu não me sentia menos filósofo em função disso e quando Claparêde 
me ofereceu um lugar no Instituto J. J. Rousseau, desenvolvi ali minhas pesquisas 
com alegria, mas tendo por muito tempo a impressão de trabalhar com assuntos 
à margem da psicologia. Minhas primeiras obras sobre a lógica da criança recebe- 
ram uma acolhida benevolente de Brunschvicg e de Lalande. Meu mestre Rey- 
mond insistiu em ver nelas uma espécie de extensão ou de paralelo do método 
histórico-crítico aplicado, como dizia Brunschvicg, às “idades da inteligência” e 
não mais à história. Fiquei também muito contente, mas um pouco mais admi- 
rado com a amável reação dos psicólogos (P. Janet, etc.), mas não hesitei, quando 


CM RS SF EEE 


202 PIAGET 


Reymond passou de Neuchâtel para Lausanne, em seguir seu conselho de apre- 
sentar minha candidatura para a sua sucessão em 1925, embora não tivesse feito 
com ele o projetado doutorado. Fui entretanto nomeado em vista de meus traba- 
lhos,? sendo que meu único sentimento foi o de não poder mais apresentar uma 
tese de filosofia, já que eu ocupava a cadeira. 

Tudo isso foi dito para explicar que não comecei, realmente, minha carreira 
com um preconceito desfavorável em relação à filosofia e que se, desde 1929, 
retornei para uma Faculdade de Ciências onde ensinei em Genebra, primeiro his- 
tória do pensamento científico depois psicologia experimental, foi sem parti pris 
dogmática e simplesmente por encontrar ali um campo de experiências maior. 

C) — Mas isso acarretou uma espécie de desconversão progressiva e é 
importante agora analisar suas razões. Houve pelo menos três. A primeira é que 
nada provoca mais um exame de si mesmo do que os preâmbulos de um ensino 
filosófico onde se está inteiramente livre para desenvolver não importa qual idéia, 
mas onde se chega, bem melhor que seu auditório, a uma clara consciência dos 
graus de certeza. Não há necessidade de muita lucidez para descobrir, de início. 
com que facilidade se pode arranjar a apresentação ou a justificação de uma tese 
para que, de duvidosa, ela pareça tornar-se evidente; e para compreender, em 
seguida, que a reflexão solitária e íntima apresenta exatamente os mesmos peri- 
gos, pois meu mestre P. Janet mostrou muito bem que a reflexão interior constitui 
uma conduta social interiorizada: uma discussão ou deliberação consigo mesmo, 
como se aprendeu a conduzir com interlocutores exteriores, no decorrer da qual se 
pode muito bem, por consequência, entregar-se às mesmas habilidades, para deci- 
dir seu eu, que se pode usar para persuadir outrem. A situação é, realmente, pior, 
porque levando vantagem sobre o adversário numa discussão (ou sobre o auditó- 
rio numa exposição doutrinal) fica-se muito contente de suas estratégias, enquanto 
que, terminando por convencer-se a si próprio no decorrer da reflexão, corre-se 
sém cessar o risco de ser a vítima de seus desejos inconscientes. Ora, no caso da 
reflexão filosófica, esses desejos inconscientes estão ligados aos valores intelec- 
tuais e morais aos quais damos a maior importância e que são, ou parecem, os 
mais desinteressados, de tal modo que a nobreza das causas decupla o risco de 
autopersuasão, em evidente detrimento da objetividade e do valor de verdade dos 
resultados obtidos. 

No total, a primeira razão da minha nascente desafeição a respeito dos méto- 
dos tradicionais da filosofia resultou do conflito, primeiro sentido em mim 
mesmo, entre os hábitos de verificação, próprios do biólogo e do psicólogo e a 
reflexão especulativa que me tentava sem cessar, mas cuja impossibilidade de 
submetê-la a um controle eu percebia cada vez mais claramente: é verdade que 
embora fecunda e mesmo indispensável a titulo de introdução heurística a toda 
pesquisa, ela não pode conduzir senão à elaboração de hipóteses, por mais amplas 
que sejam, mas enquanto não se procura a verificação por um conjunto de fatos 


2 Fui nomeado titular do conjunto da cadeira de Filosofia (12 horas !) mas pedi imediatamente a um colega 
nomeado para duas horas de estética, o favor de encarregar-se da história da filosofia, que me agradava, é 
verdade, mas cujo ensino sério ter-me-ia impedido de continuar meus trabalhos. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 203 


estabelecidos experimentalmente ou por uma dedução regulada segundo um algo- 
ritmo preciso (como em lógica), o critério de verdade não pode permanecer senão 
subjetivo, sob as formas de uma satisfação intuitiva, de uma “evidência”, etc. 
Quando se trata de problemas metafísicos, referentes à coordenação dos valores 
julgados essenciais e implicando, pois, elementos de convicção ou de fé, a reflexão 
especulativa permanece, é verdade, como o único método possível; mas permane- 
cendo ligada à inteira personalidade dos pensadores, ela conduz ao que se deve 
denominar uma sabedoria ou uma fé racionada, e não é um conhecimento do 
ponto de vista dos critérios objetivos ou interindividuais de verdade. Quando se 
trata, pelo contrário, de problemas mais delimitados ou delimitáveis de epistemo- 
logia, etc., então os recursos aos fatos ou à decisão lógico-matemática tornam-se 
possíveis: o método histórico-crítico dos meus mestres Brunschvicg e Reymond, 
a análise psicogenética da formação das noções e das operações, a análise lógica 
dos fundamentos, etc., fornecem controles que a reflexão individual é incapaz 
de fornecer. 

Resumindo, duas convicções cada vez mais profundas se me impuseram nes- 
tes começos de ensino. Uma é que intervém uma espécie de desonestidade intelec- 
tual afirmar o que quer que seja em um domínio decorrente dos fatos, sem um 
controle metódico verificável por cada um, ou nos domínios formais, sem um con- 
trole logístico. A outra é que a mais clara separação deve ser introduzida sem ces- 
sar entre o que provém da improvisação pessoal, da verdade de escola ou de tudo 
o que está centrado sobre o eu ou um grupo restrito, e os domínios nos quais é 
possível um acordo dos espíritos, independentemente das crenças metafísicas ou 
das ideologias. De onde a regra essencial de jamais colocar as questões senão em 
termos tais que a verificação e o acordo sejam possíveis, uma verdade só existindo 
enquanto tal apenas a partir do momento em que foi controlada (e não simples- 
mente aceita) por outros pesquisadores. 

Minha segunda razão de desafeição poderá parecer mais curiosa aos puros 
filósofos. Mas ela se refere a um índice que, do ponto de vista psico-sociológico, 
é muito significativo: é a surpreendente dependência das correntes filosóficas em 
relação às transformações sociais e mesmo políticas. Nas épocas às quais me refi- 
ro, eu nada sabia do marxismo nem das suas hipóteses sobre as relações entre o 
idealismo e a ideologia burguesa; os trabalhos tão importantes de Lukacs e de 
Goldmann* sobre as relações entre a filosofia e a consciência de classe ainda não 
tinham aparecido. Não é pois desse aspecto das coisas que falarei aqui. Mas fiquei 
vivamente surpreso, após a I Guerra Mundial (e a séguir mais ainda após a IJ) 
com as repercussões sobre o movimento das idéias da instabilidade social e polí- 
tica que reinava na Europa, o que me conduziu, naturalmente, a duvidar do valor 
objetivo e universal das posições filosóficas tomadas em tais condições. 

No meu pequeno país, tão tranquilo e relativamente isolado dos aconteci- 
mentos, numerosos sintomas mostravam essa dependência das idéias em relação 


3 Sobre estas questões a que alude J. Piaget há um trabalho do autor mencionado: Lucien Goldmann. 
Ciências Humanas e Filosofia (Que é a Sociologia?) Difusão Européia do Livro, 120 p.. 1967. S. P.(N. 


da DIFEL.) 


SiS SE SA SEC SE 


204 PIAGET 


às contracorrentes sociais. Primeiro, o pensamento protestante, que era notavel- 
mente liberal antes e logo após a guerra, orientou-se para um calvinismo estreito 
e agressivo, do mais vivo interesse para o sociólogo, mas sem nenhum para os 
filósofos (que começavam no entanto a sofrer seu contágio, acentuado a seguir). 
Um teólogo muito inteligente, Émile Lombard, tinha sustentado antes da guerra 
uma tese notável sobre La Glossolalie chez les Premiers Chrétiens que era um 
bom estudo de psicologia, inspirado nas pesquisas de Flournoy (sobre “um caso 
de sonambulismo com glossolália””) e contendo uma excelente análise dos fenôme- 
nos patológicos que tinham acentuado seu despertar no País de Gales: o mesmo 
autor, em 1925, era ferozmente calvinista e não pensava mais que em defender a 
civilização ocidental contra os perigos do “bolchevismo”, externo e. . . interno 
(logo, o protestantismo liberal !). No fim da guerra, os estudantes protestantes me 
haviam pedido duas ou três conferências sobre o imanentismo e a fé religiosa, que 
eram do estilo bruschvicgniano (salvo que, sendo biólogo, eu sempre acreditei no 
“mundo exterior”) e que me valeram numerosas demonstrações de simpatia: al- 
guns anos mais tarde eu teria sido vaiado. 

Mas no terreno filosófico propriamente dito, tive entre 1925 e 1929 numero- 
sas palestras com meu colega Pierre Godet, que ensinava história da filosofia com 
muita finura e com o qual me entendia muito bem apesar das suas opiniões políti- 
cas de direita. Acontecia muitas vezes a Pierre Godet declarar-me sem subterfú- 
gios (enquanto que, se além disso ele as tivesse publicado, esse gênero de confis- 
sões teria certamente sido dissimulado sob toda espécie de justificações de 
aparência mais objetiva) que, por temperamento pessoal, ele era tentado por um 
certo relativismo histórico e que notadamente meu ponto de vista psicogenético 
em epistemologia lhe conviria muito bem se ele se deixasse levar só pelas conside- 
rações intelectuais, mas que sob o ângulo social essas opiniões são perigosas por- 
que o homem tem necessidade de realidades estáveis e de absoluto (e ele citava 
perfeitamente E. Lombard como modelo de um retorno à sabedoria após seus 
excessos de psicologia religiosa). Meu amigo Gustave Juvet, matemático e astrô- 
nomo, filósofo nas horas vagas, obcecado por um platonismo que ele justificava 
em nome das matemáticas, * mas cujo halo afetivo eu conhecia muito bem, ainda 
assim dizia: “Eu sou antigenético porque é necessária uma Ordem permanente na 
inteligência como na Sociedade”. 

Ora, enquanto na Suíça românica uma corrente maurassiana perturbava a 
metafísica de indivíduos de elite, que tinham sido no entanto formados como 
protestantes democratas, a Suíça alemânica era teatro de acontecimentos intelec- 
tuais não menos instrutivos para mim e até apaixonantes quanto às relações entre 
a filosofia e a psicologia. Uma das manifestações da doença social que se abateu 
sobre a Alemanha nessa época e que conduziu a Hitler foi uma espécie de roman- 
tismo do Geist, do qual um resultado entre muitos outros foi uma oposição vio- 
lenta entre as Geisteswissenschaften e as Naturwissenschaften, de onde uma con- 
denação da psicologia experimental, nascida, no entanto, em grande parte 


* Ver seu belo livro sobre La Structure des Nouvelles Théories Physigues, Alcan (1933). 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 205 


nesse país (foi em seguida quase eliminada das universidades alemãs sob o regime 
de Hitler e conheceu a mesma honra na Itália sob Mussolini, esperando reflores- 
cer, como é o caso atualmente, nessas duas nações). Ora, os intelectuais da Suíça 
alemânica, que foram no entanto todos corajosamente antinazistas durante a II 
Guerra Mundial, não perceberam, durante as décadas que a precederam, as rela- 
ções entre essa nova tendência germânica de proscrever a pesquisa científica no 
domínio mental e a situação momentaneamente patológica da vida social e do 
pensamento alemão, e seguiram o movimento. Na Universidade de Zurique, cujas 
cadeiras de psicologia conheceram belas épocas, Lipps e Wreschner não foram 
substituídos e instalaram-se nos seus lugares filósofos do Espírito. º Na Universi- 
dade de Berna, que restabeleceu depois a situação com o excelente ensinamento de 
R. Meili, um pedagogo ticinense professou muito tempo, sob o nome de psicolo- 
gia, uma espécie de neo-hegelianismo italiano inspirado em Gentile e adaptado 
à sua maneira (que era, se ouso falar como psicólogo, um modelo de filosofia 
“autística”). Em Bale, P. Hâberlin, que tinha estreado com inteligentes trabalhos 
de psicologia da criança, orientou-se em seguida para uma antropologia filosófica 
cujo objetivo admitido era substituir a psicologia (a Fundação Lucerna, que Hã- 
berlin dirigia, concedeu-me um prêmio no início dos meus trabalhos, mas lá pela 
década de 30 recusou-se a distribuir entre os seus membros um dos meus livros, 
porque “os trabalhos de Piaget são exatamente opostos aos de Hãberlin”, respon- 
deu-se a P. Bovet, que havia apresentado esse pedido). 

Peço desculpas por só falar da Suíça, mas trata-se dos fatos que então me 
impressionaram e que aliás são tanto mais instrutivos quanto dizem respeito 
a um pequeno pais ao mesmo tempo independente e tributário de três grandes 
culturas. Tais fatos (e uma quantidade de outros observados em países dos quais 
tenho menos o direito de falar) convenceram-me, sobretudo levando em conta 
que nessa época eu ensinava entre outras disciplinas a sociologia, da estreita 
relação que existe entre o pensamento filosófico e as correntes sociais subjacen- 
tes. A reflexão especulativa não corre pois somente o risco de voltar as costas 
à verificação, pelo impulso da improvisação subjetiva: a pessoa humana não con- 
seguindo jamais produzir senão em simbiose com outrem, mesmo na solidão do 
trabalho interior, é preciso, ou bem adotar sistematicamente um método de coo- 
peração, como na produção científica, onde não se conquista a verdade senão 
pelo controle de inúmeros parceiros no terreno dos fatos como da dedução, ou 
o eu, acreditando-se livre, sofre inconscientemente os contágios ou as pressões 
do grupo social, o que não é mais válido, pois o sociocentrismo como o egocen- 
trismo são antípodas da cooperação racional. 


S Em Zurique, a psicologia limitou-se de tal maneira aos domínios seja psicanalíticos seja filosóficos que B. 
Inhelder, examinando em uma grande livraria universitária a seção “Psicologia” e perguntando “O senhor 
não tem nada sobre a inteligência?” recebeu a seguinte resposta: “Ah! o senhor coloca a inteligência na 
psicologia? Não sabíamos nunca onde classificá-la exatamente e pusemo-la na medicina!” Honra pois aos 
psiquiatras e atenção aos indivíduos que não os consultam jamais sob o pretexto imprudente que a posse de 
uma inteligência clara não suscita questão nosológica. como se não houvesse aí um sintoma inquietante do 
ponto de vista junguiano... 


206 PIAGET 


D) — A terceira razão da minha desconversão a respeito da filosofia foi ao 
mesmo tempo a causa principal pela qual senti tornar-me um psicólogo de profis- 
são, se bem que com interesses centrados sobre os problemas da epistemologia, e 
não mais um filósofo momentaneamente ocupado de verificações psicológicas 
antes de poder chegar a esboçar uma epistemologia genética. Essa terceira razão 
foi a reação de um certo número de filósofos cujas interpretações ou críticas me 
davam a impressão de que não falávamos mais a mesma linguagem; não porque, 
é verdade, a deles fosse crítica (vem-se de ver que se trata aí, pelo contrário, de 
uma função essencial da cooperação racional), mas porque ela me parecia teste- 
munhar uma ingerência pouco válida do juízo filosófico no terreno da pesquisa 
científica. Sobre isso, não darei mais que dois exemplos, o segundo, aliás, 
essencial 

O filósofo I. Benrubi escreveu uma espécie de relatório de conjunto sobre as 
correntes filosóficas de língua francesa e deu-me a honra de citar meu nome, sem 
discussão, mas classificando-me entre os positivistas. Fiz-lhe notar (foi antes do 
aparecimento da obra) que eu acreditava por minha parte nada ter de um positi- 
vista, senão que me ocupo de fatos, “positivos” se se quer, mas que me parecem 
refutar o positivismo. O positivismo, dizia-lhe eu, é uma certa forma de epistemo- 
logia que ignora ou subestima a atividade do sujeito em proveito unicamente da 
constatação ou da generalização das leis constatadas: ora, tudo o que encontro 
mostra-me o papel das atividades do sujeito e a necessidade racional da explica- 
ção causal. Sinto-me bem mais próximo de Kant ou de Brunschvicg que de 
Comte, e próximo de Meyerson que opôs ao positivismo argumentos que verifico 
sem cessar (posta à parte a identificação). 

— Sim, mas o senhor não crê na filosofia. 

— Não na sua, mas há outras mais e creio tanto quanto o senhor na impor- 
tância maior dos problemas epistemológicos. 

— Mas senhor só os trata apenas no interior da pesquisa científica. 

— Claro, mas o positivismo é especificamente uma doutrina do fechamento 
da ciência à qual quer delimitar fronteiras definitivas, enquanto que, para os cien- 
tistas não positivistas, a ciência é indefinidamente aberta e pode abordar qualquer 
problema desde que se encontre um método que realize o acordo dos pesquisado- 
res. — De nada adiantou, continuei positivista, isto é, no caso, recusando ao 
meu contraditor acreditar que ele pudesse encontrar a verdade simplesmente me- 
ditando no seu gabinete de trabalho, à luz do:seu gênio. E infelizmente esse gê- 
nero de diálogo de surdos continuou por toda a minha vida. Às vezes, aliás, 
sob formas mais agradáveis, como em Barcelona, onde li no cartão de visita 
que um professor me oferecia: “Senior X, Cathedrático de psychología superior”: 

— Por que superior? — perguntei-lhe com candura. 

— Porque não é experimental (seria preciso ver o sorriso dos seus cole- 
gas...). 

Uma intromissão, muito mais importante nos trabalhos do pesquisador do 
que querer classificá-lo à força, consiste em prescrever-lhe normas. Aí está, bem 
entendido, uma tendência natural à filosofia, já que sua função essencial (sua 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 207 


única função válida, estava eu cada vez mais convencido) é precisamente a coor- 
denação dos valores. E quando um metafísico por vocação consegue conciliar 
para si as normas de seu saber e as de sua fé, qualquer que seja ela, é natural 
que ele queira fazer escola ou pelo menos propagar sua convicção. O ponto em 
que essa ação começa a tornar-se discutível moralmente (é claro que unicamente 
do ponto de vista intelectual) e não mais apenas sob o ângulo racional é, pare- 
cia-me, aquele onde começa a pesquisa científica. Se não existe fronteira quanto 
aos problemas, entre a ciência e a filosofia, exceto que a ciência delimita mais 
as questões, essa delimitação tem por intenção poder formulá-las de tal maneira 
que os controles experimentais ou algorítmicos sejam possíveis. Ora, tanto esses 
controles quanto essas delimitações pressupõem uma iniciação, isto é, uma téc- 
nica laboriosamente adquirida e sobretudo normas próprias comuns à coletivi- 
dade dos pesquisadores (de todas as opiniões filosóficas) e elaboradas em função 
mesmo da pesquisa. Quando um metafísico individual (e ele o é sempre, já que 
existe uma multiplicidade indefinida de escolas e de posições), não tendo outra 
formação a não ser um conhecimento perfeito dos autores e uma meditação pes- 
soal tão desenvolvida quanto se queira, se ocupa de prescrever normas a uma 
disciplina científica, pode-se então perguntar se não há aí algum abuso de direito. 
Ora, foi a experiência que eu começava a fazer e fiz sem cessar desde então, 
e nada me levou mais a tomar consciência da minha solidariedade com o movi- 
mento universal da psicologia científica. 

Encontrava frequentemente, com efeito, filósofos de todos os níveis que que- 

riam subordinar minhas normas às “da” filosofia, em nome de dois argumentos 
alias redutíveis um ao outro. O primeiro, que era de preferência o dos jovens 
professores, consistia em dizer que: a psicologia é uma ciência particular sub- 
missa as leis do conhecimento, a filosofia é a ciência dos fundamentos de todas as 
ciências e das leis gerais do conhecimento; há pois círculo vicioso em querer 
compreender o que quer que seja sobre o conhecimento por meio de estudos psico- 
lógicos, já que como psicólogo o senhor deve obedecer às normas da filosofia. 
Tudo isso se passava antes que fosse conhecida a fenomenologia de Husserl e por- 
tanto não se referia à pretensão husserliana de limitar o domínio da psicologia ao 
“mundo” espaço-temporal, assunto ao qual voltaremos (capítulo III). Era então 
fácil de responder que “a” filosofia só existe como ideal e que as normas de um 
sistema qualquer, como o empirismo, sendo contraditórias com as de um outro 
sistema, como o kantismo, etc., resultava bem permitido: 
1.º pesquisar a quais normas se conformam espontaneamente os sujeitos de qual- 
quer idade, o que a “reflexão” filosófica não fornece em absoluto, centrada sobre 
o eu ou sobre o grupo social e que. pelo contrário. pressupõe uma análise psicoló- 
gica objetiva; 2.º não obedecer como psicólogo senão às normas da pesquisa 
psicológica. as quais o filósofo deve levar em consideração em lugar de prescre- 
vê-las. pois não se constroem “ Artes poéticas” senão após a poesia. 

O segundo argumento, desenvolvido mais tarde por H. Miéville em Dialética * 
contra Gonseth e eu próprio, era mais profundo. 


68 Ver Dialéctica, 1953 e 1954. 


208 PIAGET 


“O senhor constata”, diziam-me, “uma evolução das normas e até uma evo- 
lução “dirigida” ou orientada para certas estruturas a título de resultados de uma 
equilibração progressiva. Mas essa pesquisa faz-se por meio de certas normas co- 
muns a todos os espíritos (entre os quais o do senhor), tais, como o princípio de 
identidade. Há pois um absoluto, condição de todo o relativismo, mesmo metódi- 
co; é desse absoluto que a filosofia se ocupa, do qual o senhor é assim tributário, 
querendo-o ou não”. Eu respondia de início que nada tenho contra o absoluto, a 
não ser uma espécie de desconfiança individual ou idiossincrasia da qual é meu 
dever proteger-me e que se esse absoluto existe, eu o encontrarei certamente nos 
fatos. Mas eu perguntava sobretudo (e me tinha sem cessar perguntado na época 
em que acreditava na filosofia) por meio de quais métodos e em nome de quais 
normas de verdade se descobrem reflexivamente as Normas comuns e absolutas 
de Verdade, pois aí também existe círculo tão flagrante quanto procedendo por 
análise objetiva e não reflexiva. Ora, não existem senão três métodos possíveis. 1.º 
há de início a intuição, ou a evidência, etc., mas sabe-se quanto vale a alma, já que 
toda a história (inclusive a da filosofia como a das ciências) mostra suas varia- 
ções: a evidência intuitiva significa simplesmente a certeza subjetiva; ” 2.º para 
sair disso, há em seguida a constatação de que todo ser normal, adulto e civili- 
zado, pensa segundo tal norma (quando não se diz “todo ser humano”); 3.º há 
enfim a dedução necessária: todo ser pensante deve aplicar tal norma se ele quiser 
atingir a verdade (e, acrescentava meu mestre Lalande, ele deve fazer tudo isso se 
pensa honestamente). Ora, como o filósofo aplica esses métodos 2 e 3º 

No que se refere ao método n.º 2, que suscita uma questão de fatos em oposi- 
ção ao método n.º 3, eu ficava cada vez mais admirado pelo contraste surpreen- 
dente e em certos casos quase estupefaciente das declarações de princípio de ho- 
mens honestos e convictos, cujo culto das normas parecia constituir o exercício 
espiritual principal e pela espécie de desenvoltura com a qual resolviam sumaria- 
mente formidáveis questões de fato (“todo homem pensa que. . .”, etc.), como se 
a constatação de um fato e sobretudo a afirmação da sua generalidade não supu- 
sessem a mesma honestidade normativa que um julgamento sobre idéias. Refle- 
tindo, eu via bem que esse era o resultado deplorável da educação puramente for- 
mal recebida pelos estudantes de filosofia centrados no respeito aos textos e 
ignorando tudo acerca do estabelecimento de um fato. Qualquer homem de labo- 
ratório sabe, pelo contrário, muito bem, que, após ter trabalhado meses na descri- 
ção de um pequenino fenômeno, encontra-se, após sua publicação, diante da alter- 
nativa segundo a qual novos trabalhos de autores desconhecidos verificarão seus 
resultados ou, ao contrário, mostrarão outra coisa. Sem ter passado por isso, O 
filósofo que proclama alegremente a universalidade do princípio de identidade 
poderia, da mesma maneira, perguntar-se o que essa afirmação significa nos fatos: 
trata-se de uma lei moral que se respeita mas sem jamais aplicá-la integralmente, 
de uma lei sintática própria ao homem que faz um discurso, de uma lei de 


? Voltaremos à intuição transcendental (capítulo III) que, aliás, não possui outro método senão a reflexão, 
mesmo quando é batizada eidética. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 209 


comportamento que interessa ao indivíduo integral, de uma lei cognitiva resol- 
vendo tanto a percepção como a inteligência, ou trata-se de uma lei especial da 
inteligência, mas a partir de qual nível? Nessa época eu via crianças que em pre- 
sença de 7 bolinhas alinhadas diziam: “São 7 bolinhas”. 

— E assim (espaçando-as um pouco)? 

— Um pouco mais. 

— Ajuntaram-se outras àquelas” 

— Não. 

— Então são 7? 

— (sem contar) Não, há 8 ou 9. 

— Mas donde vêm elas? 

— O senhor espaçou-as. 

Quando a mesma criança, um ou dois anos mais tarde, disser: 

— O senhor espaçou-as, mas são sempre as mesmas 7 — pode-se com cer- 
teza, falar de identidade, mas quando 7 bolinhas se tornam 8 ou 9 como um elás- 
tico de 7 centímetros que atinja 8 ou 9, é o mesmo princípio de identidade ou um 
princípio um pouco diferente? Meus filósofos tinham respostas preparadas, aliás 
esqueci-me quais. 

Resumindo, o método número 2 supõe a psicologia, não a título de doutrina, 
mas a título de único método objetivo de investigação, desde que se refira a outros 
sujeitos, além de si próprio. 

Quanto ao método número 3, pressupõe, é claro, a lógica. Mas cada um sabe 
que, após os trabalhos dos matemáticos e dos logicistas a lógica tornou-se uma 
disciplina independente, supondo uma técnica refinada, muito ignorada nos nos- 
sos países até estes últimos tempos. Estamos pois, de novo, longe da análise refle- 
xiva procedente por simples meditação. Mas como a Lógica diversificou-se em 
numerosas lógicas, aliás coerentes entre si, cada uma é muito pobre para funda- 
mentar a razão e seu conjunto muito complexo para fornecer uma resposta única: 
o problema encontra-se, pois, novamente, longe de estar resolvido. 

E) — Em 1929, retornando a Genebra e definitivamente ligado à Faculdade 
de Ciências (à qual a psicologia experimental pertence desde 1890, data da funda- 
ção da cadeira e do laboratório, por Théodore Flournoy), senti-me liberado da 
filosofia e sempre mais decidido a dedicar-me ao estudo de problemas epistemoló- 
gicos por aproximações histórico-críticas, logísticas se possível e sobretudo psico- 
genéticas. Abordei o estudo das estruturas propriamente operatórias no desenvol- 
vimento mental (com A. Szeminska e depois principalmente com B. Inhelder) e 


8 Por outro lado, lembro-me muito bem de uma discussão excitante que tive em Cambridge, aí por 
1926-1927 (após uma conferência sobre um assunto análogo), com o grande filósofo Moore, que então dirigia 
a Mind: a questão, em resumo, não apresenta nenhum interesse, dizia ele, em substância, porque o filósofo se 
ocupa das idéias verdadeiras enquanto o psicólogo experimenta uma espécie de atração viciosa e incompreen- 
sível pelo estudo de idéias falsas! Ao que lhe respondi que a história das ciências é abundante em idéias que 
hoje julgamos falsas: “Como sabe o senhor que as suas idéias verdadeiras não serão, após um certo tempo, 
julgadas insuficientes, o que parece indicar a existência de aproximações progressivas, logo, de um desenvol- 
vimento? Isso me é absolutamente indiferente já que meu trabalho específico consiste em só me ocupar da 
pesquisa do verdadeiro.” 


210 PIAGET 


preparei uma espécie de formalização lógica adaptada aos fatos recolhidos (Clas- 
ses, Rélations et Nombres, Vrin, 1942). Tendo esses diferentes trabalhos interes- 
sado aos psicólogos, não me sentia mais como outrora um franco-atirador, inquie- 
tante mas tolerado” e, quando sucedi a Claparêde, morto em 1940, utilizei as 
intalações do seu laboratório para conduzir uma série de pesquisas sobre o desen- 
volvimento das percepções que completavam meus trabalhos de psicologia da 
criança. 

Mantive no entanto as melhores relações com meus colegas de filosofia da 
Faculdade de Letras. H. Reverdin tinha feito uma tese sobre James, era admirador 
de Hoeffding e simpatizava com a minha orientação (foi ele quem por ocasião do 
início dos meus trabalhos em Genebra me levou a escrever um livro sobre Le 
Jugement Moral chez ['Enfant). Ch. Werner não desdenhava a psicologia experi- 
mental, acreditando numa psicologia filosófica a título de complemento necessá- 
rio, mas centralizava-a nos problemas da liberdade e da alma imortal, com um 
soberbo desinteresse pelas questões de fato e da epistemologia. 

Após a guerra de 1939-1945, a psicologia filosófica, cujo valor sempre me 
parecera comparável ao da Naturphilosophie do século XIX alemão, ressuscitou 
sob uma nova forma devido à fenomenologia e ao existencialismo. Não falarei 
aqui de Husserl, o qual, só bem mais tarde, lendo-o, vi que era digno do maior res- 
peito, mesmo se se traduz seu logicismo, inspirado em Frege, em uma linguagem 
bem diferente. O que me surpreendeu a princípio, considerando a psicologia 
fenomenológica dos seus continuadores da qual ele não é absolutamente responsá- 
vel, foi a analogia desses movimentos de após-guerra com os de após a guerra de 
1914-1918: as necessidades de uma antropologia filosófica, devidas a causas 
sociais variadas mas comparáveis, mutatis mutandis, àquelas que satisfizeram ao 
bergsonismo ou vinte e cinco ou trinta anos antes. Vendo a alegria de Sartre ao 
tocar enfim o real, desembaraçando-se do “idealismo brunschvicguiano” sem 
parecer suspeitar que esse “idealismo” era antes de mais nada uma teoria ao 
mesmo tempo antiapriorística e antiempírica da ciência, tem-se bem a impressão 
que essa conquista do real e da existência é orientada em direção a outros fins e 
não aos autenticamente cognitivos (Deus seja louvado, aliás, pois Sartre é um 
admirável dramaturgo). Quanto à Phénoménologie de la Perception, de Merleau- 
Ponty, esse ensaio de pura reflexão que não se apóia quanto aos fatos senão em 
trabalhos já conhecidos (a psicologia da Gestalt), produziu-me uma espantosa 
impressão reforçada ainda quando li mais tarde, no Bulletin de Psychologie, a 
maneira pela qual ele compreendia e discutia minhas pesquisas sobre a percepção, 
no seu curso na Sorbonne:!º como um autor, analisando tão admiravelmente as 
“ambiguidades” da consciência e da subjetividade, não foi levado a sair por méto- 


9 É preciso, efetivamente, lembrar que jamais em toda a minha vida prestei um exame de psicologia, exceto 
no bacharelado, com a filosofia. 

'º Um único exemplo a propósito da seriação: Merleau-Ponty censura-me por considerá-la “como uma 
soma” quando na realidade ela constitui “uma nova totalidade” (Bulletin de Psychologie, 1965, p. 185). Ora. 
aí está, precisamente, o que não cesso de repetir, já que a noção das totalidades operatórias superpondo-se às 
totalidades perceptivas está no próprio centro das minhas interpretações... 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 211 


do dessa subjetividade, nerní que fosse descobrindo quanto as experiências originá- 
rias e vividas, cuja pesquisa ele prossegue, são sempre produtos de uma história 
que engloba essa subjetividade e não resulta dela? 

Mas, alguns anos após, quando Merleau-Ponty passou para o Colégio de 
França, fui chamado para suceder-lhe na cadeira que ocupava na Faculdade de 
Letras da Sorbonne. Essa foi, independente da alegria que tal honra me causava, 
uma das maiores surpresas da minha vida. Não falo da encantadora acolhida dos 
estudantes entre os quais alguns se perguntavam se esse suíço saberia o francês 
(nem das minhas primeiras correções de provas, pois alguns candidatos, não 
tendo notado que o professor tinha mudado, explicavam que Piaget não tinha 
compreendido nada de nada, “como o provou M. Merleau-Ponty”: aliás, aumentei 
essas notas). Falo das razões dessa nomeação, já que nunca soube se elas repousa- 
vam ou não num mal-entendido: fui, com efeito, recebido da maneira a mais ami- 
gável e a mais emocionante para mim pelos meus novos colegas da seção de Filo- 
sofia, mas como se eu fosse o tipo do psicólogo-filósofo ! No entanto, eu 
conservava meu lugar na Faculdade de Ciências de Genebra, e acabava de publi- 
car enfim minha Introduction à VEpistémologie Génétique, onde apresentava esse 
método de pesquisa como independente de toda filosofia. Mas G. Bachelard não 
parecia me querer mal e os outros colegas não tinham sem dúvida lido essa obra 
exageradamente grande, em três volumes. 

Mas nem por isso voltei a ser filósofo e, pelo contrário, adquiri durante meus 
anos de Sorbonne uma experiência completamente nova sobre os perigos da filo- 
sofia para a pesquisa psicológica e científica. Desta vez pude falar nisso sem difi- 
culdades nem precauções oratórias, pois esses perigos que eu descobria do inte- 
rior, em um dos mais belos centros de ensino da Europa, referiam-se não mais aos 
homens, que eram admiráveis, mas às instituições. Encontrava pois na França 
uma verificação por assim dizer sociológica das minhas hipóteses e não mais por 
observações individuais. 

A psicologia francesa tem um passado glorioso e ocupa no presente uma 
situação muito importante. Seu brilho é em particular visível na União Interna- 
cional de Psicologia Científica, agrupando as Sociedades de Psicologia do mundo 
inteiro, e da qual H. Piéron foi o primeiro presidente. No entanto, se se compara 
a situação oficial e universitária da psicologia na França e noutros países como a 
Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Bélgica, etc. (sem falar dos EUA nem da URSS), 
onde cada universidade possui um grande Instituto de Psicologia com todos os 
serviços de pesquisa que aí se religam normalmente a ela, temos que reconhecer, 
como Piéron luminosamente mostrou há uns quinze anos atrás, por ocasião do 
cingquentenário da Sociedade Francesa de Psicologia, que a psicologia francesa 
não pôde desenvolver-se senão à margem das instituições oficiais e em luta cons- 
tante com os poderes da filosofia. Ainda hoje, apesar de todos os progressos reali- 
zados, constata-se, em comparação com cutros países, que a França é, de longe, 
a nação onde a filosofia desempenha o papel mais importante na educação nacio- 
nal (no duplo ponto de vista das instituições e da formação dos espíritos) e onde 
a psicologia está reduzida à porção mais congruente. 


212 PIAGET 


Existe, é verdade, uma licença em psicologia, de data recente e que, graças 
aos esforços dos psicólogos, está, como de direito, nas duas Faculdades, de Letras 
e de Ciências (o que deveria ser toda a filosofia como ela o é desde há pouco nos 
Países Baixos, sob iniciativa do meu saudosíssimo amigo, o lógico Beth). Mas 
essa licença conduz praticamente a muito pouca coisa, pois, sob o ponto de vista 
das carreiras de ensino, não há pós-graduação de psicologia e, sob o ponto de 
vista das carreiras práticas, ela continua insuficiente sem os diplomas do Instituto 
de Psicologia, nascido à margem das cadeiras e não sendo beneficiado com a 
mesma oficialidade que as Faculdades. Quanto às Faculdades do interior, poucas 
conseguiram formar um ensino sistemático de psicologia (Aix-Marseille e Lille em 
particular), porque isso depende em boa parte dos interesses dos professores de 
filosofia: Rennes com Bourdon, Montpellier com Foucault foram centros de pes- 
quisa dos quais só subsiste o primeiro. 

Ora, as causas dessa situação são evidentes, se bem que complexas. Por um 
lado, a França é o país no qual o ensino da filosofia no nível do bacharelado (o 
famoso “curso de filosofia”) é o mais desenvolvido, porque respondeu, sem querer 
se pronunciar sobre o estado atual, a uma necessidade social e vital bastante pro- 
funda de coordenação dos valores, nos primeiros tempos principalmente do ensi- 
no laico. As Célebres Leçons de J. Lagneau e a repercussão do ensino de Alain 
são indícios inequivocos da significação moral do curso de filosofia. Disso resul- 
tou, na opinião pública ou na consciência coletiva, uma auréola de prestígio e de 
autoridade cercando tudo o que concerne à filosofia; formou-se uma espécie de 
corpo social dos filósofos, beneficiando-se não só de uma carreira assegurada, 
mas ainda e sobretudo dessa consideração permanente que desempenha um tão 
grande papel nas decisões sociais e administrativas em todos os níveis. Por outro, 
e isso não é imputável à filosofia, a França é o país não apenas mais centralizado, 
mas também, e há muito, aquele onde a gerontocracia intelectual causa danos 
com a maior felicidade: o regime dos concursos, com possibilidade de impor pro- 
gramas, o sistema de pós-graduação que quase todos acham absurdo (é antes de 
mais nada um teste de expressão verbal), mas no qual se evitará tocar porque con- 
fere aos Antigos um considerável poder, o papel dos “patronos” no êxito de uma 
carreira, a notável instituição de conservação intelectual que o Instituto repre- 
senta, o costume segundo o qual um professor que se retira se ocupa da sua suces- 
são, todos esses fatores e muitos outros asseguram em grandes linhas uma espan- 
tosa continuidade de doutrina e, no caso particular, oferecem ao filósofo 
possibilidades de ação espiritual e material que ele não tem em parte alguma, na 
canalização das jovens gerações. 

É evidente que num tal contexto sociológico (não foi por acaso que a dou- 
trina de Durkheim nasceu na França !), a filosofia não permanece ao nível de uma 
sabedoria individual ou coletiva: sua tendência permanente em considerar-se 
como uma forma de conhecimento, e mais precisamente como o supremo conheci- 
mento, é reforçada de todas as maneiras na França. Para quem bebeu desde o seio 
o leite da filosofia, o problema nem sequer se coloca e desde o calouro do bacha- 
relado até os grandes mestres reina a convicção de que uma iniciação filosófica 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 213. 


permite falar de tudo. Encontram-se deste modo estudantes que se tornaram espe- 
cialistas da síntese antes de qualquer análise, ou entrando no mesmo nível no 
mundo transcendental com tanto mais facilidade quanto ignoram o empírico. E 
apenas no domínio onde poderiam aprender com relativa facilidade o que seja 
uma verificação experimental, eles preferem a psicologia de Sartre e de Merleau- 
Ponty, onde todo controle é substituído pelos decretos do gênio, à psicologia cien- 
tífica, laboriosa e que pareça estranha aos grandes problemas da filosofia. 

Se volto à psicologia, não é para dela me ocupar, já que esta obra visa à filo- 
sofia, mas para mostrar como uma certa convicção nos poderes de conhecimento 
geral que a filosofia comportaria acaba de fato por retardar sistematicamente o 
progresso de uma disciplina experimental que tem como objeto o espírito e, o que 
é ainda mais significativo, abordando problemas dos quais todos os filósofos sem- 
pre falaram (mas, uma grande parte deles, antes da constituição da nossa ciência 
e para muitos dos que escreveram depois, ignorando-a mais ou menos deliberada- 
mente): natureza da percepção (que não é uma cópia e sim uma estruturação), 
respectivos papéis da experiência e das atividades do sujeito da formação das 
noções, natureza das operações intelectuais e das estruturas lógico-matemáticas 
naturais, esquematismo da memória, teoria da decisão, função simbólica e lingua- 
gem, etc. Eu fazia essas amargas reflexões por ocasião de uma reunião da seção 
de filosofia, onde estávamos tendo enorme trabalho para criar (finalmente!) uma 
cadeira de psicologia experimental e nomear o único e excelente candidato presen- 
te, meu amigo Paul Fraisse, que era no entanto especialista dos problemas do 
tempo, pelos quais nenhum metafísico deixou de interessar-se ! 

Numa palavra, os princípios são: implícitos permanentes da autoridade 
universitária francesa que a psicologia faz parte da filosofia; que todo filósofo está 
credenciado para ensinar psicologia, mas que a recíproca não é verdadeira; que 
não há necessidade de uma pós-graduação em psicologia quando os graduados de 
filosofia sabem tudo; e que as pesquisas experimentais se farão onde se pode fazê- 
las na medida em que os interessados desejem dedicar-se a isso. Disso resultou, 
por exemplo, que durante mais de cinquenta anos (até a nomeação de Fraisse que, 
finalmente, modificou essa situação), o Laboratório de Psicologia da Sorbonne 
foi uma instituição à margem, sem relação com as Faculdades, apesar dos céle- 
bres trabalhos que aí se faziam: Binet não foi professor, Piéron estava no Colégio 
de França. Nem Piéron nem Wallon pertenceram ao Instituto, etc. 

Foi necessária, pois, durante muito tempo e ainda o é em parte, uma certa 
dose de heroísmo para consagrar-se à psicologia na França, quando se tem vinte 
anos e não se é futuro médico ou engajado nas direções práticas. Na idade da cria- 
ção das idéias, quando seria necessário poder gozar da mais ampla liberdade de 
espírito, fica-se sujeito a concursos e sofre-se a espantosa coerção do programa de 
pós-graduação em filosofia. "! Após isso tudo. passa-se por um falso irmão, que se 


11 Todas as vezes que, na faculdade, se insistir na qualidade de pós-graduado de um candidato para tal ou 
tal cadeira, o que nada tem a ver com este caso. já que se trata de um título interessando o segundo grau, eu 
pensava comigo mesmo que teria. sem dúvida. fracassado nessa grande prova por falta de submissão aos pro- 
gramas e recordava, com orgulho, meu pequeno doutorado sobre os moluscos alpinos. 


214 PIAGET 


rebaixa a executar tarefas menores e prossegue-se o caminho ao sabor das oca- 
siões, com um minimum de proteção e sem nenhuma garantia quanto a uma car- 
reira suficiente. Felizmente há pouco a situação melhorou com a criação de uma 
seção autônoma de psicologia no Centro Nacional de Pesquisa Científica, mas os 
cargos dependiam até agora da seção de filosofia em geral e de uma seção comum 
com a sociologia. 

F) — Chego à última parte da narração da minha experiência vivida por 
um antigo futuro ex-filósofo; e considero isto muito importante, pois me forneceu 
a confirmação da possibilidade de constituir uma epistemologia científica tal 
como eu sempre havia sonhado. Lembremo-nos que a fronteira entre a filosofia e 
as ciências é sempre móvel, porque ela não se prende aos problemas, dos quais ne- 
nhum pode jamais ser dito definitivamente cientítico ou metafísico; mas só à sua 
possível delimitação e à escolha de métodos que permitem tratar essas questões 
circunscritas apoiando-se na experimentação, na formalização lógico-matemática 
ou nas duas. Eu sonhara pois com uma “epistemologia genética” que delimitaria 
os problemas do conhecimento centrando-se na questão de saber “como se 
ampliam os conhecimentos”, o que tem por objeto ao mesmo tempo sua formação 
e desenvolvimento histórico. Mas o critério de êxito de uma disciplina científica é 
a cooperação dos espíritos, e desde a minha desconversão da filosofia eu estava 
cada vez mais persuadido que toda produção puramente individual era maculada 
por um vício redibitório e que, à medida que pudessem vir a falar do “sistema de 
Piaget”, isso seria um sinal convincente do meu fracasso. 


Continuei, à margem da psicologia, a dar cursos de epistemologia genética 
na Sorbonne e na Faculdade de Ciências de Genebra, mas com um crescente sen- 
timento dos meus limites, pois para praticar uma tal disciplina não basta ser psi- 
cólogo um pouco a par da filosofia e um pouco biólogo: é preciso ainda mais ser 
lógico, matemático, físico, cibernético e historiador de ciências, para só falar do 
essencial. Eu havia publicado um Traité de Logigue (denominação imprópria, 
mas às vezes depende-se do editor), mas centrado no desenvolvimento das estrutu- 
ras e cuja acolhida por parte dos lógicos deu-me mais uma vez a impressão de 
estar sentado entre duas ou mesmo quatro cadeiras. Era preciso pois encontrar 
ajuda. 

Se a epistemologia genética é possível, ela deve ser também necessariamente 
interdisciplinária. Fortalecido com essa convicção, experimentei tentar a prova e 
enderecei à Fundação Rockefeller um belo programa de pesquisas. J. Marshall, 
que me reservara uma acolhida muito amistosa, respondeu-me primeiro que seus 
colegas, consultados, nada haviam encontrado nesse programa que não corres- 
pondesse às pesquisas correntes nos Estados Unidos. Reagi, propondo que um 
epistemologista anglo-saxão passasse três meses em Genebra e fizesse um relató- 
rio para a Fundação sobre o que lhe parecesse convergente ou diferente nas nos- 
sas pesquisas, tendo em vista os trabalhos americanos e ingleses. A Fundação 
aceitou e W. Mays de Manchester veio a Genebra, onde escreveu um relatório 
muito inteligente que deu ganho de causa. Mas como meu ambicioso projeto inte- 
ressava ao conjunto dos Departamentos, fui submetido às provas de costume, 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 215 


consistindo em um ou dois excelentes almoços no último andar do Rockefeller 
Building em Nova York em companhia dos presidentes desses Departamentos, 
que tinham preparado suas questões de exame. Essas questões eram, quase todas, 
de uma notável pertinência. Lembro-me das práticas: como encontrará o senhor 
pessoas decididas e ao mesmo tempo bastante inteligentes para chegarem a uma 
colaboração verdadeira, e bastante tolas para abandonarem durante um ano seus 
trabalhos de matemáticas ou de lógica, etc., e tentar a aventura de um diálogo 
com “psicólogos da criança”? Mas lembro-me sobretudo das questões teóricas, 
devidas, entre outros, a Wheaver, o matemático da teoria da informação que nessa 
época dirigia o Departamento de Ciências no Rockefeller: como pretende o se- 
nhor encontrar idéias epistemológicas que interessem, por exemplo, à teoria da 
relatividade, estudando crianças que nada sabem e que, em todo caso, são educa- 
das nas correntes de idéias que datam de Newton? O que pensam as crianças da 
teoria dos conjuntos e das correspondências biunivocas utilizadas por Cantor, 
etc.? Tive a sorte de poder responder à primeira, dizendo que Einstein em pessoa 
me havia aconselhado, em 1928, a estudar a formação das intuições de velocidade 
para ver se elas dependiam ou não das da duração; e que o próprio Einstein, a 
quem tive a felicidade de rever em Princeton (eu estava passando três meses no 
Instituto de Oppenheimer e ele ali havia se fixado), ficara completamente encan- 
tado tom as reações de não-conservação das crianças de quatro a seis anos (elas 
negam que um líquido conserva sua quantidade quando se o despeja de um copo 
a outro de forma diferente: “Agora tem mais que antes”, etc.), e achava espantoso 
que as noções elementares de conservação não se construíssem senão lá pelos sete 
ou oito anos. Pude responder à segunda questão proposta por Wheaver dizendo 
que as crianças manipulam correntemente a correspondência 1 a 1 e que o estudo 
desse problema permite constatar o quanto abusivamente Whitehead e Russell 
simplificaram a passagem da classe lógica ao número nos Principia Mathematica. 
Em resumo, esforcei-me e obtive alguns meses mais tarde os fundos necessários 
para criar, na Faculdade de Ciências de Genebra, um “Centro Internacional de 
Epistemologia Genética”. 

No começo não foi fácil. Fazendo trabalhar uma equipe de psicólogos gene- 
brinos com dois lógicos e um matemático, começamos por procurar uma lingua- 
gem comum e alguns bons meses foram necessários para chegarmos a compreen- 
der-nos, especialmente entre lógicos e psicólogos. Quanto ao matemático, não foi 
nem bastante inteligente nem bastante tolo quanto o alto funcionário do Rocke- 
feller o havia imaginado nas suas predições pessimistas: veio para Genebra, mas 
com o fito de continuar seus próprios trabalhos em um cenário tranquilo, e, se nos 
deu algumas boas idéias, desinteressou-se passavelmente dos destinos da episte- 
mologia genética, salvo no Simpósio final, onde foi muito ativo. (Soube aliás, 
depois, que esse desinteresse fora do seu trabalho não visava ao nosso Centro nas- 
cente, mas fazia parte constante dos seus métodos de criação.) O trabalho no 
entanto continuava mais ou menos, tendo como objeto a “lógica e equilíbrio”, as 
relações entre a lógica e a linguagem, etc., quando durante o ano W. Mays nos 
deu a idéia de submeter à experiência o famoso problema das relações sintéticas 


216 PIAGET 


e analíticas, problema central para a escola do empirismo lógico e que tinha posto 
em choque os partidários dessa escola com o grande lógico Quine, de Harvard. 
Ora. eu havia convidado nesse primeiro ano o lógico belga L. Apostel com a 
intenção de confrontar nossos pontos de vista com os de um partidário deste posi- 
tivismo lógico, no qual ele acreditava ainda, e de ver se uma colaboração na sub- 
missão aos fatos, sobre pontos essenciais, seria possivel entre representantes de 
tendências opostas: papel exclusivo da experiência, ou atividade estruturante do 
sujeito, etc. Lançamo-nos ao trabalho com entusiasmo, Apostel, Mays, Morf e eu 
próprio, o primeiro sendo levado a acreditar que se encontraria desde a infância 
uma clara oposição entre os julgamentos sintéticos ou empíricos e os julgamentos 
analíticos ou lógico-matemáticos, o último estando persuadido que se encontram 
todos os intermediários e todas as combinações. 

Foi uma experiência apaixonante, primeiro porque punha em causa o que 
Quine chamou de um dos “dogmas” do empirismo lógico e em seguida porque era 
para nós a primeira vez que dois epistemólogos igualmente convictos de suas 
respectivas teses, mas de teses contraditórias entre si, iam submeter-se juntos ao 
veredito dos mesmos fatos. Ora, por outro lado, eu estava convencido de que um 
fato não existe jamais em estado puro, mas que, como o mostraram Duhem, Poin- 
caré e tantos outros, é sempre solidário com uma interpretação (o que constitui de 
resto, por si só, uma refutação do positivismo ou empirismo lógico). Iríamos nós 
poder entrar num acordo sobre as interpretações? Tal era o risco, considerável 
para mim, dessa primeira experiência de colaboração real. Os fatos me pareceram 
fornecer o que eu esperava: ao lado de ligações sintéticas claramente físicas e de 
ligações lógicas claramente analíticas (sendo que o critério de partida era simples- 
mente que o sujeito tem necessidade ou não de constatações para chegar à deci- 
são), encontravam-se ligações ao mesmo tempo lógico-matemáticas e sintéticas: 
por exemplo, que 5 bolinhas alinhadas não são mais 5 quando a fila é cortada em 
duas de 3 mais 2 elementos e que a ligação 5 = 3 + 2 não se torna necessária 
senão após uma construção (ela mesma solidária com um “grupo”, etc. Só que 
Apostel estava longe de concordar e, com uma sutileza admirável, multiplicava as 
interpretações possíveis entre o numérico físico, enquanto que os nomes de núme- 
ro só servem para a medida, e o numérico matemático. Tivemos que nos entregar 
a todo um trabalho de definições de noções e de formulação de critérios, aplican- 
do-os aos fatos recolhidos, e foram necessárias nada menos do que três redações 
sucessivas, cada uma abundantemente emendada pelo outro autor, antes de poder 
concluir. O trabalho apareceu"? e vê-se aí que se o acordo não é total, é quase 
completo: Apostel admite a existência de intermediários entre o analítico e o sin- 
tético mas crê em uma filiação genética, que conduz ligações físicas a ligações 
lógico-matemáticas (duas teses finalmente contrárias ao empirismo lógico, pelo 
menos na sua ortodoxia), enquanto eu mantenho a distinção, em todas as etapas, 
do físico e do lógico-matemático, mas creio em todas as transições entre o sinté- 
tico e o analítico. 


'2 [. Apostel. W. Mays. A. Morfe J. Piaget. Les Liaisons Analvtiques et Synthétiques dans les Comporte- 


ments du Sujet, Études d 'Epistémologie Génétique, t. IV. Paris, Presses Universitaires de France. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA Da 


A experiência era pois provante: um exame honesto dos fatos, junto a uma 
elaboração em parte formalizada das interpretações, podem conduzir epistemó- 
logos em desacordo inicial a uma revisão e a uma precisão de suas hipóteses até 
a um acordo aproximado, em todo caso bem superior às oposições iniciais. Falta- 
va ver a reação dos grandes autores. W. V. Quine se havia recusado com uma pru- 
dência compreensível, por ocasião da fundação do Centro, a fazer parte do seu 
Comitê de patronos. Na ocasião em que ele leu o fascículo sobre L 'Analytique et 
le Synthétique (cuja introdução escrita por Apostel mostra claramente, numa 
exposição bem cuidada e elevada das inúmeras teses dos autores contemporâneos, 
que a questão é constantemente posta em termos de fato e não apenas de lógica 
pura), escreveu-nos uma carta muito encorajadora, reconhecendo o alcance dos 
fatos recolhidos, mas ao mesmo tempo fazendo reservas sobre o modo de defini- 
ção adotado e aceitando retroativamente participar do Comitê do Centro. 

Faltava ainda enfrentar os eminentes convidados que contávamos reunir, em 
número de dez (como aconteceu todos os anos seguintes), em um Simpósio final 
destinado a discutir os trabalhos executados durante o ano e a preparar os do ano 
próximo. Nesse Simpósio deviam tomar parte E. W. Beth, F. Gonseth, A. Naess, 
J. Bruner, etc.; em resumo, um grupo de lógicos, matemáticos, psicólogos, todos 

- Interessados em epistemologia. Não tínhamos nenhuma idéia precisa acerca 
daquilo em que poderia dar a discussão apenas dos nossos trabalhos, durante toda 
uma semana, por especialistas a quem não se pediria nenhuma conferência ou 
comunicação pessoais, salvo em caso de necessidade particular. 

Um desses convidados inquietava-me particularmente: o lógico Beth, de 
Amsterdam, que tinha publicado nos Methodos, a pedido de P. Bochenski, uma 
crítica avassaladora do meu Traité de Logique. Escrevi uma resposta de algumas 
páginas que P. Bochenski simplesmente recusou publicar (inútil insistir nessa con- 
cepção da objetividade filosófica). Mas ele concedeu-me algumas linhas e limitei- 
me a dizer que compreendia muito bem que um puro lógico reagisse com vigor 
contra um ensaio de formalização de certas estruturas escolhidas porque perten- 
centes ao pensamento natural, mas que há aí um problema e que o único meio de 
entendermo-nos seria publicar juntos um trabalho sobre tais assuntos, onde nem 
apenas o lógico nem apenas o psicólogo pode bastar para executar a tarefa. Escre- 
vi longamente a Beth no mesmo sentido, propondo-lhe fazer abstração dos nossos 
“eu” e dedicarmo-nos seriamente a esse trabalho. Beth, que era um homem hones- 
tíssimo, confessou-se surpreso e sensibilizado com essa reação e não recusou a 
colaboração proposta, mas pedindo para pensar. Eu estava pois um tanto inquieto 
com o que ele pensaria e diria no Simpósio. 

Este nos deu plena satisfação. Desde a primeira sessão, Beth encontrou a 
demonstração, por considerações topológicas inesperadas, de uma proposição que 
Apostel procurava justificar no domínio das relações entre a linguagem, a lógica 
e a informação (e códigos que minimizam o erro). Arne Naess, que faz epistemo- 
logia experimental em adultos, em Oslo, se é que se pode dizê-lo assim, foi pró- 
digo em sugestivas observações principalmente sobre as ligações analíticas e 
sintéticas, e sublinhou a importância da dimensão genética em relação apenas aos 


218 PIAGET 


adultos. Meu velho amigo Gonseth, cuja filosofia das ciências é essencialmente 
“aberta”, abriu-se a todas as nossas preocupações. Em resumo, as discussões 
foram realmente “de trabalho” e não de improvisações descoordenadas como em 
muitos congressos (um maximum de dez convidados é a esse respeito uma precau- 
ção indispensável). No fim desse Simpósio, tive a nítida impressão de que a episte- 
mologia genética existia é, indício encorajador, Beth também a teve."3 

O Centro continuou seus trabalhos durante sete novos anos, graças à Fun- 
dação Rockefeller; depois; quando ela cessou de subvencionar-nos, voltou a ficar 
a cargo do Fundo Nacional Suíço de Pesquisa Científica. Esses trabalhos, cujos 
resultados deram lugar a vinte volumes aparecidos na coleção “Études 
d'Epistémologie Génétique”, da Presses Universitaires de France, tiveram como 
objeto a formação, a aprendizagem e a genealogia das estruturas lógicas, a leitura 
da experiência, os problemas do número e do espáço, as noções de função, de 
tempo, de velocidade e de causalidade, e pensamos abordar os problemas de epis- 
temologia biológica. 

O essencial a notar, do ponto de vista de uma epistemologia que se pretenda 
científica, é que esses resultados foram devidos antes de mais nada a uma conti- 
nua colaboração interdisciplinar, sem que ninguém dentre nós tivesse jamais tido 
a impressão de bastar-se a si mesmo. Essa cooperação, inaugurada sobre uma frá- 
gil escala desde o primeiro ano, não fez senão acentuar-se e, sob esse prisma, 
pode-se dizer que o Centro teve êxito. O mérito foi devido, naturalmente, a exce- 
lentes colaboradores: não posso citar todos, mas gostaria muito de mencionar al- 
guns a título de exemplo. 

Pierre Gréco, primeiro lugar há alguns anos como pós-graduado em filosofia 
(não foi essa a razão da minha escolha), foi meu assistente na Sorbonne, depois 
meu chefe de trabalhos e obteve em seguida uma licença para trabalhar no Cen- 
tro: especializado em psicologia genética, preocupado tanto quanto eu o sou pelos 
problemas epistemológicos dos quais sua formação de normalista lhe dá um 
extenso conhecimento, conduziu excelentes pesquisas sobre o número, a aprendi- 
zagem das estruturas lógicas, o espaço, o tempo e a causalidade, e demonstrou em 
cada uma delas uma notável aptidão para a programação experimental e o 
controle. 

J.-B. Grize é um lógico que, antes de receber sua formação entre os especia- 
listas belgas, tinha defendido uma tese sobre a eliminação do tempo na história 
das noções matemáticas. Sua dupla qualidade de lógico e de matemático (ensina 
atualmente na Faculdade de Letras de Neuchâtel e na de Ciências em Genebra) 
não o impediu, absolutamente, graças sem dúvida às suas preocupações históri- 
cas, de adaptar-se de maneira imediata e imediatamente intima às questões genéti- 
cas: elaborou uma especialidade, de utilidade central para nós: formalizar as 


*3 Nossa projetada colaboração resultou em uma obra: Epistémologie Mathématique et Psychologie, vol. 
XVI dos Études d'Epistémologie Génétique, Presses Universitaires de France. Sem chegar a uma colabora- 
ção de detalhe, por causa das distâncias geográficas, cada um redigiu sua parte. cuidadosamente revista pelo 
outro e o próprio Beth redigiu o essencial das conclusões gerais comuns. que me deram plena satisfação 
quanto à colaboração epistemológica necessária entre lógicos e psicólogos. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 219 


estruturas naturais de diferentes níveis de desenvolvimento e em particular deu 
forma a minhas idéias sobre a construção do número. 

L. Apostel é um outro lógico, formado na tradição do positivismo lógico mas 
bastante aberto às questões genéticas como a muitas outras. Seu espantoso dina- 
mismo manifestou-se simultaneamente por uma fecundidade constante e por posi- 
ções cada vez mais pessoais, em relação às suas tendências iniciais. 

S. Papert fez dois doutoramentos em matemáticas (dos quais um a respeito 
dos fundamentos da topologia, em Cambridge), trabalhou no Instituto Poincaré e 
fez cibernética no Laboratório Nacional de Física em Londres. Mas, essencial- 
mente polivalente, ocupou-se também em Johanesburgo (com Taylor) das expe- 
riências de percepção por meio das lentes deformantes. Sua polivalência conven- 
ceu-o da existência do assunto e sua epistemologia está centrada nas construções 
desse assunto, traduzidas por sua vez em termos de psicologia, de lógica (Papert 
deixou de ser nomeado para a cadeira de lógica em Cambridge) e de programação 
cibernética, sem esquecer as preocupações neurológicas que ele tem muito vivas. 
Papert era pois o colaborador ideal para o Centro, cujas idéias defendeu e enri- 
queceu com entusiasmo, forneceu um grande número de trabalhos, começando 
pela crítica do reducionismo lógico, continuando por um modelo cibernético do 
desenvolvimento ou “genétron” (cuja especialidade é passar por construções de 
equilíbrio como no desenvolvimento real, em lugar de proceder por uma equilibra- 
ção recomeçando de zero em caso de fracasso, logo, por tudo ou nada, como no 
homeostato de Ashby), depois por pesquisas sobre as funções e o tempo. 

Outros nos ajudaram muito em séries de problemas especiais: F. Bresson, 
que se ocupou do esquematismo perceptivo e da casualidade com um senso notá- 
vel dos “modelos” abstratos e concretos; G.-Th. Guilbaud, cuja inesgotável erudi- 
ção esclareceu-nos sobre muitas questões, entre outras sobre a explicação nas 
matemáticas; C. Nowinski, versado na dialética e na lógica polonesa; Gruber, de 
Nova York, especialista em percepção e epistemologia biológica; F. Meyer, de 
Aix-en-Provence, cujo belo livro sobre La problématique de [Evolution muito nos 
surpreendeu, etc. Nas reuniões anuais do Simpósio, tivemos o privilégio de ter a 
colaboração de W. V. O. Quine, o lógico de Harvard; W. McCulloch, o célebre 
inventor da “lógica dos neurônios”: dos físicos Halbwachs, D. Rivier e O. Costa 
de Beauregard, de G.-G. Granger, o epistemólogo das ciências humanas, sem falar 
dos antigos colaboradores que se tornaram familiares dessas reuniões, em particu- 
lar L. Apostel. 

As atividades do Centro de Epistemologia Genética despertaram a simpatia 
dos nossos colegas da Faculdade de Ciências, que bem compreenderam o possível 
interesse de tais pesquisas para a teoria do pensamento científico: entre outros, O 
matemático G. de Rham e o biólogo F. Chodat. A nova geração de filósofos da 
Faculdade de Letras, pelo contrário, demonstrou uma desconfiança que me inte- 
ressou como sintoma dos efeitos da fenomenologia e permitiu-me comparar essa 
geração ignorante sobre tudo acerca das ciências à dos meus mestres Reymond, 
Brunschvicg e Lalande, que no entanto eram filósofos de vocação. Jeanne Hersch 
nunca me falou de epistemologia, mas perguntou-me um dia: “Continua acredi- 
tando que a psicologia seja uma ciência? Será necessário que eu lhe explique...” 


220 PIAGET 


Temo ter deixado transparecer um intenso divertimento íntimo, pois jamais 
recebi a explicação; em compensação, veremos imediatamente a marcha dos 
acontecimentos. Quanto a R. Schaerer, sua preocupação a nosso respeito, como 
aliás a de quase todos os membros atuais da Sociedade Romanda de Filosofia 
(que pediram a Grize uma exposição sobre os nossos métodos), é aplaudir nossas 
pesquisas acerca da criança, mas mostrar que elas nada significam no que con- 
cerne ao adulto, nem principalmente ao conhecimento. R. Schaerer dedicou uma 
parte do seu pensamento a esse assunto em uma discussão dos “Encontros Inter- 
nacionais” e voltarei no capítulo V ao valor dos seus argumentos. Mas o mais 
claro, nas intenções de J. Hersch e de R. Schaerer, traduziu-se por um projeto do 
qual se destacará todo o alcance: criar um ensinamento de psicologia filosófica na 
Faculdade de Letras para completar a psicologia tal como é compreendida em 
ciências; confiá-la a F. Mueller, cuja Histoire de la Psychologie (que testemunha 
segundo o uso filosófico um conhecimento dos textos superior ao dos fatos) con- 
cluía que a psicologia científica é inapta a fornecer a “antropologia filosófica” de 
que precisamos. Após unânimes protestos dos psicólogos, a Faculdade de Letras 
dignou-se a denominar a cadeira “História da Psicologia Filosófica” e foi um pro- 
gresso real, pois é possível que uma tal disciplina já pertença à história. É verdade 
que nada se sabe a respeito do assunto e que não devemos fazer previsões, mas, se 
eu tiver razão e se a epistemologia genética apresentar por sua vez algum futuro, 
seria interessante notar que no momento em que nosso Centro preparava esse 
futuro, os filósofos da Faculdade de Letras de Genebra ocupavam-se em ressus- 
citar a psicologia filosófica. .. É com essa nota de orgulho que termina o relato 
da minha desconversão e essa longa confissão, que testemunha certamente ilusões 
subjetivas, mas, por outro lado, sinceras. 


CarpíTULO II 


Ciências e Filosofia 


A filosofia é uma tomada de posição raciocinada em relação à totalidade do 
real. O termo “raciocinada” opõe a filosofia às tomadas de posições puramente 
práticas ou afetivas ou ainda às crenças simplesmente admitidas sem elaboração 
reflexiva: uma pura moral, uma fé, etc. O conceito de “totalidade do real” com- 
porta três componentes. Em primeiro lugar, refere-se ao conjunto das atividades 
superiores do homem e não exclusivamente ao conhecimento: moral, estética, fé 
(religiosa ou humanista), etc. Em segundo lugar, implica a possibilidade, do ponto 
de vista do conhecimento, de que, sob as aparências fenomênicas e os conheci- 
mentos particulares, existe uma última realidade, uma coisa em si, um absoluto, 
etc. Em terceiro lugar, uma reflexão sobre a totalidade do real pode naturalmente 
conduzir a uma abertura no conjunto dos possíveis (Leibniz, Renouvier, etc.). 

A) — Existem filosofias segundo as quais a coisa em si existe mas é incog- 
noscível; a tomada de posição a seu respeito apóia-se então na razão prática e as 
filosofias não concernem menos, naturalmente, à totalidade do real. Outras filoso- 
fias, como o materialismo dialético, parecem ao contrário limitar essa totalidade 
ao universo sensivel ou espaço-temporal. Mas o termo materialismo significa de 
fato a crença na existência do objeto, independentemente do sujeito ou do conhe- 
cimento, não a crença num possível conhecimento do objeto independentemente 
do sujeito: o objeto é dessa maneira muitas vezes reconhecido pelo “materialista” 
como um limite no sentido matemático, do qual nos acercamos por aproximações 
sucessivas, mas sem jamais atingi-lo. Por outro lado, se o materialismo dialético 
ataca o idealismo, destaca sempre a ação, numa praxis do ponto de vista social. 
mas ao mesmo tempo o papel da ação no conhecimento individual (Marx já com- 
batia o sensualismo de Feuerbach dizendo que a percepção repousa numa “ativi- 
dade” dos sentidos do homem). É pois evidente que o materialismo dialético entra 
também na definição proposta, com essa particularidade essencial da substituição 
do dialético ao estático, mas, como todas as características de uma posição racio- 
cinada sobre a totalidade do real, sendo mesmo central no marxismo a noção de 
totalidade. 

Existe apenas uma filosofia que toma uma posição limitativa em relação à 
nossa definição, ainda que nesta entre formalmente: é o positivismo, não o de 
Comte, que bania a metafísica para em seguida subtituí-la por uma “síntese subje- 
tiva”, mas o “positivismo lógico” contemporâneo, para o qual a totalidade do real 


ER SS 


Qua PIAGET 


reduz-se aos fenômenos físicos e a uma linguagem. Ainda que essa seja uma con- 
cepção como uma outra qualquer da “totalidade do real”, e que essa tomada de 
posição seja fortemente “raciocinada”, o que diz respeito pois aos termos de uma 
definição que pretenda cobrir todos os sistemas, poderemos, a seguir, fazer abstra- 
ção de uma tal posição porque seu alvo admitido é limitar o número dos proble- 
mas e não só precisar os métodos. Devemos, com efeito, fazer desde o início três 
reservas essenciais em relação a uma tal doutrina, que Oppenheimer denominava 
um dia uma “filosofia sem humor”. 

Em primeiro lugar e do ponto de vista da própria ciência, está excluído limi- 
tá-la a um conjunto de problemas considerados única e definitivamente como 
“científicos”. A ciência contemporânea está essencialmente “aberta” e permanece 
livre para englobar todos os novos problemas que quiser ou puder, à medida que 
encontrar métodos para tratá-los. No domínio físico, esforçou-se em vão para 
prescrever a causalidade como explicação e prescrever-lhe permanecer dentro das 
leis; a busca da explicação causal continua, mais que nunca, sendo uma necessi- 
dade primordial do espírito. No domínio psicológico, esforçou-se em vão para 
banir o “mentalismo” e Bloomfield tentou inutilmente sustentar que procurar 
“conceitos” sob os sintagmas da linguagem é função dos teólogos e dos literatos; 
a psicologia soviética não se ocupa menos do problema da consciência e a interio- 
rização das ações em pensamento continua o problema psicológico central das 
funções cognitivas. 

Em segundo lugar, taxar os problemas metafísicos de problemas “sem signi- 
ficação” é inadmissível do ponto de vista do próprio conhecimento, não que se 
possa admitir sem mais nada a validade de um conhecimento metafísico (o que 
poremos em dúvida no que se segue), mas porque nada permite classificar definiti- 
vamente um problema como metafísico ou científico e por que um problema con- 
testado pode, no máximo, ser classificado como “sem significação (cognitiva) 
atual”. O problema de saber se, sob a escala macroscópica, a realidade física sai 
no seu fundo de um determinismo subjacente mas inacessível, ou de uma indeter- 
minação fundamental, foi unanimemente classificado como “metafísico” no fim 
do século passado: atualmente é também um problema da física que L. Broglie 
opõe à escola de Copenhague. Quanto ao problema da liberdade humana, foi até 
o momento desprovido de significação científica, já que nenhuma técnica de veri- 
ficação permitia decidir o que quer que fosse a favor ou contra uma das soluções 
propostas, e o testemunho do sentido íntimo é em tal domínio, particularmente 
suspeito de parcialidade. Acontece que, por uma extensão do teorema de Goedel 
sobre a impossibilidade de demonstrar a não-contradição de um sistema (bastante 
rico), por seus próprios meios ou por meios mais fracos, a cibernética contempo- 
rânea levanta o problema do determinismo em termos limitados mas precisos: 
uma máquina suficientemente complexa para simular um trabalho cerebral e sub- 
metida a um determinismo rigoroso quanto ao seu mecanismo e às suas trocas 
com o exterior não permite calcular em um tempo t o que ela será em um tempo 
t mais I; ela só chega a isso na medida em que sua determinação, incompleta por 
si só, for submetida à de uma máquina de nível superior mas que, por sua vez, não 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 22 


é inteiramente determinada por si mesma; e assim por diante. Dessa forma vê-se 
de novo que um problema sem significação atual pode, de um modo bastante 
frequente, adquiri-la, e pelos mais imprevistos acontecimentos. 

Em terceiro lugar, e permitam-me insistir vigorosamente sobre esse ponto 
para evitar qualquer mal-entendido, um problema sem significação atual do ponto 
de vista cognitivo é em muitos casos um problema de permanente significação hu- 
mana e sempre atual, por conseguinte um legítimo problema filosófico. Tomemos 
como exemplo o problema. sem dúvida o mais central das motivações de toda 
filosofia: o do sentido da vida, frequentemente batizado como “finalidade” da 
existência. Começando pela finalidade, esse conceito é o protótipo das noções 
consideradas como metafísicas e não científicas pelo positivismo, isso a justo títu- 
lo, pois trata-se de uma idéia antropocêntrica nascida de uma confusão entre os 
dados subjetivos da consciência e o mecanismo causal da ação, comportando sob 
a forma de “causas finais” uma determinação do presente pelo futuro. No entanto, 
esse conceito ilusório dissimula as relações objetivas de utilidade funcional, de 
adaptação, de regulação antecipadora, etc., de tal forma que o problema subsiste 
e deu lugar, no domínio da cibernética, a soluções muitas vezes qualificadas de 
“equivalentes mecânicos da finalidade”: tais como os sistemas fechados ou feed- 
backs com o recente progresso dos feedforwards ou regulações de segundo grau. 
Existe pois hoje uma noção científica e não mais metafísica, correspondente à 
finalidade (o que o positivismo não previu porque, obstinando-se na sua rigidez no 
tato dos problemas, não teria jamais levantado essas hipóteses), e essa noção é o 
objeto de estudos chamados “teleonomia”, a qual, segundo as mãs línguas, é para 
a teleologia o que a astronomia é para a astrologia. Lembrando isso, o problema 
do sentido ou da finalidade da vida apresenta uma significação cognitiva atual e 
pode-se em particular ligá-lo a noções de teleonomia? Certamente não, pois dar 
uma expressão intelectual ou cognitiva à noção de uma finalidade da vida volta a 
fazer desta ou o resultado de um plano preestabelecido, de ordem divina, ou a sede 
de uma finalidade imanente, e uma marcha para o progresso, etc. Ora, aí estão 
hipóteses, digamos não indemonstráveis (não se sabe nada sobre isso), mas 
indemonstradas, já que não convencem todo mundo; e falar a seu respeito como 
“verdades metafísicas” é voltar a dizer que não são verdades pura e simplesmente, 
logo que não são “verdades” no amplo sentido da palavra. Concordemos com o 
positivismo que um tal problema é sem significação (atual) do ponto de vista cog- 
nitivo. Mas ele não deixa de sê-lo, e isso está sem relação com a possibilidade de 
uma verificação, que este problema é central do ponto de vista da existência hu- 
mana e do sujeito pensante, pois impõe-se a opção entre uma vida sem valores, 
uma vida de valores relativos e instáveis e uma vida ligada a valores sentidos 
como absolutos e que engajam todo o ser. Negar um tal problema porque é vital 
e sem soluções cognitivas certas é simplesmente absurdo, pois ele se apresenta 
sem cessar € impõe-se a título de engajamento, mesmo se não se sabe como formu- 
lá-lo intelectualmente. Acontece o mesmo com um grande número de outros 
problemas. 


224 PIAGET 


Dito isso, o natural de um homem completo é, claro, recusar-se a confundir 
os gêneros e aceitar como verdades demonstradas o que são apenas hipóteses; 
mas o é também recusar-se a uma divisão ou a um desmembramento da sua 
personalidade, tal que de um lado ele se limite a constatar, raciocinar e verificar, 
e de outro contente-se em acreditar em valores que o engajem e orientem, mas sem 
poder compreendê-los. Ao contrário, é evidente que, de posse de conhecimentos e 
valores, um sujeito que pensa procura necessariamente fazer-se uma concepção de 
conjunto que os reúna sob uma forma ou outra: esse é o papel da filosofia como 
tomada de posição raciocinada a respeito da totalidade do real. Todo homem que 
pensa adota ou faz para si uma filosofia, mesmo se sua concepção de conjunto e 
sua compreensão dos valores permanecem aos seus olhos, aproximativos e pes- 
soais. À questão é então restabelecer por que a filosofia se tornou uma especiali- 
dade e qual é o significado dessa especialização. 

B) — A tomada de posição filosófica que comporta uma concepção de con- 
junto e tendo como objeto, entre outros, os conhecimentos, eis uma dupla razão 
pela qual a filosofia tende a considerar-se, ela própria, como um conhecimento. 
Mas essa maneira de falar só é relativa ao homem.moderno, para quem existe uma 
diferença mais ou menos clara entre ciência e filosofia, e, em certos domínios, 
uma diferença muito clara, como no das ciências ditas exatas. 

A razão principal e histórica pela qual a filosofia foi quase sempre admitida 
como um conhecimento, em nossa civilização ocidental, é que ela foi por longo 
tempo solidária com a ciência, a tal ponto que a distinção entre ciência e filosofia 
não existia para Os primeiros pensadores gregos. Quando os pré-socráticos puse- 
ram-se a pensar o real, segundo a razão e não mais na linguagem simbólica do 
mito, suas concepções do mundo participaram ao mesmo tempo da filosofia e da 
física, com a escola de Mileto, ou da matemática, com o pitagorismo, ou da 
cosmologia, etc. Importa, para o nosso propósito, lembrar o quanto essa solidarie- 
dade com a ciência permaneceu longo tempo viva. Mas importa também, antes de 
proceder a essa evocação, notar que é um traço bem mais acentuado no pensa- 
mento ocidental que no Oriente. Não é, sem dúvida, um acaso se a filosofia orien- 
tal se apresenta, bem mais que a nossa, como sendo essencialmente uma sabedo- 
ria, enquanto que precisamente um mínimo desenvolvimento das ciências e das 
técnicas permitia evitar uma polarização muito sistemática dos valores sobre as 
do conhecimento. 

Apresenta-se em geral essa solidariedade inicial da filosofia e das ciências 
como se a primeira houvesse no começo “englobado” as segundas que pouco a 
pouco se desligariam dela. Isso não é falso se se colocar só do ponto de vista de 
descrições estáticas, livre para seriá-las em seguida, por etapas. Mas o problema 
importante é destacar onde está o motor na sucessão dos sistemas: sendo admi- 
tido que a coordenação dos valores constitui a função permanente da filosofia e 
que os termos desse problema variam relativamente pouco em relação à evolução 
dos conhecimentos, à questão, no que lhes concerne, é saber se foi o progresso 
desse conhecimento integral visado pela filosofia que ocasionou o dos conheci- 
mentos particulares, podendo então destacar-se do tronco comum sob forma de 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA Ze 


ciências especializadas, ou*se, pelo contrário, foram os progressos de natureza 
científica (no interior ou no exterior do domínio dito filosófico, pouco importa) 
que, impondo uma reflexão renovada sobre o saber assim transformado, provoca- 
ram o desenvolvimento dos sistemas. 

Quando digo que pouco importa se os progressos científicos, que, na segunda 
hipótese, teriam ocasionado a reflexão filosófica, foram concluídos graças a tal 
autor designado hoje em dia como um matemático, etc., ou graças a um outro 
classificado atualmente entre os filósofos, exponho-me, é evidente, à resposta que, 
no segundo caso pelo menos, foram pois os filósofos que conduziram o movimen- 
to. E não adianta nada, é claro, dizer que no começo ciências e filosofia eram 
indiferenciadas, já que procuramos precisamente o fator que, no seio dessa indife- 
renciação, provocou os progresos: uma ação do conhecimento integral (ou da sua 
pesquisa) sobre a aquisição dos conhecimentos especializados, ou, pelo contrário, 
uma ação destes provocando um novo esforço de análise reflexiva sobre a cons- 
trução dos sistemas de conjunto? Ora, convém lembrar que não existe nenhuma 
diferença de natureza entre os problemas cognitivos filosóficos e científicos, mas 
somente uma diferença na sua delimitação ou especialização e sobretudo nos mé- 
todos, quer sejam simplesmente reflexivos ou fundados sobre uma observação 
sistemática ou experimental para os fatos e sobre algoritmos rigorosos para a 
dedução. Lembrado isso, é relativamente fácil, ou pelo menos possível em grandes 
linhas, saber em quais pontos um filósofo fez ciência ou orientou-se nessa direção 
(já que existe aí, antes de tudo, um problema de direção e não de fronteiras no sen- 
tido estático) e sobre os quais apenas faz filosofia. Dois exemplos nos serão 
suficientes: 

Quando Aristóteles dirigia o trabalho dos seus trezentos assistentes para 
fornecer-lhes os materiais necessários à sua biologia, e descobria assim fatos tais 
como o de que os cetáceos são mamíferos e não peixes, etc., não é, absolutamente 
de se duvidar que ele se entregava a uma atividade científica, mesmo que ela tives- 
se sido orientada para reflexões mais gerais (o que é sem dúvida o caso de todos 
os criadores), ele não se contentou com prolongá-las em meditações solitárias e 
passou aos estudos de fatos, em um contexto de colaboração. Quando, pelo 
contrário, construiu seu sistema, suas idéias sobre a potência e o ato, sua interpre- 
tação geral das formas como imanentes ao real e não mais situadas no mundo das 
Idéias, ele é, certamente, filósofo. ! * Não é pois desprovido de senso pensar que foi 
a orientação biológica de Aristóteles e a orientação matemática de Platão que 
justificaram diferenças essenciais de seus sistemas, e isto é mesmo muito banal. 
Por outro lado, é essencial perguntar-se se estes grandes criadores não foram 
grandes precisamente porque se apoiavam em resultados, lógico-matemáticos ou 
de observação metódica, e não somente em idéias, por mais necessárias que estas 
sejam. Caso se os compare com Plotino,' * que acredita ainda que as montanhas 


'* Sobre a teoria das Formas em Platão há um excelente estudo de Victor Goldschmidt: 4 Religião de Pla- 
tão, Difusão Européia do Livro. 152 pp.. 1965, SP (N. da DIFEL.) 

18 Sem querer diminuir o interesse de Plotino em filosofia religiosa, mas. justamente em um domínio onde. 
nesse autor, a coordenação dos valores leva vantagem sobre a importância cognitiva. 


226 PIAGET 


crescem como grandes cogumelos, existe uma pequena diferença e nossos progra- 
mas de ensino esquecem-se dela quando acreditam poder formar filósofos à força, 
sem nenhuma preparação científica. 

Descartes é o melhor dos exemplos numa época em que ciências e filosofia 
eram já diferenciadas, não que ele seja superior a Leibniz, cuja posição era a 
mesma do ponto de vista que nos ocupa aqui, mas porque explicou-se ele próprio. 
de maneira a mais clara possível, sobre as relações de trabalho que estabelecia 
entre suas atividades científicas e filosóficas: é preciso, dizia ele, não consagrar à 
filosofia senão um dia por mês (detalhe esquecido de novo pelos nossos progra- 
mas de ensino) e consagrar os outros a ocupações tais como o cálculo ou a disse- 
cação. Ora, se Descartes descobriu a geometria analítica, permitindo coordenar as 
grandezas numéricas e espaciais, foi por causa de sua doutrina geral sobre o pen- 
samento e a extensão, duas substâncias que ele tinha tanta dificuldade em conside- 
rar como distintas e ao mesmo tempo indissociavelmente unidas, ou pode-se pen- 
sar que as pesquisas ocupando vinte e nove ou trinta dias dos seus meses tiveram 
qualquer influência sobre as concepções elaboradas durante o dia restante? 

C) — Se se admitem essas questões de método, parece então incontestável 
que os maiores sistemas da história da filosofia, isto é, aqueles a partir dos quais 
se provocaram outros e que exerceram eles próprios uma influência durável, nas- 
ceram todos de uma reflexão sobre as descobertas científicas de seus próprios 
autores ou de uma revolução científica própria à sua época ou imediatamente 
anterior: por conseguinte de Platão com as matemáticas, Aristóteles com a lógica 
e a biologia, Descartes com a álgebra e a geometria analítica, Leibniz com o cál- 
culo infinitesimal, o empirismo de Locke e de Hume com suas antecipações da 
psicologia, Kant com a ciência newtoniana e suas generalizações, Hegel e o mar- 
xismo com a história e a sociologia e até Husserl com a logística de Frege. E, 
notemo-lo ainda a título de contraprova, os sistemas sem ligações com as ciências 
também não chegaram a uma epistemologia original e destacaram a defesa e a 
interpretação dos valores, em uma teologia transcendente com Plotino, rigorosa- 
mente imanente com Espinoza ou em um idealismo radical como nos pós-kan- 
tianos alemães. 

Querendo partir desse aspecto epistemológico, que é aquele pelo qual a filo- 
sofia se aproxima mais de um conhecimento no sentido estrito, há um certo inte- 
resse em notar que os grandes sistemas devem ao tipo de ciência que provocou sua 
orientação epistemológica, não só o acento posto em tal epistemologia, o que é 
inútil dizer, mas ainda a variedade particular de epistemologia que adotara, o que 
é mais instrutivo. Distinguiremos a esse respeito seis variedades: 

1.º) Há primeiro o realismo platônico que consiste em projetar as estruturas 
de conhecimento em um mundo supra-sensível sem que elas dependam de um 
sujeito nem humano nem transcendental: o sujeito não é pois ativo no conheci- 
mento e limita-se a beneficiar-se, por reminiscência ou participação, do reflexo 
dessas Idéias eternas que constituem, por outro lado, o suporte dos valores supre- 
mos. morais. estéticos e religiosos. Ora, esse realismo das Idéias transcendentes 
era a única epistemologia compatível com a situação particular das matemáticas 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA Zu 


gregas. Estas, com efeito, embora racionais e operatórias desde Pitágoras, pu- 
nham todo o acento, em virtude de leis psicológicas conhecidas, sobre o resultado 
dessas operações e não sobre seu funcionamento, pois a tomada de consciência 
parte do resultado periférico das ações antes de referir-se ao seu mecanismo ínti- 
mo, o qual aliás ela jamais atinge completamente. Disso resultou um realismo 
sistemático e essencialmente estático, que fez Pitágoras acreditar que os números 
estavam nas coisas, a titulo de átomos espaciais, mas cujas conseglências fize- 
ram-se sentir de uma maneira bem mais ampla e durável: resistência de Euclides 
em utilizar o movimento, hesitações em manejar o infinito, dificuldades de análise 
do contínuo, proscrição das curvas ditas mecânicas, concebidas como devidas ao 
artifício humano e não pertencendo ao real com a mesma qualificação que as figu- 
ras obtidas somente por meio do compasso e da régua, escrúpulos em presença da 
álgebra concebida como simples procedimento de cálculo e não como uma ciência 
qualificada como a geometria e, enfim, incapacidade de constituir uma matemá- 
tica dinâmica, por falta de um tratamento operatório do movimento e do tempo 
(cf. Zenão) e da própria noção de um tempo flechado. Um tal realismo sistemático 
e estático não podia permanecer ligado ao mundo sensivel e dele destacou-se 
desde a crise irrompida no seio do pitagorismo pela descoberta dos irracionais: se 
existem seres matemáticos irredutíveis a uma relação simples entre dois inteiros, 
é porque o número, sendo exterior a nós, não está “nas” coisas. O gênio de Platão 
consistiu em extrair a epistemologia que essa situação de conjunto comportava, « 
vê-se assim que, se os pré-socráticos se entregavam a atividades que podem ser 
qualificadas como científicas ou pré-científicas ao mesmo tempo que filosóficas, a 
primeira das grandes filosofias da civilização ocidental deveu seu vôo à reflexão 
sobre uma ciência já constituída. 

2.º) Aristóteles não era matemático mas fundou simultaneamente a lógica e 
desenvolveu a biologia. Nesses dois domínios encontrou “formas” que lembravam 
as Formas ou Idéias platônicas, mas encarnadas umas nos discursos do sujeito e 
outras na contextura do organismo. Se ele tivesse tido consciência das atividades 
do sujeito epistêmico ou operatório não somente do sujeito individual,! º nas suas 
percepções ou seus órgãos sensoriais, e se ele tivesse tido alguma intuição da evo- 
lução das espécies, como a teve tão claramente esse novo Aristóteles que foi Leib- 
niz, teria sem dúvida fornecido uma teoria da construção progressiva das formas 
lógias, a partir das formas orgânicas. Mas permaneceu solidário do mesmo rea- 
lismo sistemático e estático que o de Platão e o do pensamento grego no seu con- 
junto, ao mesmo tempo que reintroduzia ali as formas na realidade física ou 
espaço-temporal, segundo uma variedade epistemológica que poderiamos chamar 
o realismo imanente. O pensamento grego, com efeito, permaneceu estranho à 
noção de um sujeito epistêmico ativo e os dois únicos poderes que Aristóteles atri- 
bui ao sujeito são os de uma tomada de consciência das formas e de uma abstra- 


18 Não opomos naturalmente cpistêmico e individual no sentido da oposição entre transcendental e psicolo 
gico: todos os dois saem da psicologia como da epistemologia. O sujeito epistêmico refcre-se à coordenação 
geral das ações (reunir, ordenar, etc.), constitutiva de lógica, e o sujeito individual às ações próprias e diferen- 
ciadas de cada individuo tomado à parte. 


228 PIAGET 


ção a partir das percepções, que permitem fornecer um conteúdo às formas. É 
verdade que os sofistas, reabilitados por Dupréel, insistiram em uma certa norma 
de subjetividade, mas com um objetivo que parece sobretudo crítico e sem alcan- 
çar o sujeito epistêmico. Quando Protágoras sustenta que o homem é a medida de 
toda coisa, ou bem ele não ultrapassa o sujeito individual, como o interpreta Pla- 
tão, ou bem ele entrevê um relativismo epistemológico que ainda está longe da 
idéia de construção. Quanto à idéia evolucionista, estava mesmo mais distanciada 
do pensamento grego que as noções de transformações matemáticas e físicas, e o 
devir universal de Heráclito não é um tempo flechado, já que comporta um eterno 
retorno que ele próprio ou seus discípulos admitiram. A teoria das formas em 
Aristóteles, em lugar de orientar-se para um construtivismo dialético, atinge pois 
a hierarquia imóvel, cujas etapas superiores explicam as inferiores e cuja finali- 
dade integral e noção de uma passagem da potência ao ato, excluem qualquer 
epistemologia da atividade do sujeito. Isso quer dizer que essa grande doutrina 
buscou suas fontes em duas espécies de inspiração que estão no ponto de partida 
de duas das ciências mais importantes de hoje: a lógica e a biologia. 

3.º) A descoberta do sujeito epistêmico por Descartes, como o próprio deta- 
lhe da sua filosofia, seriam inexplicáveis sem três inovações matemáticas e físicas 
que o obrigaram a rever a epistemologia de Aristóteles e a repensar as condições 
do saber. Em primeiro lugar, o desenvolvimento da álgebra pôs em evidência a 
possibilidade de uma disciplina fundada nas operações do sujeito e nas suas livres 
combinações, e não mais somente nas figuras sentidas como exteriores ou nos nú- 
meros que podem ser considerados como existentes independentemente das opera- 
ções que os engendraram. Em segundo lugar, a descoberta que o próprio Descar- 
tes fez da geometria analítica mostrou-lhe a possibilidade de uma correspondência 
exata entre a álgebra, domínio das operações do pensamento e a geometria, domi- 
nio da extensão, donde o tema cartesiano permanente das relações entre o pensa- 
mento e a extensão, ao mesmo tempo indissociáveis e fundamentalmente distintos. 
Em terceiro lugar, as descobertas de Galileu sobre o movimento inercial, seu mé- 
todo fundamental, que consiste em considerar o tempo, daí para diante flechado, 
como variável independente, e de modo geral a possibilidade de aplicar o cálculo 
a transformações físicas (transformações que se tornam racionais pela coordena- 
ção dedutiva da mudança e de um invariante) constituíam inovações de conside- 
rável alcance, que explicam ao mesmo tempo a concepção cartesiana da causali- 
dade como razão lógico-matemática das transformações, a recusa da finalidade e 
a recusa (abusiva) da idéia de força, porque Aristóteles a concebia como uma 
propriedade substancial e não transitiva dos corpos (teoria dos dois motores, que 
faz do motor interno o equivalente ainda quase animista de uma espécie de ins- 
tinto animal com propriedades motrizes). 

Mas se, sob a influência desses três acontecimentos capitais, Descartes des- 
cobre o sujeito epistêmico e seu poder de assimilar racionalmente a realidade físi- 
ca graças aos instrumentos lógico-matemáticos, ele fica, como será o caso do pró- 
prio Leibniz, em uma situação intermediária entre a carência do sujeito em Platão 
ou Aristóteles e o sujeito estruturante do apriorismo kantiano. Podemos designar 


Dn e nao | 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 229 


essa terceira variedade de posição epistemológica como uma doutrina da “harmo- 
nia preestabelecida”, se bem que o termo seja leibniziano e que a noção seja desti- 
nada, em Leibniz, a explicar como a mônada, fechada sobre si própria, concebe 
no entanto idéias que correspondem às realidades exteriores. Mas Descartes, no 
que se refere às categorias constitutivas da razão, considera-as como idéias inatas, 
e, se não se interpreta a correspondência entre as idéias inatas e o real por uma 
estruturação a priori, nada mais podemos fazer (em uma concepção fixista e não 
evolucionista do homem) que nos referir a uma harmonia preestabelecida. Só que, 
o grande interesse da posição de Descartes é devido ao fato de ele não reduzir 
tudo às idéias inatas e que, além delas e das idéias “adventícias” (de origem 
perceptiva), ele reconhece a existência de idéias “factícias” devidas às manipula- 
ções operatórias do espírito, como é precisamente o caso das noções algébricas 
das quais lembramos a importância e o papel que desempenharam na descoberta 
do sujeito epistêmico. Há pois, aí, ao mesmo tempo, a prova de uma tomada de 
consciência histórica das “operações” (em oposição ao pensamento grego) e um 
indício eloquente do fato de que uma tomada de consciência introspectiva não 
substitui o estudo psicológico objetivo e genético: a análise do desenvolvimento 
das operações lógico-matemáticas na criança mostra com efeito, de uma parte, 
que mesmo as noções que parecem oriundas da percepção comportam uma estru- 
turação operatória muito mais desenvolvida do que parece e que, doutra, as gran- 
des categorias consideradas por Descartes como inatas constituem um produto 
depurado dessa estruturação operatória. 

4.º) Tanto quando o de Descartes, o sistema de Leibniz é, como bem se sabe, 
diretamente influenciado pelas próprias descobertas científicas do seu criador. Foi 
do cálculo infinitesimal que ele tirou os princípios de continuidade e dos indiscer- 
níveis e são suas aplicações que o conduziram aos empregos filosóficos que ele fez 
do princípio de razão suficiente. Passando da álgebra do finito a esta álgebra do 
infinito, que é seu novo cálculo, melhor do que ninguém ele apoderou-se do dina- 
mismo operatório da inteligência e pôde responder a Locke que seu empirismo 
continuava inapto para explicar o ipse intellectus. Mas, convencido da extensão 
ilimitada das aplicações físicas que seus cálculos tornavam possíveis, não se 
orientou absolutamente em direção a um idealismo que o teria podido seduzir se 
ele houvesse permanecido centrado nos novos poderes que descobria nas ativida- 
des do sujeito epistêmico. Por outro lado, considerando essas atividades como 
fechadas sobre si próprias, o que é muito coerente com o espírito do estrutura- 
lismo matemático assim como as demonstrações logísticas, das quais forneceu os 
primeiros exemplos e entreviu o futuro (ver os belos estudos de B. Russell e Cou- 
turat sobre sua lógica), mas considerando, por outro lado, a adequação do conhe- 
cimento lógico-matemático à realidade física, ele encontrou o compromisso na 
hipótese das mônadas, cujo funcionamento é ao mesmo tempo fechado e corres- 
pondente a todos os acontecimentos db universo: daí essa harmonia preestabe- 
lecida ou “paralelismo perfeito”, que explica simultaneamente o conhecimento 
experimental, as ligações da alma e do corpo e os resíduos intuitivos que se encon- 
tram até nas idéias mais abstratas. 


230 PIAGET 


5.º) Enquanto a construção de novas estruturas lógico-matemáticas orien- 
tava Descartes e Leibniz para a descoberta do sujeito epistêmico, as considera- 
ções psicológicas davam origem na Grã-Bretanha à constituição de uma quarta 
variedade de interpretação epistemológica, com o empirismo de Locke e depois o 
de Hume. A posição própria ao inatismo e à hipótese de uma harmonia preestabe- 
lecida é, com efeito, instável: ou bem o sujeito em geral não é senão o reflexo ou 
a sede de estruturas existentes independentemente dele e não há sujeito epistêmico 
como nas variedades I e II, ou bem existe um sujeito epistêmico e ele desempenha 
um papel ativo no conhecimento, sob a forma de uma estruturação que ele impõe 
a priori a toda experiência, ou sob a forma de uma construção progressiva que 
conservou as características de necessidade interna próprias ao a priori, mas sob 
uma forma dinâmica e não mais estática. Ater-se às inatas consiste em limitar 
essa construção, seja a priori, seja dialética, em proveito de uma espécie de prefor- 
mação ou de predeterminação que fica a meio caminho entre o realismo inicial e 
conquistas ulteriores. 

Foi por isso que o empirismo pôs em dúvida a hipótese do inatismo, mas em 
nome de argumentos novíssimos e cujo desenvolvimento ulterior da história mos- 
trou que estavam no ponto de partida de uma ciência independente: a psicologia 
fundada na observação metódica e na experiência. Locke quer partir dos fatos e 
não mais resolver as questões por dedução metafísica, e Hume põe em subtítulo 
do seu tratado Essai pour Introduire le Raisonnement Expérimental dans les Su- 
jets Moraux. Enquanto Descartes e Leibniz admitiam o inatismo das principais 
idéias por razões dedutivas, apoiando-se essencialmente na sua universalidade e 
necessidade, os empiristas tiveram o grande mérito de procurar uma verificação 
nos fatos, colocando o problema de uma maneira que Aristóteles havia entrevisto, 
mas que era nova em sua generalidade e em sua ausência de toda pressuposição: 
na realidade, como se formam as idéias, isto é, tais como aparecem à observação 
e à experiência? E, bem entendido, não observaram senão uma formação progres- 
siva e em parte variável, sem indícios suficientes dessa preformação implicada 
pelo inatismo. Além do mais, procedendo eles próprios por um método empírico, 
não perceberam nos fatores constitutivos da gênese das idéias senão o papel da 
experiência com, ainda mais, um fator organizador designado por Locke sob o 
termo global “operações da nossa alma”, conhecidas por reflexão e reduzido por 
Hume à associação das idéias. 

Mas, se o empirismo abria assim caminho para toda uma corrente de pesqui- 
sas fundamentais e indefinidamente fecundas, ele próprio procedeu de maneira um 
tanto rápida e contentando-se com um minimum de encargos. Na verdade, o gêne- 
ro de observações e de experiências que ele se atribuía não se iniciou de maneira 
metódica senão no decorrer do século XIX, e está ainda, com relação à maior 
parte das grandes questões, na fase das primeiras aproximações. Os próprios 
empiristas contentaram-se em proceder more philosophico, se se pode dizer assim, 
isto é, refletindo muito e invocando os fatos a título de exemplos e de justifica- 
ções: em tais casos, os fatos naturalmente confirmam sempre as hipóteses. Não é 
pois à filosofia empirista que é preciso referir-se para julgar o valor dos métodos 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 2: 


tao 
uma 


experimentais na determinação dos mecanismos das funções cognitivas, como o 
fazem tantos autores de maneira irrefletida e às vezes mesmo deliberada, pois há 
dois aspectos bem diferentes para serem distinguidos no movimento empirista: de 
um lado, aspiração de uma submissão metodológica aos fatos de experiência, mas 
que não era senão uma aspiração piedosa um século ou dois antes de constituir-se 
uma disciplina experimental organizada coletivamente; de outro, uma interpre- 
tação sistemática da significação e da importância da experiência e ainda sob dois 
pontos de vista eles próprios muito distintos: a significação da experiência, tal 
como a pratica o observador (ou o psicólogo), e da experiência, tal como a conhe- 
ce e organiza o sujeito que constrói seus conhecimentos. Ora, a característica do 
empirismo clássico é ter fornecido toda uma interpretação filosófica do que é a 
experiência, sob este duplo ponto de vista e do seu papel na formação dos conhe- 
cimentos, mas um ou dois séculos (e é contar pouco) antes dos primeiros balbu- 
cios de uma ciência experimental autêntica da percepção e da inteligência. Se mui- 
tos psicólogos contemporâneos continuam a aderir à filosofia empirista, é de fato 
sobretudo por causa das tradições ideológicas angla-saxás, como os psicólogos da 
URSS são dialéticos, etc., e um grande número de exemplos mostra que se pode 
ser psicólogo estritamente experimentalista e interpretar a formação dos conheci- 
mentos de maneira antiempirica ou independente da filosofia empírica, pois a 
experiência do observador pode ensinar lhe (e ensinou-me constantemente) que os 
conhecimentos construídos pelo sujeito não são devidos unicamente à experiência 
e que a experiência em geral comporta sempre uma estruturação cuja amplidão e 
importância a filosofia empírica não viu. 

Em uma palavra. enquanto Descartes e Leibniz elaboravam uma epistemo- 
logia mais ou menos dedutivamente, mas apoiando-se em ciências já existentes, o 
empirismo construíia a sua ainda mais ou menos dedutivamente, mas recorrendo 
a uma ciência da qual apenas entrevia a importância e que de fato não estava, em 
absoluto, constituída. Disso resultou então um certo número de lacunas que talvez 
importe relembrar rapidamente em vista da finalidade desta obra e da tendência 
que muitos leitores terão em classificar seu autor entre os empiristas ou 
positivistas. 

Em primeiro lugar, a argumentação de Locke e Hume contra as idéias inatas 
não é inteiramente convincente, pois acontece que estruturas hereditárias podem 
manifestar-se desde o nascimento, mas por maturação progressiva (reconhece-se 
isto então por ocasião de sua data fixa de aparecimento), e que tais estruturas 
podem desempenhar um papel na formação das noções e das operações, não as 
contendo antecipadamente, mas abrindo possibilidades até então fechadas (possi- 
bilidades que se atualizarão pelo exercício, ctc.). 

Em segundo lugar, o empirismo clássico subestimou o papel da lógica que o 
“empirismo lógico” contemporâneo restabeleceu em parte, mas querendo reduzi- 
lo ao de uma linguagem, enquanto que a lógica procede das coordenações gerais 
das ações do sujeito, o que restabelece o papel do sujeito epistêmico e diminui 
assim, na mesma proporção, a importância da experiência no sentido usual (expe- 
riência física ou introspectiva). 


Pu PIAGET 


Em terceiro lugar, uma análise um pouco precisa da leitura da experiência e 
dos mecanismos de aprendizagem em função da experiência nos ensina ! ? que essa 
leitura é sempre função de um quadro lógico-matemático que desempenha um 
papel de estruturação e não de simples formulação, que toda aprendizagem supõe 
também uma lógica e que, principalmente, a aprendizagem das estruturas lógicas, 
ela própria, repousa sobre estruturas lógicas ou pré-lógicas prévias, isso numa 
regressão sem fim. Numa palavra, o estudo experimental da experiência contradiz 
as interpretações da experiência propostas pela filosofia empirista e o fato é 
fundamental se se deseja julgar objetivamente, ao mesmo tempo, serviços que os 
empiristas prestaram orientando sua filosofia para a experiência e as insufi- 
ciências dessa filosofia. 

Enfim, em quarto lugar, quando os empiristas propuseram-se a retraçar a 
formação das noções e inaugurar assim as pesquisas genéticas, contentaram-se 
com gêneses muito esquematizadas reconstituídas ideal ou reflexivamente e esque- 
ceram que os únicos métodos válidos a esse respeito são os que a análise históri- 
co-crítica, a sociogênese ou a psicogênese utilizam de maneira sistemática, e che- 
gam a estudos comparativos dos períodos da história, dos meios sociais variados 
e das idades do desenvolvimento mental da criança ao adulto. 

6.º) Se o empirismo de Hume, compreendendo a sua interpretação associa- 
cionista da causalidade, foi bastante pertinente para afastar Kant do racionalismo 
leibniziano ou wolffiano, ele não podia pois ser suficiente para satisfazê-lo, porque 
dissolvia o sujeito epistêmico em proveito de um conhecimento reduzido ao esta- 
do de cópia da realidade. Com efeito, o acontecimento científico central, do qual 
o kantismo se esforçou para fornecer a interpretação de conjunto, nada tinha de 
uma simples cópia: o grandioso sucesso da doutrina newtoniana da gravitação e 
sua extensão a domínios de escalas variadas constituíam o retumbante testemu- 
nho de um reencontro, até nos detalhes, entre a dedução lógico-matemática e a 
experiência. Tratava-se, pois, de uma dupla prova, de um lado, que o sujeito epis- 
têmico existe e que suas construções constituem o próprio estofo do entendimento 
e, doutro, que a experiência é estruturada e mesmo indefinidamente estruturável e 
não consiste nessa simples coleção aditiva de fatos, registrados como tais, com os 
quais o empirismo se contentava nas suas interpretações. Tratava-se pois de ela- 
borar uma noção do sujeito epistêmico, preenchendo a dupla função de ser capaz 
de construção indefinida e de estruturar qualquer experiência. 

Kant criou assim uma quinta variedade de interpretação epistemológica: a 
da construção a priori. Mas por que a priori? É preciso antes de mais nada lem- 
brar que a alternativa, antes do kantismo, era a de um preformismo ainda muito 
estático, com a hipótese das idéias inatas e de um começo de construtivismo ainda 
muito hesitante e incompleto, com a hipótese de uma aquisição em função da 
experiência. A sintese mais natural consistia pois em reter a noção de construção, 
pelo menos sob a forma de juízos sintéticos, e a idéia de inatismo, pelo menos sob 
a forma de uma anterioridade em relação à experiência: daí a grande idéia dos juí- 


'? Veros Volumes V a X dos Études d'Epistémologie Génétique. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 233 


zOs sintéticos a priori e a idéia derivada de que, mesmo no caso dos juízos sinté- 
ticos a posteriori, a inteligência não se limita a receber marcas como uma tábua 
rasa, mas estrutura o real por meio de formas a priori da sensibilidade e do enten- 
dimento. É preciso em seguida lembrar que os criadores de novas noções dão-lhes 
muitas vezes para começar uma acepção exageradamente rica, das quais os conti- 
nuadores podem depois dissociar os elementos: conceberam-se, por exemplo, as 
operações algébricas como necessariamente comutativas antes de se construírem 
álgebras desprovidas dessa propriedade, etc. Para se poder avaliar a união da 
dedução matemática e da experiência, na linha da harmonia preestabelecida pró- 
pria à variedade epistemológica IV, mas sem seu caráter um tanto chocante de 
contingência estática, Kant elaborou pois uma riquíssima noção, compreen- 
dendo, como é de direito, a universalidade e a necessidade (a segunda esquecida 
ou considerada como ilusória pelo empirismo), mas também a anterioridade em 
relação à experiência: anterioridade lógica, enquanto condição necessária, mas 
também anterioridade em parte cronológica (o a priori pode não se manifestar 
senão no momento da experiência e não antes, mas em todo caso não depois) 
e sobretudo anterioridade de nível à medida que o sujeito que se entrega à expe- 
riência possui já uma estrutura subjacente que determina suas atividades. Ora, 
pode-se sentir muito próximo do espírito do kantismo (e eu o creio estar, como 
grande número de partidários do método dialético) e considerar o a priori como 
dissociável das noções de anterioridade cronológica ou de nível: a necessidade 
própria à sintese torna-se então um terminus ad quem e cessa de ser o terminus 
a quo que ainda fica muitíssimo próximo da harmonia preestabelecida. Mais pre- 
cisamente, a construção própria ao sujeito epistêmico, por mais rica que seja 
na perspectiva kantiana, ainda é muito pobre, já que é inteiramente dada ao ini- 
cio, enquanto um construtivismo dialético, como a história das ciências ou os 
fatos experimentais reunidos pelos estudos sobre o desenvolvimento mental pare- 
cem mostrar sua realidade viva, permite atribuir ao sujeito epistêmico uma cons- 
trutividade muito mais fecunda, se bem que chegando nos mesmos caracteres 
de necessidade racional e de estruturação da experiência que aqueles para os quais 
Kant pedia garantia à sua noção de a priori. 

7.º) Os grandes sistemas cujas relações com as ciências acabamos de lembrar 
foram construídos por seus autores no momento de uma ciência, seja já consti- 
tuída (antes ou por eles), seja entrevista por eles antes de sua constituição (a biolo- 
gia por Aristóteles, que tinha, além disso, fundado a lógica e a psicologia pelo 
empirismo clássico). A esta última situação pertence a dialética de Hegel (sexta 
variedade epistemológica), nascida sob a influência do espírito histórico e socioló- 
gico, que marca sua novidade em relação ao emprego essencialmente conceitual 
que Kant já fizera da dialética. Não se pode fazer de Hegel o fundador da sociolo- 
gia, assim como os empiristas não o são da psicologia, mas parece claro que a 
preocupação de um conhecimento sociológico desempenhou nele o mesmo papel 
que a preocupação de um conhecimento psicológico nos empiristas e se sua dialé- 
tica permanecia solidária com o idealismo pós-kantiano, sua noção fundamental 
de um universo concreto desempenhou o papel que se sabe na constituição da dia- 


an SR GE E OSS e so 


234 PIAGET 


lética marxista. Por outro lado, se o sistema de Hegel não fazia exceção à regra, 
segundo a qual as maiores doutrinas da história da filosofia são todas nascidas de 
uma reflexão sobre a possibilidade de uma ciência já constituida ou simplesmente 
antecipada, a necessidade de especulação, reforçada e não estancada pela crítica 
kantiana da razão pura teórica, e encontrando seu alimento na interpretação idea- 
lista do eu transcendental, não foi estranha a Hegel: abrindo caminho ao universal 
concreto no domínio do espírito, ele forneceu no da natureza um dos belos exem- 
plos de reflexão especulativa com tendência paracientífica, isto é, perseguindo o 
ideal de um conhecimento propriamente dito que duplicaria a ciência no seu pró- 
prio terreno: a Naturphilosophie permanece assin um exemplo que faz pensar, 
pois uma coisa é prender-se a pontos de vista reflexivos no caso de uma ciência 
ainda não constituida, como é o caso dos empiristas em relação à psicologia e 
outra bem diferente é duplicar uma ciência já constituída, o que suscita o pro- 
blema da dualidade dos conhecimentos possíveis sobre um mesmo objeto e o da 
legitimidade de asserções qualificadas de conhecimento por alguns e não reconhe- 
cidas por outros. Reencontraremos pois esse problema no caso da psicologia filo- 
sófica contemporânea. isto é, não daquela que preparava a psicologia científica, 
mas daquela que pretende duplicá-la ou mesmo substituí-la. 

8.º) Não c este o momento de tratar de Bergson e de Husserl, dos quais fala- 
remos nos capítulos IV e III, pois a epistemologia do primeiro não teve segiiência 
e a do segundo tornou-se solidária de um sistema de conjunto que apresenta bem 
diretamente o problema do duplo conhecimento (espaço-temporal ou “mundano” 
e “eidético”), o que exigirá um exame mais detalhado no capítulo III. Notemos 
somente, no momento, que essa epistemologia, muito interessante por si mesma 
porque retorna a uma situação intermediária entre nossas variedades I e II, mas 
com a adjunção de um eu transcendental, nasceu, como todas as outras, dos pro- 
gressos de uma ciência particular. Husserl tinha estreado na sua Philosophie der 
Arithmetik com um recurso à psicologia sob a forma de um apelo a um certo nú- 
mero de operações fundamentais do espirito (entre as quais a da coligação). Mas, 
em seguida à crítica dos lógicos c sob a influência de Frege, ele impregnou-se da 
obra desse lógico e descobriu assim a necessidade de uma liberação do espaço- 
temporal: daí a famosa “redução” fenomenológica, a “colocação entre parênte- 
ses” e todo o antipsicologismo que tinha se tornado corrente no domínio da ló- 
gica. 

D) — Essas poucas notações esquemáticas (e peço desculpas, vivamente, por 
esse esquematismo um tanto desenvolto, mas talvez ele seja suficiente no momen- 
to) mostram a existência de duas grandes dominantes na história da filosofia, uma 
relativamente constante e a outra variável. A dominante constante é o conjunto 
dos problemas que gravitam em torno da significação da vida humana em relação 
à totalidade do real: é o que designamos pelo termo “problemas da coordenação 
dos valores”. Se se pode falar a seu respeito de constância relativa, não é certa- 
mente porque todas as metafísicas tenham adotado as mesmas soluções sobre 
esses problemas, já que, pelo contrário. são aqueles sobre os quais o acordo dos 
espíritos é impossível por causa da irredutibilidade das avaliações, separando as 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 235 


diversas tendências, tais como o espiritualismo e o materialismo, por exemplo. 
Mas há constância relativa no sentido em que as grandes posições metafísicas são 
relativamente pouco numerosas e continuaram as mesmas no curso de toda a his- 
tória sem que se veja, apesar dos esforços de conciliação de Leibniz ou os ecletis- 
mos de todos os níveis intelectuais, o que poderia aproximá-las. 

A dominante variável, a única em foco nas observações precedentes (C), é o 
problema do saber, pois, para situar a vida humana e as próprias questões teoló- 
gicas na totalidade do real, é preciso uma tomada de posição cognitiva e não 
somente praxeológica: daí uma tendência inicial à sintese do saber que se centra- 
lizou depressa no que se tornou a questão essencial, a da própria natureza e do 
alcance do conhecimento. É, no que concerne a essa dominante epistemológica, 
que se pode falar de variações no sentido de inúmeros progressos, ainda que mar- 
cados pelas sinuosidades e pelas voltas mais diversas. Ora, esses progressos, cuja 
linha geral aparece como uma passagem do realismo ao construtivismo, foram 
solidários com a história das ciências, quer tenham sido devidos a uma reflexão 
sobre uma ciência constituída e aceita como tal ou à descoberta de lacunas e à 
antecipação de ciências a constituir-se ainda (como a biologia para Aristóteles, 
contrariamente à lógica que ele havia fundado, a psicologia para o empirismo e a 
sociologia para a dialética). Para os maiores criadores da filosofia na sua história, 
não havia pois oposição entre as ciências e filosofia, ou porque eles tenham sido 
igualmente criadores no domínio das próprias ciências (e se entreviu em B as múl- 
tiplas transições que podem existir num mesmo autor entre o filósofo e o sábio: 
daí as situações próprias à C5 e 7), ou porque tenham aceitado uma ciência como 
constituída. 

É pois um fenômeno de data relativamente recente e do qual precisaremos 
pesar os fatores históricos, a elaboração de sistemas visando a um conhecimento 
filosófico sui generis e distinto, por sua natureza, do conhecimento científico. 
A obra grandiosa de Espinosa, inteiramente centrada na coordenação dos valo- 
res, não tem, em absoluto, essa pretensão, e sua Ética procede more geometrico 
sem ter que começar por uma oposição entre as Geisteswissenschaften e as ciên- 
cias naturais. Obra dominada por um puro imanentismo, é verdade, mas uma 
posição bem diferente do problema religioso não impediu Hoeffding. em data 
contemporânea, de construir uma profunda filosofia da religião, sem ter que du- 
plicar, no plano cognitivo, seus hábitos científicos pela constituição de um modo 
específico de conhecimento filosófico. Ora, à parte algumas exceções, como 
Hoettding, Cassirer, Brunschvicg, etc., não existe nenhuma filosofia do espírito, 
desde o século XIX, que não tenha procurado firmar suas bases não somente 
em métodos especiais, isso é Óbvio, mas num modo de conhecimento concebido 
como particular à filosofia e estranho ao conhecimento científico. 

Por outro lado. e reciprocamente, não foi senão em data mais ou menos 
recente (e os dois fenômenos estão sem dúvida ligados, mas por interações com- 
plexas e sem causalidade em um sentido único) que um certo número de sábios 
desprovidos de cultura filosófica se pôs por sua vez a fazer metafísica sem o saber 


236 PIAGET 


e, em lugar de meditar nas condições epistemológicas de sua disciplina (ou do sis- 
tema das ciências em geral), acreditou poder tirar diretamente disso um materia- 
lismo dogmático ou outras filosofias. 

Ora, esses diferentes sintomas de uma trágica dissociação dos conhecimentos 
e, sob muitos aspectos, do próprio espirito humano, testemunham com certeza a 
crescente importância, desde o século XIX, de um idêntico fenômeno de conjunto: 
com a diferenciação cada vez mais rápida e desmesurada dos ramos do saber, um 
mesmo autor não pode mais estar a par de tudo; além disso (e desse fato tem-se 
muito menos consciência), não se chega mais a fazer uma idéia suficiente das 
epistemologias especializadas próprias a esses diferentes ramos. Ora, a “teoria do 
conhecimento” não conserva um valor geral e uma seriedade suficiente senão 
quando levam em consideração todas as formas especiais de epistemologia em 
função da diferenciação do próprio saber. O duplo fenômeno das filosofias 
paracientíficas e das metafísicas científicas é também devido (sem prejulgar fato- 
res particulares que serão tratados no capítulo III) a essa causa geral e comum de 
uma dificuldade crescente da matéria epistemológica. Mas esse defeito de infor- 
mação epistemológica suficiente aparece sempre mais claramente nos outros que 
no seu próprio campo. Cada um vê que se Haeckel ou Le Dantec tivessem pensa- 
do sobre epistemologia das matemáticas, seu materialismo teria sido menos ingê- 
nuo, mas vê-se bem menos que se Husserl tivesse tomado suficiente consciência 
das possibilidades da psicologia genética não teria tido necessidade do conheci- 
mento “eidético” para resolver o problema da acessão às estruturas intemporais. 
Além disso, esse forçado curvar-se de cada autor ou de cada escola sobre si mes- 
mos é ainda agravado nos filósofos, pela falta de hábito dos trabalhos interdisci- 
plinares, que começam a expandir-se entre os sábios e que constituem o principal 
remédio contra o isolamento científico e principalmente epistemológico: é quase 
inacreditável que a excelente pequena obra de Daval e Guilbaud sobre Le Raison- 
nement Mathématique, nascida da colaboração de um filósofo e do mais sutil 
dos matemáticos interessado nas ciências humanas, não tenha feito escola, como 
se a reflexão filosófica implicasse a centralização sobre o eu. 

E) — Para quem coloca a salvaguarda do conhecimento acima das etiquetas 
filosóficas ou científicas e que sonha com remédios suscetíveis de atenuar o caos 
atual, favorecendo um maior acordo dos espíritos, duas direções complementares 
parecem impor-se: um retorno às fontes, permitindo reencontrar as tendências que 
estavam para vir a ser antes do trágico divórcio da ciência e da reflexão filosó- 
fica, e uma diferenciação organizada ou orgânica dos problemas tal que sua deli- 
mitação especializada atraia a síntese, em oposição às concepções de conjunto 
globais ou sincréticas que visam à totalidade e chegam de fato a uma multipli- 
cação de escolas que não falam mais a mesma linguagem. Ora, essa delimitação 
dos problemas parece precisamente coincidir com essas tendências perceptíveis 
entre os grandes precursores , em épocas nas quais a filosofia profissional não era 
acessível a não importa quem, mas estava ligada à carreira de pesquisadores 
tendo começado por aprender o que era a solução de problemas particulares. 

Podem-se agrupar os problemas clássicos da filosofia em cinco pontos capi- 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 237 


tais: 1.º A procura do absoluto, ou metafísica; 2.º As disciplinas normativas não 
cognitivas como a moral ou a estética; 3.º A lógica ou teoria das normas formais 
do conhecimento; 4.º A psicologia e a sociologia; 5.º A epistemologia ou teoria 
geral do conhecimento. Procuremos pois saber em que condições poderia ser pos- 
sível, nesses diversos ramos, realizar, não um consensus ou uma opinião comum 
que corre sempre o risco de só sair (da imitação) da autoridade, etc., mas um pro- 
-gresso na cooperação entre pesquisadores inicialmente em desacordo. Isso é ape- 
nas um sinal exterior do conhecimento, pois a análise dos procedimentos utiliza- 
dos para atingir esse progresso no acordo pode conduzir a indícios mais 
intrínsecos, quer se tratem dos métodos de argumentação, tão excelentemente ana- 
lisados por Ch. Perelmann, ou dos métodos de controle ou verificação em comum. 
1.º) A metafísica possui, em comum com a psicologia e a sociologia científi- 
cas, um desagradável privilégio: — uns acreditam nelas e outros absolutamente 
não. Além disso, uma sociedade de metafiísicos poderá realizar um acordo sobre 
alguns princípios extremamente gerais como a existência de uma fronteira entre os 
problemas metafísicos e os outros, ainda que o acordo cesse quanto à localização 
dessa fronteira e seu caráter permanente ou móvel. Mas a analogia pára aí. Quan- 
do dois psicólogos estão em desacordo sobre um problema particular, o que acon- 
tece naturalmente com frequência, eles podem apenas, se fatores característicos 
não intervêm em contra-senso, estar interessados por um desacordo honesto, já 
que ele conduzirá a ensinar qualquer coisa sobre os fatos ou suas interpretações. 
Quando dois metafísicos estão em desacordo, por mais honestos e benevolentes 
que sejam, esse desacordo é devido, se não há mal-entendido, a questões de con- 
vicção e não de constatação ou lógica. O desacordo pode ser diminuído com uma 
hábil argumentação, fazendo apelo a valores comuns: não pode ser reduzido por 
uma verificação de fato ou uma demonstração em forma, pois, se existissem, 
sobre tal questão dita metafísica, tais controles suscetíveis de convencer cada um, 
falar-se-ia então de verdade, simplesmente, e não mais de metafísica. Descartes 
considerava inatacável a proposição “Penso, logo existo” e meu mestre Reymond 
via no Cogito a verificação de uma hipótese metafísica. Mas verificação de quê? 
Desde que se trate de precisar a significação metafísica de “pensar” e “existir”, as 
verificações se esfumam. Trata-se, por outro lado, de sustentar que todo conheci- 
mento está subordinado à existência de um sujeito: é o momento da grande desco- 
berta do sujeito epistêmico, mas isso é epistemologia e não mais metafísica. 

Eu seria mal recebido se procurasse fazer uma advertência individual aos 
metafísicos, mas suponhamos que, como antigo presidente da União Internacional 
de Psicologia Científica '* ou como membro do Instituto Internacional de Filoso- 
fia (ao qual pertenço com orgulho), me peçam, como a outros, um projeto de cola- 
boração entre metafísicos de todas as escolas e escolhidos tendo em vista uma 
representação a mais completa e dispersa possível. Apresentaria então o seguinte 
programa: 


'8 Porque ela faz da colaboração um hábito e promove atualmente projetos de psicologia comparativa em 
diferentes países e meios culturais. 


238 PIAGET 


a) que cada um enuncie de maneira a mais explícita possível (como uma lista 
de hipóteses ou axiomas) três a dez teses que lhe pareçam as mais centrais de sua 
metafísica; 

b) que para cada uma ele indique, do ponto de vista da sua honestidade pes- 
soal, se ela lhe parece demonstrável, fornecida intuitivamente ou devida a convic- 
ções íntimas, ultrapassando o domínio do conhecimento; 

c) no caso de se tratarem de tais convicções, indicar sua natureza moral, 
social, religiosa, etc.; 

d) no caso de intuição, precisar seu nível: imediato, transcendental, etc.; 

e) se uma tese surge como demonstrável, indicar o esboço dessa demonstra- 
ção e distinguir explicitamente: 1) os apelos aos fatos; 2) os recursos a normas 
racionais indicando sua natureza; 3) o procedimento de dedução lógica; 

f) fazer em seguida circular esses documentos e que cada um indique, resumi- 
damente, para cada um dos pontos precedentes das teses dos outros, seu acordo 
ou desacordo motivado e graduado segundo uma escala qualitativa de muitos ter- 
mos: válido, mais ou menos provável (ou plausível), indecidível e inaceitável. 

Esses documentos conduziriam, é lógico, não a um julgamento de valor 
sobre as próprias teses, mas a indicações úteis sobre o estado de fato das conver- 
gências e das divergências e principalmente aos graus de verdade vinculados pela 
consciência dos sujeitos aos julgamentos metafísicos, próprios ou de outros. Uma 
tal comparação poderia ser então o ponto de partida de estudos comparativos 
mais vastos que conduziriam, de um lado, a estender mais as pesquisas de Ch. 
Perelmann a respeito da argumentação (tratar-se-ia especialmente da argumenta- 
ção metafísica) e, de outro, a uma análise epistemológica. Esta conduziria sem dú- 
vida a distinguir os graus de conhecimento (como um grande número de lógicas 
introduz entre o verdadeiro e o falso uma série de valores de probabilidade e de 
decidibilidade) e em particular graus em função de valores não cognitivos (morais, 
etc.), mas tidos como assegurados ou prováveis, etc. Tornar-se-ia então possível, 
sem ir de encontro às convicções de ninguém, distinguir ao lado do conhecimento 
estrito, o que se poderia chamar uma “sabedoria”, sophia, isto é, um conjunto de 
conhecimentos plausíveis agrupados em função de uma coordenação geral de 
valores. 

De resto, é claro que uma tal análise epistemológica e comparativa poderia 
aproveitar os estudos sociológicos como os de L. Goldmann sobre Kant ou o 
Jansenismo, mostrando as ligações entre uma filosofia ou uma teologia e as estru- 
turas sociais que elas em parte refletem. Desse ponto de vista, o modo de pensa- 
mento que caracteriza uma sabedoria aparece próximo de um pensamento simbó- 
lico, mas cujos elementos míticos e figurados cedem o lugar a conceitos que, 
mesmo abstratos em diversos graus, estão carregados de valores individuais ou 
sociais não contidos na sua definição cognitiva. 

2.º) A moral é um ramo da filosofia cuja situação se instala, segundo os auto- 
res, entre uma clara subordinação em relação à metafísica e uma posição autô- 
noma baseada no estudo da “experiência moral” no sentido de Frédéric Rauh. 
Essa última posição é extremamente fecunda e apresenta a vantagem para quem 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 239 


acredita que o acordo progressivo dos espíritos é o único corretivo podendo servir 
de controle às invenções do gênio individual, de fornecer um instrumento de aná- 
lise a todas as morais, inclusive metafísicas, enquanto a recíproca não é 
verdadeira. 

Mas a grande diferença entre os dois pontos de vista é que o método de Rauh 
volta a estudar a moral do sujeito: normas solidárias com um sistema autônomo, 
ou uma revelação. etc. A situação parece pois comparável à da lógica, onde se 
pode também distinguir (e onde é mesmo preciso fazê-lo com cuidado) a lógica do 
sujeito ce a do lógico. ou lógica simplesmente. Só que, no caso da logica. as nor- 
mas do sujeito são inconsistentes e a “lógica natural” muito pobre. Quanto a 
saber se a lógica dos lógicos foi tirada, no seu início, das operações mentais do 
sujeito, dando lugar ao mesmo tempo, graças ao método axiomático, a um desen- 
volvimento construtivo, abundante e autônomo, essa questão compete à psicolo- 
gia e à epistemologia, não interessa à lógica. Pois esta, uma vez constituída de 
maneira axiomática, torna-se radicalmente independente dos fatos mentais (salvo 
para explicar suas fronteiras, como os “limites da formalização”). No caso da 
moral, pelo contrário, a moral do sujeito constitui o critério supremo e as grandes 
morais históricas nasceram da “experiência moral” de personalidades excepcio- 
nais como Cristo ou Buda. 

Deve-se então concluir que a obra de todo moralista procurando prescrever 
é vã, a não ser como comunicação ou propaganda da sua experiência moral pes- 
soal? E que se a inferioridade, em relação ao lógico que demonstra (e que pres- 
creve apenas porque demonstra, sem divertir-se dando conselhos), é definitiva e 
irremediável? Absolutamente, pois esse domínio sem dúvida tão vasto de pesqui- 
sas quase não foi ainda explorado. A “experiência moral” de Rauh fornece um 
quadro das normas do sujeito e de normas variáveis, pois existe um grande núme- 
ro de morais individuais e coletivas. Nada impede de formalizar essas normas, em 
termos de uma lógica dos valores, como se pode formalizar tal ou tal estrutura do 
pensamento natural para comparar os resultados com as estruturas da lógica 
(dos lógicos). Ora, no caso da moral onde a realidade mais interessante é a moral 
dos sujeitos e não a do moralista, a comparação entre as diversas morais formali- 
zadas dos sujeitos poderia dar resultados instrutivos sobre os mecanismos comuns 
às diferentes estruturas e as passagens de uma à outra. Além do mais, e isso inte- 
ressa diretamente aos problemas gerais, uma formalização, mesmo elementar, per- 
mite traçar uma fronteira entre o domínio das permutas interindividuais, espontã- 
neas e não normativas, de valores qualitativos (simpatias, consideração, prestígio, 
etc.), e as trocas comportando uma conservação obrigatória dos valores (recivro- 
cidade normativa, etc.), esses últimos correspondendo então ao que se chama 
comumente de relações ou interações morais. !º 

Tais formalizações tratariam, naturalmente, de problemas de estrutura e se- 
riam postas em relação com os problemas da decisão, tão fundamental na moral 


'º Foi o que tentei mostrar em um Essai sur la Théorie des Valeurs Qualitatives en Sociologie Statique, 
reproduzido nos Études Sociologiques, Genebra (Droz), 1965. 


240 PIAGET 


do sujeito. Ora, o eminente professor de filosofia moral da Universidade de Cam- 
bridge, Braitwaithe, deu-nos a esse respeito uma pequena obra extremamente su- 
gestiva: La Morale et la Théorie des Jeux. Sabe-se com efeito que essa teoria 
matemática, devida ao economista Morgenstern e ao matemático Von Neumann, 
é também chamada teoria da decisão e fornece modelos ao mesmo tempo muito 
concretos e muito gerais de escolha e de decisões, dos quais o filósofo inglês 
mostrou as relações com os problemas morais. 

2.º (bis) A filosofia moral tem numerosas ligações com a do direito. De 
um modo geral, podem-se distinguir nas permutas de valores entre os seres huma- 
nos, quatro grandes categorias. Há antes de tudo, as permutas espontâneas e 
não normativas, que comportam duas categorias: a dos valores qualitativos so- 
ciais que acabamos de citar e a dos valores quantificados, que caracterizam as 
permutas econômicas. Quanto às permutas normativas, também elas comportam 
duas categorias: as morais e as interações jurídicas, sendo que uma das suas 
diferenças é que as segundas são codificadas em todos os níveis, do contrato 
interindividual à codificação estatal. 

Lembremos simplesmente, por preocupação de simetria, que as filosofias 
do direito se instalam, elas também, em níveis variados conduzindo da sujeição 
à metafísica até a autonomia completa. No que se refere às metafísicas do direito, 
das quais algumas são solidárias com uma posição religiosa, é interessante notar 
que a noção de “direito natural” construída inicialmente em reação contra o di- 
reito divino dos reis, etc., tornou-se pelo contrário, hoje em dia, claramente me- 
tafísica, em reação desta vez contra o direito positivo e que. em certos casos, 
ela mereceria antes o nome de direito sobrenatural. Quanto às teorias autônomas 
do direito, encontra-se, como na moral, o perigo de um psicologismo ou de um 
sociologismo que deixaria desvanecer os caracteres normativos. Por outro lado, 
retendo estas na sua importância essencial, como em lógica e em moral, encon- 
tra-se, na admirável construção normativista de H. Kelsen, uma solução que não 
somente obtém um sucesso crescente entre os juristas mas ainda fornece à episte- 
mologia uma excepcional ocasião de formalização possível e de traçar um para- 
lelo com as estruturas morais e lógicas. 

2.º (ter) Cada um sabe que a estética por sua vez enfrenta problemas análo- 
gos e que, ao lado da estética filosófica, constituiu-se uma estética científica que 
tem por alvo analisar as condições objetivas e subjetivas que intervêm nos julga- 
mentos estéticos de diversas ordens. 

3.º) A lógica dá o exemplo notável de um ramo da filosofia tornado quase 
desde o início independente de toda metafísica, desenvolvido sem choques de ma- 
neira autônoma (com crescentes ajudas de ciências estranhas à filosofia, como 
o são as matemáticas) e que, não obstante ou antes por causa desses progressos 
autônomos, prestou, e prestará cada vez mais, serviços a todos os ramos da filo- 
sofia. 

Nascida em um clima tanto metafísico como biológico, com a filosofia de 
Aristóteles, a lógica peripatética só sofreu, no entanto, poucas intromissões me- 
tafísicas, no sentido de que a silogística foi considerada válida desde o início 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 241 


(raríssimo exemplo de um nascimento acelerado). No entanto, a teoria aristotélica 
da substância e de seus atributos exerceu uma influência limitativa nesse pro- 
gresso, aliás rápido, impedindo a tomada de consciência da lógica das relações 
em proveito exclusivo da das classes e dos encaixes silogísticos. 

Em seguida, e apesar de alguns progressos locais (lógica estóica, descoberta 
da disjunção por Buridan, intuições de Leibniz, etc.), a lógica ficou mais ou menos 
estacionária até seu renascimento sob a influência de Hamilton, Jevons, Boole, 
Morgan, etc., isto é, até sua matematização e a descoberta da álgebra de Boole, 
fundamento do cálculo das proposições. A partir desse momento, podia-se bem 
falar, e falou-se muitas vezes, de uma oposição entre a lógica filosófica fiel à tradi- 
ção escolástica e a lógica científica ou matemática, mas isso era apenas uma 
maneira de falar, não escondendo nenhum conflito real como o que opõe hoje a 
psicologia científica à psicologia filosófica. Na verdade, de um lado, os profes- 
sores de filosofia não podiam declarar falsa a nova lógica: simplesmente ignora- 
vam-na, no que eram seguidos pelos manuais com seus clássicos atrasos e não se 
podiam insurgir contra uma autonomia de certo modo forçada. De outro, os lógi- 
cos não declaravam falsa a silogística (a parte um ou dois erros aparentes devidos 
simplesmente a um defeito de clareza) e só lhe podiam censurar sua formalização 
insuficiente e sua insuficiente generalidade. 

No entanto, apesar ou em seguida por causa mesmo dessa autonomia, condi- 
ção indispensável de seus progressos desde o século XIX, a lógica prestou inapre- 
ciáveis serviços à filosofia, tanto fornecendo o exemplo de uma disciplina norma- 
tiva coerente como prestando seu concurso técnico para todas as formalizações. 
Os metafísicos, cuidadosos de normas absolutas, inspiram-se na lógica mas sem 
incomodá-la em nada, já que essas normas não intervêm no trabalho técnico 
da axiomatização. O antipsicologismo de Husserl, etc., inspira-se na lógica, tam- 
bém sem incomodá-la, pois seu método moderno permanece estranho em princi- 
pio a todo recurso aos fatos mentais, etc. 

Enfim, a lógica constitui uma referência indispensável à epistemologia, que 
só nela encontra as precisões necessárias quanto à coerência formal e dedutiva, 
em oposição às questões de fato relativas às atividades do sujeito. 

4.º) A psicologia, ciência de fatos, só conquistou sua autonomia com um 
atraso considerável sobre a lógica, ciência dedutiva, pelas mesmas razões que a fí- 
sica experimental só se desenvolveu com séculos de deslocação no tempo sobre as 
matemáticas. A primeira dessas razões é que se as normas, as antecedentes e 
consequentes de um raciocínio, as implicações, etc., são bastante diretamente 
acessíveis ao espírito que pode analisá-las, manipulando-as, um fato experimental 
supõe, em compensação, uma dissociação dos fatores que não se pode obter dedu- 
tivamente e uma experiência controlada em oposição ao fato bruto, acessível à 
experiência imediata, mas quase sempre enganador. A segunda razão é que um 
fato científico é indissociável de uma interpretação, primeiro por ser uma resposta 
a uma questão prévia e apresentar bem um problema exige grande elaboração, em 
seguida porque sua leitura e colocação em forma implicam uma estruturação, ao 
mesmo tempo solidária com o sistema das hipóteses que conduziu a questão e 


ME SE ED 


242 PIAGET 


revisível mais ou menos profundamente em função das respostas. Contrariamente 
as opiniões do senso comum, é pois muito mais difícil constatar fatos e analisá-los 
do que refletir ou deduzir; por isso as ciências experimentais nasceram bem depois 
das disciplinas dedutivas, as últimas constituindo ao mesmo tempo o quadro e 
a condição necessária das primeiras, mas completamente insuficientes. 

Disso resultou primeiro que a psicologia consistiu durante muito tempo em 
observações e análises esparsas. conduzidas pelos filósofos ao sabor dos seus 
trabalhos, o que constituiu certamente uma das fontes da psicologia cientifica. Ao 
lado de anotações enganadoras e de especulações sobre a alma, encontra-se efeti- 
vamente nos grandes autores um grande número de idéias fecundas que depois 
deu lugar a pesquisas sistemáticas. Mas apesar das observações fundamentais de 
Kant sobre o eu como unidade de apercepção, excluindo todo substancialismo, é 
natural, igualmente, que essa psicologia pré-científica fosse muitas vezes posta a 
serviço de especulações espiritualistas. Resultou daí que, quando a psicologia 
científica se constituiu sob uma forma autônoma, por muito tempo duvidou do es- 
tudo direto das funções superiores e ligou-se primeiro aos problemas de sensação, 
de percepção, de associação, etc., em um contexto psicofisiológico. Essa situação 
provocou um conflito compreensível mas cuja continuação é fonte de crescentes 
absurdos entre autores que viam problemas interessantes mas tratavam-nos super- 
ficialmente sem respeitar as regras de verificação, e os que se curvavam a uma 
disciplina experimental, mas limitando em excesso seu campo. Daí nasceu essa 
idéia, inconcebível noutros domínios, de uma psicologia filosófica, podendo dupli- 
car a psicologia científica, e encontrando naturalmente uma motivação suple- 
mentar na necessidade filosófica bastante legitima de uma coordenação dos valo- 
res (como se uma “antropologia filosófica”, como se diz muitas vezes, pudesse 
contentar-se com conhecimentos limitados). 

Esse problema é importantíssimo para que se possa contentar com alguns 
argumentos: o capítulo IV ser-lhe-á inteiramente consagrado. 

5.º) Resta a teoria do conhecimento, que foi a grande conquista do pensa- 
mento filosófico, de Platão a quase todos os contemporâneos; a questão aqui é 
examinar se essa teoria está destinada, pela natureza dos seus problemas, a per- 
manecer necessariamente ligada à metafísica ou se ela apresenta, em direito ou em 
fato (disjunção não exclusiva), tendência à autonomia, depois da lógica e da psi- 
cologia. 

Por direito, parece evidente que a epistemologia seja soberana, pois, que- 
rendo construir uma metafísica, as questões prévias são: estabelecer se um conhe- 
cimento metafísico é possível e em que condições. Contudo, foi preciso esperar 
Kant para formular essas questões em toda a sua amplidão, e, como muito bem se 
sabe, ele resolveu a primeira pela negativa, no que concerne à razão pura tcórica, 
e substituiu a metafísica dogmática pelo que se pode chamar uma “sabedoria” 
fundada na razão pura prática. Sabedoria tão efêmera, aliás, que os pós-kantia- 
nos nada tiveram de mais premente que transformar o aparelho crítico em um eu 
absoluto, etc. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 243 


De fato, a epistemologia apresentou todos os indícios habituais de uma ten- 
dência à autonomia: delimitação dos problemas, constituição de métodos inter- 
nos de verificação e recursos às outras ciências já constituídas. 

A delimitação dos problemas começou com Descartes, Leibniz e Kant; que- 
rendo este dar sob uma forma estática um quadro exaustivo e definitivo das for- 
mas a priori da sensibilidade e do entendimento, dos esquemas a priori, résultou 
daí uma quantidade de problemas especiais que deu lugar a delimitações cada vez 
mais avançadas. Lembremos, por exemplo, que a solução, aliás muito discutível 
que Kant dava ao problema do número, apoiando-o no tempo e não somente nas 
categorias de quantidade do entendimento, foi retomado por Brouwer, que dele fez 
um instrumento de resistência contra a redução logística de Frege, Whitehead e 
Russell (exemplo aliás de passagem de um problema de epistemologia geral a uma 
epistemologia matemática e logística cada vez mais especializada). Lembremos 
também que a interpretação kantiana do espaço como forma a priori da sensibili- 
dade movimentou duas grandes classes de trabalhos. Uns foram seguidos pelos 
primeiros psicólogos experimentais, que não eram tão ignorantes como se diz dos 
grandes problemas filosóficos: já que se tratava de “sensibilidade”, o controle era 
possível e grandes psicofisiologistas como Miiller e Hering sustentaram explicita- 
mente a tese kantiana, sob o nome de “nativismo”, contra o “empirismo” de 
Helmholtz (o qual fazia aliás intervir inferências inconscientes até na percepção). 
O problema continuou, não obstante, a ser estudado no terreno experimental e o 
construtivismo espacial que parece dominá-lo está mais próximo de um kantismo 
dinamizado que do empirismo puro. Por outro lado, a descoberta das geometrias 
não euclidianas contradisse a letra mas não o espírito do apriorismo kantiano (sa- 
be-se bem que Poincaré, apesar do seu convencionalismo, fazia da noção de 
“grupo” uma estrutura a priori) e originou toda uma epistemologia geométrica 
especializada. 

Essa especialização dos problemas, cada vez mais avançada (que se pense, 
por exemplo, na obra de E. Meyerson, que na sua totalidade é consagrada unica- 
mente à epistemologia), conduziu, naturalmente, a uma precisão crescente dos 
métodos, cuidadosa de substituir peja verificação a simples reflexão. Esse pro- 
gresso foi considerável no terreno da demonstração dedutiva, muito menos, mas 
ainda assim notável, no domínio dos fatos. Nos dois casos o progresso manifes- 
tou-se entre outras por contribuições cada vez mais importantes, vindas das pró- 
prias ciências e não mais somente dos filósofos de profissão. 

No terreno da análise dedutiva, o desenvolvimento autônomo da lógica oca- 
sionou dois grandes grupos de trabalhos que se revelaram fundamentais para a 
epistemologia matemática e cuja tecnicidade crescente fez dessa última um ramo 
das próprias matemáticas, consagrado à teoria dos fundamentos (a tal ponto que 
hoje quase todo congresso internacional de matemática consagra uma sessão 
inteira a esse novo ramo). O primeiro desses conjuntos de trabalhos teve como ob- 
jeto o problema da possível redução das matemáticas à lógica. Essa possibilidade, 
afirmada entre outros e com brilho pelo Principia Mathematica de Whitehead e 
Russell, mas contestada por outros, foi estudada em todos os seus ângulos, 


244 PIAGET 


enquanto os trabalhos de um segundo grupo de autores, entre os quais se desta- 
cam Hilbert, Ackermann e Bernays, procuravam demonstrar a não-contradição 
das partes fundamentais das matemáticas como a aritmética. Essas diversas pes- 
quisas chegaram então lá por 1930 à descoberta, por Goedel, de teoremas que 
marcaram uma reviravolta decisiva na epistemologia matemática e cujo sentido 
geral é a impossibilidade de demonstrar a não-contradição de uma teoria por 
seus próprios meios ou por meios mais fracos. Resulta dai a idéia essencial de 
um construtivismo tal, que, para assegurar a coerência das teorias do início é 
preciso construir acima delas teorias sempre mais fortes, que se apóiem elas pró- 
prias nas seguintes, etc. Vê-se a importância epistemológica de uma tal concep- 
ção que contradiz o platonismo e o reducionismo positivista ao mesmo tempo, 
em proveito de uma construtividade entrevista por muitos filósofos, mas escorada 
no futuro por uma epistemologia interna muito mais rica e mais precisa. 

No domínio dos fatos, desenhou-se na epistemologia de língua francesa um 
movimento essencial, enquanto o empirismo anglo-saxão suscitava outros proble- 
mas. Após os trabalhos de Cournot, tão notáveis e por tão longo tempo ignorados 
no seu justo valor, que tinham como objeto a análise do pensamento científico 
numa perspectiva de certo modo sincrônica, um certo número de autores, como 
G. Milhaud, L. Brunschvicg, P. Boutroux e A. Reymond, compreendeu que a 
significação epistemológica de uma teoria científica só se extrai plenamente quan- 
do situada na sua perspectiva histórica, à medida que responde a questões suscita- 
das pelas doutrinas anteriores e que prepara as seguintes, por um jogo de filiações 
contínuas ou de oposições. Em outras palavras, o pensamento científico estando 
em contínuo devir, o problema do que seja o conhecimento só pode ser resolvido 
sob formas mais delimitadas, tendendo a analisar a maneira como se aumentam 
ou se desenvolvem os conhecimentos no seu contexto de construção real: daí o 
método histórico-crítico, que é um dos métodos de escolha da epistemologia 
científica. 

Mas. além disso, um grande número de autores chegou a apresentar proble- 
mas de fatos nos mais variados domínios. No da epistemologia matemática, F. 
Enriques procurava a explicação de diversas estruturas nas operações do pensa- 
mento e das diversas geometrias nos diferentes teclados perceptivos e H. Poincaré 
fazia ascender o grupo dos deslocamentos à organização senso-motriz. No domí- 
nio físico, enquanto os físicos debatiam seus próprios problemas epistemológicos, 
na questão das relações entre o observador, a realidade e o observável, os conti- 
nuadores do empirismo clássico, ou “empiristas lógicos”, elaboravam uma teoria 
do juízo sintético baseada na constatação perceptiva, em oposição aos juízos 
analíticos baseados na linguagem lógico-matemática, etc. 

Impós-se pois a idéia de estudar o problema do desenvolvimento e do acrés- 
cimo dos conhecimentos ascendendo até sua formação psicogenética, e isso por 
duas razões. De um lado aí está um prolongamento natural do método histórico- 
crítico, já que, quando se chega, por exemplo com P. Boutroux, a retraçar a histó- 
ria das matemáticas, mostrando como os espíritos passaram do período “contem- 
plativo” dos gregos a um “sintetista”” de combinação operatória, depois a um no 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 245 


qual se descobre a “objetividade intrinseca” dessas estruturas operatórias, O pri- 
meiro problema a formular é estabelecer se essas estruturas apresentam algumas 
raízes naturais € correspondem a estruturas gerais da inteligência ou se elas sur- 
gem de construções puramente técnicas: ora, um tal problema só pode ser tratado 
no terreno psicogenético, a introspecção adulta permanecendo muda a esse respei- 
to. De outro lado, desde o tempo em que os empiristas ou seus descendentes invo- 
cam, com ou sem razão, mecanismos psicológicos para explicar certos aspectos 
pelo menos do conhecimento, a experiência perceptiva para o conhecimento físi- 
co, a linguagem para as estruturas lógico-matemáticas, etc., chegou o momento de 
verificar o que valem essas afirmações no próprio terreno em que se colocam seus 
autores, e ainda aqui só a psicogênese é esclarecedora. 

Assim nasceu a epistemologia genética, pesquisa essencialmente interdisci- 
plinar que se propõe a estudar a significação dos conhecimentos, das estruturas 
operatórias ou de noções, recorrendo, de uma parte, à sua história e ao seu funcio- 
namento atual em uma ciência determinada (sendo os dados fornecidos por espe- 
cialistas dessa ciência e da sua epistemologia), e de outra, ao seu aspecto lógico 
(recorrendo aos lógicos) e enfim à sua formação psicogenética ou às suas relações 
com as estruturas mentais (esse aspecto dando lugar às pesquisas de psicólogos de 
profissão, interessados também na epistemologia). Assim concebida, a epistemo- 
logia não é mais trabalho de simples reflexão, mas, propondo-se a apoderar-se do 
conhecimento no seu desenvolvimento (a própria formação é um mecanismo de 
desenvolvimento. não comportando jamais um começo absoluto) e supondo que 
esse crescimento sai sempre simultaneamente de questões de fato e de norma, ela 
se esforça para conciliar as únicas técnicas decisivas para dividir tais questões: a 
lógica que ninguém mais discute sob sua forma especializada, a história das idéias 
e a psicologia do seu desenvolvimento, esta última tendo sempre sido invocada 
implícita ou explicitamente, mas quase nunca sob sua forma experimental e espe- 
cializada nas questões de inteligência propriamente dita. 

Essas diversas indicações, se bem que extremamente esquemáticas, são sufi- 
cientes para mostrar que a epistemologia nascida da reflexão filosófica orientou- 
se por si mesma por seus próprios progressos técnicos para uma autonomia em 
relação à metafísica. Essa autonomia foi conquistada sem alarde e sem declara- 
ções coletivas, contrariamente à da psicologia, e é de preferência comparável à 
que marcou a evolução da lógica. Mas a epistemologia científica está muito 
menos avançada nessa direção, porque seus maiores trabalhos foram obra, nessas 
últimas décadas, de sábios ocupados com muitos outros trabalhos sem se dedica- 
rem exclusivamente à análise epistemológica e principalmente porque uma inteira 
especialização em pesquisas epistemológicas supõe, quase necessariamente, a 
colaboração interdisciplinar. 

A conclusão geral que se deve tirar desse pontos, 1.º ao 5.º, é que, excluindo 
a metafísica, todas as pesquisas filosóficas tendo como objeto problemas susceti- 
veis de serem delimitados, tendem a diferenciar-se sob formas que se aproximam 
sempre mais da pesquisa científica, porque a diferença entre as ciências e a filoso- 
fia não é devida à natureza dos problemas, mas à sua delimitação e à tecnicidade 


246 PIAGET 


crescente dos métodos de verificação. Mas esse não é o parecer de um grande 
número e, sem dúvida, mesmo, da grande maioria dos filósofos. Os capítulos 
HI e IV procurarão, pois, examinar as outras posições sobre esses problemas 
centrais de método. 


CAPÍTULO II 


O Falso Ideal de um Conhecimento Supracientífico 


O capítulo precedente evocou épocas nas quais ciências e filosofia não 
conheciam nenhum conflito e lembrou alguns meios, aplicados desde há muito ou 
ainda por aplicar, que permitem restabelecer a harmonia por uma delimitação ou 
uma especialização dos problemas. É tempo de abordar agora a situação muito 
mais grave, fonte de conflitos reais, e que nasceu no curso do século XIX, quando 
certas filosofias chegaram até a idéia de que elas estavam de posse dum modo sui 
generis de conhecimento superior ao da ciência. É a respeito desse “conheci- 
mento” paracientífico, apresentado como supracientífico, que convém tomar 
posição. 

A) Retomando um exemplo no domínio da finalidade (ver capítulo II, A), 
conheço filósofos inteligentíssimos e nada dogmáticos, segundo os quais é vedado 
à “ciência” introduzir o conceito de finalidade na análise e explicação dos proces- 
sos vitais, mas à “Filosofia” igualmente é vedado dar-se uma noção adequada da 
vida orgânica, sem incluir a finalidade. Aqui não se trata, em absoluto, de valores 
morais ou outros, mas sim de uma noção própria à filosofia biológica, em oposi- 
ção à biologia. Um dentre eles não hesitava, aliás, a tirar daí a conclusão, inspi- 
rando-se em Merleau-Ponty, de que “jamais” a ciência forneceria uma explicação 
suficiente do conceito de “estrutura total” do organismo. 

Sem nos referirmos, no momento, à fenomenologia, e permanecendo no terre- 
no do simples senso comum, que significam tais afirmações, hoje relativamente 
difundidas e que teriam horrorizado um cartesiano ou um leibniziano, negando ou 
aceitando a finalidade, mas nos dois domínios, científico e filosófico ao mesmo 
tempo? O problema aqui não é o da finalidade, mas sim, da dualidade dos modos 
de conhecimento a seu respeito. A questão não é que a finalidade recobre obscuri- 
dades: a atração a distância e de velocidade infinita que a gravitação newtoniana 
parecia impor era bem mais obscura ainda, mas parecia constituir, ou bem um 
fato, ou bem uma interpretação mais ou menos inevitável do fato (e não se expli- 
cava bem isso, declarando-a verdadeira filosoficamente e falsa cientificamente, ou 
o inverso). A questão é: como se pode declarar uma noção ao mesmo tempo 
inaceitável e aceitável ou mesmo necessária, e para os mesmos objetos, mas 
segundo que se os encare científica ou filosoficamente? É evidente que se postu- 
lam dois modos de conhecimento, um dos quais é superior ao outro porque atinge 
a essência, enquanto o outro é inferior como simples linguagem ou conhecimento 


248 PIAGET 


incompleto, limitado por certos princípios (positivistas, etc.) ou por certas frontei- 
ras (espaço-temporais, etc.). Bem, mas se existe um conhecimento superior que 
compreende tudo, inclusive o inferior, e um conhecimento inferior fatalmente limi- 
tado, por que não esclarecê-lo? Ora, é bem o que se passa, e há numerosos biolo- 
gistas finalistas e filosofantes. Mas um problema grave apresenta-se então: por 
que isso não os ajuda em nada? 

A gravidade desse problema está, com efeito, em tomar-se a palavra verdade 
em dois sentidos diferentes. Admitir que existem duas espécies de verdade é insu- 
portável ao pensamento, pois a lógica exige sua coordenação. Dizer que para a 
percepção o Sol gira em redor dum setor visível da Terra e que para a razão a 
Terra gira em redor do Sol são duas verdades, se se deseja, mas relativas a escalas 
de fenômenos fáceis de coordenar. Afirmar, por outro lado, que a estrutura do 
organismo só é acessível à intuição filosófica e comporta entre outras a finalidade, 
enquanto o honesto biologista, trabalhando dia após dia no seu laboratório (e com 
métodos que produzem), não compreenderá jamais nada disso, como que limitado 
por uma cegueira heurística e conceptual, impedindo-o de beneficiar-se das mes- 
mas intuições, isso não é mais referir-se a escalas distintas mas coordenáveis, é 
friamente cortar o pensamento humano em dois setores heterogêneos e é abusar 
do grande termo “verdade”, para dar-lhe duas significações incompatíveis. 

O sentido corrente da palavra “verdade” refere-se ao que é verificável por 
cada um. Pouco importa o procedimento de verificação, contanto que seja acessi- 
vel e que dê ao sujeito a garantia de não estar centralizado no seu eu ou na autori- 
dade de um senhor, mas que tudo o que ele adianta é controlável por todos os que 
duvidam. Se a finalidade do organismo era “verdadeira” nesse sentido, mesmo 
que não se possa constatá-la ao microscópio, e que seja necessário, para atingi-la, 
entregar-se a um esforço de dedução e de abstração tão laborioso quanto se quei- 
ra, mas das quais se fornecem as regras, isso seria sem mais nada uma verdade: 
uma verdade científica como existem muitas, compreendidas somente por uma 
elite, mas acessíveis a todos com a condição de fornecer o trabalho desejado. 
Dizer, pelo contrário, que a finalidade impõe-se à “filosofia” é esquecer-se delibe- 
radamente de que existe um grande número de outras filosofias que não são a sua, 
e que nem Descartes, nem Espinosa e nem a dialética moderna se beneficiam das 
mesmas intuições. A condição da “verdade”, no segundo sentido do termo, não é 
mais pois a verificação mediante um cálculo ou uma técnica acessível a todos, 
mas o acesso por meio de persuasão ou de conversação, isto é, a aceitação de um 
sistema. Bem entendido, a álgebra é um sistema, a biologia também, etc.: então 
por que não o bergsonismo ou a fenomenologia? Simplesmente porque alguns 
experimentam certo escrúpulo em acreditar antes de estar certos, ou em chamar 
“verdade” aquilo que ainda comporta uma parte de crenças, mesmo consideradas 
como evidentes, quando se trata de “evidências” que são especiais a outrem ou, 
por analogia, a si mesmo. 

B) Mas essas reações não são, talvez, mais que afetivas, e num mundo onde 
a “existência” subjetiva tornou-se fonte de verdade, poderia ser que sistemas, que 
pelo menos existem, sejam a verdade de amanha. Procuremos, pois, compreender 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 249 


as causas que engendraram a tendência de admitir um modo de conhecimento 
especial à filosofia e superior ao conhecimento científico, depois procuraremos 
pesar as razões invocadas, entre outras, pela fenomenologia, que é de muito o 
mais remarcável dos sistemas fundados sobre uma tal crença. 

1.º O primeiro fator discernível é certamente a procura do absoluto. 
Enquanto não havia conflitos entre ciências e filosofia, a metafísica podia apare- 
cer como uma sintese suprema, englobando todo o saber e sem necessitar de modo 
especial de conhecimento para ultrapassar as disciplinas particulares. A partir da 
revolução decisiva marcada pela crítica kantiana, que recusava à razão teórica o 
direito de transpor os limites da estruturação do real, o heroísmo de uma tal posi- 
ção não foi suficiente para vencer a necessidade do absoluto e os continuadores 
procuraram nas estruturas a priori, não mais um quadro epistemológico das con- 
dições do saber, segundo a ascese kantiana, mas a expressão dum poder próprio 
ao pensamento filosófico, que, determinando os instrumentos prévios necessários 
à ciência, coloca-se acima dela. Com a ajuda da necessidade de absoluto, o resul- 
tado foi uma posição supracientífica, não mais por síntese, e sim por delimitação 
de níveis. 

Inútil lembrar as múltiplas manifestações dessa tendência que consiste, sob 
todas as suas formas, em encerrar o saber científico em certas fronteiras constitu- 
tivas do “fenômeno” e a procurar os fundamentos dum tal modo limitado de 
conhecimento para atingir um modo de nível superior. O que, pelo contrário, 
importa assinalar é que um tal processo, perfeitamente legitimo em si, pode dar 
lugar a tentativas, quer sejam puramente especulativas ou metódicas e controla- 
das. Ora, sob esta última forma, o processo fundamental de diferenciação dos ni- 
veis não é estranho às próprias ciências e é cometer um erro fundamental acredi- 
tar que elas estejam estendidas num plano único. Considerando-se, por exemplo, 
só a física, os “fenômenos” distribuem-se sobre numerosas escalas, não porque 
estejam lá inteiramente organizadas e que, segundo o emprego do microscópio ou 
do telescópio, apareçam diferentes, mas porque, segundo a profunda advertência 
de Ch.-Eugêne Guye, é a escala que cria o fenômeno. Noutros termos, a física 
entrega-se a séries de estruturações das quais cada uma pode ser considerada 
como um conhecimento de nível superior em relação aos precedentes. Por outro 
lado, do estabelecimento das leis para sua explicação causal ou dedutiva, caracte- 
rística da “física teórica”, e de lã a essa dedução pura e autônoma, constituida 
pela “física matemática” (que A. Lichnerovicz mostrou nas suas obras e S. Bache- 
lard numa bela análise histórico-crítica quanto ela diferia da física teórica), há de 
novo mudanças de planos e de níveis, de modo que o “fenômeno” inicial acaba 
sendo integrado em um universo conceptual compreendendo todas as possibili- 
dades e não mais somente o real. Quando enfim uma ciência como as matemá- 
ticas engloba em seu domínio sua própria epistemologia, sob a forma de uma aná- 
lise sistemática e científica de seus fundamentos, é claro que uma mesma 
disciplina multiplica também, no interior, seus próprios níveis de construção e de 
reflexão. 


250 PIAGET 


Querendo encerrar as ciências em certas fronteiras, para facilitar a crença 
na possibilidade de um modo de conhecimento específico e superior, as filosofias 
paracientíficas expõem-se pois ao perigo de ver essas fronteiras deslocarem-se sem 
cessar e exercerem ação no seu terreno com métodos, de outra forma, mais 
sólidos. 

2.º Existe, por outro lado, uma segunda causa geral explicando as tendên- 
cias paracientíficas e que nasce sempre da necessidade de especulação, mas desta 
vez noutro campo. Uma tal necessidade é peculiar, com efeito, à natureza huma- 
na, e a superioridade dos filósofos, quando cedem a ela, é que possuem, por sua 
vez, uma cultura histórica, permitindo-lhes fazer a volta em torno das hipóteses 
antes de encontrar novas. Quando alguns homens de ciência do século XIX e 
especialmente biólogos sem cultura matemática, lógica ou psicológica, quiseram 
prolongar seu saber nascente em uma metafísica, cairam num materialismo dog- 
mático que seduziu ainda mais o público (sem falar dos fatores sociais) porque ele 
parecia derivar sem mais nada da própria ciência. O espantoso é que os filósofos 
tenham sido vitimas da mesma ilusão, de tal sorte que, para reagir contra o mate- 
rialismo, se entregaram à crítica da ciência como tal. 

Uma crítica do conhecimento científico chama-se uma epistemologia e todo 
estudo epistemológico é benvindo, quaisquer que sejam suas intenções. É por isso 
que a famosa tese de E. Boutroux sobre La Contingence des Lois de la Nature 
apresenta um grande interesse como crítica do ideal de dedução absoluta e como 
refutação do reducionismo. Desse ponto de vista, a marcha ulterior das ciências 
deu-lhe plenamente razão. Parece na verdade, cada vez mais, que em todas as 
situações onde se chegou a uma redução do superior ao inferior ou do mais com- 
plexo ao mais simples essa redução tornou-se recíproca, quer dizer, o inferior é 
enriquecido com certos caracteres do superior e o ''mais simples” torna-se cada 
vez mais complexo. Assim é que, reduzindo a gravitação às curvaturas do espaço, 
o que parecia uma redução do físico ao geométrico, Einstein foi levado a unir 
essas curvaturas às massas, de tal modo que a redução é recíproca. O dia em que 
se reduzir o vital ao físico-químico, dizia por sua vez Ch.-Eugêne Guye, a físico- 
química será enriquecida, na mesma proporção, de propriedades não conhecidas 
até o momento (e a biologia molecular contemporânea aproxima-nos da verifica- 
ção dessa dupla antecipação). Mas, por mais profunda que seja a tese de Bou- 
troux, do ponto de vista epistemológico, é por demais visível que sua intenção de 
defender a liberdade moral contra o materialismo dogmático tem como resultado 
uma refutação desse último, mas de maneira alguma confere à filosofia um modo 
específico de conhecimento (como concluiu Bergson, continuador de Boutroux), 
pois sua crítica da ciência consistiu de fato em uma tomada de consciência dos 
próprios processos da dedução construtiva própria à explicação cietífica, proces- 
sos que o materialismo não havia, absolutamente percebido. 

Em compensação, a não menos célebre tese (anterior) de Lachelier sobre Les 
Fondements de VInduction, que Lalande chamava sutilmente “esse pequeno livro 
que se teve muito mais ocasião de admirar que usar”, contém, é certo, sugestivas 
advertências sobre o procedimento indutivo, mas queria torná-lo solidário 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 251 


com uma harmonia de conjunto da natureza, implicando a finalidade. Se se invo- 
ca esse resultado como indício de um conhecimento filosófico ultrapassando o 
conhecimento científico, seria fácil responder que para o sábio a indução supõe, é 
claro, uma hipótese, portanto um plano, uma intenção, etc., mas que a indução é 
tão bem sucedida quanto à natureza dos fatos que procura atingir quando esses 
fatos comportam uma parte tão grande quanto se queira de aleatória como nos 
casos duma estrutura organizada, na biologia por exemplo: o cálculo é bem mais 
acessível no primeiro caso, como o demonstram a termodinâmica e a microfísica. 

Resumindo, a reação da filosofia contra o materialismo dogmático constitui, 
sem dúvida, um dos fatores que explicam psicologicamente a necessidade dum 
modo de conhecimento especifico e supracientífico, mas se essa reação foi coroa- 
da com um sucesso aliás fácil, isso não prova em nada a originalidade dos modos 
de conhecimento empregados, pois eles conduziram ou a teses muito discutíveis, 
como no caso de J. Lachelier, ou a um ajustamento da epistemologia às tendên- 
cias reais da ciência em oposição às metafísicas científicas e à epistemologia 
positivista. 

3.º O terceiro fator a invocar, que converge naturalmente para a resistência 
ao materialismo, mas que é muito mais geral, é o desejo de assegurar à coordena- 
ção dos valores e à fé raciocinada um modo de conhecimento metafísico indepen- 
dente da ciência e superior a ela.?º Como exemplo da ação desse fator geral, 
pode-se citar a psicologia metafísica de Maine de Biran, uma das fontes, ao 
mesmo tempo, da corrente espiritualista que passou de Ravaisson a Lachelier, 
Boutroux e Bergson e ao ecletismo de V. Cousin e Royer-Collard. O principal cui- 
dado de Maine de Biran era refutar o empirismo e principalmente a interpretação 
da causalidade proposta por Hume, encontrando no eu e no esforço voluntário a 
interpretação direta das realidades da substância, da força e da causalidade. No 
capítulo IV voltaremos aos erros de introspecção que conduziram a esses resulta- 
dos e que são um bom exemplo dos possíveis costumes de um apelo exclusivo a 
essa introspecção em oposição aos métodos psicofisiológicos, psicopatológicos e 
genéticos (o que não significa, digamo-lo à primeira tentativa, que esses métodos 
negligenciem o estudo da consciência ou do sujeito como tal, como o crêem ou o 
dizem os partidários da psicologia filosófica, jogando com o equívoco da intros- 
pecção ligada ao eu somente e da tomada de consciência situada no contexto das 
condutas). Notemos, simplesmente, no momento, que entre o ideal de um conheci- 
mento metafísico fundado diretamente na intuição do eu e de seus poderes e o 
ideal dum conhecimento metafísico fundado na crítica da ciência, nada há de 
comum a não ser o sonho dum conhecimento metafísico “superior” à ciência, 
mas, à parte esse desejo comum, as duas posições são contraditórias como bem o 
havia visto o gênio de Kant, na sua crítica da “psicologia racional” (a de Ch. 
Wolff, que partilhava com M. de Biran da mesma inspiração leibniziana). Fazer 
a crítica da ciência consiste, com efeito, em mostrar que toda experiência é uma 
estruturação do real na qual o sujeito epistêmico toma uma parte ativa, de tal 


20 Essa superioridade é em particular sugerida ou reforçada pela distinção da natureza e de realidades 
transcendentes. 


252 PIAGET 


modo que o conhecimento apareça como uma interação entre as operações estru- 
turantes do sujeito e as propriedades do objeto. Posto isso, não há a menor razão, 
senão afetiva, para supor que a “experiência interior” escapa à regra comum, 
visto que na introspecção uma parte do eu contempla a outra e constitui pois um 
sujeito cognoscente em relação ao sujeito a conhecer ou conhecido. Sustentar que 
na introspecção não há divisão e que o sujeito cognoscente ou epistêmico confun- 
de-se com o sujeito conhecido ou individual seria ao mesmo tempo negar a intros- 
pecção (pois quando as duas partes do sujeito se recolam não há mais introspec- 
ção, mas uma atividade qualquer) e negar a universalidade assim como a 
atividade necessária do sujeito epistêmico. Foi por isso que Kant mostrou que o 
“eu” nada tinha de uma substância, duma força ou duma causa, mas devia sua 
identidade a uma “unidade de apercepção” interna. A psicologia metafísica de 
Maine de Biran (ao lado de excelentes notações psicológicas) transforma pois essa 
estruturação noética do eu conhecido pelo eu cognoscente em um eu metafísico 
num plano mais modesto mas de maneira bem comparável àquela da qual foram 
vitimas Fichte, Schelling, Hegel em parte e Schopenhauer quando partiram do a 
priori Kantiano para reconstruir indevidamente as noções metafísicas do eu abso- 
luto, etc. 

4º Um quarto fator, bem visível já entre estes grandes alemães, e que se agra- 
vou depois, foi o romantismo, orientado cada vez mais para O irracionalismo: 
desde que as ciências buscam um ideal de racionalidade e a metafísica se propõe 
a atingir a totalidade do real, deve pois existir, se a metafísica quer permanecer 
superior às ciências, um modo de conhecimento que atinja o próprio irracional. 
Tal é a intuição, no sentido transracional que ela tomou, de Scheling a Bergson. 
E tal é um alimento essencial do existencialismo atual cuja moda substituiu após 
a II Guerra Mundial aquela do bergsonismo após a primeira. Kierkegaard que era 
um homem livre, não apreciava as filosofias e descobriu, com razão, que sua pró- 
pria existência era sem preço e não entrava nos quadros de um sistema: prega- 
ram-lhe então com algum atraso. é verdade. a mesma peça que a Kant e fizeram 
disso a partida de novos sistemas! 

Mas a existência é uma coisa e o conhecimento da existência é outra. Se o 
filósofo não quer se confundir com um romancista, cujo gênio consiste em pintar 
o real através da sua visão do mundo, sem procurar conhecê-lo independen- 
temente dela (mesmo que pertença a uma escola realista ou naturalista, o que é 
uma forma particular de visão pessoal), é preciso então que ele se dê uma episte- 
mologia do conhecimento da existência, e é o que fará decretando que essa visão 
do mundo é um conhecimento como um outro, com a condição de pensar no mini- 
mum e de atingir o que for “oferecido” na experiência vivida imediata, antes de 
qualquer reflexão, como se houvesse uma intuição primordial, fonte de (ou de 
todo) conhecimento. Voltaremos, no capítulo IV, sobre a ilusão psicológica 
fundamental que consiste em procurar um começo absoluto do conhecimento em 
uma tomada de consciência elementar, quando todo conhecimento é ligado à ação 
e é pois condicionado por esquemas anteriores de atividade; e abordaremos mais 
adiante o exame crítico da epistemologia de Husserl. Contentemo-nos pois, no 


Da a e e 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 253 


momento, em notar que se essa intuição do vivido é dada como um modo filosó- 
fico de conhecimento superior ao saber científico, porque, como o disse Merleau- 
Ponty “todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido”, a ambição 
metafísica torna-se bem modesta e se afasta cada vez mais, com um tal irraciona- 
lismo (falamos de Merleau-Ponty, pois Husserl ultrapassa muito largamente esse 
ponto de vista saído dele), da possibilidade de fundar a ciência e consequên- 
temente de dominá-la: com efeito, se realmente o universo da ciência é “cons- 
truído” sobre o mundo vivido, não o é à maneira de um edifício construído sobre 
suas fundações, pois é próprio do pensamento científico distanciar-se sempre mais 
desse mundo vivido, contradizendo-o em lugar de utilizá-lo. Por outro lado, o ver- 
dadeiro ponto de partida do universo da ciência está em procurar no mundo das 
ações e não no da percepção desligada do seu contexto motor. e prático, pois a 
operação do pensamento prolonga a ação, corrigindo-a simplesmente em lugar de 
contradizê-la. 

5.º Um último fator essencial da crença em um conhecimento filosófico dum 
tipo distinto e por consequência superior ao do conhecimento científico é mais 
prosaico, pois é de ordem sociológica, mas o papel que aí desempenha não é 
menos importante, não entre os criadores, mas na opinião pública filosófica. 
Desde que a filosofia corresponde a uma profissão difundida, considerada e acan- 
tonada em uma Faculdade cada vez mais estranha, pela força das coisas, à das 
Ciências, é lógico que a iniciação direta a essa disciplina, sem nenhuma prepara- 
ção científica prévia, salvo no nível do segundo ciclo, conduz a hábitos de pensa- 
mento que favorecem a convicção de uma independência radical do conhecimento 
filosófico. Com a ausência de toda resistência excluindo todo controle, e a filoso- 
fia das ciências aparecendo como uma simples especialização entre todas as ou- 
tras possíveis, é preciso uma coragem filosófica excepcional para chegar a preci- 
sar, em relação ao saber positivo, as condições epistemológicas prévias duma 
reflexão filosófica; e, pelo contrário, é muito fácil dar-se a ilusão de pontos de par- 
tida absolutos próprios à especulação. 

No total, essas diversas razões convergem no sentido de ocasionar uma cren- 
ça comum em um dualismo fundamental do conhecimento: de um lado, o saber 
“positivo”, ao qual se trata agora de fixar fronteiras, e veremos (desde o ponto C) 
as variações de métodos quanto a essa fixação de fronteiras: de outro, um saber 
de essência superior, seja que se o ofereça como fundamento ao conhecimento 
científico, ou que ele conduza a outros domínios onde a ciência é incompetente. O 
problema que se trata pois de examinar agora, tomando como objeto de discussão 
a intuição bergsoniana e a intuição fenomenológica (não somente porque são os 
produtos das duas tendências paracientíficas das mais notáveis que se afirmaram 
no decorrer desse século, mas porque seus criadores mantiveram-se muito próxi- 
mos dos problemas da ciência), é o problema de analisar a validade de tais modos 
de conhecimento: uma intuição sendo ao mesmo tempo tomada de posse do obje- 
to e garantia de verdade para o sujeito, essa dualidade na unidade fornece, efetiva- 
mente, um conhecimento distinto da experiência e da dedução, ou a unidade pro- 
posta não é senão aparente? 


254 PIAGET 


C) O ideal de um conhecimento supracientífico nascido no século XIX 
tomou no início ou a forma francamente especulativa do idealismo alemão ou a 
forma mais modesta, e mais cuidadosa da epistemologia, de uma crítica da ciên- 
cia. Ora, essa segunda forma conduziu, nos fins do século XIX e começo do XX, 
a um acontecimento muito novo: à idéia de que no próprio terreno das “coisas” e 
dos fenômenos havia lugar, ao lado do conhecimento científico e com a condição 
de precisar seus limites com bastante rigor, para um outro conhecimento desses 
objetos e fenômenos que seria suscetível de independência completa e de um pro- 
gresso indefinido. Bergson e Husserl seguiram esse novo caminho, mas com dois 
métodos muito diferentes: o primeiro apóia-se em antíteses no seio de uma mesma 
realidade, para mostrar que se o saber racional é bem sucedido legitimamente em 
uma das duas direções possíveis, o outro permanece aberto a um modo diferente 
de conhecimento; o segundo procede, ao contrário, por níveis em profundidade, 
procurando isolar sob o nível espaço-temporal ou “mundo”, mas para os mesmos 
objetos e nos mesmos domínios, um universo de essências obtidas por reduções ou 
“colocações entre parênteses” descendo sob o nível inicial. Buscando os mesmos 
alvos, de limitação do saber científico e de constituição de um conhecimento filo- 
sófico específico e autônomo, os dois métodos não coincidem absolutamente, pois 
o “mundo” positivo ao qual Husserl quer escapar compreende o tempo, enquanto 
que uma das antiteses fundamentais do bergsonismo é a do espaço, reservado à 
ciência racional e a da duração pura, domínio da intuição metafísica: outrossim, 
um continuador de Husserl, Jean-Paul Sartre, dirá que a intuição bergsoniana não 
atinge o ser como a de Husserl e que a duração pura não é mais que um fato 
contingente, constatado empiricamente. 


É interessante notar desde o início essas contradições entre os dois grandes 
sistemas fundados na intuição filosófica do ser, pois os dois métodos, procedendo 
por antíteses ou por níveis, teriam podido ser complementares, já que se referem 
aos mesmos problemas que aquele de situar as matemáticas ou a psicologia em 
relação ao pensamento filosófico. Quando, nas ciências dedutivas, um mesmo 
domínio é explorado por vias muito diferentes, o que é frequente, os resultados 
distintos são sempre não somente compatíveis mas suscetíveis cedo ou tarde de 
dedução de uns a partir dos outros. No caso das intuições paracientíficas, de que 
vamos tratar, tem-se mais a impressão de que todas as possibilidades são experi- 
mentadas alternativamente, por insatisfação com a precedente, de tal maneira que 
convém indagarmos separadamente, e para os dois sistemas, se no terreno que 
cada um escolheu sua crítica das ciências comporta ainda hoje e autoriza esse 
excesso metafísico sob a forma que esperavam, respectivamente, e da qual o único 
ponto comum é esse desejo de um conhecimento filosófico específico e autônomo. 

As antíteses bergsonianas — organização viva e matéria, instinto e inteli- 
gência, tempo e espaço, vida interior e ação ou linguagem, etc. — suscitam dois 
problemas: são efetivamente antitéticas? Convergem, entre si, por encaixes ou 
equivalências simples ou apresentam intersecções segundo todas as combinações? 
É da solução desses dois problemas que depende afinal a validade da “intuição” 
apresentada como conhecimento filosófico específico. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 25o 


1.º A antítese da vida orgânica e da matéria responde a um problema cientií- 
fico evidente: o da oposição entre a organização crescente que caracteriza a vida 
e a desordem progressiva de natureza aleatória que constitui o aumento da entro- 
pia. Outrossim, grandes autores como Helmholtz e até recentemente Ch.-Eugêne 
Guye perguntaram-se se os mecanismos vitais obedecem ao segundo princípio da 
termodinâmica ou se, pelo contrário, não se deveria ver neles um antiacaso que es- 
capa à sua incumbência. Esse dualismo, até aqui simplesmente possível, foi rees- 
tudado recentemente, em detalhes, por Bertalanffy e Prigogyne com sua teoria dos 
sistemas abertos, cujo acabamento termodinâmico ainda origina discussão. É 
natural pois que o bergsonismo possa justificar sua antítese fundamental invo- 
cando tais correntes de idéias e o físico O. Costa de Beauregard em uma tese de 
filosofia sobre Les Temps, onde mistura uma física precisa a uma metafísica um 
tanto arriscada, não hesita em combinar as duas espécies de conceitos do bergso- 
nismo e da neguentropia no duplo sentido físico e informacional (sabe-se, com 
efeito, que a noção de entropia desempenha um papel central na teoria da 
informação). 

Mas, se a antítese bergsoniana da vida e da matéria pode pois encontrar bons 
argumentos no terreno preciso da termodinâmica dos sistemas fechados e abertos, 
onde se pode justificar a bela imagem da corrente vital ascendente da qual uma 
parte recai sem parar em matéria, não é evidente mesmo que esse dualismo seja 
confirmado na sequência igualmente generalizável ao conjunto das relações entre 
a vida e a matéria. 

Tocamos aqui no problema do vitalismo e das explicações físico-químicas 
dos processos vitais e, com ele, numa questão de método que apresenta um grande 
interesse para o nosso propósito, que é o da intervenção do filósofo nas diversas 
soluções científicas possíveis. Na perspectiva dos níveis superpostos, que é a de 
Husserl, o filósofo não interfere, em princípio, no terreno das ciências: ele as deixa 
desenvolverem-se, em Husserl com o reconhecimento da validade de seus métodos 
(mesmo em psicologia experimental) porque os conhece, em Sartre com desdém 
porque os conhece menos; e limita-se a mostrar que existem outros níveis onde a 
filosofia é soberana na sua apreensão das essências. É verdade que em certos 
casos, por exemplo em matemáticas e em física, Husserl acrescenta que o próprio 
sábio deveria alcançar, ou utilizar sem o saber, essa intuição das essências e que 
noutras situações, como em psicologia, é preciso reduzir o domínio do psicólogo 
experimental a um terreno limitado, como o espaço-temporal e completar essa 
pesquisa reduzida com uma psicologia filosófica a título de suplemento necessá- 
rio. Mas no próprio terreno do saber científico o filósofo não intervém. Pelo 
contrário, na perspectiva das antíteses bergsonianas, que tem o mérito de deixar 
um campo mais vasto às ciências, o filósofo intervém nas suas próprias soluções, 
e isso apresenta outros problemas. Veremos, por exemplo, no capítulo V, como 
Bergson constrangido por encontrar alguns caracteres essenciais do tempo berg- 
soniano na teoria da relatividade, enquanto ele queria reservá-los à consciência e 
à vida, tentou, curiosamente, refutar pura e simplesmente a mecânica de Einstein. 
No terreno da biologia, que nos interessa agora, ele, é natural, tomou partido pró- 


256 PIAGET 


vitalismo e contra as interpretações físico-químicas, pois se tratava de manter a 
todo preço a antítese da vida e da matéria. 

Postas à parte as questões de competência e essa regra de tecnicidade que F. 
Gonseth põe nos princípios fundamentais da sua filosofia das ciências, o perigo de 
tais tomadas de posição está, é claro, em ligar uma verdade metafísica (que se de- 
seja independente) às teorias do dia ou à colocação dos problemas relativa aos 
conhecimentos mais recentes. Ora, em 1907, data da aparição de L Evolution 
Créatrice duas únicas soluções pareciam possíveis: a redução do vital a uma fisi- 
co-química concebida como definitiva, pois as confusões devidas à teoria da rela- 
tividade e à física quântica não tinham ainda abalado na opinião o edifício 
aparentemente imutável da mecânica clássica e da física dos princípios; ou, pelo 
contrário, uma teoria específica dos fenômenos vitais renovando o vitalismo clás- 
sico à luz de novos fatos então inexplicáveis pela físico-química conhecida. Pare- 
cia pois razoável ser pró-vitalismo, primeiro por causa da notória insuficiência 
das explicações mecanistas da época, e por outro lado por causa do renascimento 
do vitalismo e principalmente da conversão sensacional de Driesch. Sabe-se com 
efeito que, após ter feito a descoberta da regeneração dos embriões dos ouriços do 
mar, seccionados em dois no estágio da blástula. Driesch, em lugar de 
compreender que ele abria os rumos a essa nova ciência da embriologia causal 
que fez tantos progressos depois, ficou tão impressionado com a novidade do fato 
que abandonou qualquer ensaio de explicação científica para recorrer às entelé- 
quias de Aristóteles, de modo que terminou sua carreira como professor de 
filosofia. 

Mas desde então três acontecimentos fundamentais surgiram. O primeiro foi 
a transformação radical da física que, sem renegar suas aquisições anteriores, 
situou-as em uma certa escala, adotando, para as escalas superiores (relatividade) 
ou inferiores (microfísica), modos de explicação completamente imprevisíveis até 
então. Resulta dessa nova elasticidade que, se se chega a uma explicação físico- 
química da vida, será enriquecendo ainda mais a física já renovada e chegando 
assim a uma assimilação recíproca, e não a uma redução de sentido único. Mas, 
por mais satisfatória que pudesse ser então uma interpretação, respeitando as 
propriedades de organização sublinhadas sem cessar pelo vitalismo (e julgadas 
inexplicáveis por ele, acabar-se-ia, contudo, a antítese bergsoniana, pois haveria 
continuidade e não mais dualismo radical. 

Em segundo lugar, essa esperança de continuidade fez progressos reais com 
essa nova disciplina, que é a biologia molecular contemporânea, e com as exten- 
sões consideráveis da bioquímica descobriram-se principalmente formas de orga- 
nização a meio caminho entre o físico e o vital, que possuem certas propriedades 
biológicas gerais como a assimilação e não outras como a respiração. 

Em terceiro lugar, e é esse ponto que deve interessar sobremaneira o filósofo, 
deixou-se desde alguns anos de encontrar-se em presença das alternativas clássi- 
cas, mecanismo ou vitalismo, acaso ou finalidade, etc., porque concepções dum 
terceiro tipo, como o organicismo de Bertalanffy e principalmente a cibernética 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 251 


que se situa exatamente a meio caminho entre o físico e o vital??, se nos oferecem 
hoje para explicar, com modelos de ordem estritamente causal, propriedades espe- 
cíficas do organismo: regulações de aparência finalista, equilibração, etc. Essa 
terceira perspectiva, que surgiu como sempre no momento em que se estava em 
presença de alternativas insolúveis, constitui certamente a mais perigosa resposta 
à antítese bergsoniana, primeiro porque os próprios termos do problema parecem 
ultrapassados, mas em seguida e principalmente porque o modo de pensamento 
cibernético e a construção de modelos mecânicos simulando a finalidade, a apren- 
dizagem e mesmo o desenvolvimento por etapas de equilíbrio, constituem um des- 
mentido inquietante a essa inadaptação congênita da inteligência às realidades vi- 
tais que uma outra tese de Bergson afirma (ver no 3.º). 

2.º A antítese da duração vivida (pelo organismo ou pelo sujeito mental) e 
do espaço físico é muito mais frágil porque aqui o filósofo, que entretanto se tinha 
especializado primeiro no estudo do conhecimento matemático e físico, depois 
passara à psicologia, mas só pelo método da introspecção, peca ao mesmo tempo 
por desconhecimento dos dados psicogenéticos e por erro manifesto no terreno 
físico. 

No que se refere aos dados psicogenéticos (voltaremos a eles no capítulo IV 
do ponto de vista da crítica da psicologia filosófica e só falaremos aqui do ponto 
de vista epistemológico), a duração bergsoniana, com sua propriedade de não ser 
nem métrica nem espacializada, mas suscetível de dilatação ou de contração 
segundo seu conteúdo e consistindo nesse próprio conteúdo como construção ou 
criação contínua (“o tempo é invenção ou não é absolutamente nada”), é apenas 
um dos aspectos do tempo vivido. E é ainda um aspecto que não é “puramente” 
temporal, pois se o tempo vivido é invenção, ainda é necessário que essa constru- 
ção da qual o tempo é o “estofo” (“o tempo é o próprio estofo da realidade”) se 
desenvolva numa velocidade nem nula nem infinita. O tempo supõe pois a veloci- 
dade, a dos processos externos percebidos ou observados, ou a dos processos 
internos da atividade mental, e esse é um primeiro ponto essencial que o estudo 
psicogenético do tempo parece revelar. Em seguida, o sujeito chega espontanea- 
mente a três espécies de operações temporais que estruturam parcialmente esse 
tempo vivido, independente de todo conhecimento físico: a) uma seriação dos 
acontecimentos segundo uma ordem de sucessão; b) um encaixe dos intervalos tal 
que, para os acontecimentos ordenados ABC... (acontecimentos externos ou 
internos), a duração AB seja julgada mais curta que AC, mesmo se esses tempos 
não são homogêneos quanto a um escoamento uniforme; c) uma métrica, resul- 
tando da sintese das duas, tal que, se a duração AB é aplicada a BC, isso implica 
AC=2 AB. Ora, essa métrica não supõe nem relógio exterior nem um recurso à 
fisica, e Bergson, que tem afeição às imagens musicais, teria podido lembrar-se 
que a música mais popular e a mais espontânea supõe uma tal métrica (indepen- 
dentemente mesmo da escritura musical em brancas, negras e colcheias). A dura- 


21 Ver as belas interpretações que tiram daí entre outros autores C. H. Waddington, que chega assim a uma 
espécie de tertium entre o lamarckismo e o neodarwinismo. 


DDS TERD SE SS EES SEE EE 


258 PIAGET 


ção vivida da criança é assim primeiro pré-operatória ou intuitiva, depois parcial- 
mente operatória e a do adulto participa ainda das duas. 

Quanto à física, cujo tempo lhe parece inteiramente espacializado e sem mais 
nenhuma relação com essa duração vivida, Bergson não viu (o que era aliás bem 
compreensível antes da relatividade, mas mostra pelo menos que o conhecimento 
filosófico não a antecipou), que o tempo físico também é relativo à velocidade. De 
sua noção de um tempo espacializado e por assim dizer esvaziado do seu conteú- 
do, Bergson tirou então essa consequência que lhe apareceu como uma confirma- 
ção das suas teses, que, variando todas as velocidades do universo, não se muda- 
ria nada nas relações temporais medidas pelo físico. Foi então que se produziu a 
aventura da descoberta da relatividade, que contradizia essa tese: daí a reação de 
Bergson, procurando refutar Einstein, e a resposta de A. Metz, mostrando os erros 
de raciocínio de Bergson. 

Nada resta pois da antítese da duração vivida e do tempo espacializado ou 
do espaço físico. O espaço físico também é relativo ao seu conteúdo e todos os 
dois dependem da velocidade. Quanto às relações entre essa antítese e a da vida 
e da matéria, é claro que a evolução da vida é um desenrolar histórico que supõe 
uma contínua “invenção” temporal (sem dúvida mesmo com períodos de acelera- 
ção e de diminuição). Mas a vida é na mesma proporção invenção espacial, pois 
a incrível diversidade das formas supõe uma espantosa combinatória geométrica 
e mostrou-se na passagem duma forma de peixe ou marisco às formas filogené- 
ticas vizinhas, transformações geometricamente bem definidas, variedades topoló- 
gicas, afins, etc. 

3.º Vem agora a antitese central da inteligência e do instinto central sob o 
ponto de vista epistemológico, já que Bergson julga que a inteligência só conhece 
adequadamente a matéria e o espaço, enquanto que o instinto, sozinho ou prolon- 
gado em intuição, é o único modo de conhecimento adaptado à vida e à duração 
“pura”. 

As idéias de Bergson sobre o instinto são inspiradas nas de Fabre, genial 
observador, mas cujas interpretações eram um tanto influenciadas pela sua teolo- 
gia: a imutabilidade do instinto em oposição à flexibilidade da inteligência, conhe- 
cimento infinitamente preciso mas limitado e cego, em oposição as tentativas mas 
também à consciência e à inteligência, etc. Só que desde então nossas informações 
tanto sobre a própria inteligência como sobre os instintos foram multiplicadas 
pelos dados psicogenéticos para a primeira e pelos estudos experimentais para os 
segundos, da escola dita “objetivista” (Tinbergen, Lorenz, Von Holst, etc.) e da 
escola francesa de Grassé, Deleurance, etc., e o problema não se apresenta mais 
nos mesmos termos. 

Para bem apresentá-lo, é preciso primeiro notar que seria errôneo fechar-se 
na alternativa da continuidade ou da descontinuidade apresentada em termos 
lineares, como se a inteligência, uma vez desencadeada, prosseguisse em linha reta 
num único e mesmo plano. Na realidade, a inteligência se constrói por etapas de 
equilibração sucessivas, de modo que o trabalho começa, em cada uma delas, por 
uma reconstrução do que já tinha sido adquirido na etapa precedente, mas sob 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 259 


uma forma mais restrita. É assim que, na criança, se observa um primeiro nível 
de inteligência, antes da linguagem, sob uma forma senso-motriz mas que já con- 
duz bastante longe: esquemas de conservação com a construção do objeto perma- 
nente, reversibilidade com o “grupo” prático dos deslocamentos, casualidade 
objetiva e espacializada, etc. No nível seguinte, que é o do pensamento represen- 
tativo e das operações concretas, essa aquisição senso-motriz deve ser inteira- 
mente reconstruída no plano da representação (o que ocupa o período de dois a 
seis anos) antes que lá pelos sete anos se constituam as primeiras conservações 
representativas e as primeiras operações reversíveis. Em seguida, aproximada- 
mente aos onze ou doze anos, um terceiro nível, caracterizado pelas operações 
formais ou hipotético-dedutivas, começa por uma reestruturação das operações 
concretas para que as novas operações possam se constituir a título de operações 
de segunda potência integrando as precedentes. 

Ora, se a própria inteligência procede assim de maneira não linear mas por 
construções sucessivas em níveis diferentes, decorre daí que nível inferior ou 
senso-motor não poderia ser considerado como um começo absoluto e deve ter 
raízes num nível anterior, de natureza orgânica, que poderia bem então ser consti- 
tuído pelo sistema dos reflexos e dos instintos (não existe diferença de natureza 
entre reflexos e instintos, os primeiros não constituindo mais que diferenciações a 
partir de atividades rítmicas mais globais). 

No que concerne, por outro lado, ao instinto, constatou-se que nem sua 
infalibilidade nem principalmente sua imutabilidade são absolutas, e encontra-se 
em certos casos (Deleurance) uma pequena margem de aprendizado que parece 
fazer transição com a inteligência. O que se constata além disso, e isso é funda- 
mental, é a existência de “índices significativos” hereditários que desencadeiam a 
atividade motriz. Ora, esses índices são reconhecidos por assimilação e os esque- 
mas de assimilação (bem diferentes de associações mecânicas) são generalizáveis 
(pode-se construir toda espécie de “engodos” que imitam o índice natural e que 
mostram o grau de generalização) e sobretudo algumas vezes relativamente flexi- 
veis: no caso das stigmergies de Grassé, no curso das quais as térmitas trans- 
formam em pilares, etc., bolas de terra malacachetadas, a ordem de sucessão das 
operações não é constante, mas apresenta variações apreciáveis. Enfim, e é o 
essencial, encontram-se em todos os níveis, e até nos Protozoários, condutas de 
aprendizagem, à margem dos instintos, e no bebê humano pode-se seguir, por . 
transições contínuas, as etapas conduzindo movimentos espontâneos globais (pró- 
ximos do instinto) e até os reflexos às condutas condicionadas, aos primeiros há- 
bitos e a atos de inteligência propriamente ditos por coordenação dos esquemas de 
assimilação próprios aos hábitos. 

Todos esses fatos parecem pois orientar para uma interpretação segundo a 
qual o instinto constituiria uma espécie de lógica dos órgãos (a lógica resultando 
de maneira geral da coordenação das ações ou das operações), donde é obtida em 
uma etapa superior a lógica das condutas senso-motrizes adquiridas e daí a inteli- 
gência senso-motriz cuja existência é tão evidente nos antropóides e na criança 
humana. 


260 PIAGET 


4.º Se as antíteses precedentes se desvanecem todas quando submetidas à 
análise, a tese epistemológica fundamental de Bergson torna-se bem frágil, já que, 
segundo a mesma, a inteligência é inapta para compreender a vida e só se adapta 
ao espaço e à matéria inorganizada, e ainda somente a seus aspectos estáticos e ao 
descontínuo. 

O primeiro argumento do filósofo é que a inteligência nasceu da ação sobre 
a matéria, mas há nisso uma dupla dificuldade. Em primeiro lugar, a inteligência 
procede da ação em geral, e não somente da ação sobre a matéria: sobre a pessoa 
de outrem, sobre o (e por meio do) corpo mesmo, do mesmo modo que sobre os 
sólidos inanimados. Em segundo lugar, e principalmente, a lógica e as matemá- 
ticas não resultam da forma dos objetos aos quais podemos aplicá-las, senão 
recaímos no empirismo clássico, mas sim das coordenações gerais da ação (reu- 
nir, ordenar, pôr em correspondência, etc.), independentemente da natureza dos 
objetos visados. 

O segundo argumento é que a inteligência reconstitui o contínuo com o 
descontínuo, o movimento com o imóvel, etc., por um processo análogo ao ““pro- 
cedimento cinematográfico”, segundo uma comparação que se tornou célebre. 
Mas, sobre esse ponto central, Bergson raciocina como se a inteligência se redu- 
zisse à representação em imagem, visto que a imagem mental é efetivamente está- 
tica por natureza, inapta a apreender o contínuo, etc. Com efeito, Bergson esquece 
totalmente a existência das operações, que têm como objeto, por essência, as 
transformações e não só os estados, que consistem em atos e não em imagens, e 
que alcançam como tais o movimento e a construção produtiva, criadora de estru- 
turas dinâmicas. Na sua metáfora do procedimento cinematográfico, Bergson só 
vê os instantâneos sucessivos que correspondem pois às representações em ima- 
gem, mas esquece-se do motor que assegura seu desenvolvimento, e é nesse motor 
operativo que reside a própria inteligência. 

Quanto à suposta heterogeneidade entre a inteligência lógico-matemática e a 
vida em geral, duas respostas podem hoje ser endereçadas ao bergsonismo. Essa 
forma de inteligência é essencialmente operatória e as operações fundamentais 
derivam pois da coordenação das ações, coordenação que já é um fenômeno 
biológico, pois apóia-se nas coordenações nervosas (e lembre-se a esse respeito 
que W. McCulloch e Pitts encontraram nas coordenações sinápticas todos os 
tipos de ligações próprias à “lógica das proposições”). Mas ainda há mais. O estu- 
do psicogenético da formação das operações mostra que elas constituem a forma 
de equilíbrio final (as operações são inteiramente reversíveis porque são equilibra- 
das) duma série de regulações semi-reversíveis que constituem seu esboço ou sua 
preparação. Ora, as noções de regulação e de equilibração são essencialmente 
biológicas e parece pois evidente que exista alguma continuidade entre a auto-re- 
gulação orgânica, que é sem dúvida o mais central dos processos biológicos, e 
essa auto-regulação ou auto-correção mental, que constitui a lógica. Doutro lado, 
salvo para o empirista ou apriorista (ou platônico), vê-se mal como as matemá- 
ticas podem adaptar-se tão admiravelmente à realidade física se as estruturas 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 261 


lógico-matemáticas não mergulham suas raízes na organização biológica, que é 
ao mesmo tempo a fonte motriz do sujeito e a razão das adaptações fundamentais. 

A segunda resposta à tese da heterogeneidade da inteligência e da vida é que 
o conjunto das regulações orgânicas, do qual parecem pois ter saído as operações 
mentais elementares, dão hoje lugar a um tratamento lógico-matemático extraído 
não certamente da mecânica clássica ou relativista, nem da física dos corpos sóli- 
dos, etc., mas sim da cibernética, essa nova disciplina que chega a imitar certos 
aspectos essenciais do “vivo”. O homeostato de Asbhy mostra como os proble- 
mas podem ser resolvidos por uma equilibração por tudo ou nada, o “perceptron” 
de Rosenblatt como um organismo pode aprender qualquer coisa, o “genetron” de 
Papert como um desenvolvimento pode fazer-se por sucessivos graus de equili- 
brio. De um modo geral, os modelos em argolas ou feedbacks fornecem uma pos- 
sível explicação das regulações e chegam mesmo a dar-nos o que se chama hoje 
“equivalentes mecânicos da finalidade”. Não é mais possível, pois, considerar a 
inteligência operatória como para sempre cega aos processos da vida. 

5.º Dessas múltiplas antíteses, das quais vemos que resta pouca coisa hoje 
em dia, Bergson tira finalmente sua tese central dum conhecimento metafísico sui 
generis, e irredutível à razão ou conhecimento científico: tal seria a intuição, ou 
instinto que toma consciência de si mesmo e atingindo diretamente as realidades 
próprias à vida que seriam a duração pura ou trabalho criador da consciência. 
Bergson, que quer estar sempre no real, fornece os meios para atingir essa intuição 
do vital: introspectar sua consciência, mas despojando-a dessa ganga superficial e 
tenaz constituída pelos hábitos devidos à ação sobre a matéria, à linguagem e à 
vida social; descer pois em si até as regiões vizinhas do sonho ou do inconsciente 
criador e atingir nesses fundos o brotar do impulso vital, na sua espiritualidade e 
no seu devir. 

Notou-se muitas vezes quanto essa intuição pessoal de Bergson era o produ- 
to de uma inteligência refinada, cuja reflexão não pretende atingir o ser de manei- 
ra brusca, mas começa por selecionar, dissociar e abstrair pra reconstruir um mo- 
delo infinitamente elaborado da duração. Sartre censura um tanto brutalmente a 
Bergson de considerar a duração pura como um fato empírico ou um acidente 
contingente. Diremos exatamente o contrário, constatando que ela é, de fato, o 
produto de uma fabricação intelectual singularmente avançada, e aí pondo, aliás, 
as intuições sartrianas na mesma categoria do que se poderia chamar introspec- 
ções construídas. 

Com efeito, longe de constituir um ponto de partida primeiro, como o Cogito 
cartesiano ou husserliano, a partir do qual ter-se-iam desenvolvido os diversos 
lineamentos do sistema, a intuição bergsoniana é uma resultante de análises múti- 
plas conduzidas reflexivamente. Dir-se-á que ela os guiou, mas então a título de 
intuição intelectual, isto é, que estas hipóteses globais das quais se tem o “senti- 
mento” que elas conduzirão a qualquer coisa antes de poder debitá-las em racioci- 
nios particulares. Não se vê pois em nada, nem a título de resultante nem a título 
de hipótese diretriz, em que se trataria dum modo de conhecimento sui generis e 
próprio à metafísica. 


262 PIAGET 


Edouard Le Roy considerou a filosofia bergsoniana como revolucionária e 
comparou-a às revoluções kantiana e socrática, pois ambas haviam engendrado 
um método. A diferença é apesar de tudo, que, se o bergsonismo exerceu numero- 
sas influências, não foi precisamente pela aplicação da sua “intuição”. Foi, princi- 
palmente, pelo destaque que dava ao devir e à duração vivida, ainda que no 
mesmo momento em que apareciam Les Données Immédiates, o psicólogo W. 
James rejeitava tão vigorosamente o associacionismo em proveito da “corrente de 
consciência” (ver o capítulo IV, in D). Mas o devir criador não é a justificação 
nem da intuição nem da metafísica e pode-se fornecer disso a seguinte contra- 
prova: meu mestre Brunschvicg tinha uma profunda admiração por Bergson (e le- 
vava a amizade, ao que me pareceu, até a imitar, muitas vezes sem o querer, a 
maneira pela qual Bergson pronunciava o “t” à inglesa)22. Houve pois, provável 
influência: ora, o devir do pensamento segundo Brunschvicg, em filosofia mate- 
mática, física ou moral, é uma corrente criadora, imprevisível e sem finalidade, 
que é, de maneira impressionante, a duração bergsoniana, porém aplicada à histó- 
ria da inteligência. 

D) Se as antiteses e oposições bergsonianas, que se colocam no plano da 
realidade estudada noutra parte nas próprias ciências, correm o risco de ser 
contraditadas pelos progressos dessas últimas, o método dos níveis de fenômenos 
próprio de Husserl com suas “reduções” e suas “colocações entre parênteses” não 
comporta o mesmo perigo, já que não contradiz as ciências e quer somente 
complementá-las com um modo de conhecimento especificamente metafísico, mas 
ela corre o risco complementar de ver seus níveis, em aparência separados e prote- 
gidos, invadidos pela análise científica em seus progressos impossíveis de limitar. 

O grande mérito das intuições husserlianas é o de colocar-se de uma vez em 
presença das “coisas elas mesmas”, logo do fenômeno, e de se recusarem a partir 
do dualismo do sujeito e do objeto. Husserl opõe-se tanto ao idealismo ou ao 
apriorismo kantiano, que atribuem tudo ao sujeito, quanto ao empirismo ou ao 
positivismo, que o esquecem em favor do objeto. O dado fundamental é pois para 
ele o fenômeno como interação indissociável, e é dessa indissociabilidade que 
quer partir para atingir o real. Foi por esse aspecto da sua doutrina que a fenome- 
nologia inspirou a teoria psicológica da Gestalt, que se orientou para um fisica- 
lismo inteiramente anti-husserliano, negligenciando cada vez mais o sujeito, por- 
que, com a noção de interação indissociável, a psicologia da Forma ou Gestalt 
herdou igualmente da fenomenologia o que se poderia chamar seu atualismo ou 
sua ausência total de consideração pelas dimensões histórica ou genética. 


22 Sendo este livro um pouco uma confissão, não posso resistir ao prazer de lembrar o início da visita que 
fiz a Bergson, quando, há muito tempo, apresentei minha primeira comunicação à Sociedade Francesa de 
Filosofia. Eu estava impressionadíssimo em ver o grande Bergson, mas depois da influência que ele exercera 
em mim durante minha adolescência, não conseguia entender como o velho senhor que estava sob os meus 
olhos, preso em casa por seus reumatismos, pudesse ser o mesmo Bergson que eu tanto lera antigamente: 

— Você introduziu — disse-me ele como muita benevolência — descontinuidades entre a criança c o adulto. 
Quanto a mim. sou de preferência pela continuidade. 

— Sim — respondi emocionado —, eu sei que o senhor é... 

Parei a tempo: ia dizer-lhe “que o senhor é bergsoniano” ! 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 263 


Com efeito, a interação ou indissociação entre o sujeito e o objeto pode ser 
analisada sob dois pontos de vista. Se se coloca sob o ponto de vista dos fatos, 
isto é, do fenômeno tal como ele se apresenta sem desejo imediato de transcendê- 
lo, essa integração é um momento da história, história do indivíduo ou história 
das idéias, logo psicogênese ou história das ciências, e a pesquisa consistirá em 
retraçar as fases de uma tal interação. Recriminou-se muitas vezes a Brunschvicg 
seu idealismo, porque ele gostava dessa palavra e principalmente porque havia 
esquecido a biologia nas suas pesquisas de filosofia, matemática e física: mas Pa- 
rodi acusava-o de positivismo no sentido de cientificismo e não estava nem certo 
nem errado. Na realidade, Brunschvicg, era, tanto quanto Husserl, adversário 
simultâneo do empirismo e do apriorismo e voltava também muitas vezes à intera- 
ção do sujeito e do objeto que se “engalfinham”, dizia ele, modificando-se sem 
cessar um ao outro. Mas ele estudava essas modificações recíprocas no terreno da 
história, pelo método histórico-crítico. No domínio da psicologia genética eu, do 
meu lado, insisti sempre na mesma interação e se volto sem cessar às atividades 
do sujeito é porque os psicólogos de tendência empirista (tudo acontece) o esque- 
cem muitas vezes (o que não impedirá muitos leitores desta obra de me chamarem 
de positivista). 

Mas pode-se também, partindo da interação do sujeito e do objeto, ou da 
consciência na sua “relação com o mundo”, limitar-se a esboçar uma análise 
interna ou epistemológica, que chamaremos então “ontológica”, já que se refere à 
coisa ao mesmo tempo que ao sujeito que a intui. Esse será o método de Husserl, 
mas para compreendê-lo nas suas lacunas como nas suas ambições, portanto no 
seu “a-historicismo” como no seu projeto de instalar-se nas essências intemporais, 
é preciso fazer, apesar de tudo, um pouco de história. 

Como já chamamos a atenção no capítulo II, Husserl começou com um belo 
livro sobre a filosofia da aritmética, onde ele procura prestar conta das operações 
numéricas por certas operações mentais como a da coligação ou reunião em um 
todo. Esse livro suscitou a crítica dos lógicos, que o acusaram de “psicologismo”, 
isto é, de passar do fato à norma, o que é certamente inaceitável. Sobre o princi- 
pio, os lógicos tinham, sem dúvida, razão, e Husserl convenceu-se disso a ponto 
de converter-se ao culto das verdades intemporais (ele tinha aliás uma grande cul- 
tura matemática) e de votar-se à pesquisa dos métodos que conduzem o sujeito x 
objeto a atingi-los. Mas a infelicidade para a sua doutrina ulterior foi que, nessa 
época da sua carreira, ele não compreendeu duas coisas essenciais. 

A primeira pode parecer secundária, e dir-se-á aqui de mim que é o psicólogo 
quem fala, mas se verá em seguida sua importância: Husserl teria muito bem po- 
dido continuar a fazer uma boa psicologia sem cair no “psicologismo”. Ser-lhe-ia 
suficiente saber que estudava uma aritmética “natural” sem pretender com isso 
legisferar na lógica dos números, e construir por outro lado os modelos logísticos 
limitados, correspondentes ao que ele achava e compará-los aos modelos inteira- 
mente abstratos construídos por Frege, Schróder, etc. Não teria havido assim ne- 
nhum psicologismo, como passagem do fato à norma, mas um estudo interdisci- 
plinar das filiações psicológicas concretas e das genealogias lógicas formais ou 


264 PIAGET 


abstratas. Isso lhe teria pelo menos evitado a seguir uma crítica da psicologia que 
leva a resultados falsos, porque ele não viu que se podia fazer o que ele não reali- 
zou justamente por submissão excessivamente rápida a lógicos, que ignoravam as 
possibilidades da psicologia. 

O segundo mal-entendido teve consequências bem mais pesadas. Husserl não 
era lógico de profissão ou vocação, pois não se interessava pelo formalismo como 
tal e acreditava nas “coisas” e na interação sujeito x objeto no seio do fenômeno. 
Tendo-se curvado ao veredito dos lógicos e renunciado assim a todo psicolo- 
gismo, pôs-se a procurar como, partindo dessa interação fenomenológica, se pode 
atingir as verdades intemporais. E então, convencido do fato (isto é, ainda da 
hipótese) de que o sujeito psicológico não chega a isto por si mesmo, enquanto ele 
esteja fixado a um “mundo” espaço-temporal, imaginou um método de evasão ou 
de liberação desse mundo natural, que permitia atingir um nível mais profundo 
que a consciência “mundana”, e acreditou descobrir assim a possibilidade de 
“intuições” puras ou transcendentais. Também pensava abrir caminho a um 
conhecimento filosófico autônomo, liberado do sujeito empírico e das ciências 
ligadas a ele. Ora, o mal-entendido fundamental foi que seu sujeito transcendental 
era ainda um sujeito e que a “intuição pura” é ainda a atividade de um sujeito (no 
qual penetra a “coisa” ou a “essência”, está entendido, mas, se há intuição, há, 
apesar disso, sujeito): o resultado foi que, “transcendental” ou empírico, o apelo 
a uma tal intuição é ainda psicologismo, isto é, uma passagem do fato à norma. 

A “redução fenomenológica” ou liberação da consciência que escala ao 
mundo espaço-temporal para aceder à intuição das essências exige então duas 
espécies de observações, umas de ordem lógica e outras de ordem psicológica. 

Do ponto de vista da lógica, tudo foi dito pelos lógicos Cavaillês e Beth. A 
lógica, que é uma axiomática formal, repousa apenas sobre si mesma, isto é, sobre 
as regras normativas que permitem elaborar um sistema formal: definições a par- 
tir de noções arbitrariamente escolhidas como dadas e não definidas, axiomas (ou 
proposições indemonstradas), regras de cálculo e teoremas deduzidos por esse cál- 
culo a partir dos axiomas e das definições. Oferecer um fundamento intuitivo a 
tais sistemas é sair do sistema para explicar epistemologicamente como ele é pos- 
sível, mas não é fundar o sistema, fornecendo a garantia da sua validade. Essa 
validade não é senão normativa e consiste em uma segurança e não-contradição 
(que só se obtém aliás construindo sistemas de ordem superior: ver capítulo II, E 
5.º), enquanto que para o lógico a intuição não é mais que um fato: há pois passa- 
gem do fato à norma. Dizer que a intuição é “verdadeira” supõe uma justificação 
normativa que a própria intuição não fornece, já que é apenas a expressão da 
necessidade experimentada por um sujeito. Em resumo, como disse Cavaillês, ou 
bem a lógica está suspensa à intuição de um sujeito transcendental e não é mais 
absoluta (o que se desejaria que ela fosse), ou bem é absoluta e não há mais neces- 
sidade de uma intuição transcendental. E Beth, após Cavaillês, conclui, como ele, 
que para o lógico a fenomenologia, não é mais que um psicologismo como um 
outro, mas desenvolvido em uma outra linguagem. 

Do ponto de vista psicológico, diremos coisa completamente diferente e 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 265 


simpatizaremos plenamente com o problema central posto por Husserl, o da pes- 
quisa de noções “puras”, ou intemporais, assim como com a sua “redução 
fenomenológica” ou liberação do “mundo” espaço-temporal; e nos esforçaremos 
para compreender que sua crítica da psicologia não é mais que a manifestação de 
um amor desiludido, pois, permanecendo no plano da consciência, das intuições 
do sujeito e principalmente das suas “intenções”, mostra que não é um puro lógi- 
co. Ora, se no plano afetivo um amor desiludido é em geral sem remédio, no plano 
das idéias tudo se transforma no final das contas em trabalho de método e de 
verificações. Comecemos pois por estas, para passar em seguida àquele. 

Se simpatizarmos com o problema husserliano da liberação do espaço-tem- 
poral, não será por contágio ou influência (eu não tinha, para minha vergonha, 
lido uma única linha de Husserl até há bem pouco, espantado com o que Sartre e 
Merleau-Ponty tinham tirado dele), mas sim por uma razão muito mais decisiva: 
todo estudo da formação e do desenvolvimento das noções e operações intelec- 
tuais conduz a um tal problema e sobretudo permite assistir a uma tal liberação, 
sob uma forma espontânea e diretamente observável. 

Não citarei, a título de exemplo (entre muitos outros mais particulares), 
senão a estruturação das operações como tais. Uma operação lógico-matemática 
é essencialmente atemporal e isso pode ser constatado entre outras operações por 
sua reversibilidade: se 2 + 3 = S então 5 — 3 = 2 por necessidade imediata e 
independentemente das ordens temporais de escrita ou de pensamento individual. 
O fato que a operação possa desenrolar-se nos dois sentidos e que um dos dois 
implica o outro por necessidade lógica imediata prova bem que nenhum dos dois 
é temporal. Ora, essa reversibilidade operatória não é compreendida senão tardia- 
mente e constitui o principal problema para o sujeito na formação das suas opera- 
ções. Enquanto não for atingida, não há possibilidade de composição aditiva: o 
sujeito de quatro a cinco anos pensará, por exemplo, caso se dissociem 10 boli- 
nhas em duas coleções de 4 e de 6, que há mais bolinhas em dois pacotes que em 
um e isso mesmo se a soma for 10 e 10 nos dois casos: os nomes de número só 
servem então para individualizar os elementos, mas sem impor, absolutamente, o 
postulado que o todo que vale à soma das partes, porque esse postulado supõe a 
operação da adição e que essa operação supõe a reversibilidade; ora, a passagem 
de 10 a 4 mais 6 parece ao sujeito uma transformação irreversível, que modificou 
tudo, inclusive o valor do conjunto. A operação supõe a reversibilidade e esta a 
conservação, etc., em um sistema total (um “grupo”, etc.), estencialmente 
extratemporal. 

Ora, o fato assaz notável é que esse sistema se impõe ao sujeito lá pelos sete 
ou oito anos e que eles são (em média), precedentemente, impermeáveis a ele. 
Como pois explicar essa espécie de conversão ou de “redução fenomenológica” 
aos poucos? Comecemos simplesmente por descrevê-la. Psicologicamente, as ope- 
rações nascem das ações: a operação de adição procede da ação de reunir, etc. 
Mas as ações são, por si mesmas, irreversíveis, e não é suficiente em seguida 
interiolizá-las em pensamento para torná-las reversíveis. Por outro lado, uma vez 
interiorizadas essas ações dão lugar a “regulações”, que não são ainda operató- 


RE 


266 PIAGET 


rias mas já comportam uma reversibilidade aproximada: por exemplo, para uma 
criança de cinco a seis anos uma fila de 10 bolinhas que se distanciam terá mais 
que 10, e se se aproxima, terá menos que 10, por falta de reversibilidade e domínio 
da configuração espacial (do “mundo” espaço-temporal !); mas, se se distanciam 
cada vez mais os elementos, ela acabará por dizer “agora há menos bolinhas, não 
estão bastante aproximadas”. Essas regulações se traduzem, pois, por compensa- 
ções que moderam ou freiam as transformações ainda irreversíveis, e essas 
compensações são a marca dé uma equilibração progressiva cujo resultado é 
então o seguinte: em um dado momento (e isso se produz às vezes sob os olhos do 
experimentador), a criança, em presença de uma dissociação de 10 em 4 e 6, dirá 
por exemplo: “Tem mais, ah! não, o senhor não fez mais que separá-las e pode-se 
ajuntá-las de novo, o número é o mesmo, é forçoso, pois, que são as mesmas, 
etc.”. Resumindo, há compreensão em geral imediata da reversibilidade e do vín- 
Culo de necessidade lógica que ela comporta. 

Há aí, bem entendido, apenas uma das fases da depuração dos conceitos e da 
formação das operações, e o processo acentua-se em seguida com a constituição 
de operações formais liberadas bem antes ainda do seu conteúdo espaço-temporal. 
Mas essa fase já apresenta um problema que toca o de Husserl: como pôde a ope- 
ração liberar-se da irreversibilidade temporal? Lembro-me de ter ficado tão 
impressionado com esse problema, quando o entrevi pela primeira vez, que come- 
cei primeiro (há muito tempo, isso para escusar-me invocando a juventude) por 
perguntar-me se, com a reversibilidade operatória, não intervinham transmissões 
nervosas quase intantâneas cuja velocidade superior ou igual àquela da luz permi- 
tiria remontar o curso do tempo ou anular o tempo... Depois renunciei a essas 
especulações esquadrinhadas (pensei também num antiacaso que suprimiria no 
pensamento da criança o aumento da entropia ligada à irreversibilidade geral da 
consciência individual espontânea, etc.), e compreendi que havia aí sobretudo 
uma questão de níveis nas atividades do sujeito: a irreversibilidade está ligada à 
consciência do sujeito individual que, centrando tudo sobre a própria ação e as 
impressões subjetivas que a acompanham, é levada pelo fluxo dos acontecimentos 
internos e externos e dominada pelas configurações aparentes; pelo contrário, a 
descoberta da reversibilidade operatória marca a constituição do sujeito epistê- 
mico que se liberta da própria ação em proveito das coordenações gerais da ação, 
isto é, dessas “formas” permanentes de reunião, de encaixe, de ordenação, de 
correspondência, etc., que religam as ações umas às outras e constituem assim sua 
subestrutura necessária. 

Vê-se então, de uma só vez, que essa mudança de nível nas atividades de um 
sujeito, que de individual se torna epistêmico, pelo progresso interno das coorde- 
nações do seu pensamento e por uma equilibração que substitui a necessidade ló- 
gica à constatação empírica, apresenta certas analogias com uma “redução” 
fenomenológica. Com efeito, se bem compreendi as intenções de uma fenomeno- 
logia que se quer geral, isto é, descrevendo processos comuns a todos os sujeitos 
e não especiais à consciência do filósofo que as descreve, a redução fenomenoló- 
gica, a intuição das “essências” ou a “intenção” que atinge as formas devem 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 267 


caracterizar todo pensamento científico, no próprio sábio se ele não estiver envol- 
to pelo seu positivismo, ou no sujeito pré-científico construindo as noções que ser- 
virão de ponto de partida ao pensamento científico. Nesse caso, as fatos psicoge- 
néticos, lembrados imediatamente, constituiriam uma simples confirmação da 
fenomenologia: é assim que o entendem certos partidários da escola, como Aaron 
Gurwitsch e outros. 

Convém, com efeito, sublinhar fortemente a convergência entre o que o psi- 
cólogo da inteligência procura, sob o nome de “estruturas” operatórias, e o que a 
fenomenologia de Husserl deseja alcançar sob a superfície da consciência empí- 
rica ou espaço-temporal. A noção de “estrutura” não se reduz de modo nenhum 
a uma simples formalização devida ao espírito do observador: ela exprime, pelo 
contrário, através das formalizações às quais se presta de outro lado, as proprie- 
dades constitutivas do ser estruturado. Desempenha, pois, mas num terreno aberto 
à verificação e ao cálculo, o papel que se desejaria atribuir ao conhecimento 
“eidético”: acessível 49 mesmo tempo ao observador e realidade mais profunda 
que a existência fenomenal da qual fornece a razão, desempenha plenamente o 
serviço que se espera das “essências”, com esta diferença que é a seu favor: ela se 
deduz com rigor no lugar de ser apenas intuída ou, se se prefere, que sua intuição 
condense ou resume uma síntese dedutiva no lugar de deixá-la escapar. 

Mas, então, é preciso colocar uma questão de métodos e perguntarmo-nos se 
o amor desiludido de Husserl pela psicologia não o conduziu, como acontece 
nesse caso, ou a alguma injustiça e a alguma incompreensão que se tornou siste- 
mática. Lembremos primeiro que todo problema pode vir a ser científico, se for 
suficientemente delimitado e suscetível de solução verificável por cada um: mas 
não há aí pois fronteira fixa entre ciência e filosofia, a fronteira sendo variável em 
função da posição dos problemas e dos estado das verificações. Daí resulta que as 
fronteiras propostas pela filosofia positivista ou por qualquer outra filosofia per- 
manecem arbitrárias e sujeitas à modificação segundo o estado dos conheci- 
mentos. Ora, Husserl, após ter abandonado a psicologia para entregar-se à pes- 
quisa das realidades extratemporais, acreditou dever, mesmo reconhecento plena 
e explicitamente (Ideen) a legimitidade de uma psicologia experimental a título de 
ciência “natural”, designar-lhe fronteiras: essa psicologia está confinada, segundo 
ele, no mundo espaço-temporal e, por consequência, outros métodos são necessá- 
rios para sair dele. 

Ora, a grande lacuna da fenomenologia é a sua negligência dos pontos de 
vista histórico e genético (ela fala como deve, atualmente, de uma gênese transcen- 
dental, mas com algum atraso e num outro plano). Colocando-se pois na perspec- 
tiva dos começos absolutos própria aos Cogito, ela não encontrou então dificul- 
dades em cavar em profundidade, a partir da consciência adulta e atual, para 
encontrar, sob o nível espaço-temporal, níveis obtidos por reduções ou colocações 
entre parênteses, tais que a psicologia espaço-temporal nada mais tem a ver com 
isso: donde a realização aparente do sonho de um conhecimento e de uma psicolo- 
gia especificamente filosóficos. Mas, assim que restabelecemos a perspectiva his- 
tórica ou genética, encontramo-nos então em presença do seguinte embaraço: 


268 PIAGET 


estudando a criança desde o nascimento até sete a oito anos, faz-se psicologia 
científica, pois o sujeito está então dominado pelo universo espaço-temporal nas 
suas concepções do número, da classe lógica (classificação figural) e na sua 
irreversibilidade pré-operatória. Mas quando, lá pelos sete a oito anos, se efetua 
uma primeira “redução” conduzindo à reversibilidade operatória e às primeiras 
formas de necessidade atemporal, o psicólogo “científico” deve afivelar suas 
malas e deixar o campo livre para os filósofos? Ou tornar-se ele próprio 
fenomenologista? 

Sendo todas as etiquetas secundárias, a única questão, mas ela é grave, é a 
dos métodos de descoberta e de verificação: intuições (eidéticas, “intencionais”, 
etc.) ou observação e experimentação. Ora, se a ciência é aberta, ela não saberia 
formular a priori nenhuma objeção contra a existência de intuições eidéticas, e se 
se deseja dar esse nome à conduta do pensamento que resulta de descentralização 
em relação ao sujeito individual e que marca a vinda por etapas do sujeito epistê- 
mico, aos sete, vinte ou cinquenta anos, não vejo aí, da minha parte, nenhuma difi- 
culdade. Mas o que pede o psicólogo zeloso de verificação é simples e unicamente 
que o sujeito que estuda essa intuição não seja sempre o mesmo que aquele que a 
experimenta. Ou melhor, tenho confiança naquilo que observo numa criança de 
sete ou doze anos (quando da formação das operações elementares a seguir for- 
mais), porque, compreendendo mal o que se passa com um sujeito, eu posso rever 
um outro, etc., e que após uma centena eu tenho com que fazer todos os recortes 
e controles necessários. Mas, se eu observar em mim mesmo as “intuições” que 
experimento, primeiro não vejo nada que não seja elaborado, em lugar de assistir 
aos processos de formação; e depois, o que vejo está de tal forma ligado às idéias 
que tenho sobre o assunto e sobretudo tão dependente das intenções de encontrar 
isso ou aquilo, que se torna inteiramente impossível traçar com certeza a fronteira 
entre as “intuições” do introspector e as intuições do introspectado. E, finalmente, 
temo que essa diferença entre a “análise eidética” praticada em si próprio e a sim- 
ples análise do pensamento na sua formação e no seu funcionamento seja a única 
razão que torna a primeira “filosófica” e não a segunda (voltaremos ao assunto no 
capítulo IV). 

Em uma palavra, problemas fenomenológicos, tanto quanto se deseje, mas 
não método fenomenológico, enquanto ele permanecer confinado na consciência 
do filósofo, e é chegado o momento de investigar por quê. 

E) No ponto em que nos encontramos, os dois únicos modos de conheci- 
mento que podem parecer específicos à filosofia e estranhos ou superiores ao 
conhecimento científico são a intuição e a dialética. Convém pois examiná-los de 
frente. 

O conhecimento científico comporta dois modos fundamentais: a interpre- 
tação experimental e a dedução algorítmica, podendo aliás ser todos os dois, 
segundo os casos, mais ou menos estáticos ou dialéticos. Em uma palavra, as 
ciências supõem fatos e normas e encarregam-se de descobrir ou elaborar os dois. 

O caráter notável da intuição filosófica, como a concebem Bergson ou Hus- 
serl, apesar das suas diferenças fundamentais, é de querer fundir num todo único 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 269 


o fato e a norma, em lugar de combiná-los de diversas maneiras, como nas múlti- 
plas variedades de disciplinas científicas. O problema é então examinar se essa 
união é fecunda ou se se trata de um produto bastardo ou de um cruzamento 
estéril. 

A intuição eidética deveria fornecer ao próprio sábio, diz-nos Husserl, o 
conhecimento das essências que ele utiliza, se seu positivismo não o tornasse 
míope. Ora, há uma ciência em que se falou classicamente de intuição e de neces- 
sidade lógica ou normativa e que, além do mais, não foi modificada em nada 
(não mais que as outras, aliás) pelos decretos positivistas: é a geometria, na qual 
pode ser interessante procurar o que se tornou a “intuição” no decorrer dos sécu- 
los. Um husserliano purista responderá talvez que a geometria, ocupando-se do 
espaço, ergue-se pois do “mundo” espaço-temporal e não de essências “puras”. 
Mas o espaço geométrico tocou tão bem o problema das essências que foi dela 
que Platão tirou sua intuição das Idéias. 

A intuição geométrica dos gregos responde pois plenamente ao que diziamos 
da intuição filosófica como fusão da norma e do fato. Euclides apenas escolheu, 
efetivamente, axiomas intuitivos, em oposição às axiomáticas modernas cujos 
axiomas são arbitrariamente escolhidos contanto que sejam todos necessários, 
suficientes em seu conjunto e independentes. Ora, esses axiomas intuitivos de 
Euclides comportam bem os dois caracteres da norma e do fato: são, de uma parte, 
evidentes, o que garantiu sua verdade normativa, e de outra aplicáveis a todas as 
figuras do real, o que garantiu sua “relação ao objeto” ou adequação de fato. 

No curso dos tempos modernos, pelo contrário, e antes do período atual (de- 
pois dentre outros, Hilbert e Einstein), a intuição geométrica sofreu uma série de 
crises que seria muito longo retraçar mas cujo sentido geral é suficientemente 
claro: dissociação progressiva da norma e do fato. Com o dualismo cartesiano do 
pensamento e da extensão, esta, embora “clara e distinta”, não se inclina menos 
para o lado dos fatos, mas recebe do pensamento sua justificação normativa com, 
entre outras, a geometria analítica. Com Kant o espaço é decididamente uma 
forma da sensibilidade e não do entendimento, e os matemáticos do século XIX 
tendiam a fazer da geometria uma matemática “aplicada” em oposição às mate- 
máticas puras: álgebra, análise e teoria dos números. No entanto, a descoberta 
das geometrias não-euclidianas e a estruturação das geometrias segundo as for- 
mas abstratas da teoria dos grupos (de Sophus Lie, etc., ao programa de Erlangen 
de F. Klein) mantinham muito viva a tendência a uma elaboração lógica e nor- 
mativa da intuição geométrica. Com o período contemporâneo a fenda terminou 
e a intuição geométrica, mesmo permanecendo essencial do ponto de vista heurís- 
tico, perdeu seu valor de conhecimento e de verdade em proveito desses dois 
componentes desunidos no futuro: de um lado, uma geometria lógica, que nada 
mais tem de intuitivo (quanto às demonstrações) e que se reduz a puras axiomá- 
ticas formalizáveis (com união da topologia e da álgebra, etc.); e de outro, uma fi- 
sica geométrica, como a de Einstein, que estuda o espaço dos corpos e não mais 
o do pensamento. 

A lição desse desenvolvimento histórico é pois que a intuição inicial, fato e 


270 PIAGET 


norma ao mesmo tempo, só constituía um misto e não uma unidade cognitiva 
necessária, e que, desenvolvendo-se, seus dois componentes tiveram que se sepa- 
rar. É então não somente permitido, mas ainda obrigatório, perguntar-se se a 
intuição filosófica não é a fortiori de natureza composta análoga e exposta aos 
mesmos perigos, isto é, destinada a dissolver-se em duas espécies de componentes: 
uns psicológicos ou físicos e outros lógicos ou normativos. 

A grande astúcia, certamente, da intuição segundo Husserl, e o que lhe per- 
mite pensar que seus componentes são indissociáveis, está em apoiar-se numa 
interação que é indissociável e que é a do sujeito e do objeto, criadora do ““fenô- 
meno”. Mas, e é daí que procede o sofisma, uma coisa é dizer que o fenómeno 
resulta de uma ligação indissociável entre o sujeito e o objeto e outra é dizer que 
a intuição do fenômeno e de tudo o que se encarrega de encontrar nele comportam 
uma ligação indissociável entre os elementos normativos do sujeito e os elementos 
de fato relativos ao objeto. Na verdade, o fenômeno “sendo o que é” (como se cos- 
tuma dizer), a intuição do fenômeno fica sujeita ao erro como à verdade, bem 
como todas as atividades do sujeito. E dizer que o fenômeno é interior à consciên- 
cia, e que é primitivo, imediato, etc., não muda absolutamente nada, pois um dado 
primitivo pode ser menos verdadeiro e mais enganador que um dado elaborado, 
por causa do duplo sentido do termo subjetivo (deformando ou conhecendo). A 
crença segundo a qual a intuição é ao mesmo tempo “contato com o objeto” e 
“verdadeira” reclama pois uma prova dupla, de fato, e de justificação normativa; 
ora, desde que se procuram essas provas, a intuição dissolve-se em experiência e 
em dedução. 

Tal é igualmente a sorte dos outros conceitos próprios ao intuicionismo 
fenomenológico. Uma “essência” é ao mesmo tempo um conceito do sujeito e o 
núcleo fenomenal do objeto. Mas como saber se a essência é “verdadeira”, sem 
examinar à parte a experiência do objeto (submetendo-a, bem entendido, à crítica 
epistemológica) e à parte a lógica da qual se serviu o sujeito para elaborar seu 
conceito? A “intenção” é uma orientação da consciência do sujeito dirigida para 
as essências e produtora de formas cognitivas, mas se é necessário lembrar sem 
cessar essas direções, a intenção também não é mais suficiente, apesar do tomis- 
mo, para assegurar um sucesso necessário, e isso até no plano do fenômeno, pois 
o inferno do conhecimento, como o dos outros pecadores que não são filósofos, 
está, ele também, prenhe de boas “intenções”. 

Responder-se-á que, dissolvendo a intuição em verificação experimental e 
dedução, dissociamos a interação do sujeito e o objeto reconhecida como indisso- 
ciável. Não é nada disso; mas substituímos, como a própria análise do fenômeno 
o exige, a idéia inteiramente arbitrária hoje em dia de um começo absoluto pela 
idéia dialética de um devir constante. Ora, tanto a história das ciências como o es- 
tudo do desenvolvimento individual mostram que essa interação, mesmo perma- 
necendo indissociável, passa de uma fase de indiferenciação a uma de coordena- 
ção: a partir de um estado de centração sobre um eu que se ignora e no qual o 
subjetivo e o objetivo estão inextrincavelmente misturados, a descentração 
progressiva do sujeito conduz a um duplo movimento de exteriorização, tendendo 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 271 


à objetividade física e de interiorização tendendo à coerência lógico-matemática, 
mas o conhecimento físico continua impossível sem o quadro lógico-matemático 
cuja constituição é impossível sem uma adaptação a um objeto “qualquer”. É esse 
duplo movimento que o intuicionismo negligencia e é por isso que a “intuição” 
continua sendo um pobre instrumento específico de conhecimento filosófico. 

F) O problema do conhecimento dialético é bem outro, e se falamos muito 
pouco a seu respeito é porque poucos autores, dépois de Hamelin, fazem dele um 
instrumento de conhecimento específico à filosofia: com efeito, o modo de pensa- 
mento dialético é de tal maneira inerente a todas as ciências que têm como objeto 
uma evolução ou um devir, que toda epistemologia dialética se apóia necessaria- 
mente na experiência adquirida em tais disciplinas, sociais ou naturais. 

No entanto, tanto a conversão de Sartre ao pensamento dialético como as 
tendências próprias a um ou dois filósofos do Este mostram a possibilidade de 
uma dissociação entre duas dialéticas, uma imperialista e propondo dirigir as 
ciências, outra imanente aos desenvolvimentos espontâneos das ciências e se 
transformando reflexivamente em uma epistemologia mais geral. A primeira é a 
dialética dos conceitos, predominante em Hegel e pronta a renascer sob outras 
formas em todas as situações onde a filosofia for retomada pela sua ambição de 
guardiã do saber absoluto: na sua Crítica da Razão Dialética, Sartre já diz que a 
verdadeira explicação deve ser construtiva em oposição às generalizações induti- 
vas descritas pelo positivismo; Sartre não parece prever a extensão atual do 
construtivismo em todos os domínios científicos, experimentais ou dedutivos. A 
segunda forma de dialética não tem como objeto os conceitos como tais, mas as 
interpretações dos dados de experiências, e corresponde assim, atualmente, a uma 
das correntes mais vivas da filosofia das ciências, nas suas epistemologias 
especializadas. Não nos cabe pois discuti-la aqui, já que a oposição radical entre 
uma tal dialética e toda “intuição” está suficientemente clara. 


Resumindo os capítulos II e III, pode-se, parece-me, concluir assim: a função 
metafísica, própria à filosofia, leva a uma sabedoria e não a um conhecimento, 
porque é uma coordenação raciocinada de todos os valores, inclusive os cogniti- 
vos, mas ultrapassando-os sem permancer no plano do conhecimento apenas. Por 
outro lado, e sem exagero, pode-se sustentar que tudo o que foi produzido de váli- 
do pelos filósofos no terreno do próprio conhecimento, e não sonhamos absoluta- 
mente contestar sua imensa importância, foi devido a uma reflexão sobre ciências 
já constituídas ou em vias de constituição, ou a felizes iniciativas, antecipando a 
possibilidade de ciências ainda a se constituírem, como testemunha a história das 
idéias ulteriores aos seus trabalhos. Por outro lado, o único modo de conheci- 
mento invocado a título de instrumento específico próprio à filosofia, a saber, a 
intuição, aparece como um misto cuja análise revela os dois componentes ainda 
indiferenciados de experiências e de inferência dedutiva. 

Mas como explicar essa confiança nas diversas formas de intuições, que 


PDA PIAGET 


constituem assim a ilusão central das filosofias, propondo-se a atingir uma forma 
supracientífica de conhecimento? Pelo fato de existir um conjunto de valores 
vitais, cuja avaliação axiológica ultrapassa as fronteiras do conhecimento cienti- 
fico, e pelo fato de que esses valores correspondem, por outro lado, a intuições 
específicas, estranhas ao conhecimento do ser, mas constitutivas de tais valores 
como exatamente vitais, conclui-se então que esses instrumentos intuitivos, perfei- 
tamente legítimos como fontes de avaliação, podem servir igualmente de instru- 
mentos de conhecimento quanto a esse valor particular que a verdade representa. 
Esquece-se assim que a verdade não adquire seu valor próprio senão encarnando- 
se em regras necessárias de verificação, e se lhe aplicam os processos intuitivos 
cujo caráter específico é o de não serem utilizáveis senão no acesso aos valores 
não congnitivos mas vividos. Numa palavra, confere-se à coordenação dos valo- 
res um estatuto ontológico que eles não poderiam comportar, para legitimar a 
passagem ilusória das intuições avaliadoras a uma impossível ilusão epistêmica. 
É, no entanto, êsse gênero de sofismas que Kant já denunciava há dois séculos 
atrás.? 


Nota adicional sobre a ontologia 
e as “insuficiências” da ciência 


O “filósofo” dá a si próprio, facilmente, uma imagem positivista da ciência 
e a reduz ao catálogo dos fatos e das leis. Os procedimentos da ciência, também, 
não são considerados senão como técnicas, permitindo a descrição dos fatos e o 
estabelecimento das leis. Por isso a filosofia reserva-se o privilégio de discutir o 
valor da ciência e, por conseguinte, de sua verdade. 

Ele censura então a ciência por negligenciar: 


D)o homem; 
2) o Ser, e também 
3) a significação dos fatos. 


Muitas vezes essas três críticas resumem-se em uma: a ontologia (ou melhor, 
a ôntica) concentra-se numa metafísica do sentido, e só há sentido para o homem. 


Mas: 


*º Um belo exemplo desse esquecimento total do kantismo na geração ascendente é a obra de F. Brunner, 
Science et Réalité (Philosophie de "Esprit, Aubier). Pode-se resumi-la assim: 1) Não há verdadeira ciência 
senão em Deus; 2) A ciência ignora Deus; 3) Portanto, ela é “antropomórfica”, relativa, imperfeita, etc., 
enquanto só as noções de finalidade transcendente, etc., constituem conhecimentos válidos porque não são 
antropocêntricos. É lamentável que a sabedoria divina, com a qual F. Brunner parece familiarizado, não lhe 
tenha inspirado informações mais completas sobre “a ciência” da qual ele ficou a uma distância inquietante, 
para falar sem escrúpulos e propormo-nos a substituir o Brunnerocentrismo pelo antropomorfismo. Ter-se-ia 
esperado de um espírito tão teológico um pouco mais de honestidade nas suas acusações, antes de proclamar, 
por exemplo, “que a ciência no seu naturalismo ingênuo não pode superar” “a irritante oposição do sujeito 
e do objeto” (pp. 149-150) como se ele conhecesse as inúmeras relações que a esse respeito admitem as mate- 
máticas, a física, a biologia e a psicologia. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 273 


a) ou a elucidação do sentido depende de uma crítica do conhecimento. 
nesse caso a filosofia não se distingue da epistemologia; 

b) ou ela ultrapassa o levantamento epistemológico, o sentido sendo então 
constituído ou manifestado na praxis e na história (cf. a Crítica da Razão 
Dialética). 


Mas o que é que torna inteligível, a história ou a praxis? Uma intuição ime- 
diata? É um conceito epistemológico que pode ser discutido como tal. A “força 
das coisas”? Mas, então, por que filósofos” (Só para fazer a filosofia do engaja- 
mento, mas é o engajamento e não a filosofia que elabora o sentido.) 


Consideremos então as três críticas separadamente: 
1. A Ciência Negligencia o Homem 


Se o homem = eu, único e insubstituível, nada a dizer. Mas a filosofia quase 
nada mais tem a me ensinar senão a revelação da minha liberdade, quaisquer que 
sejam, por um lado, os determinismos do corpo, da sociedade, da história o que 
conduz então a uma filosofia dos valores, sabedoria ou prolegômenos à minha 
sabedoria. 

Caso contrário, o homem é o objeto de conhecimento. A idéia de que o 
homem objeto é o inessencial fenomenal é devida a um duplo sofisma ou a uma 
dupla superstição porque: 


— nada impede a possibilidade de uma psicologia (ou de uma etnologia, 
etc.) do sujeito como sujeito (a não ser no sentido acima, que nos trans- 
fere para o inefável); 

— hoje, mesmo a metafísica procura a essência do homem a partir do fenó- 
meno, ou, como se verá mais adiante, o discurso sobre o fenômeno. 


2. A Ciência Negligencia o Ser 


Heidegger. Introduction à la Métaphvsique, tradução francesa, 1958, P. U. 
F., da França. “A filosofia visa sempre aos fundamentos primeiros e últimos do 
ente”. mas acrescenta, “e isso de maneira que o próprio homem encontre aí, 
expressamente, uma interpretação e também uma intuição dos fins concernentes 
ao ser-homem (p. 17).” 

Mas, pode-se observar então: 


a) que um levantamento sobre o Ser chega finalmente a um levantamento 
sobre o fundamento dos valores: 2 * 


24 Heidegger recrimina Nietzsche (op. cit., p. 213) por não ter compreendido que a origem do conceito de 
valor constituía problema, e de não ter assim “atingido o centro verdadeiro da filosofia”. 


274 PIAGET 


b) a obra de Heidegger, por exemplo, expõe sem cessar o trágico divórcio 
do Ser e do saber. Mas, aceitando esse divórcio, pode-se concluir ou que 
o saber renuncia ao absoluto pelo próprio fato que ele se impõe de 
circunscrever os problemas, ou que as interrogações são orientadas 
diferentemente. O saber descreve nesse último caso a aparência ou a 
realização do Ser nos diversos planos que o método do saber é capaz de 
elaborar; a filosofia não é um saber do Ser: ela tenta assegurar sua reve- 
lação. E desse fato ela tende para a mística ou poesia, e não pode iludir 
essa vocação, respeitável, certamente. Mas o diálogo é interrompido 
entre o logos do saber e o logos de Hôlderlin. O divórcio do Ser e do 
saber pode tão bem marcar a insuficiência da Ciência em revelar o Ser (o 
que ela jamais pretendeu fazer) como marcar a falência da metafísica 
como produtora de verdades. É por isso que, apesar da crítica severa que 
Heidegger faz da noção de valor, é bem no plano dos valores que a refle- 
xão metafísica levanta seu vôo e sua inspiração; 

c) um sinal disso é que uma filosofia dessa espécie se busca no plano do 
falar e não da linguagem enquanto objeto de ciência. Filosofar é traduzir. 
Os dois cursos de Heidegger O Que se Denomina Pensar?, são consa- 
grados um a traduzir uma expressão de Nietzsche, outro a traduzir dois 

versos de Parmênides — e a traduzi-los em grego. Não é que a palavra 
pense: é que não há mais fronteiras entre a língua do Ser e sua meta-lin- 
guagem. Estranho pensamento, que recusa o fato e o cálculo, para conten- 
tar-se com seu próprio exercício. Observar-se-á que Heidegger não tentou 
jamais a crítica da ciência, o que é conceder-lhe muita honra: supõe-se, 
pois, que ela saiba do que fala e que fala muito do objeto que modesta- 
mente ela se fixou. Mas é esquecer também que a própria Ciência põe-se 
em questão, que o ser da microfísica não é o mesmo que o da física gali- 
leana, que o ser matemático de hoje não é mais o mesmo que o de Eucli- 
des e de Descartes, etc. Por que não começar a ontologia por esse levanta- 
mento sobre o ser da (ou das) ciências? 
(E que não se diga que esse ser é o da coisa: é bem um ser para — o sujei- 
to, para o sujeito conhecedor bem entendido.) 

d) Enfim, Sein un Zeit distingue a análise existencial? * (dos entes) da aná- 
lise existencial? * (ontológica, em oposição a Ôntica). Mas só a primeira 
parte do programa foi realizada. Será uma aventura considerar que isso 
marca não a falência, mas a impossibilidade da metafísica? 


3. A Ciência Negligencia a Significação dos Fatos 


Essa crítica, que reaparece correntemente, pode ter dois sentidos. 
a) No primeiro, ela quer dizer que a Ciência só atinge o acidente. Voltare- 
mos, pp. 122-125, a essa concepção, que não é, absolutamente, a do posi- 


25 No original: existentieile. (N. da DIFEL.) 
28 No original: existentiale. (N. da DIFEL.)) 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 255 


tivismo. Doutra parte, a Ciência não se limitou jamais à “caça de Pan”: 
a coordenação dos fatos e das leis, a simulação pelos modelos, a elabora- 
ção da teoria, são outros tantos passos pelos quais se constitui a signifi- 
cação. E não é duvidoso que, por mais “delimitados” que sejam os pro- 
blemas, essa significação seja ordinariamente mais profunda que a 
atingida pela intuição direta. Pretendeu-se algumas vezes que, passando 
dos fatos à teoria, o sábio passa da ciência pura à filosofia. E, com efeito, 
a necessidade de filosofar não poupa, havendo ocasião, o homem de ciên- 
cia. Mas é contrário à natureza do espírito científico imaginar que a “teo- 
ria” ou “sendo” possam elaborar-se segundo uma outra Razão que não 
seja a da ciência. Bem entendido, os métodos — se método quer dizer 
técnica de aproximação, etc. — não são necessariamente os mesmos em 
cada plano de elaboração: mas a ciência não se autoriza duas fontes de 
verdade, dois modos de julgamento, e é nisso que difere da filosofia. 
Brunschvicg (Écrits Philosophiques, t. HI: Sciences et Religion, P.U.F)), 
volta a esse propósito sobre a distinção pascaliana, e mostra excelente- 
mente que o espírito da ciência hoje em dia é necessariamente ao mesmo 
tempo fino e geométrico. 

b) Num segundo sentido, a crítica poderia dizer que a ciência não visa senão 
ao objetivo e ignora por método as significações subjetivas — o que se 
censurou na psicologia do comportamento. Visa-se à adrenalina ou às 
contorções, mas não à cólera, etc. Mas existe uma psicologia da conduta 
(à qual voltaremos na p. 284); a lingiística científica não se limita às 
significações inscritas no dicionário, e o estudo do sentido não é, de 
maneira nenhuma, apanágio da filosofia reflexiva. 


Em resumo, a filosofia teria cem vezes razão se reservasse para si os territó- 
rios onde a ciência não vai, não quer ir, não pode ir no momento. Mas nada auto- 
riza a acreditar que seus processos estão guardados in aeternum. E ela não está 
em condições de provar que seus problemas são por natureza diferentes dos que a 
Razão científica se propõe a abordar. A ciência não visa senão à aparência? Mas 
segundo a fórmula bem conhecida, de todos os caminhos que conduzem ao Ser, o 
parecer talvez seja ainda o mais seguro. Quanto a marcar os limites atuais do 
saber científico, não é a tarefa do próprio pensamento científico? Nenhum filósofo 
faria, sem dúvida, das ignorâncias e das impotências da ciência uma lista tão 
longa e tão severa quanto a que um sábio seria capaz de preparar. 


CAPÍTULO IV 


As Ambições da Psicologia Filosófica 


O termo psicologia filosófica pode ser tomado em dois sentidos muito dife- 
rentes, dos quais reteremos apenas o segundo. De acordo com o primeiro, tratar- 
seia de toda forma de psicologia, qualquer que seja, desde que elaborada por 
autores que também fossem filósofos. Ora, uma tal acepção do termo psicologia 
filosófica não comporta nenhuma significação intrínseca, pois é evidente que os 
filósofos, antes da criação de uma psicologia científica, puderam entregar-se seja 
a ensaios puramente especulativos, utilizando dados psicológicos como ponto de 
“partida de desenvolvimentos metafísicos, seja a inícios de psicologia concreta, 
anunciando a futura psicologia positiva, seja sobretudo aos dois ao mesmo tempo. 
F.-L. Mueller, numa recente obra sobre L Histoire de la Psychologie de 
VAntiquité à nos Jours, onde muitas teses exigirão um exame crítico no curso do 
capítulo V, delineou de maneira excelente os traços essenciais dessa psicologia 
dos grandes filósofos; mas não trataremos dela aqui. O importante é dissipar todo 
equívoco e lembrar claramente (cf. aliás o capítulo II, B) que, se a psicologia cien- 
tífica só começou no século XIX sob uma forma experimental, observações mais 
ou menos metódicas ou ocasionais puderam prepará-la de longa data. 

Hoje, pelo contrário, dá-se o nome de “psicologia filosófica” a uma psicolo- 
gia que se quer explicitamente distinta da psicologia científica e que atribui a si 
própria, como finalidade, completar ou mesmo suplantar essa última. É apenas 
dessa corrente de idéias que se tratará aqui, pois a discussão da sua legitimidade 
e da validade dos resultados obtidos é essencial para o nosso problema geral da 
possibilidade de um conhecimento filosófico distinto de um conhecimento cienti- 
fico. Esse problema geral toma aqui uma forma específica particularmente interes- 
sante ao nosso ponto de vista, já que essa psicologia filosófica se liga a um domí- 
nio delimitado, tido como diferente do da metafísica e relativo apenas ao 
“fenômeno”. Pode-se, a esse respeito, fazer com que a psicologia filosófica remon- 
te até a Maine de Biran, pois, se na sua época a psicologia científica não tinha to- 
mado consciência de sua autonomia e a psicologia biraniana não se opunha senão 
à dos empiristas, Biran acreditava na distinção kantiana do número e dos fenôme- 
nos e pensava limitar sua pesquisa somente aos últimos, o que não o impedia de 
prolongá-la em especulações espiritualistas. 

Todavia, sendo sempre solidária com os grandes sistemas metafísicos (senão 
chegaria rapidamente à positividade, o que não significa de modo nenhum ao 
positivismo), a psicologia filosófica está sujeita, é natural, a “variações” de certa 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 2h 


maneira congênitas, o que constitui uma primeira marca distintiva. Responder- 
se-à que isso acontece também no terreno da psicologia científica, o que é verdade 
se se coloca sob um ponto de vista estático. Mas a grande diferença é que os 
psicólogos experimentais pesquisam em conjunto os instrumentos de controle que 
possam pô-los de acordo. Existe uma União Internacional de Psicologia Cienti- 
fica, agrupando todas as sociedades de psicologia de todo o mundo, exceto aque- 
las das quais não se tem a prova do seu trabalho efetivo.? 7? Ora, o Comitê central 
dessa União reúne, há muitos anos, uma quinzena de membros de tendências 
diversas, entre os quais, no momento, dois representantes de países do Este e dois 
padres, sem que surgisse a menor dificuldade na elaboração do programa dos 
Congressos internacionais ou das pesquisas em comum (essas últimas devendo 
comportar, entre outras coisas, pesquisas comparativas para verificar a generali- 
dade de certos fatos e ver se eles dependem ou não do meio cultural). Parece-me 
difícil conceber um Comitê internacional ocupando-se de psicologia filosófica que 
fosse tão harmonioso, se compreendesse no seu seio, tomistas, partidários do 
materialismo dialético, fenomenologistas, bergsonianos, kantianos, racionalistas, 
etc. 

A) Um primeiro problema é relativo ao próprio objeto da psicologia filosó- 
fica. Será possível o acordo sobre as palavras se se disser que esse objeto sai dos 
fenômenos, mas a fenomenologia põe num tal conceito uma coisa bem diferente 
da psicologia científica; e a “psicologia racional”, sempre ensinada pelos tomis- 
tas, ignora por princípio a distinção entre o fenômeno e o número, distinção aliás 
negada também por muitos outros, ou tomada em aceitações bem variáveis. Por- 
tanto a questão não é essa, mas sim saber: 1.º Se a psicologia filosófica se ocupa 
de “fatos” ou de outra coisa que se denominará “essências” ou “intuições”; 2.º Se 
o que se designa pelas palavras “intenção” ou “significação” sai de uma ou da 
outra dessas possibilidades; 3.º Estabelecer se esse objeto da psicologia filosófica 
é ou não relativo somente à consciência e se a linha de demarcação entre as psico- 
logias filosófica e científica deve ser traçada em função dessa consciência ou da 
introspecção. 

Em relação aos fatos ou às essências, as psicologias filosóficas de Maine de 
Biran ou de Bergson não hesitam em considerar que elas se colocam no terreno 
dos fatos e aí desejam permanecer, mas consideram que atingem melhor os fatos 
que o empirismo ou que a psicologia de laboratório, e que elas fornecem melhores 
interpretações neste caso. É pois nesse plano que conviria discuti-las. 

Por outro lado, a psicologia de Sartre, etc., pretende transcender os fatos em 
proveito das essências, mas a questão é saber se ele compreendeu o que seja um 
“fato” no domínio da psicologia, dada a definição bastante estupefaciente que ele 
propõe: “Aguardar o fato é por definição aguardar o isolado, é preferir, por positi- 
vismo, o acidente ao essencial, o contigente ao necessário, a desordem à ordem; é 
rejeitar por princípio o essencial no futuro: “É para mais tarde, quando tivermos 
reunido bastantes fatos”. Os psicólogos não vêem, com efeito, que é tão impos- 


27? Isso quer dizer que por intermédio dessas Sociedades a Associação agrupa mais de 40 000 membros. con- 
vidados para os congressos internacionais. 


278 PIAGET 


sível atingir a essência amontoando acidentes quanto chegar à unidade ajuntando 
indefinidamente algarismos à direita de 0,99. Se seu único alvo é acumular conhe- 
cimentos de detalhes, nada se pode dizer; simplesmente não se compreende bem 
qual seja o interesse desses trabalhos de colecionador. Mas se, na sua modéstia, 
anima-os a esperança louvável em si de que se realizafa mais tarde, baseada nas 
suas monografias, uma sintese antropológica, estão em contradição com eles 


próprios”.?º 


Pode-se, é evidente, encontrar nos círculos psicológicos (“a psicologia atrai 
os psicopatas”, dizia Claparêde), personagens mantendo a mentalidade de cole- 
cionador de borboletas ou de cartões postais, como às vezes acontece de se encon- 
trar nos círculos filosóficos, esquizóides atingindo as “essências” por um preço 
muito barato. Mas descrever o trabalho de laboratório como o faz Sartre, prova 
evidentemente que lá não se puseram jamais os pés e que não se tem a menor 
noção do que seja uma pesquisa experimental. 


Um “fato”, tal como o concebem os que dele se ocupam, apresenta três 
caracteres dos quais pode-se perguntar se O primeiro e o terceiro não se avizinham 
do que Sartre chama a “essência” e do qual o segundo serve de controle aos ou- 
tros dois: com efeito, cada “fato” científico constitui: a) Uma resposta a uma 
questão; b) Uma constatação ou leitura; c) Uma série de interpretações já impli- 
citas tanto na própria maneira de apresentar o problema, quanto (infeliz ou feliz- 
mente, como se queira) na constatação como tal, ou leitura da experiência, e expli- 
citas na maneira de compreender essa resposta dada pelo real à questão 
formulada. 


a) Um fato é primeiro uma resposta a uma questão. Se Sartre tivesse consul- 
tado psicólogos antes de julgá-los à luz do seu gênio, teria sabido que eles não 
aguardam o acidente mas sim começam por formular problemas a si próprios. 
Esses problemas são mais ou menos inteligentes, mas são problemas; por exem- 
plo: estabelecer se no sujeito em desenvolvimento, isto é, na criança, o número 
inteiro se constrói diretamente a partir da classe lógica, por correspondência biu- 
nívoca e construção de uma “classe de classes equivalentes” como o pensavam 
Frege e B. Russell, ou se a construção é mais complexa e pressupõe a noção de 
ordem. Não sei se esse problema toca as “essências” porque nunca compreendi 
muito bem o que seja uma essência e encontrei entre os filósofos respostas um 
tanto diversas demais, mas sei que Frege acreditava encontrar a essência do nú- 
mero na correspondência biunívoca e recíproca, independentemente de qualquer 
psicologismo e que os trabalhos de Frege conduziram Husserl a pesquisar as 
essências no lugar dos “acidentes”. Penso pois que um problema bem formulado 
é sempre conceitual e participa de perto ou de longe do que alguns chamam de 
essências; e que o problema escolhido aqui como exemplo toca bem de perto à 
“essência” do número, com a diferença, capital aliás — sobre a qual voltaremos 
— que, em lugar de procurar essa essência no meu eu, apesar dos preconceitos 
favoráveis que nutro a seu respeito, creio ser prudente examiná-la em pessoas em 


28 Esquisse d'une Théorie des Emotions, 2.º edição, 1948, p. 5 (citado por F.- L. Mueller, loc. cit., p. 406). 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 279 


formação, que não sofreram muitas sofisticações doutrinais ou que friamente as 
deixaram cair. É verdade que às vezes um fato parece semelhar-se a um “aciden- 
te”, como no caso da maçã que cai ao lado de Newton, mas o acidente só se tor- 
nou um “fato” porque Newton formulava a si próprio certas questões. Se Adão 
tivesse deixado cair a maçã que Eva lhe estendia, talvez tivesse escapado, e nós 
com ele, do pecado original, mas não teria por outro lado descoberto a gravitação. 

b) Um fato é em seguida uma constatação ou “leitura da experiência” e é 
aqui que os mal-entendidos são os mais graves do ponto de vista da essência e do 
acidente porque os filósofos, como por prazer, simplificaram ou confundiram os 
problemas (e confundiram porque simplificaram), quer tenham sido empiristas, 
positivistas ou fenomenologistas, etc., em vez de se entregarem à única pesquisa 
que permitiria vê-los de maneira clara: estudar experimentalmente sujeitos que 
constatam um fato, de maneira a analisar no que consiste essa constatação. Ora, 
essa análise está longe de ter sido levada até onde conviria, mas nós a captamos 
no Centro de Epistemologia Genética e sabemos bastante a seu respeito?” para 
poder afirmar que o estudo experimental da constatação contradiz a interpretação 
que dele dá o empirismo (ou como F. Gonseth dizia de nossos trabalhos: “O estu- 
do empírico da experiência refuta o empirismo”) e com ela a interpretação dos 
que, para criticar o “fato”, se atêm à maneira pela qual o empirismo o concebe. 

Como Duhem o havia mostrado há muito tempo no terreno dos fatos físicos, 
uma constatação é sempre responsável por um sistema de interpretação, ou, como 
dizia ele, por uma “teoria”. Ora, o extraordinário é que acontece o mesmo em 
todos os níveis. Uma criança a quem se mostra uma série de hastes verticais orde- 
nadas em diferenças iguais (a linha das pontas sendo então uma reta inclinada) ou 
decrescentes (essa linha sendo então hiperbólica) e a quem se pede comparar duas 
diferenças percebidas no início e lá pelo fim da série, entrega-se a essas constata- 
ções perceptivas de maneira diversa, conforme ela se dê ou não uma “idéia” da 
linha das pontas; percebe uma linha como horizontal ou como oblíqua conforme 
tenha ou não tido a “idéia” de procurar referências exteriores à figura, etc. Desde 
o nível perceptivo, a constatação do fato é pois solidária de uma estruturação 
interpretativa. Com maior razão ainda, desde que se trate de constatações comple- 
xas, como no caso da formação do número e da correspondência biunivoca (cita- 
da em a). Acreditei “constatar” a existência de um nível onde a criança não acre- 
dita na conservação do número (logo, na permanência da equivalência por 
correspondência) assim que se mude a disposição espacial dos elementos: mas 
minha “constatação” foi bastante “objetiva” para que outros observadores “cons- 
tatem” os mesmos “fatos”? Na realidade, muitos dos meus leitores tiveram os 
mesmos escrúpulos e só me certifiquei lendo os resultados dos controles feitos em 
muitos outros países. 

Resumindo, a própria constatação é conceitualizada e a “leitura” da expe- 
riência jamais é uma simples leitura e na realidade comporta toda uma estrutura- 
ção. Estamos pois longe do “acidente” ou da “desordem” aos quais Sartre se refe- 
re, e se é verdade que a conquista do objeto comporta uma série de aproximações 


29 Veros Etudes d'Epistémologie Génétique, P.U. F..vol. Va X. 


280 PIAGET 


comparáveis à passagem de 0,99 a 1 (e desafio Sartre a atingir o limite melhor que 
nós, se bem que ele experimenta a confortável impressão de instalar-se lá direta- 
mente pela “intuição”), é essa série de aproximações que se chama a conquista da 
objetividade a partir dos inevitáveis erros subjetivos do início. Descrever essas 
diligências com os termos “amontoar acidentes” significa simplesmente que se ig- 
nora tudo a respeito dessa ascese que a objetividade comporta e surgirá o pro- 
blema de saber se não está, precisamente nisso, a marca distintiva da psicologia 
filosófica. 

c) Um “fato” supõe interpretações implícitas desde a posição do problema e 
a constatação, mas ele só é um fato científico quando conduz a uma interpretação 
explícita que assegure sua compreensão. Que essa interpretação possa ser adiada 
por prudência (“isso será para mais tarde”), acontece, é claro e é uma nova marca 
da objetividade. Mas não impede, em nada, a interpretação provisória ou hipoté- 
tica, e se não se procedesse assim não se procuraria reunir outros fatos. 

Numa palavra, a condenação dos “fatos” cujo valor acabamos de avaliar 
não depende do problema da essência e do acidente, é antes testemunho de uma 
dificuldade em compreender a importância da objetividade. Falta-nos examinar a 
validade de um conhecimento psicológico direto das “essências” e sobretudo 
perguntar-nos se é possível um conhecimento “subjetivo”, em outras palavras se, 
porque a psicologia é o conhecimento do sujeito e da sua subjetividade, nos pode- 
mos, por isso mesmo, dar o direito de falar de conhecimento tratando subjetiva e 
não objetivamente dessa subjetividade inerente ao sujeito. A razão central da opo- 
sição dessa psicologia fenomenológica aos fatos é que, evidentemente, para ela o 
saber se desumaniza, esquecendo suas raízes existenciais porque o fundo do psi- 
quismo é irracional: a emoção é uma atitude mágica, a imagem é uma ausência do 
objeto que quer se fazer passar por presença, etc. Essa tese significaria não apenas 
que a inteligência não é tudo na vida mental, o que é evidente, mais ainda, que as 
estruturas racionais não constituem senão superestruturas muito secundárias, em 
lugar de estarem ligadas às estruturas do organismo e às da coordenação geral das 
ações, como por minha parte eu suporia. Mas, no estado atual dos conhecimentos, 
essas questões de conjunto não podendo dar lugar a nenhuma solução demons- 
trada, é claro que as hipóteses irracionalistas permanecem plausíveis, porém no 
momento esse não é o problema. Precisamos, isso sim, saber se para compreender 
o irracional é necessário utilizar um pensamento irracional ou se este corre o risco 
de cair na simples descrição romanceada em oposição à inteligência que (mesmo 
se ela for apenas uma superestrutura negligenciável para o sujeito e que não esteja 
ligada às profundas estruturas do seu ser) compreende tudo, inclusive a desordem: 
por exemplo, para compreender o acaso, que é o modelo do irracional, o físico ou 
o matemático não se sentem constrangidos em pensar “no acaso”. Que certos 
psiquiatras possam experimentar a necessidade, para compreender seus doentes, 
de entrar na sua pele, de pensar irracionalmente e adotar, entre eles próprios e o 
paciente, uma atitude existencial e não teórica, é perfeitamente legítimo e explica 
o sucesso da fenomenologia em alguns alienistas contemporâneos; apenas é um 
ponto de vista essencialmente prático cujo sucesso não prova nada do ponto de 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 281 


vista científico. Mas que uma psicologia filosófica pretenda apoderar-se do irra- 
cional abraçando seus contornos, isso suscita maiores dificuldades, pois trata-se 
então de conceitualizar esse vivido, e toda conceitualização é um retorno à razão. 

Não querendo portanto curvar-se às exigências da objetividade científica 
cuja ambição, entretanto, é compreender cada vez mais (ver B) toda a vida men- 
tal, inclusive a subjetividade em cada um de seus aspectos, mesmo irracionais, e 
não podendo escapar às exigências da conceitualização, os psicólogos fenomeno- 
logistas procuraram então elaborar conceitos que traduzem os movimentos da 
consciência melhor que os conceitos “positivos”: tais são as noções fundamentais 
de intenção e de significação. Mas é preciso examinar se são noções válidas (to- 
madas no seu sentido geral e independentemente das aplicações particulares que 
delas foram feitas nos problemas da emoção, da imagem ou da percepção) e se, 
sendo válidas, são realmente estranhas à conceitualização da psicologia cientifica. 

A noção de intenção comporta duas significações das quais a segunda pro- 
longa a primeira num plano epistemológico. Do ponto de vista psicológico, é a 
afirmação de que todo estado de consciência exprime um movimento “orientado 
para” (não dizemos um alvo, pois isso já é uma interpretação) um estado final 
buscado e desejado: toda vida mental seria intencionalidade e, por não 
compreender essa última, sua dimensão essencial seria empobrecida. Do ponto de 
vista epistemológico, a “intenção” de Husserl deriva da intentio que seu mestre 
Brentano tirou do tomismo após ter abandonado a Igreja: é ainda a intenciona- 
lidade que, no plano do pensamento, pode atingir as formas ou essências quando, 
no conhecimento, o sujeito “torna-se” o objeto, não material mas intencional- 
mente. 

Ora, a intencionalidade é efetivamente uma dimensão fundamental da vida 
mental que cada um leva em consideração em graus diversos, desde que a psicolo- 
gia abandonou essa espécie de atomismo mecanicista que o associacionismo tinha 
proposto como modelo exclusivo. O próprio termo intenção talvez seja menos 
empregado que outros, mas a idéia é geral. Unicamente, foi sobretudo a seu res- 
peito que Dilthey, Spranger, Jaspers, etc., desenvolveram a oposição bem conhe- 
cida entre “compreender” e “explicar”: a compreensão situa-se intuitivamente na 
intenção de outrem, enquanto a explicação refere-se ao mecanismo causal. Foi 
essa oposição, que se tornou clássica nos países germânicos, que alimentou as 
tendências antiexperimentalistas em certos meios e é evidente que a psicologia 
fenomenológica, falando de “intenções”, situa-se no terreno da “compreensão” e 
dá a si própria a impressão de contrariar por isso mesmo as atitudes “explicati- 
vas” e objetivas da psicologia científica. 

Mas se a distinção entre explicação e compreensão é perfeitamente funda- 
mentada como correspondendo aos dois pontos de vista diferentes da consciência 
do sujeito e do comportamento no seu conjunto, nada mais inútil que ver aí uma 
oposição de princípio, pois aí está o modelo de dois pontos de vista complemen- 
tares, não antitéticos, e mesmo complementares no sentido usual e lógico do 
termo, não no sentido físico (onde os complementares são alternativos e não 
podem ser realizados simultaneamente). O resultado disso é que, mesmo quando 


282 PIAGET 


não se fala explicitamente em intencionalidade, numa teoria de tipo “explicativo”, 
a noção pode aí desempenhar um papel central, mas em um outro vocabulário. 

Se posso citar a mim mesmo a título de exemplo, tudo o que procurei anali- 
sar em termo de esquematismo senso-motor e de esquemas de assimilação está 
penetrado de intencionalidade (e não foi por nada que o filósofo fenomenologista 
Aron Gurwitsch, de Nova York, bem mais ao corrente da psicologia que seus 
colegas de língua francesa, utiliza minha noção de assimilação para justificar suas 
teses). Desde antes da linguagem o bebê reage aos objetos, não por um jogo mecà- 
nico de associações estiímulo-resposta, mas por uma assimilação integrativa a 
esquemas de ações que imprimem uma direção aos movimentos e englobam a 
satisfação de uma necessidade ou de um interesse. Primeiro isolados em função 
das diversas possibilidades ainda descoordenadas do próprio corpo, esses esque- 
mas coordenam-se por assimilação recíproca e pode-se falar de intencionalidade 
estrita a partir dessas coordenações*º. De maneira nenhuma intelectualista, já 
que o esquema de assimilação é ao mesmo tempo motivação e compreensão, esse 
modo de interpretação acaba de ser aplicado por S. Scalona às reações afetivas do 
primeiro ano, cuja importância ulterior é conhecida. 

Substituindo assim a assimilação pela noção mecanicista de associação (e 
isso vale naturalmente a fortiori para a continuação do desenvolvimento), incor- 
pora-se a intencionalidade em um ponto de vista “explicativo”, pois o esquema- 
tismo assimilador constitui o prolongamento de mecanismos biológicos, sem 
excluir em nada o ponto de vista da “compreensão” subjetiva. Em particular, no 
que se refere à finalidade, noção subjetiva toda relativa à consciência do próprio 
sujeito, introduz-se um paralelismo entre essa noção egocêntrica que seria ilusória 
do ponto de vista explicativo e um sistema causal de desequilíbrio e reequilibra- 
ções, a marcha para o equilíbrio explicando-se ela própria por um jogo de regula- 
ções fechadas ou auto-regulações. 

No que se refere à noção de significação, da qual muitos chegam até a esta- 
belecer o critério da psicologia filosófica em oposição à psicologia cientifica, esta 
última lhe atribui, pelo contrário, um papel cada vez mais importante, de pleno 
acordo cor a lingiística saussuriana e com a antropologia cultural de Lévi- 
Strauss. Na perspectiva há pouco indicada, o esquematismo senso-motor já é, 
bem antes da linguagem e da representação, carregado de significações, pois assi- 
milar um objeto a esquemas consiste em conferir-lhe significações. Mas os signifi- 
cantes próprios a esse nível não são ainda senão indícios ou sinais perceptivos. 
Por outro lado, com as funções semióticas aparecem significantes diferenciados: 
os signos da linguagem e os simbolos próprios ao jogo simbólico, às imagens 
mentais, etc. A fórmula de Sartre, segundo a qual a imagem é uma ausência de ser 
querendo fazer-se passar por presença, não é mais que uma descrição romanceada 
de toda representação, na qual um significante diferenciado, seja símbolo ou 


30 E de uma intencionalidade que é criadora de significações, isto é, desse gênero de realidades que os 
fenomenologistas descrevem em termos de “essências” quando vêem, com razão, na intencionalidade elo 
indissociável entre o sujeito e o objeto. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 283 


signo, permite evocar uma realidade ausente. “Ato mágico”, diz Sartre, “encanta- 
mento destinado a fazer aparecer o objeto no qual se pensa”, seja, mas o verbo 
também é magia, o signo algébrico o é do mesmo modo, sendo que a única dife- 
rença é que a imagem evoca dados perceptivos (sem entretanto derivar da percep- 
ção), enquanto que o signo evoca realidades conceituais. É claro que há aí magia 
se se começou por decidir a nada “explicar”, limitando-se a compreender intuiti- 
vamente, mas pode-se então perguntar a si próprio se a magia é inerente a Sartre, 
cujo modo de conhecimento lembra aqui o co-nascimento*! de Claudel, ou se ela 
está no sujeito: ora, para quem olha o sujeito sem se esforçar em atribuir-lhe uma 
magia, pelo menos nesses pontos, a aparição do símbolo carregado de metáforas 
lá por um ano e meio a dois anos prolonga a imitação, pois a imitação, que é uma 
espécie de representação em atos materiais, consegue, uma vez adquirida uma 
virtuosidade suficiente, libertar-se do seu contexto motor inicial, funcionar sob 
formas diferenciadas (quer dizer, sem que a primeira cópia imitativa se faça na 
presença do modelo) e finalmente interiorizar-se, exatamente como a linguagem 
quando ela se torna linguagem interior. A imagem mental deve então sua forma- 
ção a uma imitação interiorizada, cujos poderes são ainda muito reduzidos na 
criança (apesar da imaginação que se lhe atribui) e devem ser completadas por um 
jogo simbólico ainda de imitação exterior, mas desenvolvendo-se em seguida cada 
vez mais sob a ação do pensamento. 


Resumindo, nem a profunda intencionalidade da vida mental nem o papel 
absolutamente geral da noção de significação, que bem poderia ser a caracte- 
rística cognitiva mais essencial da consciência, em paralelo com o aspecto diná- 
mico próprio às intenções, constituem uma busca reservada à psicologia filosó- 
fica: são noções correntes na psicologia contemporânea. 


B) Iremos nós, então, encontrar nas noções de consciência e de intropescção 
o critério do objeto próprio às psicologias filosóficas? Estamos, com certeza, 
perto do alvo, mas é precisamente sobre esse ponto que os mal-entendidos, 
involuntários ou às vezes quase deliberados, são os mais tenazes e os mais carre- 
gados de conseguência. Na sua Psychologie Contemporaine também destinada, 
assim como sua Histoire de la Psychologie, a reabilitar a psicologia filosófica, 
F.-L. Mueller enuncia por exemplo esse surpreendente propósito acerca da tendên- 
cia atual de considerar o animal como um sujeito e não como um autômato: “Po- 
de-se negar que esse reconhecimento do animal como sujeito abre uma ““proble- 
mática” de ordem filosófica? Poder-se-ia dizer que ainda aqui a filosofia, expulsa 
pela porta, volta pela janela” (p. 81).º? Não insistimos no termo “a” filosofia, que 
nessa questão se torna ainda mais divertido porque volta a excluir d“a” filosofia 


31 Em francês: co-naissance (co-nascimento) e connaissance (conhecimento). (N. da DIFEL.) 

32 Essa passagem refere-se entre outros a F. J. J. Buytendijk, antigo professor da Universidade calvinista de 
Amsterdam e depois da Universidade católica de Utrecht, onde se converteu à fenomenologia após uma bri- 
lhante carreira de experimentalista. O autor louva-o por tratar o animal como sujeito, embora ele não tenha 
produzido mais nada em psicologia animal, mas Mueller não viu que a escola dita “objetivista”, de Lorenz 
e Tinbergen, fez o mesmo e inclusive publicou as atividades espontâneas do organismo, mas sem cessar, 
entrementes, de prosseguir na pesquisa da conexão causal (com modelos cibernéticos, entre outros). 


284 PIAGET 


a de Descartes que acreditava nos animais-máquinas. Mas o que é surpreendente 
é, não que a filosofia se interesse pelo sujeito, já que tudo, inclusive o organismo, 
pode dar lugar a uma problemática filosófica (cf. a bela obra de F. Meyer e 
os ensaios metafísicos de Ruyer), mas que o sujeito pareça não concernir, se- 
gundo Mueller, à psicologia científica e que sua única evocação faça com que 
a filosofia entre pela janela. Quanto a mim, que há mais de quarenta anos não 
cesso de insistir sobre as “atividades do sujeito” no caso dos mecanismos senso- 
motores e da percepção tanto quanto no da leitura da experiência e da inteligên- 
cia em todos esses níveis, eu não sabia que vivia com janelas tão mal fechadas. 

Sejamos, pois, precisos e claros. Se Watson e a reflexologia soviética quise- 
ram ou pareceram banir a consciência do seu campo de estudos, a descendência 
de Watson (partidários da dita “teoria do comportamento”) fala hoje sem parar 
em atividades conscientes e os psicólogos russos não cessam de se ocupar do 
“problema da consciência”. O ponto de vista mais difundido na psicologia cientí- 
fica de hoje é aquele que Janet, Claparêde, Piéron, e tantos outros denominaram 
“psicologia da conduta”, a conduta sendo definida como o comportamento 
incluindo a consciência. 

E a prova de que os partidários da psicologia da conduta não negligenciam 
a consciência está em que eles pesquisam suas leis. Claparêde notou com sutileza 
que as crianças de uma certa idade, que generalizam a todo transe, sem considerar 
diferenças, têm muito mais dificuldade quando se lhes pede para comparar dois 
objetos (uma abelha e uma mosca, etc.), em indicar as semelhanças que as diferen- 
ças: daí ele tirou sua “lei de tomada de consciência”, segundo a qual a consciência 
liga-se primeiro às circunstâncias opondo obstáculo a uma atividade, logo às 
razões de desadaptação e não a essa própria atividade, cujo funcionamento não 
dá lugar à reflexão enquanto ele permanece adaptado. A consciência procede, 
desse modo, da periferia na direção do centro, e não inversamente. É verdade que 
Sartre o contesta (sem provas) e não crê no inconsciente. Ele teve muita razão 
quando atribuiu a culpa à autenticidade da inconsciência das ““dissimula- 
ções” freudianas e eu sustentava por minha vez, nessa época, que a dissimulação 
devida à censura não conduz jamais à inconsciência senão com a cumplicidade do 
sujeito. *? Mas Sartre se esquece, e estudaremos por que, da inconsciência dos 
processos que nunca foram conscientes e dos quais só se toma consciência 
laboriosamente e por um esforço retrospectivo de reflexão: só se está consciente 
dos resultados do pensamento e não dos mecanismos (daí o dito espirituoso de 
Binet: “O pensamento é uma atividade inconsciente do espírito”), a não ser por 
uma reflexão sujeita ao erro e sempre incompleta. 

Independentemente das questões de tomada de consciência e de graus de 
inconsciência, poder-se-ia sustentar que a psicologia científica é levada, do mesmo 
modo, a negligenciar a consciência, devido à sua tendência muito geral a soldar os 
processos mentais a processos orgânicos. Isso é bem verdade se se considera ape- 
nas os primórdios da sua história e as primeiras fases da pesquisa. Mas o que no 


33 Ver La Formation du Symbole, Delachaux e Niestlé. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 285 


entanto se esquece totalmente e o que não aparece particularmente em nada nos 
panoramas filosófico-históricos de Mueller é a tendência cada vez mais corrente 
de recorrer a “modelos abstratos”, e isso em todos os domínios da psicologia rela- 
tivos às funções cognitivas como a percepção e a inteligência (mas não exclusiva- 
mente: ver as aplicações das teorias da informação e dos jogos nos trabalhos de 
Berlyne sobre a curiosidade e o interesse, ou as relações entre a teoria da decisão 
e a vontade). Notemos primeiro que isso é verdadeiro até em psicofisiologia e em 
neurologia: Fessard deu um modelo probabilista ao condicionamento, sob a 
forma de uma rede conjectural diferenciada, e toda mecano-fisiologia contempo- 
rânea procura seus modelos na cibernética e nos calculadores eletrônicos 
(homeostato de Ashby, máquinas de Turing, etc.). De minha parte, no que se refe- 
re à inteligência, recorri, e desde meus primeiros trabalhos em 1921, a modelos 
logísticos, depois probabilistas, e existem ainda muitos outros (teorias dos gra- 
phes, etc.).Ora, essa utilização cada vez mais generalizada dos “modelos abstra- 
tos”, não chegou, absolutamente, até essa mecanização e a essa concepção da 
consciência epifenômena com a qual muitos psicólogos associacionistas sonha- 
vam em uma época em que se contentavam, eles e os filósofos, com uma simples 
reflexão sobre os fatos, se bem que esses fatos já estivessem reunidos metodica- 
mente, mas sem poder ainda recorrer a instrumentos dedutivos precisos. Pelo 
contrário, o recurso a esses instrumentos e a essas máquinas conduz cedo ou tarde 
à idéia de que, se existe isomorfismo de estruturas entre a organização do meca- 
nismo material julgado imitar o cérebro e a organização do pensamento cons- 
ciente (voltaremos a esse paralelismo a propósito de Bergson) subsiste uma dife- 
rença fundamental entre eles: enquanto a máquina procede causalmente, de tal 
maneira, por exemplo, que os equivalentes mecânicos dos números 2 e 3 dão, uma 
vez reunidos, o egrivalente mecânico de 5 graças a circuitos, transmissões de 
energia, etc., saindo apenas da causalidade física, o pensamento consciente proce- 
de, por outro lado, por puras “significações” cujos liames que as unem não são de 
ordem causal mas sim consistem em “implicações” no amplo sentido. pois 2 mais 
3 não são causa de 5 mas equivalem logicamente a 5 ou o ocasionam de maneira 
implicativa. E não é de hoje nem para responder à psicologia fenomenológica que 
eu oponho desse modo à casualidade o sistema das significações e de suas impli- 
cações, já que defendi sem esmorecimento essa idéia desde 1950º * e que muito 
antes eu já procurava mostrar que a noção de assimilação, substituída pela de 
associação, ocasiona os conceitos de significação e de implicação entre significa- 
ções. Claparéde já dizia que para o cachorro de Pavlov, considerando o cachorro 
cono sujeito (isso por ef. L. Mueller). o som do sino “implica” em comida, sem 
isso ele não salivaria. 

Está pois excluído considerar que a psicologia científica negligencia necessa- 
riamente a consciência, bem como recusar-lhe de se ocupar do “sujeito” (vimos 
isso no capítulo II, D) e é inútil voltar ao assunto. Por outro lado, o problema da 


34 Ver também Traité de Psvchologie Expérimentate de P. Fraissc e J. Piaget, vol. 1. cap. II: L'Explication 
en Psychologie”. 


286 PIAGET 


introspecção continua e é nesse ponto que nos aproximamos da diferença essen- 
cial entre as psicologias científica e filosófica. Mas essa diferença não é devida, 
absolutamente, como se poderia crer, ao emprego da introspecção como tal. E 
certamente trata-se de um procedimento perigoso e fértil em erros sistemáticos, 
todo mundo já insistiu nisso. Mas, combinada com o estudo das condutas, a 
introspecção dá três espécies de esclarecimentos indispensáveis, sem falar, é claro, 
da experiência do vivido, fora da qual as condutas são incompreensíveis. Em pri- 
meiro lugar, o exame da tomada de consciência do sujeito em relação à sua con- 
duta real apresenta em geral um grande interesse: na criança, por exemplo, a 
comparação entre sua tomada de consciência do sentido de um termo e o emprego 
que dele faz efetivamente. Em segundo, os erros sistemáticos da introspecção são 
em si próprios muito significativos. Em terceiro, e sobretudo, os métodos de 
introspecção provocada utilizados sistematicamente por Binet e pela escola de 
Wurzbourg, sem produzirem o que deles esperavam seus autores, tiveram, não 
obstante, uma importância decisiva, mostrando a falsidade da explicação associa- 
cionista do julgamento e o papel secundário da imagem concebida, antes dessas 
verificações, como um elemento do pensamento. 

Se assim é, por que subsiste um desacordo fundamental entre os experimen- 
talistas e todos os que, desde que V. Cousin “atormentava sua consciência” para 
dela tirar solenes trivialidades, se dedicaram a uma psicologia introspectiva, che- 
gando até a doutrinas cujo mérito é, pelo menos, ter abandonado esse sentido 
comum, mas em proveito de uma tal diversidade que torna impossível o diálogo 
com os que reclamam verificações? 

Por uma razão que salta aos olhos e que constitui, em definitivo, o único cri- 
tério distintivo entre as psicologias filosófica e científica: é que, quando o filósofo 
fala da consciência, do próprio corpo (e ele fala nisso cada vez mais amiúde), do 
“ser no mundo”, do ser “para outrem” ou “face ao objeto”, etc., ele apenas está 
utilizando a sua própria introspecção sem nenhuma pesquisa de controle, a não 
ser em si mesmo e sobre si. Husserl nos diz bem que uma dimensão essencial da 
sua psicologia é a do “intersubjetivo”, mas trata-se ainda de um intersubjetivo, 
senão vivido por si próprio, pelo menos interpretado por si próprio e sem verifica- 
ção “objetiva”. Falar a um filósofo de verificação “objetiva” é fazer-lhe crer, 
imediatamente, que se vai deformar o “sujeito”, enquanto tudo o que se lhe pede 
é não considerar seu leitor como o leitor de um romance que julga a psicologia do 
livro segundo simpatize ou não com as personagens e o autor, mas como um sim- 
ples e honesto intelectual que nada mais deseja senão acreditar no autor, mas gos- 
taria que se lhe dessem os meios para isso. 

Tomemos um exemplo e o escolhamos no terreno da pura introspecção. Tra- 
ta-se de uma recente pesquisa empreendida por A. Rey sobre uma antiga sugestão 
de Claparêde que lhe perguntara se ele chegava a fazer uma correta imagem mo- 
triz do seu próprio corpo em rotação. Rey havia respondido que acreditava bem 
poder fazê-lo, mas, anos mais tarde, uma observação parece mostrar-lhe que essa 
imagem é muito limitada; apenas, essa introspecção cuidadosa e repetida não o 
satisfazia e ele tentou então o controle: um questionário detalhado, tendo como 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 287 


objeto questões precisas mas não sugestivas e por alternativas sem longas descri- 
ções. As respostas dadas por um certo número de adultos exercitados na observa- 
ção psicológica mostraram-se de fato muito convergentes, o que fornece na ocor- 
rência um controle objetivo de um simples dado introspectivo.? º 

Pergunta-se com espanto no que se tornaria uma tal observação na lingua- 
gem de Sartre, se ele a tivesse feito sobre si próprio (cuidadosamente ou não). 

Por mais justa que seja sua dialética “ontológica” do próprio corpo primeiro 
vivido, depois percebido por outro (ao mesmo tempo que o do outro é conhecido), 
depois conhecido como objeto através do ponto de vista do outro (o que se asse- 
melha bem ao que J. M. Baldwin havia dito há muito tempo em relação à constru- 
ção genética simultânea do ego e do alter à altura dos dois primeiros anos), a 
introspecção de Sartre está canalizada, desde o começo, por dois postulados filo- 
sóficos exprimindo seu eu profundo, o que é muito interessante para a história 
mas insuficiente para a verdade e que nada tem a ver com a introspecção do seu 
leitor, quando esse leitor tem uma outra filosofia ou esforça-se para ver o real, 
corrigindo sua filosofia: o postulado ontológico e o postulado irracionalista. 

O postulado ontológico só tem uma importância relativa, pois na maior 
parte dos casos não acrescenta aos dados fornecidos mais que uma etiqueta verbal 
ou uma declaração de princípio. Sartre acredita estar de posse de uma intuição 
que atinge diretamente o ser. Bergson também, mas segundo Sartre ele se enga- 
nou. Uma futura vaga filosófica atingirá o “ser” de uma outra maneira e mostrará 
que Sartre, por sua vez, extraviou-se pesadamente. Isso não acarreta muitas 
consequências, já que, como Kant o havia demonstrado, cem táleres reais (ou, 
como se diz hoje, providos de uma existência ontológica) não diferem do conceito 
de cem táleres senão por uma propriedade que não modifica as outras qualidades 
dos táleres. É pois uma questão de temperamento se se prefere, para cada repre- 
sentação intuitiva, ter a impressão de apoderar-se do próprio ser ou de procurar 
atingi-lo por aproximações sucessivas (como na passagem de 0,99 a 1!). É preciso 
ler, nas apaixonantes memórias de Simone de Beauvoir, a narração do momento 
em que Sartre, diante de um copo de cerveja, exclama com entusiasmo que graças 
a Husserl pode-se enfim conferir àquele copo um valor ontológico, para 
compreender como o realismo de Sartre liga-se a essas decisões livres que enga- 
jam “toda a consciência” e que haverão de se impor durante toda a vida a qual- 
quer introspecção. De minha parte, quando conheço meu corpo através da visão 
de outrem, prefiro falar de coordenação dos pontos de vista e ver nessa coordena- 
ção uma das inúmeras etapas dessas coordenações gerais de ações e de pontos de 
vista que constituem a razão, mas reconheço de bom grado que juntando a tudo 
a etiqueta “ontológica” isso não muda nada na maior parte das questões. 

Por outro lado, o segundo postulado é muito mais inquietante, porque é de 
natureza a falsear toda introspecção e que, se nos respondem que ele é, precisa- 
mente, tirado da introspecção, só nos resta perguntar se é a que é própria do “eu” 
de Jean-Paul Sartre ou se esta natureza é geral: é o postulado de irracionalidade. 


38 Veros Archives de Psvchologie, vol. XX XVIII, pp. 256-274. 


288 — PIAGET 


Para Sartre, a “causalidade psíquica”, como diz ele para designar as relações de 
significações, é essencialmente irracional e “mágica” e o psicólogo que não se ins- 
tale nesses “liames irracionais” e que não os tome como o “primeiro dado do 
mundo psíquico” não é mais que um intelectualista deformando o real. As razões 
fornecidas dessa irracionalidade mágica são, aliás, extremamente curiosas e tão 
más que se vê imediatamente que se trata de “racionalizações”, como dizem os 
psicanalistas, isto é, de novo, que é preciso procurar a fonte nas “decisões de todo 
ser” e não na pura observação. As razões invocadas são em geral “ações mágicas 
a distância”, como nas situações onde a pessoa se vê como é conhecida por 
outrem, ou então onde a imagem torna “presença do objeto” uma “ausência de 
objeto,” etc. Mas, é próprio de toda inteligência representativa poder pensar obje- 
tos e acontecimentos fora do campo perceptivo e é verdadeiramente o cúmulo de 
um anti-intelectualismo ontológico chamar mágico o ato fundamental da cons- 
ciência racional: o que teria dito Sartre se em lugar de ocupar-se do seu eu tivesse 
se interessado pela epistemologia de um astrônomo atual, calculando o momento 
preciso de um eclipse no tempo de Júlio César ou no ano 2722 após Jesus Cristo? 
Ele teria visto nessa dedução lógico-matemática um opressivo exemplo de ação a 
distância e de “ausência de ser” tornando-se “presença de ser”, lamentando que 
essa magia se desencarne em um cálculo abstrato. Se se chama de irracional todo 
ato de inteligência (já que mesmo na doente P. Janet, da qual Sartre nos diz que 
a crise de nervos é “para” chamar magicamente a atenção do médico, essa magia 
apresentada ao mesmo tempo como “intencionalidade” não é totalmente despro- 
vida de inteligência), basta, então, compreender-se no plano do vocabulário. Mas 
é preciso ainda compreender essa obsessão de irracionalidade em um autor tão 
inteligente (da mesma forma como se mostrou muitas vezes em Bergson como sua 
“intuição” de intenção transintelectual comportava elaboração e requinte propria- 
mente inteligentes). 

Ora, é suficiente recorrer à obra dramática de Sartre, que desperta uma 
admiração profunda, para que a pessoa se felicite por ela ter sido completada por 
uma filosofia que deixa perceber melhor seu alcance humano de coordenação dos 
valores, mesmo se do ponto de vista epistemológico ela apareça como uma proje- 
ção do eu e sobretudo do grupo social na representação do universo. Essa obra é, 
com efeito, testemunha de uma surpreendente convicção da irracionalidade do 
real, e, sem ter necessidade de tentar uma psicanálise aventureira, após certos 
dados, aliás precisos, fornecidos por Simone de Beauvoir, pode-se bem 
compreender por que um tal homem julga seu dever e tributo à verdade proclamar 
a existência de irracionalidades e denunciar o otimismo dos idealistas ou simples- 
mente dos intelectuais. Mas se esse é um testemunho pessoal que conserva todo o 
seu valor, emanando de uma grande personalidade, por outro lado não se confun- 
diria no entanto uma experiência vivida com as verdades psicológicas gerais, e é 
essa confusão que caracteriza o método introspectivo próprio à psicologia filosó- 
fica, não, repitamo-lo, porque ela seja introspectiva, mas porque desenvolve o 
medo do “objetivismo” até a negligência da “objetividade” e o culto da subjetivi- 
dade até sua centralização sobre um único eu particular. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 289 


Concluindo esses pontos A) e B), a diferença entre as psicologias científicas 
e filosóficas não é porque as primeiras se ocupariam de “fatos” e as segundas de 
“essências”, pois se compreendeu o que seja um fato científico (o que, como se 
viu, não é dado a todo mundo), isto é, a resposta verificada a um problema, a 
intuição das essências poderia ser um fato se nós dessem os meios de verificação. 
A diferença também não é devida as noções de intencionalidade e de significação, 
pois essas noções correspondem a fatos e são de uso corrente. Também não o é ao 
emprego da intropescção, pois seu uso é restrito nas psicologias científicas e 
exclusivo nas filosóficas, poder-se-ia tratar apenas de uma diferença de grau. A 
única diferença sistemática que teriamos observado até aqui é uma diferença de 
método. Mesmo quando ele faz introspecção, o psicólogo científico procura con- 
troles, o que não é objetivismo, já que não se trata da consciência, e sim da objeti- 
vidade. O psicólogo filósofo, sob o pretexto de que ele se ocupa de intuições, de 
essências, intenções e significação, esquece toda a objetividade e toda verificação, 
como se elas fossem intrinsecas. Ora, suas idéias pretendem em vão ser plenas de 
interesse, pois todo problema novamente formulado é interessante, mas elas per- 
manecem inassimiláveis enquanto não nos dão e não se pesquisam critérios de 
verificação. Quando, já no fim da vida, o psicólogo Buytendijk, que havia feito 
tão belos trabalhos sobre os animais, converteu-se à fenomenologia, publicou, 
entre outros, estudos acerca da psicologia das mulheres e do futebol que entriste- 
ceram um pouco seus amigos mas que permaneciam na aparência estranhos à 
introspecção, já que ele não era nem uma amazona nem um campeão da Europa: 
mas essas pesquisas, por mais penetrantes que sejam, como tudo o que ele faz, 
diferem essencialmente de suas obras anteriores por uma espécie de impressio- 
nismo ligeiramente inquietante, como se, mesmo se ocupando de fenômenos exte- 
riores ao eu, a psicologia fenomenológica consistisse em descrevê-los, refratados 
pelo eu. 

É pois acerca desse ponto essencial que nós nos separamos. Todo conheci- 
mento válido supõe uma descentração. Toda a história das ciências é feita de 
descentrações, desde as tribos nômades ditas primitivas, que acreditavam pautar 
o curso dos astros pelas suas festas da estação, ou desde o geocentrismo de Aris- 
tóteles até Newton, mas que acreditava ainda no valor absoluto dos seus metros 
e de seus relógios, até Einstein, que nos desembaraçou dessas últimas centrações 
(últimas até as próximas descentrações). A psicologia genética observa um pro- 
cesso análogo no desenvolvimento das percepções e da inteligência individuais. 
Sei bem que Merleau-Ponty disse da minha teoria da descentração que ela se colo- 
cova no ponto de vista do próprio bom Deus. Exagerava um pouco, mas não é 
menos triste constatar que o esforço de homens tão talentosos como os psicólogos 
fenomenologistas desvalorize suas idéias subordinando-as a um método que nos 
reconduz para novas centrações tanto mais tirânicas quanto mais filosoficamente 
excusadas. 

C) Se o pobre Maine de Biran tivesse podido adivinhar onde seu método 
conduziria no século do existencialismo, ter-se-ia confinado à psicologia fisioló- 
gica. Mas acreditou na introspecção e chegou o momento de fazer um pouco de 


290 PIAGET 


história para controlar se esse emprego exclusivo da introspecção conduziu os 
maiores aos mesmos erros de centração sobre o eu que os psicólogos fenomenolo- 
gistas, isso até em homens de uma modéstia encantadora como era Maine de 
Biran. Correndo o risco contrário, o de imodéstia, acrescentarei que o pensamento 
biraniano me interessa também a título individual, pois no seu belo livro La Per- 
ception de la Causalité, A. Michotte apresenta minhas idéias sobre as origens 
senso-motrizes da causalidade como um rejuvenescimento da célebre tese de 
Biran: é portanto sugestivo para o nosso propósito comparar uma doutrina cons- 
truída sobre dados introspectivos com uma interpretação tirada da observação di- 
reta dos dois primeiros anos da criança. 

Mas, antes de chegar à causalidade, lembremos primeiro o célebre erro, devi- 
do à introspecção, que Maine de Biran cometeu acerca do sentimento do esforço 
e que adulterou o resto da doutrina nos pontos em que o esforço entra em jogo. 
Maine de Biran, que apreciava a restauração das noções de finalidade e de força 
em Leibniz, retoma o Cogito cartesiano à luz desses dois conceitos. E como a 
introspecção é sempre, por mais que se faça, uma estruturação dos dados ditos 
“imediatos” e não sua intuição direta, essa estruturação é, naturalmente, influen- 
ciada pelas idéias do sujeito conhecedor que olha seu eu individual (acabamos de 
vê-lo bastante em Sartre). Fazendo pois uma introspecção do cogito no seu eu, 
Biran acha, é claro, que ele é essencialmente força e finalidade e encontra a sintese 
dessas duas propriedades na consciência do esforço voluntário concebido como 
uma emanação direta e centrífuga do eu, tal como ele aparece, efetivamente, à 
introspecção. Ora, aí está um dos mais claros exemplos de ilusão introspectiva, já 
que a consciência não está situada no conjunto da conduta. 

Antes de mais nada, W. James, em um famoso artigo publicado no Mind, por 
volta de 1880, mostrou que não existia sensação de inervação e que, como conse- 
quência, no esforço muscular, nós não sentimos passar corrente nervosa eferente 
ou centrífuga: o processo é pois centrípeto e é a partir da resistência que tomamos 
consciência do esforço. Mas sobretudo P. Janet mostrou que o sentimento do 
esforço constituía um desses sentimentos elementares cuja especificidade corres- 
ponde a uma “regulação” da ação, isto é, a uma ativação ou a uma terminação do 
ato: é pois a conduta do esforço que convém analisar se se quer compreender o 
sentimento que essa conduta reguladora traduz. Após J. M. Baldwin e J. Philippe, 
Janet constata então que o esforço é uma regulação de ativação positiva (como a 
fadiga é uma regulação de ativação negativa e a alegria ou a tristeza são regula- 
ções de terminação segundo o sucesso ou o fracasso), regulação devida essencial- 
mente a uma aceleração, isto é, a um reforço das energias necessitadas pela ação: 
um ciclista que pedala de maneira normal não faz esforço, mas o esforço intervém 
se ele acelera, se pedala de modo superior ao habitual ou se luta contra uma fadi- 
ga que diminui suas forças. Regulação de aceleração ou de reforçamento, o esfor- 
ço não tem pois nada de uma emanação energética do “eu” no sentido de Maine 
de Biran: o eu não é uma “força”, já que as energias em jogo são orgânicas, mas 
um regulador que comanda seu consumo; ou talvez ele seja o sistema das signifi- 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 291 


cações, valores, intenções, etc., que traduzem em termos de consciência as regula- 
ções de toda a ação, da qual o eu é a expressão. 

Vê-se assim que ele existe longe dos dados introspectivos na dinâmica real da 
conduta. À introspecção global e corrente não está errada quando vê no eu a fonte 
do esforço, mas ela tem razão apenas à medida que não analisa e limita-se a servir 
aos fins da ação. Para transformar essa função utilitária em um instrumento cog- 
nitivo, a psicologia introspectiva corre o risco de deixar escapar os mecanismos 
cujo conhecimento íntimo é inútil à ação e que só uma psicologia da conduta 
conseguirá separar, situando então os dados introspectivos no seu verdadeiro 
lugar, que não é cognitivo. 

Essa insuficiência inicial de análise explica as dificuldades próprias à teoria 
biraniana da causalidade. Hume acreditara anular essa noção, reduzindo-a um 
simples jogo de sucessões habituais, sem nenhum liame objetivo de necessidade 
aparente, resultando apenas da força coercitiva das associações subjetivas e dos 
hábitos. Maine de Biran teve o grande mérito de procurar, por outro lado, a fonte 
da idéia da causalidade, não em sucessões exteriores ou quaisquer, mas na própria 
ação, domínio onde podemos regular o jogo das sucessões, graças às nossas inten- 
ções e onde, por consegiiência, intervém entre os antecedentes e os conseglientes 
um liame irredutível à simples associação e justificando a noção de causalidade 
como produção. Mas em que consiste um tal liame, cuja análise psicológica é 
extraordinariamente complexa por causa da interferência dos fatores fisiológicos 
e da consciência (logo voltaremos ao assunto, a propósito do princípio de parale- 
lismo criticado por Bergson) e cuja análise epistemológica pode engajar-se em 
duas direções contrárias? Uma dessas direções é a interpretação crítica ou kantia- 
na, que Biran aliás conhecia bem, pois situa suas próprias análises no plano do 
fenômeno e não do númeno: os dados fenomenais do mundo interior são interpre- 
tados pelo sujeito conhecedor como os do mundo exterior, quer dizer, o sujeito 
introduz, graças ao seu entendimento, um liame racional entre os antecedentes e 
os consequentes, a necessidade própria à causalidade resultando assim de uma 
relação a priori, dizia Kant, ou simplesmente dedutiva, dizia Descartes (causa seu 
ratio), mas sempre de uma relação devida à inteligência na sua estruturação do 
dado. A outra direção, que Maine de Biran seguiu é, ao contrário, pré-crítica (ele 
a queria transcrítica) ou intuicionista e consiste em procurar o liame causal no 
próprio fenômeno, com a esperança de que, se os fenômenos fornecem em geral as 
simples sucessões regulares às quais Hume apegou-se, o fenômeno interior ligado 
à própria ação forneceria uma intuição direta ou apercepção imediata a) da 
causa; b) do efeito e sobretudo c) da passagem sensível e vivida entre a causa e o 
efeito. 

Ora, prendendo-se à sua insuficiente análise do esforço, Maine de Biran des- 
cobre, efetivamente, esses três termos: a causa é o eu, fonte do esforço voluntário 
e muscular, o efeito é uma modificação exterior ao eu, já que se traduz primeiro 
por uma resistência que marca a exterioridade do objeto sobre o qual se exerce a 
ação, e a passagem sensível da causa ao efeito é fornecida diretamente pelo 


292 PIAGET 


sincronismo entre a corrente do esforço voluntário e a do esforço muscular: pela 
“absoluta simultaneidade do querer e da moção”.? * j 

A interpretação biraniana da causalidade, estando fundada em puros dados 
psicológicos, é suscetível, como a de Hume, de um controle experimental direto, 
não por introspecção, já que ela é juiz e parte e que se viu seus erros a propósito 
do sentimento do esforço, mas por um exame da gênese real da causalidade, nas 
idades em que ela se constitui, isto é, desde o primeiro ano. Resumamos pois em 
grandes traços os resultados desse controle no curso do período senso-motriz (O a 
18-24 meses), depois do período de formação das operações (2a 7-8e de 7a 11-12 
anos). 

Ora, no nível senso-motor, cujo exame aqui é fundamental, a causalidade co- 
meça desde os três a quatro meses do ponto de vista do próprio sujeito. Por exem- 
plo: o bebê descobre por acaso que puxando um cordão que cai do forro do seu 
berço ele pode sacudir, balançar e ressoar todos os brinquedos de celulóide presos 
a esse forro e guarnecidos de grânulos; a prova de que ele vê nisso uma causali- 
dade é que, mais tarde, o forro estando desguarnecido, é suficiente pendurar lá um 
novo objeto para que, imediatamente, ele procure o cordão e o puxe, contem- 
plando antes o objeto. Essa causalidade é mesmo tão imediatamente tenaz e 
generalizável que se balançamos um objeto a dois metros do berço e depois para- 
mos de fazê-lo, o bebê ainda procura e puxa o cordão (e consegue, para obter a 
continuação do som, tudo isso sem ver o adulto). 

Essa causalidade primitiva confirma, é certo, a idéia fundamental de Maine 
de Biran de que a causalidade inicial está ligada à própria ação, mas não confirma 
nada mais, pois não é, em absoluto, a tomada de consciência do seu eu que con- 
duz o sujeito a descobrir a causalidade, sendo que nesse nível não existe ainda 
nenhuma diferenciação entre o eu e o mundo exterior e que o eu se construirá em 
função do outrem só pelo fim do primeiro ano e no decorrer do seguinte. Respon- 
der-se-á que a consciência do eu não é necessária para a descoberta da relação 
causal, mas apenas a do esforço, das resistências e da ação centrífuga de um sobre 
os outros. Mas lembremo-nos primeiro de que não há consciência de uma corrente 
centrifuga de inervação. Quanto aos esforços e às resistências, aqui nada há de 
parecido: o bebê agarrou um cordão e constatou que esse antecedente era seguido 


38 E “que se explique como puder, de que maneira o influxo cerebral põe em jogo os nervos e por eles os 
músculos, nada se poderá conceber de melhor... a eficácia do querer no movimento voluntário”, Oeuvres, 
t. XI. p. 415 (citado por D. Voutsinas, La Psvchologie de Maine de Biran, p. 95). Essa passagem volta pois 
a admitir: 1) Uma corrente nervosa conduzida do cérebro à periferia; 2) O fato que ela corresponde ao fato 
primitivo do sincronismo entre “o querer e a moção”; 3) A suposição de que uma explicação separada do 
mecanismo dessa corrente centrifuga nada arrebatará à evidência do caráter causal dessa força do eu que é 
o esforço voluntário. Sem dizer explicitamente que nós temos consciência da corrente nervosa centrifuga, pois 
Maine de Biran não quer transpor “o limite que separa, como por um abismo, o domínio da psicologia do da 
fisiologia”, essa passagem implica essa consciência e a prova disso está na recusa de Maine de Biran em acei- 
tar a distinção de Destutt de Tracy entre o movimento querido e movimento sentido enquanto nossos mem- 


bros se movimentam: “Vocês abstraem. .. o sentimento relativo de esforço do da pujança do eu que o cria. 
que não se conhece senão nele e por ele... Desde que se supunha uma locomoção sentida é preciso também 
* admitir, necessariamente. as condições e o caráter específico apenas sob o qual ela pode ser sentida...” (ci- 


tado por Voutsinas, op. cit., p. 268). 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 293 


de consequentes maravilhosos e inesperados e recomeçou simplesmente, sem cui- 
dar dos contatos espaciais ou físicos (caso do objeto a dois metros ou dos asso- 
bios atrás de um biombo). O comportamento do bebê está pois de conformidade 
com o fenomenismo de Hume, mas apenas no domínio da ação própria, o que 
confirma a observação de Brunschvicg: que Hume e Maine de Biran se refutam 
mutuamente. Falaremos pois, nesta primeira etapa, da causalidade mágico-feno- 
menista, fenomenista porque qualquer coisa produz qualquer coisa no terreno da 
ação e mágica porque a ação age independente dos contatos. 

Só que uma noção não se compreende só em função do seu ponto de partida, 
mas sobretudo em função do conjunto do seu desenvolvimento, quer dizer, da 
direção (ou “intenção” !) que ela toma, desenvolvendo-se. Ora, essa segliência é 
surpreendente: à medida que o bebê constrói o esquema do objeto permanente e 
organiza o espaço assim como as séries temporais segundo um sistema coerente (o 
“grupo” prático das mudanças), sua causalidade objetiva-se e espacializa-se, isto 
é, estende-se às relações entre os próprios objetos e com um cuidado crescente dos 
contatos. Noutras palavras, a causalidade depende da inteira estruturação do real, 
devida aos progressos da inteligência, o que confirma de forma total a interpre- 
tação racionalista da causalidade, quer dizer, por construção inferencial, contra o 
fenomenista de Hume e a intuição de uma passagem sensível entre a causa e O 
efeito de Maine de Biran. 

Aliás, essa verificação seria bem incompleta se não tivesse um prossegui- 
mento. Ora, no plano do pensamento representativo, de dois a onze e doze anos, 
assiste-se, segundo a regra, a uma reconstrução do que foi adquirido no plano 
senso-motor, depois com progressos bem mais extensos. Em grandes traços, 
pode-se então dizer que. nesse novo plano, a causalidade se inicia, como no nível 
senso-motor, por uma assimilação direta do real aos esquemas da ação, enquanto 
que em seguida ela se descentra desse egocentrismo inicial para tornar-se assimi- 
lação às operações, o que não é a mesma coisa, embora a operação derive da 
ação, o que chega à causalidade por dedução racional. Bastam dois exemplos 
para a causalidade pela assimilação da ação. Primeiro, um que lembra de maneira 
surpreendente a causalidade mágico-fenomenista do cordão do forro do berço: até 
seis anos, um grande número das crianças que conhecemos acredita que a Lua as 
segue, anda, corre ou volta segundo os passos do sujeito, espera-o quando ele 
entra numa casa e até é reencontrada após um bloco de casas, quando a criança 
vai verificar se a verá de novo na próxima rua transversal. Depois, uma criança de 
cinco anos, observada dia após dia, descobre que o ar está “à mão”, isto é, é o 
produto do que se pode fazer com a mão, agitando um galho ou um leque (daí o 
vento produzido pelas árvores que se balançam, a poeira ou as vagas que se agi- 
tam, as nuvens que avançando fazem ar e são em seguida impelidas por esse vento 
produzido graças a elas como no (antiperistasis de Aristóteles). Como exemplo de 
causalidade por assimilação às operações, contentemo-nos em assinalar que, tão 
logo construídas as operações aditivas (adição de números ou reuniões de clas- 
ses), lá pelos sete a oito anos, a criança, que até então não acreditava na conserva- 
ção do açúcar uma vez dissolvido na água (o gosto, como o odor, desaparecerá, 


294 PIAGET 


etc.), passa a admitir a conservação de sua substância, depois do seu peso e enfim 
do seu volume (medido na deslocação do nível da água), supondo que os pequenos 
grãos, visíveis no decorrer da dissolução, tornam-se cada vez menores e invisíveis, 
mas que sua soma, conservando-se, equivale à matéria total do pedaço inicial do 
açúcar, depois ao seu peso e ao seu volume. É bem atomismo devido à “metafísica 
da poeira”, como diz tão lindamente Bachelard, mas resultando de repente de uma 
composição operatória em lugar de conduzir a ela após uma fase qualitativa. 

Concluindo, o exame psicogenético da causalidade não confirma mais a aná- 
lise biraniana da causalidade quanto a psicologia das condutas não confirma sua 
interpretação do esforço: portanto a intuição direta do eu não é uma forma válida 
de conhecimento, sobre a qual se possa apoiar uma metafísica espiritualista. 

D) A psicologia filosófica de Maine de Biran aferrou-se sobretudo a refutar 
o empirismo e o teria conseguido facilmente se não tivesse caído no excesso 
contrário: de um intuicionismo muito mais reflexivo que apto a apoderar-se do 
seu objeto. A psicologia de H. Bergson propós-se de maneira diferente a contra- 
dizer e ultrapassar o associacionismo empirista que reinava nos laboratórios e 
conseguiu-o ainda mais facilmente porque, no momento da aparição dos Donnés 
Immédiates de la Conscience, as mesmas tendências antiassociacionistas, a 
mesma noção da “corrente da consciência” e o mesmo destaque pragmatista da 
ação inteira em oposição às associações estáticas dominavam em W. James e já 
em parte no seu mestre Peirce que o converteu ao pragmatismo: ora, interessan- 
do-se pelas questões religiosas e orientando-se finalmente para uma filosofia prag- 
matista que nada tem de uma metafísica e tem tudo de uma “sabedoria” (à ameri- 
cana, é verdade, mas não se pode recriminar James nem por não ter nascido nas 
Índias nem por não ter professado em Kônigsberg no século XVIII, W. James era 
o próprio tipo do psicólogo científico, que fundou um laboratório sem ser um 
experimentalista apaixonado (talvez não tenha encontrado os colaboradores ou os 
assistentes que conviessem a esse fértil patrão) e que sempre quis submeter-se 
inteiramente aos fatos da experiência. Não digo que James influenciou direta- 
mente Bergson, nem mesmo que tenha tentado controlá-lo, pois isso não tem a 
menor importância; é muito frequente que numa reviravolta da ciência as mesmas 
idéias surjam em dois ou vários cérebros diferentes: digo apenas que as idéias 
anti-associacionistas de Bergson, suas idéias sobre o fluxo temporal contínuo da 
consciência e o papel da ação não podem ser atribuídas às suas intenções metafi- 
sicas, já que desde essa época elas eram reconhecidas nos autores desejosos de 
renovar a psicologia científica e que, pelo contrário, foi com as idéias mais especí- 
ficas do ponto de vista metafísico sobre as propriedades do espírito, irredutíveis às 
do corpo, que as teses bergsonianas começaram a tornar-se discutíveis. 

Voltando ao papel da ação (ver capítulo III, C 4.º), Bergson descreveu 
admiravelmente a maneira pela qual a percepção divide o real segundo o esboço 
das ações possíveis ou projetadas e das quais a inteligência utiliza e prolonga a 
ação. Mas, coisa curiosa e em paralelismo bastante estreito com o pragmatismo 
americano, ele sobretudo viu na ação seus resultados e sucessos sem remontar às 
suas condições prévias e de certo modo epistêmicas, de tal maneira que não insis- 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 295 


tiu na própria coordenação das ações nem percebeu que essa coordenação com- 
portava uma lógica preparando a das próprias operações que são ações interiori- 
zadas e logo reversíveis. Ele percebeu, é claro, e descreveu de forma brilhante (e 
é provavelmente uma conquista que se pode creditar, com justiça, na conta da 
introspecção, mas em um autor que muito havia refletido nas condições da inven- 
ção científica) o papel dos “esquemas antecipadores” que dirigem a solução de 
um problema, mas não extraiu daí uma teoria geral dos esquemas da ação que o 
teriam precisamente conduzido a destacar o aspecto de coordenação e não apenas 
de antecipação e de sucesso. Não foi pois sem tais razões limitativas que ele teve 
a idéia segundo a qual o conhecimento da vida deve voltar as costas à ação em 
lugar de utilizar suas pressuposições epistêmicas. 


Mas cheguemos às idéias metafísicas da psicologia bergsoniana, isto é, ao 
“eu profundo” baseado na análise das duas memórias e na maneira pela qual ele 
utiliza o corpo sem que este lhe sirva de sede. Essa concepção de conjunto parte, 
como se sabe, da análise das duas memórias: a memória-hábito e a memória- 
imagem. Ora, uma tal distinção é perfeitamente fundamentada no sentido que ela 
podia já apoiar-se em fatos precisos e que não foi infirmada após, com a condi- 
ção, como o observou Janet, de não ver nisso senão uma diferença de níveis.* ? 
Mas um e outro dos dois termos assim distinguidos atraem observações que ate- 
nuam singularmente o alcance das interpretações que Bergson queria tirar deles. 


A memória-hábito, antes de mais nada, não está limitada apenas à função de 
repetição, mas preenche igualmente a, fundamental, da “recognição”. Se Bergson 
tivesse dado a si próprio uma teoria geral dos esquemas da ação, teria visto que 
todo esquema de assimilação, permitindo transpor uma ação em situações 
parcialmente análogas e parcialmente novas em relação à ação inicial, é ao 
mesmo tempo fonte de repetição, de recognição e de generalização. Disso resulta 
que as duas memórias de Bergson correspondem aos dois termos da distinção 
clássica entre a memória de recognição, que é muito primitiva e presente até nos 
invertebrados inferiores, e a memória de evocação, de nível muito superior e que, 
no homem, não aparece senão com a linguagem, a imagem mental, etc., e de modo 
geral com a função semiótica (ou simbólica). 


Quanto a essa memória de evocação, ou memória-imagem, Bergson adota a 
seu respeito uma das duas teses possíveis e mesmo sem mencionar ou discutir a 
outra. Seja um acontecimento A, esquecido em seguida ou no qual o sujeito não 
pensa mais, que depois é evocado sob uma forma A” uma ou muitas vezes. Dois 
problemas apresentam-se então: a lembrança-imagem A” é uma representação fiel 
de A e sobretudo o que se passou entre-duas, seja que A' formada logo após o fim 
de A tenha podido conservar-se como tal no “inconsciente” do sujeito, seja que A' 
tenha desaparecido entre-duas, mas tenha sido reconstruída no momento da evo- 


37 Em consequência é preciso prever todas as intermediárias entre os níveis. Num estudo em curso sobre à 
memória, com B. Inhelder, distinguimos já nove tipos diferentes, escalando-se entre O hábito e a 
lembrança-imagem. 


296 PIAGET 


cação graças a um conjunto de inferências, lembrando a reconstituição do histo- 
riador. Bergson e Freud adotam a primeira hipótese, Janet adota a segunda, fazen- 
do da memória de evocação uma “conduta” como uma outra, a “conduta da 
narração” que consiste em reconstituir e sobretudo em ordenar os acontecimentos 
relatados. 

Ora, a segunda tese apresenta uma grande probabilidade de verdade. O que 
certamente permanece no “inconsciente” ou, para sermos mais precisos, no 
comportamento não reflexivo do sujeito, é o conjunto de seus esquemas de ação 
que favorecem a reconstituição. Pergunte a um sujeito cujos hábitos são variados 
se ele tomou seu caté antes de pôr a gravata ou depois, não saberá responder por 
que nem um nem outro desses dois pequenos acontecimentos deixaram imagens 
A” e sobretudo por que essas imagens, mesmo registradas no “inconsciente”, não 
são seriadas por elas mesmas no tempo: é a reconstituição que opera essa seriação 
e muitas vezes dificilmente (exemplo: indicar se teve seu segundo filho antes ou 
depois do advento do fascismo na Itália, antes ou depois de ter escrito tal obra, 
etc.). Se se pergunta ao mesmo sujeito se ele almoçou antes ou depois de desper- 
tar, ele responderá logo, mas por inferência a partir dos esquemas de ação. 

Em favor da segunda tese é preciso, acima de tudo, citar o caráter defor- 
mante de certas lembranças de infância. Minha recordação mais antiga remonta a 
uma época na qual uma governanta levava-me a passear ainda em carrinho de 
bebê (o que seria uma lembrança bem excepcional se fosse autêntica). Um indivi- 
duo tentou roubar-me, mas a governanta defendeu-me tanto até ser fortemente 
arranhada e o indivíduo fugiu à aproximação de um policial. Essa lembrança per- 
manece bem viva: revejo ainda toda a cena que se desenrolava numa curva dos 
Campos Elísios, vejo ainda os curiosos se aproximarem, a chegada do agente com 
o casaco curto que usavam nessa época, etc. No entanto, quando eu tinha quinze 
anos, a antiga governanta escreveu aos meus pais dizendo que, recentemente 
convertida, sentia-se na obrigação de confessar todos os seus pecados: a história 
do bebê quase roubado era todinha inventada, as arranhaduras feitas a propósito, 
etc., e o relógio recebido como recompensa estava à disposição de meus pais. Essa 
bela recordação da infância é assim uma lembrança reconstituída visualmente (e 
esse ponto tem sua importância), mas a partir de uma narração ouvida, sem dúvi- 
da entre cinco e dez anos. Se fosse uma lembrança “verdadeira” no sentido de 
conforme aos acontecimentos, não o seria, da mesma maneira, menos 
reconstituída. 

A parte de reconstituição e de inferência parece pois considerável na memó- 
ria de evocação, mesmo se certas recordações permanecem. Esse fato é então de 
natureza a agitar um pouco a tese de um espírito cuja existência própria, como 
distinto do corpo, estaria ligada à conservação integral de tudo o que viveu. É ver- 
dade que se pode conceber uma terceira tese, segundo a qual o espirito conser- 
varia mais lembranças do que aquelas cuja evocação é possível, essa última 
consistindo assim numa reconstituição, pelo menos parcial, de tipo inferencial, os 
dois aspectos, conservação e reconstrução, permanecendo dessa maneira em parte 
independentes. Mas, mesmo admitindo esse compromisso, nada prova que as lem- 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 20 


branças esquecidas constituam na sua acumulação uma realidade puramente espi- 
ritual e independente do cérebro, como o pensa Bergson. Pelo contrário, as recen- 
tes experiências de W. Penfiel mostraram a possibilidade, por uma excitação 
elétrica dos lóbulos temporais, de fazer reviver no sujeito, com uma vividez 
extraordinária, cenas passadas, com a sua celeridade natural, como no caso de um 
tema musical com orquestra e cantor: em algumas dessas revivências o espectador 
é, ele próprio, ator como em sonho, noutras os estados estão ainda vividos mas 
evocados como passados e finalmente noutras não há mais estesia, mas uma 
situação comparável à da imagem mental ordinária. 

Aliás, experimenta-se alguma dificuldade em destacar a significação do “eu 
profundo” de Bergson, que, voltando as costas à ação e à vida social, não se reen- 
contraria senão nos estados vizinhos ao sonho e nesse caso não se vê o que o pro- 
tegeria da incoerência ou da esquizóidia. 

Mas a dificuldade principal da psicologia espiritualista, à qual Bergson che- 
gou por falta de uma lógica da ação, é, dado o fracasso da teoria de uma memória 
pura independente do corpo, sua negação do princípio do paralelismo psicofísio- 
lógico. É verdade que a consciência não é um epifenômeno, já que consiste num 
sistema de significações unidas umas às outras por ligações implicadoras, o que 
exclui qualquer redução dessa consciência à causalidade física. Igualmente é ver- 
dade, mas aqui é um caso bem diferente, que a vida mental influencia sem cessar 
o organismo, como o prova a medicina chamada em alguns países psicossomática 
e em outros córticovisceral, mas trata-se da vida mental no seu conjunto, incluído 
o cérebro, e isso em nada prova que a consciência como tal aja sobre a matéria: 
pois a matéria comportando massas, forças, energias, uma extensão, etc., seria 
preciso, para que a consciência agisse causalmente, que ela também fosse provida 
dessas propriedades, o que a materializaria e a privaria das suas qualidades distin- 
tivas. Se se pusesse pois em evidência, em um ponto preciso, a ação de uma “ener- 
gia espiritual”, como o diz Bergson, num setor de matéria, é evidente que se seria 
levado a distinguir, imediatamente, no seio dessa energia, seu aspecto causal, na 
qualidade de, por exemplo, força vencendo uma resistência e seu aspecto cons- 
ciente como significações, de tal sorte que o problema do paralelismo entre os 
dois aspectos, o primeiro sendo físico e o segundo consciente, apresentar-se-ia de 
novo. 

E) O problema do espírito e do corpo domina, em um sentido bem diferente, 
a psicologia filosófica de Merleau-Ponty porque, confinado na análise da cons- 
ciência (inclusive essa consciência lantente que é o inconsciente), mas interessado 
na questão do corpo enquanto representado pela consciência e na do comporta- 
mento como “subjetividade encarnada”, ela se encontra sempre em luta com a 
dificuldade central da fenomenologia: explicar tudo partindo de um começo abso- 
luto que está na consciência, enquanto toda consciência tem uma história que a 
religa ao esquematismo da ação e por ele ao organismo. 

Lá onde Sartre não vê senão antíteses e magia, Merleau-Ponty, bem superior 
pela sua preocupação constante em conciliar a ontologia e a epistemologia, está 
sempre pesquisando a experiência originária que fornecerá essa sintese. Mas como 


298 PIAGET 


sem dúvida não existe tal experiência originária e Merleau-Ponty, por descon- 
fiança com respeito a toda dedução, nada tem de um construtor de sistema, toda 
a sua psicologia acaba por sublimar as “ambigiidades” da consciência, até no seu 
movimento de “transcendência”, transformando uma situação de fato em uma 
existência provida de significação. 

A fenomenologia de Husserl, propondo-se a constituir uma análise, não dos 
“fatos”, mas das “formas” da consciência atingindo os objetos, estes permane- 
cendo indissociáveis do próprio ato da consciência que lhes confere uma “signifi- 
cação” ou os reúne “intencionalmente”, seriam possíveis duas vias para conduzir 
uma tal análise, vizinhas em certos pontos à do kantismo, mas com o mérito 
suplementar de permanecer no terreno do fenômeno e de reconhecer o caráter 
indissociável das relações entre o sujeito e o objeto: a via diacrônica, quer dizer, 
histórica e genética, ligando então essas “formas”, “intenções” ou “significações” 
aos esquemas da ação, o que não suprime em nada os “atos da consciência” mas 
conduz a renunciar à subjetividade como único terreno de análise; a via sincrô- 
nica ou estática, consistindo em apegar-se apenas a essa objetividade para encon- 
trar nela as experiências originárias de onde procederiam os preâmbulos do saber. 
Foi esse segundo método que Husserl escolheu e ele conduziu-o finalmente à hipó- 
tese de um mundo vivido ou Lebenswelt, anterior a qualquer reflexão e matriz de 
todo conhecimento. Mas como o saber e suas “formas” não foram de antemão 
contidos nessa experiência originária que deles fornece apenas o ponto de partida 
e como uma série de outras formas, intenções e significações vão se elaborar sem 
descontinuidade, pode-se perguntar se esse ponto de partida constitui realmente 
um primeiro começo e se não é porque se está fechado por método no círculo da 
subjetividade que se é obrigado a postular esse absoluto. 

É nesse mesmo círculo que Merleau-Ponty se fecha, mas com o caráter mais 
paradoxal ainda de não construir uma epistemologia ou uma ontologia gerais 
como Husserl, mas de querer reconstituir uma psicologia onde, então, as dimen- 
sões histórica ou genética e os vínculos com o corpo ou o comportamento assim 
como o mundo social são muito mais pregnantes: o resultado é que a subjetivi- 
dade, único suporte desse edifício mais restrito porém muito mais concreto, é one- 
rada com assustadoras tarefas. O melhor comentador de Husserl, E. Fink, notou 
engenhosamente que o problema central do mestre não é o de Kant: “De que 
maneira é possível o conhecimento?”, mas um problema mais vasto: “Como é 
possível o mundo, incluído nele o conhecimento?”. Enquanto se trata do mundo 
inteiro ainda vai, mas desde que se trate do corpo humano e da sociedade, quer 
dizer, do comportamento no seu conjunto, do qual tudo parece mostrar que a 
consciência constitui apenas um aspecto, encontrar na sua experiência originária 
motivos para explicar todo o resto é uma empreitada sem saída. 

Apegando-se de início ao conhecimento, Merleau-Ponty sustenta que “todo o 
universo da ciência é construído sobre o mundo vivido”,*º logo, sobre essa expe- 
riência originária anterior à reflexão e dada na percepção, precisando imediata- 


38 Phénoménologie de la Perception, p. 11, 1945. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 299 


mente que a ciência não tem a mesma significação que esse vivido imediato, já 
que ela constitui uma “determinação ou uma explicação” dele. Há pois constru- 
ção conduzindo do vivido ao reflexivo e pergunta-se, então, necessariamente, por 
que o “vivido” não seria, ele também, “construído” em lugar de ser originário. 

Mais precisamente, duas questões graves apresentam-se no mesmo instante. 
Primeiro, esse “vivido” é o mesmo para todos os sujeitos? Se não for assim, como 
tirar de uma subjetividade individual informações que permitem dizer qualquer 
coisa de válido acerca das intenções ou significações conduzindo à subjetividade 
epistêmica? Se for, ou se pelo menos houver alguns elementos comuns a todas as 
experiências originárias de todos os sujeitos (e pedem-se provas, mas sem ver de 
onde elas viriam se não se sai da subjetividade), o segundo problema é 
compreender de onde procede essa estrutura comum? O a priori kantiano proce- 
dia de uma necessidade universal, mas aqui não há nem a priori nem necessidade, 
já que essa experiência é dada antes de toda reflexão e está situada apenas no 
plano do fenômeno. Dizer que ela está lá e que se a constata não é uma resposta 
para quem quer combater o empirismo. Resta então estendê-la à criança e ao ani- 
mal, mas nesse caso o que se tornarão os elementos comuns e como estendê-los 
sem fazer apelos a mecanismos onto ou filogenéticos? 

Resumindo, não existe a menor prova de que o mundo vivido constitua uma 
experiência originária e a primeira questão a formular a seu respeito, dentro da 
própria lógica da doutrina, é perguntar-se como essa experiência é possível, quer 
dizer, quais são as condições prévias que lhe permitem conferir “significa- 
ções” (aos objetos, aos atos, etc.). Invocar a consciência está longe de ser sufi- 
ciente, pois ela não é comparável a uma luz que, tão logo acesa, produziria um 
mundo de significações todas feitas ou de intenções já orientadas. O próprio de 
uma significação é ser relativa a outras significações, isto é, comportar um mini- 
mum de sistema ou de organização. De onde vem esse sistema? De uma série de 
atos, mas não descontínuos descoordenados, sem o que não haveria nem sistema 
nem significações. Falar de intuição é compreensível (mas não igualmente aceitá- 
vel) se se trata de atingir de maneira imediata “essências” intemporais, mas esta- 
mos no vivido, isto é, na relação global do sujeito com os objetos percebidos e as 
significações não são todas dados, senão o saber inteiro seria pré-formado nesse 
contato original. Assim, há necessidade, para que haja significações, de uma série 
de atos nem fortuitos nem ligados de improviso entre eles por uma inteira deduti- 
bilidade: noutros termos, se a experiência vivida tem um “sentido” ela é pois soli- 
dária de uma história. Então o problema resume-se no seguinte: em um momento 
do tempo, a experiência vivida do sujeito não depende dessa história senão na me- 
dida em que esse sujeito tem consciência do seu desenvolvimento anterior, nos 
momentos t-n, ou pelo contrário a consciência é influenciada pela sua história 
independentemente da consciência dessa história? Noutros termos, a consciência 
engloba sua própria história ou é a história (independentemente da consciência 
que dela subsiste) que engloba a consciência? Penso que, mesmo outorgando-se 
ao fenomenologista que toda história passada do sujeito sempre foi consciente (e 
isso eu naturalmente não admitiria), ele teria grandes dificuldades em sustentar 


300 PIAGET 


que a consciência no momento t só é influenciada pela sua história se ela a 
conhece. 

Em uma conferência nos-“Encontros Internacionais” de Genebra, em 1951, 
Merleau-Ponty guardou muito do freudismo, atenuando fortemente e com razão a 
barreira entre a consciência e o inconsciente. Ora, se se reconhece a importância 
de um desenvolvimento genético para a afetividade, não há a menor razão para 
não se fazer o mesmo quanto ao pensamento e eu posso seguir, sem dificuldade, 
Merleau-Ponty quando sustenta, acreditando contradizer-me, que o pensamento 
da criança subsiste sob o do adulto, contanto que se admita que houve transfor- 
mação e construção do primeiro para o segundo. 

Desde que se admita a existência de uma história da consciência e de influên- 
cias históricas das quais não se está inteiramente consciente, o problema da expe- 
riência vivida anterior a toda reflexão apresenta-se em termos bem diferentes. O 
que nela importa não é mais seu conteúdo, que pode variar de um indivíduo para 
outro, mas sua capacidade comum de formar intenções e de conferir significações, 
o que supõe pois uma organização, já que essas são relativas umas às outras. Não 
é em absoluto conveniente dar-se a priori essa organização, o que nos recondu- 
ziria a Kant: o importante é notar que, religando entre si significações (e elas são 
forçosamente ligadas) diacrônica e além disso sincronicamente, o sujeito entrega- 
se, necessariamente, a assimilações e diferenciações e constrói assim um esquema- 
tismo, tão dinâmico e ligado aos seus conteúdos quanto se queira, mas apesar 
disso um esquematismo e que intervém desde a percepção (pois as Gestalts são 
esquemas e não recriações descontínuas por ocasião de cada situação ou objeto 
análogos aos precedentes) e desde a ação (pois a repetição de uma ação em 
circunstâncias comparáveis não é trabalho de mecanismo associativo, mas de 
significações devidas aos esquemas de assimilação que asseguram essa 
generalização). 

Eis-nos, pois, quer se o queira ou não, em presença da questão central das 
relações entre a consciência e o comportamento. “Subjetividade encarnada”, diz- 
nos Merleau-Ponty a esse respeito, porque penetrada de intenções e significações. 
É verdade, mas reconhece-se o mesmo problema: não é a consciência influenciada 
pela história desse comportamento senão na medida em que engloba atualmente 
essa história em uma apercepção total? Se sim, ela de fato dirige o conjunto do 
comportamento atual; se não, ela só o dirige parcialmente e permanece parcial- 
mente subordinada a um esquematismo onde a ação cuja experiência vivida, por 
mais imediata que pareça, constitui apenas uma tomada de consciência mais ou 
menos adequada. Aliás, Merleau-Ponty reconheceu que “não se age só com o 
espirito” e sublinha com K. Goldstein a unidade do organismo em suas funções 
fisiológicas e mentais. Mas, se isso é verdade, implica que a consciência não é 
tudo e, à noção de uma consciência considerada como um fato primeiro, é preciso 
substituir o dinamismo das “tomadas de consciência” que primeiro percebem as 
intenções e os resultados dos atos antes de compreender ou sem jamais 
compreender seu mecanismo inteiro, isto é, o esquematismo saído do encadea- 
mento dos atos anteriores. Fica pois excluído, desde que se coloque sob o ponto 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 301 


de vista das totalidades funcionais e sobretudo desde que se lhes restitua a dimen- 
são histórica das quais elas são inseparáveis, dar-se ao mesmo tempo o direito de 
falar de experiências originárias da consciência vivida, pois elas não são jamais 
nem originárias, já que têm um passado, nem plenamente adequadas a título de to- 
mada de consciência, já que deixam escapar uma importante parte do esquema- 
tismo subjacente que as torna possíveis. 

Impóem-se análogas advertências no que concerne à “intersubjetividade”. 
Merleau-Ponty reconhece plenamente, com Husserl aliás, que a subjetividade é 
intersubjetiva e até insiste, com razão, no próprio processo da intersubjetivação 
como desenvolvimento dialético. Mas por outro lado só conhece a intersubjeti- 
vidade refletida em cada subjetividade. Então o mesmo problema só se apresenta 
aqui a propósito da consciência e da sua história, dado que o processo de 
intersubjetivação é um desenvolvimento histórico: não é o sujeito influenciado 
pelo conjunto das interações sociais senão na medida em que delas tem consciên- 
cia, ou essas interações, no seu funcionamento diacrônico e mesmo sincrônico, 
vão alêm dos limites da consciência? Se assim é, como é evidente, de que maneira 
conceber, ainda desse ponto de vista, que experiências vividas possam ser 
originárias? 

Mas se a pesquisa das experiências originárias constitui um dos dois aspec- 
tos fundamentais do pensamento de Merleau-Ponty, e se ela só poderá conduzir a 
impasses tão logo a dimensão histórica ou dialética seja restituída, o outro aspec- 
to ê, pelo contrário, a análise do processo de “transcendência” pelo qual a cons- 
ciência elabora novas significações e passa da “intencionalidade de ato ou tética” 
à “intencionalidade operante” que finalmente conduzirá à consciência intelectual, 
criando existências pela atribuição de um sentido ao que não era mais que situa- 
ções de fato. Notemos primeiro que Merleau-Ponty bem sentiu a contradição 
latente entre essas duas posições, pois, se existe um processo dialético engen- 
drando novas significações, como conceber as “intenções téticas” iniciais sem 
atribuí-las já a “intenções operantes” anteriores? É isso no entanto que ele supõe 
lá pelo fim de La Phénoménologie de la Perception, entrevendo a existência de 
uma “arte escondida nas profundezas da alma humana e que, como toda arte, só 
se conhece nos seus resultados”. Em termos menos escolhidos, é exatamente o que 
nós chamamos esquematismo da ação, cuja experiência consciente dita “imedia- 
ta” só conhece os produtos ! Mas essa latente contradição entre a vontade de con- 
siderar o vivido como originário e a capacidade que em seguida se lhe dá de trans- 
cender indefinidamente tem uma consequência mais grave que o não acabamento 
de um sistema: conduz a esse resultado, o qual é preciso reconhecer que Merleau- 
Ponty assinalou em lugar de procurar escondê-lo, que, por não querer sair da 
subjetividade e por considerar a “situação histórica”, o corpo e o comportamento 
apenas na perspectiva dessa subjetividade, só se encontram “ambigiidades”. Lá 
onde o antiintelectualismo de Sartre via “magia” em toda parte, o de Merleau- 
Ponty descobre ambigúidades, o que já é muito mais racional. Mas resta saber se 
essa “ambiguidade” liga-se ao sistema ou à realidade. 

Liga-se, naturalmente, aos dois, quer dizer, à maneira pela qual o sistema 


302 PIAGET 


dividiu a realidade para dela reter apenas a subjetividade e a sua descrição por 
Merleau-Ponty é ao mesmo tempo muito profunda, quando diz que, na verdade, a 
subjetividade é ambígua e muito parcial porque parcial, dado que a subjetividade 
não é tudo. A psicologia “filosófica” recrimina sem cessar a psicologia científica 
de não chegar até a uma “antropologia” suscetível de exprimir o homem na sua 
totalidade e recriminam-me, também sem cessar, em particular, de ser um intelec- 
tualista, pois só me interesso pelas funções cognitivas. Na perspectiva de tais 
debates, confessemos que o resultado de uma obra, infelizmente inacabada, mas 
que no estado em que permaneceu não desemboca senão em um quadro do 
homem como consciência ambigua, é, ainda assim, deplorável. Não, próprio do 
homem não é ser uma subjetividade: é fornecer de forma ininterrupta um trabalho, 
uma praxis, como o diz o marxismo, ou “obras”, como o diz I. Meyerson, e de 
fazê-lo consciente, mas sobretudo efetivamente, porque conscientemente voltado 
para um resultado. Ora, fornecer um trabalho é partir de dados tão objetivos 
quanto possíveis para chegar a resultados tão objetivos quanto possíveis, e, se a 
objetividade é apenas um ideal ou um limite, constitui, assim mesmo, uma das 
dimensões fundamentais da “intencionalidade” humana. Dizer-nos que “eu estou 
aqui e agora” é “ambíguo” porque já estou em outro lugar, é uma brincadeira de 
filósofo, pois isso nada tem de ambíguo, desde que eu saiba onde quero ir. Pouco 
importa que, sob o ângulo da subjetividade, toda “intenção”, toda “existência”, 
etc., sejam ambíguas: elas só o são se eu as vejo como tais, dividindo-as artificial- 
mente, mas deixarão de sê-lo quando eu as ligar à coordenação geral das ações, 
fonte da razão, e ao resultado objetivo que elas demandam: que é modificar a rea- 
lidade exterior, voltando as costas a esse “eu” que é, em definitivo, o único objeto 
de estudos da psicologia filosófica. 

F) Procuremos concluir. Comparamos quatro grandes “psicologias filosófi- 
cas”. Vimos Maine de Biran negligenciar a análise do esforço e a da causalidade 
porque as centralizava no “eu”. Vimos Bergson voltar as costas à ação, cuja 
importância cognitiva ele havia no entanto sublinhado, para procurar o “eu pro- 
fundo” nas vizinhanças irracionais do sonho. Vimos Sartre projetar seu eu na 
consciência em geral para descobrir que sua “causalidade” é mágica e vimos 
Merleau-Ponty chegar ao resultado de que a subjetividade é fundamentalmente 
ambígua. Eis aí o que se nos propõe como conhecimento do homem e o que se 
opõe à psicologia das condutas porque ela é intelectualista e apenas “científica”. 

As razões de um tal insucesso estão bem claras e já insistimos muito a res- 
peito. Que se interessem pela subjetividade e introspecção quanto se deseje, isso 
não é atributo distintivo da psicologia filosófica, já que os psicólogos experimen- 
tais podem da mesma maneira ocupar-se do assunto, segundo os problemas que 
formulem a si próprios: P. Fraisse, por exemplo, para estudar as condutas tempo- 
rais, tem necessidade, entre outros, de dados introspectivos e não é porque ele des- 
creveu os métodos e celebrou os progressos da psicologia científica no nosso Trai- 
té de Psychologie Expérimentale que se privará de tais fatos. Só que, quando o 
psicólogo recorre a eles, esforça-se para atingir uma introspecção “objetiva”, se 
assim se pode dizer, e pode-se dizê-lo, pois apesar dos mal-entendidos incons- 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 303 


cientes ou alimentados, objetivo não significa sempre “quem negligencia o sujei- 
to” mas significa sempre “quem procura evitar as ilusões do seu eu”, estudando 
metodicamente as reações dos outros. Por outro lado, o caráter evidente da intros- 
pecção filosófica é contar simplesmente com a sua própria honestidade e sua 
virtuosidade de análise a título de penhor de verdade, como se a sinceridade e o 
talento permitissem evitar os erros sistemáticos. O resultado é que, assim como os 
sistemas metafísicos de conjunto, as “psicologias” filosóficas são antes de mais 
nada o reflexo de uma personalidade, pois, adotando como método exclusivo não 
apenas a introspecção que por si só é falaz, porque não se situa no contexto das 
condutas, mas ainda a introspecção centralizada exclusivamente no eu próprio, 
por mais genial que ele seja, elas não podem dissociar a filosofia geral da parte do 
eu que observa e os dados inerentes à outra parte do eu, que não é considerada 
senão como observada quando se lhe dita em graus diversos as respostas a 
fornecer. 

Ora, a gravidade desse mal-entendido não se prende apenas à questão de mé- 
todo, que já é muito séria: o é também e na mesma proporção porque não se per- 
cebe sua natureza e se inventam processos de doutrinas lá onde se trata precisa- 
mente de métodos. Nada é, absolutamente, nas hipóteses das psicologias 
filosóficas que acabamos de recordar, em si e a priori, contrária a uma posição 
científica, pois uma ciência só é válida se for aberta. O bom psicólogo Th. Flour- 
noy, que já no começo de 1900 descrevia o inconsciente em termos quase freudia- 
nos (antes da Traumdeutung), colocava dois princípios na base de suas pesquisas: 
1.º tudo é possível (“há mais coisas entre o céu e a terra que em toda a nossa filo- 
sofia”); mas 2.º o peso das provas deve ser proporcional à estranheza dos fatos (e 
por meu lado eu ajudaria: ao caráter mais ou menos pessoal de sua observação 
inicial). Que o eu seja uma força no sentido de Maine de Biran, por que não? Que 
quais experiências vividas originárias, das quais o conhecimento derive, ou “intui- 
ções” privilegiadas, que a “causalidade” psicológica seja racional, etc., tudo é 
possível e essa não é a questão. Mas que, sob pretexto de reagir contra o positi- 
vismo, o objetivismo, etc., nos apresentem teses filosóficas pessoais como sendo a 
verdadeira psicologia, é desdenhar regras do jogo e confundir o estudo da subjeti- 
vidade em geral com a empresa da subjetividade pessoal. 


CAPÍTULO V 


Os filósofos e os problemas de fatos 


Este último capítulo não acrescenta nada às discussões de princípios dos 
capítulos II a IV, mas ele me parece útil, a título de documentação, se bem que 
tenha como objeto apenas alguns exemplos escolhidos um tanto ao acaso. O pro- 
blema é o seguinte. Os três grandes domínios que os problemas de conhecimento 
abordam são o das normas, dos fatos e da intuição. Nada mais natural que os filó- 
sofos abordem as questões de normas, pois se se procura remontar aos problemas 
de princípios e de fundamentos, a discussão das normas impõe-se necessaria- 
mente. A lógica é a ciência da verdade formal, não se discute, e quando se trata 
de uma demonstração logística devemos inclinar-nos. Mas resta coordenar essas 
normas formais com o conjunto dos problemas e é natural que a reflexão se vincu- 
le a essas questões de coordenação. Por outro lado a intuição é, para os que acre- 
ditam nela, uma tomada de possessão direta do objeto e dotada de verdade, isto é, 
um misto ao mesmo tempo normativo e ontológico ou fatual: o ideal de um 
conhecimento específico próprio à filosofia orientou-se, pois, sempre na direção 
da intuição e como consegiuência é mais uma vez normal que a filosofia se ocupe 
do conhecimento intuitivo. Em compensação ainda há os problemas de fatos e 
com relação a eles duas posições são possíveis. 

A primeira é a das filosofias intuicionistas como a fenomenologia, que pre- 
tendem não se ocupar dos fatos, reservados às ciências, mas apenas das “formas” 
que esses fatos presumem, logo das intenções e significações, etc., ou, numa pala- 
vra, das essências. Contudo, partindo desse ponto de vista, o conflito é fatal com 
o conhecimento que busca ser científico, visto que para a psicologia uma intenção 
e uma significação são ainda fatos e a “redução” conduzindo do espaço-temporal 
aos conceitos extratemporais é ainda um fato, etc., o fato sendo por definição o 
que se estuda descentrando a pesquisa em relação ao eu. É inútil voltarmos a esse 
problema já discutido no capítulo III. 

Por outro lado, as filosofias correntes que procedem reflexiva ou dialetica- 
mente, sem ligar-se ao aparelho conceitual, da ontologia fenomenologista fazem 
muitas vezes apelo às questões de fato, já que elas se ocupam do conjunto da reali- 
dade e não apenas da lógica formal. Aliás, os fenomenologistas tanbém não se pri- 
vam disso, pelo menos para distinguir os fatos e as essências, e viu-se (capítulo IV, 
B) como Sartre, por exemplo, concebia os fatos como uma coleção de acidentes. 
A questão é então examinar como os filósofos abordam as questões de fato, dado 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 305 


que toda sua formação prepara-os para tratar de seus problemas por meios pura- 
mente reflexivos, enquanto que um fato presume no minimum uma constatação e 
mesmo uma constatação não se pode efetuar sem método. 

Que eu saiba, uma única filosofia contemporânea abordou esse problema de 
método, salvo, é claro, as filosofias das ciências que estudaram o que é o fato em 
uma ciência experimental: por exemplo a admirável análise de G. Bachelard sobre 
La connaissance approchée. Mas, esse é um outro caso e o que solicitamos a nós 
mesmos, aqui, é estabelecer como os filósofos agem quando, no seu domínio, 
independentemente de toda teoria da experiência ou do método experimental, pre- 
cisam de um fato. Parece-me que a única filosofia que levou a sério esse problema 
foi o “idoneismo” de F. Gonseth, uma filosofia das ciências antes de mais nada, 
é verdade, mas que não teme as questões gerais como, se a ocasião se apresentar, 
a da liberdade. Ora, entre os princípios que Gonseth coloca no início da sua filo- 
sofia, como o da abertura, etc., há um que se notou muito pouco porque no seu 
contexto ele parece evidente: é o da “tecnicidade” segundo o qual todo conheci- 
mento é relativo ao emprego de uma técnica particular, que permite sozinha asse- 
gurá-lo, como a formalização axiomática para os conhecimentos dedutivos ou os 
diferentes tipos de observação metódica (com controle estatístico) ou de experi- 
mentação para os conhecimentos de fatos. Como o emprego de toda técnica exige 
uma formação, Gonseth conclui dai que os únicos fatos válidos a invocar filosofi- 
camente são os estabelecidos pelos especialistas, o que parece claro. 

Mas antes de constatar quanto isso é pouco evidente para um grande número 
de autores, procuraremos primeiro compreender por que um fato válido é tão mais 
difícil de ser atingido que uma dedução correta. Lembremo-nos que a física expe- 
rimental nasceu mais de vinte séculos após as matemáticas e a lógica e que foram 
ainda necessários mais dois séculos para se compreender que a psicologia supu- 
nha uma experimentação. As razões disso são duplas, objetivas e subjetivas. 
Objetivamente, um fato só pode ser atingido por dissociação sistemática dos fato- 
res e foi preciso o gênio de Galileu para chegar a estudar movimentos simples, 
quando os movimentos de observação corrente, como a queda de uma folha, são 
de uma complexidade inextrincável. Ao contrário, a dedução lógico-matemática 
parte de operações simples, como as inclusões de classes, ponto de partida da silo- 
gística ou a adição de números inteiros. No que concerne à psicologia, a dissocia- 
ção dos fatores é bem mais complexa ainda, já que eles estão ligados organica- 
mente em totalidades dificeis de fazer variar sistematicamente e eu me lembrarei 
sempre da surpresa e admiração que senti ouvindo Einstein, em Princeton, que 
gostava que lhe contassem fatos de psicologia da criança (em particular as não- 
conservações), quando concluía sempre da mesma maneira: “Como é dificil! 
Como a psicologia é mais difícil que a Física!” Mas é preciso ser Einstein para 
perceber tão depressa uma dificuldade que poucas pessoas compreendem, e, por 
infelicidade, muitas vezes os próprios psicólogos... 

Subjetivamente, a dificuldade do fato em relação à dedução corrente (não 
falo da dedução em matemáticas puras ou em física matemática) vem de que é 
muito mais econômico refletir e deduzir que experimentar. Foi uma das belas 


306 PIAGET 


descobertas de P. Janet, quando procurou construir “estágios” do desenvolvi- 
mento mental fundando-se, não na criança, mas na hierarquia das funções em 
psicopatologia (segundo sua complexidade e seu custo em energias necessárias), 
ter situado o estágio da reflexão abaixo do estágio onde o “sentido do real” permi- 
te o trabalho seguido e a experimentação: os psicastênicos e os duvidadores refle- 
tem facilmente, dizia ele, e mesmo demasiado, enquanto seu sentido do real é 
tocado, sendo pois mais fácil a função de reflexão que permanece intata. Na crian- 
ça as primeiras deduções concretas aparecem por volta dos 7 ou 8 anos, a reflexão 
como a entendia Janet (com possibilidade de raciocinar sobre hipóteses e não 
mais apenas sobre objetos) por volta dos 11 ou 12 e as primeiras condutas experi- 
mentais com dissociação sistemática dos fatores cerca dos 14 ou 15 somente (e 
cada um sabe o como elas se perdem em seguida na maior parte das profissões 
liberais, quando não são alimentadas na Universidade; isso é culpa, pelo menos 
entre nós, de toda educação no segundo grau que cultiva essas condutas, sem 
embargo espontâneas).*º 
Dito isso voltemos à filosofia e lembremos primeiro que, em muitos países, 
assistimos a uma clara inflação na produção dos filósofos, em relação aos grandes 
séculos nos quais a filosofia não era uma profissão mas um acabamento excepcio- 
nal. Responder-se-á que acontece o mesmo nas carreiras científicas, mas um espe- 
cialista de pouco talento ainda faz um trabalho útil num campo restrito, enquanto 
um filósofo não excepcional é um pouco como um romancista ou um artista sem 
talento excepcional. Lembremos em seguida que se a filosofia tem como objeto a 
totalidade do real, acredita-se poder preparar especialistas desse conhecimento 
total ou dessa pesquisa do absoluto sem passar por uma iniciação à pesquisa no 
domínio dos conhecimentos parciais ou relativos. Desenvolve-se neles, é certo, o 
sentido da história e o respeito dos textos, já que sua única especialização obriga- 
tória é a própria história da filosofia, mas no que se refere aos instrumentos de 
conhecimento, só se alimenta a reflexão, que corresponde por outro lado às 
tendências profundas da adolescência e à orientação natural do espírito humano. 
O resultado é que, quando eles não têm a coragem excepcional de especializar-se 
na epistemologia de uma ciência particular e de levar muito longe o conhecimento 
dela, como Cavaillês, Lautmann e Vuillemin em matemáticas, G. e S. Bachelard 
em física, Daudin e F. Meyer em biologia, G.-G. Granger em ciências econômicas 
e sociais, L. Goldmann em sociologia, etc., a produção filosófica é, ou histórica 
ou reflexiva no sentido mais geral: nessa situação o conhecimento dos fatos está 
desligado da única fonte que o promove à categoria de conhecimento propria- 
mente dito, isto é, da própria pesquisa na sua tecnicidade. É então natural que se 
torne irresistível, sob uma forma aliás inconsciente ou implícita, a tentação de 
considerar que a reflexão sobre o fato, constituindo nesse caso uma 
demanda ulterior e não anterior ao estabelecimento do fato (pois, na ocorrência 
ele já foi, em geral, estabelecido por outros), seja de natureza superior a esse 


3º Ver B. Inhelder e J. Piaget, De la Logique de !'Enfant à la Logique de V'Adolescent, Paris, P.U.F., 1955. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 307 


estabelecimento e permita assim intervir ativamente na sua interpretação e se for 
preciso, retificá-la ou completá-la. 

Dessa maneira, não devemos nos espantar de ver filósofos, de todos os ní- 
veis, intervirem em física para contestar a teoria da relatividade, em biologia para 
contestar a evolução ou conciliá-la à sua maneira, para dividir, naturalmente, os 
problemas de finalidade e às vezes de estrutura e sobretudo, é evidente, para inter- 
vir em psicologia ou em sociologia e em todas as ciências do homem. 

A) No domínio físico a teoria da relatividade excitou, naturalmente, no mais 
alto grau, a reflexão dos filósofos, mas em dois sentidos bem distintos. A posição 
constante de L. Brunschvicg, sabe-se bem, é que o papel da filosofia não consiste 
em intervir nas questões de fatos, saindo unicamente das disciplinas técnicas e 
especializadas, mas em perguntar-se, à maneira kantiana, como esse saber se tor- 
nou possível. Sua atitude em presença da relatividade não é pois, em absoluto, a 
de uma colocação em questão, mas exclusivamente aquela de uma reflexão episte- 
mológica: daí suas excelentes páginas sobre o novo modo de interação entre o 
medindo e o medido que a coordenação relativista supõe, ou entre o receptáculo 
espaço-temporal e o conteúdo físico, o primeiro cessando de ser um quadro disso- 
ciável para se tornar um aspecto desse próprio conteúdo. Pode-se aí se enganar, 
por causa do eterno equívoco do sujeito individual e do sujeito epistêmico e A. 
Metz, por não se ter lembrado que as operações de medida engajam toda a ativi- 
dade do sujeito, no segundo sentido do termo, acreditou refutar essa interpretação 
lembrando que as medidas são problemas de metros e de relógios, efetivamente 
modificados pelos campos nos quais são submersos, como se o “idealismo” 
brunschvicguiano sustentasse o contrário e reconduzisse o sujeito a um jogo de 
“imagens mentais” (são os termos de Metz). Mas na verdade a intenção de 
Brunschvicg não é em absoluto modificar no que quer que seja os dados relativis- 
tas: é apenas mostrar como as interações entre a atividade operatória do sujeito e 
a experiência, bem mais estreitas do que se supunha antes do próprio Einstein, de- 
viam conduzir a uma tal renovação. 

Mas para outros, pelo contrário, a teoria da relatividade, abordando proble- 
mas os mais gerais da natureza absoluta ou não do tempo e do espaço, pôde pare- 
cer constituir uma entrada no mesmo pé de igualdade no próprio terreno da filoso- 
fia e autorizar uma discussão acerca desse terreno comum e com direitos iguais, 
como se o físico, contestando a existência de um absoluto até então reconhecido 
como tal, desse ipso facto ao filósofo o direito de intervir em física. A esse respeito 
os motivos são aliás variáveis e pode ser interessante distingui-los. Contei, no pri- 
meiro capítulo, como meu mestre A. Reymond tinha formado o projeto de refutar 
a teoria einsteiniana. Nele não existia nenhuma pretensão imperialista e nenhuma 
arrogância de filósofo e era o primeiro a rir das fórmulas tais como “a filosofia 
nos diz que. ..”, compenetrado como estava da idéia de uma irredutibilidade irre- 
mediável das diferentes posições filosóficas. Mas tinha suas crenças e o fato de 
abalar um absoluto causava-lhe uma verdadeira inquietude moral, de tal sorte 
que, sem se colocar questões de competência, secundárias, quando existe perigo 
moral, acreditava que era seu dever defender um espaço e sobretudo um tempo 


308 PIAGET 


que permaneciam um pouco, para ele como para Newton, um sensorium Dei. 
Imagino que em Maritain, o conflito da relatividade e do tomismo chegasse a 
motivações análogas, mas talvez ainda mais a uma oposição global dos modos de 
pensamento. Em Bergson, pelo contrário, a situação é muito mais curiosa: tendo 
oposto ao tempo psicológico, relativo ao seu conteúdo e indissociável dele, um 
tempo físico concebido como espacializado e puramente formal, ao ponto de uma 
modificação geral das velocidades não o alterar em nada, Bergson encontrou-se 
diante dessa desagradável situação de uma física nova que tornava o tempo soli- 
dário pelo seu conteúdo e responsável pelas velocidades, um tempo cujo caráter 
heterogêneo e real lembra certos aspectos da duração bergsoniana! Em lugar de 
renunciar às suas antíteses ou atenuá-las, Bergson teve como reação, isso é de 
grande interesse para o nosso propósito, pôr em dúvida a teoria da relatividade e 
intervir, armado apenas da reflexão filosófica, na discussão técnica do problema. 

Poderia parecer inútil insistir sobre a posição de Maritain (Réflexions sur 
VIntelligence, Paris, 1926, capítulos VI e VII), já que o tomismo é uma filosofia 
que de fato é sempre solidária de uma fé religiosa e que, num caso assim, os pode- 
res “naturais” atribuídos à razão e a “filosofia da natureza” provindo desses 
poderes são em realidade ditados antecipadamente por uma posição tomada em 
relação ao sobrenatural. Mas como o aristotelismo é a filosofia do senso comum, 
o dogmatismo categórico e imperturbável de Maritain apresenta o interesse de 
exprimir sob a forma mais crua o que corresponde de fato a certas tendências de 
toda filosofia, que pretende atingir uma forma de conhecimento independente da 
ciência. 

Para o kantismo, o qual Maritain bem viu que exprime um dos aspectos 
fundamentais da ciência moderna, conhecer é fabricar (p. 24). Para o realismo que 
tratará de restituir os direitos, conhecer “consiste em ser ou vir a ser o outro como 
outro” (p. 53), logo em identificar-se “imaterialmente” e “intencionalmente” ao 
objeto (cf. a intentio que, pelo intermediário de Brentano, reaparecerá na intuição 
husserliana). Esse poder conferido assim à razão “natural” de instalar-se direta- 
mente no real conduz então, é lógico, a conferir ao senso comum, detentor dessa 
“razão” e como consequência ao filósofo, codificador e que reflete a razão 
comum que encontra em si e ao redor de si, o direito e o dever de enunciar um 
certo número de princípios gerais aos quais a própria ciência não saberia esqui- 
var-se, sob pena de cair no sofisma ou na aberração. Em um quadro despido de 
todo equívoco (p. 189) acerca da “divisão das ciências”, do qual falaremos, Mari- 
tain repartiu-as pois em metafísica (“Ciência dos primeiros princípios, absoluta- 
mente falando”), em matemática (ela própria submissa à filosofia matemática ou 
“Ciência resolutiva metafísica dos primeiros princípios da ordem” e da quanti- 
dade) e em física, ela própria submissa à “Filosofia da natureza”. Há assim subor- 
dinação total e contínua da Ciência à metafísica. 

Um primeiro exemplo mostra claramente aonde isso nos leva: “É assim... 
que o princípio de inércia... sai da filosofia natural; e se essa última é constran- 
gida a declarar esse princípio inaceitável no sentido em que o interpretavam Des- 
cartes e Galileu, é a Ciência positiva que deve revisar a linguagem na qual ela se 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 309 


exprime e pôr-se de acordo com a filosofia” (p. 190, n. 1). Um segundo exemplo 
do “absurdo dos pensamentos filosóficos acarretados e manifestados pela lingua- 
gem” da Ciência é o da “aventura” que “teve lugar com Lobatchevsky, Riemann 
e a metageometria” (p. 248). Noutros termos, a filosofia não se contenta, o que já 
seria para nós um grave problema de legitimidade, em “fundar” a ciência, mas 
deixando-a livre para construir o edifício que quiser sobre estas fundações pré- 
vias: a “filosofia da natureza”, tal como a entende Maritain, pretende entrar no 
mesmo nível em qualquer debate técnico, e retificar a posição dos especialistas em 
questões tão vitais para o futuro da ciência como o princípio da inércia e as 
generalizações da geometria! É uma pequena consolação para um psicólogo, 
habituado às intervenções de certos filósofos na sua ciência ainda tão pouco segu- 
ra, encontrar aqui uma bela caricatura ampliada desse imperialismo, sob a forma 
de um metafísico que trangúilamente culpa os princípios essenciais da mecânica 
e da métrica geral. 

Adivinha-se, então, o que são as reações de J. Maritain à teoria da relativi- 
dade. Mas elas não deixam de ser interessantes além da esplêndida fatuidade do 
tom, porque voltam a imaginar uma espécie de kantismo nominalista: teoria da 
relatividade é cientificamente aceitável como “fabricação” de fenômenos relativos 
às medidas convencionalmente escolhidas, mas, atrás dessas “aparências” descri- 
tas por conseguinte de maneira válida, permanece o númeno. A única pequena 
diferença com Kant é que aqui o númeno está à disposição do “senso comum”, 
isto é, concretamente falando, das zeladoras ou dos limpadores de vidros tanto 
quanto dos “filósofos da natureza”. Ora, esse senso comum exige, é evidente, a 
simultaneidade à distância e o tempo universal, e a única coisa a fazer é arranjar 
as teorias de Einstein para torná-las compativeis com essa exigência da metafísica 
e do bom senso reunidos. ii 

A conciliação é simples e consiste sem mais em examinar como os relati- 
vistas fabricaram seus fenômenos: o princípio é na verdade “uma medida física 
que um homem poderia tomar com seus sentidos e seus instrumentos em tais ou 
tais condições, aliás as mais fantásticas que se queira, desde que sejam imaginá- 
veis”. “Eis”, acrescenta Maritain, “o princípio fundamental, a pedra filosófica, o 
santo dos santos do método einsteiniano” (p. 204). Noutras palavras, a teoria da 
relatividade repousa sobre “definições de nome” e nada tem a ver com o real (p. 
204): definindo a simultaneidade de maneira insuficiente (p. 208), ela não atinge 
senão uma “simultaneidade aparente” (p. 214), isto é, um “sucedâneo empírico- 
quantitativo. Estamos aqui em presença do ponto de ruptura entre a filosofia natu- 
ral e a ciência físico-matemática. Mas que se determine esse sucedâneo como se 
queira, à maneira de Einstein, por exemplo, a própria essência da simultaneidade 
permanece sempre o que a inteligência concebeu e definiu” (p. 220). Unicamente 
como explicar então que as medidas tivessem êxito já que a física de Einstein não 
é uma teoria hipotético-dedutiva? É que é preciso distinguir as medidas, que atin- 
gem corretamente a aparência, e suas interpretações (p. 226). Mas a medida física 
só procede por meio de “estalões acidentais. O que a coisa medida é intrinseca- 
mente e nas suas dimensões absolutas (sic), o físico não o pode determinar” (p. 


310 PIAGET 


251). Quanto a saber o que são essas “dimensões absolutas”, é simplesmente a 
“quantidade medida com o padrão próprio da natureza — inacessível à nossa 
ciência (p. 251)! Do mesmo modo os invariantes relativistas são pesquisados 
“contrariamente aos procedimentos do senso comum”, isto é, não do lado do 
“ser” e também “não dentro das coisas”, mas, “na exterioridade das relações 
quantitativas que devem permanecer as mesmas em todos os pontos de vista 
possíveis”, etc. (p. 239). 

As “dimensões absolutas”, o “padrão próprio da natureza”, o invariante pro- 
curado “dentro das coisas”, tais são os conceitos da “filosofia natural” que Mari- 
tain opõe e Einstein. Dever-se-iam reunir tais pérolas em uma compilação de bes- 
teiras filosóficas para uso dos futuros historiadores do pensamento. Isso não 
impede que o metafísico conclua seu capítulo sobre as teorias de Einstein, decla- 
rando gravemente: “Legitimas como símbolos científicos. . . são absurdas quan- 
do se erigem em expressões filosóficas do real... Nesse caso elas não repre- 
sentam mais que um sintoma bastante assustador do anarquismo intelectual, no 
qual, sob a ação dos resíduos vergonhosos do kantismo e por falta de um sólido 
sustentáculo filosófico, a ciência moderna corre o risco de soçobrar” (p. 259). 
Valia a pena transcrever essas citações para mostrar a que se reduzem os “sim- 
bolos legítimos” da ciência à luz da “filosofia da natureza”: uma linguagem coe- 
rente não exprimindo absolutamente nada. 

B) A pequena obra de Bergson, Durée et Simultanéité, 1922, é naturalmente 
muito mais sutil quanto ao pensamento e à linguagem empregada. Mas é notável 
constatar que, sob a diplomacia bergsoniana e uma vez admitidas as diferenças 
metafísicas do bergsonismo e do tomismo, os argumentos invocados não diferem 
fundamentalmente. *º Bergson não vê na teoria da relatividade um kantismo 
nominalista, “mas é bem na direção idealista, cremos nós, que seria necessário 
orientar essa física se se quer erigi-la em filosofia” (p. 110, n. 1). Ele não diz que 
os tempos relativos aos diferentes observadores são simples “aparências”, mas 
fala de tempos “atribuídos” ou ainda “fictícios”, imaginados, calculados, etc., em 
oposição ao único tempo real que é o do observador “vivo e consciente”. “Se... 
se coloca na hipótese de Einstein, os tempos múltiplos subsistirão, mas não have- 
rá jamais senão um só tempo real. ..; os outros são ficções matemáticas” (p. 34). 
O único tempo real continua sendo o tempo vivido. 

No entanto, Bergson não pode deixar de admitir que esse tempo vivido 
depende em parte do meio e esse fato deveria pois tê-lo conduzido a aceitar os 
tempos relativos e mesmo a ver neles uma espécie de extensão da duração bergso- 
niana (mas repitamo-lo, teria sido ao preço de sacrificar uma das suas antíteses 
fundamentais): “Assim, nossa duração e uma certa participação sentida, vivida, 
de nosso círculo material a essa duração interior são fatos de experiência... 
Nada prova rigorosamente que nós reencontraríamos as mesmas durações quan- 
do mudássemos de ambiente: durações diferentes, quero dizer diversamente ritma- 
das, poderiam coexistir. Fizemos em tempos passados uma hipótese desse gênero 


*º Não faço aqui história: a obra de Bergson é anterior quatro anos à de Maritain. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 311 


no que concerne às espécies vivas” (p. 57). Essa passagem mostra que não exage- 
rariamos falando de conexões possíveis entre o bergsonismo e a relatividade. Mas 
Bergson recusa-se a prolongá-las porque “a natureza dessa participação é desco- 
nhecida: ela poderia estar ligada a uma propriedade que teriam as coisas exterio- 
res, sem durarem elas próprias (sublinhado por nós), de se manifestar na nossa 
duração à medida que agissem sobre nós. . ., etc.” (p. 57). Noutras palavras, se as 
durações vividas são relativas ao seu conteúdo, o tempo físico permanece univer- 
sal e vazio e os tempos relativos de Einstein inscrevem-se nele a título, simples- 
mente, de ficções provindas do fato que os diferentes observadores possíveis para 
um mesmo tempo dado são imaginados por um único observador real: “A refle- 
xão fortalece nossa convicção a termina mesmo por torná-la inabalável, porque 
ela nos revela nos Tempos da Relatividade restrita — exceto um único dentre eles 
— tempos sem duração, onde os acontecimentos não se poderiam suceder, nem 
coisas subsistirem, nem seres envelhecerem (pp. 240-241). 

Essa “convicção inabalável” devida só a “reflexão” filosófica terminou, no 
entanto, cedendo, pois a última edição das Oeuvres Completes, do Mestre, reali- 
zada conforme suas indicações, não contém nem Durée et Simultanéité nem 
nenhuma menção a ela. Mas não foi sem dificuldades. A. Metz publicou diversos 
artigos para mostrar os erros de Bergson mas ele respondeu friamente: “... ele 
nem sequer supõe a dificuldade. O sentido das minhas reflexões escapou-lhe total- 
mente. Nada posso fazer”. J. Becquerel endereçou-lhe uma carta e visitou-o, mas 
em vão. O próprio Einstein, felicitando A. Metz por seu livro, escrevia (com auto- 
rização para reproduzir): “É lamentável que Bergson se tenha enganado assim tão 
gravemente e seu erro é bem de ordem puramente física, independente de toda dis- 
cussão entre escolas filosóficas”. E. Le Roy, o melhor discípulo de Bergson, dizia 
por sua vez em 1937: “Na perspectiva do Sr. Bergson, um sistema de referência, 
tal como é concebido, tem isso de estranho: nada se lhe pode atribuir 
fisicamente”. 

Essa aventura do bergsonismo é altamente instrutiva quanto ao destino reser- 
vado cedo ou tarde às intervenções dos filósofos nos problemas de fatos, quando 
eles se atribuem o direito de discutir no próprio terreno da interpretação dos 
dados de experiência e cálculos. Sem dúvida, Bergson nos diz no seu prefácio que 
ele não se ocupa do aspecto “físico” do problema e que a “confusão” (p. VI) des- 
coberta por ele só concerne à teoria da relatividade se “for erigida em filosofia” 
(p. VID. Mas, numa linguagem mais cortês que a de Maritain, isso volta de novo 
a afirmar que a ciência não atinge o real e que, para consegui-lo, é preciso lem- 
brar-se que “ciência e filosofia são disciplinas diferentes mas feitas para se 
completarem” (p. V), como se a filosofia fornecesse “conhecimentos” impondo “o 
dever de proceder a uma confrontação” (p. V). Sem abordar esse último debate 
sob sua forma geral, A. Metz em um recente artigo (Sciences, 1964, n.º 33, Her- 
mann) limita-se a declarar sobriamente: “Essa atitude de Bergson ensinando aos 
relativistas o que é (segundo ele) a teoria da relatividade pode parecer surpreen- 
dente. Ela está presente ao longo de todo o livro... Todo o livro está... pleno 
de afirmações a respeito da “essência da teoria da relatividade” e o que se deve 


312 PIAGET 


fazer e dizer (se se coloca sob o ponto de vista da relatividade)”. Foi necessário 
que Einstein em pessoa tivesse mostrado em que ele se havia “tão gravemente 
enganado” para que Bergson escutasse enfim a voz da razão. Ora, o erro de Berg- 
son suscita precisamente o problema que é objeto de toda nossa obra, isto é, o da 
legitimidade de “conhecimento” filosófico distinto do saber científico e suscetível 
de retificá-lo no detalhe dos fatos. A propósito do livro de Langevin, Bergson diz 
o seguinte, e é aí que ele se engana: “Não se pode exprimir matematicamente 
senão na hipótese de um sistema privilegiado, mesmo quando se começou por se 
colocar a reciprocidade; e o físico, sentindo-se livre em relação à hipótese da 
reciprocidade, uma vez que lhe rendeu homenagem escolhendo como queria seu 
sistema de referência, abandona-a ao filósofo e daí por diante se exprimirá na lin- 
guagem do sistema privilegiado. Confiando nessa física, Paul ficará em embara- 
ços. Perceberá, prosseguindo, que a filosofia tinha razão” (pp. 108-109). Acaba- 
mos de ver como. 

C) Se a física contemporânea dá ainda margem à especulação filosófica, 
apesar do seu caráter exato e sua alta tecnicidade, é evidente que já em biologia 
a situação parece a um grande número de espíritos, exigir, pela força das coisas, 
uma colaboração entre a pesquisa científica e a metafísica. As razões são, pelo 
menos, de duas espécies. 

A primeira é que a biologia não resolveu ainda seus problemas centrais. Nem 
o mecanismo da evolução nem a estrutura de conjunto do organismo são ainda 
conhecidos e, por não dominar essas duas perspectivas diacrônica e sincrônica, a 
biologia está num grau comparável aquele onde se encontrava a física antes de 
Newton, mas com muito mais conhecimentos parciais. É natural pois que a espe- 
culação filosófica trate de ocupar o campo, deixado ainda livre por essa ausência 
atual de sínteses possíveis e, como esse estado de coisas lhe é particularmente 
favorável, ela só pode ser levada a acreditá-lo permanente, porque está ligado à 
natureza da vida. É preciso pois uma coragem filosófica pouco comum para entre- 
gar-se, a propósito da biologia, não a ofertas de soluções de natureza de algum 
modo metabiológica, mas como o fez entre outros F. Meyer na sua Problématique 
de L Evolution, a análises propriamente epistemológicas, procurando distinguir as 
escalas de fenômenos ou as escalas de problemas, na esperança de favorecer a 
própria pesquisa e não seus sucedâneos especulativos. 

A segunda razão é mais grave e mais instrutiva quanto às consequências da 
organização atual dos estudos. Um biologista estudou, além de seus ramos espe- 
ciais, a química, a física e um pouco de matemáticas, sobretudo em estatística, 
mas ignora tudo de psicologia experimental, linguística, economia, etc., quer 
dizer, das ciências que, tocando em fenômenos saindo de atividades vivas, pode- 
riam sugerir-lhe toda espécie de “modelos” no que concerne aos processos levan- 
tando problema de finalidade. Salvo exceções, ele ignora pois as teorias da infor- 
mação, da decisão (ou dos jogos) e o detalhe das aplicações cibernéticas às 
questões de aprendizagem ou de adaptação intelectual. Refletiu, por conseguinte, 
muito pouco nos problemas de estruturas, como se os encontra em álgebra geral, 
em lógica e em toda essa região essencial que religa hoje as questões de estrutura 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 313 


às de probabilidade. Saído do campo da sua formação profissional, é a filosofia 
sob suas formas comuns e gerais que ele mais tem ocasião de encontrar no seu 
caminho. Disso resulta então que, em presença das lacunas atuais da sua ciência 
em relação aos problemas mais centrais da vida, ele adota ou uma atitude que diz 
ser mecanicista e que volta, em última análise, a atribuir tudo ao acaso, ou uma 
exatamente contrária, de acolhida em torno de toda interpretação especulativa 
geral, que praticamente em nada o ajuda no detalhe das suas pesquisas, mas que 
satisfaz seu espírito, permitindo-lhe denunciar a insuficiência das explicações pelo 
acaso. Trata-se quase sempre de duas fases sucessivas de uma mesma carreira. 
Eu, por exemplo, segui com apaixonado interesse a evolução das ideias de um 
grande genético e de um grande especialista da regeneração, E. Guyénot, com o 
qual mantinha relações contínuas na mesma faculdade, o que me permitia interro- 
gá-lo sempre. Durante uma primeira fase Guyénot não queria conhecer senão o 
acaso e a seleção, sobre o modo neodarwiniano. Objetei-lhe que assim toda expli- 
cação psicológica tornar-se-ia impossível e que se seu cérebro era o produto de 
acasos sucessivos com seleção aproximativa, toda teoria tornar-se-ia singular- 
mente frágil. Suas respostas eram, invariavelmente, que sair do acaso é outra vez 
recorrer ao finalismo, e que, quanto a ele, havia decidido “apostar contra” e que 
a psicologia não interessa em nada ao biologista pois é “filosofia” e de um tal 
ponto de vista o finalismo impõe-se. Dessa posição de tudo ou nada, Guyénot 
tirou então as consegiiências no dia em que cessou de crer no valor explicativo do 
acaso: tornado finalista e quase vitalista, não compreendeu por que eu não o 
seguia, como se não existisse nada entre um suposto mecanismo, reduzindo-se à 
seleção do fortuito e a filosofia aristotélica da finalidade. No entanto, nessa 
mesma faculdade, o físico Ch.-Eug. Guye desenvolvia as mais profundas idéias 
sobre as fronteiras da física e da biologia, mostrando que, se a físico-química clás- 
sica é impotente para integrar o vital, essa integração aparece mais próxima com 
as transformações da microfísica e enriquecerá esta com novas dimensões em 
lugar de empobrecer a complexidade do organismo (e Ch.-Eug. Guye generalizava 
essa interpretação não reducionista, mas por assimilação recíproca, até prever 
uma fisicoquímica mais “geral” *'" ainda quando esta integrasse as atividades 
cerebrais). 

Essa instabilidade atual das posições biológicas, que oscilam, no que se refe- 
re aos grandes problemas, entre esquemas de explicação insuficientes e a especula- 
ção fácil, é, claro, de natureza a encorajar a pretensão de uma filosofia paracien- 
tífica sempre pronta a preencher as lacunas da ciência. Onde poderão conduzir- 
nos tais tentativas? Contentar-nos-emos com dois exemplos. O primeiro é um 
pouco antigo, mas seu interesse está em que o filósofo que nos propõe suas teses, 
R. Dalbiez, fez apelos a muitos biólogos de renome para discutir os próprios 
fatos, reservando para si as conclusões gerais. Considerando que “no momento 
atual poucas tarefas são mais urgentes que a reconstituição de uma filosofia da 


41 


A idéia de Guye era que em física é o complexo e não o simples que permite as generalizações verdadei- 
ras: exemplo: o eletromagnetismo em relação à mecânica clássica, etc. 


314 PIAGET 
natureza”, *? ele deseja, efetivamente. que essa filosofia seja o produto de uma 
colaboração entre sábios e filósofos. É interessante procurar saber no que deu essa 
colaboração. 

A obra sobre Le Transformisme, que vai responder a essa questão, começa 
com uma exposição de E. Gagnebin mostrando as razões que a paleontologia for- 
nece para crer na evolução, sem contudo atingir suas causas. Por outro lado, L. 
Vialletton expõe suas conhecidas reservas (e discutidas) acerca do evolucionismo, 
sugerindo um retorno a Cuvier. W. R. Thomson mostra a dificuldade em explicar 
as formas parasitárias pelo não-uso dos órgãos e sublinha a existência de varia- 
ções úteis, precisando com cuidado os limites das interpretações finalistas, às 
quais acredita, mas com a condição de não as fazer entrar em detalhes. Enfim, L. 
Cuénot refuta qualquer hipótese de uma transmissão dos caracteres adquiridos, 
sem sustentar esse “finalismo mitigado, restrito ou intermitente, traduzindo-se 
pela invenção perfectível” que ele opôs mais tarde *º às explicações só pelo acaso. 
Resumindo, as quatro contribuições reunidas por Dalbiez são lições de prudência, 
traduzindo bastante objetivamente a dificuldade dos problemas. 

Vem agora a conclusão do filósofo. A ciência, digna-se ele conceder, tem por 
objeto “o mundo exterior, reservando à filosofia a última explicação da matéria e 
da vida” (p. 202). Mas Dalbiez, oferecendo-nos essa explicação “última”, não 
deixa de intervir menos vigorosamente no detalhe dos fatos que ele não considera 
pois, absolutamente, como “reservado” por reciprocidade à ciência. Aceita o 
transformismo, mas constata a ausência de qualquer distinção entre os “tipos” e 
suas variações, os primeiros “não sendo jamais eles próprios encarados” (p. 184). 
O biólogo não se formula mais nenhuma questão sobre o critério permitindo dis- 
sociar o que é ancestral e o que é adaptado secundariamente, mas “o lógico das 
ciências” (p. 185) lá está, felizmente, para lembrar-lhe isso. Pouco a pouco, deli- 
mitando o que é adaptado do que é herdado, depois novamente, no seio desse últi- 
mo, o que é adaptado e o que é herdado, etc., chega-se ao primeiro ser vivo. Ora, 
acerca desse ponto, o transformismo e em particular Darwin permanecem mudos. 
“Talvez seja uma marca de prudência científica, mas em todo caso é uma causa 
de obscuridade filosófica” (p. 188). 

Vê-se assim, desde o início, como um filósofo, pretendendo desempenhar o 
duplo papel (sem aliás desconfiar da contradição intrínseca) de fornecedor das úl- 
timas explicações e de lógico das ciências, concebe a “cooperação intelectual 
entre sábios e filósofos”: a ciência, a ancilla philosophiae, traz os materiais e a 
filosofia retifica os métodos de elaboração, discute as interpretações e finalmente 
dita suas próprias soluções. 

Ora, essas soluções são, no caso, particular, ao mesmo tempo, de uma 
simplicidade que desarma e de uma certa riqueza em inexatidões. Dalbiez começa 
por colocar que a finalidade não é própria à vida, mas que, definida como uma 


*2 Le Transformisme, por L. Cuênot, R. Dalbiez, E. Gagnebin, W. R. Thomson c L. Vialleton, Vrin, 1927, 
p. 218. 
*3 L. Cuénot, Invention et Finalité en Biologie, Flammarion, 1941, p. 246. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 315 


preordenação da potência ao ato, ela existe no plano físico em todos os lugares 
onde haja movimento ou relação causal (é, como se sabe, uma crença comum à fi- 
sica de Aristóteles e à das crianças por volta dos 8 ou 9 anos). Mas a esse propó- 
sito, o filósofo não se pode impedir de dar lição aos físicos e de ver um “circulo 
vicioso evidente” na afirmação de um determinismo estático primário, pois ““é 
suficiente olhar com cuidado” para reconhecer sob ele “o determinismo propria- 
mente dito e em seguida a preordenação” (p. 179). O “cuidado” que Dalbiez pôs 
nesse exame não impediu, infelizmente, a grande maioria dos físicos nucleares de 
alinharem-se desde então em sentido contrário. 


Quanto ao vivo, Dalbiez definiu-o pelas características de “moverem-se a si 
próprios ou agirem sobre si em lugar de somente sobre o outro” (p. 180), definição 
que conduz pois à idéia de auto-regulação, a qual, sabe-se bastante hoje em dia, é 
compatível com os modelos mecânicos e feedbacks. A esse respeito Dalbiez con- 
testa, contra a maior parte dos seus confrades vitalistas, a possibilidade de movi- 
mentos espontâneos, isto é, não movimentados por excitantes externos: ora, a es- 
cola objetivista provou hoje sua existência (v. Holst, etc.). Após isso vem a justifi- 
cação de um finalismo integral: “A seleção não pode se dar, a não ser que se adote 
a tendência da vida em perpetuar-se” (p. 190), como se uma tendência não se 
pudesse explicar por leis de equilibração; a adaptação lamarckiana admite “desde 
que nela se pense” (pp. 191-192) “uma aptidão pré-estabelecida” se bem que, “à 
força de encarar as modificações, esquece-se o modificado” (p. 192). Enfim, o 
mutacionismo, felizmente completado pela “pré-adaptação” de Cuénot, também 
comporta um finalismo, pois apesar das mais claras declarações de Cuénot, “a 
teoria da pré-adaptação deve ser considerada como um finalismo depurado” (p. 
194): em outras palavras, se uma espécie de molusco, que se considera mais resis- 
tente que outros às variações climáticas, for transplantado por acaso (pelo acaso 
de um transporte de grãos próprios para forragem) para uma região xerotérmica 
e lá se multiplica em profusão até em altitude, *? há aí “uma finalidade depura- 
da” ! Nessas condições o milagre seria descobrir acontecimentos não finalizados. 


Dalbiez passa depois à psicologia animal e declara com o mesmo surpreen- 
dente dogmatismo que a inteligência animal não existe ou consiste, exclusiva- 
mente, em uma “memória associativa”: toda a obra de W. Kôhler, cujo livro prin- 
cipal aparece no entanto em 1917, é um desmentido a essa interpretação. 


Concluindo, o transformismo encontra-se dividido, segundo Dalbiez, entre 
duas filosofias contraditórias; o mecanismo que nega a qualidade como o tempo 
e o historicismo que conduz à pura contingência. Daí a necessidade de conciliá- 
las, pela introdução de uma finalidade à obra desde o primeiro ser vivo, a única 
que confere a um agregado físico-químico a propriedade de equilibração, forne- 
cendo precisamente essa conciliação do mecanicismo e do historicismo e que, da 
simples aumentação da entropia, própria ao equilíbrio termodinâmico, às 


*4 Eis um exemplo real de “pré-adaptação”: o da Xerophila obvia transplantada da Europa Oriental nos 
Alpes Valasianos, onde segui sua propagação de 1911 até hoje. 


316 


homeostases e às auto-regulações, toda uma série de escalas fornecem equiva- 
lentes cada vez mais aperfeiçoados da finalidade. 

O exemplo dessa obra mostra-nos assim como um pós-graduado em filoso- 
fia, que convoca quatro biologistas para a primeira reunião da “Sociedade de 
Filosofia da Natureza”, volta, invocando o primado do conhecimento metafísico, 
a expor-lhes um misto de banalidades e de opiniões pessoais temerárias ou já 
controvertidas, cujo único método direto consiste em “olhar com cuidado” e 
“pensar nela”, atribuindo-se modestamente o título de “lógico das ciências”. 

D) Uma tentativa mais séria é a de R. Ruyer, que forneceu um grande esfor- 
ço de informação. Prisioneiro de guerra na Alemanha, com o grande embriolo- 
gista E. Wolff, Ruyer participou dos trabalhos do “Círculo de Biologia” do seu 
“Oflag” em uma “Universidade de Cativeiro” dirigida pelo grande matemático 
Leray. Ruyer encontrou-se, dessa maneira, mergulhado nessa atmosfera de inter- 
câmbios científicos que tão cruelmente falta na preparação habitual dos filósofos. 
Retornando a Nancy, prosseguiu nas meditações e leituras e delas tirou, entre 
outros, seus Éléments de Psychobiologie (P.U.F., 1946). É pois de certo interesse 
examinar o que esse metafísico concluiu da sintese de sua formação biológica e 
das suas preocupações filosóficas. 

É conveniente, de início, reconhecer com toda Justiça um certo número de 
resumos engenhosos e de idéias válidas que se encontra nessa obra, a começar 
pelo projeto de fundir num todo o comportamento e a vida orgânica, em outras 
palavras, o objeto da psicologia e o da biologia. Por exemplo: Ruyer consegue 
muitas vezes imaginar “formas verdadeiras” (em oposição aos agregados) em sis- 
temas não coincidindo com as totalidades perceptíveis: e de que a andorinha adul- 
ta não é mais que um segmento, ou um ciclo subordinado, do ciclo “reprodução 
da andorinha”, Ruyer conclui que “o instinto é o aspecto que toma o dinamismo 
da forma verdadeira cíclica, quando ela impõe-se a uma individualidade para 
ligá-la à sua unidade” (p. 41). Isso não explica, naturalmente, nada, mas a fórmula 
é feliz por situar o problema do instinto num plano de organização, não interior 
ao indivíduo, mas ultrapassando-o no espaço e no tempo, e do qual é necessário 
isolar as leis e a estrutura. 

Mas essa aptidão em imaginar círculos ampliados e estruturas abstratas, dos 
quais a biologia concreta experimenta uma tal necessidade e que encontram um 
começo de expressão nos trabalhos cibernéticos atuais (que aliás Ruyer seguiu de- 
pois e dos quais fez excelentes exposições), não foi suficiente para proteger o filó- 
sofo contra as duas grandes tentações que ameaçam qualquer especulação no ter- 
reno da vida: o recurso a explicações inverificáveis e a tendência a projetar nos 
processos elementares propriedades que pertencem aos níveis superiores do 
comportamento e da vida mental. 

Sobre o primeiro ponto Ruyer nos diz (p. 11) que “a forma dinâmica atrás da 
estrutura, a atividade estruturante e as ligações que produz são inobserváveis e 
devem sempre ser inferidas com risco”. Mas, desde esse começo, é-se, natural- 
mente, conduzido a se perguntar se as estruturas válidas que se trataria de pesqui- 
sar não são precisamente as que, à maneira das grandes estruturas algébricas 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 317 


qualitativas, englobam suas próprias leis de construção sem que seja necessário 
imaginar “atrás” delas uma atividade estruturante: em uma estrutura de “grupo”, 
por exemplo, a atividade estruturante não é mais que a operação que define esse 
grupo. Se Ruyer não se orienta para tais direções * * é talvez porque não queira ver 
que a ligação entre o funcionamento de uma estrutura e a própria estruturação é 
para procurar na direção das auto-regulações ou equilibrações ativas: teme, com 
efeito, a noção de “equilibração” (éguilibrage), como ele se exprime, como perten- 
cendo à fisiologia físico-química, ciência dita “secundária” (p. 2) em oposição às 
ciências “primárias”, ou ciências das “formas verdadeiras”, como a física atômi- 
ca, a biologia e a psicologia! Mas é sobretudo porque, com uma rapidez surpree- 
dente, Ruyer abandona o terreno dos fatos para orientar-se não somente em dire- 
ção às areias movediças das “inferências com risco”, mas muito diretamente para 
um metafísica do “potencial”, apesar de tudo quanto a história nos ensina acerca 
do manejamento verbal das noções que não têm um sentido a não ser no terreno 
das medidas e dos cálculos precisos. 

Com efeito, desde as páginas 12 e 15 aprendemos com espanto que “toda 
forma verdadeira” supõe um “potencial” e que, se os potenciais físicos são situa- 
dos no espaço-tempo, as formas biológicas não poderiam se desenvolver no espa- 
ço e no tempo senão como atualização de um potencial “trans-espaço-temporal”, 
pois, segundo Cuénot, a ontogênese é “preparadora do futuro” (conquanto “não 
se tenha jamais visto um monte de neve pór-se em equilíbrio com uma tempestade 
futura”). Em outras palavras, desde o início, a vida é assentada como finalidade 
(Ruyer prefere o termo tematismo ao finalismo (p. 187), mas é a mesma coisa) e a 
finalidade justifica o recurso a um “potencial” situado fora da natureza observá- 
vel. Equivale a dizer-nos imediatamente que Deus ordenou tudo antes e que não 
há outra explicação a procurar. a 

Mas sem estar constrangido por essa espantosa mistura de planos, do qual 
faz, pelo contrário, o princípio do seu sistema filosófico-biológico, Ruyer não 
deixa de prosseguir em uma pesquisa das explicações, utilizando em detalhes sua 
rica informação sobre os fatos. O modo dessas explicações é então bem simples: 
consiste em atribuir a todas as “formas verdadeiras” as propriedades da vida men- 
tal mais evoluída. 

Por exemplo: desde a página 10 falam-nos da “subjetividade das moléculas” 
e desde a 17 afirmam-nos que “toda força é de origem espiritual”. Quanto aos 
organismos elementares, quer-se ser “particularmente claro” afirmando que “o 
psiquismo primário orgânico não é uma espécie de variedade confusa e rudimen- 
tar do psiquismo da psicologia” e “não é inconsciente senão no sentido preciso de: 
desprovido de imagens intencionais voltadas para o mundo” pois “o psiquismo 
que assegura e guarda a estrutura de uma ameba, de um vegetal ou de um animal 
é perfeitamente “distinto”. Nada há de obscuro, ele simplesmente está voltado, 
como atividade, para o “dentro” (entendemos com isso, para a conservação de 


*8 Dai fórmulas inquietantes como: “Quanto ao instinto, já que ele é o guardião da estrutura, não resultaria 
dela” (p. 42). 


318 PIAGET 


suas próprias constituintes subordinadas) e não, como a atividade psíquica dos 
animais superiores, para o meio exterior. A ameba ou o vegetal erlebt, enjoys, 
sobrevoa ou pensa... sua estrutura orgânica com tanta clareza como o homem 
pensa a ferramenta que está fabricando” (p. 24). 

Esse texto decisivo tem razões para estupeficar, não talvez a todo biólogo, 
pois sabe-se bem quantos houve que recorreram a “psicóides”, etc., mas, com cer- 
teza, todo psicólogo responsável por pesquisas efetivas. Logo de início a cons- 
ciência das moléculas parece, da mesma maneira, suscitar dois problemas pelo 
menos: como estabelecer sua existência e o que poderia ela juntar ao que sabemos 
desses sistemas materiais? Quanto ao psiquismo da ameba, o próprio Ruyer nos 
lembra (p.22) que esse protozoário é capaz de adquirir condicionamentos, hábitos, 
etc., e tira daí o argumento que o “psiquismo” é anterior ao sistema nervoso: após 
isso, duas páginas adiante, esses comportamentos evidentemente relativos às per- 
mutas com o meio (a ameba “age”, diz Ruyer) tornam-se o índice de um psi- 
quismo voltado só “para O interior” e encarregado da manutenção da estrutura 
orgânica! 

Ora, sob essa leviandade e essas contradições, não se encontra de fato senão 
esse modo de explicação essencialmente verbal já constatado a propósito do “po- 
tencial” e que consiste em acreditar que substantificando um processo e batizan- 
do-o, contribui-se, em o que quer que seja, para a solução dos problemas que ele 
apresenta. Bem entendido, a ameba tem “comportamentos” e conhecemos muitos 
deles. Mas em que avançamos nós um passo vendo nisso a expressão de um “psi- 
quismo”? O psiquismo, se se faz questão desse nome, é precisamente o conjunto 
dos comportamentos e jamais sua causa. Dizer que a ameba “pensa” com a 
mesma clareza que um homem fabricando um utensílio, é, ou jogar com as pala- 
vras ou então dizer que seu comportamento constitui um estágio inicial do que se 
tornará a inteligência. Nesse último caso, apresentou-se, simplesmente, um pro- 
blema da análise estrutural e de filiação, mas não se diz de maneira estrita, nada 
de mais, falando já de pensamento ou de inteligência, pois são palavras vazias de 
sentido emquanto não se tenha descrito e interpretado cada um dos mecanismos 
em jogo nos níveis de desenvolvimento considerados. O psiquismo invocado por 
Ruyer é pois despido de significação para um psicólogo: não é senão o enunciado 
de um problema e, ainda por cima, um mau enunciado. 

Mas há o pior: supondo de improviso que essa espécie de alma atribuída à 
ameba explique o que quer seja na constituição ou na manutenção de sua estru- 
tura orgânica, malbaratam-se os belos problemas suscitados pela hipótese segun- 
do a qual o mecanismo dessa estruturação constitui talvez ao mesmo tempo o 
motor do comportamento correspondente ou ainda pela hipótese segundo a qual 
haveria aí duas espécies de organizações mas complementares, ou em interação. 
Há nisso um conjunto de questões capitais, tanto para a psicologia como para a 
biologia, é permanece-se confundido porque um autor informado pode dividir 
assim, a golpes de afirmações maciças e despidas de qualquer controle, o que 
admitirá décadas ou talvez até séculos de pesquisa. 

Podemos parecer severos, mas que se releia o modo pelo qual Ruyer trata o 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 319 


muito honesto L. von Bertalanffy, cuja obra apresenta uma sustentação científica 
bem diversa e uma profundidade sem medidas comuns com aquela do nosso 
autor: “As concepções de Bertalanffy não têm clareza. Representam: perfeita- 
mente o vitalismo vergonhoso e como consegiiência confuso” (p. 193, n. 1): se se 
trata Bertalanffy de vitalista confuso, que dizer então de R. Ruyer? 

Numa palavra, para esse último, todo o biológico explica-se pela consciên- 
cia, isso só porque ela é uma “força flexível e modeladora, que se exerce de manei- 
ra primária na modelagem das formas orgânicas... etc.” (p. 293). Mas a cons- 
ciência é ao mesmo tempo “apercepção das essências e dos valores”. E por isso 
mesmo é fonte da memória: “O estatuto dos seres mnêmicos é inteiramente aná- 
logo ao das essências e dos valores. Os seres mnêmicos estão além dos existentes. 
A memória está fora do plano espaço-temporal” (p. 293). Eis pois o resultado 
desse espiritualismo biológico: a memória está fora do tempo (oh, Bergson !), a 
vida fora da natureza. .. e a verdade fora de toda verificação. 

E) Se passarmos da biologia à psicologia, as intervenções dos filósofos nas 
questões de fatos propriamente ditos multiplicam-se naturalmente e mesmo a n* 
potência. A razão é, primeiro, o caráter lacunar dessa ciência ainda jovem, apenas 
começando. P. Fraisse termina da seguinte maneira seu capítulo sobre “A evolu- 
ção da psicologia experimental”, no Traité que publicamos juntos: “O domínio 
que ela conquistou alarga-se cada vez mais, mas seu desbravamento iniciou-se 
agora. A moderna história da psicologia está no princípio” (fasc. 1, p. 69). É evi- 
dente que os terrenos ainda não explorados deixam o campo livre à especulação 
e um campo ainda mais vasto que em biologia. A segunda razão é que, mesmo nas 
questões onde as pesquisas estão em curso desde há muitos anos, o filósofo acha 
que tem o dever de conservar o direito de olhar e intervir só porque os fenômenos 
que estão em jogo tocam o mundo interior. Não é por nada que um filósofo de 
senso comum como Dalbiez limita a ciência, em uma das passagens citadas (em 
B), ao conhecimento do mundo “exterior”: o interior beneficia-se de uma tradição 
consagrada e as críticas endereçadas aos métodos de introspecção não impedem 
em nada o senso comum filosófico de postular, implícita ou explicitamente, que 
em tal domínio a “reflexão” continua soberana. 

Procuremos, pois, analisar ao que ela conduz nas questões de fato, não para 
retomar a discussão do conflito entre psicologias filosófica e científica à qual o 
capítulo IV foi consagrado, mas simplesmente para fornecer alguns modelos de 
intervenções filosóficas no terreno da própria psicologia científica. 

O campo seria enorme e é preciso limitar-se. Como esta pequena obra advo- 
ga do começo ao fim a causa da defesa do método científico nas pesquisas sobre 
as coisas do espírito, escolherei como exemplos as reações dos filósofos da Suíça 
romanda aos nossos trabalhos genebrenses de psicologia e de epistemologia 
genéticas. 

Uma advertência prévia que apresenta um pequeno interesse pode ser feita a 
esse respeito. A Sociedade Romanda de Filosofia foi fundada há quarenta anos 
mais ou menos por um grupo de filósofos, de matemáticos, de lógicos, de psicó- 
logos (“Penso, logo estou nela”, respondera Larguier des Bancels a título de ade- 


320 PIAGET 


são), de lingiistas, etc., e a preocupação principal sendo a filosofia das ciências, 
não se assistia a nenhum conflito entre os trabalhos epistemológicos, sobretudo 
histórico-críticos e os trabalhos psicológicos. Com o declínio das preocupações 
epistemológicas e da colaboração dos matemáticos, a nova geração mostrou-se, 
ao contrário, cada vez mais reticente a respeito das considerações genéticas como 
se elas se tornassem inquietantes para posições mais especificamente metafísicas. 

A Sociedade Romanda de Filosofia ouviu, por exemplo, uma exposição de 
J.-B. Grize, Logique et Psychologie de | Intelligence, onde na sua qualidade de ló- 
gico colaborando com os psicólogos do nosso Centro, ele estava bem credenciado 
para mostrar a significação epistemológica da psicogênese, sem contradizer a ló- 
gica. Mas a reação do filósofo D. Christoff foi que, a questão de saber como o 
sujeito adquiriu uma evidência “não é da mesma ordem [que esta] e nada muda 
na evidência”. **º Ora, todos sabem que, mesmo em matemáticas (e Fiala lem- 
brou-o logo depois a propósito do princípio do terceiro-excluíido), a evidência 
modifica-se no curso da história e às vezes por crises bruscas: como pois recusar- 
se a reconhecer que o modo de formação de uma evidência pode aclarar sua soli- 
dez ou sua fragilidade, segundo seja ligada, suponhamos, a coordenações muito 
gerais das ações e operações, ou que considere mais, como certas evidências cadu- 
cas da geometria, os fatores limitativos de percepção ou de conjunto de imagens 
que essas coordenações operatórias constantes? 

R. Schaerer desloca a questão para o terreno dos julgamentos morais e lem- 
bra meus resultados quanto à sua evolução. “Há uma vecção, nos diz Piaget, que 
conduz da heteronomia à autonomia, do egocentrismo à reciprocidade e à solida- 
riedade. O filósofo pede-lhe: 1) Justificar essa vecção que parece contraditória 
com a revisibilidade dos princípios e a imprevisibilidade das perspectivas; 2) Evi- 
tar o emprego de termos carregados de significação moral tais como autonomia, 
reciprocidade e solidariedade” (p. 247). Apreciar-se-á primeiro o encanto dessa 
linguagem: “O filósofo pede-lhe justificar... evitar...”, que lembra de bem 
perto o de R. Dalbiez distribuindo seus conselhos aos biólogos (ver ID. Eis mi- 
nhas respostas. 

Acerca do primeiro ponto existe contradição entre R. Schaerer e H. Miéville 
a quem no entanto ele pede socorro. No terreno das normas racionais do sujeito, 
Miéville (ver capítulo 1, D) tinha procurado opor-se às idéias de revisibilidade e 
de imprevisibilidade, aceitando a vecção que eu descrevia, mas sustentando que 
ela implica na norma absoluta da qual eu pretendia desembaraçar-me. Essa posi- 
ção muito coerente não me convenceu, pois pode-se constatar a existência de uma 
vecção sem nela projetar as normas de seu espírito de observador e sem que este 
refira-se a um absoluto (as normas que podem ser revistas sendo suficientes 
enquanto não houver revisão necessária). Schaerer, pelo contrário, quer primeiro 
pôr em contradição a constatação de uma vecção com o princípio de revisibili- 
dade, o que não tem sentido pois uma constatação pode sempre ser revista e uma 
vecção pode não cobrir senão um período parcial do desenvolvimento e modifi- 


*6 Revue de Philosophie et de Théologie, Lausanne, 1962, p. 245. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 321 


car-se mais tarde, o que continua efetivamente imprevisível enquanto não se o 
constatou. Quer em seguida que eu “justifique” minhas constatações mas se 
esquece que o papel do experimentador é precisamente precaver-se antes de afir- 
mar a existência de um fato, e que essas precauções foram suficientes para que os 
mesmos resultados tenham sido muitas vezes encontrados nos Estados Unidos, 
em Louvain, Montreal, etc., e nos meios mais diversos. As exigências do filósofo 
são pois particularmente surpreendentes aqui e, pelo contrário, é o psicólogo que 
lhe deve pedir para justificar sua intervenção nas questões de fatos a menos, natu- 
ralmente, que R. Schaerer tenha tomado a palavra vecção num outro sentido e 
não tenha compreendido que se trata de uma simples lei de desenvolvimento (bem 
que concernente à evolução das normas que os sujeitos se dão ou reconhecem). 

Sobre o segundo ponto, Schaerer quer corrigir meu vocabulário e me aconse- 
lha termos “axiologicamente neutros”. Terei a audácia de resistir já que meu pro- 
blema é o da evolução das normas dos sujeitos que estudo, sem ocupar-me das mi- 
nhas nem das do filósofo Schaerer. Ora, o interesse dos termos de autonomia e de 
reciprocidade é permitir o estudo do eventual paralelismo entre o desenvolvimento 
das normas morais e o das normas intelectuais, sem no entanto confundi-las. Mas 
a questão não está, naturalmente, nessa querela de palavras. Ela diz respeito ao 
fato que, para filósofos da categoria de R. Schaerer, o estudo psicológico da evo- 
lução das normas de sujeitos escalando-se entre a pequena infância e a idade adul- 
ta não tem o menor interesse quanto ao nosso conhecimento do espírito adulto. 
Noutros termos, a análise psicogenética só constitui uma pura e simples descrição 
e não comporta nenhum valor explicativo. É acerca desse ponto central que pode 
ser útil prosseguir o debate. 

Schaerer voltou ao assunto nos Encontros Internacionais de Genebra, em 
1962, em termos inequívocos: “As conclusões do Sr. Piaget, prolongadas no 
domínio... da filosofia, tornam-se singularmente discutíveis e... pode-se até 
mesmo admitir que se produz uma certa inversão de posições” (La Vie et le 
Temps, p. 205). Vejamos pois o que vale essa inversão. Schaerer culpa novamente 
a vecção conduzindo do egocentrismo à autonomia e à reciprocidade, mas desta 
vez ele diz: “Essa conclusão, prolongada no plano filosófico, pode tornar-se 
singularmente perigosa” (p. 205). A prova é (e admirar-se-á esse prolongamento 
“filosófico”) a seguinte pequena história. Suponhamos, diz-nos o filósofo, que eu 
tenha cometido uma indelicadeza e que um advogado vicioso me defenda com 
sucesso enquanto meu filhinho, vendo-me preocupado, atira-se nos meus braços 
para me consolar. Nesse caso: “Onde estão a reciprocidade e a solidariedade? Do 
ponto de vista instrumental, do ponto de vista operatório, do ponto de vista que é, 
creio, o do Sr. Piaget, elas estão com o advogado desonesto. Somente ele foi capaz 
de colocar-se no meu lugar e tirar-me de apuros. A criança é totalmente incapaz 
disso” (p. 206). Então “a inversão que citei há pouco, começa”, conclui o filósofo; 
na realidade é “a criança que vale mais que nós”! 

Pronto ! Permito-me todavia assinalar três pequenas dificuldades. A primeira 
é a confusão das normas intelectuais e morais dos sujeitos, das quais procurei 
mostrar o paralelismo mas, nunca, a identidade. O advogado da história é inteli- 


322 PIAGET 


gente mas não pode servir de exemplo para as normas morais. Objetei pois a 
Schaerer que não via na sua história nenhuma reciprocidade nem solidariedade 
morais, mas no máximo cumplicidade (a reciprocidade moral se reconhece por 
uma conservação obrigatória dos valores e não existe aqui). Como o filósofo 
insistisse, pedi-lhe suas definições. “Mas”, respondeu Schaerer, “como o disse 
Pascal, querer definir certos termos que falam por si próprios é querer obscurecer 
a questão.” Estamos pois às claras... 

A segunda ambigiidade refere-se à hierarquia das normas e à sua aplicação. 
Dizer que a criança é mais moral que o adulto pode ser tomado em dois sentidos 
completamente diferentes, dependendo da questão. Se for: “Como os sujeitos 
aquilatam as normas?” *? Ou “Até que grau (de fato ou de sinceridade, etc.) apli- 
cam-nas eles?” Suponhamos que todos os sujeitos (ou quase) de um certo nível (de 
idade, etc.) considerem as normas B como superiores às normas A (por exemplo: 
a reciprocidade em relação à submissão, ou a moral do Novo Testamento em rela- 
ção a uma moral legalista): falarei nesse caso de vecção de A a B, mas pode bem 
ser que as normas B, precisamente por serem superiores, sejam menos bem aplica- 
das. A expressão de Schaerer “a criança vale mais que nós” é sem significação 
pois não se precisou se “vale” refere-se ao nível das normas ou à maneira pela 
qual elas são observadas; e se se concordar de bom grado que a criança “vale” 
sem dúvida mais sob esse segundo ponto de vista (sob reserva de verificações), 
isso nada prova quanto ao que interessa à questão em discussão. 

A terceira dificuldade diz respeito às noções de equilíbrio e de reversibilidade 
nas quais R. Schaerer não vê senão processos instrumentais sem relação com as 
normas lógicas ou morais, contestando aliás que o equilíbrio seja compatível com 
o desenvolvimento e a reversibilidade com as decisões irreversíveis. Mas aqui 
também eu pediria uma discussão com definições e demonstrações em forma. É 
evidente que se se fala de equilíbrio no sentido comum de uma balança de forças 
contrárias, Schaerer teria razão. Mas se ele quiser compreender que um equilíbrio 
biológico é uma auto-regulação e que os sistemas auto-reguladores fornecem equi- 
valentes mecânicos da finalidade, e se ele quiser informar-se sobre as condições 
logísticas da decisão que não excluem em nada a utilização de operações reversi- 
veis, compreenderá melhor que o equilíbrio móvel dos sistemas de noções ou de 
valores possa caracterizar ao mesmo tempo os mecanismos cognitivos e os da 
vontade, e que ele apresenta para o sujeito uma significação normativa e não 
somente instrumental. 

Se insisto nessas infindáveis discussões com R. Schaerer é porque elas levan- 
tam um problema geral de metodologia. Como explicar que um professor de his- 
tória da filosofia possa chegar a participar de discussões de fatos, sobre pontos 
que dão lugar há muitos anos e em muitos países a controles experimentais deta- 
lhados, contentando-se com argumentos de senso comum, com aproximações ver- 


*? Dito mais claramente: “A que normas submetem-se eles?” ou “Qual o nível de suas normas (em uma pos- 
sível hierarquia)?” 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 323 


bais tão sumárias e com um exemplo tão aflitivo como a pequena história do 
advogado desonesto e da criança afetuosa? 

Não há senão uma explicação para isso: a crença que a competência nas 
questões de normas ocasiona ipso facto o conhecimento dos mecanismos da con- 
duta dos sujeitos. O moralista discute valores ou normas como tais e eles não 
dizem respeito ao psicólogo, isso está entendido. Mas este, estudando os sujeitos, 
constata que eles se dão ou reconhecem normas, daí uma série de problemas: 
quais são as normas dos sujeitos? São constantes ou evoluem com a idade? Por 
quais processos o sujeito vem a sentir-se obrigado por elas? Esses processos são 
os mesmos em toda idade ou modificam-se?, etc. Ora, essas são questões de fatos, 
de “fatos normativos”, isto é, de normas para o sujeito e de fatos para o observa- 
dor, mas de puros fatos para o último, já que ele não prescreve nem avalia nada 
quanto às próprias normas subjetivas. Se Schaerer sente-se apressado em intervir 
e quer chegar até a prescrever-me um outro vocabulário, é porque sua compe- 
tência acerca das normas parece-lhe conferir por isso mesmo um conhecimento do 
que se passa no espírito dos sujeitos. Ora, essas duas questões são inteiramente 
distintas, tão distintas que, no domínio normativo paralelo, que é o da lógica, há 
mais de meio século os lógicos compreenderam que suas análises do verdadeiro, 
não trazem consigo nenhum conhecimento da maneira pela qual os sujeitos racio- 
cinam de fato. Essas advertências valem naturalmente tanto para o adulto como 
para a criança. 

O filósofo responderá que conhece a si próprio. Precisamos ver, pois perma- 
nece, como se constatou no capítulo IV, que uma introspecção controlada por 
muitos é uma coisa e a introspecção limitada a um eu, que é ao mesmo tempo juiz 
e parte em que impõe, como sujeito, sua filosofia ao eu-objeto que investiga, é 
outra. Mas mesmo conhecendo a si próprio em um tempo t, isso não lhe confere 

nenhum conhecimento dos estágios anteriores, isto é, dos períodos de formação e 
de desenvolvimento dos quais o adulto é o resultado pelo menos parcial. Para 
alcançar esse desenvolvimento, que só é explicativo, não é mais apenas a cons- 
ciência que se trata de examinar, mas o conjunto da conduta onde a consciência 
é uma função, nada mais que uma função. Ora, a conduta supõe, e isso se torna 
evidente, uma análise de fatos com os métodos experimentados, os únicos que per- 
mitem atingir a objetividade, não no sentido da negligência do sujeito, mas no sen- 
tido de correção das deformações provocadas pelo eu do observador. Um histo- 
riador do pensamento grego deve ser o primeiro a compreender que as idéias 
raramente nascem a partir de um começo absoluto e que a filiação das idéias não 
pode ser reconstituída nem só pela reflexão nem por exemplos fictícios. 

F) Um indício instrutivo do conjunto desses mal-entendidos é a Histoire de 
la Psychologie de ['Antiquité à Nos Jours, de F.-L. Mueller, seguida de um peque- 
no volume sobre 4 Psicologia Contemporânea que reproduz uma parte do primei- 
ro, completando-o em certos pontos. Obras simpáticas, de um autor que tem suas 
convicções e quer defender a psicologia filosófica, esforçando-se para permanecer 
objetivo a respeito da psicologia científica. Apenas, como não acredita nela e 
como a educação de um filósofo consiste em estudar textos e não os diferentes mé- 


324 PIAGET 


todos que conduzem ao saber, pôs toda sua consciência, que é grande, em estudar 
os escritos dos psicólogos, sem suspeitar que tivesse sido necessário e talvez mais 
próximo dessa compreensão viva e humana, que ele opõe sem cessar ao intelec- 
tualismo, submeter-se a alguma pesquisa efetiva acerca de um tema inexplorado 
para compreender do que ele fala em psicologia científica. Apresenta pois um 
certo interesse ver como um filósofo sem opinião preconcebida de escola na pró- 
pria filosofia julga a psicologia científica. 

De modo geral é surpreendente que um historiador das idéias não tenha sabi- 
do isolar melhor as grandes tendências da sua história particular, tendências liga- 
das naturalmente (por ação e reação), à evolução dos métodos. Nascida sobretudo 
da psicologia fisiológica e da psicofísica, destacando em particular os métodos de 
medida generalizados depois com o método dos testes, a psicologia científica enri- 
queceu-se em seguida com os estudos psicopatológicos, de onde surgiram, por um 
lado as correntes psicanalíticas e por outro dois grandes movimentos, na França 
e na Grã-Bretanha, o segundo mais fisiológico e o primeiro orientando-se rapida- 
mente com Janet para uma psicologia geral das condutas e mesmo uma psicologia 
genética (sobre esse ponto aliás como a própria psicanálise). Doutra parte, a psi- 
cologia fisiológica inicial, tendo engendrado uma doutrina muito empirista e 
mecanicista, O associacionismo, esboçaram-se as reações desde o fim do último 
século e o início do XX, com o funcionalismo americano *º (desde James) e com 
as verificações fundamentais pelo método de introspecção provocada (Binet e os 
wurzburgueses), que enfraqueceram a explicação da inteligência pelo jogo das 
associações e das imagens. Tanto essas últimas pesquisas, cujo método inicial era 
muito restrito, como a tendência funcionalista, chegaram, como a psicopatologia, 
a um ponto de vista cada vez mais geral em psicologia, que é o estudo da conduta 
como tal, incluindo a consciência; o behaviorismo de Watson foi apenas uma 
manifestação extrema disso e, sob essa forma extrema, momentânea. Doutra 
parte, a psicologia de laboratório não foi, absolutamente, diminuída por esses 
múltiplos complementos e revitalizou-se com a teoria da Gestalt que se orientou 
também, por outro lado, para o estudo das condutas em geral, enquanto esta se 
diferenciava em psicologia genética, psicologia social, etc. 

Ora, essas diferentes correntes não apareciam, em suas filiações e em suas 
razões de ser, nos dois volumes de F.-L. Mueller, nem, sobretudo, em suas profun- 
das convergências. Um filósofo interessa-se mais, com efeito, pela diversidade das 
escolas e dos sistemas e experimenta no seu domínio um prazer, de certa maneira, 
profissional, quando surgem novas doutrinas distanciando-se suficientemente das 
outras. O principal capítulo da Histoire consagrado à “nova” psicologia intitula- 
se “As escolas e os campos de investigação”, tornado “Os métodos e os campos 
de investigação” no segundo volume, mas sem mais destacar a filiação desses mé- 
todos. Um psicólogo, em compensação, é bem mais cuidadoso da unidade da psi- 
cologia e da crescente convergência dos seus métodos. 

Tomemos como exemplo a psicanálise, à qual Mueller sente prazer em assi- 


“8 E o de Claparêde, desde 1903 (L Association des Idées). 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 325 


nalar-nos que “sábios sensu stricto chegam mesmo a contestar todo caráter cienti- 
fico” (p. 385; I, II, p. 56). Ora, o sábio estrito citado como apoio não é senão esse 
amador, Marcel Boll, que conhece lógica e outras coisas, mas que em psicologia 
nada mais fez, nunca, além de um pouco de caracterologia, como todos os amado- 
res (e além do mais relegou às gemônias outros mais que os psicanalistas, e em 
todos os domínios). 

Mas se a psicanálise é o único domínio da psicologia onde se pode, efetiva- 
mente, falar de “escolas”, é porque os freudianos, etc., o quiseram por razões 
profissionais, criando sociedades fechadas para proteger o exercício de suas técni- 
cas. O inconveniente, como em todo lugar onde haja “escola”, é que seus mem- 
bros muito depressa acreditam uns nos outros e desenvolvem, por essa razão, 
muito pouco os hábitos de verificação; por esse único motivo é que os experimen- 
talistas sentem desconfiança quanto a certos fatos e sobretudo a interpretações 
ainda não controladas. A melhor prova de que se trata de uma atitude legítima é 
que alguns freudianos dispuseram-se, eles próprios, desde há alguns anos, a con- 
troles experimentais e a uma reestruturação mais geral da teoria: assim é em parti- 
cular o grupo formado em Stockbridge sob o impulso do saudoso D. Rapaport 
(Wolff, Erikson, etc.). *º Se se deseja um exemplo de reações de um autor que 
passa por crítico a respeito das interpretações freudianas, ei-lo: fiz em Paris, em 
1920, na Sociedade Alfred-Binet, uma conferência de conjunto sobre os movimen- 
tos psicanalíticos (publicada no Boletim dessa Sociedade, em uma época na qual, 
como o lembra Mueller, falava-se pouco a esse respeito em França) e submeti-me, 
também nessa época, a uma psicanálise didática para saber do que eu falava e 
apresentei a Freud, em 1922, uma comunicação sobre La Pensée de L Enfant no 
Congresso de Psicanálise de Berlim. Reciprocamente, a Escola de Psiquiatria de 
Topeka (Kansas) que é, como se sabe, a Meca do freudismo americano, convi- 
dou-me há alguns anos para lá passar algumas semanas a fim de discutirmos pro- 
blemas comuns: vê-se que a existência de “escolas” não exclui em psicologia a 
pesquisa das convergências nem sobretudo a dos controles de fatos dando um sen- 
tido a essa pesquisa. 

Voltando às grandes tendências da psicologia científica contemporânea, duas 
lacunas são flagrantes nas obras de Mueller. A primeira é de ter isolado tão pouco 
a mais geral dessas tendências: constituir uma psicologia da “conduta”, 
compreendendo a consciência, mas situando-a no conjunto dos comportamentos, 
exteriores ou interiorizados (esses não sendo, absolutamente, negligenciados ape- 
sar de Watson que, aliás, guardara a “linguagem interior” acerca da qual tinha 
insistido tanto). A esse respeito é bastante significativo constatar o quanto Muel- 
ler pouco compreendeu a obra de P. Janet (que no entanto cita sempre) e acima de 
tudo sua evolução: a passagem de uma teoria estática fundada nas idéias de sin- 


*º Dessas pesquisas e das que elas suscitaram surgiram, entre outras, quas obras mostrando a convergência 
entre os dados psicanalíticos concernentes aos dois primeiros anos e minhas análises dos mesmos níveis 
sensório-motores: Wolff, The Developmental Psychologies of Jean Piaget and Psychoanalysis, Psych. Issues, 
1960, e Th. Gouin-Décarie, Intelligence et Affectivité chez le Jeune Enfant, Delachaux e Niestlé. 


326 PIAGET 


tese e de automatismo, para uma concepção da hierarquia das funções e de lá para 
uma teoria ao mesmo tempo genética e psicopatológica dos estágios, incluindo as 
fixações e as desintegrações. Ora, desse monumento permanecerá, com toda a cer- 
teza, pelo menos uma parte essencial: a interpretação da afetividade como regula- 
ção da ação com um quadro detalhado das regulações de ativação e de termina- 
ção correspondendo aos “sentimentos elementares”, de que Janet dá as mais finas 
descrições. Que se possa esquecer tudo isso para concluir no fim da obra, que o 
objetivismo da psicologia científica faz-lhe negligenciar o problema do sujeito, 
seria inconcebível se não fossem citados os diversos fatores de incompreensão 
que procurei descrever nesse pequeno ensaio. 

Há mais ainda. Procura-se, com interesse, saber de que maneira Mueller vai 
conciliar suas teses sobre esse “objetivismo” com todos os trabalhos do começo 
deste século acerca da introspecção provocada, método descoberto e utilizado ao 
mesmo tempo pelos psicólogos alemães da escola de Wurzburgo e por Binet, em 
Paris. Ora, a conciliação é muito simples: Mueller simplesmente observa um 
silêncio total a respeito desse acontecimento capital e os nomes de Kulpe, Marbe, 
do grande K. Buhler, etc., estão, de forma absoluta, ausentes do índice das maté- 
rias. Do livro de Binet acerca desse assunto (1903), só se encontra essa menção 
cuja habilidade admirar-se-á: Binet “marca suas distâncias em relação à psicolo- 
gia de laboratório. A experimentação, tal como ele a concebe, é pois muito vasta. 
Inclui notadamente os questionários, as entrevistas, as sindicâncias, etc., isto é, 
procedimentos que implicam a intervenção de uma introspecção controlada” (p. 
387). Apenas isso, como se Binet e os wurzburgueses não tivessem desejado, de 
maneira explícita, utilizar a introspecção controlada para fazer-lhe render seu 
maximum. Trata-se apenas de um acontecimento, é verdade, já que depois de al- 
guns anos ele chegou a um outro resultado, mas importante, justamente porque 
conduziu a muitas outras coisas. Os wurzburgueses, após terem fornecido finas 
análises que demonstravam a independência do julgamento em relação à associa- 
ção e à imagem, não chegaram a esclarecer o mecanismo desse julgamento apenas 
pela introspecção e os autores ulteriores tiveram que proceder a estudos mais fun- 
cionais e sobretudo exterospectivos, como Selz e Lindworski para o pensamento 
em geral e Claparêde para o nascimento da hipótese (com seu método de “reflexão 
falada” que tem como objeto o sujeito, é certo, mas não apenas pela introspec- 
ção). Quanto a Binet, se o emprego do mesmo método de introspecção provocada 
curou-o do associacionismo, ele viu de chofre, que ela atingia os resultados do 
pensamento e não seus mecanismos e concluiu pelo célebre paradoxo “O pensa- 
mento é uma atividade inconsciente do espírito” para engajar-se no rumo da psi- 
cologia das condutas. 

Se Mueller trata assim com surpreendentes emissões certas grandes correntes 
da psicologia, as que retém dão igualmente margem a instrutivas observações 
quanto à sua compreensão real. Mueller tem, por exemplo, simpatia pela psicolo- 
gia da Gestalt por que ela foi influenciada pela fenomenologia, mas sabe-se que é 
apenas no sentido de uma interação entre o sujeito e o objeto. Em detalhe, ele per- 
gunta a si próprio se as famosas experiências de Kôhler sobre os chimpanzês 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA Sl 


não foram adulteradas por uma influência de imitação, o que é testemunha de um 
apreciável cuidado da dissociação dos fatores experimentais, mas que também 
mostra sua pouca leitura de Kóhler, pois este tomou suas precauções e registrou 
entre outras coisas, contrariamente à opinião corrente, que o mono não “faz 
monices” e imita apenas o que compreende. Em compensação Mueller não 
compreendeu, nem na sua intenção nem mesmo na sua significação, a teoria das 
“formas físicas” de Kôhler (bolhas de sabão, superfície da água, etc.). A intenção 
era de explicar as “boas formas” perceptivas ou outras por leis de equilíbrio de 
campo, na hipótese que as “formas” da consciência são isomorfas à organização 
dos campos elétricos do sistema nervoso. W. Kôhler que era físico antes de ser 
psicólogo (como Wallach era químico) procura então mostrar que a estrutura da 
Gestalt, definida por sua composição não aditiva (ação do todo sobre as partes 
em que o todo equivalha à sua soma) se encontra no mundo físico, mas ao lado de 
composições aditivas. Uma composição mecânica como paralelogramo das for- 
ças não é pois uma Gestalt, enquanto que se reconhece Gestalis nas leis de equili- 
brio de campos (lá onde, e isso é importante, as composições são irreversíveis por- 
que de natureza, em parte, aleatória). Ora, por não compreendê-las, Mueller vê 
metafísica nessas hipóteses, temerárias mas plausíveis (o que talvez os adversários 
da Gestalt tenham dito, por positivismo) e uma “problemática filosófica” (II, p. 
93). Motivos para problemas filosóficos há em toda parte, é verdade, mas estar- 
se-ia interessado de saber o que as idéias do filósofo Mueller acrescentariam às do 
físico e psicólogo Kôhler. Não digo isso para defender a tese gestaltista e, pelo 
contrário, conservo as análises de Kôhler: assim como o universo físico apresenta 
fenômenos reversíveis (mecânica) e irreversíveis (termodinâmica, etc.) também a 
vida mental revela a existência de estruturas irreversíveis (Gestalts) e reversíveis 
(inteligência operatória), as últimas sendo pois irredutíveis às primeiras. Mas não 
vejo bem, em nome de qual critério, um autor que compreendeu tão rapidamente 
as principais hipóteses de Kóhler venha dizer-lhe: atenção, (ou, o senhor bem vê 
que) o senhor está fazendo filosofia ! 

Quanto às páginas tão amáveis e ciosas de simpática compreensão que 
Mueller se dignou consagrar-me aceito de bom grado que minhas pesquisas venti- 
lam uma problemática filosófica já que elas foram prosseguidas com o fito de sub- 
meter à experiência psicogenética um certo número de hipóteses acerca do acrés- 
cimo dos conhecimentos e que essas hipóteses são generalizáveis ou discutíveis no 
terreno da epistemologia. Mas há dois ou três pontos, nesse autor, que me são de 
difícil compreensão. 

O primeiro é a afirmação segundo a qual o equilíbrio progressivo dos meca- 
nismos cognitivos que conduzem da infância à idade adulta constituiriam apenas 
a descrição do “alvo” perseguido e não uma explicação (pp. 423-424). De início, 
a noção de equilibração permite precisamente escapar à de finalidade. Em segui- 
da, procurei mostrar (Logique et Équilibre, P. U. F., 1956) que o processo de equi- 
libração repousa em uma série de probabilidades crescentes mas sequentes, tais, 
que cada estágio se torna o mais provável depois do precedente, sem o ser desde 


328 PIAGET 


o começo, o que é uma explicação probabilista justa ou falsa, porém plausível. 
Enfim e sobretudo, a equilibração conduz à reversibilidade operatória e resulta de 
sistemas cada vez mais complexos de auto-regulação cujas raízes devem ser pro- 
curadas nos processos orgânicos os mais fundamentais, o que constitui pelo 
menos uma perspectiva explicativa bem ampla. 

Em segundo lugar Mueller falando a meu respeito diz que eu pretendo “ficar 
só no terreno da experiência” e acrescenta: “mas a questão é saber se ele consegue 
e a que preço” (p. 424). Notemos primeiro que se se indica a que preço, o que 
Mueller fará dizendo que eu só atinjo “uma forma de universalidade vazia, pura- 
mente científica” (p. 426), é porque consigo ficar só no terreno da experiência. 
Mas se bem compreendo sua lógica, que não é nem “vazia” nem portanto “cienti- 
fica”, não a atinjo, pagando o mesmo preço que se a atingisse. 

Dito isso, respondamos à primeira questão que é, aliás, equívoca por falta de 
definição da experiência. Se for a do empirismo não me atenho a ela, sendo 
antiempirista. Se se tratar, porém, da experiência científica, essa comporta sempre 
uma questão, uma resposta dada pelos fatos e uma interpretação. A questão é 
livre desde que possa ser formulada como pergunta ao que os fatos respondem. 
Quanto à interpretação, consiste em hipóteses explicativas que comportam novas 
questões, servindo para seu controle direto ou indireto segundo as deduções que 
essas hipóteses acarretem; e essas novas questões chamam novas respostas de 
fatos e novas interpretações, etc. A experiência assim concebida é portanto inse- 
parável de deduções que serão consideradas como válidas se foram formalizadas 
ou se, sem chegarem a isso, elas estiverem intuitivamente conformes com os 
modelos lógicos ou matemáticos. Dizer ou sugerir, como o faz Mueller, que ultra- 
passo o terreno da experiência pode pois ter dois sentidos: ou que apresento pro- 
blemas aos quais os fatos não podem responder (ou não respondem) ou que inter- 
preto as respostas dos fatos em termos não controláveis (seja porque as hipóteses 
explicativas não sejam verificáveis por outros fatos ou porque comportem incoe- 
rências lógicas). Tudo isso é bem possível e aguardo as precisões de F.-L. Mueller. 
Mas se ele quer dizer simplesmente, como se pode supor pelas suas observações 
acerca de Kôhler, que acreditando limitar-me às experiências eu faço filosofia, 
minha resposta será: segundo a definição precedente da experiência, e ela me pa- 
rece corrente, fazer filosofia significaria enunciar proposições não verificáveis ou 
não lógicas, o que é uma desagradável concepção. De modo geral eu perguntaria 
aliás, em nome de quais critérios e com que direito o filósofo interviria no traba- 
lho do experimentalista para indicar-lhe se ele ultrapassa ou não a experiência (e 
se ele se dá esse direito em relação só ao psicólogo ou também ao biólogo e ao 
físico). 

A intenção de Mueller é clara segundo o contexto das pp. 424-425: ele gosta- 
ria que eu declarasse minha psicologia solidária com a dialética marxista como 
Wallon declarou a sua certa ou erroneamente. E queria ainda mais que em nome 
dessa dialética, eu distinguisse melhor psicologia de epistemologia genética, como 
mo teria sugerido, segundo resenhas um tanto subjetivas ou tendenciosas de R. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 329 


Zazzo ºº citado por Mueller, o filósofo Kedrov por ocasião de uma entrevista que 
tivemos, na Academia de Ciências de Moscou. Ora, se as convergências entre mi- 
nhas interpretações e a dialética são claras, como o sublinharam L. Goldmann, 
M. Rubel, C. Nowinski e outros, insisto em precisar que se trata de convergência 
e não de influência (mesmo de segunda mão como o deplora M. Rubel) e assim é 
melhor para as duas partes: como vimos no capítulo III, (F), ou bem a dialética 
é uma metafísica como outra, que pretende dirigir as ciências, e isso só pode ser 
nocivo às ciências e a ela própria, ou bem ela deve sua força ao fato de convergir 
com toda espécie de correntes espontâneas próprias às ciências e só resta pois tra- 
balhar com toda autonomia. 

Último ponto: o preço da minha posição “plena de lógica e de epistemolo- 
gia” (p. 421) é pois chegar a uma “universalidade vazia, puramente cientifica” (p. 
426) e incapaz de fornecer uma “antropologia filosófica”. Toda esta pequena obra 
constitui minha resposta a propósito desse gênero, tantas vezes ouvido. Mas esses 
propósitos constituem, reciprocamente, a melhor justificação da necessidade de 
uma tal obra. Tudo o que um filósofo do século XX, que leu Sartre e Merleau- 
Ponty, mas escreve uma “história da psicologia” sem tê-la praticado, encontra 
para dizer do ideal científico é que ele consiste em uma “universalidade vazia”. 
Por que a filosofia viva, a de Platão, Aristóteles, Descartes, Leibniz ou Kant, 
engendrou uma série de disciplinas que se tornaram autônomas, um filósofo do sé- 
culo XX, se não for nem lógico, nem epistemólogo, nem psicólogo, não encontra 
mais razão de ser senão opondo a uma universalidade que se tornou vazia para 
ele, uma “antropologia filosófica” da qual se pergunta de que ela será cheia. º! De 


8º As informações de Zazzo, para começar, não reproduzem senão incompletamente o início da entrevista, 
o qual eu próprio resumi na American Psychologist após ter feito um dos principais psicólogos soviéticos 
rever meu texto, para evitar os erros de interpretação. Não fui eu o primeiro a levantar o problema do idealis- 
mo, mas sim o filósofo Kedrov que abriu o debate fazendo-me a seguinte pergunta: 

— Acredita que o objeto exista antes do conhecimento? 

— Como psicólogo nada sei a esse respeito — respondi —., pois só conheço o objeto agindo sobre ele e nada 
posso afirmar acerca do mesmo antes dessa ação. 

Ao que Rubinstein propôs a fórmula conciliatória: 

— Para nós o objeto é uma parte do mundo. Acredita que o mundo exista antes do conhecimento? 

Foi então que eu respondi (e não a propósito do objeto): 

— Isso é uma outra coisa. Para agir sobre o objeto é preciso que exista um organismo e esse organismo faz 
parte também do mundo. Creio pois, evidentemente, que o mundo exista antes do conhecimento, mas nós não 
o dividimos em objetos particulares senão no decorrer das nossas ações e por interações entre o organismo 
e o meio. 

Nesse momento a discussão foi interrompida por um debate em russo, em seguida ao quai perguntei 
brincando: 

— Não compreendi tudo, no entanto percebi duas palavras: Piaget e idealismo. Posso indagar qual a 
relação? 

Foi nessa altura (e não após as reflexões sobre a psicologia e a epistemologia, como o disse Zazzo, com as 
reservas desenvolvidas por ele), que Rubinstein declarou em resumo: 

— Concluímos que Piaget não é idealista. 

Após isso a conversação orientou-se efetivamente para as relações entre psicologia e epistemologia e Kedrov 
disse essas palavras profundas: 

— O senhor tem tendência para psicologizar a epistemologia e nós para epistemologizar a psicologia. 

81 Mueller considera pois meus trabalhos como inutilizáveis por uma “antropologia filosófica”. Esse pare- 
cer não é o de todos os filósofos. Ver por exemplo o artigo de M. de Mey (“Antropologia Filosófica e Psicolo- 


330 PIAGET 


bergsonismo? Mueller sublinhou bem a insuficiência do “eu profundo” estranho a 
toda ação. De fenomenologia? Mueller bem viu sua dificuldade fundamental de 
um começo absoluto, independente da história. De dialética? Mas a dialética mar- 
xista não desprezou, absolutamente, o desenvolvimento das ciências e não teve de 
forma nenhuma a idéia de construir uma psicologia à margem da psicologia cien- 
tífica, para prestar grandes honras ao Este. E então? 

A resposta parece ser dada na conclusão da “História”, porém, essa conclu- 
são repousa na verdade sobre dois equívocos. Em primeiro lugar Mueller conclui 
que não poderia haver ruptura entre a “antiga” e a “nova” psicologia. Essas 
expressões, é verdade, foram empregadas por muitos outros autores e para fins 
diversos. Apenas, do ponto de vista da história que é o do autor, não são dois, mas 
sim três movimentos que precisamos distinguir, um inicial e os outros dois 
contemporâneos mas ulteriores ao primeiro. 

O movimento inicial é aquele que é anterior à autonomia da psicologia cien- 
tífica e igualmente, o que é instrutivo, anterior ao conjunto das correntes filosó- 
ficas paracientíficas nascidas no século XIX. Trata-se, em outras palavras, da 
psicologia, mais ou menos ocasional ou sistemática, segundo o caso, elaborada 
pelos próprios filósofos mas em uma época na qual as filosofias eram ao mesmo 
tempo reflexão sobre as ciências e matrizes de ciências que viriam. Em toda essa 
parte da sua obra, que se estendeu dos gregos ao século XVIII, as análises de 
Mueller são excelentes: desejando sublinhar o valor das pesquisas dos filósofos ao 
mesmo tempo que procurará em seguida moderar sua avaliação da psicologia 
científica, ele nos dá um quadro bem elevado do que foi feito e sobretudo entre- 
visto por um grande número de autores. Mas trata-se da “psicologia filosófica” no 
mesmo sentido que no século XX e o que teriam dito Aristóteles, Descartes ou 
Kant se eles tivessem que tomar partido em um debate comparável ao de hoje? 
Pelo contrário, é evidente que essa psicologia anterior à cisão atual era ao mesmo 
tempo científica e filosófica, à medida em que se esforçava para destacar fatos, 
mas associando a eles, em graus diversos, considerações ligadas ao conjunto do 
sistema. O termo “antiga” psicologia é pois essencialmente equívoco. 

Quanto às duas psicologias atuais ditas científica e filosófica, há necessidade 
de lembrar que a “ruptura” só se liga aos métodos, logo, à delimitação dos proble- 
mas e ao modo de verificação das soluções, mas, absolutamente, aos próprios pro- 
blemas? Se a União Internacional de Psicologia Científica, que também repre- 
senta uma opinião geral, sempre se recusou a fazer parte do Conselho 
Internacional de Filosofia e Ciências Humanas, não é porque seus membros se 
desinteressem pelo homem em todos os seus aspectos, mas sim, por necessidade 
de distinguir os métodos. E se ainda uma vez repetimos isso é porque as obras de 
Mueller são um novo exemplo desse diálogo de surdos entre duas espécies de 


gia Genética”, Studia Philosophica Gandensia, 1964, pp. 41-67), o qual conclui que minha psicologia “com- 
porta uma real contribuição à antropologia filosófica” (p. 67). Ver também o artigo de G. G. Granger (“Jean 
Piaget et la Psychologie Génétique”, Critique, 1965, pp. 249-261), que me qualifica de “psicólogo humanis- 
ta” e acredita perceber relações entre a fenomenologia e minhas pesquisas. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 331 


autores cujas posições poderiam ser resumidas da seguinte maneira: “Vocês que- 
rem ser objetivos, então negligenciam o sujeito” e “vocês não vêem o sujeito uni- 
versal senão através do seu eu”. 

É nisso que consiste o segundo equívoco das conclusões de Mueller. Vale a 
pena citar sua passagem central. “Hoje como ontem, a questão fundamental “que 
é o homem?” permanece. E ela exclui, em princípio, qualquer resposta dada uni- 
camente no terreno das ciências biológicas e psicológicas, pois não se trata do 
homem como produto da natureza, como objeto entre todos os que povoam nosso 
universo, mas do homem como sujeito” (p. 428). Noutras palavras, a psicologia 
científica não estuda o sujeito e o sujeito não faz parte da natureza, tais são as 
duas conclusões de uma Histoire de la Psychologie. Se se trata de crenças em rea- 
lidades transcendentes e da posição do homem em relação a esse absoluto, nada 
mais se pode fazer que respeitar esses pontos de vista, mas trata-se então de um 
problema de coordenação de valores e não de puro conhecimento. Se, pelo contrá- 
rio, trata-se de saber o que é o sujeito em relação à natureza, e parece-nos que é 
disso que Mueller fala, então distingamos. Que nos digam: a biologia ainda não 
compreendeu a natureza da vida e eis a imensa lista das questões que permanecem 
em suspenso, de maneira que, à medida que forem sendo solucionadas, se algum 
dia o forem completamente, a significação do termo “natureza” modificar-se-á 
sem dúvida de modo profundo; e a psicologia científica ainda não exauriu a aná- 
lise do sujeito e eis os múltiplos pontos sobre os quais um pronunciamento conti- 
nua difícil, etc. Essa seria uma crítica útil e construtiva onde o filósofo seria bem- 
vindo, elucidando os problemas. Mas, afirmar soberbamente que o problema do 
“sujeito” humano “exclui em princípio qualquer resposta” científica, significa 
apenas classificar-se entre o inumerável cortejo dos projetos que, em todos os tem- 
pos e em todos os domínios fizeram limites ou anunciaram fracassos para a maior 
honra dos que afinal desmentiram suas profecias. Isso não teria nenhuma impor- 
tância se essas profecias fossem apenas negativas. Mas em geral elas se duplicam 
e oferecem uma solução. “O homem não pode viver a crédito”, como dizia Ortega 
Y Gasset, citado por F.-L. Mueller, como colorário: para toda questão não resol- 
vida, não se se contentará apenas com uma posição de sabedoria, “moral provisó- 
ria”, “aposta” ou postulados da razão prática, mas será preciso proporem-se 
modos de conhecimento supracientífico, cuja diversidade prova a riqueza, é certo, 
se cada um contentar-se com sua posição pessoal; porém, se se toma como marca 
do conhecimento, não a própria objetividade, mas simplesmente a coerência e a 
não contradição, essa riqueza é signo de pobreza. F.-L. Mueller não viu “denomi- 
nadores comuns” entre as diversas tendências da psicologia científica, talvez por- 
que não os tivesse procurado por muito tempo: gostaria que ele nos indicasse os 
que distingue entre as diferentes concepções filosóficas do “sujeito” humano... 


Conclusão 


“O homem não se pode abster da filosofia”, diz Jaspers com razão. Ela está 
presente em todo lugar e sempre... A única questão que se apresenta é saber se 
ela é consciente ou não, boa ou má, confusa ou clara”. *2 Na verdade, a pesquisa 
da verdade científica, que só interessa aliás a uma minoria, não exaure em nada a 
natureza do homem, mesmo nessa minoria. Resta que o homem vive, toma parti- 
do, crê em uma multiplicidade de valores, hierarquiza-os e dá assim um sentido à 
sua existência por opções que ultrapassam sem cessar as fronteiras do seu conhe- 
cimento efetivo. No homem que pensa, essa coordenação pode ser raciocinada, no 
sentido que, para fazer a síntese entre o que acredita e o que sabe, só pode utilizar 
uma reflexão, seja prolongando seu saber ou opondo-se a ele em um esforço cri- 
tico para determinar suas fronteiras atuais e legitimar a colocação dos valores que 
o ultrapassam. Essa síntese raciocinada entre as crenças, quaisquer que sejam, e 
as condições do saber é o que nós chamamos uma “sabedoria” e tal nos parece o 
objeto da filosofia. 

O termo sabedoria nada tem de intelectualista, já que implica uma tomada de 
posição vital. Também nada tem de limitativo sob o ponto de vista do exercício do 
pensamento, pois comporta que essa tomada de posição seja raciocinada e não 
simplesmente decisória. Mas se uma sabedoria engloba a pesquisa de uma verda- 
de, ela tem que distinguir, se for sábia, entre as tomadas de posições pessoais ou 
de grupos restritos, relativas às crenças evidentes para alguns mas não partilhadas 
por outros e as verdades demonstráveis, acessíveis a cada um. Em outras pala- 
vras, pode haver muitas sabedorias, mas só há uma verdade. 

O único alvo desta obra foi insistir nessa distinção. E a prova de que ela 
nada tem de escandaloso, sob o ponto de vista da vocação de um filósofo contem- 
porâneo, está em que um autor da projeção de Jaspers diz explicitamente: “A 
essência da filosofia é a pesquisa da verdade e não sua posse (sublinhado por nós), 
mesmo que se traia a si própria, como acontece muitas vezes, até degenerar em 
dogmatismo, em um saber posto em fórmulas. .. fazer filosofia é estar em cami- 
nho” (p. 8). São essas traições da filosofia por ela mesma que sem cessar nós 
discutimos, não a filosofia como tal. 

Dessas premissas Jaspers tira as seguintes conclusões que são exatamente as' 
nossas: “Em filosofia não há unanimidade estabelecendo um saber definitivo... 
contrariamente às ciências, a filosofia sob todas as suas formas deve abster-se do 


52 K. Jaspers, Introduction à la Philosophie, trad. J. Hersch, Plon, pp. 7-8. 


334 PIAGET 


consenso unânime, eis o que deve constituir sua própria natureza” (p. 2). Essa “fi- 
losofia sem ciência” (p. 3: quer dizer, sem saber) é o que nós chamamos uma sabe- 
doria e Jaspers chega mesmo a tirar daí a consegiuência central que foi o objeto 
dos nossos capítulos II-IV: “Desde que um conhecimento se imponha a cada um 
por razões apodíticas, ele se torna imediatamente científico, cessa de ser filosofia 
e pertence a um domínio particular do conhecível” (p. 2 sublinhado por nós). Foi 
isso que, sem mudar uma só palavra, procuramos mostrar do ponto de vista da 
diferenciação progressiva das filosofias históricas em disciplinas científicas 
particulares. 

É um fenômeno natural os filósofos, pelas múltiplas razões que tratamos de 
analisar e que são devidas antes de mais nada às causas psico-sociológicas pró- 
prias a essa espécie de classe social ou profissional que eles souberam, admiravel- 
mente, constituir, se esquecerem sempre de tais princípios de sabedoria e se acre- 
ditarem capazes de atingir um conjunto de verdades “particulares” (no sentido da 
última passagem de Jaspers que citamos); é um fenômeno natural e, em si, inofen- 
sivo, já que o esquecimento neutraliza, em cada nova geração, o trabalho de Pené- 
lope das gerações precedentes. Não é pois, em absoluto, contra tais tendências que 
um psicólogo se deveria insurgir, se o fizesse seria presunçoso. 

Mas o grave da situação e que requer uma reação geral e vigorosa, é que essa 
tendência a estabelecer “verdades” filosóficas, essas “pretensões, reciprocamente 
exclusivas, à verdade”, como diz ainda Jaspers (p. 13), são hoje acompanhadas 
em muitas escolas filosóficas ocidentais de um espírito sistematicamente reacio- 
nário e muitas vezes agressivo com relação às ciências jovens, que se limitam a 
prosseguir seu trabalho. O que era apenas ilusão, quando à intenção de suprir pela 
metafísica as lacunas da ciência, torna-se então abuso e às vezes impostura. É 
nesse terreno, onde a honestidade intelectual entra em jogo, que importa lembrar 
em muitos casos, limitando-se aliás a restituir as posições dos maiores filósofos da 
história, que, se a filosofia quer ser uma coordenação geral dos valores, existem 
valores de objetividade e de verificação paciente e laboriosa e aqueles cuja ativi- 
dade não lhos permitiu conhecer de perto, não os deveriam negligenciar. 

Nada de mais legítimo que o filósofo experimente necessidade de ocupar-se 
dos limites da ciência, mas com duas condições: não se esquecer das condições da 
filosofia e lembrar-se que a ciência, sendo essencialmente “aberta”, suas fronteiras 
conhecíveis são sempre atuais. 

K. Jaspers, que citamos nesta conclusão, não crê absolutamente na psicolo- 
gta científica porque, antigo psiquiatra, contribuiu para a distinção entre “expli- 
car” e “compreender” e negligenciou seguir, em psicologia mesmo, a maneira pela 
qual essa duas noções tendiam a tornar-se solidárias em lugar de excluírem-se 
como antes. Mas se ele não pensa que a psicologia exaure a natureza humana é 
por duas razões em atenção às quais só se pode curvar: a ciência ignora a liber- 
dade *º e a relação com Deus. Ora, se ele acredita numa philosophia perennis que 
consiste “em abrir nosso ser às profundezas do englobante” (p. 10) e se acha que 


83 Viu-se no capitulo II (A) que essa afirmação talvez já não seja mais verdadeira. 


SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA 335 


nem a natureza humana, entendida dentro da perspectiva das duas crenças que se 
acabou de lembrar, nem “o ser universal na sua totalidade” são “objeto de conhe- 
cimento” (p. 107), os limites que determina às ciências, são de fato, para ele, os de 
todo conhecimento: muitas vezes, diz-nos, os autores de grandes metafísicas “atri- 
buiram-lhes o alcance de um saber objetivo enquanto que, vistas sob esse ângulo, 
elas são completamente falsas” (p. 41). 

Não citamos esse filósofo para aderir à sua metafísica e sim para dar o exem- 
plo de uma “sabedoria” infelizmente pouco comum e mais notável ainda porque, 
professor de filosofia desde 1921 (primeiro em Heidelberg, depois em Bále), Jas- 
pers ensina que a filosofia não progride (p. 2), ao contrário das ciências. Entre um 
existencialismo que, de conformidade com sua lógida interna, se desdobra em 
uma praxis raciocinada, e a pesquisa científica não deveria haver conflitos de 
princípio, os conflitos, em compensação, permanecendo inflexíveis no próprio ter- 
reno da praxis, entre os que adotam tal orientação e os que preferem ideais um 
pouco mais progressistas. 

Pode-se aliás perguntar, em definitivo, se a oposição entre cientistas e filóso- 
fos não é muitas vezes devida ao próprio fato de que a ciência está em progresso 
constante apesar das suas crises e seus impasses momentâneos, enquanto os tra- 
balhos filosóficos consistem em reajustar sempre um certo número de posições 
essenciais e mais ou menos permanentes, ao estado do saber no momento conside- 
rado, mas sempre após uma decantação e maturação suficientes. Isso por um lado 
explicaria a raridade dos grandes filósofos comparada ao número de criadores em 
todos os domínios particulares da ciência. Mas isso sobretudo explicaria a incom- 
preensão que o senso comum dos filósofos experimenta em relação a disciplinas 
em continua evolução, cuja compreensão apenas por leitura de textos é por isso 
mesmo constantemente ultrapassada * *. Nesse sentido o conflito poderia bem 
durar ainda muito tempo, sem uma profunda reforma do ensinamento filosófico, 
fornecendo aos principiantes ocasião de uma iniciação à prática da pesquisa. O 
futuro talvez esteja, nesse ponto, na solução adotada nos Países-Baixos: uma for- 
mação filosófica em Institutos inter-faculdades, onde a colaboração impõe-se pelo 
contato efetivo e não apenas por confrontações de textos e conceitos. 

Quanto ao futuro da psicologia científica e das outras ciências, tocando de 
perto ou de longe os problemas do espírito, não devemos nos preocupar com eles, 
pois não apenas seu desenvolvimento é irreversível, mas o é ainda, como em todas 
as ciências, de uma irreversibilidade de um tipo particular: como R. Oppenheimer 
gosta de dizê-lo, ela repousa na consciência dos erros que não se farão mais, pois 
em ciência não é possível enganar-se duas vezes da mesma maneira. Tanto a aber- 
tura indefinida dessas ciências jovens sobre novos problemas, quanto essa capaci- 
dade de autocorreção irreversível são pois o garantido penhor da sua vitalidade. 


s4 É surpreendente ver por exemplo quanto L Histoire de la Psychologie de Mueller é pouco aberta à 
compreensão do progresso científico. 


JEAN PIAGET 


PROBLEMAS DE 
PSICOLOGIA GENETICA 


Tradução de Celia E. A. Di Piero 


* Traduzido do original francês Problêmes de Psychologie Génétigue, Paris, Denoêl, 1972. 


O tempo e o desenvolvimento 
intelectual da criança 


O desenvolvimento da criança é um processo temporal por excelência. Eu me 
esforçarei em fornecer alguns dados necessários para a compreensão desse 
problema. 

Mais precisamente, me reterei em dois pontos: o primeiro deles é o papel 
necessário do tempo no circulo vital. Todo desenvolvimento — psicológico como 
biológico — supõe a duração, e a infância dura tanto mais quanto mais superior 
for a espécie; a infância de um gato, a infância de um pinto duram muito menos 
do que a infância da criança porque ela tem muito mais coisa para aprender. É o 
que me esforçarei em demonstrar aqui. 

Existe um segundo ponto que também gostaria de tratar, formulado pela 
questão: O ciclo vital exprime um ritmo biológico fundamental, uma lei inelutá- 
vel? A civilização o modifica, e em que medida? Dito de outra forma, existem 
possibilidades de aceleração ou de diminuição desse desenvolvimento temporal? 

Para tratar esses dois pontos, só considerarei o desenvolvimento propria- 
mente psicológico da criança, em oposição a seu desenvolvimento escolar ou a 
seu desenvolvimento familiar, quer dizer que insistirei principalmente no aspecto 
espontâneo desse desenvolvimento, e ainda o limitarei ao desenvolvimento 
propriamente intelectual, cognitivo. 

Para efeito, podemos distinguir dois aspectos no desenvolvimento intelectual 
da criança. Por um lado, o que podemos chamar o aspecto psico-social, quer dizer 
tudo o que a criança recebe do exterior, aprende por transmissão familiar, escolar, 
educativa em geral; e depois, existe o desenvolvimento que podemos chamar 
espontâneo, que chamarei psicológico, para abreviar, que é o desenvolvimento da 
inteligência mesma: o que a criança aprende por si mesma, o que não lhe foi ensi- 
nado, mas o que ela deve descobrir sozinha; e é isso essencialmente que leva 
tempo. 

Tomemos imediatamente dois exemplos: Numa coleção de objetos, por 
exemplo, um ramo de flores onde existem seis prímulas e seis flores que não são 
prímulas, descobrir que existem mais flores que prímulas, que o todo ultrapassa a 
parte. Isso parece tão evidente que ninguém tem idéia de ensinar a uma criança. 
Entretanto, como veremos, serão necessários vários anos para que a criança des- 
cubra leis desse gênero. 

Outro exemplo banal: a transitividade. Se uma vareta, comparada a uma 
outra, é igual a essa outra, e se essa segunda é igual a uma terceira, será que a pri- 
meira — que escondi debaixo da mesa — é igual à terceira? Será que 4 é igual 


340 PIAGET 


aC,se 4 é iguala Be B é iguala C? Novamente, isso é de uma evidência total 
para nós; não teremos idéia de ensinar isso a uma criança. Ora, serão necessários 
mais ou menos sete anos, como veremos, para que a criança descubra leis lógicas 
dessa forma. 

Logo, é sobre o aspecto espontâneo da inteligência que estudarei, sendo o 
único do qual falarei, porque sou psicólogo e não educador; e também, porque do 
ponto de vista da ação do tempo, é precisamente esse desenvolvimento espontâneo 
que constitui a condição preliminar evidente e necessária para o desenvolvimento 
escolar, por exemplo. 

Nas escolas de Genebra, é aos 11 anos somente que começamos a ensinar a 
noção de proporção aos alunos. Por que não começamos mais cedo? É evidente 
que se a criança pudesse compreendê-la mais cedo, os programas escolares 
teriam situado a iniciação às proporções na idade de 9 ou mesmo de 7 anos. Se 
é necessário esperar 11 anos, é porque essa noção supõe todas as espécies de ope- 
rações complexas. Uma proporção é um produto entre produtos. Para 
compreender um produto de produtos, é necessário compreender primeiramente o 
que é um produto; é necessário constituir primeiramente toda a lógica das rela- 
ções, é necessário aplicar depois essa lógica das relações à lógica dos números. 
Existe aí um amplo conjunto de operações que permanecem implícitas, que não 
distinguimos na primeira abordagem e que estão encobertas sob essa noção de 
proporção. Esse exemplo mostra entre cem outros possíveis como o desenvolvi- 
mento psico-social está subordinado ao desenvolvimento espontâneo e psicoló- 
gico. 

Logo, eu me limitarei ao desenvolvimento psico-social e partirei de antemão 
de um exemplo concreto. Trata-se de uma experiência que realizamos há muito 
tempo em Genebra e que é a seguinte: Apresenta-se a uma criança duas bolinhas 
de massa de modelar, de 3 ou 4 centímetros de diâmetro. A criança verifica que 
elas têm o mesmo volume, o mesmo peso, que elas são parecidas em tudo, e pede- 
se à criança para transformar em cobrinha uma das bolinhas, ou para amassá-la, 
ou para dividi-la em pequenos pedaços. Depois, você faz três perguntas. 


Primeira pergunta: será que a quantidade de matéria permaneceu a mesma? 

Naturalmente, você empregará a linguagem da criança; você dirá por exem- 
plo: será que existe a mesma quantidade de massa já que mudamos a bolinha em 
cobrinha? Ou: há mais ou menos massa que antes? 

Quantidade de matéria, conservação da matéria. .. Coisa extraordinária, 
somente aos 8 anos em média esse problema é resolvido, por 75% das crianças. 
Isso é pois uma média. Se você fizer a experiência com seus próprios filhos, você 
terá naturalmente uma idade mais precoce porque seus filhos estão certamente 
adiantados com relação à média. Mas para a média, é aos 8 anos... 

Segunda pergunta: será que o peso permaneceu o mesmo? 

E você apresenta a ela uma pequena balança. Se eu coloco a bolinha num 
prato e no outro a cobrinha, sabendo que a cobrinha saiu da bolinha por uma sim- 
ples mudança de forma, será que o peso vai ser o mesmo? 

A noção de conservação do peso só é adquirida aos 9 ou 10 anos; aos 10 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 341 


anos por 75% das crianças, quer dizer com dois anos de diferença com relação à 
aquisição da noção de substância. 

Terceira pergunta: será que o volume permaneceu o mesmo? 

Para o volume, como a linguagem é difícil, você empregaráã um processo 
indireto. Você vai mergulhar a bolinha num copo d'água; constatar que a água 
sobe, porque a bolinha ocupará seu lugar. Você perguntará depois se a cobrinha 
mergulhada no copo d'água vai tomar o mesmo lugar, quer dizer, fará subir a 
água da mesma maneira. 

Esse problema só é resolvido aos 12 anos, quer dizer que existe novamente 
uma diferença de dois anos com relação à solução do problema da conservação 
do peso. 

Vejamos rapidamente os argumentos dos que não têm a noção da conserva- 
ção ou da substância, ou do peso, ou do volume. O argumento é sempre o mesmo. 
A criança dirá: antes, era redondo, depois você afinou a massa. Desde que você 
a afinou, ela tem mais. A criança olha uma das dimensões, ela esquece a outra; O 
que é marcante nesse raciocínio, é que ela considera a configuração da partida, a 
configuração da chegada, mas não raciocina sobre a transformação mesma. Ela 
esquece que uma coisa foi transformada em outra; ela compara a bolinha inicial 
com a forma final e responde: mas não, é mais comprida, portanto tem mais. 

Ela descobre depois que é a mesma substância, a mesma quantidade de maté- 
ria. Mas dirá: é mais comprida e apesar disso mais pesada — com os dois anos 
de diferença que falei, e com os mesmos argumentos. 

Vejamos quais são os argumentos que permitem chegar à noção da conserva- 
ção. Eles são sempre os mesmos, em número de três. 

Primeiro argumento, que chamarei o argumento de identidade. A criança 
diz: mas não se tirou nada, não se acrescentou nada; por conseguinte, é a mesma 
coisa; a mesma quantidade de massa. E aos 8 anos, ela acha tão extraordinário 
lhe fazermos uma pergunta tão fácil, que sorri, dá de ombros, sem desconfiar que 
teria dado uma resposta contrária no ano precedente. Logo, ela dirá: é a mesma 
coisa, porque você não tirou nada, nem acrescentou nada. Mas quanto ao peso, é 
mais comprido, logo mais pesado. E o argumento precedente retorna. 

Segundo argumento: é a reversibilidade. A criança diz: você afinou a massa, 
você deverá transformá-la em bolinha e você verá que é a mesma coisa. 

Terceiro argumento: a compensação. A criança diz: naturalmente se se afina 
terá mais; mas ao mesmo tempo está mais fina. A massa ganhou por um lado, 
mas perdeu por outro, consequentemente isso se compensa, é a mesma coisa. 

Esses fatos simples nos permitem fazer imediatamente duas constatações 
relativas ao tempo, distinguindo no tempo dois aspectos fundamentais: por um 
lado a duração, depois a ordem de sucessão dos acontecimentos por outro, a dura- 
ção não sendo senão o intervalo entre as ordens de sucessão. 

1.º Primeiramente o tempo é necessário como duração. É necessário esperar 
8 anos para a noção de conservação da substância; 10 anos para a do peso, e isso 
em 75% dos indivíduos. E nem todos os adultos adquirirão a noção da conserva- 


342 PIAGET 


ção do peso. Spencer, no seu Tratado de Sociologia, conta a história de uma 
senhora que viajava com mais mala comprida de preferência a uma mala quadra- 
da, porque pensava que seus vestidos estendidos pesavam menos que os vestidos 
dobrados na mala quadrada. 

Quanto ao volume, é necessário esperarmos 12 anos. Isso não é especial em 
Genebra. Essas experiências que fizemos entre 1937 e 1940 em Genebra foram 
retomadas na França, na Polônia, na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá, 
no Irã e mesmo em Aden, nas margens do mar Vermelho, e em todos os lugares 
encontramos esses estágios. Mas em média não encontramos nenhum adianta- 
mento com relação a nossos pequenos genebreses que estão mesmo numa posição 
honrosa, como veremos. Quer dizer que essa é uma idade minima, exceto natural- 
mente em alguns meios sociais selecionados, por exemplo escolas de bem dotados. 

Podemos acelerar tal evolução pela aprendizagem? É a questão que se colo- 
cou um de nossos colaboradores — um psicólogo norueguês, Jan Smerdslund — 
em nosso Centro de Epistemologia Genética. Ele se esforçou em acelerar a aquisi- 
ção da noção da conservação do peso mediante uma certa aprendizagem — no 
sentido americano do termo — quer dizer por reforço externo, por leitura do 
resultado na balança, por exemplo. Mas é necessário compreendermos primeira- 
mente que essa aquisição da noção de conservação supõe toda uma lógica, todo 
um raciocínio que se dirija às transformações mesmas, e por conseguinte sobre a 
noção de reversibilidade, essa reversibilidade que a criança mesma invoca quando 
atinge a noção de conservação. Depois principalmente, essa noção de conserva- 
ção supõe a transitividade; um estado 4 da bolinha sendo igual a um estado B, o 
estado B sendo igual a um estado €, o estado A será igual ao estado C. Existe 
correlação entre essas diversas operações. Smerdslund começou por verificar essa 
correlação e encontrou uma correlação muito significativa, com relação aos 
assuntos estudados, entre a noção de conservação por um lado ce a de transiti- 
vidade por outro. Depois ele se dedicou a essa experiência de aprendizagem, quer 
dizer que ele mostrou à criança, depois de cada resposta, o resultado na balança, 
fazendo com que ela constatasse que o peso era o mesmo. Depois de duas ou três 
vezes, a criança repetiu constantemente: será sempre o mesmo peso, será de novo 
o mesmo peso, etc. 

Haverá assim aprendizagem do resultado. Mas o que é interessante, é que 
essa aprendizagem do resultado se limita a esse resultado, quer dizer que quando 
Smerdslund passou para a aprendizagem da transitividade (o que é um outro 
aspecto, a transitividade fazendo parte da estrutura lógica que conduz a esse 
resultado), ele não pôde obter aprendizagem com relação a essa transitividade, 
apesar das constatações repetidas na balança de 4 = C,A = Be B = €C. Logo 
existe uma diferença entre aprender um resultado e formar um instrumento inte- 
lectual, formar uma lógica, necessária à construção de tal resultado. Não forma- 
mos um instrumento novo de raciocínio em alguns dias. Eis o que prova essa 
experiência. 

2.º A outra constatação fundamental que tiraremos desse exemplo das boli- 
nhas de massa é que o tempo é necessário igualmente como ordem de sucessão. 


PR) 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 343 


Constatamos que a descoberta da noção de conservação da matéria precede de 
dois anos a do peso; e a do peso precede de dois anos a do volume. Essa ordem 
de sucessão foi encontrada em toda a parte; ela nunca foi invertida, quer dizer que 
não encontramos um indivíduo que descubra a conservação do peso sem ter a 
noção da substância, enquanto encontramos sempre o inverso. 

Por que essa ordem de sucessão? É que. para que o peso se conserve, é neces- 
sário naturalmente um substratum. Esse substratum, essa substância, será a maté- 
ria. É interessante observar que a criança começa pela substância, porque essa 
substância sem peso nem volume não é constatável empírica, perceptivamente; 
esse é um conceito puro, mas um conceito necessário para atingirmos depois a 
noção de conservação do peso e do volume. 

Logo, a criança começa por essa forma vazia que é a substância, mas ela co- 
meça por aí porque sem isso não haveria conservação do peso. Quanto à conser- 
vação do volume, trata-se de um volume físico e não geométrico, comportando a 
incompressibilidade e a indeformabilidade do corpo, o que, na lógica da criança, 
suporá sua resistência, sua massa, e por conseguinte seu peso, pois a criança não 
distingue O peso e a massa. 

Essa ordem de sucessão mostra que, para que um novo instrumento lógico se 
construa, é preciso sempre instrumentos lógicos preliminares; quer dizer que a 
construção de uma nova noção suporá sempre substratos, subestruturas anteriores 
e isso por regressões indefinidas, como veremos dentro em breve. 


Isso nos conduz à teoria dos estágios do desenvolvimento. O desenvolvi- 
mento se faz por graduações sucessivas, por estágios e por etapas, e distingui- 
remos quatro grandes etapas nesse desenvolvimento que descreverei brevemente. 

Primeiramente, uma etapa que precede a linguagem e que chamaremos a da 
inteligência sensório-motora, antes dos 18 meses mais ou menos. 

Em segundo lugar, uma etapa que começa com a linguagem e que vai até 
7 ou 8 anos, que chamaremos o período da representação, mas pré-operatória, 
no sentido que definirei mais adiante. Depois, entre 7 e 12 anos, mais ou menos, 
distinguiremos um terceiro período que chamaremos das operações concretas, 
e, finalmente, depois de 12 anos, as operações proporcionais ou formais. 


Distinguiremos pois etapas sucessivas. Observemos que essas etapas, esses 
estágios são caracterizados precisamente por sua ordem de sucessão fixa. Não são 
etapas às quais possamos determinar uma data cronológica constante. Pelo 
contrário, as idades podem variar de uma sociedade à outra, como veremos 
no fim dessa exposição. Mas a ordem de sucessão é constante. Ela é sempre a 
mesma, € isso por razões que acabamos de entrever, quer dizer que para atingir 
um certo estágio, é necessário ter passado por demarches preliminares. É neces- 
sário ter construído as pré-estruturas, as subestruturas preliminares que permitem 
progredirmos mais. 

Atingimos pois uma hierarquia de estruturas que se constroem numa certa 
ordem de integração e que, coisa interessante, parecem aliás se desintegrarem na 
ordem inversa, no momento da senescência, como os ótimos trabalhos do Dr. 
Ajuriaguerra e de seus colaboradores parecem mostrar no estado atual dessas 
pesquisas. 


344 PIAGET 


Descrevamos rapidamente esses estágios, com o fim de mostrar por que o 
tempo é necessário, e por que é necessário tanto tempo para se atingir noções tão 
evidentes, tão simples quanto as que tomei como exemplo. 

Comecemos pelo período da inteligência sensório-motora. Existe uma inteli- - 
gência antes da linguagem, mas não existe pensamento antes da linguagem. 
Distingamos a esse respeito a inteligência e o pensamento. A inteligência é a solu- 
ção de um problema novo para o indivíduo, é a coordenação dos meios para atin- 
gir um certo fim, que não é acessível de maneira imediata; enquanto o pensamento 
é a inteligência interiorizada e se apoiando não mais sobre a ação direta, mas 
sobre um simbolismo, sobre a evocação simbólica pela linguagem, pelas imagens 
mentais, etc., que permitem representar o que a inteligência sensório-motora, pelo 
contrário, vai apreender diretamente. 

Existe pois uma inteligência antes do pensamento, antes da linguagem. 
Tomemos um exemplo. Mostro a uma cirança uma coberta; sob essa coberta, e 
sem que a criança tenha visto, eu escondi uma boina basca. Depois do que, eu 
mostro à criança um objeto, novo para ela, um brinquedo qualquer que ela não 
conheça, que ela quer pegar; e depois eu o escondo sob a coberta. Num certo nível 
ela vai levantar a coberta para encontrar o objeto, mas ela não vê o objeto; ela vê 
somente a boina basca. Imediatamente ela vai levantar a boina basca e encontrar 
o objeto em questão. Isso parece não ter importância, mas é um ato de inteligência 
muito complexo. Supõe primeiramente a permanência do objeto. Veremos mais 
adiante que a noção de permanência não é inata, mas exige pelo contrário meses 
para ser construída. Ela supõe a localização do objeto — que não é dada logo, 
porque essa localização supõe por sua vez a organização do espaço. Ela supõe de- 
pois relações particulares em cima-embaixo, etc. Existe pois toda uma construção 
nesse ato de inteligência que parece tão simples. Mas um ato de inteligência dessa 
espécie pode se construir antes da linguagem e não supõe necessária a represen- 
tação ou o pensamento. 

Por que esse período da inteligência sensório-motora dura tanto tempo, até 
os 18 meses? 

Outra maneira de colocar a mesma pergunta: por que a aquisição da lingua- 
gem é tão tardia com relação aos mecanismos invocados? A linguagem às vezes 
foi reduzida a um puro sistema de condicionamento, de reflexos condicionados. Se 
tal fosse o caso, haveria aquisição da linguagem desde o fim do primeiro mês, por- 
que já existem os primeiros reflexos condicionados no começo do segundo mês. 
Por que é necessário esperar 18 meses? Respondemos que a linguagem é solidária 
do pensamento e supõe pois um sistema de ações interiorizadas e supõe mesmo, 
cedo ou tarde, um sistema de operações. Chamaremos “operações” ações interio- 
rizadas, quer dizer executadas não mais material, mas interior e simbolicamente, 
e ações que podem ser combinadas de todas as maneiras; em particular, que 
podem ser invertidas, que são reversíveis, no sentido que indiquei há pouco. 

Ora, essas ações que constituem o pensamento, essas ações interiorizadas, é 
necessário aprender primeiramente a executá-las materialmente; elas exigem 
primeiramente todo um sistema de ações efetivas, de ações materiais. Pensar, é 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 345 


por exemplo classificar, ou ordenar, ou correlacionar; é reunir, ou dissociar, etc. 
Mas todas essas operações, é necessário primeiramente executá-las materialmente 
em ações para em seguida ser capaz de construí-las em pensamento. É por isso 
que existe um período sensório-motor tão longo antes da linguagem: é por isso 
que a linguagem é tão tardia, com relação ao desenvolvimento. É necessário um 
amplo exercício da ação pura para construir as subestruturas do pensamento 
ulterior. 

E durante esse primeiro ano, ela constrói precisamente todas as subestru- 
turas ulteriores: a noção do objeto, a do espaço, a de tempo, sob a forma das 
sequências temporais, a noção de causalidade, em suma as grandes noções das 
quais o pensamento se servirá ulteriormente, e que são elaboradas, empregadas 
pela ação material, desde seu nível sensório-motor. 

Tomemos dois exemplos: 1.º) A noção do objeto permanente. Na primeira 
abordagem, nada é mais simples. O filósofo Meyerson pensava que a permanência 
do objeto era dada desde a percepção, que não existe meio de perceber um objeto 
sem julgá-lo permanente. O bebê nos engana a esse respeito. Tomemos um bebê 
de cinco ou seis meses, depois da coordenação da visão e da preensão, quer dizer 
quando ele começa a poder segurar os objetos que vê. Mostrem um objeto que lhe 
interesse, por exemplo, esse relógio. Você o coloca na mesa diante da criança, e 
ela estende a mão para pegar o objeto. 

Você esconde o objeto com um pano, por exemplo. Você verá que a criança 
retira simplesmente a mão se o objeto não é fundamental para ela, ou se encole- 
riza se o objeto tem um interesse particular para ela, por exemplo se se trata de 
sua mamadeira. Mas ela não tem idéia de levantar o pano e procurar o objeto 
atrás dele. E não é porque ela não saiba remover o pano de cima do objeto. Se 
você coloca o pano sobre o seu rosto, ela saberá muito bem retirá-lo imediata- 
mente, enquanto não sabe procurar atrás do pano para encontrar o objeto. Logo, 
tudo se passa como se o objeto, uma vez desaparecido do campo da percepção, 
tenha sido reabsorvido, tenha perdido toda existência, ainda não tenha adquirido 
essa substancialidade que vimos há pouco que são necessários oito anos para que 
atinja à sua propriedade de conservação quantitativa. O mundo exterior é uma 
série de quadros movediços que aparecem, desaparecem, donde os mais interes- 
santes podem reaparecer quando se procede desajeitadamente (por exemplo, 
dando gritos com muita continuidade se se trata de uma pessoa cujo retorno é 
desejado). Mas esses são apenas quadros movediços sem substancialidade, sem 
permanência e, principalmente, sem localização. 

Segunda etapa: você verá a criança levantar o pano para encontrar o objeto 
escondido atrás dele. Mas o controle seguinte mostra que tudo não foi adquirido 
para isso. Você coloca o objeto na direita da criança, depois o esconde, ela vai 
procurá-lo; depois você o apanha novamente, passa lentamente com ele sob os 
olhos da criança e coloca à sua esquerda (trata-se dessa vez de um bebê de 9 — 
10 meses). O bebê tendo visto desaparecer o objeto à sua esquerda, você verá 
imediatamente sua busca na direita, onde ele o encontrou uma primeira vez. Não 
há pois aqui senão uma semi-permanência, sem localização. A criança vai procu- 


346 PIAGET 


rar onde a ação de procurar teve êxito numa primeira vez, e independentemente da 
mobilidade do objeto. 

2.º) O que acontece com o espaço? 

Aí, novamente, vemos que nada é inato nas estruturas e que tudo deve ser 
construído pouco a pouco e laboriosamente. No que concerne ao espaço, todo o 
desenvolvimento sensório-motor é particularmente importante e interessante do 
ponto de vista da psicologia da inteligência. Com efeito, no começo, no recêm- 
nascido, não existe um espaço como continente, pois não existe objeto (inclusive 
o corpo próprio que não é naturalmente concebido como um objeto). Existe uma 
série de espaços heterogêneos uns aos outros, e todos centrados sobre o corpo pró- 
prio. Existe o espaço bucal, descrito por Stern. A boca é o centro do mundo 
durante muito tempo, e Freud disse muitas coisas a esse respeito. Depois existe o 
espaço visual; mas além do espaço visual, existe o espaço táctil, existe o espaço 
auditivo. E esses espaços são todos centrados sobre o corpo próprio por um lado, 
a ação de olhar, de seguir com os olhos, a ação de levar algo à boca, etc., mas são 
incoordenados entre eles. Logo uma série de espaços egocêntricos, poder-se-ia 
dizer, não coordenados e não compreendendo o corpo próprio a título de elemento 
num continente. 

Enquanto dezoito meses mais tarde, essa mesma criança terá a noção de um 
espaço geral que engloba todas essas variedades particulares de espaços, 
compreendendo todos os objetos tornados sólidos e permanentes, inclusive o 
corpo próprio, a título de objeto entre os outros, os deslocamentos se coordenando 
e podendo se deduzir e se prever relativamente aos deslocamentos próprios. 

Dito de outra forma, durante esses dezoito meses não é exagero falar de uma 
revolução coperniciana (no sentido kantiano do termo). Existe aí uma reviravolta 
total, uma descentralização total com relação ao espaço egocêntrico primitivo. 

Já me estendi bastante para demonstrar que dezoito meses são muito pouco 
para construir tudo isso, e que na realidade esse desenvolvimento é singularmente 
acelerado durante o primeiro ano. É talvez o período da infância em que as aquisi- 
ções são mais numerosas e mais rápidas. 

Passo agora para o período da representação pré-operatória. Por volta de um 
ano e meio, dois anos, um acontecimento considerável se produz no desenvolvi- 
mento intelectual da criança. É agora que aparece a capacidade de representar al- 
guma coisa por meio de outra coisa, o que chamamos a função simbólica. A fun- 
ção simbólica é a linguagem, por um lado, sistema de sinais sociais em oposição 
aos simbolos individuais. Mas ao mesmo tempo que existe essa linguagem, exis- 
tem outras manifestações da função simbólica. Existe o jogo que se torna simbó- 
lico: representar alguma coisa por meio de um objeto ou de um gesto. Até então, 
O jogo não era senão um jogo de exercícios motores, enquanto que por volta de 
um ano e meio por exemplo, a criança começa a jogar. Um dos meus filhos fazia 
circular uma concha sobre uma caixa dizendo: “Miau”, porque um pouco antes 
tinha visto um gato do muro. O símbolo era evidente nesse caso, a criança não 
tendo outra palavra à sua disposição. Mas o que é novo, é representar alguma 
coisa por meio de outra. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 347 


Terceira forma de simbolismo: pode ser um simbolismo gestual, por exemplo 
na “imitação indireta”. 

Quarta forma: será o começo da imagem mental ou imitação interiorizada. 

Existe pois um conjunto de simbolizantes que aparecem nesse nível e que tor- 
nam possível o pensamento, o pensamento sendo, repito, um sistema de ação inte- 
riorizada e conduzindo a essas ações particulares que chamaremos “operações”, 
ações reversíveis e ações se coordenando umas com as outras em sistemas de con- 
Junto, dos quais falaremos dentro em breve. 

Apresenta-se aqui uma situação que suscita da maneira mais aguda o pro- 
blema do tempo. Por que as estruturas lógicas, por que as operações reversíveis 
que acabamos de caracterizar, por que a noção de conservação que falamos há 
pouco, não aparecem desde que haja linguagem e desde que haja função simbó- 
lica? Por que é necessário esperarmos oito anos para adquirir a invariante de 
substância, e muito mais para as outras noções em vez de elas aparecerem desde 
que haja função simbólica, quer dizer a possibilidade de pensar, e não mais 
simplesmente de agir materialmente? Por essa razão, fundamental, que as ações 
que possibilitaram alguns resultados no terreno da efetividade material não 
podem ser interiorizadas sem mais e de uma maneira imediata, e que se trata de 
reaprender no plano do pensamento o que já aprendemos no plano da ação. Essa 
interiorização é na realidade uma nova estruturação; é não apenas uma tradução. 
mas uma reestruturação, com uma decalagem que toma um tempo considerável. 

Darei um exemplo: é o grupo dos deslocamentos que, na organização sensó- 
rio-motora do espaço, constitui um resultado final fundamental. O que os geôme- 
tras chamam um grupo de deslocamentos, é por exemplo que a criança se torna 
capaz, circulando em seu apartamento ou em seu jardim quando souber andar, de 
coordenar suas idas e vindas, de retornar ao ponto de partida — é a reversibi- 
lidade — ou de fazer desvios para chegar a um mesmo ponto por caminhos dife- 


rentes — será a associatividade do grupo dos deslocamentos. Em suma, ela vai 
coordenar seus deslocamentos num sistema total que permite a volta ao ponto de 
partida. 


Ora, esse grupo dos deslocamentos é adquirido desde um ano e meio mais ou 
menos, no plano sensório-motor. Mas isso significa que o bebê sabe se representar 
por imagem mental, ou por desenho, ou pela linguagem, os deslocamentos que ele 
sabe efetuar materialmente? Absolutamente. Porque se deslocar é uma coisa € 
outra diferente evocar pela representação os mesmos deslocamentos. 

Realizamos outrora, com minha colaboradora Szeminska, uma experência 
cheia de interesse para nós, em crianças de 4 a 5 anos que, numa época em que 
tinha menos tráfego em Genebra, iam sozinhas de casa para a escola e voltavam 
sozinhas da escola para casa, duas ou quatro vezes por dia. Tentamos representar 
o trajeto que elas seguiam entre a escola e a casa não por desenhos, porque teria 
sido muito complicado, nem pela palavra, o que teria sido mais difícil ainda, mas 
por meio de um pequeno jogo de construção. Tínhamos uma fita azul para Arve, 
um papelão verde para a planície de Plainpalais, representamos a igreja do fim da 
planície, o Palácio das Exposições, etc., e a criança devia localizar os diferentes 


348 PIAGET 


edifícios com relação a sua casa, com relação à escola. Bem, essas crianças de 4 
e S anos sabiam seguir o caminho para ir à escola mas não podiam representá-lo; 
elas tinham de qualquer modo uma representação motora. A criança dizia: Eu 
saio de minha casa, eu vou assim (gesto), depois assim (gesto). depois eu faço uma 
volta assim, depois chego à escola. 

Mas colocar edifícios e fazer o caminho, é outra coisa. Uma coisa é sair de 
um aperto numa cidade estrangeira onde acabamos de chegar e aí se reencontrar 
depois de alguns dias, outra coisa é evocar sua topografia, se não temos um mapa 
da cidade à nossa disposição. Que uma mesma ação seja executada materialmente 
ou evocada em pensamento não se trata na realidade da mesma ação. O desenvol- 
vimento não é linear: é necessário uma reconstrução. O que explica que haja todo 
um período, que dura até por volta dos sete ou oito anos, no qual o que foi adqui- 
rido no nível sensório-motor não pode ser continuado sem mais, mas deve ser 
reelaborado no nível da representação, antes de atingir essas operações e conver- 
sações que falamos há pouco. 

Chego agora ao nível das operações concretas, por volta de 7 anos em média 
em nossas civilizações. Mas veremos que existem atrasos ou adiantamentos devi- 
do à ação da vida social. Por volta de 7 anos, constatamos uma modificação 
fundamental no desenvolvimento da criança. Ela se torna capaz de uma certa lógi- 
ca; ela se torna capaz de coordenar operações no sentido da reversibilidade, no 
sentido do sistema de conjunto do qual darei um ou dois exemplos agora. Esse 
período coincide com o começo da escola primária. Aqui novamente penso que é 
o fator psicológico que é decisivo. Se esse nível das operações concretas fosse 
mais precoce, poderíamos fazer começar a escola primária mais cedo. Ora, isso 
não é possível antes que tenha sido atingido um certo nível de elaboração de que 
tentarei dar agora as características. 

As operações do pensamento, observemos imediatamente, não são idênticas, 
nesse nível, ao que é nossa lógica para nós, ou ao que se tornará a lógica do 
adolescente. A lógica do adolescente — e nossa lógica — é essencialmente uma 
lógica do discurso. Quer dizer que somos capazes — e o adolescente se torna 
capaz desde 12 ou 15 anos — de raciocinar sobre enunciados verbais, proposicio- 
nais; somos capazes de manipular hipóteses, de raciocinar a partir do ponto de 
vista de um outro, sem acreditar nas proposições sobre as quais raciocinamos. 
Somos capazes de manipulá-las de uma maneira formal e hipotético-dedutiva. 

Essa lógica, veremos, leva ainda muito tempo para se construir. Antes dessa 
lógica, é necessário passar por um estágio preliminar, e é o que chamarei o 
periodo das operações concretas. Esse período preliminar é o de uma lógica que 
não se dirige a enunciados verbais, mas que diz respeito aos objetos mesmos, os 
objetos manipuláveis. Será uma lógica das classes, porque podemos reunir os 
objetos juntos ou em classes; ou será uma lógica das relações porque podemos 
combinar os objetos seguindo suas diferentes relações; ou será uma lógica dos nú- 
meros porque podemos contá-los materialmente, manipulando os objetos; mas se 
for uma lógica das classes, relações e números, ainda não será uma lógica das 
proposições. E entretanto, tratamos com uma lógica, no sentido em que pela pri- 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 349 


meira vez, estamos em presença de operações propriamente ditas, enquanto pos- 
sam ser invertidas — como por exemplo a adição que é a mesma operação que a 
subtração, mas no sentido inverso. E depois, é uma lógica no sentido em que as 
operações estão coordenadas, agrupadas em sistemas de conjunto, que têm suas 
leis como totalidades. E é necessário insistir com bastante ênfase sobre a necessi- 
dade dessas estruturas de conjunto para a elaboração do pensamento. 

Por exemplo, um número não existe no estado isolado. O que é representado, 
é a sucessão dos números, quer dizer um sistema organizado que é a unidade mais 
a unidade, e assim sucessivamente. Uma classe lógica, um conceito não existem 
no estado isolado. O que é representado é o sistema total que chamaremos uma 
classificação. Assim também, uma relação de comparação “maior que” não existe 
no estado isolado; é uma parte de uma estrutura de conjunto que chamaremos a 
seriação, que consiste em ordenar os elementos seguindo a mesma relação. 

São essas estruturas que se constroem a partir de 7 anos, e é a partir desse 
momento que as noções de conservação se tornam possíveis. 

Tomemos dois exemplos dessas estruturas de conjunto: 

1.º A seriação. Você dá à criança uma série de varinhas de diferentes tama- 
nhos e você lhe pede para ordená-las da menor até a maior. Naturalmente, a 
criança saberá fazer isso antes dos 7 anos, mas de uma maneira empírica, quer 
dizer por tateamentos, o que não é uma operação lógica. Enquanto a partir dos 7 
anos, a criança se torna capaz de um sistema. Ela vai comparar os elementos 
entre eles, até encontrar o menor, que coloca sobre a mesa; depois procurará o 
menor dos que restam e o colocará ao lado do primeiro; e em seguida o menor de 
todos os que restam e o colocará ainda ao lado do segundo. Cada elemento sendo 
maior que todos os que já estavam na mesa e menor do que os que restavam: você 
vê então um elemento de reversibilidade. 

Essa operação, que é modesta, é adquirida por volta dos 7 anos, no plano dos 
comprimentos. Se você traduz essa operação em termos de pura linguagem, ela se 
torna muito mais complicada. Nos testes de inteligência de Burt, que são tão ricos 
em operações lógicas, existe o seguinte teste, que estudei outrora com grande inte- 
resse. Trata-se de três meninas que diferem pela cor de seus cabelos, e pede-se 
para adivinhar qual delas os têm mais escuros. Os de Edith são mais claros que 
os de Suzana € ao mesmo tempo mais escuros que os de Lili. Qual das três os tem 
mais escuros? Você vê que é necessário um pequeno raciocínio que não é imedia- 
to, mesmo no adulto, para achar que é Suzana e não Lili. Na criança, será neces- 
sário esperar 12 anos para que esse problema seja resolvido, porque ele é posto em 
termos de enunciados verbais. Não existe entretanto nada mais do que a seriação 
de que falei há pouco, mas uma seriação verbal que é diferente das operações con- 
cretas que acabei de descrever. 

2.º A classificação. Ela só é adquirida por volta de 7-8 anos, se você toma 
como critério da classificação a inclusão de uma subclasse numa classe, quer 
dizer a compreensão do fato de que a parte é menor que o todo. Isso pode parecer 
extraordinário e é entretanto verdadeiro. Você dá à criança flores que 
compreendem seis prímulas e seis outras flores. Você lhe pergunta: Todas as pri- 


350 PIAGET 


mulas são flores? Resposta: Naturalmente. Todas as flores são prímulas? Respos- 
ta: Naturalmente que não. Há na mesa mais prímulas ou mais flores? A criança 
vai olhar e dizer: Há mais prímulas; ou: É a mesma coisa, porque tem 6 de um 
lado e 6 do outro. 

— Mas, você me disse que as prímulas são flores. Há mais flores ou mais 
prímulas? 

Bem, as flores, é o que resta depois das prímulas; não é a inclusão da parte 
no todo, é a comparação de uma parte com outra parte. 

Isso é interessante como sintoma das operações concretas. Observe que com 
flores, esse problema é resolvido aos 8 anos. Mas se você pergunta sobre animais, 
a solução vem mais tarde. Você pergunta a uma criança: todos os animais são 
pássaros? Certamente não. Existem caracóis, cavalos... Todos os pássaros são 
animais? Certamente. 

— Então, se você olha pela janela, existem mais pássaros ou mais animais? 

— Eu não sei. Seria preciso contá-los. 

Impossível pois de deduzir a inclusão da subclasse na classe simplesmente 
pela manipulação de “todos” e de “alguns”. E isso provavelmente porque as flores 
podem ser reunidas em ramos. Existe aí uma operação concreta fácil, enquanto 
fazer ramos de andorinhas, se torna mais complicado; isso não é manipulável. 

Chego enfim às operações formais, por volta de 12 anos e tendo como etapa 
de equilíbrio 14-15 anos. 

Trata-se de uma última etapa, durante a qual a criança se torna capaz de 
raciocinar e de deduzir, não somente sobre objetos manipuláveis como bastões a 
serem ordenados, esses numerosos objetos a serem juntados, etc., mas se torna 
capaz de lógica e de raciocínios dedutivos, sobre hipóteses, sobre preposições. 
Existe toda uma nova lógica, todo um conjunto de operações especificas que vêm 
se superpor às precedentes e que podemos chamar a lógica das proposições. Ela 
supõe com efeito duas características novas muito fundamentais. Primeiramente 
uma “combinatória”, enquanto que até então tudo se fazia passo a passo, por 
encaixes sucessivos, enquanto a combinatória liga qualquer elemento a outro 
qualquer. Existe pois aí uma característica nova, que repousa sobre uma espécie 
de classificação de todas as classificações, ou de seriação de todas as seriações. A 
lógica das proposições suporá, por outro lado, a combinação num sistema único 
dos diferentes agrupamentos que até então repousavam, seja sobre a reciproci- 
dade, seja sobre a inversão, sobre as diferentes formas de reversibilidade (grupo 
das quatro transformações: inversão, reciprocidade, correlatividade, identidade). 
Estamos pois em presença de um acabamento que, em nossas sociedades, só se 
constata aos 14 ou 15 anos, e que toma tanto tempo porque, para chegar aí, é 
necessário passar por todas as espécies de etapas das quais cada uma é necessária 


para a conquista da seguinte. 
Até aqui procurei mostrar o papel necessário do tempo no desenvolvimento 


intelectual da criança. Vou falar agora da outra questão que nos colocamos no co- 
meço desse estudo, a saber: trata-se aí de um ritmo inelutável, ou existem varia- 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 351 


ções possíveis sobre o efeito da civilização ou sobre efeito das sociedades nas 
quais a criança vive? 

Duas respostas podem ser dadas: a resposta de fato e a resposta de interpre- 
tação teórica. Mas as respostas de fato são infelizmente inseparáveis da interpre- 
tação teórica, porque um fato não é nada em si mesmo se não for interpretado e 
a interpretação aqui é sempre delicada. 

O estado de fato. Encontramos naturalmente adiantamentos com relação às 
idades que indiquei. Existem indivíduos bem dotados, melhor dotados que outros. 
Existem gênios, de tempos em tempos. Existem pois adiantamentos, mas esses 
adiantamentos são o resultado de uma maturação biológica mais rápida? Isso 
é muito possível, porque existem ritmos muito diferentes no crescimento indivi- 
dual. Ou é um efeito de educação, do exercício, etc.? Você vê aqui que o fato 
bruto não permite resposta e que é necessário uma interpretação. 

Encontramos, por outro lado, adiantamentos coletivos em certas classes 
sociais, em certos meios. Mas aqui novamente, trata-se de uma seleção de bem 
dotados, ou de uma ação social propriamente dita? 

De fato, o que encontramos, principalmente nos estudos comparativos que 
quisemos fazer, em todas as espécies de países, sobre essas espécies de resultados, 
são atrasos espantosos com relação às idades que acabamos de dar. Por exemplo, 
os psicólogos canadenses, que retomaram esses testes detalhadamente e de uma 
maneira muito estandartizada, encontram em Montreal mais ou menos as mesmas 
idades que em Genebra. Mas retomando os mesmos estudos comparados na Mar- 
tinica, eles obtiveram quatro anos de atraso nas respostas dadas a todos os nossos 
problemas. Tratava-se entretanto de crianças escolarizadas segundo o programa 
francês de ensino primário, que vai até o certificado de estudos primário. Apesar 
disso, as crianças da Martinica têm quatro anos de atraso na aquisição das 
noções de conservação, de dedução, de seriação. .. 

Mas de que se trata aqui? Esse atraso depende de um fator de maturação, ou 
seja, de um fator racial? Isso parece muito pouco provável porque psicologica- 
mente não se encontrou nada semelhante. Ou trata-se de um fator social, quer 
dizer de uma certa passividade no meio social adulto? Os psicólogos que cito (A. 
Pinard, M. Laurendeau, C. Boisclair) estariam mais certamente orientados para 
essa segunda direção, fornecendo-nos a esse respeito todas as espécies de índices. 
Um dos professores das crianças examinadas tinha hesitado em muito, antes de 
escolher sua profissão, entre a vocação de professor e uma outra possível, a de 
feiticeiro. .. Ora, um meio adulto sem dinamismo intelectual pode ocasionar um 
atraso geral no desenvolvimento das crianças. 

Por outro lado, pesquisas foram feitas no Irã. Em Teerã, encontramos mais 
ou menos as mesmas idades daqui; mas, em alguns analfabetos, do campo, cons- 
tatamos um atraso de dois anos e meio, e isso de uma maneira mais ou menos 
constante. A ordem de sucessão permanece a mesma, mas com decalagens. 

Eis pois o estado de fato: há variações na velocidade e na duração do desen- 
volvimento. Como interpretá-las? O desenvolvimento do qual tentei fazer um qua- 
dro muito esquemático e muito sucinto, pode ser explicado por diferentes fatores. 


E SS 


352 PIAGET 


Distinguirei quatro. 

Primeiro fator: a hereditariedade, a maturação interna. Esse fator deve certa- 
mente ser retido em todos os pontos de vista, mas é insuficiente porque não existe 
nunca no estado puro ou isolado. Se um efeito de maturação intervém em toda 
parte, ele permanece indissociável dos efeitos do exercício da aprendizagem ou da 
experiência. A hereditariedade não é pois um fator que aja isolado ou seja isolável 
psicologicamente. 

Segundo fator: a experiência física, a ação dos objetos. Constitui novamente 
um fator essencial, que não se deve subestimar, mas que, ele também, é insufi- 
ciente. Em particular, a lógica da criança não é tirada das ações que se exercem 
sobre os objetos. O que não é absolutamente a mesma coisa, quer dizer que a 
parte da atividade do sujeito é fundamental e aí, a experiência tirada do objeto não 
basta. 

Terceiro fator: a transmissão social, o fator educativo, no sentido amplo. 
Fator determinante, naturalmente, no desenvolvimento, ele é por si só insuficiente. 
por essa razão evidente que para que uma transmissão seja possível entre o adulto 
e a criança ou entre o meio social e a criança educada, é necessário haver assimi- 
lação pela criança do que lhe procuram inculcar do exterior. Ora, uma assimila- 
ção é sempre condicionada pelas leis desse desenvolvimento parcialmente espon- 
tâneo do qual dei exemplos. 

Lembremos a esse respeito a inclusão da subclasse na classe, a parte menor 
que o todo. A linguagem contém uma quantidade de casos nos quais a inclusão é 
marcada de uma maneira completamente explícita pelas palavras mesmas. Mas 
isso não entra entretanto no espírito da criança enquanto a operação não for cons- 
truída no plano das ações interiorizadas. Por exemplo, estudei outrora — e era 
novamente um teste de Burt — um teste no qual se tratava de determinar a cor de 
um ramo de flores, sendo dado o seguinte enunciado: Um menino diz a suas 
irmãs: algumas de minhas flores são botões de ouro. (Eu tinha mesmo simplifi- 
cado dizendo: Algumas de minhas flores são amarelas.) A primeira das irmãs res- 
ponde: Então teu ramo é amarelo, ele é todo amarelo; a segunda responde: Uma 
parte das flores é amarela; a terceira responde: Nenhuma das flores é amarela. 

Os pequenos parisienses — era uma pesquisa feita em Paris — respondiam 
até 9 e 10 anos: “As duas primeiras têm razão porque dizem a mesma coisa. A 
primeira disse: Todo teu ramo é amarelo, e a segunda: Algumas de suas flores são 
amarelas. É a mesma coisa; isso quer dizer que há algumas flores e que elas são 
amarelas”. Dito de outra forma, o genitivo partitivo, a relação da parte ao todo, 
não estava compreendida na linguagem por falta de estruturação de inclusão. 

Quero falar de um quarto fator, que chamarei fator de equilibração. Do 
momento em que há três fatores, já é necessário que eles se equilibrem entre eles; 
mas ainda mais, no desenvolvimento intelectual, intervém um fator fundamental. 
É que uma descoberta, uma noção nova, uma afirmação, etc., devem se equilibrar 
com as outras. É necessário todo um jogo de regulação e de compensações para 
atingir uma coerência. Tomo a palavra “equilíbrio”, não num sentido estático, 
mas no sentido de uma equilibração progressiva, a equilibração sendo a compen- 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 353 


sação por reação do sujeito às perturbações exteriores, compensação que atinge a 
reversibilidade operatória, no fim desse desenvolvimento. 

A equilibração me parece o fator fundamental desse desenvolvimento. 
Compreendemos então, ao mesmo tempo a possibilidade de aceleração, e a 
impossibilidade de um aceleramento que ultrapasse certos limites. 

A possibilidade de aceleração é dada nos fatos que indiquei há pouco; mas 
teoricamente, se o desenvolvimento é antes de tudo negócio de equilibração, por- 
que um equilíbrio pode se regular mais ou menos rapidamente seguindo a ativi- 
dade do indivíduo, ele não é regulado automaticamente como um processo heredi- 
tário que seria sofrido do interior. 

Se comparamos aos jovens gregos do tempo em que Sócrates, Platão, Aristó- 
teles inventaram as operações formais ou proposicionais de nossa lógica ociden- 
tal, nossos jovens contemporâneos que devem assimilar, não somente a lógica das 
proposições, mas toda a aquisição de Descartes, Galileu, Newton, etc., é neces- 
sário fazer a hipótese de uma aceleração considerável durante a infância até o 
nível da adolescência. 

O equilíbrio leva tempo, naturalmente, mas a equilibração pode ser mais ou 
menos rápida. Não impede que essa aceleração não possa ser aumentada indefini- 
damente, e é nesse ponto que concluirei. Não creio mesmo que haja vantagem em 
acelerar o desenvolvimento da criança além de certos limites. Muita aceleração 
corre o risco de romper o equilíbrio. O ideal da educação não é aprender ao máxi- 
mo, maximalizar os resultados, mas é antes de tudo aprender a aprender; é apren- 
der a se desenvolver e aprender a continuar a se desenvolver depois da escola. 


NH 


Inconsciente afetivo e inconsciente cognitivo ! 


Abordarei nesse estudo os problemas do inconsciente e da consciência tais 
como os encontramos no estudo da inteligência, da representação e das funções 
cognitivas porque acredito que essas questões particulares relativas ao incons- 
ciente cognitivo são paralelas às que levanta em psicanálise o funcionamento do 
inconsciente afetivo. Minha finalidade não é naturalmente procurar introduzir al- 
guma novidade nas teorias psicanalíticas, nem criticá-las, porque, se sou um 
pouco herético nesse ponto de vista, esse não é o lugar de explicar por que sou 
assim. Em compensação estou persuadido que chegará o dia em que a psicologia 
das funções cognitivas e a psicanálise serão obrigadas a se fundir numa teoria 
geral que melhorará as duas corrigindo uma e outra, e é esse futuro, que é conve- 
niente prepararmos, mostrando desde agora as relações que podem existir entre as 
duas. 


O problema das estruturas 


A afetividade é caracterizada por suas composições energéticas, com cargas 
distribuídas sobre um objeto ou um outro (cathexis) segundo as ligações positivas 
ou negativas. O que caracteriza, pelo contrário, o aspecto cognitivo das condutas 
é sua estrutura, trate-se de esquemas de ações elementares, de operações concretas 
de classificação ou seriação, etc.; ou de lógica das proporções com suas diferentes 
“foncteurs ” (implicações, etc.). No caso dos processos afetivos, logo energéticos, 
o resultado ao qual eles atingem é relativamente consciente, quer dizer que se tra- 
duz por sentimentos que o indivíduo ressente mais ou menos claramente enquanto 
dados atuais. Em compensação o mecanismo íntimo desses processos permanece 
inconsciente, quer dizer que o indivíduo não conhece nem as razões de seus senti- 
mentos, nem sua fonte (logo toda ligação que têm com o passado do indivíduo), 
nem o porquê de sua intensidade mais ou menos forte ou fraca, nem suas ambiva- 
lências eventuais, etc. É então esse funcionamento íntimo e escondido das compo- 
sições energéticas que procura destacar a psicanálise, e, não serei eu quem lhes 
lembrarei como esse inconsciente afetivo é complexo pela riqueza de seu conteúdo 
e a complicação de seus encadeamentos dinâmicos. 

Em compensação, meu papel é o de assinalar que no caso das estruturas 
cognitivas, a situação é remarcavelmente comparada: consciência relativa (mas 


1 Conferência proferida em sessão plenária da Sociedade Americana de Psicanálise. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA Soa 


ela também muito pobre) do resultado, e inconsciência quase completa (ou inicial- 
mente completa) dos mecanismos íntimos conduzindo a esses resultados. Esses 
são mais ou menos conscientes, no sentido em que o indivíduo sabe mais ou 
menos o que pensa de um objeto ou de um problema e que conhece mais ou menos 
suas próprias opiniões e sua crenças, em particular na medida em que consegue 
formulá-las verbalmente a fim de comunicá-las a outra pessoa ou para se opor a 
Julgamentos diferentes. Mas isso só concerne aos resultados do funcionamento ín- 
timo da inteligência e ele permanece inteiramente desconhecido do indivíduo até 
níveis bem superiores onde a reflexão sobre esse problema das estruturas se torna 
possível. Até então o pensamento do indivíduo é dirigido por estruturas das quais 
ele ignora a existência e que determinam, não somente o que ele é capaz ou inca- 
paz de “fazer” (logo a extensão e os limites de seu poder de resolver problemas) 
mas ainda o que é “obrigado” a fazer (logo as ligações lógicas necessárias que se 
impõem a seu pensamento). Numa palavra, a estrutura cognitiva é o sistema das 
conexões que o indivíduo pode e deve utilizar e não se reduz absolutamente ao 
conteúdo de seu pensamento consciente, pois é o que lhe impõe certas formas 
mais do que outras, e isso segundo níveis sucessivos de desenvolvimento cuja 
fonte inconsciente remonta até às coordenações nervosas e orgânicas. 

O inconsciente cognitivo consiste assim num conjunto de estruturas e de 
funcionamentos ignorados pelo indivíduo, exceto em seus resultados e é pois por 
razões profundas que Binet enunciou outrora essa verdade com ares de um dito 
espirituoso: “O pensamento é uma atividade inconsciente do espírito”. Pelo que 
ele queria dizer que se o eu está consciente do conteúdo de seu pensamento, ele 
não sabe nada das razões estruturais e funcionais que o constrangeram a pensar 
de tal forma, dito de outra forma, do mecanismo íntimo que dirige o pensamento. 

O que sustento assim não é nada especial ao pensamento da criança e se 
encontra, não somente em todo adulto mas ainda durante o desenvolvimento do 
pensamento científico. É por isso que os matemáticos raciocinaram em todos os 
tempos obedecendo sem querer as leis de certas estruturas, das quais a mais exi- 
gente é a estrutura de “grupo” fácil de ver na obra Elementos de Euclides, por 
exemplo. Ora, eles não sabiam nada a respeito e foi justamente no começo do sé- 
culo XIX que Galois “tomou consciência” da existência de tal estrutura, atual- 
mente reconhecida por todos como sendo fundamental. Assim também Aristóteles 
criando a lógica por um esforço de reflexão sobre a maneira pela qual ele mesmo 
raciocinava, assim como seus contemporâneos, “tomou consciência” de algumas 
estruturas as mais simples da lógica das classes e do silogismo. Mas, o que é 
muito interessante ê que ele não tomou consciência na mesma ocasião, de todo 
um conjunto de estruturas que ele mesmo utilizava e que são as da “lógica das 
relações”: essa tomada de consciência só se efetuou no século XIX, com os traba- 
lhos de Morgan, etc. 

É evidente que ocorre assim no nível do pensamento científico, donde um dos 
objetivos é precisamente o estudo das estruturas; reencontraremos essa incons- 
ciência, mas muito mais sistematicamente, em todas as outras formas de pensa- 
mento: no caso do pensamento “natural” do adulto normal mas não especializado . 


356 PIAGET 


em ciências e a fortiori no caso do pensamento espontâneo e sempre criador que 
caracteriza a criança nos diferentes níveis de seu desenvolvimento. 

Contentemo-nos com um único exemplo na criança: o das estruturas de 
transitividade. Quando aos 5 ou 6 anos ainda, mostramos à criança duas varinhas 
A e Btais que 4 < B, depois em seguida a varinha B menor que C (logo B < C) 
e escondemos 4, a criança não consegue deduzir a relação 4 <C, pois ela não vê 
ao mesmo tempo 4 e €. Pelo contrário, entre 6 e 7 anos se constrói a estrutura de 
transitividade e se aplica então com sucesso em grande número de problemas dife- 
rentes, tanto de ordem causal quanto matemática ou lógica. Mas o indivíduo 
mesmo não sabe que construiu tal estrutura e acredita raciocinar da mesma 
maneira. Ele sabe ainda menos sobre o que se apóia essa estrutura (“agrupa- 
mento” de relações), nem como ou por que ela se tornou necessária para ele: 
numa palavra, ele tem consciência dos resultados que obtém, mas não dos meca- 
nismos íntimos que transformaram seu pensamento, as estruturas dele permane- 
cem inconscientes como estruturas. São esses mecanismos como estruturas que 
chamaremos globalmente o inconsciente cognitivo. 


A tomada de consciência da ação própria e os recalques cognitivos 


Examinemos agora algumas ações particulares do indivíduo, não mais como 
submetidas a estruturas subjacentes, mas como “conteúdos manifestos” (para 
empregar um termo freudiano) e que deveriam pois ser conscientes pois consti- 
tuem simplesmente um resultado do funcionamento escondido do espírito e não 
um setor desse funcionamento mesmo. Ora, constataremos que, nesse terreno 
ainda, se a “tomada de consciência” é em geral fácil, existem em compensação 
casos onde ela é oposta por um mecanismo inibidor que poderíamos comparar ao 
“recalque” afetivo (noção que é uma das grandes descobertas da psicanálise 
freudiana). 

Como exemplo de ação particular cuja tomada de consciência é fácil, pode- 
mos citar a que consiste em jogar um objeto numa caixa a certa distância: as 
menores crianças que podemos interrogar (aos 4 anos) dizem que se colocaram 
bem em frente da caixa e que se fossem obrigadas a ficar de lado, elas mesmas se 
virariam para ficar frente ao objeto. Vejamos agora o que se passa na experiência 
seguinte (e sem ter, naturalmente, feito as perguntas precedentes, o que exclui toda 
influência de sugestões eventuais): Damos à criança um estilingue da forma mais 
simples: uma bola presa num fio que rodamos com o braço para lançá-ia em 
seguida em direção ao objetivo. ? Começamos por não colocar nenhum objeto e a 
criança se diverte fazendo rodar a bola na extremidade do fio e lançando-a, cons- 
tatando que ela parte de lado (e vendo em geral que ela parte no prolongamento 
do sentido da rotação). Depois do que colocamos uma caixa a 30 ou 50 cm ea 
criança consegue rapidamente acertar (e frequentemente desde 5 anos), lança de- 
pois a bola de lado (aos 9 anos se considerarmos como um mostrador de relógio 


2 Pesquisa feita por Fluckiger. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 357 


a superfície de rotação, a caixa estando situada face às 12 horas). Feito isso, felici- 
tamos a criança, que recomeça várias vezes e perguntamos em que lugar lançou a 
bola. 

É então que se produz a reação curiosa. Os mais jovens pretendem ter lança- 
do a bola exatamente diante deles (6 horas) e que a bola partiu em linha reta, de 
6 horas a 12 horas (diâmetro do circulo de rotação) e de 12 horas na caixa. De- 
pois (aos 7-8 anos) a criança afirma que lançou a bola das 12 horas, quer dizer 
face à caixa. Aos 9-10 anos observamos frequentemente compromissos: a bola 
partiu das 11 horas ou 10 e 1/2, e somente aos 11-12 anos a criança responde 
imediatamente que a partida se efetuou às 9 horas, quer dizer que a bola partiu em 
tangente e não de frente ! Dito de outra forma, a criança sabe executar muito cedo 
a ação que tem êxito, mas são necessários vários anos antes que tome consciência, 
como se algum fator se opunha e mantinha no inconsciente alguns movimentos ou 
mesmo algumas partes intencionais da conduta, entretanto coroada de êxito. 

Ora, o fator de inibição é fácil de ser descoberto. A criança representa sua 
própria ação como repartida em dois tempos: “rodar” a bola, depois “lançá-la” 
na caixa enquanto sem esse objetvo ela lança o móvel em qualquer lugar. Mas, 
para ela, “lançar” alcançando o objetivo supõe um trajeto perpendicular à caixa, 
logo com partida bem em frente a ela. Quando lhe pedimos para descrever sua 
ação, ela a reconstitui logicamente em função dessa idéia preconcebida e não quer 
ver que na realidade procedeu de outra forma. Ela deforma assim ou afasta 
mesmo algo observável em função da idéia feita e que lhe parece correta. 

Poderíamos citar muitos outros exemplos análogos. Quando a criança conse- 
gue (por si mesma ou por imitação) projetar com um ou dois dedos uma bola de 
ping-pong num plano horizontal de forma que depois ela volte atrás, ela não quer 
ver que fez com que a bola voltasse desde a partida e acredita constatar que ela 
volta primeiramente para a frente, depois ela mesma muda de direção.? Ou ainda 
quando a criança empurra com uma varinha um objeto tocaido-o de lado, ela 
não vê que lhe imprime ao mesmo tempo movimentos de rotação e de translação. 
Etc: 

Para explicar essas lacunas ou as deformações da tomada de consciência, 
poderíamos ser tentados a recorrer a uma razão aparentemente clara: é que a 
criança nao “compreende” simplesmente o que faz e se limita então a só reter o 
que lhe parece inteligível. Mas acreditamos que essa interpretação permaneça 
insuficiente. Não é verdade que a criança não compreendeu nada de suas ações 
bem sucedidas (movimento de tangente da bola, rotação inversa da bola de 
pingue-pongue, etc.): ela compreendeu seu essencial, mas em ação e não pelo 
pensamento, logo por esquemas sensório-motores e não representativos. Dito de 
outra forma elas “sabem” lançar seus projéteis, etc., elas sabem devido a uma 
certa aprendizagem sensório-motora (e não de forma inata). 

Nesse caso, o problema continua: por que alguns esquemas sensório-motores 
se tornam conscientes (por uma tradução em conceitos representativos e mesmo 


3 Pesquisa feita por A. Papert-Chrystophider. 


358 PIAGET 


verbais), enquanto outros permanecem inconscientes? É porque esses últimos são 
contraditórios com certas idéias conscientes anteriores (por exemplo que é neces- 
sário estar frente a uma caixa para lançar a bola dentro dela, ou que uma bola não 
avança rodando erradamente, etc.) e que o esquema sensório-motor utilizado e a 
idéia preliminar anterior são pois incompatíveis. Nesse caso, o esquema não pode 
naturalmente estar integrado no sistema dos conceitos conscientes e é pois elimi- 
nado, pois esses conceitos, enquanto já conscientes e recebidos há muito tempo, 
são de uma posição superior ao esquema de ação. 

Encontramo-nos assim numa situação muito comparável à do recalque afeti- 
vo: quando um sentimento ou um impulso parecem estar em contradição com 
sentimentos ou tendências de posição superior (emanando do superego, etc.), eles 
são então eliminados graças a duas espécies de processos: uma repressão cons- 
ciente ou um recalque inconsciente. Ora, observamos aqui um mecanismo aná- 
logo no terreno cognitivo e é o recalque inconsciente que deve ser lembrado: com 
efeito, a criança não pensou primeiramente uma hipótese consciente para depois 
afastá-la. Ela afastou, pelo contrário, a tomada de consciência do esquema, quer 
dizer que ela repeliu o esquema do campo da consciência antes que ele penetrasse 
sob uma forma conceitualizada (e veremos em breve que não há outra possível, 
porque mesmo uma imagem mental se refere a um conceito). 

Esse mecanismo de recalque cognitivo é aliás, sem dúvida, mais geral do que 
no terreno da tomada de consciência da ação (logo, esquemas sensório-motores). 
No nível neurológico, Pribram mostrou, por exemplo, que ao contato de vários 
inputs, um mecanismo de regulação cortical retém uns que se tornam estímulos, e 
“afasta” os outros que não podem então agir. 


O mecanismo da tomada de consciência 


O senso comum forma uma idéia totalmente insuficiente (para não dizer 
errônea) da tomada de consciência, representando-a como uma espécie de modo 
de ver que projetaria esclarecimentos sobre realidades até então obscuras, mas 
sem nada mudar (assim como uma lanterna acesa num canto qualquer torna brus- 
camente tudo visível, sem modificar nada nas posições ou relações dos objetos). 
Ora, a tomada de consciência é muito mais do que isso, pois consiste em fazer 
passar alguns elementos de um plano inferior inconsciente a um plano superior 
consciente, e que esses dois estágios não possam ser idênticos, a não ser se não 
houvesse problema e a passagem fosse fácil, o que não é o caso. A tomada de 
consciência constitui pois uma reconstrução no plano superior do que já está 
organizado, mas de outra maneira, no plano inferior e as duas perguntas são então 
a da utilidade funcional dessa reconstrução e a de seu procedimento estrutural. 

Do ponto de vista da utilidade funcional, Claparede já tinha observado que 
a tomada de consciência se produz por ocasião de uma desadaptação, porque, 
quando uma conduta é bem adaptada e funciona sem dificuldades não há razão de 
procurar analisar conscientemente seus mecanismos. É assim que podemos descer 
rapidamente uma escada sem representarmos cada movimento das pernas ou dos 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 359 


pés ou se procurarmos fazê-lo corremos o risco mesmo de comprometer o sucesso 
da ação. Numa de nossas pesquisas, A. Papert fez com que crianças andassem de 
quatro, e pediu em seguida para elas descreverem os movimentos dos pés e das 
mãos: as crianças fizeram um modelo irrealizável (as duas mãos avançando ao 
mesmo tempo, depois os dois pês, etc.). Depois veio um modelo possível, mas não 
realizável (os dois membros da esquerda, depois os da direita, etc.), e aos 10-11 
anos os dois terços das crianças somente descrevem bem o que fizeram. Mme. 
Papert, antes de expor os resultados num dos simpósios, pediu a nossos honráveis 
convidados para se prestarem por um instante à experiência esquecendo sua digni- 
dade de adultos andando em geral somente sobre os dois pés: os físicos e os psicó- 
logos analisaram corretamente seus movimentos, mas os lógicos e os matemáticos 
os reconstruiram dedutivamente segundo o esquema realizado em segundo lugar. 

Ora, se uma ação bem adaptada não tem necessidade de tomada de consciên- 
cia, é porque ela é dirigida por regulações sensório-motoras suficientes, que 
podem então se automatizar. Pelo contrário, quando uma regulagem ativa se 
torna necessária, o que supõe escolhas intencionais entre duas ou várias possibili- 
dades, há tomada de consciência em função dessas necessidades mesmas e é o que 
vemos nos exemplos de pesquisas precedentemente citadas. 

Quanto ao procedimento estrutural, a reconstrução que constitui a tomada 
de consciência constitui numa conceitualização. O inconsciente cognitivo não 
comporta, com efeito, conceitos como representação e a idéia mesma de “repre- 
sentações inconscientes” me parece contraditória, apesar de ser corrente: o 
inconsciente é povoado de esquemas sensório-motores ou operatórios já organi- 
zados em estruturas, mas exprimindo o que o sujeito pode “fazer” e não o que ele 
pensa. Do ponto de vista afetivo, ele está mesmo provido de tendências, de encar- 
gos energéticos, logo de esquemas afetivos ou do caráter, etc. 

Dito isso, a reconstrução conceitualizada que caracteriza a tomada de cons- 
ciência pode ser de antemão suficiente, quando não é inibida por nenhuma contra- 
dição. Se não, ela é primeiramente deformante e lacunar, depois se completa 
pouco a pouco graças a novos sistemas conceituais permitindo ultrapassar contra- 
dições por integração dos dados nesses novos sistemas. 


Catarse e memória 


Esse processo da tomada de consciência cognitiva lembra o que os psicana- 
listas descreveram sob o nome de catarse, que é ao mesmo tempo uma tomada de 
consciência dos conflitos afetivos e uma reorganização permitindo ultrapassá-los. 
Não sou competente em psicanálise e quero, pois, permanecer prudente, mas pare- 
ce-me que a catarse é outra coisa que não um simples ponto de vista, senão não 
compreenderíamos sua ação terapêutica: ela é pois uma reintegração e um levan- 
tamento dos conflitos graças a uma nova organização. Mas donde ela vem? 

Erikson sustentou a esse respeito uma tese muito interessante: o presente afe- 
tivo é bem determinado, como mostrou Freud, pelo passado do indivíduo, mas o 
passado é ele mesmo incessantemente reestruturado pelo presente. Ora, isso é 
profundamente verdadeiro nos sistemas cognitivos e é porque a tomada de cons- 


360 PIAGET 


ciência é sempre em parte uma reorganização e não somente uma tradução ou 
uma evocação. 

Mas a tese de Erikson comporta então uma escolha entre as duas interpreta- 
ções possíveis da memória e, mais precisamente, a necessidade de adotar a segun- 
da. A primeira consiste em considerar as lembranças como armazenadas como 
tais (ou estocadas) no inconsciente, onde a evocação iria retirá-las voluntaria- 
mente sem que fossem entretanto modificadas ou reorganizadas. A segunda con- 
cepção volta, pelo contrário, a admitir que tóda operação da memória de evoca- 
ção comporta uma reorganização, dito de outra forma, que a memória trabalha 
como o historiador, que, apoiando-se em alguns documentos sempre incompletos, 
reconstitui o passado, em parte dedutivamente. 

Ora, a existência das falsas lembranças já basta para justificar essa segunda 
teoria, pois, se apresentam à consciência com as mesmas características de nitidez 
ou de realidade aparente que as lembranças exatas. Tenho, por exemplo, uma lem- 
brança visual muito precisa, muito detalhada e muito viva de ter sido objeto de 
uma tentativa de rapto, enquanto ainda era um bebê preso em seu carrinho de 
bebê: revejo uma série de detalhes precisos sobre o lugar da aventura, sobre a luta 
entre minha babá e o ladrão de crianças, sobre a chegada de pessoas e do policial, 
etc. Ora, quando tinha quinze anos, a babá escreveu a meus pais que toda essa 
história tinha sido inventada por ela e que essas marcas no rosto tinham sido 
fabricadas por ela mesma, etc. Dito de outra forma, devo por volta de 5 ou 6 anos 
ter escutado a narração desse rapto, na qual meus pais acreditavam, e, apoiando- 
me nessa narração, fabriquei uma lembrança visual que ainda dura até hoje. Tra- 
ta-se pois de uma reconstituição, se bem que falsa, e se o acontecimento tivesse 
sido real e a lembrança consequentemente verdadeira, é provável que tivesse 
reconstruído da mesma maneira, porque não existe ainda memória de evocação 
(mas somente de recognição) num bebê em seu carrinho. 

Procuramos pois analisar com B. Inhelder e H. Sinclair o mecanismo da 
memória durante o desenvolvimento da criança e encontramos fatos do seguinte 
gênero, que falam nitidamente em favor da reconstrução. Mostramos à criança 
uma série ordenada de dez regretas de grandezas decrescentes, que ela se limita a 
olhar um instante sem tê-las arrumado. Depois de uma semana, perguntamos o 
que ela viu e encontramos um certo número de níveis de lembranças: a) alguns 
bastões iguais; b) pares grande-pequeno, grande-pequeno, etc; c) trios grande-mé- 
dio-pequeno, etc,; d) séries corretas mas muito curtas e e) a série inteira. Já vemos 
aqui que o que foi registrado na lembrança não é o dado perceptivo e o objetivo, 
exceto em e, mas a idéia que faz o indivíduo desse dado. Ora, depois de seis meses, 
74% dos indivíduos apresentaram um ligeiro progresso em relação à lembrança 
precedente (e naturalmente sem que tenhamos mostrado novamente o modelo); al- 
guns indivíduos de a passaram para b, alguns de b para c, etc. Podemos pois 
admitir que a lembrança-imagem constitui simplesmente um símbolo represen- 
tando um esquema (aqui um esquema de seriação): ora, esse esquema, em seis 
meses, fez alguns progressos e o simbolo-imagem que o traduz é obrigado a se 
conformar com sua nova forma. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 361 


É evidente que toda lembrança não progride dessa maneira e que na maioria 
dos casos há degradação. Mas em todo caso observamos alguma esquematização 
e isso pode servir para levantar alguns conflitos cognitivos. Por exemplo numa fi- 
gura como 


WAP 


a criança percebe a igualdade numérica dos elementos superiores e inferiores (4 e 
4), donde conclui que o comprimento das linhas deveria ser o mesmo. Mas para 
ela as duas linhas de mesmo comprimento devem ter as mesmas extremidades: 
resulta então que na lembrança o W é frequentemente completado por novas li- 
nhas até que as duas extremidades coincidam. Esse é um exemplo a mais mos- 
trando a parte da reconstituição na memória. 

Todos esses fatos devem pois nos tornar prudentes na utilização das lem- 
branças de criança, porque se já no domínio cognitivo a memória é uma recons- 
trução mais ou menos adequada, é evidente que com a intervenção, de processos 
afetivos de toda natureza, conflitos, etc., sua reconstituição será tanto mais com- 
plexa. Todo um estudo comparado deveria pois ser organizado sobre as transfor- 
mações afetivas e cognitivas da lembrança. 


O problema dos estágios 


Uma série de estudos já foram empreendidos sobre as relações entre nossas 
análises do desenvolvimento cognitivo durante o período sensório-motor e os tra- 
balhos de Freud, inclusive os estágios que ele distinguiu no mesmo período. Lem- 
bro, por exemplo, as análises de D. Raport e o belo estudo de Wolf, assim como 
o apêndice de Cobliner à última obra de Spitz. * 

Mas, no que concerne aos estágios freudianos e aos meus, um resultado de 
uma certa importância foi obtido por Th. Gouin-Décarie, em Montreal, sobre as 
relações entre o desenvolvimento cognitivo do esquema do objeto permanente e a 
evolução das “relações objetais” no sentido freudiano do termo. Mostrei outrora 
que um objeto desaparecendo do campo perceptivo do bebê não é concebido 
como permanente e não é procurado atrás do pano onde acabou de desaparecer: 
ele é, por assim dizer, reabsorvido em vez de continuar a ocupar uma posição no 
espaço. No fim do primeiro ano, pelo contrário, ele começa a ser procurado em 
função dos deslocamentos sucessivos. Ora, Th. Gouin-Décarie pôde mostrar que 
essa nova reação estava em relação com a constituição das correspondências 
entre essas duas formas de desenvolvimento. Além disso, mostrei que o primeiro 
objeto dotado de permanência (cognitiva) era a pessoa do outro e não objeto ina- 
nimado qualquer e Th. Gouin verificou depois essa hipótese (que só repousava na 
observação de um único indivíduo). 


* René A. Spitz, De la Naissance à la Parole, Paris, P.U.F., 1968. 


362 PIAGET 


Outras correlações podem ser observadas entre os estágios cognitivos e afeti- 
vos. Por exemplo, aos 7-8 anos se desenvolvem relações novas de reciprocidade 
(no sentido lógico do termo), em conexão com a formação das operações reversií- 
veis. Ora, no domínio dos sentimentos morais, constatamos nesse mesmo nível um 
enfraquecimento dos efeitos do superego e da autoridade em proveito dos senti- 
mentos de justiça e de outros aspectos da reciprocidade moral ou afetiva. Assim 
também, no nível da adolescência, quando da inserção do indivíduo na vida social 
dos adultos, existem relações entre as transformações afetivas e cognitivas. 

Dessas múltiplas convergências, não poderíamos naturalmente concluir que 
são as construções cognitivas que engendram as modificações afetivas. Mas não 
acredito também que são elas que determinam as contruções cognitivas, como os 
psicanalistas poderiam estar tentados em crer de antemão (ver as antigas pesqui- 
sas de Odier a esse respeito). Certamente a afetividade ou sua privação podem ser 
a causa de aceleração ou atraso no desenvolvimento cognitivo e Spitz mostrou 
bem em análises célebres. Mas isso não significa que a afetividade engendre, nem 
mesmo modifique as estruturas cognitivas, cuja necessidade permanece intrínseca. 
De fato, os mecanismos afetivos e cognitivos permanecem sempre indissociáveis 
se bem que distintos, e isso é evidente se uns dependem de uma energética e outros 
de estruturas. 

Mas a conclusão de tudo isso é que ainda permanecem múltiplos problemas 
a serem resolvidos e que é conveniente pensar, desde agora, na fundação de uma 
psicologia geral versando simultaneamente sobre os mecanismos descobertos pela 
psicanálise e sobre os processos cognitivos, porque o gênero de comparação aos 
quais nos livramos no caso precedente, começa somente e parece rico de 
promessas. 


HI 


Os estágios do desenvolvimento intelectual 
da criança e do adolescente 


Os estágios das operações intelectuais constituem um caso privilegiado e que 
não podemos generalizar a outros domínios. Se tomamos, por exemplo, a evolu- 
ção da percepção na criança ou a evolução da linguagem, observamos uma conti- 
nuidade diferente da estabelecida no terreno das operações lógico-matemáticas, e 
muito maior. No domínio da percepção, em particular, seria incapaz de lhes dar 
um quadro de estágios como o que tenho a honra de lhes propor do ponto de 
vista das operações intelectuais, porque encontramos essa continuidade do ponto 
de vista orgânico, continuidade que podemos detalhar de uma maneira convencio- 
nal, mas que não apresenta cortes naturais bem nítidos. 

Em compensação, no domínio das operações intelectuais, assistimos a esse 
duplo fenômeno que, por um lado, vemos estruturas se formarem, podemos seguir 
passo a passo Os primeiros lineamentos, e que, por outro lado, assistimos a seu 
acabamento, quer dizer à constituição de etapas de equilíbrio. Tomem, por exem- 
plo, a organização dos números inteiros: podemos seguir essa estruturação a par- 
tir dos números 1, 2, 3, etc., até o momento em que a criança descobre a sucessão 
dos números e ao mesmo tempo as primeiras operações aritméticas. Num momen- 
to dado, tal estrutura é pois constituída e atinge sua etapa de equilíbrio; e esse 
equilíbrio é tão estável que os números inteiros não se modificarão mais durante 
toda a vida, integrando-se em sistemas mais complexos (números fracionários, 
etc.). Estamos assim frente a um domínio privilegiado no seio do qual podemos 
assistir à formação de estruturas e seu acabamento, onde diferentes estruturas 
podem se suceder ou se integrar segundo combinações múltiplas. 

Nesse domínio particular e, repito, sem colocar o problema da generalização, 
chamarei estágios os cortes que obedecem às seguintes características: 

1) Para que haja estágios, é necessário primeiramente que a ordem de suces- 
são das aquisições seja constante. Não a cronologia, mas a ordem de sucessão. 
Podemos caracterizar os estágios numa população dada por uma cronologia, mas 
essa cronologia é extremamente variável; ela depende da experiência anterior dos 
indivíduos, e não somente de sua maturação, e depende principalmente do meio 
social que pode acelerar ou retardar o aparecimento de um estágio, ou mesmo 
impedir sua manifestação. Encontramo-nos aí em presença de uma complexidade 
considerável e não saberia me pronunciar sobre o valor das idades médias de nos- 
sos estágios no que concerne a algumas populações. Só considero as idades relati- 
vas às populações sobre as quais trabalhamos; elas são pois extremamente relati- 


364 PIAGET 


vas. Em compensação, em se tratando de estágios, a ordem de sucessão das 
condutas deve ser considerada como constante, quer dizer que uma característica 
não aparecerá antes de outra num certo número de indivíduos, e, depois de outra 
num outro grupo de indivíduos. Onde assistimos a tais alternâncias, as caracteris- 
ticas em jogo não são utilizáveis do ponto de vista dos estágios. 

2) O caráter integrativo, quer dizer que as estruturas construídas numa idade 
dada se tornam parte integrante das estruturas da idade seguinte. Por exemplo, o 
objeto permanente que se constrói no nível sensório-motor será um elemento inte- 
grante das noções de conservação ulterior (quando haverá conservação de um 
conjunto ou de uma coleção, ou ainda de um objeto do qual deformamos a apa- 
rência espacial). Assim também as operações que chamaremos concretas, conti- 
tuirão uma parte integrante das operações formais, no sentido em que essas últi- 
mas constituirão uma nova estrutura mas repousando sobre as primeiras a título 
de conteúdo (as segundas constituindo assim operações efetuadas sobre outras 
operações). 

3) Procuramos sempre, com Mile. Inhelder, caracterizar um estágio, não pela 
justaposição de propriedades estranhas umas sobre as outras, mas por uma estru- 
tura de conjunto e essa noção toma um sentido preciso no domínio da inteli- 
gência, e mais preciso que em outra parte. Uma estrutura será, por exemplo, no 
nível das operações concretas, um agrupamento, com as características lógicas do 
agrupamento que encontramos na classificação ou na seriação. Mais tarde, a 
estrutura, no nível da operação formal, será o grupo das quatro transformações 
que falarei em breve, ou a rede. Estruturas que podemos caracterizar por suas leis 
de totalidade, de tal forma que, uma vez atingida tal estrutura, podemos determi- 
nar todas as operações que ela recobre. Sabemos assim, sendo dado que a criança 
atinge tal ou qual estrutura, que ela é capaz de uma multiplicidade de operações 
distintas, e às vezes sem nenhum parentesco visível entre elas na primeira aborda- 
gem. Esta é a vantagem da noção de estruturas: quando elas são complexas, elas 
permitem reduzir a uma unidade superior uma série de esquemas operatórios sem 
elos aparentes entre eles; é então a estrutura de conjunto como tal que é caracte- 
rística do estágio. 

4) Um estágio comporta pois ao mesmo tempo um nível de preparação, por 
um lado, e acabamento, por outro. Por exemplo, para as operações formais, o 
estágio de preparação será todo o período de 11 a 13-14 anos e o acabamento será 
a etapa de equilíbrio que aparece nesse momento. 

5) Mas como a preparação de aquisições ulteriores por versar sobre mais de 
um estágio (com imbricações diversas entre certas preparações mais curtas e ou- 
tras mais longas), e como em segundo lugar, existem graus diversos de estabili- 
dade nos acabamentos, é necessário distinguir, em toda a sucessão de estágios, os 
processos de formação ou de gênese e as formas de equilíbrio finais (no sentido 
relativo): essas últimas somente constituem as estruturas de conjunto tratadas no 
item 3, enquanto os processos formadores se apresentam sob os aspectos de 
diferenciações sucessivas de tais estruturas (diferenciação da estrutura anterior e 
preparação da seguinte). 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 365 


Gostaria, por fim, de insistir sobre a noção de decalagem, sobre a qual deve- 
remos voltar mais tarde porque ela tem por natureza fazer obstáculo à generali- 
zação dos estágios, e introduzir considerações de prudência e de limitação. As 
decalagens caracterizam a repetição ou a reprodução do mesmo processo forma- 
dor em diferentes idades. Distinguiremos as decalagens horizontais e as decala- 
gens verticais. 

Falaremos de decalagens horizontais quando uma mesma operação se aplica 
a conteúdos diferentes. No domínio das operações concretas, por exemplo, uma 
criança poderá organizar aos 7-8 anos séries de quantidades de matéria, dos 
comprimentos, etc.; ela saberá classificá-las, contá-las, medi-las, etc.; ela conse- 
guirá mesmo atingir noções de conservação relativa a esses mesmos conteúdos. 
Mas será incapaz de todas essas operações no domínio do peso, enquanto dois 
anos mais tarde em média, ela saberá generalizá-las aplicando-as a esse novo con- 
teúdo. Ora, do ponto de vista formal, as operações são as mesmas nos dois casos, 
mas aplicadas a domínios diferentes. Nesse caso, falaremos de decalagem hori- 
zontal no interior de um mesmo período. 

Uma decalagem vertical é, pelo contrário, a reconstrução de uma estrutura 
por meio de outras operações. O bebê atinge, por volta do fim do período sensó- 
rio-motor, ao que poderiamos chamar com H. Poincaré um “grupo de desloca- 
mentos”: ele saberá se orientar em seu apartamento com desvios e retornos, etc. 
Mas esse “grupo” é unicamente prático e absolutamente representativo. Quando, 
alguns anos mais tarde, tratar-se-á de representar (o próprio bebê) esses mesmos 
deslocamentos, quer dizer imaginâ-los, ou interiorizá-los, em operação, encontra- 
remos etapas análogas de formação, mas dessa vez sobre um outro plano, sobre o 
da representação. Trata-se então de outras operações e, nesse caso, falaremos de 
decalagem vertical. 

Dito isso, dividiremos o desenvolvimento intelectual em três grandes 
períodos. º 


O período da inteligência sensório-motor 


Esse primeiro período se estende do nascimento ao aparecimento da lingua- 
gem, seja aproximadamente durante os dois primeiros anos de existência. Nós o 
subdividimos em seis estágios: 

1) Exercícios reflexos: O a 1 mês. 

2) Primeiros hábitos: começo dos condicionamentos estáveis e reações circu- 
lares “primárias” (quer dizer relativas ao corpo próprio: por exemplo, chupar o 
polegar). De 1 a 4 meses e meio. 

3) Coordenação da visão e da preensão e começo das reações circulares 
“secundárias” (quer dizer relativas aos corpos manipulados). Começo de coorde- 
nação dos espaços qualitativos até então heterogêneos, mas sem busca dos objetos 


s Falaremos de “periodos” para designar grandes unidades, e “estágios” depois de “substágios” para descre- 
ver suas subdivisões. 


366 PIAGET 


desaparecidos; e começo de diferenciação entre fins e meios mas sem fins prelimi- 
nares quando da aquisição de uma conduta nova. De 4 meses e meio a 8-9 meses 
mais ou menos. 

4) Coordenação dos esquemas secundários com utilização, em certos casos, 
de meios conhecidos com vistas a atingir um objetivo novo (vários meios possi- 
veis para um mesmo objetivo e vários objetivos possíveis para um mesmo meio). 
Começo de pesquisa do objeto desaparecido mas sem coordenação dos desloca- 
mentos (e localizações) sucessivos. De 8-9 a 11-12 meses mais ou menos. 

5) Diferenciação dos esquemas de ação por reação circular “terciária” (va- 
riação das condições por exploração e tateamento dirigidos) e descoberta de 
meios novos. Exemplos: condutas do suporte (tirar um pano para trazer para si o 
objeto posto sob o pano, reação negativa se o objeto está do lado ou longe do 
suporte), do barbante ou do bastão (por tateio). Busca do objeto desaparecido 
com localização em função de deslocamentos sucessivos perceptíveis e começo de 
organização do “grupo prático dos deslocamentos” (desvios e retornos em ações). 
De 11-12 a 18 meses mais ou menos. 

6) Começo da interiorização dos esquemas e solução de alguns problemas 
com parada da ação e compreensão brusca. Exemplo: conduta do bastão quando 
não foi adquirida por tato durante o estágio 5. Generalização do grupo prático 
dos deslocamentos com incorporação, no sistema, de alguns deslocamentos não 
perceptíveis. De 18 a 24 meses mais ou menos. 

Esses seis estágios apresentam um caráter muito marcante se compararmos 
aos estágios do pensamento representativo ulterior, no sentido em que eles consti- 
tuem como uma prefiguração deles, seguindo o termo caro a nosso presidente 
Michotte (num sentido análogo à prefiguração do nocional, que ele fala frequente- 
mente a propósito da percepção). Com efeito, nesse plano prático, assistimos a 
uma organização dos movimentos e dos deslocamentos que, primeiramente cen- 
trados no corpo próprio, se descentralizam pouco a pouco e atingem um espaço 
no qual a criança se situa como um elemento entre outros (assim como num siste- 
ma de objetos permanentes compreendendo seu corpo assim como os outros). 
Vemos aí, um pouco e no plano prático, exatamente o mesmo processo de descen- 
tralização progressiva que encontraremos em seguida no nível representativo, em 
termos de operações mentais e não simplesmente ações. 


O período de preparação e de organização das operações 
concretas de classes, relações e número 


Chamaremos operações concretas as que se dirigem sobre objetos manipulá- 
veis (manipulações efetivas ou imediatamente imagináveis), por oposição às ope- 
rações se dirigindo sobre hipóteses ou enunciados simplesmente verbais (lógica 
das proposições). 

Esse período que se estende de 2 anos mais ou menos a 11-12 anos deve ser 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 367 


subdividido num subperíodo 4 de preparação funcional das operações, * mas de 
estrutura pré-operatória, e num subperíodo B de estruturação propriamente 
operatória. 


O subperíodo das representações pré-operatórias 


Esse subperíodo se subdivide ele mesmo em três estágios: 

1) De 2 a 31/2 ou 4 anos: aparecimento da função simbólica e começo da 
interiorização dos esquemas de ação em representações. — É desse estágio que 
temos menos informações sobre os processos de pensamento, porque não é possí- 
vel interrogar a criança antes de 4 anos numa conversa seguida: mas esse fato 
negativo é por si só um índice característico. Os fatos positivos são: 1) O apareci- 
mento da função simbólica sob suas diferentes formas: linguagem, jogo simbólico 
(ou de imaginação) em oposição aos jogos de exercício somente representados até 
então, imitação diferenciada e provavelmente começos da imagem mental conce- 
bida como imitação interiorizada; 2) Plano da representação nascente: dificul- 
dades de aplicação ao espaço não próximo e ao tempo não presente dos esquemas 
de objeto, de espaço, de tempo e de casualidade já utilizados na ação efetiva. 

2) De 4 a 5 anos 1/2: organizações representativas fundadas seja sobre confi- 
gurações estáticas, seja sobre uma assimilação à ação própria. — O caráter das 
primeiras estruturas representativas que revelam nesse nível as interrogações a 
respeito de objetos a serem manipulados é a dualidade dos estados e das transfor- 
mações: Os primeiros são pensados como configurações (cf. o papel das configu- 
rações perceptivas, das coleções figurais, etc., nesse nível de não-conservação dos 
conjuntos, das quantidades, etc.) e os segundos são assimilados a ações. 

3) De 5 1/2 a 7-8 anos: regulações representativas articuladas. — Fase inter- 
mediária entre a não conservação e a conservação. Começo de ligação entre os 
estados e as transformações, graças a regulações representativas permitindo pen- 
sá-las sob formas semi-reversíveis. (Exemplo: articulações crescentes das classifi- 
cações, das relações de ordem, etc.). 


O subperíodo das operações concretas 


É a etapa que se estende de 7-8 anos a 11-12 anos, e que é caracterizada por 
uma série de estruturas em vias de acabamento que podemos estudar de perto e 
analisar em sua forma. Elas se assemelham todas, no plano lógico, ao que chamei 
“agrupamento”, quer dizer que elas ainda não são “grupos” e também não são 
“redes” (são semi-redes, por falta de limites inferiores para umas ou limites supe- 
riores para outras): tais são as classificações, as seriações, as correspondências 
termo a termo, as correspondências simples ou seriais, as operações multiplica- 


s Se chamamos “operações” as ações interiorizadas, reversíveis e solidárias de estruturas de conjunto tais 


como os “agrupamentos”, “grupos”, e “redes”. 


368 PIAGET 


tivas (matrizes), etc) Acrescento nesse ponto, no plano aritmético, os grupos aditi- 
vos e multiplicativos os números inteiros e fracionários. 

Esse período das operações concretas pode ser subdividido em dois está- 
gios: um, das operações simples e o outro, do acabamento de certos sistemas de 
conjunto no domínio do espaço e do tempo, em particular. No domínio do espaço, 
é o período onde a criança atinge, aos 9-10 anos somente, os sistemas de coorde- 
nadas ou de referências (representação das verticais e das horizontais em relação 
a essas referências). É o nível da coordenação de conjunto das perspectivas igual- 
mente. É o nível que marca os sistemas mais amplos sobre o plano concreto. 


O período das operações formais 


Enfim, vem o terceiro e último período, o das operações formais. Nele, desde 
11-12 anos , por um lado (primeiro estágio) com uma etapa de equilíbrio para 13 
ou 14 anos (segundo estágio), assistimos a uma numerósa transformação, relativa- 
mente rápida no momento de seu aparecimento e que é extremamente diversa. São 
principalmente os belos estudos de Inhelder sobre o raciocínio indutivo, sobre o 
método experimental nas crianças e nos adolescentes que nos permitiram atingir 
essas conclusões. Vemos com efeito, nessa idade, aparecerem operações tão dife- 
rentes umas das outras como as seguintes. Primeiramente as operações combina- 
tórias; até então, há somente encaixes simples dos conjuntos, e das operações 
elementares, mas não há o que os matemáticos chamam “conjuntos de partes”, 
que são o ponto de partida dessas combinatórias. A combinação começa, pelo 
contrário, aos 11-12 anos e engendra a estrutura de “rede”. Nesse mesmo nível, 
vemos aparecerem as proporções, a capacidade de raciocinar e de se representar, 
segundo dois sistemas de referências ao mesmo tempo, as estruturas de equilíbrio 
mecânico, etc. Examinemos, por exemplo, os movimentos relativos de um caracol 
sobre uma prancheta que se deslocaráã em sentido inverso do caracol e o cálculo 
da resultante desses movimentos, um com relação ao outro e com relação a um 
sistema de referência exterior. Observamos em tal caso (e eles se encontram nos 
equilíbrios mecânicos, etc.) a intervenção de quatro operações coordenadas: uma 
operação direta (I) e seu inverso (N), mas também a operação direta e o inverso 
do outro sistema que constituem a recíproca do primeiro (R) e a negação dessa 
recíproca ou correlativa (NR = C). Esse grupo das quatro transformações INRC 
aparece numa série de domínios diferentes, nesses problemas lógico-matemáticos, 
mas também nos problemas de proporções independentemente mesmo dos conhe- 
cimentos escolares. 

E principalmente, o que vemos aparecer nesse último nível, é a lógica das 
proposições, a capacidade de raciocinar sobre enunciados, sobre hipóteses e não 
mais somente sobre objetos postos sobre a mesa ou imediatamente representados. 
Ora, a lógica das proposições supõe igualmente a rede combinatória e o grupo das 
quatro transformações (INRC), quer dizer, os dois aspectos complementares de 
uma nova estrutura de conjunto, abarcando a totalidade dos mecanismos operató- 
rios que vemos se constiruírem nesse nível. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 369 


Concluirei dizendo que esses três grandes períodos, com seus estágios parti- 
culares, constituem processos de equilibração sucessivos, marchas para o equili- 
brio. Desde que o equilíbrio seja atingido num ponto, a estrutura está integrada 
num novo sistema em formação, até um novo equilíbrio sempre mais estável e de 
campo sempre mais extenso. 

Ora, é conveniente lembrar que o equilíbrio significa que o desenvolvimento 
intelectual se caracteriza por uma reversibilidade crescente. A reversibilidade é o 
caráter mais aparente do ato da inteligência, que é capaz de desvios e retornos. 
Essa reversibilidade aumentada pois, regularmente, etapa por etapa, durante está- 
gios que acabei de escrever sumariamente. Ela se apresenta sob duas formas: uma 
que podemos chamar inversão, ou negação, que aparece na lógica das classes, a 
aritmética, etc., a outra que podíamos chamar a reciprocidade, que aparece nas 
operações de relação. Em todo o nível das operações concretas, a inversão por um 
lado e a reciprocidade pelo outro são dois processos caminhando lado a lado e 
paralelamente, mas sem junção num sistema único. Com o grupo das quatro 
transformações INRC, pelo contrário, temos a inversão, a recíproca, a negação 
da recíproca e a transformação idêntica, quer dizer, síntese num único sistema 
dessas duas formas de reversibilidades até então paralelas, mas sem conexão entre 
elas. - 

Nesse domínio privilegiado das operações intelectuais, atingimos logo um 
sistema simples e regular de estágios, mas ele é talvez particular a tal domínio da 
percepção, onde seria incapaz de fornecer tais estágios. 


IV 
As praxis na criança 


As praxis ou ações não são movimentos quaisquer, mas sistemas de movi- 
mentos coordenados em função de um resultado ou de uma intenção. Por exem- 
plo, o deslocamento do braço que intervem no ato de colocar ou de tirar o chapéu 
não é uma praxis, a praxis constituindo a ação em sua totalidade e não um movi- 
mento parcial interior a essa ação. As praxis são, por outro lado, adquiridas, por 
oposição às coordenações reflexas, essa aquisição podendo depender da expe- 
riência do indivíduo, da educação em sentido amplo (castigos, exemplos, etc.) mas 
também eventualmente de processos internos de equilibração que traduzem uma 
regulação ou uma estabilização adquiridas das coordenações. 

Assim caracterizadas, as praxis comportam duas formas possíveis de 
coordenações, a primeira sendo constantemente feita e a segunda podendo se 
superpor a ela ou derivar dela. Chamaremos a primeira coordenação interna: é a 
que reúne vários movimentos parciais num ato total, que alguns desses movimen- 
tos parciais tenham existido preliminarmente no estado isolado (o que não é a 
regra, mas pode se observar) ou que sejam de antemão coordenados, ou ainda que 
resultem de uma diferenciação progressiva durante coordenações graduais. Cha- 
maremos coordenações externas, as coordenações de duas ou várias praxis numa 
nova praxis total de ordem superior, as primeiras permanecendo suscetíveis de 
funcionar em estado separado. 

Os problemas psicológicos que se colocam então, e que encontram todos, di- 
reta ou indiretamente, os problemas clínicos da apraxia, podem se grupar sob três 
aspectos principais: 1.º Os do modo de coordenação (interna ou externa) próprio 
às apraxias, o que conduzirá entre outras a escolher entre modelos explicativos 
tais como os modelos associacionistas, as Gestalts ou o esquematismo assimila- 
dor; 2.º Os das relações entre as coordenações próprias das praxis e a inteligência; 
e 3.º Os das relações entre essas coordenações e a função simbólica, notadamente 
a imagem mental. Os problemas se subdividem eles mesmos em dois grupos. Nos 
níveis sensório-motores do desenvolvimento, quer dizer antes da linguagem, 
perguntaremos em particular se as coordenações práxicas são pouco a pouco diri- 
gidas por uma inteligência prática exterior a elas (seria necessário então procurar 
em que consiste essa inteligência) ou se, pelo contrário, a inteligência sensório- 
motora nada mais é do que a coordenação mesma das ações: os problemas (2) são 
unitários com os problemas (1) nesses niveis iniciais do desenvolvimento. Depois 
a constituição da função simbólica, os problemas (2) voltam, em compensação, a 
perguntar quais são as relações entre as praxis e o mecanismo fundamental da 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 371 


inteligência representativa, quer dizer o mecanismo das “operações”, sendo elas 
concebidas precisamente como ações de um certo gênero, mas ações interiori- 
zadas e se coordenando em estruturas bem definidas (estruturas lógico-mate- 
máticas, notadamente geométricas, etc.). Quanto aos problemas (3) eles são em 
parte independentes dos problemas (2) se admitirmos que os conhecimentos ou 
gnoses comportam dois aspectos distintos: o aspecto operativo ao qual acabamos 
de aludir, e o aspecto figurativo (percepção, imagem mental, etc.) intervindo, entre 
outros aspectos, na função simbólica no que concerne à elaboração dos signifi- 
cantes ou simbolizantes (por exemplo a imagem). 

Para tratar as três espécies de problemas, iremos primeiramente examinar os 
níveis sensório-motores, depois as relações entre as praxis e as operações da inteli- 
gência representativa e enfim as relações entre as praxis e as imagens mentais. 

Entre as condutas quase exclusivamente reflexas do recém-nascido (mas com 
controle cortical difuso sobre o qual insistiu Minkovski) e o aparecimento da lin- 
guagem ou da função simbólica se escalonam uma série de níveis cuja sucessão 
mesma já é instrutiva quanto aos modos de coordenação que caracterizam as pra- 
xis e quanto a suas relações com a inteligência. 

Desde o primeiro desses estágios, alguns reflexos complexos, como os da 
sucção, dão lugar a uma espécie de exercício e de consolidação interna devida a 
seu funcionamento, que anunciam a formação de “esquemas” no comportamento. 

Chamamos “esquemas” de uma ação a estrutura geral dessa ação, se conser- 
vando durante suas repetições, se consolidando pelo exercício e se aplicando a 
situações que variam em função das modificações do meio. A esse respeito os 
reflexos da sucção dão lugar a um esquema (o que não é o caso de todos os outros 
reflexos, mas somente alguns dentre eles), que se manifesta entre outro pela conso- 
lidação funcional da qual acabamos de falar, mas também por um certo número 
de generalizações (sugar no vazio, sugar qualquer objeto posto perto de seus lá- 
bios) e de recognições (encontrar o mamilo em caso de afastamentos leves e 
distingui-lo dos tegumentos circundantes, etc.). 

Desde um segundo estágio, a presença de tais esquemas permite algumas 
aquisições novas (novas em relação à estrutura hereditária de partida) graças à 
incorporação de elementos novos no circuito inicial: depois de ter sugado seu 
polegar quando de contatos fortuitos, o nenê se tornará, por exemplo, capaz de 
mantê-lo entre seus lábios, depois de dirigi-lo sistematicamente para sua boca, 
sugando-o no intervalo das mamadas. Já estamos assim em presença de uma 
praxis. 

Com o terceiro estágio, marcado pela coordenação da visão e da preensão, 
coordenação devida ela mesma, segundo Tournay, a uma mielinização do feixe 
piramidal, mas que requer, em maior parte, inegável exercício, ? a possibilidade de 
apreender assim intencionalmente os objetos aparecendo em seu campo visual 


7? Nas nossas três crianças, essa coordenação se constituiu em 6 meses, 4 1/2 meses e 3 meses e 3 dias, logo, 
com afastamentos consideráveis, mas em relação com todo o contexto de suas atividades. 


372 PIAGET 


próximo engendra a formação de uma série de novos esquemas. * Para não citar 
senão um, a criança pega entre outros um cordão caído de seu berço, o que sacode 
então o teto do berço com todos os objetos que tínhamos suspenso (bonecas de 
celulóide produzindo um som, etc.): pouco depois, o teto tendo sido liberado des- 
ses objetos, prendemos um outro e a criança, tendo acompanhado com o olhar 
esse fato, procura imediatamente o cordão e o puxa olhando novamente o objeto 
suspenso; na sucessão, o balanço de um objeto apresentado a 1-2 m do berço e 
mesmo a interrupção de apitos repetidos dão lugar à procura do cordão e à tração 


do cordão. 
Durante um quarto estágio, a criança não se limita mais a reproduzir as 


sequências descobertas por acaso (reações circulares), mas utiliza os esquemas 
assim descobertos coordenando-os entre eles, um desses esquemas designando um 
objetivo para a ação e um dos outros servindo de meio para atingir o fim. Ou 
ainda, em presença de um objeto novo, a criança lhe aplicará alternadamente (a tí- 
tulo de exploração) cada um dos esquemas conhecidos, como para determinar a 
significação prática ou o uso desse objeto, e ela o apreenderá para olhá-lo, sugá- 
lo, etc., ela o sacudirá, o esfregará contra o berço, baterá com uma mão, etc. Em 
suma, O estágio é caracterizado ao mesmo tempo por uma mobilidade crescente 
dos esquemas de ação e pelo aparecimento do que chamamos acima a coordena- 
ção externa entre praxis. 

Durante um quinto estágio (começo do segundo ano), as coordenações exter- 
nas são acompanhadas de uma diferenciação dos esquemas em função da expe- 
riência: por exemplo, atingir um objeto muito afastado tirando seu suporte (tapete, 
etc.) sobre o qual estava localizado, com variação em função das situações. Existe 
pois simultaneamente coordenação externa de esquemas podendo funcionar sepa- 
radamente e descoberta de meios novos para acomodação dos esquemas aos 
dados imprevistos da experiência. 

— Durante um sexto estágio, enfim, que coincide com as primeiras manifesta- 
ções da função simbólica, um começo de interiorização da coordenação externa 
entre os esquemas se manifesta sob a forma de insights ou de invenções de meios 
novos: por exemplo, uma de minhas crianças, para atingir um objeto localizado 
numa caixa de fósforos apenas entreaberta, começa por tatear de várias maneiras 
(condutas do quinto estágio), depois de uma pausa durante a qual ela observa 
atentamente a abertura muito pequena da caixa, ela enfia o dedo nessa fenda e 
resolve assim o problema. Ora, esse começo de interiorização das coordenações se 
acompanha às vezes de gestos simbólicos favorecendo a formação da represen- 
tação nascente: é assim que olhando a fenda que era necessária de ser aumentada, 
essa criança abriu e fechou a boca várias vezes, não porque o objeto tratado era 


* Começando pela preensão intencional mesma, bem distinta da preensão reflexa anterior pelo fato de que 
a preensão intencional comporta a possibilidade de “relaxar”, quer dizer de renunciar a pegar (não confundir 
com o esquema de aparecimento, muito mais tardio, de deixar cair intencionalmente um objeto das mãos). A 
diferença entre essa preensão intencional com possibilidade de não pegar é comparável, como observou J. De 
Ajuriaguerra, à exploração visual ativa (fixações e deslocamentos do olhar intencional) por oposição à 
vagueação e ao arrebatamento do olhar. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 373 


para ser comido (ela tinha visto que se tratava de um dado), mas verdadeiramente 
para simbolizar a solução procurada (aumentar a abertura). É 

Tais sendo as etapas de formação das praxis elementares próprias ao período 
sensório-motor do desenvolvimento, perguntemos agora em que consistem as 
coordenações que as caracterizam. 

É conveniente primeiramente observar que tal desenvolvimento não poderia 
ser reduzido a um modelo associacionista pela aprendizagem ou pelo condiciona- 
mento interpretados no sentido das associações. Com efeito, um esquema é mais 
do que uma simples “família hierárquica de hábitos” (no sentido de Hull) devida 
a associações cumulativas, porque uma aquisição nova não consiste somente em 
associar um novo estimulo ou uma nova resposta-movimento a estímulos ou a 
movimentos anteriores a, b e c: toda aquisição nova consiste em assimilar um ob- 
jeto ou uma situação a um esquema anterior aumentando assim esse esquema. Por 
exemplo, não basta para explicar o hábito de chupar o polegar dizer que um bebê 
“associou” o polegar a um movimento de sucção, porque o verdadeiro problema 
para um condicionamento é saber por que ele se estabiliza, enquanto é, como toda 
associação, de natureza simplesmente temporária. De fato, o estimulo “polegar” 
não desencadeia a resposta “sugar” a não ser que se revista de uma significação 
em função do esquema dessa resposta, quer dizer a não ser que seja assimilado 
como objeto a sugar. Os psicanalistas dirão mais simplesmente que é um símbolo 
do seio, mas essa simplicidade aparente consiste em dar ao sujeito um pouco 
precocemente a função simbólica que é muito complexa.? Contentemo-nos pois 
em dizer que está assimilado a um esquema da sucção, e procuremos precisar o 
sentido desses termos. 

A assimilação assim entendida é uma função muito geral se apresentando 
sob três formas indissociáveis: assimilação funcional ouu reprodutora, consis- 
tindo em repetir uma ação e em consolidá-la por isso mesmo; assimilação recog- 
nitiva consistindo em discriminar os objetos assimiláveis a um esquema dado; e 
assimilação generalizadora consistindo em estender o domínio desse esquema. A 
assimilação não é senão o prolongamento, no plano do comportamento, da assi- 
milação biológica no sentido largo, toda reação do organismo ao meio consis- 
tindo em assimilá-lo às estruturas desse organismo; assim como, quando um coe- 
lho come couve, ele não se transforma em couve mas pelo contrário a couve se 
transforma em coelho, assim também em toda ação ou praxis, O sujeito não é 
absorvido pelo objeto, mas o objeto é utilizado e “compreendido” como relativo 
as ações do sujeito. 

pois a assimilação que é a fonte dos esquemas, à parte os esquemas refle- 
xos e hereditários de partida que orientam as primeiras assimilações: a assimila- 
ção é o processo de integração cujo esquema é a resultante. É conveniente além, 
disso precisar que em toda ação, o motor qu o energético são naturalmente de 


* Poderíamos, é verdade, nos limitarmos a dizer polegar = prazer = seio. Mas isso volta exatamente ao que 
chamamos a assimilação do polegar ao esquema da sucção, toda assimilação sendo ao mesmo tempo cogni- 
tiva (utilização ou compreensão) e afetiva (satisfação). Ver a esse respeito duas alíneas abaixo. 


374 PIAGET 


natureza afetiva (necessidade e satisfação), enquanto a estrutura é de natureza 
cognitiva (o esquema como organização sensório-motora). Assimilar um objeto a 
um esquema é pois simultaneamente tender a satisfazer uma necessidade e confe- 
rir uma estrutura cognitiva à ação. 

Dito isso, o que chamamos coordenação interna dos esquemas não é senão 
o produto de assimilações cumulativas. Quanto às coordenações externas entre 
esquemas, trata-se então de assimilações recíprocas. Todo objeto podendo ser, por 
exemplo, para olhar (cf. reflexos óculo-cefalógiros) e para apreender, a coordena- 
ção da visão e da preensão comporta uma assimilação recíproca dos esquemas 
correspondentes, o objeto se tornando ao mesmo tempo para ser olhado e 
apreendido. 

Assim concebidos, os esquemas de assimilação não se confundem com as 
Gestalts, apesar de que um esquema possa em certos casos apresentar caracteres 
de Gestalt. Uma Gestalt é uma organização obedecendo a leis de compensação ou 
de equilíbrios intrínsecos e independentes da experiência adquirida: simetria, regu- 
laridade, simplicidade, etc. Um esquema pode pois obedecer a leis de Gestalt 
(movimentos simétricos dos braços, etc.). Mas a organização de um esquema é 
muito mais ampla e resulta ao mesmo tempo das atividades do indivíduo (que são 
função da utilização tanto quanto das leis de “boa forma”) e de sua experiência 
adquirida (acomodações aos objetos). As leis de compensação e de equilíbrio dos 
esquemas dependem pois das atividades como as do indiivíduo (compensar uma 
perturbação exterior para satisfazer uma necessidade, etc.) e não somente das leis 
geométricas supostamente preformadas. 

Dito isso, torna-se relativamente fácil resolver o problema das relações entre 
as praxis sensório-motoras e a inteligência (problema do qual depende em parte a 
interpretação das apraxias ideomotoras). Se verdadeiramente o modo de coorde- 
nação das ações é de natureza assimiladora e não simplesmente associativa, tor- 
na-se inútil subordinar as ações ou praxis a uma suposta “inteligência”, que seria 
exterior a elas, e consistiria então numa espécie de “faculdade” difícil de 
compreender a não ser a título de fato primeiro. Existe certamente uma inteli- 
gência sensório-motora, e desde o quarto de nossos estágios, a mobilidade e a 
coordenação externa dos esquemas conduzem a uma subordinação dos meios aos 
fins aos quais não poderíamos recusar o caráter dos atos de inteligência (e isso a 
fortiori com a descoberta dos meios novos do quinto estágio e com os insights do 
sexto). Mas essa inteligência nada mais é do que a coordenação mesma das ações 
e desde as coordenações mais elementares encontramos na assimilação uma espé- 
cie de esboço ou de prefiguração do julgamento: o bebê que descobre que um ob- 
jeto pode ser sugado, balançado ou puxado, se orienta para uma linha ininterrupta 
de assimilações que conduzem até às condutas superiores que usa o físico quando 
“assimila” (ele também !) o calor ao movimento ou uma balança a um sistema de 


trabalhos virtuais. 
É por isso que desde as praxis sensório-motoras se esboçam as subestruturas 


dos conhecimentos ulteriores. A busca dos objetos desaparecidos (por muito 


tempo impossível, depois se desenvolvendo progressivamente) conduz a um esque- 
ma da permanência dos objetos que é um ponto de partida das noções ulteriores 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 375 


de conservação. Os deslocamentos no espaço são pouco a pouco organizados 
num esquema que toma forma do que os geômetras chamam um “grupo de deslo- 
camentos” e esse esquema, já quase reversível'º ao quinto e sexto estágios, 
desempenhará um papel considerável na organização do espaço representativo, 
uma vez reconstruído no plano do pensamento pela interiorização das ações em 
operação. A causalidade, as séries temporais (ordem de sucessão, etc.) não são 
impostas de fora pela inteligência às praxis, mas se desenvolvem sob o efeito de 
suas coordenações e constituem as subestruturas das noções ulteriores de causa, 
de ordem, de tempo, etc. 

Examinemos agora as praxis da criança tais como se desenvolvem depois da 
constituição da função simbólica, e notadamente aquelas cujas perturbações 
correspondem ao que chamamos as “apraxias construtivas”. 

A função simbólica resulta de uma diferenciação entre os significantes e os 
significados (até então indiferenciados, como no caso dos índices perceptivos ou 
dos sinais de condicionamento). Os símbolos e os sinais, uma vez diferenciados de 
seus significados (ou significações), permitem então evocar objetos ou situações 
não atualmente percebidos, o que constitui o começo da representação. Os signifi- 
cantes, que se diferenciam assim entre 1 ou 1 1/2 e 2 anos, são para o que repre- 
senta os símbolos propriamente ditos: 1.º o jogo simbólico (representação de obje- 
tos e de ações pelos gestos, etc.) se dissociando do simples jogo de exercício 
funcional; 2.º a imitação diferenciada (com suas variedades múltiplas atingindo a 
imitação gráfica ou desenho); 3.º a imagem mental resultante sem dúvida de imi- 
tações interiorizadas. Na época onde se constituíam essas diversas categorias de 
simbolos há também aquisição (por imitação, etc.) dos sistemas de sinais sociais 
cujo principal é a linguagem. 

A função simbólica permite então ou pelo menos reforça consideravelmente 
essa interiorização das ações da qual constatamos os começos no sexto dos está- 
gios sensório-motores; além de seu desenvolvimento material e efetivo, as ações se 
tornam cada vez mais suscetíveis de ser executadas em pensamento ou simbolica- 
mente. Mas essa interiorização supõe uma reconstrução no plano do pensamento, 
que é grande e laboriosa: uma coisa é para a criança, por exemplo, coordenar seus 
deslocamentos num “grupo” permitindo se encontrar em seu jardim ou entre a 
casa e a escola, e outra coisa é poder representar esses deslocamentos em pensa- 
mento, respeitando as regras do grupo (retornos, desvios, etc.) e traçar os trajetos 
em desenho, falando ou simplesmente dispondo dos caminhos e das casas numa 
maqueta especialmente preparada: somente depois de 7-8 anos a representação 
encontra essa estrutura de “grupo” que já era feita na organização sensório- 
motora no quinto e no sexto estágios. 

Assim interpretada, a representação, ou pensamento representativo, com- 
porta dois aspectos diferentes que nos parece essencial distinguir bem, se quiser- 
mos precisar com que rigor a natureza do distúrbio psicológico intervém numa 
apraxia construtiva: o aspecto figurativo e o aspecto operativo. 

O aspecto figurativo do pensamento representativo é tudo o que se dirige às 


1º No sentido matemático da palavra e não neurológico. Um grupo comporta, com efeito, composições dire- 
tas, inversas (retornos), idênticas e associativas (desvios). 


376 PIAGET 


configurações como tais, em oposição às transformações. Guiado pela percepção 
e sustentado pela imagem mental, o aspecto figurativo da representação desempe- 
nha um papel preponderante (no sentido abusivamente preponderante e depen- 
dendo precisamente das transformações) no pensamento “pré-operatório” da 
criança de 2 a 7 anos, antes que se constituam as operações no sentido em que 
definiremos brevemente. É assim que quando transferimos um líquido de um reci- 
piente 4 para um recipiente B mais estreito e mais alto, a criança de 4-6 anos 
ainda imagina, em geral, que a quantidade do líquido aumenta porque o nível 
subiu: ela só raciocina assim nas configurações 4 e B comparando-as direta- 
mente, sem passar pelo sistema das transformações (que lhe forneceria as rela- 
ções: mais alto x mais fino = quantidade igual). Depois de 7-8 anos, pelo contrá- 
rio, ela acredita na conservação da quantidade do líquido porque raciocina sobre 
as transformações e as subordina às configurações. 

O aspecto operativo do pensamento é relativo às transformações e se dirige 
assim a tudo o que modifica o objeto, a partir da ação até às operações. Chama- 
mos operações as ações interiorizadas (ou interiorizáveis), reversíveis (no sentido 
de poderem se desenrolar nos dois sentidos e consequentemente de comportarem 
a possibilidade de uma ação inversa que anula o resultado da primeira) e se coor- 
denando em estruturas, ditas operatórias, que apresentam leis de composição 
caracterizando a estrutura em sua totalidade, como sistema. Por exemplo a adição 
é uma operação porque comporta um inverso (a subtração) e porque o sistema das 
adições e subtrações comporta leis de totalidade. '! As estruturas operatórias são, 
por exemplo, as classificações, seriações, correspondências, matrizes, a série dos 
números, as métricas espaciais, as transformações projetivas, etc. Um grande nú- 
mero de operações lógicas, matemáticas e físicas se desenvolve, na maior parte 
espontaneamente na criança desde 6-7 anos e são completadas desde 11-12 anos 
por operações proposicionais ou “formais” tornando possível a dedução hipotéti- 
co-dedutiva do adolescente. 

Se admitirmos essa distinção dos aspectos figurativo e operativo do pensa- 
mento, fica então imediatamente visível que as operações tiram sua fonte do 
esquematismo sensório-motor, mesmo se a função simbólica e a representação 
figurativa são necessárias à sua interiorização e à sua expressão. É necessário 
compreender, com efeito, que uma operação não é a representação de uma trans- 
formação: ela é, em si mesma, uma transformação de objeto, mas que pode ser 
executada simbolicamente, o que não é absolutamente a mesma coisa. Uma ope- 
ração permanece pois uma ação e não se reduz nem a uma figura, nem a um 
simbolo. 

Dito isso, o problema essencial da interpretação das praxis é o de dissociar 
o que diz respeito ao aspecto figurativo e às operações como tais, de maneira que, 
numa praxis, por exemplo construtiva, possamos diagnosticar o que depende da 
inteligência ou só depende da figuração simbólica. 

No que concerne em particular ao espaço e às desordens espaciais tão impor- 
tantes na apraxia, é conveniente antes de mais nada compreendgr que as relações 


1? Leis de “grupo”, etc. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA So. 


espaciais, simplesmente “dadas” em aparência entre os objetos exteriores, não se 
reduzem absolutamente, de fato, a puros sistemas de percepções ou de representa- 
ções imaginadas, mas comportam construções operatórias muito mais complexas 
do que parece. Por exemplo, se bem que existam posições verticais e horizontais 
visíveis por via postural e proprioceptiva, e, se bem que as direções possam ser 
estimadas visualmente em relação com a do olhar (lei de Donders), a previsão do 
nível horizontal da água num bocal inclinado só é accessível por volta de 9 anos 
na criança normal, porque supõe todo um sistema de referências, solidário de ope- 
rações métricas euclidianas, os eixos de coordenadas não podendo se constituir no 
plano representativo senão no fim da longa formação das operações de medida. 
Mesmo a conservação dos comprimentos e das distâncias, no caso de modificação 
na disposição dos objetos, só é adquirida em função de operações reversíveis e 
não é absolutamente dada por via simplesmente perceptiva ou pelo jogo das ima- 
gens mentais. É j 

É pois indispensável nos entregarmos a um diagnóstico preciso das opera- 
ções eventualmente em jogo, se desejarmos compreender detalhadamente os 
distúrbios numa praxis construtiva. É assim que nos desenhos de bicicletas tão 
sugestivos (e tão semelhantes aos de crianças de 5-6 anos) fornecidos por Hécaen, 
Ajuriaguerra e Massonnet no caso das lesões diretas, '? podemos nos perguntar 
em que medida as lacunas se devem as relações de causalidade, às séries tempo- 
rais, às representações espaciais enquanto figurativas, às relações topológicas (a 
cadeia “engloba” a roda dentada, etc.), à ausência de coordenadas no plano, etc. 
Quando nos dizem que “a cópia da figura complexa de Rey se revela muito defei- 
tuosa”, isso se deve à percepção, ao grafismo como tal ou às múltiplas operações 
espaciais que intervêm implicitamente no êxito dessa excelente prova global, mas 
que não pode servir para dissociar o aspeRiO operativo do aspecto figurativo dos 
processos em jogo? | 

É necessário agora acrescentar, para precisar as relações eventuais entre as 
operações e as praxis, que as operações passam, durante o desenvolvimento do 
pensamento, por três estágios sucessivos. Durante o primeiro estágio, entre 2 e 7-8 
anos, o pensamento permanece pré-operatório no sentido em que as operações se 
constroem pouco a pouco mas sem atingir a reversibilidade lógica, nem as estru- 
turas de conjunto adequadas e permanecendo dominadas pelo aspecto figurativo 
das representações. 

Durante um segundo estágio (de 7-8 a 11-12 anos) algumas operações são 
terminadas e se organizam em estruturas logicamente reversíveis. Mas (e isso é 
importante para o problema das praxis) as operações permanecem “concretas” no 
sentido em que são limitadas ao domínio da manipulação dos objetos e ainda não 
comportam manejo simplesmente verbal no plano hipotético-dedutivo. Por exem- 
plo, no que concerne à seriação, a criança de 7-8 anos consegue ordenar segundo 
suas grandezas crescentes uma sucessão de 10 pranchetas situadas entre 10 e 16,5 
cm e ordená-las segundo um método sem tateios (a menor de todas primeira- 
mente, depois a menor das que restam, etc.): esse é um bom exemplo de praxis de 


12 Ver Ajuriaguerra e Hécaen, Le Cortex Cérébral, 1960, 2.º ed., p. 270. 


378 PIAGET 


caráter operatório. A 9-10 anos também, ela saberá ordenar 4 ou 5 pesos distintos 
(com objetos de mesmo volume), o que constitui uma outra praxis operatória. Mas 
essas operações concretas não permitirão por si só resolverem o teste de Burt que 
repousa entretanto sobre as mesmas operações de seriação, mas sobre um plano 
hipotético-dedutivo: “Edith é mais loura que Suzana. Edith é mais morena que 
Lili. Qual delas é a mais morena?” Enfim, aos 11-12 anos se constituem as opera- 
ções proposicionais ou hipotético-dedutivas que podem funcionar além de qual- 
quer manipulação de objetos e não concernem mais às praxis. 

É além disso essencial observar que, além dos atos de inteligência proce- 
dendo por operações concretas e tendendo a resolver um problema de verdade (de 
solução “verdadeira” ou falsa), existe um conjunto muito considerável de atos de 
inteligência tendendo a resolver problemas propriamente práticos (cujas soluções 
se exprimem em “êxitos” ou “fracassos”). Tais são em particular as condutas 
estudadas por A. Rey em sua obra sobre a inteligência prática na criança 
(L intelligence pratique chez l'enfant)'* e por E. Bussmann em seu volume sobre 
a transferência na inteligência prática da criança (Le transfert dans Vintelligence 
pratique de l'enfant):** por exemplo retirar um objeto de um recipiente utilizando 
diversos tubos, etc., a título de intermediários (um primeiro estudo desse gênero 
foi fornecido outrora por dois psicólogos alemães, Lippmann e Bogen, Naive Phy- 
sik). Trata-se nesse caso de “praxis” no sentido mais restrito do termo, pois o fim 
dessas ações é de natureza principalmente utilitária (atingir um resultado mate- 
rial) e não mais cognitivo como nas condutas de classificação, seriação ou corres- 
pondência. Mas o interesse das pesquisas de Rey, Bussmann, etc., foi precisa- 
mente mostrar a estreita analogia entre os fracassos e os métodos eficazes da 
criança, e os processos do pensamento mesmo da criança nos níveis considerados. 
Uma das finalidades de Rey era controlar se encontrariamos no terreno da inteli- 
gência prática essa espécie de “pré-lógica” que assinalamos na criança no terreno 
verbal. Pudemos, no prefácio a essa obra de Rey, insistir sobre o paralelismo obti- 
do e poderíamos insistir muito mais atualmente, desde que não nos limitemos a 
utilizar métodos verbais e desde que evidenciemos o caráter tardio das operações 
“concretas”, quer dizer da lógica das manipulações de objetos. Por seu lado, 
nosso aluno E. Bussmann evidenciou nos contextos de inteligência prática as tran- 
sições que existem entre a assimilação sensório-motora e a generalização propria- 
mente lógica. Do ponto de vista da interpretação das variedades de apraxia, essa 
continuidade entre a inteligência prática e a inteligência propriamente cognitiva, 
se pudermos dizer (logo o sistema das operações lógico-matemáticas ou lógico-fi- 
sicas), nos parece instrutiva assinalando o parentesco das praxis e das gnosis, dito 
de outra forma, a unidade fundamental da ação e da inteligência sob seu aspecto 
operativo. 

Mas resta examinarmos o aspecto figurativo dos conhecimentos e das ações, 
notadamente os problemas da imagem e da simbologia gestual. 

As teorias clássicas da apraxia consideravam os atos como se apoiando 


'3 Paris, Alcan (P.U.F.). 
'4 Delachaux e Niestlé. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 379 


sobre imagens. A. A. Grinbaum, pelo contrário, interpreta as imagens como deri- 
vando dos atos. Do ponto de vista psicológico, Grúnbaum, incontestavelmente, 
tem razão e há muito tempo que os psicólogos (Lotze, Dilthey, etc.) mostraram 
que a imagem não constitui um simples prolongamento da percepção, mas que ela 
comporta um elemento motor (cf. os trabalhos de Morel e Schifferli, de Rey, etc.). 
Do ponto de vista eletroencefalográfico, Gastaut observa as mesmas ondas / 
quando da representação mental da flexão da mão que quando da flexão efetiva e 
Adrian fez observações semelhantes. Na eletromiografia, Jacobson, Allers e Sch- 
minsky observaram atividades periféricas leves (esboços de movimentos) quando 
da representação de movimento do braço paralelamente às atividades registradas 
quando do ato mesmo assim representado. Em suma, a imagem e o aspecto figu- 
rativo do pensamento derivam das atividades sensório-motoras assim como do 
aspecto operativo do pensamento e as operações mesmas. Logo, como conceber 
essa dupla filiação mantendo a distinção desses dois aspectos figurativo e opera- 
tivo de todo conhecimento? E 

Vimos acima que o mecanismo essencial da inteligência sensório-motora 
consistia numa assimilação esquematizante, e é dela que se prceaEm as opera- 
ções ulteriores do pensamento representativo. 

Mas um esquema de assimilação é incessantemente submetido às pressões 
das circunstâncias e pode se diferenciar em função dos objetos aos quais é é apli- 
cado. Chamaremos acomodação, 'º essa diferenciação em resposta à ação dos 
objetos sobre os esquemas, sincronizando com a assimilação dos objetos aos es- 
quemas. Pode então haver equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, tal 
sendo o resultado de um ato de inteligência. Mas pode também ocorrer uma pri- 
mazia da acomodação, e, nesse caso, a ação se modela sobre o objeto mesmo, 
por exemplo porque esse objeto se torna mais interessante que a utilização assimi- 
ladora que o sujeito poderia tirar dele. Essas condutas mais ou menos puramente 
acomodadoras constituem de fato o que chamamos a “imitação”, e podemos se- 
guir, estágio por estágio, os progressos dessa imitação nos níveis sensório-moto- 
res, em correlação estreita com os progressos da inteligência (ou equilíbrio entre 
a assimilação e a acomodação). 

Nossa hipótese é então que os aspectos figurativos do pensamento derivam 
da imitação e que é a imitação que assegura a passagem do sensório-motor, ao 
pensamento representativo preparando o simbolismo necessário ao pensamento 
representativo. Com efeito, por um lado, a imitação é a única nos níveis sensório- 
motores a constituir uma espécie de representação pelo gesto (bem distinta natu- 
ralmente da representação em pensamento que derivará dela em sua continua- 
ção). Por outro lado, o advento da função simbólica, quer dizer, como vimos, 
diferenciação dos significantes e dos significados, se deve precisamente aos pro- 
gressos da imitição, que se torna primeiramente suscetível de funcionar sob a 
forma “diferenciada” 'º (ora a imitação diferenciada já constitui uma verdadeira 


*8 Por analogia com o que os biólogos chamam “acomodados” quer dizer as variações fenotípicas distintas 
das características genotípicas. 

!8 Quer dizer funcionando desde seu começo na ausência do modelo (por oposição às pimitações começando 
na presença do modelo e continuando na sua ausência). 


380 PIAGET 


“representação”), que fornece aos jogos simbólicos (começando a 1 ano 1/2) toda 
sua simbólica gestual, e que, veremos agora, constitui o ponto de partida da ima- 
gem mental enquanto imitação interiorizada. 

Insistimos desde 1935! ? sobre esse papel de transição entre o sensório-motor 
e o representativo que desempenha a imitação, e H. Wallon retomou brilhante- 
mente essa idéia em De l'Acte à la Pensée, assinalando a importância do sistema 
postural e das atitudes na gênese da representação. Estamos pois de acordo com 
H. Wallon sobre esse ponto, mas pensamos que essa filiação só vale pelo aspecto 
figurativo do pensamento, enquanto o aspecto operativo (que constitui o caráter 
essencial dos atos de inteligência em oposição à sua expressão simbólica) pro- 
longa a motricidade como tal. 

Para retornarmos à imagem, propomos pois concebê-la como uma imitação 
interiorizada 'º e todas as pesquisas que pudemos fazer e ainda desenvolvemos 
sobre o desenvolvimento das imagens mentais na criança mostram como as ima- 
gens permanecem estáticas e curtas antes do acabamento das operações, e, como 
principalmente, elas permanecem subordinadas às operações em vez de prepará- 
las e dirigi-las. É surpreendente, por exemplo, constatar as dificuldades da crian- 
ça, nos níveis pré-operatórios, em imaginar as etapas da transformação de um 
arco (apresentado em fio de ferro) num tubo retilínio, ou a rotação de um tubo em 
torno de um centro de giro, ou de ultrapassamento progressivo de um tubo posto 
sobre outro, depois deslocado, ou de um cubo escorregando dentro de outro, etc., 
antes que fossem constituídas as operações espaciais com a conservação das gran- 
dezas durante os deslocamentos. 

Ora, essa dualidade da imagem e da operação parece-nos importante para o 
estudo da apraxia. Um dos testes clássicos da apraxia, que consiste em fazer simu- 
lar um ato transitivo sem a presença do objeto, se dirige à representação imitativa 
do ato e não sobre sua execução em situação operativa. Ora, se a representação 
imaginada do ato pode desempenhar um papel no aperfeiçoamento de sua execu- 
ção, é somente a partir de um certo nível e quando se trata de atos muito comple- 
xos para que sua antecipação seja necessária ao êxito, mas é fácil fornecer uma 
série de exemplos de atos corretamente executados pela criança enquanto sua 
representação é defeituosa. O exemplo mais marcável de representação suscetível 
de permitir uma antecipação precisa dos atos e mesmo de se substituir a eles é a 
intuição espacial dos geômetras que conseguem formar imagens com uma mobili- 
dade espantosa de todas as transformações possíveis de uma figura, enquanto os 
não-geômetras, que Platão proscrevia de sua República, só vêem algumas. Ora, 


1? La Naissance de Intelligence Chez VEnfant, p. 334-355, etc. 

'8 A primeira razão é de ordem genética: as condutas dos dezoito primeiros meses parecem testemunhar da 
ausência de imagens até o que poderíamos chamar a imagem representada (cf. o individuo que abre e fecha 
a boca antes de aumentar a abertura da caixaj e a imagem interiorizada. As outras razões são as seguintes: 
uma imagem sonora (evocar o som de uma palavra, uma melodia, etc.) se acompanha de um esboço de pro- 
dução, assim como a representação de um gesto. Uma imagem visual prolonga não a percepção como recep- 
tora, mas a atividade sensório-motora de exploração que imita o contorno do objeto: cf. as experiências de 
F. Morel e Schifferli sobre os movimentos oculares acompanhando a imagem e paralelas às que intervêm nas 
atividades perceptivas quando da apresentação mesma do objeto. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 381 


essa intuição geométrica, entretanto difundida até um certo grau em todo indivi- 
duo normal a partir do nível das operações concretas, permanece, como vimos há 
pouco, singularmente estática e inacabada antes desse nível. Nada é mais fácil, 
por exemplo, para a criança de 5 anos, que fazer rodar de 90º um tubo vertical até 
sua posição horizontal (uma extremidade estando fixa): entretanto o desenho da 
criança não fornecerá senão as duas posições extremas com incapacidade de se 
representar as posições oblíquas intermediárias. Assim também, uma criança de 
4-5 anos fazendo todos os dias sozinha o mesmo trajeto de sua casa à escola e a 
volta sentirá uma dificuldade sistemática em reproduzir esse trajeto (mesmo nas 
grandes linhas) sobre uma maquete e se contentará com lembranças motoras 
(“vou assim, depois dou uma volta, etc.”), indicando por gestos movimentos retili- 
neos, voltas bruscas, etc., mas sem evocações dos pontos de referência. nem do 
trajeto como tal. 

De uma maneira geral, as imagens espaciais estão pois sob a dependência 
das ações e operações, e não o inverso, e a intuição geométrica do matemático só 
é uma imitação interior das operações que ele é capaz de efetuar segundo uma ló- 
gica cada vez mais refinada. Sem dúvida alguns atos supõem em quase todos os 
níveis uma antecipação com formação de imagem, por exemplo, de desenho 
(orientado pelo “modelo interno” de Luquet). Mas são atos figurativos, se pode- 
mos dizer (o desenho é uma imitação gráfica encontrando na imitação em geral) 
e a regra não nos parece ser válida para os atos operativos ( = transformação e 
não reprodução de um objeto). 

Quanto ao esquema corporal, infelizmente não fizemos pesquisas a esse res- 
peito e não poderíamos, pois, nos pronunciar sobre o papel da imagem nas ações 
exercidas sobre o corpo próprio. Mas que esse papel se revele necessário ou não, 
seria necessário nos perguntarmos até que ponto a construção desse esquema não 
é precisamente solidária da imitação mesma, que estudamos em compensação no 
que concerne aos dezoito primeiros meses "º (em continuação aos belos trabalhos 
de P. Guillaume sobre o caráter “apreendido” e não inato dessa imitação). Por 
exemplo, durante muito tempo, a criança não conhece seu rosto a não ser pelo 
tato e não o corresponde com o rosto percebido visualmente sobre outra pessoa: 
o bocejo, entre outros aspectos, não tem nada de contagioso até quase um ano (se 
o experimentador boceja sem barulho!). Os erros cometidos são ainda mais 
instrutivos que os êxitos: ao modelo consistindo em abrir e fechar os olhos, a 
criança responderá, entre outros, abrindo e fechando a boca, etc. Ora, se o esque- 
ma corporal se construia, por um lado, em função da imitação, as relações entre 
a imagem (ou imitação interiorizada) e o ato levantariam um problema particular 
nesse domínio delimitado, que estaria assim a meio caminho entre as situações 
operativas (como a intuição do espaço dos objetos) e as situações figurativas 
(como o desenho). 

Para dizer a verdade, nada é mais equívoco ainda que a noção do esquema 
corporal, apesar dos belos trabalhos de Head, Bartlett, Pick, Schilder, Conrad e 


*º J. Piaget, La Formation du Svmbole Chez VEnfant, ed. Delachause e Niestlé. 


382 PIAGET 


muitos outros. Hécaen e Ajuriaguerra, em conclusão à sua excelente obra sobre 
Méconnaissances et hallucinations corporelles (Masson, 1952), focalizam muito 
hem o estado atual da questão, mas, o que ressalta mais claro é a ausência de um 
estudo genético um pouco sistemático, apesar dos trabalhos de Wallon, Zazzo, 
Lezine, etc. Logo, no momento, só poderíamos concluir com Schilder: se a soma- 
tognosia comporta um conjunto de dados perceptivos, em particular propriocep- 
tivos, ela supõe principalmente um quadro espacial integrando num todo funcio- 
nal nossas percepções, nossas posturas e nossos gestos. É então extremamente 
provável que nesse quadro se integrem não somente as contribuições do corpo 
próprio, mas também essa referência quase constantemente indispensável que é o 
conhecimento visual, auditivo e em parte, tátil-cinestésico (como durante a apren- 
dizagem da imitação) do corpo do outro e do que existe de comum em todos os 
corpos humanos (e talvez mesmo animais). É por isso que, no estado fragmentário 
atual dos conhecimentos, seríamos levados a acreditar que a somatognosia se ins- 
creve entre os esquemas sensório-motores elementares (que comportam o conheci- 
mento das mãos, etc., mas não do corpo inteiro) e as condutas simbólicas propria- 
mente figurativas (imagens, etc.) e não requer, a titulo de instrumento figurativo 
ainda não representativo ou simbólico, senão a imitação mesma cujo papel é 
precisamente o de assegurar a ligação entre o corpo próprio e o corpo do outro. 

Restaria aliás para precisar até onde é conveniente se estender a noção de um 
conhecimento do corpo. Mas se vamos incluir até as relações de esquerda e de 
direita e sua aplicação no corpo do outro assim como no corpo próprio (cf. as 
provas de Head e nossos resultados anteriores sobre a dificuldade, antes de 7 
anos, de mostrar a mão esquerda e a mão direita do experimentador sentado em 
face da criança), seria conveniente lembrar que mesmo essas espécies de relações, 
comportando um aspecto operatório e lógico, se inscrevem no quadro das recipro- 
cidades cujo ponto de partida é novamente fornecido pela imitação (no sentido 
único ou mútuo). 

Se esperam de nós uma conclusão, talvez pudéssemos fechar essa exposição 
procurando os pontos de contato entre tal estudo das praxis e a análise das apra- 
xias. Ajuriaguerra e Hécaen propõem uma nova classificação das apraxias, repou- 
sando sobre a seguinte trilogia: 

1.º As apraxias sensório-cinéticas, caracterizadas por uma alteração da sín- 
tese sensório-motora com desautomatização do gesto, mas sem distúrbios da 
representação do ato. 

2.º As apractognosias somato-espaciais caracterizadas por uma desorgani- 
zação espacial das relações entre o corpo e os objetos exteriores, sem distúrbios 
propriamente sensório-motores. Tratar-se-á pois de distúrbios de somatognosia 
acarretando desadaptações do gesto, inclusive as perturbações das relações 
esquerda-direita, algumas apraxias de hábitos, etc. Acrescentem-se frequente- 
mente alterações perceptivo-motoras visuais mas sem que isso signifique necessa- 
riamente distúrbios perceptivos primários. 

3.º As apraxias de formulação simbólica com desorganização de atividade 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 383 


simbólica e de categoria (indo da agnosia de utilização até os distúrbios 
frequentes da formulação verbal). 

Comparando esse quadro com o que vimos das praxis normais, constatamos 
imediatamente algumas concordâncias, mas também o fato de que subsiste uma 
questão e mesmo muito central. 

As convergências consistem no que essas três categorias de apraxias corres- 
pondem a três etapas genéricas: as apraxias sensório-cinéticas na etapa sensório- 
motora; as apraxias somato-espaciais, numa etapa intermediária entre as condu- 
tas sensório-motoras elementares e as condutas tornadas possíveis pela função 
simbólica, etapa intermediária da qual acabamos de propor procurar o ponto de 
partida nas condutas de imitação; as apraxias de formulação simbólica, enfim, na 
etapa caracterizada pelas representações, sob seu duplo aspecto figurativo e 
operativo. 

Mas a questão que subsiste é então relativa precisamente a esse duplo aspec- 
to do pensamento representativo: as apraxias de formulação simbólica resultam 
de alterações das operações como tais ou somente da simbólica gestual, de ima- 
gem ou mesmo verbal, servindo para representá-las? Não gostamos do termo de 
“categorial” utilizado por Gelb e Galdstein, Wallon, etc., para designar os qua- 
dros nacionais ou conceituais que correspondem aos quadros verbais, porque 
nessa linguagem “a atividade simbólica e categorial”, como se diz facilmente, pa- 
rece só constituir uma única e mesma “atividade”, da qual, na realidade, o único 
caráter “ativo” seria permitir a abstração! Certamente é concebível que seja 
assim, mas nosso esforço consiste em duvidar de tal unidade. Pensar não se reduz, 
acreditamos, em falar, classificar em categorias, nem mesmo abstrair. Pensar é 
agir sobre o objeto e transformá-lo. Num defeito de um carro, compreender a 
situação não consiste em descrever os defeitos observáveis do motor, mas em 
saber desmontá-lo e remontá-lo. Na presença de um fenômeno físico, a compreen- 
são só começa transformando os dados para dissociar os fatores e fazê-los variar 
separadamente, o que consiste não em categorizar, mas em agir para produzir e 
para reproduzir.?º Mesmo em geometria pura, o saber não consiste em descrever 
figuras, mas em transformá-las até poder reduzi-las em “grupos fundamentais” de 
transformações. Numa palavra, “no começo era a ação”, como dizia Goethe, e 
depois veio a operação ! Restaria pois, parece-me, estabelecer com cuidado em 
que medida as apraxias construtivas, as apraxias ideatórias, e em geral as “apra- 
xias de formulação simbólica” só concernem ao simbolizante, quer dizer, a repre- 
sentação do gesto, o desenho, a imagem ou mesmo a linguagem, ou se elas se diri- 
gem ao simbolizado mesmo, quer dizer, às ações e às operações. 


20º Para atingir o “modo de produção dos fenômenos” apesar da interdição pronunciada por Augusto Comte 
sobre essa fórmula. 


Percepção, aprendizagem e empirismo 


A finalidade do Centro de epistemologia genética de Genebra é procurar 
controlar por métodos psico-genéticos (ou ainda por métodos mais teóricos que 
experimentais mas completando diretamente a pesquisa psicológica)?! um certo 
número de hipóteses epistemológicas verificáveis no terreno dos fatos. A esse res- 
peito, seria importante, entre outros aspectos, sentir a validade das interpretações 
do empirismo sobre os dois terrenos privilegiados que ele invoca classicamente 
para sua justificação: o da percepção, que é considerado como nos fornecendo um 
conhecimento “imediato” da realidade exterior; e o da aprendizagem, processo 
considerado como conduzindo a uma aquisição dos conhecimentos em função da 
experiência somente. São nossos resultados relativos a esses dois pontos que gos- 
taria de resumir aqui brevemente. 

O problema geral que nos colocamos durante nossos dois primeiros anos de 
estudos pode se enunciar como se segue. Do ponto de vista do empirismo, e parti- 
cularmente de sua forma rejuvenescida e contemporânea que é o “empirismo lógi- 
co”, existem duas formas de conhecimentos: a) conhecimentos empíricos forneci- 
dos pela experiência (percepção e aprendizagem) independentemente de qualquer 
lógica e anteriormente às coordenações lógico-matemáticas; b) conhecimentos 
lógico-matemáticos consistindo em coordenações muito tardias e ligadas em par- 
ticular ao uso da linguagem. As hipóteses que nos propomos a verificar voltam, 
pelo contrário, a admitir a) que em todos os níveis (inclusive a percepção e a 
aprendizagem) a aquisição dos conhecimentos supõe o uso de atividades do sujei- 
to sob formas que preparam a graus diversos as estruturas lógicas; e que b) as 
estruturas lógicas já se devem pois à coordenação das ações mesmas e são assim 
esboçadas desde os funcionamentos dos instrumentos mais elementares servindo à 
formação dos conhecimentos. 

Uma primeira maneira de circunscrever tal problema, no campo da percep- 
ção, consiste em procurar se existem constatações puras, sob a forma de um sim- 
ples registro dos dados perceptivos, ou, se, desde a percepção mais elementar, a 
constatação se apresenta sob a forma de um composto de registros e de 
inferências. 

O problema não é novo, pois, desde os começos da psicologia experimental, 
Helmholtz fazia intervir na percepção um jogo de quase-inferências, contradito 


21 Por exemplo a teoria da informação ou a teoria dos graphes, utilizadas respectivamente nos fasc. le VI 
de nossos Etudes d 'Epistémologie Génétique, Paris, P.U.F., 1958. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 385 


nesse aspecto por Hering em nome de um fisiologismo supostamente mais exigen- 
te. Ora, assistimos hoje em dia a uma volta a Helmholtz, notadamente na psicolo- 
gia americana com o new look de Krech, Portmann, Bruner,?? etc., com a tran- 
saction theory de Ittelson e Kantril, etc. Observando-se especialmente a maneira 
pela qual W. P. Tanner e seus colaboradores da Universidade de Michigan pude- 
ram renovar a teoria dos limites perceptivos recorrendo à teoria estatística da 
decisão: o dado sensorial não seria, segundo esses autores, jamais registrado no 
estado puro, mas em ligação com “barulhos” relativos ao contexto físico e fisioló- 
gico, de tal forma que para perceber sua existência no nível do limite, tratar-se-ia 
de dissociar o excitante do “barulho”, logo de se “decidir” com os riscos que isso 
comporta em termos de ganhos e perdas de informação, e assim de se dedicar a 
uma pré-inferência indutiva. 

Mas é no terreno genético que procuramos evidenciar o papel das pré-infe- 
rências perceptivas. Apresentamos, por exemplo, a uma criança,?º durante um es- 
paço de tempo curto, duas fileiras paralelas de quatro fichas, uma fileira estando 
mais espaçada que a outra: a criança terá então a impressão que a fileira maior é 
mais numerosa. Em seguida lhe mostramos as duas mesmas fileiras, mas tais que 
os elementos de uma estejam ligados aos da outra por traços introduzindo assim 
uma ligação material de caráter seja biunivoco (I), ou não o seja (II): nesse último 
caso, o primeiro elemento da primeira fileira é ligado por dois traços a dois ele- 
mentos distintos da segunda fileira, o segundo e o terceiro elementos da primeira 
fileira estão ligados por um único traço aos elementos 3 e 4 da segunda e o ele- 
mento 4 da primeira permanece sem ligação. As crianças menores não possuindo 
o esquema da correspondência biunívoca, percebem uma desigualdade de fichas 
na figura provida de traços (T) como na figura sem traços. Num segundo nível de 
desenvolvimento, a criança percebe, pelo contrário, a igualdade em I (mas não a 
percebe sem os traços); ela a percebe também em II, se contentando então com 
uma ligação global e não mais biunívoca. Num terceiro nível, ela percebe a igual- 
dade em I, mas não em II. Num quarto nível, ela a percebe novamente em II, 
dissociando então a percepção das fichas da percepção dos traços. Tal expe- 
riência mostra pois que os mesmos dados materiais (fig. I e II) são percebidos 
diferentemente segundo os esquemas que o indivíduo dispõe. A aplicação desses 
esquemas ao dado atual supõe então a intervenção de elementos não atuais na 
percepção e por conseguinte em inferências (digamos mais certamente em pré-in- 
ferências inconscientes) a partir desses elementos, pré-inferências necessárias para 
conferir alguma significação aos dados atuais. 

Em tais casos não poderíamos pois dissociar a constatação da inferência, o 
problema de suas relações se colocando assim no interior mesmo da percepção e 
não, como imaginamos geralmente, nas fronteiras da percepção (concebida como 


22 VerJ. Brunet, Les processus de Préparation à la Perception, in Logigue et Perception, fasc. VI dos Etudes 
d'Epistémologie Génétique, Paris, P.U.F. 1958. 

23 Ver para essa experiência, assim como para outras análogas, J. Piaget c A. Morf, cap. II de Logique et 
Perception, fasc. VI dos Études. 


386 PIAGET 


o protótipo da constatação) e a interpretação racional (concebida como única 
sede dos processos inferenciais). 

A representação conceitual é, ela mesma, suscetível de modificar um pro- 
cesso perceptivo no mesmo sentido pré-inferencial? F. Bresson imaginou, em 
nosso Centro, uma engenhosa experiência consistindo em apresentar aos indivi- 
duos uma figura mascarada em sua parte superior e podendo corresponder aos 
números 1 ou 7, de tal forma que somente a inclinação atribuída à barra principal 
permite decidir se se trata de um 1 ou de um 7. O indivíduo percebe o número no 
fim de uma sequência de duplas (tal como 65, 66 e 67) podendo conduzi-lo a ante- 
cipar seja um 1, seja um 7, e a percepção se traduz, não somente por uma leitura 
verbal, mas ainda por uma reação de ajustamento permitindo reproduzir num 
dispositivo apropriado a inclinação da barra principal. Ora, aqui ainda, a percep- 
ção se revelou modificável em função das inferências do indivíduo.” * Bresson 
construiu a esse respeito um belo esquema probabilista dessa forma de aprendi- 
zagem perceptiva que consiste em discriminar sempre mais agudamente os esti- 
mulos dos conjuntos vizinhos graças a um número crescente de índices: fundado 
sobre a teoria da informação e sobre os códigos de Hamming, o esquema de Bres- 
son fornece um modelo muito sugestivo das ligações entre a percepção e a lógica 
(das classes, relações e inferências) no seio dessa variedade essencial da adapta- 
ção perceptiva.? * 

De maneira mais geral, o autor dessa nota, com a colaboração de A. Morf, 
procurou destacar os isomorfismos parciais entre as estruturas perceptivas e as 
estruturas de classes, de relações e de inferência, 2º para tirar sua conclusão não 
naturalmente que a lógica seria preformada na percepção, mas que a percepção 
não poderia funcionar sem a intervenção de um esquematismo sensório-motor 
solidário da ação inteira e que estaria então ele mesmo no ponto de partida das 
estruturas lógicas ulteriores. A percepção como tal não poderia, com efeito, pres- 
tar contas da formação de nenhuma noção lógico-matemática (nem mesmo de 
nenhuma noção física, porque toda noção supõe, para se elaborar, a intervenção 
de um quadro lógico-matemático). Em compensação, toda percepção, sem dúvida 
mesmo no nível dos efeitos de campo os mais elementares, é estruturada por ativi- 
dades sensório-motoras mais amplas que ela e cujas coordenações preparam as 
estruturas lógicas. 

Assim também, o autor dessas linhas, focalizando uma idéia que ele desen- 
volve há muito tempo, procurou mostrar 2? que em todos os campos (percepção 
e “associação””) onde o sujeito adquire algum conhecimento por leitura da expe- 
riência, essa “leitura” não consiste em registros cumulativos, mas em “assimila- 
ções”, quer dizer, em incorporações do dado a esquemas se organizando graças às 
atividades do sujeito tanto quanto às propriedades do objeto. É assim que nos 


24 F. Bresson. cap. V de Logique et Perception. 

25 Id. Perception et Indice Perceptifs, cap. IV de Logique et Perception. 

28 3. Piapete À. Mori. cap. 1 de Logique et Perception. 

27 J. Piaget, Assimilation et Connaissance, cap. III de La Lecture de l'Expérience, fasc. V dos Etudes 
d Epistémologie Genétique. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 387 


tempos curtos de apresentação (no tachistocópio: pesquisas efetuadas em colabo- 
ração com V. Bang e B. Matalon) as ilusões ótico-geométricas passam em geral (e 
para alguns pontos de centralização) por um máximo, de 0,1 a 0,5 segundos, o 
que supõe a existência dos dois fatores pelo menos: um de registro (“encontros” 
entre as partes da figura e a dos órgãos receptores), e outro de relacionamento 
(“acoplamentos” entre os encontros), um comportando uma fonte de deformação, 
outro uma fonte de correlações possíveis. Mesmo nessas situações onde se obser- 
vam os contatos mais elementares entre o sujeito e o objeto, um modelo de assimi- 
lação muito complexo deve ser substituído ao de uma simples “leitura”, 

Essa assimilação é particularmente marcante no caso da geometria da 
percepção. Sabemos que um matemático e psicólogo americano, Luneburg, acre- 
ditou poder estabelecer que o espaço binocular com convergência e desapareci- 
mento (e movimento livre dos olhos) apresenta uma estrutura lobatchvskiana, 
reconhecível entre outras à percepção do paralelismo (entre alamedas de pontos 
luminosos na obscuridade) quando está em conflito com a da equidistância. A. 
Jonckheere, que verificou em Londres os dados experimentais de Luneburg (com 
boa verificação na medida das curvaturas levantadas empiricamente) retomou a 
questão em nosso Centro 2º por meio de um dispositivo original: um cubo com 
arestas de fio de ferro rodando sobre si mesmo face a um espelho que reflete sua 
imagem sob a forma de um segundo cubo rodando no interior do primeiro. Ele 
colocou então um problema novo: o das relações entre os dados sensoriais e o jul- 
gamento positivo, notadamente no que concerne às deformações ou à rigidez apa- 
rentes do cubo refletido. Infelizmente, não conhecemos nada desses “dados senso- 
riais”. Tudo o que podemos dizer é que, se consistiam numa projeção dos dados 
objetivos no “quadro visual” do indivíduo, os resultados observados falariam em 
favor, no caso particular, de uma percepção euclidiana (mas não seria mais assim 
se a projeção se fizesse, por exemplo, na esfera correspondendo ao campo dos 
movimentos do olhar). Mas existe, certamente, assimilação complexa, ou, se 
preferirmos, “tradução” do dado numa estrutura perceptiva, e, comparando a 
estrutura lobatschvskiana das percepções obtidas nos dispositivos de Luneburg às 
estruturas euclidianas da representação corrente, vemos que o indivíduo dispõe de 
duas estruturas geométricas pelo menos. Tal resultado é então ruinoso tanto pelo 
apriorismo (porque se o espaço corresponde a uma “forma a priori da sensibilida- 
de”, uma única forma necessária deveria se impor) quanto pelo empirismo (falta 
de identidade entre o espaço perceptivo e o espaço dos objetos tal como esse últi- 
mo é estruturado pelo experimentador ou pelo físico nas pequenas escalas de 
observação). 

Alguns resultados obtidos no campo da percepção teriam sido muito incom- 
pletos sem um estudo paralelo sobre o da aprendizagem. Existem, com efeito, 
duas maneiras de adquirir conhecimentos em função da experiência: ou por conta- 
to imediato (percepção), ou por ligações sucessivas em função do tempo e das 
repetições objetivas (aprendizagem). O que constatamos no domínio perceptivo le- 


28 A. Jonckhecre, Géométrie et Perception, cap. VI do fasc. V dos Études. 


388 PIAGET 


vava naturalmente a pensar que seria igual no que concerne à aprendizagem, mas 
seria necessário verificar (o que fizemos durante nosso terceiro ano de atividades). 
Os dois problemas que nos colocamos então são os seguintes: a) existe ou não 
uma aprendizagem das estruturas lógicas e, se existe, é ela idêntica à das condutas 
ou de sucessões físicas? b) a aprendizagem das estruturas comporta uma lógica, 
ou uma pré-lógica, inerente aos mecanismos necessários a seu funcionamento? 

No que concerne ao primeiro desses dois problemas, A. Morf retomou sobre 
as crianças de 5 a 6 anos um de nossos antigos resultados concernindo a quantifi- 
cação da inclusão. À questão: “Existem mais B ou não, do que 4, se todos os 4 
são B e se todos os B não são 4?” A criança do nível prê-operatório não conse- 
gue, em geral, responder corretamente,?º porque não consegue comparar o todo 
B à sua parte 4: logo o todo dissociado em pensamento, a parte 4 não é mais 
então comparada senão com sua complementar 4 “(onde 4" = B — A). Morf ten- 
tou então submeter os indivíduos a diversas formas de aprendizagem, uma consis- 
tindo em fazer contar os 4 e os B sobre diversos exemplos sucessivos (ou a cons- 
tatar as extensões de 4 e dos B), a outra em deixar a criança manipular livremente 
as coleções e a terceira em fazer compreender a possibilidade de interseções (x 
pode ser ao mesmo tempo um 4 e um B). Os resultados obtidos são instrutivos: 
a) A simples leitura dos dados (quantidade dos 4 e dos B) não basta para provo- 
car a aprendizagem da inclusão 4 < Be não atinge, no caso dos melhores, senão 
a constatação 4 <A + A; mas sem que a reunião 4 + A 'equivalha, aos olhos 
do indivíduo, à classe total B e isso sem dúvida por falta de uma regulação sufi- 
ciente dos “todos” e dos “alguns”. b) A manipulação livre, em compensação, con- 
duz num certo número de casos à compreensão da inclusão A < B, a aprendi- 
zagem consistindo então num exercício operatório propriamente dito. c) A inter- 
secção pode igualmente conduzir à inclusão, a estrutura operatória A < B sendo 
nesse caso aprendida partindo de uma outra estrutura operatória. 

Em suma, essa primeira pesquisa parece assim mostrar que a aprendizagem 
da estrutura lógica em jogo se efetua a partir de outras operações ou de esboços 
de operações e não a partir de constatações análogas às que a aprendizagem de 
uma lei física procede. 

Uma pesquisa de P. Greco sobre a inversão da inversão atingiu resultados 
semelhantes. Três elementos estão fixos na ordem ABC sobre uma haste rígida 
enfiada num tubo, o qual, por uma rotação de 180º, acarreta a ordem CBA e por 
duas rotações conduz à ordem inicial, etc.?º A constatação pelas crianças de 5 
a 6 anos dos resultados sucessivos obtidos quando de cada manipulação conduz 
a uma certa aprendizagem das inversões de inversões. Mas essa aprendizagem é 
limitada e não atinge a construção da estrutura propriamente operatória: não se 
trata, de fato, senão de uma articulação um pouco mais impulsionada das intui- 
ções pré-operatórias que o indivíduo já dispunha. Aqui ainda, por conseguinte, a 


2º A questão se coloca naturalmente sobre exemplos concretos, tais como imagens de flores: “Existem mais 
flores ou mais primulas?”, etc. 
30º Ver]. Piaget, Les Notions de Mouvement et de Vitesse Chez VEnfant, Paris, P.U.F., 1946. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 389 


aprendizagem da estrutura consiste em exercer os esboços existentes, porque para 
utilizar os resultados da experiência é necessário compreendê-los quando se trata 
de um conjunto organizado segundo uma estrutura lógico-matemática (que é aqui 
uma estrutura de grupo de ordem 2), é necessário utilizar instrumentos prelimi- 
nares de compreensão. 

J. Smedslund estudou por seu lado a aprendizagem da conservação e da 
transitividade do peso. Fazendo constatar sobre uma balança por crianças de 5 a 
7 anos a conservação do peso, quando de uma modificação da forma de uma boli- 
nha de argila (antigas pesquisas de Piaget e Inhelder mostraram o caráter em geral 
tardio dessa invariante que é adquirido, em 75% dos casos, aos 9 anos somente). 
ele obteve assim uma aprendizagem muito apreciável da conservação. Em 
compensação, ele não conseguiu provocar nenhuma aprendizagem imediata da 
transitividade. Mas dois outros grupos de fatos esclarecem esses resultados. Por 
um lado, as crianças tendo adquirido a conservação do peso testemunharam, 
algumas semanas mais tarde, uma aquisição da transitividade. Por outro lado, 
quando do exame preliminar das crianças (destinado a afastar aquelas que já pos- 
suíam essa noção), encontrou-se uma boa correlação entre o grau de justificação 
da conservação e o da transitividade. Podemos pois interpretar esses dados como 
se segue: a) o aspecto físico da conservação do peso dá lugar a uma aprendizagem 
fácil, o que não acarreta ipso facto a aprendizagem da conservação como estru- 
tura necessária e transitiva; b) as estruturas lógicas em jogo, e especialmente a 
transitividade, só dão lugar a uma aprendizagem limitada consistindo principal- 
mente numa organização espontânea e interna do dado empírico. 

Smedslund não encontrou diferenças, em suas experiências sobre a aprendi- 
zagem da conservação do peso, entre as reações às simples mudanças de forma da 
bolinha de argila e as reações às situações nas quais a criança começa por assistir 
a adições ou subtrações de partes antes de julgar a conservação nas modificações 
sem adições, nem subtrações. J. Wohlwill pensou que esse fraco papel da adição 
e da subtração se devia talvez ao caráter continuo das quantidades em jogo e ele 
se propôs a analisar o efeito de um exercício dessas operações aditivas sobre a 
conservação de um conjunto de elementos descontinuos (ele se ocupou, aliás, de 
problemas de percepção e de concepção do número). A experiência mostrou efeti- 
vamente um papel do exercício das operações aditivas na aprendizagem da 
conservação dos conjuntos e do número. 

Concluindo, essas pesquisas sobre a aprendizagem das estruturas lógicas 
mostram que ela existe certamente, mas sob uma forma ao mesmo tempo limitada 
e específica: limitada, porque obtemos dos indivíduos somente um certo progresso 
na construção da estrutura em jogo (e um progresso conforme à ordem dos está- 
gios observados no desenvolvimento em situações não experimentais), mas não 
essa estrutura inteira (exceto quando a criança pôde elaborá-la por exercícios 
espontâneos); específica, porque para “aprender” uma estrutura lógica é neces- 
sário que a criança utilize a título de condições preliminares esboços não aprendi- 
dos dessa estrutura ou de outras estruturas que a implicam. A aprendizagem das 
estruturas lógicas repousa pois numa espécie de círculo ou de espiral, o que signi- 


390 PIAGET 


fica dizer que as estruturas não constituem o produto dessa aprendizagem somen- 
te, mas também de um processo interno de equilibração. 

O segundo de nossos problemas se coloca então necessariamente, em saber 
se a aprendizagem de quaisquer estruturas comporta também uma lógica ou uma 
pré-lógica indispensável a seu funcionamento. 

A esse respeito, B. Matalon estudou a aprendizagem das sucessões aleatórias 
assim como de duplas alternâncias (44, BB, AA, etc.). Sem ter ainda terminado 
essa pesquisa, ele pôde constatar a existência de uma interessante evolução nos 
sujeitos, com a idade: enquanto os mais jovens estão, antes de tudo, centrados 
sobre a sucessão de suas próprias ações, os de mais idade mostram uma descen- 
tralização na direção das sucessões objetivas. A aprendizagem não é pois somente 
função dessas sucessões dadas e de suas repetições, mas igualmente da coordena- 
ção das ações do sujeito, essa coordenação comportando por sua natureza mesma 
uma certa lógica (lembremos que nossas análises anteriores *? já tinham nos con- 
duzido a situar as fontes da lógica não, ou não exclusivamente na linguagem, mas 
nas coordenações de ações). 

Assim também Goustard estudou a aprendizagem nas diferentes idades 
numa situação de labirinto análogo ao labirinto do qual ele se serviu em psicolo- 
gia animal. Ele obteve assim nos diferentes níveis de idade curvas de aprendi- 
zagem muito diferentes: nenhuma aprendizagem aos 5 anos (para algumas situa- 
ções), aprendizagem cada vez mais rápida de 6 a 12-13 anos (mas com recuo aos 
8-9 anos) e compreensão imediata (insight) além dessa idade. A aprendizagem é 
pois função dos instrumentos lógicos à disposição do indivíduo: insuficientes aos 
5 anos, se modificando por volta de 8 anos (o recuo observado nesse nível corres- 
ponde a uma mudança de métodos devido ao aparecimento das simetrias operató- 
rias) e dando lugar desde 13 ou 14 anos a uma dedução imediata que substitui a 
aprendizagem. 

Em suma, a aprendizagem das estruturas parece comportar uma lógica ine- 
rente a seu funcionamento, comparável de saída a essa pré-lógica já em jogo na 
percepção, e tendendo depois para encontrar as estruturas indutivas e dedutivas 
que terminam por substituir a aprendizagem como tal. 

Do ponto de vista epistemológico, o conjunto dessas pesquisas parece-nos 
conduzir às seguintes conclusões. Parece excluído, em primeiro lugar, interpretar 
as estruturas lógicas como formas a priori, pois a aprendizagem e a experiência 
são necessárias à sua elaboração. Trata-se, é verdade, de uma experiência de um 
tipo especial, que não comporta, como a experiência física, uma abstração a partir 
das ações se exercendo sobre esses objetos e coordenações que ligam essas ações 
(experiência lógico-matemática). A aprendizagem das estruturas lógicas é pois ela 
mesma de um tipo especial, pois consiste simplesmente em exercer ou diferenciar 
estruturas lógicas ou pré-lógicas anteriormente adquiridas. 

Mas, em segundo lugar, tais resultados não são mais conformes à interpre- 
tação empirista, e isso por um certo número de razões. A principal é que nem a 
análise da percepção, nem a da aprendizagem em geral nos colocam em presença 
de um puro registro dos dados exteriores, seja sob a forma de uma pura constata- 


31 Cf.o fase. IV dos Études (Liaisons Analytiques et Synthétiques). 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 391 


ção perceptiva, a percepção comportando sempre uma parte de inferência ou de 
pré-inferência, seja sob a forma de um registro puramente associativo, a aprendi- 
zagem comportando sempre um processo assimilador que faz intervir uma lógica 
ou uma pré-lógica. A relação fundamental do estímulo e da resposta, mesmo se 
conservarmos tal linguagem, assim como as associações dos estímulos e das res- 
postas, não poderiam pois ser interpretadas no sentido de uma submissão exclu- 
siva do sujeito ao objeto. Essa submissão existe, certamente, e se reforça mesmo 
durante o desenvolvimento, mas ela só é possível graças à intervenção de ativida- 
des coordenadoras próprias ao sujeito e que constituem, em última análise, a fonte 
mais profunda das estruturas lógicas. Em suma, o objeto só é conhecido na medi- 
da em que o sujeito consegue agir sobre ele e essa ação é imcompatível com o 
caráter passivo que o empirismo, em graus diversos, atribui ao conhecimento. 


VI 


A linguagem e as operações intelectuais 


Há quarenta anos, quando de minhas primeiras obras, numa época em que 
acreditava nas relações estreitas entre a linguagem e o pensamento, eu só estudava 
o pensamento verbal. Desde então, o estudo da inteligência sensório-motora antes 
da linguagem, os resultados obtidos por A. Rey em sua análise de L Tnteligence 
pratique chez l'enfant, depois o inventário das “operações completas” de classes, 
de relações ou de números (com seu paralelo infra-lógico no domínio das opera- 
ções espaciais e da medida) que se desenvolvem entre 7 e 12 anos, muito antes do 
nível das operações proposicionais (essas últimas sendo as únicas a poderem ver- 
sar sobre enunciados simplesmente verbais), me ensinaram que existe uma lógica 
das coordenações de ações mais profunda que a lógica presa à linguagem, e muito 
anterior à lógica das “proposições” no sentido restrito. 

Sem dúvida a linguagem permanece como condição necessária do acaba- 
mento das estruturas lógicas, pelo menos ao nível dessas estruturas proporcionais, 
mas nem por isso constitui uma condição suficiente de formação, e isso ainda 
menos no que concerne às estruturas lógico-matemáticas mais elementares. É 
sobre essas insuficiências da linguagem que insistirei principalmente, porque se 
todo mundo percebe sua contribuição da qual espero reconhecer o alcance, final- 
mente decisivo, esquecemos frequentemente a parte das ações e da inteligência 
operatória ela mesma. 

As principais estruturas operatórias estão inscritas, é verdade, na linguagem 
corrente sob uma forma seja simpática, seja inerente às significações (semânticas). 
No que se refere, primeiramente, às “operações concretas” que se dirigem direta- 
mente aos objetos (classes, relações e números), a distinção linguística dos subs- 
tantivos e dos adjetivos corresponde, nas grandes linhas, à distinção lógica das 
classes e dos predicados, e, em função do sentido atribuído aos diferentes substan- 
tivos, toda linguagem comporta classificações relativamente elaboradas: atendo- 
se ao sentido corrente das palavras pardal, passarinho, animal e ser vivo, O indiví- 
duo falante pode concluir que todos os pardais são passarinhos, que todos os 
passarinhos são animais e que todos os animais são seres vivos sem que as reci- 
procas sejam verdadeiras, o que constitui um encadeamento hierárquico das clas- 
ses, quer dizer, uma classificação. Afirmar, por outro lado, que as baleias são “ao 
mesmo tempo” mamíferos e animais aquáticos consiste em exprimir uma interse- 
ção ou multiplicação de classes, princípio das classificações multiplicativas e não 
mais simplesmente aditivas. Os termos avó, pai, filho, irmão, tio, sobrinho, etc. 
bastam para determinar uma estrutura de árvore genealógica ou de multiplicações 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 393 


co-unívocas de classes ou de relações. Os comparativos “maior que”, etc., condu- 
zem às seriações, etc., e a sucessão dos números inteiros é inscrita no vocabulário 
corrente. Para o que se trata das operações proposicionais ou formais, a lingua- 
gem formula suas principais: a implicação (“se. .. então”), a disjunção exclusiva 
ou não exclusiva (“ou... ou”). E a possibilidade de raciocinar sobre simples 
hipóteses, que é o apanágio dessas operações hipotético-dedutivas, é assegurado 
precisamente por tal manejo da língua. A silogística se traduz diretamente por for- 
mas verbais adequadas, a ponto de podermos reprovar a lógica de Aristóteles de 
ter sido um pouco dominada pela gramática. Quanto às estruturas muito diferen- 
ciadas e refinadas para serem exprimidas pela linguagem corrente, os matemá- 
ticos e lógicos criaram para seu uso linguagens artificiais ou técnicas, mas que 
psicologicamente ainda são linguagens. 

Logo, é natural que, tanto do lado dos psicólogos quanto dos epistemólogos, 
teorias se impuseram procurando reduzir à linguagem somente, de um ponto de 
vista simultaneamente genético e causal, o conjunto das operações intelectuais 
para não dizer o pensamento inteiro (reservando-se somente as imagens mentais 
de ordem cinética ou visual). Não é numa assembléia de psicólogos que se deve 
lembrar sobre esses aspectos os trabalhos e as tendências da corrente behaviorista 
saída de Watson. Mas pode ser interessante assinalar a inteira convergência des- 
sas posições com as de uma escola epistemológica que trabalhou em princípio 
independentemente (no tempo do “Círculo de Viena”) para manter em seguida 
com o behaviorismo no sentido restrito as relações mais estreitas, depois que os 
“vienenses” emigraram para os U.S.A. Um dos fundadores desse “empirismo (ou 
positivismo) lógico”, R. Carnap, começou por sustentar que a lógica só consistia 
numa sintaxe geral, no sentido lingúístico do termo. Na continuação e paralela- 
mente com Tarski, ele foi conduzido a associar uma “semântica” geral, mas isso 
também não nos faz ultrapassar as fronteiras da linguagem. Enfim Morris mos- 
trou necessidade (ainda não reconhecida pela escola inteira) para prestar contas 
do caráter operativo da lógica, de completar a sintaxe e a semântica logísticas por 
uma “pragmática”, mas trata-se, sempre ainda, das regras da utilização de uma 
linguagem e nunca de uma lógica da ação. Se percorrermos a Encyclopedy for 
Unified Sciences, que constitui a soma do positivismo lógico, seremos tocados 
pela insistência com a qual os lógicos, linguistas e psicólogos da Escola (mas 
observando quanto E. Brunswick permanece mais sutil que seus parceiros não 
experimentalistas) repetem à porfia que os conceitos “mentalistas” de pensa- 
mento, etc., não correspondem mais a nada, que tudo é linguagem e que o acesso 
à verdade lógica é assegurado por um exercício sadio da língua. 

Ora, essas são questões psicológicas e, por conseguinte, somente a expe- 
riência pode decidi-las. É necessário a esse respeito distinguir os dois grupos de 
problemas seguintes: 

I — A linguagem pode constituir uma condição necessária do acabamento 
das operações lógico-matemáticas sem ser entretanto uma condição suficiente de 
sua formação. Sobre esse ponto os dados genéticos são decisivos permitindo-nos 
estabelecer: a) Se as raízes dessas operações são anteriores à linguagem ou devem 


394 PIAGET 


ser procuradas nas condutas verbais; b) Se a formação do pensamento está ligada 
à aquisição da linguagem como tal ou da função simbólica em geral; e c) Se a 
transmissão verbal é suficiente para constituir no espírito da criança estruturas 
operatórias, ou se essa transmissão só é eficaz com a condição de ser assimilada 
graças a estruturas de natureza mais profunda (coordenações de ações), não trans- 
mitidas elas mesmas pela linguagem. 

II — Quanto a considerar a linguagem como uma condição necessária 
(mas não suficiente) da constituição das operações, resta determinar: a) Se as ope- 
rações só funcionam sob sua forma linglística ou se elas dependem de “estruturas 
de conjunto” ou sistemas dinâmicos, não formulados como sistemas na linguagem 
corrente mesmo (por oposição às linguagens técnicas); b) Se entretanto o papel da 
linguagem no acabamento dessas estruturas operatórias eventuais permanece 
então necessário num sentido constitutivo ou somente a título de instrumento de 
formulação e de “reflexão”; c) No caso em que desempenha um papel constitu- 
tivo, é necessário estabelecer se é antes de tudo como sistema de comunicação 
com o que isso comporta de regras de controle e de pré-correção dos erros, ou se 
é como preestabelecimento das estruturas numa linguagem feita. 

1. No que concerne aos problemas Z, já podemos evocar os seguintes fatos, 
sob reserva do conjunto das questões não resolvidas e das experiências que ainda 
devem ser feitas, sobre as quais insistiremos na conclusão desse relatório: 

a) Nos níveis sensório-motores precedendo o aparecimento da linguagem, já 
vemos se elaborar todo um sistema de “esquemas” que prefiguram alguns aspec- 
tos das estruturas de classe e de relações. Um esquema é, com efeito, o que é 
generalizável numa ação dada: por exemplo, depois de ter atingido um objeto 
afastado puxando o pano sob o qual ele estava, o bebê generalizará essa desco- 
berta utilizando muitos outros suportes para aproximar de si muitos outros obje- 
tos em situações variadas. O esquema se torna assim uma espécie de conceito prá- 
tico, e, na presença de um objeto novo para ele, o bebê procurará assimilá-lo 
aplicando-lhe sucessivamente todos os esquemas que dispõe, como em se tra- 
tando dessas “definições pelo uso” caracterizadas pelas palavras “isso é 
para. ..”, sobre as quais Binet insistiu num estágio muito ulterior. 

Ora, generalizando-se os esquemas constituem primeiramente espécies de 
classificações: por exemplo, um mesmo fim pode corresponder a vários meios 
suscetíveis de atingi-lo e equivalentes entre eles de um tal ponto de vista, ou ainda 
um mesmo meio pode conduzir a vários fins. As classes comportam uma “com- 
preensão” do ponto de vista do indivíduo, quer dizer um conjunto de qualidades 
comuns sobre as quais se fundamenta a generalização; elas comportam, por outro 
lado, uma “extensão” (o conjunto das situações às quais elas se aplicam), mas do 
ponto de vista do comportamento observado pelo experimentador somente e sem 
que o sujeito seja capaz de representá-lo, como conseguirá quando tiver atingido 
o nível da função simbólica. 

Os esquemas comportam naturalmente, por outro lado, uma grande varie- 
dade de relacionamentos, prelúdios da lógica das relações que se desenvolverá 
ulteriormente no plano da representação. Essas relações podem mesmo atingir 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 395 


espécies de seriações sensório-motoras, como no empilhamento de pedaços de 
madeira de grandeza decrescente (cf. os baby-tests de Ch. Buhler). 

A coordenação dos esquemas conduz em compensação a inferências práti- 
cas: procurando um objeto sob um pano sob o qual colocamos, previamente, uma 
boina, é não vendo o objeto quando ela levanta o pano, a criança de 16-18 meses 
conclui logo que o objeto está sob a boina, pois colocamos esse objeto sob o pano 
e ela não o vê ao levantá-lo. 

Mas o esquematismo sensório-motor atinge principalmente prefigurações das 
futuras noções de conservação e da futura reversibilidade operatória. É por isso 
que entre o meio do primeiro ano e o do segundo se elabora essa forma elementar 
de conservação que é o esquema do objeto permanente. Ora, esse esquema já 
constitui uma espécie de “invariante de grupo”: com efeito, a busca do objeto 
desaparecido é função de sua localização e as localizações só são asseguradas 
pela constituição de um “grupo” dos deslocamentos coordenando os desvios 
(associatividade do grupo) e os retornos (reversibilidade). 

Somos pois levados a admitir que, anteriormente às operações formuladas 
pela linguagem, existe uma espécie de lógica das coordenações de ações compor- 
tando notadamente relações de ordem e ligações de encadeamentos (relações da 
parte ao todo). Se distinguirmos, por outro lado, no seio das representações e do 
pensamento ulteriores um aspecto figurativo, ligado à representação dos estados, 
não podemos nos impedir de estabelecer uma relação de filiação entre as opera- 
ções que dependem da ação e de sua interiorização, e essa lógica das coordena- 
ções de ações: por exemplo, a operação de adicionar dois números (2 + 3 = 5) 
advém da ação de reunir objetos e, se necessário taxar essa reunião simbólica, é 
enquanto os termos 2, 3,5, = e + são mais e não coisas, mas a adição versando 
sobre esses sinais é também uma reunião real, enquanto reunião, como uma adi- 
ção versando sobre objetos. 

Em compensação, é conveniente insistir sobre o fato de que as operações, 
enquanto resultantes da interiorização das ações e de suas coordenações, perma- 
necem por muito tempo relativamente independentes da linguagem. É assim que 
entre 7 e 12 anos, quer dizer, antes da constituição das operações proposicionais 
ou hipotético-dedutivas que se tornam estreitamente solidárias da palavra, obser- 
vamos um longo período caracterizado por operações “concretas” (classes, rela- 
ções e números) ligadas à manipulação dos objetos mesmos. Essas operações se 
manifestam entre outros aspectos pela constituição de noções de conservação 
mais gerais que a do objeto permanente: por exemplo, na prova das bolinhas de 
argila, a conservação da substância aos 7-8 anos, a do peso aos 9-10 anos e a do 
volume aos 11-12 anos. Ora, apesar dessas decalagens cronológicas, a criança 
emprega, para justificar essas conservações sucessivas, exatamente os mesmos 
argumentos se traduzindo por expressões verbais rigorosamente idênticas “só 
alongamos” (a bolinha em cobrinha), “não tiramos nada, não acrescentamos 
nada”, “é mais comprido mas mais fino”, etc. Esse é um indício de que tais noções 
não dependem da linguagem somente. Trata-se pelo contrário de uma estrutura- 
ção progressiva do objeto, segundo suas diferentes qualidades, e em função dos 


396 PIAGET 


sistemas de operações ativas, procedendo das ações como tais, exercidas sobre os 
objetos, muito mais do que a formulação verbal. 

b) A formação do pensamento como “representação” conceitual é segura- 
mente correlativa, na criança, da aquisição da linguagem; mas não poderíamos 
ver no primeiro desses processos um resultado causal simples do segundo, porque 
todos os dois são solidários de um processo mais geral ainda que é a constituição 
da função simbólica.?? Com efeito, a linguagem aparece no mesmo nível de 
desenvolvimento que o jogo simbólico, a imitação diferenciada e sem dúvida a 
imagem mental enquanto imitação interiorizada. A característica da função sim- 
bólica nesses diversos aspectos é a diferenciação dos significantes diferenciados e 
a capacidade de evocar, graças a esses significantes diferenciados, os significados 
não percebidos atualmente: essas duas características opõem os sinais verbais e os 
simbolos lúdicos, de gestos ou de imagens aos índices e aos sinais sensório-mo- 
tores, não diferenciados de seus significados e não podendo pois servir para evo- 
car objetos ou acontecimentos não perceptíveis atualmente. Ora, a transição entre 
as condutas sensório-motoras e as condutas simbólicas ou representativas é sem 
dúvida assegurada pela imitação (tese comum aos trabalhos de Wallon e aos nos- 
sos), cujos prolongamentos diferenciados e a interiorização asseguram sua 
diferenciação dos significantes e dos significados. É notadamente num contexto de 
imitação que se adquire a linguagem e esse fator imitativo parece constituir um 
auxiliar essencial, porque se a aprendizagem da linguagem se devesse somente a 
condicionamentos, ela deveria ser muito mais precoce. Mas o desenvolvimento da 
imitação sendo ele mesmo solidário do desenvolvimento das condutas inteligentes 
em seu conjuntivo, vemos assim que se é legítimo considerar a linguagem como 
desempenhando um papel central na formação do pensamento, é enquanto ela 
constitui uma das manifestações da função simbólica, seu desenvolvimento sendo 
dominado pela inteligência em seu funcionamento total. 

c) A linguagem uma vez adquirida não é suficiente para assegurar a trans- 
missão de estruturas operatórias feitas, que a criança receberia assim do exterior 
por constrangimento lingiiístico. Um certo número de fatos pode ser invocado a 
esse respeito. 1) Apesar das classificações inscritas na linguagem, a criança só do- 
mina no nível das operações concretas (7-8 anos) o manejo das definições inclusi- 
vas (pelo gênero e a diferença específica: teste das definições de Binet e Simon) e 
das classificações em geral (3.º estágio de Inhelder e Piaget); 2) as expressões ver- 
bais conotando a inclusão de uma subclasse numa classe, tais como “algumas de 
minhas flores são amarelas”, só são dominadas no nível onde a inclusão mesma 
é assegurada graças ao jogo das operações aditivas e multiplicativas de classes; 3) 
a prática da numeração falada não basta em nada para assegurar a conservação 
dos conjuntos numéricos, nem a das equivalências por correspondência bi-uni- 
voca, etc. 


32 Im dos lingúistas convidados para a reunião de nossa Associação em Neuchâtel observou que seria me- 
lhor falar de “função semiótica” pois ela recobre não somente o emprego de simbolos. mas ainda c principal- 
mente o dos “sinais” (verbais, etc.) que não são símbolos no sentido restrito. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 397 


Em suma, uma transmissão verbal adequada de informações relativas a 
estruturas operatórias só é assimilada nos níveis em que essas estruturas são ela- 
boradas no terreno das ações mesmas ou das operações como ações interiorizadas 
e se a linguagem favorece essa interiorização, ela não cria nem transmite essas 
estruturas totalmente feitas por via exclusivamente linguística. 

2. Quanto aos problemas relativos ao papel necessário (apesar de não sufi- 
ciente) da linguagem no acabamento das estruturas operatórias, é no nível das 
operações formais ou hipotético-dedutivas que podem ser abordadas com mais 
clareza, porque essas operações não versam mais sobre os objetos mesmos como 
operações completas, mas sobre proposições, hipóteses enunciadas verbalmente, 
etc. As operações proposicionais que se constituem assim de 11-12 a 14-15 anos 
estão então manifestadamente mais ligadas ao exercício da comunicação verbal e 
vemos mal como elas se desenvolveriam ou como acabariam seu desenvolvimento 
sem o emprego da linguagem. 

a) É conveniente entretanto observar que se as operações se enraizam 
“aquém” da linguagem, nas coordenações das ações, elas a ultrapassam “além”, 
no sentido em que as estruturas operatórias proposicionais constituem, mesmo se 
sua elaboração repousa sobre condutas verbais, sistemas relativamente complexos 
não inscritos a título de sistemas na linguagem mesma. Esses sistemas são, por 
um lado, uma combinatória (por oposição aos encadeamentos simples das opera- 
ções concretas) e, por outro lado, um grupo de quatro transformações coorde- 
nando as inversões e as reciprocidades, quer dizer, as duas formas de reversibi- 
lidade até então separadas nos “agrupamentos” concretos (classificação, seriação, 
etc.). Essas duas estruturas de conjunto correlativas se manifestam no comporta- 
mento dos indivíduos pela constituição de um conjunto de novos esquemas opera- 
tórios (duplos sistemas de referências, proporções, probabilidades combinatórias, 
etc.) do qual eles asseguram a unidade funcional e explicam o aparecimento relati- 
vamente sincrônico. Ora, essas grandes estruturas de conjunto ultrapassam a lin- 
guagem do indivíduo e não poderiam mesmo ser formuladas com a ajuda da lin- 
guagem corrente. 

b) A elaboração de tais estruturas suscita ainda muitos problemas, e a ques- 
tão de saber se a linguagem desempenha a seu respeito um papel autenticamente 
constitutivo ou somente indireto e auxiliar nos parece dever ser reservada até o 
momento em que os trabalhos saídos das diversas tendências do estruturalismo 
linguistico (Hjelmslev, Togeby, Harris, etc.) terão encontrado pontos de junção 
suficientes com a análise algébrica e logística dos mecanismos do pensamento. 

c) Em compensação, já parece possível entrever que, ainda no nível das ope- 
rações formais ou proposicionais, a linguagem age menos por transmissão de 
estruturas feitas que por uma espécie de educação do pensamento ou do raciocínio 
devida às condições da comunicação e à pré-correção dos erros. “Seria possível, 
diz o linguista Hjelmslev, reconduzir o sistema da lógica formal e o da língua a 
um princípio comum que poderia receber o nome de sistema sublógico. ”L. Apos- 
tel mostrou que esse sistema comum depende da teoria dos códigos e assegura a 
pré-correção dos erros podendo se produzir entre encodage e o décodage. É pois 


398 PIAGET 


na direção de um funcionamento comum e de uma fonte probabilista comum que 
poderíamos conceber a ação formadora da linguagem sobre as operações, estando 
entendido que essa ação formadora ultrapassa os quadros da linguagem mesma e 
prolonga, no terreno da coordenação das ações sociais, o processo equilibrador já 
existente no domínio da coordenação das ações em geral. 

No fim das reflexões, gostaríamos de insistir sobre as pesquisas a serem fei- 
tas para resolver os problemas precedentes, controlar as soluções propostas ou 
suscitar novas questões. 

Um método fecundo a esse respeito consiste em estudar os efeitos de aprendi- 
zagem versando sobre a formulação verbal de operações que ainda não foram 
adquiridas espontaneamente pelos indivíduos. Uma primeira pesquisa foi feita 
nessa direção por A. Morf sobre crianças situadas num nível intermediário entre 
as operações concretas e formais. Utilizando alguns problemas de raciocínio 
comportando implicações, disjunções, etc., Morf começa por analisar a solução 
espontânea dos indivíduos, depois lhes fornece um conjunto de informações ver- 
bais repetindo as questões com precisões suplementares ou fornecendo exemplos 
análogos, etc.: o resultado dessas intervenções foi sistematicamente negativo, ex- 
ceto nos indivíduos que tinham conseguido espontaneamente resolver uma ou 
outra das questões por via hipotético-dedutiva e que puderam então assimilar a 
significação dos suplementos de informação no caso das questões onde tinham 
fracassado inicialmente. Pesquisas de outro tipo foram empreendidas por B. Inhel- 
der e J. Bruner em experiências recentes em Harvard: indivíduos mal sucedidos na 
conservação no caso das transferências de líquidos foram submetidos a uma 
aprendizagem verbal versando sobre expressões tais como “um copo 4 é aq 
mesmo tempo mais alto e mais fino que o copo B”, etc.; as questões eram analisar 
como os indivíduos aprendem a compreender essas relações e se elas modificarão 
os julgamentos sobre a conservação (a experiência é feita à margem das provas de 
conservação, mas no mesmo contexto). Ora, os primeiros fatos recolhidos pare- 
cem mostrar que: a) As dificuldades encontradas na compreensão progressiva 
dessas expressões verbais são da mesma ordem que os obstáculos conhecidos 
sobre o terreno da aquisição das conservações; Db) Existem poucas ligações entre 
os dois campos da compreensão verbal e dos raciocínios concretos, como se se 
tratassem nesse nível de dois planos diferentes. 

Um segundo método instrutivo é a análise, realizada atualmente por J. De 
Ajuriaguerra e B. Inhelder, relações entre o nível lingúístico e o nível operatório a 
propósito de distúrbios do desenvolvimento assinalados num ou no outro desses 
dois domínios. Não diremos nada, a não ser para assinalar o interesse dos casos 
paradoxais nos quais um forte atraso lingiiístico não se acompanha de nenhum 
distúrbio das operações intelectuais mesmas (caso onde encontramos às vezes a 
recíproca completa: atraso operatório sem distúrbios da linguagem). 

Enfim o método de escolha, com respeito aos problemas que suscitamos, é 
naturalmente o da análise das operações intelectuais no surdo-mudo, que possui a 
função simbólica sem alcançar a linguagem articulada. Os interessantes estudos 
de P. Oleron, de M. Vincent e, entre nós, de F. Affolter já mostraram que se os 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 399 


individuos apresentam um atraso variável segundo as provas com relação aos que 
escutam, testemunhando entre outras de menor mobilidade, eles não estão menos 
aptos a dominarem as operações essenciais: classificações, seriações e outras ope- 
rações de ordem, perspectivas (provas das sombras), etc. Mas um problema novo 
foi levantado recentemente por P. Oleron quanto a um eventual atraso conside- 
rável desses indivíduos na aquisição das noções de conservação. Somente a solu- 
ção de tal questão se tornou muito difícil por razões de método e podemos nos 
perguntar se os resultados de Oleron não são em parte relativos a sua técnica, 
tanto mais quanto as médias indicadas pelos normais não correspondem inteira- 
mente às tabelas estabelecidas recentemente por diversos autores, em vários países 
diferentes. A retomada do problema por F. Affolter com outras técnicas já parece 
indicar uma aquisição mais precoce pelos surdos-mudos e a questão permanece 
aberta, como muitas outras, infelizmente, dentre as que levantamos. 


VII 
O que subsiste da teoria da Gestalt 
Na psicologia contemporânea da inteligência e da percepção 


Dois princípios da psicologia da Gestalt permanecem fundamentais nos 
domínios que nos interessam nesse estudo. 

O primeiro desses princípios é que todo processo dependendo da percepção 
ou da inteligência é caracterizado por uma marcha para o equilíbrio. Isso foi dito 
frequentemente no domínio da afetividade, onde a necessidade segundo Claparêéde 
testemunha de um desequilíbrio e da satisfação de uma reequilibração. Mas é sem 
dúvida com a teoria da forma que a noção de equilíbrio tomou uma significação 
precisa no terreno das funções cognitivas e inspirou uma série de experiências 
decisivas: é por isso que a noção de “efeitos de campo ”, no estudo das percep- 
ções, e a de reequilibrações por etapas sucessivas, no estudo dos atos de inteli- 
gência são noções que parecem definitivamente adquiridas. 

O segundo princípio essencial é que as formas de equilibrio se constituindo 
no fim desses processos de equilibração consistem em “estruturas sociais”, carac- 
terizadas por “leis de organização” dependendo da totalidade como tal e não pela 
associação entre elementos preliminares isolados. Tornada banal desde 1890 e os 
começos deste século, a noção de totalidade recebeu igualmente da teoria da Ges- 
talt uma forma precisa cuja significação é experimental. 

Nós nos reteremos plenamente nessas duas noções centrais da psicologia da 
Gestalt. Nossa finalidade, nesse exame crítico, não é enunciá-las, mas pelo contrá- 
rio procurar levar mais adiante a análise. Reteremos em particular cada uma das 
“leis de organização” (as leis da “boa forma”, etc.), evidenciadas pelos estudos 
gestaltistas sobre a percepção e quase todos os fatos (à parte alguns exageros 
quanto à pretensa ausência de evolução com a idade de alguns mecanismos, por 
exemplo no que concerne às constâncias perceptivas). 

Mas consideraremos as formas de equilíbrio ou estruturas de conjunto des- 
critas pela psicologia da Forma como permanecendo incompletas: elas são váli- 
das em certos domínios, enquanto, em outros, elas nos parecem ceder lugar a ou- 
tras estruturas de conjunto não previstas pela teoria inicial da Forma. 

Ora, se completamos as “Gestalten” por essas outras estruturas de conjunto 
que não chamaremos mais “Gestalten”, se torna necessário fazer certos retoques 
importantes na teoria, em consequência da mudança de perspectiva devida a 
adjunções. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 401 


A teoria da inteligência 


Os teóricos da Gestalt partiram da percepção ou foram dominados rapida- 
mente por modelos perceptivos mesmo quando estudaram a teoria da inteligência. 

Ora, as percepções constituem totalidades “não aditivas” e por conseguinte 
essencialmente irreversíveis (no sentido lógico da palavra). Como tais, elas corres- 
pondem a certas physische Gestalten, como mostrou Koehler, quer dizer aos siste- 
mas irreversíveis caracterizados por seus deslocamentos de equilíbrio e nos quais 
cada parte está constantemente subordinada ao todo segundo um modo de 
composição não aditivo. 

Donde a concepção que Koehler nos deu da Gestalt e que podemos precisa- 
mente definir por esse caráter essencial de não-aditividade. De um tal ponto de 
vista (e para permanecermos na Gestalt física de maneira a não prejulgar as afir- 
mações psicológicas que se vão seguir), a composição das forças em mecânica 
clássica não constitui uma “Gestalt”, enquanto uma bolha de sabão ou a super- 
ficie da água trangiúila constituem “Gestalten”. 

Sei bem que para outros autores o termo “Gestalt” tende a se aplicar a mui- 
tas outras variedades de estruturas totais. Mas então, se tudo é Gestalt, tenho 
medo que essa noção perca seu valor próprio. Permaneçamos pois, para essa 
discussão, com a definição de Koehler, que corresponde à concepção clássica dos 
teóricos da Gestalt. 

Ora, quando eles vieram ao estudo da inteligência, eles se serviram do 
mesmo modelo que para a percepção. Concebendo o ato de inteligência como 
uma reestruturação dos dados ou como a passagem de uma menos boa a uma me- 
lhor estrutura, eles conceberam todas as estruturas, perceptivas ou intelectuais, 
como obedecendo às mesmas leis concebidas como gerais. 

É sobre o primeiro ponto que nos é difícil seguir a teoria clássica da Gestalt. 
Com efeito, a inteligência obedece bem, ela também, a leis de equilíbrio e a leis de 
totalidade, mas não se trata mais das mesmas estruturas totais que as percepções: 
as estruturas totais intervindo no domínio das operações lógicas e matemáticas 
são caracterizadas, diferentemente das estruturas perceptivas, por sua reversibi- 
lidade (sob forma de inversão ou de reciprocidade) e por sua composição aditiva. 

Pensemos por exemplo na sucessão dos números inteiros. Uma tal estrutura 
é um modelo de composição aditiva pois 2 = 1 + 1. E entretanto trata-se de uma 
totalidade comportando suas leis de organização, pois um número inteiro não 
existe independentemente da sucessão caracterizada pela operação n + 1 e porque 
essa sucessão apresenta, enquanto totalidade, leis estruturais que são as do 
“grupo” (e do “corpo” se reunirmos num sistema o grupo aditivo e o grupo multi- 
plicativo). Eis pois o caso de uma estrutura aditiva e reversível, que, psicologica- 
mente, apresenta todas as características de uma totalidade organizada, e que não 
é uma “Gestalt” no sentido preciso do termo. 

Podemos dizer o mesmo de todas as estruturas lógicas, das quais estudamos 
passo a passo o desenvolvimento na criança e no adolescente. Consideremos as 
classificações e as seriações, as correspondências, etc., no domínio dos “agrupa- 


402 PIAGET 


mentos” de operações concretas (classes e relações) ou os grupos e as redes de 
operações proposicionais, etc., em toda parte encontramos totalidades de estrutu- 
ras de conjunto caracterizadas por leis de organização ultrapassando os elemen- 
tos particulares, e entretanto trata-se de estruturas reversíveis de composição adi- 
tiva: as intuições de partida (equilíbrio e totalidade) da teoria da Gestalt se 
verificam profundamente, e entretanto encontramo-nos na presença de totalidades 
que não são “Gestalt”. 

Existem pois duas formas distintas de equilíbrio no seio dos processos cogni- 
tivos (como aliás no mundo físico): 

1. Os sistemas cujas condições de equilíbrio são permanentes (exemplo: as 
operações lógicas e matemáticas elementares que se conservam durante toda a 
vida, uma vez elaboradas). Esses sistemas são essencialmente reversíveis, o que 
não é surpreendente pois o equilíbrio de um sistema se define pela compensação 
de todas as suas transformações virtuais, quer dizer precisamente pela 
reversibilidade. 


São esses sistemas que nos parecem característicos do pensamento lógico a 
partir do nível das operações concretas (desde 7-8 anos), e que constituem assim 
as formas de equilíbrio para as quais tende todo o desenvolvimento da inteligência 
(já observamos suas manifestações anunciadoras desde a inteligência sensório- 
motora do bebê e do chimpanzé com a constituição do objeto permanente e do 
“grupo” prático dos deslocamentos). 


2. Os sistemas de formas de equilíbrio momentáneas, logo caracterizados 
por seus deslocamentos de equilíbrio, e que são consequentemente semi-rever- 
síveis ou mais ou menos irreversíveis. Em tais sistemas as operações lógico-mate- 
máticas ainda não são possíveis, mas são substituídas (e preparadas) por regula- 
ções ou mecanismos semi-reversíveis.?? Tais são os sistemas que encontramos no 
domínio da percepção e da inteligência pré-operatória, onde desempenham então 
completamente seu papel as “Gestalten” de composição não aditiva. 


Mas, se ocorresse assim, não poderiamos mais considerar a inteligência 
como um prolongamento das estruturas perceptivas. A mobilidade reversível da 
inteligência operatória não resulta de um simples abrandamento das “Gestalten” 
não aditivas, mas exige na maior parte dos casos uma espécie de degelo ou de 
dissolução dessas configurações elementares. A grande diferença entre a criança 
de 4-6 anos e a de 8-10 anos é que a primeira se apóia, para raciocinar, nas confi- 
gurações perceptivas ou “Gestalten”, enquanto a segunda raciocina sobre as 
transformações que conduzem de uma configuração a uma outra; ora, subordinar 
as configurações às transformações, não é somente se liberar das primeiras: é 
levá-las num movimento que as transforma fazendo-lhes precisamente perder suas 
características não aditivas e irreversíveis. 


Em análises célebres, Wertheimer procurou reduzir em “Gestalten” as inclu- 
sões das classes intervindo no silogismo, e conduzir a conclusão do silogismo 
numa Umzentrierung que descentraliza uma classe (ou um indivíduo) de uma 


33 Que lembram em física os processos de “moderação” como no princípio de Le Chátelier. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 403 


outra para recentralizá-la numa terceira. Mas essa interpretação não poderia nos 
bastar: a verdade lógica não se deve nem a uma configuração (A incluído em B ou 
B em C), nem noutra (4 incluído em C), mas no sistema mesmo das transforma- 
çóes(A+FHA'=BB+B'=C;C-—-B'=B;B-A'=A,etc.): ora essas trans- 
formações não constituem mais uma “Gestalt” comparável a uma figura, pois são 
por essência reversíveis (+ e —) e de composição aditiva. Talvez Wer- 
theimer se teria finalmente engajado nessa direção: o volume póstumo tão 
emocionante, que seus amigos publicaram,* ? fala incessantemente de grouping e 
de “operações”. Mas enquanto a dualidade das estruturas não aditivas e das estru- 
turas reversíveis não é reconhecida como fundamental, subsiste um equívoco um 
pouco perturbador nessas tentativas de unificação das formas lógicas e das “Ges- 
talten” propriamente ditas. 

Ora, se a inteligência constitui uma atividade operatória atingindo à forma- 
ção de estruturas reversíveis, em vez de consistir simplesmente numa reestrutu- 
ração segundo leis idênticas às das estruturas perceptivas, então se torna neces- 
sário restituir à inteligência um certo número de características que parecem ter 
sido um pouco negligenciadas pela descrição gestaltista. 

A primeira dessas características é a atividade propriamente construtora da 
inteligência: “operando” sobre os objetos, o sujeito elabora por sua ação mesma 
estruturas e não é somente o teatro de uma reestruturação ou de uma reequili- 
bração se efetuando segundo as leis da Gestalt física. Senão (e é uma impressão 
que temos, às vezes, lendo certos trabalhos gestaltistas) a reestruturação simul- 
tânea dos objetos e do sujeito no interior do “campo” que os abarca todos os dois 
nos levariam a uma espécie de empirismo, por supressão do papel construtor das 
operações, com a única diferença de que as estruturas totais são substituídas às 
associações do antigo empirismo associacionista. 

Não poderíamos também assimilar as estruturas reversíveis da inteligência a 
formas inatas. Os gestaltistas de tendência maturacionista apresentam freglente- 
mente as “leis de organização” da Gestalt como condições de estruturação inde- 
pendentes de toda experiência, o que significa dizer inatas ou a priori. Mas a 
necessidade lógica própria às estruturas da inteligência não é nunca dada ante- 
riormente à experiência: ela se constitui pelo contrário no fim de um processo evo- 
lutivo que depende em parte do exercício e da experiência, sendo uma necessidade 
final, como é o caso das formas de equilíbrio (independentemente, isso é evidente, 
de qualquer finalismo) e não inicial, como é o caso das montagens inatas ou 
hereditárias; ela é pois, bem distinta de uma “pregnância” tanto quanto a preg- 
nância resultaria de um mecanismo herdado (ela é aliás distinta de qualquer 
“pregnância” perceptiva pelas razões que vimos acima). 

Na realidade, o sujeito não depende nem só dos objetos exteriores (configu- 
ração do campo), nem só de seus mecanismos inatos, mas testemunha de uma ati- 
vidade que é solidária de sua própria história. As estruturas da inteligência não 
são “Gestalten” extemporâneas, mas esquemas que derivam uns dos outros por 
filiação progressiva durante uma construção continua. O empirismo associacio- 


34 M. Wertheimer, Productive Thinking, Harper & Brothers, New York, London, 1945. 


404 PIAGET 


nista considerava esses esquemas como simples resultante da experiência anterior. 
Duncker respondeu com razão que o sujeito se serve em seu passado do que ele 
tem necessidade em função da situação atual. Na realidade a estrutura atual é um 
esquema que procede dos esquemas anteriores, mas que reage sobre eles integran- 
do-os. A concepção integrativa aplicada à atividade histórica e construtiva da 
inteligência ultrapassa assim simultaneamente as duas teses adversas recordando 
uma parte legítima à experiência mas sem reduzir a elas as formas de equilíbrio 
mesmas. 

Enfim, é indispensável restituir ao ato de inteligência o elemento de controle 
ou de correção (se manifestando frequentemente por um tatear propriamente dito) 
que tivemos tendências, às vezes, de esquecer. 


A teoria da percepção 


Sobre esse terreno mais elementar, a psicologia da Gestalt teve razão 
completamente em insistir sobre a existência de estruturas irreversíveis de compo- 
sição não aditiva (Gestalten no sentido restrito) e sobre suas leis de organização. 

Mas, mesmo nesse domínio particularmente favorável a suas teses, não acre- 
ditamos que a teoria da Gestalt corresponda à totalidade dos fatos perceptivos. É, 
com efeito, muito provável que os mecanismos perceptivos não estejam distri- 
buídos num mesmo plano: existem os efeitos de campo, ou interações imediatas 
entre elementos percebidos simultaneamente em suas relações mútuas e é nesse 
plano fundamental que a descrição gestaltista guarda todo seu valor (podendo 
aliás ser ultrapassada na direção da análise das relações, mas sem que isso contra- 
diga as leis da Gestalt); em compensação, existe, além dos efeitos de campo, um 
conjunto de atividades perceptivas relacionando a distâncias sempre maiores, no 
espaço e no tempo, os efeitos elementares, e essas atividades perceptivas ultra- 
passam cada vez mais o quadro gestaltista porque se orientam na direção da 
reversibilidade inteligente. 

Num interessante artigo, Révész** estima que a teoria da Gestalt deve ser 
revista no que concerne às percepções táteis porque elas não são simultâneas e 
exigem um relacionamento contínuo entre os dados sucessivos. Já observamos 
com B. Inhelder * º no que concerne a evolução da estereognosia na criança de 4 
a 7-8 anos: enquanto os pequenos reconhecem mal as formas porque permanecem 
mais passivos, assistimos depois ao desenvolvimento de uma atividade explora- 
dora cada vez mais sistemática que, por formas táteis de uma dimensão de aiguns 
centimetros, permite somente discernir as características espaciais euclidianas 
(por oposição às características topológicas elementares). 

Mas essa atividade exploradora está longe de ser especial à percepção tátil. 
No domínio visual os gestaltistas foram obrigados a reconhecer que ela modifica 
igualmente as estruturações, e falaram então de “atitude analítica” (mas a análise 
não é uma simples atitude: é uma atividade propriamente dita). A questão está 


38 G. Révéz, “Zur Revision der Gestaltpsychologie”, Revue Suisse de Psychologie, t. XII (1953), p. 89-110. 
36 Piaget e Inhelder, La Represéntation de [Espace Chez V'Enfant, cap. II. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 405 


então em estabelecer se tal atividade depende ainda simplesmente das leis da Ges- 
talt ou se ela se afasta em graus diversos. 

Eis um exemplo. Retomando uma idéia desenvolvida pelo saudoso Rubin 
num artigo póstumo, estudamos com Maire e Privat, a resistência das boas for- 
mas, entre 5-6 anos e a idade adulta, quando combinamos um quadrado com a 
ilusão de Miiller-Lyer (acrescentando pontos externos do lado superior do qua- 
drado e pontos internos do lado inferior). Ora, em vez de apresentar o mesmo grau 
de “pregnância” em toda idade, como isso estava de conformidade com a teoria, 
aconteceu que a forma quadrada é mais ou menos três vezes menos resistente 
(relativamente aos valores respectivos da ilusão de Miiller-Lyer) nas crianças que 
no adulto. Intervêm pois, no caso da boa forma, dois efeitos distintos: um efeito 
de campo, que existe em toda idade, mas que dá vez somente a uma forma perma- 
necendo muito “elástica”; e um efeito de comparação (análise) entre os lados ou 
entre os ângulos. Esse último efeito, que aumenta de importância com a idade, dá 
vez então a um “esquema perceptivo” transponível por recognição e generaliza- 
ções assimiladoras, e não simplesmente por reestruturações automáticas e 
independentes; e esse esquema é então muito mais resistente que a boa forma pri- 
mária devida aos efeitos de campo somente. 

De uma maneira geral, existem pois atividades perceptivas ultrapassando os 
efeitos de campo e que correspondem ao que chamamos comumente a análise ou 
a exploração. Elas consistem em “transmissões” no espaço e no tempo, em duplas 
transmissões ou comparação (transposição de um dos termos comparados ao 
segundo e reciprocamente), em transposições ativas (ou transposição de um com- 
plexo de relações com recognição e generalização), em antecipações ou Einstel- 
lungen, em relacionamentos com elementos de referência cada vez mais afastados, 
etc. Essa atividade perceptiva depende da motricidade, do sistema postural (cf. a 
sensori-tonic field theory de H. Werner) e se encontra em ligação cada vez mais 
estreita com a inteligência por intermédio dos esquemas sensório-motores. 

A distinção entre os efeitos de campo e os da atividade perceptível corres- 
ponde a um critério genérico: os primeiros diminuem um pouco de importância 
com a idade, enquanto os segundos aumentam de valor durante o desenvolvi- 
mento. É nesse sentido que o estudo genético das percepções, que seguimos com 
Lambercier desde uma dúzia de anos, nos parece fornecer uma dimensão maior à 
análise dos mecanismos perceptivos, enquanto a pesquisa das leis de organização 
constantes durante o desenvolvimento se tornou um pouco exclusiva na maior 
parte dos gestaltistas (com certas exceções notáveis, por exemplo nos trabalhos de 
Meili) e impediu perceber suficientemente a multiplicidade dos planos sobre os 
quais se organiza a percepção. 

Se retornamos então aos efeitos de campo, ou efeitos primários, podemos nos 
perguntar se essa mudança de perspectiva não é de natureza, não a sacudir as 
concepções gestaltistas sobre as leis de organização e as boa formas, mas a permi- 
tir um aprofundamento no sentido de uma teoria mais relativista e principalmente 
mais quantitativa. 

É uma coisa surpreendente, com efeito, que, depois de ter fornecido uma 
excelente descrição qualitativa dos efeitos de campo, a teoria da Gestalt não tenha 


406 PIAGET 

elaborado leis quantitativas das deformações perceptivas e das boas formas. É 
mesmo surpreendente que todas as características atribuídas pela teoria à boa 
forma perceptiva (simplicidade, regularidade, simetria, semelhança, proximidade, 
etc.) possam constituir aliás qualidades essenciais às estruturas lógico-mate- 
máticas (exceto a proximidade, mas que intervêm a título de vizinhança nas estru- 
turas topológicas). A descrição gestaltista permaneceu pois muito global para 
atingir quantitativamente (e mesmo em parte qualitativamente) o que diferencia as 
estruturas primárias (efeitos perceptivos de campo) das estruturas da inteligência. 
Mas por quê? 

A razão está em que, parece, a noção de totalidade é uma noção cujas sedu- 
ções são perigosas: excelente a título de noção descritiva, ela parece à primeira 
abordagem constituir uma noção explicativa enquanto por si só não explica nada. 
Dizer, e repetir incessantemente, que “as partes estão deformadas pelo todo” não 
é uma explicação: é um programa e um bom programa de explicações futuras, 
mas a explicação real não começa senão quando consegue colocar a parte em 
ligação com o conjunto das outras partes segundo um sistema de relações propria- 
mente ditas. O antigo associacionismo colocava em primeiro lugar elementos iso- 
lados e construía o todo por associações entre eles. A teoria da Gestalt teve o mé- 
rito de mostrar que há de antemão a totalidade mas ela considerou muito o “todo” 
como uma espécie de causa que age sobre as partes. Uma terceira concepção é 
possível, que retém aliás o essencial da segunda: ê que o todo consiste, desde o 
começo, num sistema de relações (não de elementos, mas de relações cujos ele- 
mentos são de antemão solidários); essas relações podem então ser estudadas e 
formuladas em sua interdependência mesma, o que permite a elaboração das leis 
quantitativas. 

Tentamos assim destacar a lei que permite determinar os maxima e os mini- 
ma no caso das ilusões geométricas de que fazemos variar um fator: por exemplo 
um retângulo cuja ilusão é medida num dos lados permanecendo constante, 
enquanto o outro varia; ou a ilusão de Oppel com medida do comprimento cons- 
tante de uma linha dividida, enquanto o número das divisões varia, etc. 

Ora, esta lei? ? parece se explicar por ações que vêm facilmente se inscrever 
no quadro da atividade perceptiva descrita precedentemente, mantendo a origina- 
lidade dos efeitos de campo. 

Para interpretar as ações de campo dependendo de tal lei, basta, com efeito, 
apelar para um mecanismo do qual procuramos controlar sua influência efetiva: 
todo elemento centrado pelo olhar (no caso da percepção visual, mas o fenômeno 
se encontra em outros dominios) é por isso mesmo superestimado, enquanto os 
elementos não atualmente centrados estão desvalorizados em relação a ele, as 
superestimações ou subestimações sendo proporcionais às grandezas dos elemen- 
tos considerados. Por meio de tal efeito, podemos então simultaneamente explicar 


37 Ver Proceedings and Papers of the Thirteenih Intern. Congr. of Psychology at Stockholm, 1951, p. 197. 
A lei tem a seguinte forma: 
P=(L, => LyxnL,/Lmax) 
S 


donde L, é o maior dos comprimentos comparados: L, o menor, Lmax o comprimento total da figura, 
no número dos L, c S a superficie. P é o valor relativo da ilusão. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 407 


as ações de contraste entre duas grandezas desiguais (quando essa desigualdade 
ultrapassa o valor das superestimações por centração) e as ações de igualização 
entre duas grandezas vizinhas (quando sua desigualdade é inferior a esse mesmo 
valor). É por isso que um fator essencial das ilusões geométricas é a diferença 
entre as duas grandezas principais comparadas (L, - L,). 


Mas, além dessas ações de centração que são pois fundamentais nos efeitos 
de campo, intervém também ações de decentração quando várias centrações 
sucessivas são relacionadas e que tem como resultado um conjunto de compensa- 
ções relativas (donde as relações L,/Lmax e 1/S que intervêm também na expres- 
são quantitativa das ilusões). Ora, essa descentralização já constitui um começo 
de atividade perceptiva; é por isso que dizíamos há pouco que o estudo das rela- 
ções intervindo nos efeitos de campo vem se inscrever no quadro da atividade 
perceptiva em geral, desde que procedamos por composição detalhada e quantita- 
tiva dessas relações. Mas nossa finalidade não é aqui desenvolver o resultado de 
nossas pesquisas sobre essas questões complexas: é simplesmente mostrar que, 
inspirando-nos nas noções de equilíbrio e de totalidade, próprias à teoria gestal- 
tista, e retendo no campo perceptivo a noção das totalidades irreversíveis à 
composição não aditiva (Gestalt propriamente dita), podemos prosseguir mais 
adiante a análise colocando-nos dum ponto de vista ao mesmo tempo mais relati- 
vista e mais quantitativo. Convém acrescentar que toda análise quantitativa con- 
duz, nesse terreno, a um modo de composição probabilista das estruturas percep- 
tivas, essa característica probabilista da percepção oposta à característica de 
necessidade intrínseca própria às estruturas lógico-matemáticas sendo, sem dúvi- 
da, o que presta contas precisamente da oposição entre as composições irrever- 
siíveis ou não aditivas e as composições reversíveis. 

Concluindo, resta-nos muito a reter da teoria da Gestalt nas investigações 
atuais sobre a inteligência e sobre a percepção. Acreditamos mesmo, de nossa 
parte, conservar o essencial com as noções de equilíbrio e de totalidade (ou de 
estruturas de conjunto organizadas). 

Entretanto é necessário completar o ponto de vista da Gestalt invocando ou- 
tras estruturas ainda, como fizemos a respeito das estruturas reversíveis da inteli- 
gência. Mas, procedendo assim, não nos afastamos, acreditamos, das hipóteses 
fundamentais de partida que inspiraram os trabalhos dos primeiros gestaltistas: 
somos, num sentido, quase mais fiéis a eles do que eles mesmos o foram. .. Com 
efeito, apelar para a noção de equilibrio, é não somente se engajar em utilizar 
todas as formas de equilíbrio e não exclusivamente essas formas particulares 
constituídas pela Gestalt no sentido restrito; mas é ainda e principalmente se 
engajar na direção de uma utilização plena e inteira da noção de reversibilidade, 
porque o equilíbrio se define precisamente pela reversibilidade ! Que taxemos tais 
ensaios como contrários ao espirito da teoria da Gestalt, como fazem alguns 
partidários ortodoxos da Escola, ou que os batizemos de “neogestaltistas”. como 
fez um dia nosso amigo Meili, isso não tem importância; devemos simplesmente, 
concluindo esse estudo, marcar nossa dívida com relação a uma doutrina que 
influenciou profundamente a psicologia contemporânea e da qual são devedores 
os pesquisadores independentes tanto quanto os outros. 


VII 


Necessidade e significação das pesquisas 
comparativas em psicologia genêtica 


Chamamos psicologia genética o estudo do desenvolvimento das funções 
mentais, podendo esse desenvolvimento fornecer uma explicação, ou pelo menos 
um complemento de informação, quanto a seus mecanismos no estado acabado. 
Em outras palavras, a psicologia genética consiste em utilizar a psicologia da 
criança para encontrar a solução dos problemas psicológicos gerais. 

De tal ponto de vista, a psicologia da criança constitui um instrumento 
insubstituível de investigação psicológica, e começamos a duvidar disso cada vez 
mais atualmente. Mas freqientemente tomamos consciência que seu papel poderia 
ser quase tão importante em sociologia. Augusto Comte sustenta, com razão, que 
um dos fenômenos mais importantes das sociedades humanas é a ação formadora 
de cada geração sobre a seguinte e Durkheim conclui na origem coletiva dos senti- 
mentos morais, das normas jurídicas e da lógica mesma; mas ele só é um método 
experimental para verificar tais hipóteses; é o estudo da socialização progressiva 
do indivíduo, quer dizer, a análise de seu desenvolvimento em função das influên- 
cias sociais particulares ou gerais que ele sofre durante sua formação. 

Toda pesquisa comparativa versando sobre civilizações e meios sociais dife- 
rentes leva a levantar desde o começo o problema da delimitação dos fatores pró- 
prios ao desenvolvimento espontâneo e interno do indivíduo e dos fatores coleti- 
vos ou culturais específicos da sociedade ambiente considerada. Ora, essa 
delimitação à qual não poderíamos escapar, pode levar a resultados inesperados. 
No domínio da psicologia afetiva, por exemplo, as primeiras doutrinas freudianas 
forneciam o modelo de um desenvolvimento individual endógeno, tão endógeno 
mesmo que os diferentes estágios propostos, em particular o das reações chama- 
das “edipianas”, eram apresentados como devidos essencialmente às manifesta- 
ções sucessivas de um único e mesmo “instinto”, quer dizer, de tendências inter- 
nas que não deveriam nada à sociedade como tal. Sabemos bastante, pelo 
contrário, que todo um grupo de psicanalistas contemporâneos chamados “cultu- 
ralistas” (E. Fromm, K. Horney, Kardiner, Glover, etc., aos quais se juntaram 
antropólogos como R. Benedict e M. Mead) sustenta atualmente a hipótese de 
uma dependência estreita dos diversos complexos freudianos, e notadamente das 
tendências edipianas com relação ao meio social ambiente. 


Os fatores do desenvolvimento 


No domínio das funções cognitivas, o único com o qual nos ocuparemos no 
que se segue, a principal vantagem das pesquisas comparativas é igualmente de 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 409 


permitir a dissociação dos fatores individuais e coletivos do desenvolvimento. 
Mas ainda convém introduzir primeiramente algumas distinções necessárias 
quanto aos fatores a considerar. 

|l — Os fatores biológicos. Existem primeiramente fatores biológicos liga- 
dos ao “sistema epigenético” (interações do genome e do meio físico durante o 
crescimento) e que se manifestam em particular pela maturação do sistema nervo- 
so. Esses fatores, que não devem sem dúvida nada à sociedade, desempenham um 
papel ainda pouco conhecido, mas sua importância não permanece menos deci- 
siva no desenvolvimento das funções cognitivas, e é importante pois de reservar 
sua influência como possível. Em particular, o desenvolvimento de um “epigenó- 
tipo” implica, do ponto de vista biológico, a intervenção dos estágios que apresen- 
tam um caráter “seglencial” (cada um sendo necessário ao seguinte, numa ordem 
constante), de “créodes” (canalizações ou caminhos necessários do desenvolvi- 
mento de cada setor particular do conjunto) e de uma “homeoresia ” (equilíbrio 
cinético tal que uma desviação com relação ao “créodes” é mais ou menos com- 
pensada com tendência à volta ao caminho normal). Ora, essas são características 
que acreditamos até aqui poder encontrar no desenvolvimento das operações e das 
estruturas lógico-matemáticas da inteligência, o que, se a hipótese é verdadeira, 
suporia naturalmente uma certa constância ou uniformidade do desenvolvimento, 
quaisquer que sejam os meios sociais no seio dos quais se formam os indivíduos. 
Inversões na sucessão dos estágios ou das modificações profundas em seus carac- 
teres, de um meio a outro, provariam pelo contrário que esses fatores biológicos 
de base não intervêm na evolução cognitiva dos indivíduos. Há pois aí um pri- 
meiro problema fundamental cuja solução exige pesquisas comparativas extensas. 

2 — Os fatores de equilibração das ações. Mas o exame do desenvolvimento 
das operações intelectuais, nos numerosos países de alta cultura onde o estudo de 
nossos estágios foi retomado, mostra de antemão que os fatores psicobiológicos 
estão longe de ser os únicos da obra. Se, com efeito, só interviesse uma ação conti- 
nua da maturação interna do organismo e do sistema nervoso, os estágios não se- 
riam somente sequenciais, mas igualmente ligados a datas cronológicas relativa- 
mente constantes, como o são a coordenação da visão e da preensão por volta de 
4-5 meses, o aparecimento da puberdade, etc. Ora, segundo os indivíduos e os 
meios familiares, escolares ou sociais, em geral, encontramos, nas crianças de 
uma mesma cidade, adiantamentos ou atrasos frequentemente consideráveis, que 
não contradizem a ordem de sucessão que permanece constante, mas que mos- 
tram que aos mecanismos epigenéticos se acrescentam outros fatores. 

Um segundo grupo de fatores deve pois ser introduzido, cujas ligações possi- 
veis com a vida social devem ser reservadas, mas que, em princípio, dependem 
ainda das atividades próprias ao comportamento em geral, sob seus aspectos 
psicobiológicos tanto quanto coletivos; são os fatores de equilibração tomados no 
sentido de auto-regulação, logo num sentido mais próximo das homeostasias que 
da homeoresia. O desenvolvimento individual é, com efeito, função das atividades 
múltiplas em seus aspectos de exercício, de experiência ou de ação sobre o meio, 
etc. Ele intervém pois incessantemente entre essas ações de coordenações particu- 


410 PIAGET 


lares ou cada vez mais gerais. Essa coordenação geral das ações supõe então siste- 
mas múltiplos de auto-regulação ou equilibração, que dependerão das circuns- 
tâncias tanto quanto das potencialidades epigenéticas. Ora, as operações mesmas 
da inteligência podem ser consideradas como as formas superiores dessas regula- 
ções, o que mostra ao mesmo tempo a importância do fator de equilibração e sua 
independência relativa com relação às preformações biológicas. Ê 

Mas, aqui ainda, se os fatores de equilibração podem ser concebidos como 
muito gerais e relativamente independentes dos meios sociais particulares, a hipó- 
tese pede uma verificação comparativa. Observamos, em particular, tais processos 
de equilibração na constituição das noções de conservação, cujos estágios mani- 
festam, em nossos meios, não somente uma sucessão sequencial, mas a elabora- 
ção de sistemas de compensações cujas características intrínsecas são muito típi- 
cas dessas regulações por etapas sucessivas. Mas se os estágios particulares se 
encontram em toda parte? Se for afirmativo, teríamos, não uma verificação da 
hipótese, mas pelo menos um índice mais ou menos favorável. Em caso negativo, 
seria pelo contrário a marca de influências culturais e educativas particulares e 
variáveis. 

3 — Os fatores sociais de coordenação interindividual. Voltando agora aos 
fatores sociais, é conveniente introduzir a seu respeito uma distinção essencial, e 
tão importante quanto, no terreno psico-biológico, a das potencialidades epigené- 
ticas e das regulações ou equilibrações efetivas que se manifestam ou se cons- 
troem durante as atividades próprias ao comportamento. Essa distinção é a das 
interações ou coordenações sociais (ou interindividuais) gerais que são comuns a 
todas as sociedades, e das transmissões ou formações culturais e educativas parti- 
culares que variam de uma sociedade para outra ou de um meio social restrito a 
um outro. 

Que estudemos a criança em Genebra, em Paris, em Nova York ou em Mos- 
cou, mas também nas montanhas do Irã, no coração da África ou numa ilha do 
Pacífico, observamos em toda parte algumas condutas sociais de troca entre 
crianças ou entre crianças e adultos, que agem por seu funcionamento mesmo, 
independentemente do conteúdo das transmissões educativas. Em todos os meios, 
indivíduos se informam, colaboram, discutem, se opõem, etc., e essa constante 
troca interindividual intervém durante todo o desenvolvimento segundo um pro- 
cesso de socialização que interessa tanto à vida social das crianças entre si quanto 
suas relações com os mais velhos ou adultos de qualquer idade. Assim como 
Durkheim invocava mecanismos sociais gerais, sustentando que “sob as civiliza- 
ções, há a civilização”, assim também é indispensável para tratar das relações 
entre as funções cognitivas e os fatores sociais, começar por opor as “coordena- 
ções gerais” das ações coletivas às transmissões culturais particulares que se cris- 
talizaram de forma diferente em cada sociedade. É assim que, no caso de voltar- 
mos a encontrar nossos estágios e nossos resultados em todas as sociedades 
estudadas, isso ainda não provaria em nada que esses desenvolvimentos conver- 
gentes são de natureza estritamente individual; como é evidente que a criança 
beneficia em toda parte de contatos sociais desde a idade mais tenra, isso ainda 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 411 


mostraria mais que existem certos processos comuns de socialização que interfe- 
rem com os processos de equilibração examinados precedentemente. 

Essas interferências são mesmo tão prováveis, e provavelmente tão estreitas, 
que podemos de antemão fazer a hipótese que deveria ser confirmada ou desmen- 
tida por futuros estudos comparativos que, no domínio das funções cognitivas, 
pelo menos, é muito possível que a coordenação geral das ações, cuja equilibração 
progressiva parece constitutiva da formação das operações lógicas ou lógico-ma- 
temáticas, interesse tanto às ações coletivas ou interindividuais quanto às ações 
individuais. Em outras palavras, que se tratem de ações executadas individual- 
mente ou de ações feitas em comum com trocas, colaborações, oposições, etc., 
encontrariamos as mesmas leis de coordenação e de regulação que atingiriam as 
mesmas estruturas finais de operações ou de cooperações, enquanto cooperações; 
poderíamos assim considerar a lógica, como forma final das equilibrações, como 
sendo simultaneamente individual e social, individual enquanto é geral ou comum 
a todos os indivíduos, e igualmente social enquanto é geral ou comum a todas as 
sociedades. 

4 — Os fatores de transmissão educativa e cultural. Em compensação, além 
desse núcleo funcional e em parte sincrônico, mas suscetível de construção e de 
evolução, característica das trocas interindividuais, é necessário naturalmente 
considerar o fator principalmente diacrônico, constituído pelas tradições culturais 
e as transmissões educativas que variam de uma sociedade para outra. É nessas 
pressões sociais diferenciais que pensamos em geral falando de “fatores sociais” e 
é evidente que, na medida em que os processos cognitivos podem variar de uma 
sociedade para outra, é nesses grupos de fatores, distinto do precedente, que seria 
conveniente pensar, começando pelas diversas línguas que são suscetíveis de exer- 
cer uma ação mais ou menos forte, senão sobre as operações mesmas, pelo menos 
no detalhe das conceitualizações (conteúdo das classificações, das relações, etc.). 


As pesquisas comparativas no domínio dos 
processos cognitivos 


Uma vez admitida essa classificação em quatro espécies de fatores, segundo 
os tipos gerais de relações entre indivíduo e meio social, procuremos destacar a 
utilidade essencial que representariam as pesquisas comparativas quanto a nosso 
conhecimento dos processos cognitivos. O problema central a esse respeito é o da 
natureza das operações intelectuais e especialmente das estruturas lógico-mate- 
máticas. Um certo número de hipóteses é possível e corresponde, entre outros, aos 
quatro fatores distinguidos precedentemente, eventualmente com subdivisões 
suplementares. 

Fatores biológicos e fatores de coordenação das ações. Uma primeira inter- 
pretação consistiria em interpretá-los, senão como inatos, pelo menos como resul- 
tando exclusivamente dos fatores biológicos de natureza epigenética (maturação, 
etc.). É nessa direção que se orienta K. Lorenz, um dos fundadores da etologia 


412 PIAGET 


contemporânea, que acredita em conhecimentos a priori e os interpreta sobre o 
modo dos instintos. 

Do ponto de vista dos dados comparativos que podemos e poderemos ainda 
recolher, há duas questões a distinguir: encontraremos sempre os mesmos estágios 
de desenvolvimento, levando em consideração, naturalmente, correções e aperfei- 
çoamentos eventuais para se trazer aos quadros comuns? Encontrá-los-emos sem- 
pre nas mesmas idades médias? Para responder a essas duas espécies de questões, 
e, além disso, útil é mesmo, quase necessário, dispor de elementos de referência, 
comparando a evolução das reações com as provas operatórias (conservações, 
classificações e inclusões, seriações, correspondência numérica, etc.) à evolução 
com a idade das reações a provas de simples atuações intelectuais, como as de que 
nos servimos em geral para determinar um quociente intelectual. 

Ora, as pesquisas comparativas estão apenas no começo e seria muito impru- 
dente já tirar as conclusões, sendo dado o material do qual deveríamos dispor e as 
grandes dificuldades linguísticas e outras, que existem para multiplicá-las, sem 
falar da longa iniciação necessária para dominar os métodos de exame, tanto mais 
delicados a serem utilizados quanto se referem mais ao funcionamento operatório. 
Mas os primeiros trabalhos deixam entrever certos resultados que permitem pelo 
menos indicar o que poderia ser uma linha de interpretação, no caso em que se 
revelassem generalizáveis. 

No Irã, por exemplo, Mohseni (1966) interrogou crianças escolarizadas da 
cidade de Teerã e jovens analfabetos do campo por meio de provas de conserva- 
ção, por um lado, e de testes de atuação (porteus, provas gráficas, etc.), por outro. 
Os três principais resultados obtidos sobre crianças de 5 a 10 anos são os seguin- 
tes: (a) Encontramos, em suas grandes linhas, os mesmos estágios na cidade e no 
campo, no Irã e em Genebra, etc. (sucessão das conservações da substância, do 
peso e do volume, etc.). — (b) Observamos uma decalagem sistemática de 2-3 
anos para as provas operatórias entre os aldeões e os citadinos, mas mais ou 
menos as mesmas idades em Teerã e na Europa. — (c) O atraso é mais conside- 
rável, 4 e principalmente 5 anos, para as provas de atuação entre aldeões e cita- 
dinos,?*º a ponto de os aldeões aparecerem como débeis mentais sem as provas 
operatórias. 

Supondo que tais resultados se encontram alhures, seriamos levados às 
seguintes hipóteses: 

a) Uma verificação mais geral da constância na ordem dos estágios tenderia 
a mostrar seu caráter sequencial, no sentido indicado acima. Até aqui essa ordem 
constante parece ser confirmada — em Hong Kong segundo Goodnow (1962), em 
Aden segundo Hyde (1959), na Martinica segundo Boisclair, na África do Sul 
segundo Price-Williams (1961) —, mas é evidente que é necessário dispor de mui- 
tos outros dados ainda. Ora, na medida em que poderíamos continuar a falar de 
ordem sequencial, haveria aí uma analogia com o desenvolvimento epigenético no 
sentido de Waddington e por conseguinte uma certa probabilidade de intervenção 


38 As crianças escolarizadas de Teerã têm 1 ou 2 anos de atraso sobre as crianças européias ou americanas. 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 413 


no fator I que distinguimos acima. Mas até que ponto? Para que possamos invo- 
car com certeza os fatores biológicos de maturação, seria necessário estarmos 
aptos a constatar a existência, não somente de uma ordem sequencial dos está- 
gios, mas ainda de algumas datas médias, cronologicamente fixas, de apareci- 
mento: ora, os resultados de Mohseni mostram, pelo contrário, um atraso sistemá- 
tico dos pequenos camponeses sobre as crianças da cidade, o que indica, 
naturalmente, que outros fatores, além dos de maturação, intervêm. 

Em compensação, no domínio da representação ou pensamento, poderíamos 
talvez encontrar em toda parte uma mesma data importante, que é a da constitui- 
ção da função semiótica ou simbólica, que aparece em nossos meios entre 1 e 2 
anos mais ou menos: formação do jogo simbólico das imagens mentais, etc., e 
principalmente, desenvolvimento da linguagem. Parece que o fator principal que 
torna possível essa função semiótica é a interiorização da imitação: essa, no 
nível sensório-motor, já constitui uma espécie de representação em ato, enquanto 
cópia motora de um modelo, de tal forma que seus prolongamentos, em imitação 
diferenciada primeiramente, depois em imitação interiorizada, permitem a forma- 
ção de representações em imagens, etc. Mas esses processos de reações diferen- 
ciadas, depois de interiorização, supõem naturalmente algumas condições neuro- 
lógicas, por exemplo a travagem no nível de algumas escalas na atualização dos 
esquemas de ações, sem efetuação completa. Um estudo comparativo das formas 
sensório-motoras de imitação e das datas de aparecimento da função semiótica a 
partir da imitação diferenciada, mostraria talvez algumas regularidades cronoló- 
gicas, não somente na ordem sequencial dos estágios, mas nas datas mais ou 
menos fixas de formação: nesse caso, nós nos aproximaríiamos ainda mais dos 
fatores possíveis de maturação que estão em relação com o sistema epigenético 
(intervenção dos centros da linguagem, etc.). 

b) O segundo resultado nítido das pesquisas de Mohseni é o atraso muito 
geral das crianças do campo sobre as de Teerã, no que concerne tanto às provas 
operatórias (conservação) quanto aos testes de atuação. Essa decalagem prova 
pois, certamente, a intervenção de fatores distintos dos de simples maturação 
biológica. Mas aqui podemos hesitar entre os três grupos de fatores chamados 
acima 2, 3 e 4, quer dizer, os fatores de atividade e de equilibração das ações, os 
fatores de interação interindividual geral e os de transmissão educativa e cultural. 
Com efeito, cada um desses fatores poderia intervir. No que concerne ao fator 2, 
o autor observou a carência espantosa de atividade dos pequenos camponeses, 
que, não somente não têm em geral escolas, mas ainda nenhum brinquedo, senão 
pedras ou pedaços de madeira e testemunham de uma passividade e de uma apatia 
muito constantes. Encontramo-nos pois em presença ao mesmo tempo de um 
fraco desenvolvimento das coordenações de ações individuais (fator 2), interindi- 
viduais (fator 3), e de transmissões educativas que são reduzidas por serem as 
crianças analfabetas (fator 4), o que implica uma convergência desses três gru- 
pos de fatores reunidos. Como então distingui-los? 

c) É sobre esse ponto que o terceiro resultado obtido por Mohseni é instru- 
tivo: apesar da situação lamentável dos pequenos camponeses, acontece que suas 


414 PIAGET 


reações às provas operatórias sejam superiores a seus resultados aos testes de 
atuações; ainda que devêssemos considerá-los como débeis ou mesmo imbecis 
sobre a base somente dos testes de atuações intelectuais, eles só têm 2-3 anos de 
atraso nas provas de conservações, sobre os jovens escolares de Teerã. Aqui 
ainda, é evidente que não poderíamos correr o risco de generalizar antes de estar- 
mos de posse de numerosos dados provenientes de meios ainda bem diferentes. 
Mas, para mostrar o interesse do problema e a multiplicidade das situações distin- 
tas que devem ser estudadas, assinalemos que Boisclair, com Laurendau e Pinard, 
começou o exame na Martinica de uma população de escolares que não eram 
analfabetos pois seguiam o ensinamento de escolas primárias segundo o programa 
francês, e que testemunham entretanto de um atraso de por volta de 4 anos nas 
principais provas operatórias; nesse caso, o atraso parece ser imputável às carac- 
terísticas gerais das interações sociais (fator 3 em ligação com 2), mais do que a 
uma carência nas transmissões educativas (fator 4). 

No caso do Irã, o interessante avanço dos êxitos nas provas de conservação, 
indice de mecanismos operatórios, sobre as atuações utilizadas de outra maneira, 
parece indicar uma dualidade de natureza entre coordenações muito gerais neces- 
sárias ao funcionamento da inteligência e das aquisições mais especiais relativas 
a problemas particulares. É o que poderia conduzir, em caso de multiplicação de 
tais resultados, a distinguir os fatores 2 e 3 considerados juntos (coordenações ge- 
rais das ações, sejam elas individuais ou interindividuais) do fator 4 de transmis- 
são e educação: as provas operatórias, dito de outra forma, dariam lugar a melho- 
res resultados porque estão ligadas às condições necessárias a toda inteligência, 
necessárias enquanto produtos de equilibração progressiva e não enquanto condi- 
ções biológicas preliminares, enquanto as atuações sofreriam atrasos em função 
de fatores culturais mais especiais, e, no caso particular, especialmente 
deficientes. 

Tais são, nas grandes linhas, as possibilidades de exploração que poderiam 
fornecer dados comparativos do gênero dos que Mohseni recolheu, mas com a 
condição de multiplicá-los. Mas essas são somente as grandes linhas e é impor- 
tante agora examinar mais em detalhe o papel dos fatores sociais dependendo dos 
grupos 3 e 4. 

Fatores sociais de transmissão educativa. Se as estruturas operatórias não se 
explicavam, conforme a hipótese que desenvolvemos, por leis das coordenações 
mais gerais da ação, seria necessário então pensar em fatores mais restritos, dos 
quais os dois principais poderiam ser, por exemplo, uma ação educativa do adul- 
to, análoga às que engendram os imperativos morais, e a linguagem mesma, 
enquanto cristalização de sintaxes e de semânticas que, sob suas formas gerais, 
comportam uma lógica. 

a) A hipótese de uma ação formadora da educação do adulto contém segura- 
mente uma parte de verdade, porque, mesmo na perspectiva das coordenações ge- 
rais das ações, materiais ou interiorizadas em operação, o adulto, estando mais 
adiantado que a criança, pode ajudá-la a acelerar sua evolução durante processos 
educativos familiares ou escolares. Mas a questão está em saber se esse fator 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 415 


desempenha um papel exclusivo: era a idéia de Durkheim pela qual a lógica 
emana, como a moral e o direito, da estrutura total da sociedade e se impõe ao 
indivíduo, graças às opressões sociais e principalmente às opressões educativas; é 
um pouco também a idéia de Bruner (1964) que, pensando em processos educati- 
vos menos escolares e mais próximos dos modelos americanos da aprendizagem, 
sustentou que podemos aprender qualquer coisa, em qualquer idade, sendo de 
forma adequada. 

No que concerne à perspectiva de Durkhein, mas não à de Bruner, que 
depende de verificações de laboratório *º mais que de estudos comparativos, fatos, 
como os que foram observados na Martinica pelos psicólogos canadenses, pare- 
cem indicar que uma escolaridade comum, com programa francês, o que facilita 
a comparação, não é suficiente para assegurar um desenvolvimento normal das 
estruturas operatórias, pois há 3 ou 4 anos de atraso, nas crianças de outros meios 
culturais. Mas, aqui ainda, é preciso naturalmente se ater de conclusões apressa- 
das: restaria em particular dissociar as influências familiares e escolares. Tudo o 
que afirmamos é pois, simplesmente, que o método comparativo está, nesse ponto 
como em outros, apto a fornecer as soluções procuradas. 

b) Quanto ao grande problema da linguagem, em suas interações com o 
desenvolvimento operatório, começamos a ver claramente esse problema, com a 
continuação das pesquisas de Sinclair sobre o desenvolvimento lingiístico da 
criança e de Inhelder e Sinclair sobre o papel da linguagem nas experiências de 
aprendizagem das estruturas operatórias. 

Nós nos limitaremos, sem entrar no detalhe dos métodos e dos resultados 
que serão descritos em outra parte, a assinalar as perspectivas que abrem as pes- 
quisas de Sinclair do ponto de vista comparativo. Lembremos, por exemplo, a 
experiência sobre dois grupos de crianças, um com mais idade de posse das estru- 
turas de conservação sob uma forma nítida (com argumentos explícitos) e o outro 
mais jovem com um nível igualmente não equívoco de não-conservação; pedimos 
então aos sujeitos desses dois grupos para descrever, não o material que serviu a 
essas determinações preliminares, mas alguns objetos atribuídos a personagens 
que são representantados por bonecas (um lápis pequeno e grosso, um outro gran- 
de e fino; várias bolas, um menor número de bolas mais volumosas, etc.). Consta- 
tamos então, de forma muito significativa, que a linguagem utilizada, nos dois 
grupos, difere quanto às expressões de comparação empregadas: enquanto os 
sujeitos sem conservação utilizam principalmente o que o lingiúista Bull chamou 
“escalares” (“grande” e “pequeno”, “muito” ou “pouco”, etc.), os sujeitos de nível 
operatório empregam “vetores” (“mais”, e “menos”, etc.); ademais, a estrutura da 
expressão difere segundo os modos binário (“este é o maior e mais fino”) ou quar- 
tenário (“lá ele é mais grosso e o outro é fino; lá ele é grande e o outro pequeno”, 
etc.). Há pois correlação estreita entre a operatividade e a linguagem, mas em que 
sentido? As experiências de aprendizagem, que não nos concernem diretamente 


3º Essas verificações foram empreendidas em Genebra por Inhelder e Bovet; elas estão atualmente muito 
longe de verificar as hipóteses de Bruner. . 4 


416 PIAGET 


aqui, mostram que levando os sujeitos não operatórios a se servirem de expressões 
dos mais velhos, só obtemos um fraco progresso operatório (1 caso em 10); a 
questão subsiste em estabelecer se se trata de uma ação da linguagem como tal ou 
de uma influência dos exercícios de análise que a aprendizagem acarreta e se al- 
guns progressos não teriam ocorrido sem essa aprendizagem pelo desenvolvi- 
mento dos esquemas em função de atividades diversas. Parece pois que é a opera- 
tividade que conduz à estrutura e à linguagem, por escolha no seio dos modelos 
preexistentes da lingua naturalmente, mais do que o inverso. 

Vemos então de antemão o grande interesse que haveria em multiplicar expe- 
riências dessa espécie em função de línguas diversas. Sinclair encontrou os mes- 
mos resultados em francês e em inglês. Mas resta recorrer a línguas bem diferen- 
tes. Em turco, por exemplo, só existe um vetor, que corresponde à nossa palavra 
“ainda”; para dizer “mais”, usaríamos “ainda muito”, e para dizer “menos”, 
“ainda pouco”. É evidente que em outras línguas, encontraremos muitas outras 
combinações. Nesse caso, seria de grande interesse examinar o prazo de desenvol- 
vimento das estruturas operatórias em função da língua dos sujeitos e retomar as 
experiências de Sinclair sobre crianças de níveis diferentes. Supondo que a evolu- 
ção das estruturas de pensamento permaneça a mesma apesar das variedades 
linguísticas, esse seria um dado de fato de uma certa importância, esse que pleitea- 
ria em favor dos fatores de equilibração progressiva e autônoma. Supondo, pelo 
contrário, que haja modificações das operações segundo os meios linguísticos, 
restaria examinar de perto o sentido dessas dependências, segundo o modelo expe- 
rimental proposto por Sinclair. 


Conclusão 


Numa palavra, a psicologia que elaboramos em nossos meios caracterizados 
por uma certa cultura, uma certa língua, etc., permanece essencialmente conjetu- 
ral enquanto não fornecemos o material comparativo necessário a título de con- 
trole. E, para permanecer ainda nas funções cognitivas, as pesquisas comparativas 
que chamamos de nossos votos, não concernem somente à criança, mas ao desen- 
volvimento em seu conjunto, inclusive aos estágios finais adultos. Quando Lévy- 
Bruhl levantou o problema da “prê-lógica” própria à “mentalidade primitiva”, 
sem dúvida ele exagerou as oposições, assim como sua retratação póstuma exage- 
ra talvez em sentido inverso à generalidade das estruturas; mas, subsiste uma série 
de questões ainda não resolvidas, parece-nos, pelos bons trabalhos de Lévi-Straus; 
por exemplo qual é o nível operatório dos adultos, numa organização tribal, no 
que concerne à inteligência técnica inteiramente negligenciada por Lévy-Bruhl, a 
inteligência verbal, a solução de problemas lógico-matemáticos elementares, etc.? 
Evidentemente, somente conhecendo a situação que é a dos adultos mesmos, os 
dados genéticos relativos aos níveis de idade inferior teriam toda sua significação. 
É, em particular, muito possível, e é a impressão que nos dão os trabalhos etno- 
gráficos conhecidos, que em muitas sociedades, o pensamento adulto não ultra- 
passa o nível das operações “concretas” e não atinge pois o das operações propo- 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 417 


sicionais que se elaboram entre 12 e 15 anos em nossos meios: seria então de um 
grande interesse saber se os estágios anteriores se desenvolvem mais lentamente 
nas crianças de tais sociedades ou se a etapa de equilíbrio que não será ultrapas- 
sada é atingida como para nós aos 7-8 anos ou somente com um fraco atraso. 


IX 


A vida e o pensamento do ponto de vista 
da psicologia experimental e da epistemologia genética 


Do ponto de vista da psicologia experimental 
e da epistemologia genética 


1. Apoiando-se sobre argumentos que conservam aliás todo seu interesse, A. 
Lalande atribuía à evolução do pensamento lógico uma direção contrária à da 
evolução vital. Sabemos como Bergson retomou essa oposição. 

A hipótese spenceriana de uma continuidade entre a evolução da vida e a da 
inteligência permanece entretanto a mais plausível, com a condição naturalmente 
de ser rejuvenescida na medida das contribuições da biologia e da psicologia. 

Uma série de trabalhos deveria ser discutida a esse respeito. Nós nos limita- 
remos a lembrar o bom livro de Th. Ruyssen, L Evolution Psychologique du 
Jugement. 

2. Nós nos sujeitaremos, por método, a só utilizar constatações e interpreta- 
ções já elaboradas no domínio da biologia e da psicologia científicas, esforçando- 
nos a resistir às tentações da especulação. Acreditamos, com efeito, que não existe 
psicologia filosófica, mas somente uma psicologia experimental e uma filosofia da 
psicologia no sentido de uma epistemologia do conhecimento psicológico. Uma 
psicologia filosófica se propondo a fornecer correções ou adjunções aos resulta- 
dos da biologia ou da psicologia experimentais nos parece depender do mesmo gê- 
nero de inspiração que a “Naturfilosofia ” do século XIX e ser dotada aos mesmos 
destinos. 

3. Três espécies de problemas atualmente estudados pelos psicólogos encon- 
tram de perto a questão central das relações entre a vida e o pensamento: o das 
interações funcionais entre a maturação do sistema nervoso e o meio (experiên- 
cia); o das estruturas em geral e de sua significação psico-biológica e enfim (a pro- 
pósito notadamente das estruturas) o do paralelismo ou do isoformismo 
psico-fisiológicos. 


As interações funcionais entre o organismo e o meio 


4. Ao estudarmos a evolução de um mecanismo perceptivo (por exemplo a 
constância da grandeza em profundidade, ou a reação às “boas formas”, etc.,), a 
aquisição de um esquema de inteligência sensório-motora (por exemplo o esque- 
ma do objeto permanente ou a coordenação dos movimentos segundo um “grupo 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 419 


de deslocamentos”, etc.) ou mesmo as grandes etapas do desenvolvimento da 
inteligência na criança (por exemplo o conjunto das transformações marcando 
por volta de 7 anos a passagem das representações pré-operatórias aos primeiros 
sistemas de operações lógico-matemáticas), nos chocamos incessantemente com o 
mesmo problema, que reaparece sob formas múltiplas e ainda não pôde dar lugar 
a soluções satisfazendo todos os pesquisadores: o da influência respectiva das 
montagens hereditárias (mecanismos presentes desde o nascimento ou subordi- 
nados a uma maturação interna progressiva) e da experiência adquirida ou do 
exercício. 

5. Para alguns autores os mecanismos cognitivos são adquiridos em função 
da experiência, em todos os domínios ou em alguns dentre eles (cf. a posição radi- 
cal de Pieron, no terreno da percepção); para outros, o fato de ser inato desempe- 
nha um papel considerável e determinável, no domínio perceptivo (cf. a posição de 
Michotte, aliás atenuada recentemente) ou nas montagens sensório-motoras (cf. 
Wallon e Bergeron, etc., antes do renovamento da reflexologia pavloviana); a 
maior parte dos autores admite as duas espécies de fatores, mas se recusam a uma 
dosagem exata, em geral e mesmo sobre algum ponto particular. 

6. Está claro que tal problema psicológico constitui um caso particular da 
questão biológica geral das relações entre as características genotípicas e as 
características fenotípicas. Poderíamos tentar a esse respeito (aliás já insistimos) 
uma espécie de paralelismo entre as soluções biológicas do problema da variação 
ou da evolução, as soluções psicológicas do problema da inteligência e as grandes 
correntes epistemológicas mesmas. 

7. É provável que o debate permanecerá em suspenso enquanto não forem 
destacados, no plano orgânico como tal, os mecanismos do crescimento (ontogê- 
nese) em suas relações com a hereditariedade, e principalmente as relações filoge- 
néticas entre a hereditariedade e o meio: a ausência de um tertium sólido entre o 
mutacionismo e a hipótese da hereditariedade da aquisição entrava também 
lamentavelmente a explicação psicológica e a explicação biológica. 

8. Mas na falta de análise causal ou estrutural, é interessante destacar as 
analogias funcionais. Deve-se observar primeiramente que em biologia, não 
apreendemos jamais um caráter genótipo no estado isolado, porque ele está sem- 
pre associado, mesmo no laboratório, a um fenótipo ligado ao meio considerado: 
genótipo e fenótipo não se tornam pois antítese num mesmo plano, porque o genó- 
tipo é o conjunto das características comuns a todos os acomodados fenotípicos 
compatíveis com uma raça pura determinada, inclusive a capacidade de produzir 
esses acomodados. Em outras palavras, é necessário levar em consideração o con- 
junto das possibilidades e não somente das características atualizadas, de tal 
forma que os fatos observados são sempre relativos a um equilíbrio entre as duas 
espécies de fatores de hereditariedade e de meio e não a um único dentre eles. 

9. De uma maneira geral, o organismo assimila incessantemente o meio à 
sua estrutura ao mesmo tempo que acomoda a estrutura ao meio, a adaptação 
podendo se definir como um equilíbrio entre tais trocas. 

10. Do ponto de vista psicológico essa noção de equilíbrio desempenha um 


420 PIAGET 


papel considerável e talvez sua importância não seja devida somente a nossa igno- 
rância dos limites entre o inato e o adquirido. A teoria da Gestalt teve o mérito, 
por exemplo, de mostrar que as “formas” perceptivas podiam se explicar por leis 
de equilíbrio independentemente dos limites em questão. Os esquemas da inteli- 
gência sensório-motora podem ser interpretados por um equilíbrio progressivo 
entre a assimilação e a acomodação e podemos prosseguir essa descrição funcio- 
nal nos níveis pré-operatórios e operatórios do pensamento mesmo. 

11. De tal ponto de vista, o resultado específico do pensamento seria de atin- 
gir um equilíbrio permanente entre a assimilação do universo ao sujeito e a 
acomodação do sujeito aos objetos, enquanto as formas orgânicas ou sensório- 
motoras e notadamente perceptivas só conhecem deslocamentos contínuos do 
equilíbrio: em outras palavras, O jogo reversível das antecipações e das reconsti- 
tuições mentais atingiria uma forma de equilíbrio ao mesmo tempo móvel e está- 
vel por oposição às configurações estáticas e instáveis. 


As estruturas 


12. Engajar-se no estudo das formas de equilíbrio faz com que interro- 
guemos novamente sobre a significação das estruturas. O problema está então em 
destacar as principais estruturas cognitivas e procurar suas relações com as estru- 
turas orgânicas. Toda gênese atinge uma estrutura e toda estrutura é uma forma 
de equilíbrio terminal comportando uma gênese. A oposição, que quis introduzir 
a fenomenologia entre a gênese e a estrutura, permanece pois fictícia. 

13. Existem dois tipos extremos de estruturas cognitivas, ligadas por nume- 
rosas cadeias intermediárias: a “Gestalt” perceptiva, de composição não aditiva e 
irreversível, e as estruturas operatórias da inteligência, de composição aditiva e 
fundamentadas sobre as duas formas complementares de reversibilidade: a inver- 
são ou a negação e a reciprocidade (agrupamentos, grupos e redes). 

14. Ora, as estruturas de “Gestalt” puderam ser encontradas no plano orgã- 
nico. Mesmo se não verificamos as consegiências da teoria gestaltista no plano 
da organização cerebral, resta que um certo número de formas orgânicas depende 
da “Gestalt”, por exemplo durante os primeiros estágios embrionários. 

15. Psicologicamente, e notadamente no terreno das formas perceptivas, as 
características da “Gestalt” se explicam sem dúvida por um modo de composição 
probabilista. Os efeitos de campo procederiam assim de uma espécie de prepara- 
ção de amostras, causa de deformações, e, no caso das “boas formas”, essas 
deformações se compensariam ao máximo. A composição não aditiva própria à 
“Gestalt” não seria pois de natureza a conferir ao “todo” um poder particular de 
emergência: se é distinto da soma das partes (a mais, mas às vezes menos), seria 
simplesmente devido à indeterminação das composições. 

16. A percepção não depende aliás exclusivamente de tais mecanismos. 
Escalonada em vários planos ela começa por tais efeitos de campo, mas é em 
seguida estruturada por uma atividade perceptiva de natureza, entre outras, moto- 
ra e postural, e essa atividade pode ela mesma, a partir de um certo nível, ser 


PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA 421 


orientada pela atividade operatória. Quando atribuímos à percepção um jogo de 
“implicações”, de raciocínios inconscientes (Helmholtz), uma “prolepsis” (Von 
Weizsacker), etc., é conveniente pois determinar com cuidado a quais tipos de 
conexões ou de regulações esses vocábulos respondem quando correspondem a al- 
guma coisa. *º 

17. As estruturas operatórias que se desenvolvem na criança de 7 a 11-12 
anos (agrupamentos de classes e de relações), depois de 14-15 anos (grupos e 
redes das operações interproposicionais), atestam a reversibilidade progressiva da 
inteligência e parecem assim se afastarem cada vez mais das estruturas orgânicas 
conhecidas. 

18. Mas o problema subsiste de saber se os processos vitais estão inteira- 
mente submetidos à irreversibilidade conforme ao segundo princípio da termodi- 
nâmica (aumento da entropia com os modelos probabilistas que fornecemos) ou 
se, como pensavam Helmholtz, Ch.-Eug. Guye, e muitos outros, a organização 
viva supõe um mecanismo escapando a esse princípio e convergindo então com 
a reversibilidade característica da inteligência. 

19. No domínio restrito das estruturas nervosas, em particular, um conjunto 
de considerações atuais fala em favor de tal convergência: as aplicações por Mc 
Culloch e Pitts das estruturas lógicas às conexões neurônicas; os esforços de Ras- 
hevsky, Rapoport, etc., para constituir uma neurologia matemática implicando as 
mesmas estruturas (a lei do tudo ou nada supõe uma aritmética módulo 2 iso- 
morfa à algebra de Boole); os trabalhos da cibernética, notadamente o papel atri- 
buído ao feedback enquanto regulação semi-reversível e a utilização das estrutu- 
ras de grupo e de rede para caracterizar as fases de equilibração e a chegada ao 
equilíbrio terminal. 

20. Mas, por mais que consigamos entrever tais correspodências entre as 
estruturas operatórias do pensamento e algumas estruturas fisiológicas, isso não 
demonstra o caráter inato das primeiras. O que fornece uma estrutura hereditária 
(e isso pode ser aplicado a todos os problemas levantados pela maturação do sis- 
tema nervoso) é o quadro das possibilidades e das impossibilidades características 
de um nível dado. Trata-se pois de um conjunto de “trabalhos virtuais” cuja 
compensação define um estado de equilíbrio. Mas se há assim correspondência 
possível entre uma forma de equilíbrio mental, o problema das condições da atua- 
lização das operações e da construção progressiva do sistema das operações efeti- 
vas ou virtuais permanece inteiro. 


O paralelismo ou o isomorfismo psico-fisiológico 


21. O problema sendo assim posto, do paralelismo psico-fisiológico, vários 
autores se fecham artificialmente na seguinte alternativa: ou há paralelismo entre 


*º Mostramos com Lambercier que a prolepsis era inútil à explicação dos efeitos do quadrado em circulação 
avançada por Aursperg e Buhrmester para provar a tese de Weizacker. Não existem alguns fatos de antecipa- 
ção perceptiva. 


422 PIAGET 


os estados de consciência e certos estados fisiológicos, e a consciência só é então 
um reflexo sem atividade própria, ou a consciência age, e então ela intervém 
causalmente nos mecanismos orgânicos (interação). 

22. Uma tal alternativa provém do fato de que partidários ou adversários de 
uma ou da outra das duas soluções concordam em não raciocinar senão segundo 
algumas categorias (substância, energia, trabalho, causalidade, etc.). Os parale- 
lismos recusando com razão a atribuição dessas categorias à consciência acredi- 
tam então lhe retirar, ou são acusados de lhe retirar, toda eficácia, enquanto os 
interacionistas lhe restituem tais modos de existência ou de atividade, a preço de 
conflitos insolúveis com a biologia. 

23. Suponhamos, pelo contrário, que a consciência constitui exclusivamente 
um sistema de implicações (no sentido amplo) entre significações, sistema cujas 
formas superiores consistem em necessidades lógicas, ou em obrigações morais 
(implicações entre valores, imputação jurídica no sentido do normativismo de 
Kelsen, etc.) e cujas formas incoativas permanecem no estado de relações mais ou 
menos estruturadas entre sinais ou índices. Nesse caso, toda substancialidade, 
energia, causalidade, etc., permanecerão próprias às conexões materiais ou orgã- 
nicas, mas a consciência não apresentará uma originalidade ou uma especifi- 
cidade insubstituíveis: fonte da lógica e das matemáticas, para nos determos no 
conhecimento, ela constituirá o aspecto complementar indispensável à série 
causal. 

24. Podemos pois conceber, não um paralelismo termo a termo, mas um 
isomorfismo estrutural entre o sistema das implicações conscientes e alguns siste- 
mas de causalidade orgânica, sem recair na alternativa precedente. 

25. Esse isomorfismo da implicação consciente e a causalidade orgânica 
pode ser concebido como um caso particular das correspondências entre a dedu- 
ção e a realidade material que caracterizam todo o circulo das ciências: suponha- 
mos as estruturas lógico-matemáticas postas em isomorfismo suficiente com as 
estruturas orgânicas; depois explicadas causalmente de forma eficaz por uma fisi- 
co-química “generalizada” (como dizia Ch. E. Guye) até englobar o fato bioló- 
gico. Essa físico-química só poderá ela mesma se tornar matemática e dedutiva, se 
apoiando assim, a título de ponto de partida, num ponto de chegada... É na 
perspectiva de tal círculo ou, se preferirmos, de tal espiral se alargando incessan- 
temente que é conveniente situar os problemas das relações entre a vida e o 
pensamento. 


Índice 


BURRHUS FREDERIC SKINNER 


CONTINGÊNCIAS DO REFORÇO ..........ccccccccc 
CAP. O papel-do meio ambientes qu ses na A Sea nd 
Mem dorestimulo e resPosta dr aa nda a ARE A SPA DR AP 
A interpretação do comportamento ....ccccccccccc 
A manipulação do comportamento ........ GRU A PRO 
Nota 1.1 — Algumas contingências de reforço ........cccccccc. 
Nota 1.2 — De “estímulo e resposta” a “Contingência de reforço” 
Cap. VI — Uma análise operante da resolução de problemas ........ 
Contingencias de relorço: sr nte LANCE ME ED SUR do Pd 
Construindo estímulos discriminativos ......ccccccccccccccc 
Transmissão de estímulos construídos .....cccccccccciccccc 
O comportamento solucionador de problemas .......ccccccc. 
Comportamento modelado por contingências versus governado por re- 


RS (OR SM par AR RPM CORTE o EA ER RR Ad RE 
Outros tipos de problemas sas seque GATE farto CUSTE O a Ie des 
Nota 6.1 — Por que se formulam regras? ....ccccccccccc 


Nota 6.2 — A objetividade das regras .......ccccccccccccccs 
Nota 6.3 — Alguns tipos de regras .......cccccccclccccsrco 
Nota 6.4 — Diferenças entre o comportamento governado por regras e 
o comportamento modelado por contingências .......cccccccc. 
CAP. VII — A filogênese e a ontogênese do comportamento ......... 
A proveniência do comportamento .......cccccccicccciccc 
Uma sunidadeidentiicavel ss sas QuLE dE GS SR RN R RES 
A ACAO AO SESTUNNIOS: «dean co STAR O Sora a Te AA A aa 
Oricens-das Variações cara LAS quesia Re LEE AR 8 SN de O 
Contingências ProgramadaS» saia ape ATA ED E TO A 
Contingeências GAVEnhCIAS us anna si oa SARA So a RE rp e O 
Contingências instáveis e intermitentes ....cccccccccccccccc 
Contingências MuLaVéIS usas EE EA EN READ O Opa VR apra 
Contingências multiplas» Luis ssa EE E ERA RR E E 
CONtImBenCias SOCIAIS Etta ARS, CAPES RE O A Apa A DE RR 


424 


Alguns problemas colocados por contingências filogenéticas ....... 63 
Identificando variáveis filogenéticas e ontogenéticas .......cccc.. 66 
Inter-relações entre variáveis filogenéticas e ontogenéticas ......... 70 
Semelhanças entandadoras cs is it Ar Ra ES O RE ma E TE 73 
Nota 7.1 — Natureza ou educação? .......ccccccicc 77 
Nota 7.2 — Comportamento específico da espécie .....cccccci 78 
Nota 7.3 — Inter-relações entre variáveis filogenéticas e ontogenéticas 80 
IVO ld == NO PES SÃO adorno Ra RO ERR CRER AS NR A an ça e E O 84 
Nota 7.5 — Um exemplo possivel de contingências filogenéticas 
programadas. sa DER DS CA Meio is ga O Ra Re a 91 
Car. VIII — Cinquentenário do comportamentalismo ........cccc.. 92 
Eventos: Dublicosse priVAdOS: Ceara e a en E RAE AD Gra 95 
Conteudo CONSCIENTES cursa pts RENAS PERU pap RAR pera 98 
ENIreDOSTOS II entadlS o nica rat ara Mto qa gp a q fd e Ro OR pd 102 
Objeções metodológicas "au mas sa E O ED NE GS SN a 105 
Nota 8.1 — Estímulos privados ......cccccccccccccccc 106 
NolaS:2 SC ORSCIEntiasade Lc se a eis e o RA A ÇA 107 
Nota S.9º == Mente e materias «Md qr qua sb Saga DRDS QU A 109 
Nota 84º Acteoria da Copia. prgu os sai penal as do A a 109 
Nota 8.5 — O comportamento de ver .....ccccccclccc 113 
Nota :8.67 —= "Estações IntermedALIas: Lessa DDR RR OE 114 
INQUArO 4 = SENSAÇÕES agarra pinus Cor RR a DR SUAS OD a DM 115 
Nota 8.8 — A invasão da privacidade .....cccccccccccc 121 
Nota 8.9 — Comportamento e desempenho ......ccccccccc 121 
Nota 8.10 — A geografia da mente .......ccccccccccccccc o 123 
Nota 8.11 — O fim do comportamentalismo .....cccccccccc. 124 


JEAN PIAGET 


A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA ......ccc 127 
INIRO MCT aa aro e ep ot AR A VEDA A O E 129 
Car. I — A Formação dos conhecimentos .....cciciccll 132 
[. Os níveis sensório-motores ...cicccccil 133 
HI. O primeiro nível do pensamento pré-operatório ....cccciiii 136 
HH. O segundo nível pré-operatório ...clciiiiiiii 141 
IV. O primeiro nível do estágio das operações concretas ......c.. 144 
V. O segundo nível das operações concretas ....iicicittt, 150 
Ri. AS operações JOLmais O sea asi in Ro pd E q qa E Dr 153 
Cap. II — As condições orgânicas prévias (biogênese dos conhecimen- 
[685 PARREIRA DCD DI RED oPO DDR ts E 157 
Ff. O empirismo lamarckiano ..ccccccl 157 


II. O inatismo 


HI. Dos instintos à inteligência ..cccccccccccicccs 161 
PR SAS QUIONEBULECÕES sm Aria pras AR NUR A UR A RR SR NE O 163 
Car. III — Retorno aos problemas epistemológicos clássicos ........ 166 
1. Epistemologia da JÓBICA se Ss E ARE To EA Ea AE e e 166 
II. Epistemologia das matemáticas .....cccicciccccccccr 170 
THEE pistemolocid da JISICÃ A é sr perito SP SECAS SO EO ON a a 176 
IV. O construtivismo e a criação de novidades ....cccccccic. 183 
SABEDORIA E ILUSÕES DA FILOSOFIA ......cccccciic 191 
TRIO CAOS der eras Eb caia GRE JRO qt GERE a NR Ed GERAR JO NR 193 
Car. I — Narração e análise de uma desconversão ........ccccc.. 197 
CAR T=""Ciencias erlosolias Essa ut Dr aRo ue RO a O 22] 
Car. NI — O falso ideal de um conhecimento supracientífico ........ 247 
Nota adicional sobre a ontologia e as “insuficiências” da ciência ....2N 
Cap. IV — As ambições da psicologia filosófica .......cccccccc. 276 
Cap. V — Os filósefos e os problemas de fatos ........cccccccc. 304 
CONCLUI OM sia qi quan ae UE ho Sd SUR pr DO RE UR CR GBA Cd 333 
PROBLEMAS DE PSICOLOGIA GENÉTICA ........ccicccc 337 
I — O tempo e o desenvolvimento intelectual da criança ........... 380 
Il — Inconsciente afetivo e inconsciente cognitivo ....ccccccccc.. 354 
O problema das €SITUlurOS cestas dio ais ERP A e Da E Re 354 

A tomada de consciência da ação própria e os recalques cogniti- 
VOS Laerte ateal dos Mc Ca darão, E e Rg E RR CRE 356 
O mecanismo da tomada de consciência ..cccccccccccccic 358 
Catarsece memoria vs ara bau E gs AT RREO QUO ROS Rs AP 359 
O:problena:doscestácios» Tipi ns a anel nad NS Ra SA NNE ap VR 361 

HI — Os estágios do desenvolvimento intelectual da criança e do 
AJOIESCENtes Dano cpa a iRaa do Rin sr ap A a PER AR EA AR NR 363 
O período da inteligência sensório-motor ....cccciscciiiccc 365 

O período de preparação e de organização das operações concretas 
de classes, relações e número ....ccccccicclcccccere ea 366 
O subperíodo das representações pré-operatórias .......ccccccco. 367 
O subperíodo das operações concretas ......ccciiicicccictc 367 
O período das operações formais ...... DDR LAR rr ERR 368 
INS CA PrAMIS IARCTIANÇÃo ui Sd Ena do Cm A USD NR a A dn 370 
V — Percepção, aprendizagem e empirismo .......cccicccccc. 384 
VI — A linguagem e as operações intelectuais ......ccccccccccc. 392 
VII — O que subsiste da teoria da Gestalt .......cccccccccc. 400 
Na psicologia contemporânea da inteligência e da percepção ....... 400 
A Seorra da Inteligene ld: (is serias ERR IE ASR fe E SAIS a 2 cd 491 
A beorta dODerceDÇUO! Ss atra aja Rs DC e RSRS UA 404 


VII — Necessidade e significação das pesquisas comparativas em 


426 


DSICOlOCIASPEN CLICA: sm a sen NE PESAR E SE e TA SE a 408 
Os fatores do desenvolvimento: su spupa npu ais ALA ai ca Da 408 
As pesquisas comparativas no domínio dos processos cognitivos .... 411 
Conclusão: srs sa ss mas pas E AE asp ALA ADA UR a RD 416 
IX — A vida e o pensamento do ponto de vista da psicologia experi- 
mental e da epistemologia genética .......ccccccicccccccc 418 
Do ponto de vista da psicologia experimental e da epistemologia 
DOMENICO Sin NEON RN RD A GR PA pe RR a a 418 
As interações funcionais entre o organismo eo meio .....ccccc... 418 
SP ESIPULUT OS: nn is as a SaaSe TRE qro CORRA, ao a Rea e GENO ST O 420 
O paralelismo ou o isomorfismo psico-fisiológico ........ccccc. 421 


Este livro integra a coleção 
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 
Composto e impresso nas oficinas da 
AbrilS.A. Cultural e Industrial, caixa postal 2372, São Paulo